sábado, 30 de abril de 2011

Almeida Cruz



Amanhã, 1º. de Maio, António Almeida Cruz, nascido na nossa terra, completaria 132 anos. É uma efeméride a recordar. A nota abaixo copiei-a do Album Figueirense.


Quando comecei a frequentar a Escola Industrial Bernardino Machado, estava ela instalada na casa do Paço. Foi isto por volta de 1898; não tinha eu ainda 10 anos.

Em contacto directo com os alunos, havia ali dois modestos funcionários, nos quais tanto a figura como o temperamento contrastavam. Um era o senhor Sampaio, tipo baixo e gordo, de bigode rapado e suiças negras, tão pachorrento nas falas como nas passadas; o outro era o senhor Cruz, magro e vivo, de bigode quási branco, homem sem papas na língua, a quem mais familiarmente tratávamos por senhor José Maria.


De quando em quando, a-propósito de nada, explodia entre os dois uma altercação que era sempre passageira. A política também os separava; mas ambos eram bons, e igualados, a final, pela estima e pelo respeito que os alunos a um e a outro devotavam.


Frequentei a Escola Industrial até 1903 ou 1904, e foi dentro dêsse período que se fez a sua transferência para o actual edifício dos Paços do Concelho. Emquanto por lá cabulei, não conheci outros funcionários.


Ora, foi pouco depois dessa mudança, que o senhor José Maria, residente em Tavarede, de onde vinha tôdas as noites desempenhar as suas funções na Escola, viveu alguns dias de inquieta saudade pelo filho que abalara para Lisboa, disposto a abraçar a vida artística que o seduzia. Embora fôsse com o seu consentimento que êste resolvera dar tal passo, nem por isso o seu coração de pai se resignou fàcilmente com a ausência de quem tanto estremecia. E através dos desabafos que lhe escutei nos intervalos das aulas, algumas lágrimas lhe vi enxugar quando mais enternecidamente falava do filho querido, ansioso por ver confirmadas quantas esperanças êle levara no êxito e na glória; assim como vive ainda na minha lembrança a satisfação com que o bom José Maria nos deu conta das primeiras notícias que recebera, confortadoras pelo entusiasmo com que o filho lhe confessava o sucesso dos seus primeiros ensaios. Também então, mas de júbilo, algumas lágrimas orvalhavam o seu lenço tabaqueiro.


O filho do senhor José Maria, que à arte se quis dedicar, era o hoje consagrado tenor e ilustre artista Almeida Cruz. Contava então êste nosso conterrâneo 22 anos de idade. Dotado de muitas aptidões artísticas, senhor de boa figura, insinuante pelo aspecto e pelas maneiras, êle fôra naqueles últimos tempos quem mais realçara na boémia figueirense, sempre farta de episódios.


Prestigiava-o sobretudo a sua voz maravilhosa, rica de plasticidade e de timbre, que nas serenatas da época marcava com excepcional fulgor. O privilégio de tal voz envaidecia a Figueira, e a sua presença era disputada por aquêles que no bom canto encontravam precioso deleite. Algumas vezes, nessas noites já distantes, interrompi o sono para o ouvir, mercê do empenho que fazia em se deliciar com suas cantigas o meu vizinho no Largo Luiz de Camões, dr. Joaquim Lopes de Oliveira.


Com tais predicados, a admiração que Almeida Cruz inspirava não podia circunscrever-se aos escassos limites dêste burgo mondeguino, e por isso êle foi também um valioso colaborador da boémia coimbrã. Foram muitas, na cidade da linda Inês, as tertúlias e as festas em que figurou, quer de futricas, quer de estudantes, no antigo teatro da Rua da Trindade.


O famoso “Pad’Zé” a cada passo solicitava a sua companhia; e foi por direito legítimo que Almeida Cruz alcançou o título de Presidente da Associação dos Depenados do Distrito de Coimbra. Cumpria a estes assoaciados a cotização semanal de... cinco réis, que conjuntamente rehaviam com juros... de boa pipa, numa ceiata económica em taberna pataqueira, logo que a verba o permitia. Mas Almeida Cruz nem essa mísera cota lograva satisfazer... Se aqui tentasse referir os seus feitos mais notáveis nessa época divertida, êste número do Album Figueirense incharia como um volume. Boémio perfeito, por temperamento e conduta, Almeida Cruz foi, incontestàvelmente, a figura de maior relêvo na estúrdia figueirense dos últimos anos do século passado. E nessa aura singrava, quando...

