sábado, 23 de abril de 2011

Guilhermina da Silva Oliveira Neves Cabral

Em 'As duas comadres', da peça 'Sonho do Cavador' - 1928




Natural de Tavarede, filha de Gentil da Silva Ribeiro e de Emília Coelho de Oliveira, nasceu no ano de 1911. Casou, em primeiras núpcias, com João Nunes e, enviuvando, fez segundo casamento com o Eng. Henrique Neves de Cabral, tendo uma filha, Manuela. Faleceu a 26 de Maio de 2001.

Começou a participar no grupo cénico da SIT em 1924, na opereta Noite de S. João, e até 1937, ano em que abandonou a actividade teatral, entrou em diversas peças como Grão-Ducado de Tavarede, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Noite de Agoiro, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, As tês gerações, Canção do Berço, O Grande Industrial, etc.

Sócia honorária da colectividade em 1929.

Seu marido, Engº. Neves Cabral (1891-1968), também prestou relevantes serviços a esta associação, que, em 1933, lhe concedeu o diploma de sócio honorário.

Caderno: Tavaredenses com história

Manuel de Oliveira (Támau)

Tocando viola num cortejo na Figueira



Natural de Tavarede, filho de Sebastião de Oliveira e de Carlota Vaz dos Santos, Casou com Maria Silva Oliveira e teve três filhos, Helena, Joaquim e Adelino. Morreu em Maio de 1964, com a idade de 72 anos.


Pedreiro de profissão, era vulgarmente conhecido em Tavarede como “Manel Estámau”.
Foi um dos fundadores do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, em Agosto de 1911, ao qual deu a sua colaboração como músico, tocando violão na Tuna. Também o fez, na fantasia “Chá de Limonete”, tocando na tuna que recriava o Rancho dos Potes Floridos do Primeiro de Maio.


Sócio honorário do Grupo Musical em 1937.



Caderno: Tavaredenses com história

Rui Fernandes Martins

Nasceu em Souto, Penedono, no dia 13 de Novembro de 1903, e morreu, na Figueira da Foz, em 5 de Junho de 1974.


“… destacada figura do professorado primário e jornalista vigoroso, sempre fiel ao ideário político a que, muito jovem ainda, se dedicou.


Com 17 anos de idade, obteve o diploma de professor da Escola Normal de Coimbra, com a mais alta classificação do seu curso. Começou por exercer a sua profissão nas regiões de Mortágua, Santa Comba Dão e Arganil, de onde veio, há mais de 40 anos, para a freguesia de Brenha. Depois de passar, também, pela Escola Primária de Tavarede, fixou-se definitivamente na Escola Conde de Ferreira, onde leccionou durante mais de 30 anos.


Paralelamente com a sua actividade de professor, foi elemento preponderante da União dos Professores Primários, revelando-se nos respectivos congressos como um orador entusiasta e intemerato defensor dos mais avançados métodos de ensino, incluindo a escola mista, quase um sacrilégio para a época.


Colaborou em dezenas de jornais portugueses e brasileiros. Deixou publicados: “O esforço português nos descobrimentos, nas conquistas e na colonização”; “Gomes Leal – Breve evocação da sua obra”; “Exortação à mocidade”; “António Aleixo e Calafate – dois poetas do povo”; “A liberdade e os humildes na obra de Eça de Queirós”.


Foi elemento relevante no movimento associativo do concelho, aceitou, por exclusiva intervenção dos seus antigos alunos, a “Ordem de Instrução Pública”, tendo sido também distinguido com a “medalha de Ouro”, de mérito, da Federação das Colectividades de Instrução e Recreio”.


Foi casado com Margarida Gil de Castro, tendo dois filhos, Rui Manuel e José Alberto.


Dedicado de alma e coração ao movimento associativo local foi, durante largos anos, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Boa União Alhadense, da Sociedade de Instrução Tavaredense, do Sporting Clube Figueirense e da Troupe Recreativa Brenhense e presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz.


Na colectividade tavaredense desempenhou sempre uma actividade muito importante, nomeadamente para as obras de reconstrução e remodelação do edifício da sede, inauguradas em 1965, de que foi um dos mais entusiastas elementos.


Caderno: Tavaredenses com história

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Tavarede e a Religião


“... fazemos carta de doação a ti João Gondesindiz do logar de S. Martinho na villa de Tavarede...”




É aqui que aparece, pela primeira vez, o nome de Tavarede “logar de S. Martinho”.





Sabe-se que “a igreja de S. Martinho de Tavarede já existia no século XI, sendo possível, até, que fosse muito anterior (o santo turonense é das mais remotas devoções hispânicas) e tivesse sido destruída pelos mouros e despovoado o seu aro, já que o foi a sua vizinha, de S. Julião da foz do Mondego. O não existir para ela um documento que o diga como há para aquela não prova o contrário, pois podia ter-se perdido, se alguém se ocupava de assinalar o facto”. (Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira).





Na resposta ao inquérito paroquial de 1721 diz-se: “Nesta Igrª. da Freguezia de S. Martinho do Couto de Tavarede Bispado de Coimbra; se achai hum Letereiro posto na Pia da Agoa Benta na porta travessa da mesma Igrª. feito na hera de 1213 annos, que parese ser feita a dita; E litereiro nos principios, que se fes a dita Igrª... Está nesta Igrª. a Reliquia do Sancto Lenho autenticada pello Illmo. Bispo D. An.to de VasConcellos...”