Em Agôsto de 1901, passou pela Figueira, numa volta pela província, a companhia do Teatro da Trindade, dirigida por José Ricardo, e o nosso Príncipe D. Carlos encheu-se três ou quatro noites para se apreciarem algumas das melhores operetas do seu repertório. Acabadas as récitas, os artistas da companhia procuravam no restaurante Barba-Azul a confortadora ceia da praxe.


Era, pois, neste centro da boémia figueirense que, numa das últimas noites de espectáculo, os artistas alfacinhas ceavam alegremente, divididos por dois gabinetes. Num abancava José Ricardo com Amélia Loppícolo, António Gomes, do Trindade, a actriz Estefânia e o actor Gervásio; no outro, arranchava o empresário Gouveia (sócio de José Ricardo na Emprêsa José Ricardo & Gouveia, que então explorava o “Trindade”) com as actrizes Isaura e Rosa Pereira, o maestro Tomaz Del-Negro e o actor Firmino João Rosa.


A preseença dêstes artistas no Barba-Azul fizera que ali confluisse a fina flor da rapaziada. Era noite de gala para os boémios da terra. Havia luar; cheirava a madressilva; e no pátio beberricava-se e petiscava-se por todos os cantos. A certa altura surgiu um grupo, que rodeou o cego Monteiro, guitarrista afamado de Coimbra. Era o Pad’Zé com com Almeida Cruz e o dr. Zé Pinto. Estralejava a chalaça.


O cego dedilhou a guitarra, e, na estridência das suas cordas, o fado, tomando colorido, refulgia por entre o claro escuro das sombras caprichosas que o seguiam nos bordões tangidos por Almeida Cruz na sua tiorba sem par. Mas logo a voz poderosa e doce dêste nosso patrício eclipsou tais efeitos.


Almeida Cruz, que só cantava fados seus e músicas suas, soltou aos ares uma canção. A assistência entusiasmou-se, e, quando amigos e admiradores vivamente o aplaudiam, abriu-se a porta dum gabinete e alguém procurou conhecer, cheio de interêsse, quem possuía a primorosa voz que assim arrebatava. Era o actor Firmino Rosa. Feita a apresentação, Almeida Cruz voltou a cantar; mas não tardou que Firmino, maravilhado por tão imprevisto quão feliz encontro, o apresentasse, por sua vez, aos demais companheiros.


O primeiro a quem aquêle actor o apresentou foi o empresário Gouveia, preferência de que José Ricardo não gostou, porque já nessa altura se esboçava entre êle e o sócio a desinteligência que havia de separá-los. Mas entre aquêle empresário e José Ricardo, como em tôda a companhia, foi unânime o acôrdo sôbre o mérito do nosso conterrâneo, sôbre as faculdades da sua voz extraordinária, e em volte de Almeida Cruz tôda a noite rodopiavam os elogios e as sugestões para que seguisse a vida artística, onde todos lhe prediziam um triunfo glorioso.


Se os elogios, por virem de quem vinham, eram autorizados e conscienciosos, as sugestões eram pertinazes e convincentes.


Aquela noite foi decisiva para o estimado boémio, que às serenatas da Figueira imprimira um brilho jamais igualado; e quando, de madrugada, Almeida Cruz deixou a camaradagem daqueles artistas, havia anuído já, por insistência do empresário Gouveia, a comparecer na tarde seguinte no Hotel Aliança, onde a companhia estava hospedada, para fazer, ao piano, mais completas demonstrações da voz.


Á hora aprazada não faltou no hotel, onde o aguardavam alguns artistas com o maestro Tomaz Del’Negro. Levava as músicas que compusera, mas porque estavam escritas na clave de sol, para violão e canto, não serviam para a experiência. O ilustre maestro apressou-se, porém, a dispensá-lo das demonstrações, que reconhecia desnecessárias, e limitou-se a apontar a lápis algumas notas nas composições de Almeida Cruz, que êste distinto figueirense conserva como recordação do seu primeiro passo para a vida artística. Ali se assentara, finalmente, na sua ida com a companhia para Lisboa.


E foi assim, depois de tranquilizados os pais pelo compromisso do empresário Gouveia, tomado perante o padrinho de Almeida Cruz, Doutor António Lopes Guimarãis Pedrosa, de fazer tôdas as despezas com a experiência combinada e de o repor sob as telhas paternas se o êxito não confirmasse o vaticínio de todos, que, dois dias depois dessa última noite de boémia no afamado Barba-Azul, o nosso glorioso patrício deixou definitivamente a terra natal para iniciar a carreira em que depressa conquistou, através dos mais brilhantes triunfos, o primeiro lugar entre os tenores portugueses.

António Maria Monteiro de Sousa de Almeida Cruz nasceu em Tavarede no dia 1 de Maio de 1879, e é filho de José Maria de Almeida Cruz e de D. Maria Guilhermina Monteiro de Sousa e Cruz.


A sua inclinação para o teatro manifestou-se cedo. Tinha apenas 9 anos quando representou pela primeira vez em público. Foi no Casal-da-Fonte, freguesia de Lavos, em casa do Dr. Lopes, numa récita carnavalesca, com a cena cómica Um Alho. O ilustre artista ainda hoje revive o insucesso inesperado dessa verdadeira... alhada.


Antes da sua altura de subir ao estrado, garganteou uns fadunchos o dr. Jaime da Guitarra, conhecido boémio que era Administrador do Concelho, na Figueira. Os aplausos foram fartos. O jovem estreante partilhou do entusiasmo do público, e, sentindo receio de não fazer boa figura, disse aos pais que já não recitava.


Para vencer tal teimosia, teve a mãi de lhe pregar um sopapo, e a cena-cómica Um Alho, dita ainda a choramingar, teve daquela vez o sabor dum alho...chocho.


Aos 13 anos, num teatrito da segunda travessa da Rua das Rosas, em récita dos alunos da escola do saudoso Joaquim Evangelista, onde estudava, desempenhou em travesti o papel de Dona Ana na comédia em um acto Não subas as escadas às escuras.


Em 1895, foi Almeida Cruz para Coimbra assentar praça no Regimento de Infantaria 23, como aprendiz de música, e ali tomou parte numa festa promovida por sargentos no teatro “dos Bôrras”, cantava fados e modas da sua autoria, por êle próprio acompanhadas a violão.


Com 18 anos, em Tavarede, no teatrinho do Paço do Conde, desempenhou o papel principal da comédia Atribulações dum estudante. Pela mesma altura representou também neste teatro e no teatro Duque, de Buarcos, a comédia Médico à força.


Em 1898 embarcou para Luanda, com colocação prometida na casa Lopes Ferreira & Cª., pertencente a dois figueirenses. Quando, porém, um dêstes patrícios lobrigou na bagagem do recém.chegado uma rabeca e um violão, torceu o nariz com suspeitas do hereje, que assim mostrava pecar contra a boa ortodoxia do comerciante pragmatista, pé-de-boi, incompatível com quaisquer pruridos de literatura ou de arte, e vedou-lhe as portas do seu estabelecimento, colocando-o na Companhia do Gás, daquela cidade, onde Almeida Cruz foi desempenhar as funções de inspector. Mas a tolerância do gerente da Companhia emparelhava com a do bemquisto comerciante, e pouco tempo ocupou o lugar. Em face da hostilidade daquele meio comercial, abalou para Catumbela, onde foi guarda-livros da casa João J. Branco & C.ta.


Ao cabo de treze meses, por não lhe serem propícios os ares coloniais, regressou à Figueira. Não deixou, todavia, nesse curto período, de mostrar por lá as suas aptidões artísticas. No teatro de S. Paulo, daquelq cidade ultramarina, representou, com êxito notável, as comédias Lição para noivos e Atribulações dum estudante, e no teatro de S. Filipe, de Benguela, também representou várias vezes esta última, e cantou, com muitos aplausos, inspiradas modas, entre as quais uma chamada As minhas vizinhas, que ali se tornou predilecta.