Nas Memórias Paroquiais de 1758, respondendo à pergunta: qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que Santos, quantas naves tem...” o pároco respondeu: “Seu orago he S. Martinho Bispo, tem seis altares que são o do orago, o do Santissimo Sacramento, o de Nossa Senhora do Rozario, o de Jesus, o de Martir São Sebastião, e do Senhor das Almas, não tem naves, e só tem huma irmandade do Santissimo Sacramento.





Ainda relativamente à igreja, conta Ernesto Fernandes Thomaz, no seu trabalho Recordações de Tavarede:





A egreja de Tavarede, na sua architectura acanhada e ornatos architectonicos ressentidos do cunho das construcções jesuiticas, é, como todos os outros edifícios, um exemplar dos da época quinhentista. Obedecendo ás pragmáticas e mandados dos frades cruzios, então n’esse caso dominantes, mostra-nos, em um edifício, o obrigativo das suas regras, o seu sello de auctoridade, isto como em tudo que os tivesse de authenticar. Nada sabemos da época precisa da sua fundação.



Um pouco mais adiante, escreve: Devido á obsequiosidade do sr. João Santos, de que já algures fallámos, veio-nos á mão a copia d’uma inscripção que existe no côro da egreja de Tavarede e que reproduzimos:

C O 13
V M

Salvo melhor interpretação cremos que diz: coração de Maria, anno 1:300.



Será esta a era da fundação da egreja, ou a de alguma reconstrucção posterior? Inclinamo-nos mais á segunda das supposições; porque não nos parece plausivel que uma povoação antiquissima de que reza a historia corva da monarchia, estivesse sem um templo religioso até dois seculos depois da sua fundação e demais, em tempo em que a egreja cathequisando e talando montes e valles a espalhar as suas doutrinas em combate ás infieis, não perderia um momento em alçar um campanario aonde houvesse uma lareira - um povo a chamar aos seus reditos.



Em 1565 chegou a Tavarede o pintor Diogo Botelho, afim de pintar o retábulo da igreja de S. Martinho, e no ano de 1600 esta igreja foi tratada por artistas de Coimbra para salvaguardar a decadência da sua capela-mor.



Numa placa, na parede frontal, está gravado: “esta igreja foi mandada construir pelo cabido da Sé de Coimbra com a participação do povo no ano de 1600”. Terá sido mais uma reconstrução.





Mas quem foi S. Martinho que foi escolhido para orago da freguesia?

“Bispo de Tours (actual Szambatkely, Hungria, 316 ou 317 - Candes, França, 8.11.397).
Filho de um oficial do exército romano e nascido num posto militar fronteiriço, após estudos humanísticos, em Pavia, aos 15 anos entrou para o exército quando já a sua vontade o inclinava a fazer-se monge (aos 10 anos inscrevera-se como catecúmeno).
Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna no rigor do inverno encontrou um pobre seminu: não tendo à mão dinheiro para lhe valer, com a espada dividiu ao meio a sua clâmide que repartiu com o desconhecido. Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus, que disse: “Martinho, apesar de somente catecúmeno, cobriu-me com a sua capa”.
Recebeu a baptismo na Páscoa de 339, continuando como oficial da guarda imperial até aos 40 anos. Abandonando a vida castrense, foi ter com Santo Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras e lhe deu possibilidade de levar vida monacal: nasceu, assim, o famoso Mosteiro de Ligugé.
Em breve ganhou fama de taumaturgo. Eleito, por aclamação, bispo de Tours, foi sagrado provavelmente a 4.7.371.
Ardente propagador de fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde saíram notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização. Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil.
O fascínio das suas virtudes radicadas na generosidade do seu zelo, na nobreza do ser carácter e, sobretudo, na bondade ilimitada mantida para além da morte na prodigalidade dos seus milagres, magnificamente descritas pelo seu discípulo Sulpício Severo, fez com que São Martinho de Tours fosse durante muitos séculos o santo mais popular da Europa Ocidental.
A sua memória litúrgica é a 11 de Novembro”.(Grande Enciclopédia Luso Brasileira da Verbo).

O episódio da capa é popularmente narrado na seguinte versão:

Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.
Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.
Este, cheio de fome, entrou n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando podesse.
O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.
Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo.(Gazeta da Figueira - 9.Novembro.1907)

No dicionário Focus, encontra-se a seguinte alusão ao santo:

“Como o dia de Todos-os-Santos, é também uma ocasião de magusto, e que parece relacioná-lo originariamente com o culto dos mortos. Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com “procissões de bêbados” de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos, em versão bàquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente, e são a glorificação das figuras mais notadas da bebedice local, constituidas em burlescas “irmandades”, por vezes uma de homens e outra das mulheres; em alguns casos a celebração fracciona-se em dois dias: o de S. Martinho para os homens, e o de Santa Bebiana para as mulheres (Beira Baixa). As pessoas dão aos festeiros vinho e castanhas. O S. Martinho é também ocasião de matança do porco”.