Em 1900, no antigo teatro “do Celeiro”, de Buarcos, fêz o trabalhoso papel de Pedro no drama O coração dum bandido, representou as comédias História dum pataco e Quero falar à Srª. Queiroz, e a farsa O santo fingido, da autoria do pai do artista. No mesmo teatro e pela mesma altura foi também Almeida Cruz o ensaiador dum grupo cénico feminino, no qual começavam a revelar seus méritos as apreciadas amadoras Mabília Guerra e Maria Vieira.


No Natal do mesmo ano desempenhou o papel de pastor no Auto do Menino Jesus, nos teatros de Tavarede e Buarcos.


Tomou parte na inauguração do teatro de Brenha, e poucas foram as récitas de amadores dadas por êsse tempo nos teatros da Figueira, Buarcos e Tavarede a que êle não levasse a sua valiosa colaboração.


Também ao teatro de S. João-do-Campo ficou ligado o seu nome, quando o prestidigitador Hermann ali foi exibir as suas habilidades. O nosso conterrâneo completou o espectác ulo com a apresentação de um grupo musical de Tavarede, que dirigia.


No seu regresso de África, Almeida Cruz também se dedicou ao magistério. Foi o primeiro professor da Escola Nocturna Popular Bernardino Machado, em Buarcos, fundada pelo saudoso benemérito e democrata Fernando Augusto Soares. A posse foi-lhe dada pelo próprio patrono da escola, dr. Bernardino Machado, que presidiu à festa da sua inauguração.


Em 1894 foi para Guimarãis empregar-se na da Casa Noiva, e em 1897, na Figueira, esteve no escritório da Companhia do Gás e da Água, e também passou, como eu, que estas linhas subscrevo, e tantos outros, pelos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta, êsse refugium peccatorum da rapaziada figueirense. Embora fôsse sempre cumpridor nos seus empregos, o seu temperamento boémio e artístico em nenhum deles se acomodava. Outras tendências o impeliam; outra vida lhe estendia os braços carregados de aplausos.

São estes os traços principais da vida de Almeida Cruz antes de iniciar a sua brilhante carreira no teatro musicado português. A sua estreia profissional fêz-se com invulgar sucesso no teatro da Trindade, em Lisboa, na noite de 19 de Setembro de 1901, com o desempenho do papel de Nicolau, na opereta Os Sinos de Corneville; e, através das trezentas personagens que nestes 36 anos tem interpretado, sempre o ilustre figueirense triunfou.


Mas as referências à sua gloriosa vida de artista terão de ficar para outra vez, dada a extensão que já leva este artigo.



por Fernandes da Silva


(de Album Figueirense)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Primeiro de Maio e Os Inseparáveis

No dia 1 de Maio de 1971, em “reunião de saudade”, na sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, juntaram-se, para recordar tempos idos, os componentes do Grupo Os Inseparáveis ainda vivos e alguns convidados.


Do programa, distribuido aos presentes, constava uma romagem ao cemitério para deposição de flores nas campas de “Os Inseparáveis” já falecidos, seguindo-se o tradicional almoço de “raia de pitáu com batatas cozidas”.


Como introdução ao programa, escrevi, então, a seguinte “Evocação”:

“... já a música afinou os instrumentos. Potes floridos riem e bailam nas cabeças das raparigas. O ar está cheio de cor e de perfumes. Formou-se o cortejo. Tudo pronto!... Vamos! Vamos! Siga o rancho até à fonte, a cantar e a dançar e a dar a volta à Figueira!... Lá vai! Lá vai o Rancho do 1º. de Maio, lá vão os potes floridos da terra do limonete!... (De “O Chá de Limonete”)

Esta era uma das tradições do 1º. de Maio da nossa terra. Outra. também este dia, era o da reunião de “Os Inseparáveis”. Também tínhamos foguetes!... Também tínhamos música!... Mas, sobretudo, tínhamos a alegria, filha de uma sã e indesmentível amizade.

Depois do almoço, na quinta do sr. José Duarte


Sempre desejado por todos, ainda o sol não era nascido já nós acorríamos ao local da reunião, na esperança de mais um dia feliz. E essa esperança, ano após ano, sempre se tornou uma realidade.


Acabou o grupo! Porquê?... “Os Inseparáveis”, desmentindo o seu nome, separaram-se porque foram vencidos pela morte. Partiram alguns para a grande viagem sem fim. Era impossível a continuação sem eles.


Hoje, resta-nos a saudade. E foi essa saudade que deu origem a esta reunião. Vamos visitar, à sua eterna morada, os nossos queridos companheiros já falecidos. As flores da nossa terra, desta Tavarede que eles tanto amaram como nós amamos, serviam neste dia para enfeitar os “potes floridos”. Servem-nos agora para testemunhar a nossa saudade. Depondo-as sobre as campas dos que já partiram e evocando a sua memória, confirmamos que a amizade, tal como a saudade, ainda existe porque é eterna.”

Deixo aqui, e antes de resumir a história do grupo, o nome de todos aqueles que, por mais ou menos tempo, fizeram parte de “Os Inseparáveis”:

“Adriano Augusto Silva, Alexandre Simões, Alberto Ferrão, António Augusto de Figueiredo, António Migueis Fadigas, Augusto Marques Pereira, Augusto da Silva Jesus, César Fernandes, Elói Domingues, Fernando Machado, Fernando Severino dos Reis, Fernando da Silva Ribeiro, Francisco de Carvalho, Isolino da Silva Proa, João Medina, João Nogueira e Silva, João Renato Gaspar de Lemos Amorim, João da Silva Cascão, Jorge Medina, José Fernandes Mota, José Francisco da Silva, José Nunes Medina, José Russo, Manuel Duarte Gomes, Manuel Fernandes Pinto, Manuel Nogueira e Silva, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Pedro Nunes Medina, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos”.

Destes, restam ainda vivos, felizmente, cinco: Fernando Machado, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos.


Como começou?


Em meados dos anos vinte, meu pai, Pedro, e seus primos Jorge e João Medina, resolveram criar o costume de fazerem uma almoçarada no dia 1º. de Maio. Almoçar e confraternizar nesse dia festivo. Logo no primeiro ano chamaram para junto de si o irmão e primo Ricardo, ainda sem idade para trabalhar e, portanto, como convidado.


Estabeleceram desde logo a tradição do principal prato do almoço ser “raia cozida com molho de pitáu”. Vendo o prazer e satisfação daqueles familiares ao combinarem todos os pormenores, a irmã e prima Violinda, um pouco mais velha, logo se dispôs a lhes proporcionar uma singela sobremesa do tradicional arroz doce.


Mas eram poucos e, tendo tantos e tantos amigos seus conterrâneos, familiares ou não, logo nos anos seguintes, uns por convite e outros por iniciativa própria natural foi o aumento do grupo.


Não há elementos que permitam estabelecer a composição do grupo nas diversas reuniões. Para esta compilação, socorri-me do meu tio Ricardo (um dos cinco sobreviventes) e das fotografias, bem velhinhas, que existem.


Alvorada, na Rua Direita


Tomaram o nome de “Os Inseparáveis” e, efectivamente, formavam um grupo em que a amisade era nobre e verdadeira. Como exemplo, anota-se que, houve dois casos de conterrâneos inscritos mas que só lá estiveram um ou dois anos. Os seus feitios não se coadunavam com o espírito de “Os Inseparáveis” e, antes que houvesse problemas indesejados, foram convidados a abandonar o grupo.


Quando começaram a ser sete ou oito, houve que fazer algumas alterações ao sistema anterior. A raia de pitáu e o arroz doce já era pouco. Contrataram uma cozinheira: a Alice Fernandes, irmã do César. Consigo, e como ajudante, levou o Fernando, ainda muito novo e que, como paga do seu trabalho, participava nos “comes e bebes” gratuitamente, isto até se tornar sócio efectivo.


O “menú” foi reforçado. Além da raia, que sempre foi o prato forte, passou a haver ao almoço um prato de carne, normalmente bifes de cebolada.


Para o financiamento das despesas cada sócio comparticipava com uma quota semanal de um escudo (dez tostões!), o que dava cinquenta e dois escudos por ano e por sócio. Pois com este valor compravam o necessário para o pequeno almoço, almoço e jantar. E como compravam sempre os géneros em abundância, ainda iam jantar no dia seguinte. Era sempre uma fartura!