Também queremos aqui incluir outra lenda sobre o nosso Santo :

A lenda do verão de São Martinho

Resa assim a lenda:
No alto de uma montanha agreste, despovoada e nua, vivia um monge miseravelmente... Alimentava-se de raizes, mortificava-se de jejuns e só de raro em raro descia às aldeias a mendigar... Um ano, porém, o inverno veio cedo, e os primeiros dias de Novembro foram de temporaes pegados, bramiam ventos uivando pelas penedias, rugiam coleras de raios as tempestades, urravam medonhamente os temporaes!...
Chuvas cantarejavam ás enxurradas, e a neve, como um lençol imenso de linho purissimo cobria tudo...
Entrou então a fome e o frio na choupana humilde de Martinho, e o pobre monge, acoçado pela inverneira, resignou-se a vir ao povoado pedir uma codea de pão que o alimentasse e uma acha de lenha que o aquecesse...
E embrulhando-se n’um farrapo esburacado, que era o seu unico manto, arrimou-se ao bordão, e pôz pés ao caminho...
Entresilhado de frio, tiritando, atravessava o bom do monge uma leiva em poisio, quando topou, desmaiado na neve, um caminhante velho, rôto e descalço como ele...
Condoeu-se, e tirando das costas o migalho de pano, todo de remendos, embrulhou n’ele o desgraçado...
Dos ceus, Deus, que tudo mira c’o seu olhar onipotente, sorriu...: e chamando o sol que beijava a lua sob a protéção das nuvens, mandou aproximar o Destino e escreveu no seu livro azul com letras d’oiro: -”Que todos os anos, por estes dias, o sol aqueça os que teem frio...”
O sol doirou a terra, nos roseiraes abriram-se botões de rosas, cravos exangues mostraram a chaga rubra da sua côr, trinaram rouxinoes, cantaram cotovias, assobiaram melros, voltaram andorinhas...
... E foi assim que nasceu o verão de S. Martinho!...(A Voz da Justiça - 13.Novembro.1914)

Acabam-se estas considerações do santo patrono de Tavarede com a seguinte ladainha encontrada no jornal “Gazeta da Figueira”, de 12 de Novembro de 1902:


Viva S. Martinho...
Reine a santa frescata... e chova vinho...
Ajoelhemos, tirando a barretina,
Ante o Santo que a todos nós domina.
Juremos, pondo a mão sobre o barril,
De fazer das guelas um funil
Quando o vinho corra... Viva! Viva
S. Martinho qu’os bebedores captiva!...
* * *




Perto da igreja, na rua de cima, encontra-se uma antiga capela chamada de Santo Aleixo.





Segundo a tradição, pertencia ao cabido da Sé de Coimbra e servia de hospício e acolhimento aos peregrinos. Com o correr dos anos, a capela foi-se degradando de forma a que, nos finais do século passado, restavam dela as quatro paredes “que formam o rectangulo em superficie e tem ainda a porta sobrejudada por uma pequenissima janela; lá dentro uma vegetação robusta e espessa de silvas, crescendo e elevando-se acima da altura das paredes circumdantes ao recinto”.





Antes de construído o cemitério da freguesia no caminho para o Saltadouro, em 1875, os enterramentos dos falecidos eram feitos na igreja e na capela de Santo Aleixo.





No inquérito paroquial de 1721, o pároco da freguesia, relativamente a esta capela, escreveu:
“Ha outra hermida de Sancto Aleixo, na qual tem os Freguezes hûa Irmandade para se enterrarem e he mto. antigua, que se lhe não sabe prinçipio, E tem hum hospital, pª. agazalhar os perigrinos, e pobres, que he do pouo”.



Presentemente, o edifício encontra-se totalmente remodelado e ao serviço da igreja.





Queem foi, em vida, o santo que deu o nome a esta capela? No dicionário “Focus” encontra-se o seguinte:
“Aleixo - Santo - Asceta que, entre 412 e 435, teria vivido como mendigo anónimo em Edessa. Depois da morte descobriu-se que era de família senatorial romana. Na primitiva narrativa siríaca, elaborada 50 anos após os factos, se inspirou a lenda grega e, mais tarde, a lenda latina.Segundo esta, Aleixo abandonou secretamente a casa paterna na noite de núpcias e dirigiu-se a Edessa. Decorridos 17 anos, revelou-se a santidade do mendigo. Aleixo então regressou a Roma, apresentou-se na casa dos pais como pedinte e, sem que fosse reconhecido, aí viveu outros 17 anos. Junto do corpo do defunto encontrou-se um escrito que o identificava. O seu culto tornou-se muito popular na Alta Idade Média”.

* * *
Ainda existente, e muito bem conservada, pois foi há relativamente pouco tempo reparada e caiada, encontra-se a capela de S. Paio.



Em “Recordações de Tavarede”, obra já citada e de que nos socorremos bastantes vezes para alinhavar este capítulo, descreve-se assim:
“Para o nordeste da povoação, a perto de quatro kilometros, e na proximidade do regato que corre ao fundo do Valle de Sampaio ou de S. Paio, existiu em tempo uma capellita com a invocação do Santo que deu o nome ao valle. Pequena, acanhadinha, abrigava o santo a quem os visinhos dedicavam extremosa devoção. Sampaio ou S. Paio, era remedio infalivel para a cura de varios achaques, especialisando - o desapparecimento rapido das verrugas d’aquelles a que a elle recorriam com a necessaria fé. N’uma ribanceira, erma, lá estava o santinho solitario, posto n’um terreno pertencente aos frades cruzios de Coimbra.
O tempo foi fazendo dos seus fregueses uns descrentes desleixados, e a capella foi-se arruinando a pouco e pouco até deixar apenas o vestigio de alicerces.
Tendo sido comprada mais tarde a propriedade pelo fallecido sr. Caetano Gaspar Pestana, d’esta cidade, mandou este, obedecendo a uma obrigação antiga escripturada, levantar de novo a capella e refazer o santo.
S. Paio, era e é de pedra, e andando por uma adega da propriedade a servir, profanamente, de calço a pipas, foi-se aos poucos deteriorando, até que, o sr. Pestana, o mandou concertar collocando-o em seguida na capella em que hoje é venerado.