E como passavam o dia?


Manhã cedo, a alvorada. Foguetes e fanfarra na rua, acordando alegremente a aldeia com o acorde das violas, flauta, bandolim e outros instrumentos.


Seguia-se o pequeno almoço. Pão acabado de sair do forno, manteiga, café com leite...


Eram, então, distribuidas as tarefas: uns iam ao mercado, à Figueira, fazer as compras, outros preparavam as instalações. Nos últimos anos era em casa do Zé Duarte, pai do sócio Manuel, que a cedia de boa vontade. E nos dias de sol, o almoço era na eira, da parte de cima da casa, onde, perto, havia um enorme pinheiro manso, que dava uma sombra mesmo convidativa.


Depois do almoço havia que fazer a digestão: “bem digerir o que bem comeram e melhor beberam...”. Jogos de futebol, jogos de malha, sestas, cartas tudo servia para passar a tarde alegremente. Várias fotografias recordam estas tardes!


Chegada a hora do jantar, eis que se sentavam à mesa, prontos para o ataque. O almoço já lá ia. Arroz de ervilhas com galinha, coelho à caçador, era o costume. Mais sobremesa. Mais uns copitos. E, claro, para enfrentar a noite que ia caindo, nada melhor que uma “garujada”. E voltavam as violas, guitarras e bandolins a serem dedilhados. Não demorava muito para que meu tio José, músico de alta craveira, levantasse os braços para reger o orfeão. Bem afinadinho que, nessas coisas, ele não era para brincadeiras...


Lá vinha o “alecrim do monte”, a “menina Luísa” e outras tantas que faziam parte da tradição musical de Tavarede, terra de músicos como agora, infelizmente, não há.


Era já noite alta, madrugada adentro, quando tocava a dispersar. Um último copo e, até amanhã ao jantar, para acabar com as sobras e fazer as contas. Os cinquenta e dois escudos, que cada um pagava de quota, davam e sobravam.


E ao despedirem-se, na sua maioria visinhos de todos os dias, fazia-se a habitual promessa: “P’ró ano cá estaremos!...”

O PRIMEIRO DE MAIO DE TAVAREDE


Pote Florido -



P’ra saudar Maio florido,
Tão propício aos namorados,
Vem o cortejo garrido
Com seus potes enfeitados!

E as alegres raparigas,
Contentes com seus amores,
Enchem o ar de cantigas
E do perfume das flores...

E o pote de barro
Tremendo no ar,
Parece bailar
Alegre e bizarro,
Parece brincar
Co’a moça travessa
Que o leva à cabeça,
Feliz, a cantar...

É amanhã o 1º. de Maio. E então as raparigas correm os quintais, vão às leiras ajardinadas, e de toda a parte trazem flores!

Deixando o seu pote enfeitado, a cachopinha foi deitar-se; mas passou a noite em claro, a pensar na alegria da manhã que vai nascer... Ainda escuro, salta da cama, veste a saia ramalhuda e a blusa de rendas, põe na cabeça o cachené lavrado, e pega no cântaro florido, que cheira que consola! Ainda vem longe o dia, mas são horas de ir chamar as mais: - Ó Rosa! Ó Maria José! Ó Joaquina! Vá depressa, raparigas! Daqui a pouco nasce o Maio, e se ele dá com vocês na cama, já sabeis o que vos faz: deixa-vos amarelas todo o ano! Olha, ali vai o Manuel c’o violão... Avia-te, rapaz, que já lá estão os outros... Eia! Aí vem a Laura, mais a Anita, e a Augusta e a Teresa...