Pertence hoje a capella e terra circumjacente a António Monteiro, canteiro de Quiaios.



Ha coisa de quatro annos ainda lá foi feita festa ao santo pelo povo da freguesia”



Tem esta capela para nós especial significado. Todos os anos, no primeiro domingo de Julho, fizesse sol ou chovesse, era dia de peregrinação da família até lá, para cumprimento de uma promessa de meu Pai. Por acharmos interessante, na parte “Costumes e tradições”, inserimos uma despretenciosa descrição desta festa, pois, para nós, era um dia de verdadeira festa.



Deveria, esta capela e este santo, ter bastantes devotos em Tavarede. No ano de 1564 o Cabido da Sé de Coimbra enviou uma carta de confirmação para haver licença de bôdo, junto à ermida de São Paio, no Couto de Tavarede.



E... quem foi S. Paio. Aqui tivémos uma surpresa. Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, é esta a história do santo deste nome:

“Pelágio ou Paio (S.) - Mártir; festa litúrgica na diocese de Coimbra, a 26 de Junho. Era, ao que parece, originário de Tui. Tendo ficado cativo na batalha de Val de Junquera seu tio Hermoíglo, bispo de Tui, foi o jovem Pelágio, que contava apenas 10 anos de idade, dado em reféns pela sua libertação. Enviado para Córdova, esteve encarcerado três anos, ao fim dos quais foi martirizado por ordem de Abderramão III. As actas do martírio foram escritas por um presbítero chamado Ragnel, pouco depois do acontecimento.Aí se diz que o menino passava o tempo na prisão lendo as “Escrituras” e conversando com outros cristãos cativos ou que iam visitá-lo. Um dia foram ao cárcere uns ministros de Abderramão que, encantados pela sua beleza, falaram nele ao califa. Mandou este que o levassem à sua presença e tentou convertê-lo às práticas muçulmanas e atraí-lo a actos desonestos. Como o menino resistisse, mandou-o matar. Os algozes cortaram-no aos pedaços, ainda vivo, em horroroso suplício que durou três horas, das 11,30 h. da manhã às 2,30 h. da tarde, no domingo 25.VI.925. Os cristãos de Córdova recolheram as relíquias, colocando a cabeça na igreja de S. Cipriano e o resto na de S. Gens. A fama do martírio espalhou-se rapidamente por toda a Península e em breve ultrapassou as fronteiras. Pelo ano de 960, uma poetisa, de origem saxónica, chamada Rowinta, consagrou-lhe uma composição em versos latinos. O culto de S. Paio tornou-se muito popular em Portugal, passados poucos anos depois do seu martírio. Há umas sessenta e cinco igrejas paroquiais que o têm como titular”.

Mas, a imagem que representa o santo na capela não é, de forma alguma, o de um menino de treze anos! Já homem de idade e com cerrada barba preta, não nos parece representar este santo.

No “Focus” aparece um Pelágio, ou Paio, como tendo sido: “Monge irlandês que, tendo ido para Roma por volta do ano 400, entrou em controvérsias com Santo Agostinho a respeito da doutrina sobre o pecado original”. No “Lello Universal, a descrição deste Pelágio é: “heresiarca bretão (360-449). Relacionou-se com Santo Agostinho e foi fundador do pelagianismo, doutrina que atribuía, na questão da graça, uma parte escessiva à liberdade humana”.



Não nos parece este Pelágio como o S. Paio de Tavarede. Mas ainda temos outra hipótese: “Pelágio ou Paio (Frei) Primeiro prior do convento de S. Domingos, de Coimbra. Os cronistas dominicanos tratam-no por santo, mas da sua vida nada contam de concreto. Alguns supõem-no falecido cerca do ano de 1240, enquanto Frei Luis de Sousa prefere a data de 1257”.


Apesar de tudo, inclinamo-nos que, quando os frades crúzios mandaram construir a capela e a dedicaram ao S. Paio, seria ao primeiro, ao menino martirizado em Córdova. A imagem não corresponderá à realidade ou, aquando da sua reconstrução, após descoberta na adega da quinta, terá sido deturpada ou substituída a imagem anterior.

* * *
Outras capelas existiram em Tavarede, como locais de culto e muita devoção.



Na Informação Paroquial de Tavarede, de 1721, diz-se existiram mais:

“...Ha nesta Freguezia huma hermida na Entrada da terra da parte do Oriente do S.or Cruçificado, posto em huma Coluna, que fes Frz. Arnaut, e sua Molher Catherina Frz. e he hoje Fabricario della, M.el Frz. Miranda. Esta fechada.



Ha Outra Cappella En Casa de Pº. Lopes de quadros, E souza Fidalgo Comendador da Ordem de Christo; Ereta por bulla de Roma, que foi Juis della o Illmº. Bispo de Leiria, Como Consta das Liçinssas que estam no Cartorio da mesma Caza que he sua.



Estaua antiguamente hum Nicho com S.or Cruçificado, no fim da terra pª. a parte do Oçidente, que Reprezentaua ser mtº. antiguo; que hoje esta Fechado Com porta, e Con toda a deçensia; que tem obrado M.tos milagres; E uaj obrando; Suando a sua Sancta Imagem, e a Coluna em que esta posto, Como se tem uisto Certos dias.



Ha outra Irmida de Nossa Senhora da Esperança, pª. a mesma parte Oçidental que tambem tem feito m.tos milagres, e fas Como se acham na sua Sancta Caza, e he do pouo; ha de ssima do S.or he Fabricario, e fundador de hoie pella fazer Antº. Gomes Mascarenhas.



Ha Outra Cappela na mesma parte Oçidental desta mesma freguezia de S. João bautista Fechada que foi instetuidor João de quadros Clerigo, e hoie sam instetuoidores os herd.os do D.or Duarte Ribrº. que assistio em Villa Verde Bispado de Coimbra...”.



Nas “Memórias Paroquiais de 1758”, O cura Anacleto Pinto, diz que a paróquia tem “tres ermidas, da Senhora da Chaã, fora da Parrochia, do Senhor dos Milagres ou Arieira, contigua à mesma terra; de Santo Aleixo, dentro da Parrochia, digo, da terra”.

Continuando a utilizar as “Recordações de Tavarede”, fômos lá rebuscar:

“...Chegados a este ponto é occasião de fallarmos da existencia d’uma pequena capella, que demorava a uns cinco minutos da egreja, no antigo caminho da Chan de que já fallámos. Não teria mais de quatro metros de comprido por dois de largo, estando quasi de todo em ruinas, na epocha em que a vimos, 1864.



Restavam d’ella sobre o lado norte da estrada, alguns metros acima, a parede de traz, com a respectiva empena, a que estava ligada uma pedra que havia servido de altar, e as paredes lateraes e da frente, dessiminadas em escombros. Era conhecida pela denominação - do Senhor da Chan.

Se estava em ruínas a verdade é que, na “Gazeta da Figueira” de 25 de Agosto de 1923, se anunciava: “É amanhã que tem logar no Senhor da Chã, desta freguezia, o rancho de descantes populares a que, por vezes, nos temos referido. É de esperar farta concorrência, devido ao logar ficar muito proximo desta localidade”.

Não encontrámos mais nada, desconhecendo, até, a localização exacta da capela.

“...recorda-nos uma outra, que existiu, tambem para o lado poente de Tavarede. Era situada no cruzamento do caminho directo d’esta cidade aos Condados, e que d’aquelle que vae de Tavarede a Buarcos, proximo da quinta de Luiz Antonio de Sousa e a uns quatrocentos metros para o lado do poente de Tavarede.



Existiu sob a invocação do Senhor da Arieira ou do Arieiro, naturalmente por ser edificada em um logar aonde o povo ia extrahir areia ou saibro para construcção de alvenarias. Em 186.. só existiam d’ella, no local, uns restos de alicerces e algumas pedras apparelhadas, soltas. Mais nada.



Contava-se na povoação que havia sido interdicta e depois demolida em virtude d’um sacrilegio commetido: Um desvairado qualquer foi em uma noite pendurar em enxalavar de carangueijos sobre uma cruz que lá existia, profanando assim aquelle logar sagrado, e d’ahi a interdicção.



O povo de Tavarede attribuiu o sacrilegio a algum pescador de Buarcos.



Ao certo nada sabemos d’esta narrativa, contentando-nos apenas da dicção da tradicção como era contada entre o povo das proximidades da capella...”.

Foi assim que nas “Recordações de Tavarede”, se descreveu a capela do Senhor (ou Senhora) da Arieira, também conhecida por Senhor dos Milagres.



Relativamente a este santo, encontrámos a seguinte notícia: “...referindo-se à imagem do Senhor d’Arieira disse mais o sr. vigário que, se effectivamente ela estava exposta no cemitério occidental d’essa cidade, fôra para lá por algum tempo, voltando para Tavarede logo que isso fôsse exigido. E agora, visto que se vae tratar d’acabar a capella do nosso cemitério, e que é para ali que o Senhor d’Arieira está destinado, elle viria imediatamente da Figueira...” (Gazeta da Figueira, 22.Novembro.1899).



Igualmente temos notícias de outra outra capela, de acanhadas dimensões, edificada pelo sr. Francisco Affonso Dias, quando veio do Brasil, situada no caminho que segue dos Quatro Caminhos para a serra da Boa Viagem, na proximidade do palacete dos Condados. Era devotada a S. Francisco e a Santa Ana.


A capela de S. João Batista, falada na “Informação Paroquial de 1721”, deveria ser situada no local posteriormente chamado Alto de S. João, hoje urbanização do Alto de S. João.



Falta-nos falar um pouco da capela de Nossa Senhora da Esperança, num convento de recolhidas com o mesmo nome.

“... No livro de cizas do couto de Tavarede, descreveu Leonor Migueis esta marinha com o nome de “Esperança”, que parece palavra simbolica nesta família: a avó chamou Esperança à propriedade que adquiriu; a mãe deu o nome de Esperança ao recolhimento que fundou.




A um kilometro aproximadamente para o norte do convento de Santo António, no alto de S. João, pelo nascente da estrada de Tavarede e Figueira e dentro da propriedade que hoje pertence a José Joaquim Alves Fernandes, existia, no século 18º. outro edifício religioso: era o recolhimento de N. Senhora da Esperança.



A sua fundação datava do século anterior. No testamento de Fernão Gomes de Quadros, feito em 1665, foi deixada a esmola de 2$000 réis a N. S. da Esperança, para as suas obras, o que indica que o edifício do recolhimento estaria então a construir-se.



Compunha-se o edifício de casa em que habitavam as recolhidas e de uma capela...(Materiais para a História da Figueira - Santos Rocha).



D. Catharina Rosana, filha de D. Leonor Migueis, mandou construir esta capela a que deu o nome de sua filha, Esperança, que, entretanto morrera jovem. Do recolhimento e da capela já nada existia nos finais do século passado.

Terminamos este capítulo sobre a religião na nossa terra com um resumo, que nalgums casos repete o atrás escrito, mas que nos parece importante aqui deixar e que tem o título de “Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra”, (nos livros manuscritos do dr. Mesquita de Figueiredo).

A igreja de Sam Martinho do Couto de Tavarede, curato anual, e anexo da igreja de Sam Pedro de Buarcos. Há nesta freguezia huã ermida do Senhor Crucificado posto em huma coluna que instituio Domingos Fernandes Arnaut e sua mulher Catherina Fernandes, de que hoje he administrador Manuel Fernandes de Miranda.



Ha outra ermida de Santo Aleixo na qual tem os freguezes huma irmandade para se enterrarem, e tem hum hospital para agazalhar os peregrinos e pobres, que he do Povo. Ha outra capella em caza de Pedro Lopes de Quadros e Souza, Fidalgo Comendador da ordem de Christo, erecta por bula de Roma de que foy juiz o Illustrissimo Bispo de Leyria. Havia antigamente hum nicho nesta freguezia para a parte do Occidente com o Sor. Crucificado que reprezentava ser muito antigo e hoje se acha fechado com porta, com toda a decencia que tem obrado, e obra muitos milagres quando a sua imagem e a coluna em que está sua como se tem visto em muitas occaziões. Há outra ermida de N. Sª. da Esperança que tambem faz muitos milagres e he do Povo.



Ha outra capella na mesma parte occidental de Sam João Baptista de que foy Instituidor o Padre João de Quadros de que hoje são administradores os herdeiros do Dr. Dm.os Duarte Ribeyro. Nesta Igreja ha huma reliquia do Santo Lenho authenticada pelo Illmo. D. Antonio de Vasconcellos e Souza. Tem esta freguezia 425 pessoas de Sacramento. Ha um hospital para pobres de cuja fundação não há tradição.



Ha nesta freguezia hum livro de Batizados, Cazados e Defuntos que principiou no anno de 1684 que de prezente serve.

* * * * *
Achase na Igreja do dito Couto uma pia de agua benta da porta travessa perto hum letreiro feito na era de 1213 annos.



Há na dita Igreja de portas adentro 6 capellas das quais a maior e principal he do Cabido da See de Coimbra senhoria da mesma terra; as capellas do Senhor e de N. Sª. do Rosario e de Jesus e de Sam Sebastião são do Povo; a capella das Almas instituio Apolonia d’Azambuja e sua irmã Maria d’Azambuja por ordem do Illmo. D. João de Mello Bº. conde de Coimbra, da qual he administrador Miguel Rodrigues Couto.



Há nesta freguezia hua hermida de Santo Aleixo que he do Povo e tem sua Irmandade e he tam antiga que se não sabe o seu principio. Há neste Couto huma capella da invocação do Senhor dos Milagres da Arieira, que ha pouco se instituio por Antonio Gomes Mascarenhas que a administra.



Há outra capella distante dous passeios, aonde chamam o Senhor da Chã, que administra Manuel Fernandes Miranda. Há outra capella de N. Sª. da Esperança que está na mesma distancia. Há outra capella no mesmo sitio chamada Sam João, de que são administradores os herdeiros de Domingos Duarte Ribeiro.




Há outra capella de Santiago, distante deste povo hum quarto de legua que administra Manuel Carvalho.



Nesta igreja de São Martinho do Couto de Tavarede ha alguas sepulturas, huãs dentro da capella mor, digo de fronte da capella mor, que parece segundo sua antiguidade ter armas reais; outra he de letra gothica feita em pedaços, que já se não pode ler, e outra de Miguel da Cruz e de Martinho da Cruz, e outra que não tem mais que huas armas e senão sabe de quem seja, sem seus herdeiros.


Livro: Tavarede - Terra de meus avós 1º.

sábado, 16 de abril de 2011

ASCENÇÃO E PRIMEIRO DE MAIO

QUINTA FEIRA DE ASCENÇÃO


Pela tradição do costume foram ranchos de pessoas pela fresca manhã de quinta-feira d’Ascenção colher ás cearas raminhos de espigas de trigo e ramadinhas d’oliveira para que o anno corrente seja prospero e feliz. Grupos de raparigas entoavam canções alegres fazendo um maravilhoso conjunto com os seus maviosos trinados dos rouxinoes e d’outros passarinhos que saltitavam nas ramadas das floridas arvores do campo.

Á tarde merendaram muitas pessoas á sombra saudavel de pinheiros e um rancho de raparigas, acompanhado d’um grupo musical, foram ás Caldas d’Amieira, dançando ali e regressando a Tavarede á noitinha. Ao Bussaco tambem foi bastante gente d’aqui. (Gazeta da Figueira)


1º DE MAIO


Sim, minha amiga, póde chamar-lh’o, é um costume feliz da minha terra. Sempre assim foi acolhido aqui o primeiro dia de Maio, entre risos e cantares, na folga d’umas danças vermelhas, junto á fonte d’agua clara da varzea de Tavarede.

...Este uso lindo que tanto a maravilhou e tanto a seduziu, é um velho uso que vem de muito longe. Teria, a minha deliciosa amiga, de volver os olhos para os luminosos tempos do paganismo, se a sua curiosidade irrequieta e nervosa lhe quizesse conhecer a origem. Era-lhe preciso evocar um quieto e calmo canto do socegado Lacio. Seria n’uma azulada paysagem d’ecloga. D’entre arvoredos longos, ver-se-ia surgir a cabeça velha de Pan, seguida da montada madraça de Silêno. Rondas de Nimphas, ligeiras como azas, bailariam dançares de belleza e graça n’algum tranquillo valle. Por bosques de loureiros, em florestas de platanos, por rentes de araucarias e romanzeiras em flôr, olhos vivos de Satyros espreitariam cubiçosos, carnes perfeitas de Deusas confiadas. Faunos, caprinos, hirsutos, cornicabros, pulariam pela macieza dôce dos pomares. E Venus, coroada de rosas, á frente d’uma procissão lasciva e devota da sua côrte suprema viria, ao som lento de citharas d’oiro, proclamar a chegada do Amor e da Primavera...

...Deve ter sido assim o inicial começo d’este costume feliz da minha terra...

E pela conta dos annos, sempre que chegado é o feliz dia d’hontem, se formam n’aquella estrada calma, junto á fonte d’agua clara da varzea, por entre os campos ferteis e humidos de Tavarede, as rodas largas de namorados que a minha excellente amiga encantadamente viu... N’uma viola, em violões floridos e afestoados de fitas, alguem faz vibrar, zangarrear as notas vermelhas e fortes do Vira. Vozes limpidas de raparigas, atiram ao alto, ao vasto ar perfumado a cravos, limpidas cantigas de Amor e Desvario. E no sacudido, no lesto farandoral da dança rubra, enquanto no ar volteiam petalas de rosas e tilintam sonoras risadas de crystal, corpos juntam-se, mãos enclavinham-se, boccas approximam-se, e é assim, - como os seus lindos olhos deslumbrados viram, - que a gente moça da minha terra festeja e acolhe a primeira alvorada de Maio florido, o mez das Rosas e do Amor!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Limonete


Arbusto muito aromático.

Nome vulgar da “Lippia Cítriodora”, arbusto da família das verbenácias, tribo das verbenas, verde papilhoso - áspero, com aroma lembrando o da lima, de folhas ternadas ou quartenadas, com pecíolo curto, lanceoladas, agudas, inteiras; flores ternadas ou binadas, dispostas em espigas frouxas verticiladas, formando panícula piramidal eneos e cálices puberulento - pubescentes; cálice subbilabiado e corola esbranquiçada. Originária da América do Sul é cultivada nos jardins de Portugal e conhecida também pelos nomes de lúcia - lima, bela luísa, doce - lima, verbena e na ilha da Madeira pelo de pecegueiro - inglês.(Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura) Segundo a descrição acima, o limonete é originário da América do Sul. Mas, com a fantasia que o teatro permite, na peça “Em busca da lúcia-lima”, diz-se: “arbusto verbanáceo, de perfume agradável e intenso, vegetando bem nos terrenos frescos. Foi importado do Malabar em 1502 pelo capitão-mór D. Sancho Fagundes de Encerrabodes, que residiu em Tavarede há mais de trez séculos. Serve para dar cheiro aos bahus de roupa e é muito uzado para fazer ramos nas burricadas de Buarcos. Há quem dele faça chá contra as prisões de ventre”...

Da América do Sul ou das costas do Malabar, na India, talvez até das duas regiões, a verdade é que o arbusto encontrou na nossa terra as condições ideais de propagação.

Como curiosidade, aqui deixamos como se cantava o limonete naquela peça:

Coro


Das plantas que tem a aldeia

Outra não há de mais gala;

E em noites de lua cheia

Tem um cheiro que regala.


Quem fizer um ramalhete

Para dar à sua amada

Se el’ não tiver limonete

É coisa desconsolada.


Uma voz


Nas burricadas lusidas

Da festa de S. João

Trazem as moças garridas

Um grande ramo na mão.



Coro


O limonete caseiro

É talvez neto da lima...

Quem quiser sentir-lhe o cheiro

Basta pôr-lhe a mão por cima.


Se uma donzela travessa

Quer-se com ele enfeitar

Com três folhas na cabeça

Fica bonita a matar.


Uma voz


Eu não sei de flor mais bela

De quantas há no jardim.

Anda sempre na lapela

De quem suspira por mim.


Coro


Veio das matas frondosas

Da costa do Malabar

Para as donzelas vaidosas

Cheirarem bem ao seu par.


Mas isto é pouco para descrever a história do limonete na nossa terra que tem, até, o nome de Terra do Limonete... Agora, já nem tanto, mas, antigamente, em todos os recantos ajardinados que os tavaredenses tratavam, junto de suas casas, ou nas terras que amanhavam com o maior carinho, abundava com fartura o arbusto. É credível que, há umas dezenas de anos, quando a aldeia ainda estava liberta da poluição que agora tudo invade, nas noites quentes do verão o perfume do limonete se sentisse, com agrado, por toda a aldeia.

Há, também, uma lenda, linda como todas as lendas. A lenda da moira encantada, como, aliás, não podia deixar de ser.

Conta-se que aquando do cêrco do Castelo de Montemór-o-Velho pelos muçulmanos, a quem tinha sido tomado, no ano de 848, pelo rei de Leão, Ramiro I, e depois deste ter entregue o governo do castelo ao Abade D. João de Montemor (famoso abade do Mosteiro do Lorvão, que ficou célebre pelas suas vitórias sobre os moiros), quando já os sitiantes julgavam que o castelo se iria render, brevemente, pela fome, eis que o referido abade saíu do castelo com a gente de que dispunha e, travando batalha, conseguiu vencer e repelir os muçulmanos, perseguindo-os até Seiça.

Um dos chefes moiros, que detinha o poder do encantamento, temeroso que as suas oito filhas caissem em poder dos cristãos, lançou sobre elas um feitiço: “por mil anos estarão presas nesta gruta de Santa Olaia, enquanto não surgir alguém capaz de quebrar o encanto”.

A uma delas, Katija, disse que o seu encantamento seria quebrado quando um cristão se aproximasse dela e lhe dissesse por três vezes: “sois bela como o sol”...

Mas o encantamento também previa: “A terra para onde te levar aquele que vier desencantar-te, será uma terra aprazível, opulenta de galas da natureza, rica de plantas aromáticas, entre as quais uma, de cheiro rústico e agradável, persistente e suave, lhe dará nome e alcançará fama”...

Depois da tomada de Coimbra pelo Conde D. Sesnando, este enviou para Tavarede, como já se referiu anteriormente, Cidel Pais, com o fim de reconstruir e repovoar a vila.

Vários cavaleiros acompanharam este moçábare para o ajudar naquelas tarefas. Um deles, ao passar por Santa Olaia, viu, com admiração, oito moiras encantadas junto a uma gruta e que fugiram quando o viram aproximar-se.

Uma delas, Katija, ficou um pouco atrás das irmãs. Alcançando-a, o cavaleiro, que ficou extasiado pela sua beleza, não se conteve e disse-lhe: “sois bela como o sol”... Sem dar por isso, repetiu a frase várias vezes. O encantamento desfez-se!

Katija, grata pela quebra do encanto que tinha durado dois séculos, perguntou ao cavaleiro para onde a levava, ao que este respondeu que iria para Tavarede. Sem mais, a moira seguiu o seu libertador, lembrando-se das palavras de seu pai: terra aprazível, rica de plantas aromáticas, de cheiro rústico e agradável, persistente e suave...

Foi assim que, segundo a lenda, Tavarede ficou para sempre ligada ao limonete.

Ainda se mantém o seu culto na terra. É que, além do perfume, também é utilizado para se fazer chá. Chá de Limonete, que “se não faz bem, também não faz mal, embora a alguns possa amargar...”

Como não podia deixar de ser, socorremo-nos de mestre José Ribeiro que, na sua peça “Terra do Limonete” encerra, apoteoticamente o primeiro acto com a canção:


Limonete!

Eu sou rei

Da aldeia tavaredense!

O nome à terra, eu o dei!

Essa glória me pertence.

Embora velho par’cendo

O meu tronco é sempre novo,

Pois a raiz vem do povo:

Vigoroso vou crescendo.

(entram os ramos do limonete)

A seiva, meu pão e vinho,

Dá-me em ramos os meus braços,

Que se estendem como abraços

Ao muro tosco e velhinho.

(entram as folhas do limonete)

E vêm folhas viçosas,

Verdes, esguias, cheirosas,

Dar alegria e frescor

Ao jardim do cavador.

(entram as flores do limonete)

Então, nas pontas franzinas

Dos meus ramos verdejantes

Despontam flor’s pequeninas

Como estrelas cintilantes.

Coro de todos

-Limonete!

Rústica planta plebeia

Que na nossa terra cresce!

-Limonete!

Por toda a parte floresce

E dá cheiro à nossa aldeia...

-Limonete!

De tão viçosa verdura,

A Tavarede dás graça,

-Limonete!

Dás alegria e frescura

E perfumas a quem passa...

-Limonete!

-Limonete...


(Livro: Tavarede - Terra de meus avós - 1º.)

QUINTA DA BORLATEIRA

CASAL DA VALARTEIRA – 1713 Do nascente, parte do caminho que vai da Figueira para Tavarede e daí atravessa a estrada que vai de Tavarede para Buarcos e sobe pela mesma estrada junto da capela do Santo Cristo da Arieira, a qual estrada vai para a Serra de Santa Marinha, até chegar onde chamam os Condados; do norte, parte com dos ditos Condados, que possue Esperança de Oliveira, viúva, deste lugar, e com o reverendo padre Belchior Monteiro, de Tavarede, até chegar a outra estrada que vai de Buarcos para a Serra e dali vira para poente pela dita estrada para o sul, por onde vai demarcando com a estrema deste Couto e terra de Santa Cruz, e tornando atravessa a estrada que vai de Tavarede para Buarcos e corre por outra estrada até dar no sítio da Abadia; e pelo sul, parte com terra da mesma Abadia. E tem de comprido, pelo nascente, 1º34 varas, e pelo norte, 315 e meia e pelo poente 1088 e pelo sul 715 varas. (Nota – vara: antiga medida de comprimento equivalente a um metro e dez centimetros)






Quinta da Borlateira, actual - Vista do lado dos Condados