Já a música afinou os instrumentos. Potes floridos riem e bailam nas cabeças das raparigas. O ar está cheio de cor e de perfumes. Formou-se o cortejo. Tudo pronto!... Vamos! Vamos! Siga o rancho até à fonte, a cantar e a dançar e a dar a volta à Figueira!... Lá vai! Lá vai o rancho do 1º. de Maio, lá vão os potes floridos da terra do limonete!... (Mutação - Sobre um fundo azul, à luz ainda baça dum alvorecer que apenas se adivinha, mal se destacam os contornos da paisagem. Dois motivos dominam o quadro - uma fonte rústica onde a água não deixou de cantar, e o Sol, emergindo por detrás dos montes distantes. Ouve-se o rancho cantando ao longe a sua marcha tradicional do 1º. de Maio - Só vós ó belas... - enquanto o Sol vai subindo e doirando o ar. As vozes estão já muito perto; distingue-se o toque das rabecas, da flauta e dos violões. Todo o Sol se mostra já, redondo e brilhante, e a fonte está agora em plena luz, - e é quando entra o rancho cantando: - Viva o Maio! Viva o Maio! À frente da tuna o rapaz da pandeireta, depois as raparigas levando à cabeça os potes enfeitados, cada uma com seu rapaz ao lado. O rancho, sempre cantando, deu a volta e seguiu seu caminho, perdendo-se as vozes na distância...)


Espetáculo na SIT - 4.2.2004


Da peça 'Chá de Limonete - 1951 - José da Silva Ribeiro

sábado, 23 de abril de 2011

Carlos Lopes Pinto



Natural da freguesia de Tavarede, nasceu a 19 de Outubro de 1927, filho de António Lopes Pinto e de Carmina Pinto. Casou com Arcelina Domingues e teve dois filhos, Carlos e Fernando.


Faleceu no dia 10 de Fevereiro de 1998.


Durante vários anos pertenceu aos órgãos sociais da Sociedade de Instrução Tavaredense, onde desempenhou o cargo de presidente da Direcção nos anos de 1979 e 1980 e de presidente da Assembleia Geral em 1995 e 1996.


Também fez parte do grupo cénico, embora com uma participação muito breve.


Residia no Vila Robim e, profissionalmente, foi técnico de contas.

Caderno: Tavaredenses com história

Guilhermina da Silva Oliveira Neves Cabral

Em 'As duas comadres', da peça 'Sonho do Cavador' - 1928




Natural de Tavarede, filha de Gentil da Silva Ribeiro e de Emília Coelho de Oliveira, nasceu no ano de 1911. Casou, em primeiras núpcias, com João Nunes e, enviuvando, fez segundo casamento com o Eng. Henrique Neves de Cabral, tendo uma filha, Manuela. Faleceu a 26 de Maio de 2001.

Começou a participar no grupo cénico da SIT em 1924, na opereta Noite de S. João, e até 1937, ano em que abandonou a actividade teatral, entrou em diversas peças como Grão-Ducado de Tavarede, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Noite de Agoiro, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, As tês gerações, Canção do Berço, O Grande Industrial, etc.

Sócia honorária da colectividade em 1929.

Seu marido, Engº. Neves Cabral (1891-1968), também prestou relevantes serviços a esta associação, que, em 1933, lhe concedeu o diploma de sócio honorário.

Caderno: Tavaredenses com história

Manuel de Oliveira (Támau)

Tocando viola num cortejo na Figueira



Natural de Tavarede, filho de Sebastião de Oliveira e de Carlota Vaz dos Santos, Casou com Maria Silva Oliveira e teve três filhos, Helena, Joaquim e Adelino. Morreu em Maio de 1964, com a idade de 72 anos.


Pedreiro de profissão, era vulgarmente conhecido em Tavarede como “Manel Estámau”.
Foi um dos fundadores do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, em Agosto de 1911, ao qual deu a sua colaboração como músico, tocando violão na Tuna. Também o fez, na fantasia “Chá de Limonete”, tocando na tuna que recriava o Rancho dos Potes Floridos do Primeiro de Maio.


Sócio honorário do Grupo Musical em 1937.



Caderno: Tavaredenses com história

Rui Fernandes Martins

Nasceu em Souto, Penedono, no dia 13 de Novembro de 1903, e morreu, na Figueira da Foz, em 5 de Junho de 1974.


“… destacada figura do professorado primário e jornalista vigoroso, sempre fiel ao ideário político a que, muito jovem ainda, se dedicou.


Com 17 anos de idade, obteve o diploma de professor da Escola Normal de Coimbra, com a mais alta classificação do seu curso. Começou por exercer a sua profissão nas regiões de Mortágua, Santa Comba Dão e Arganil, de onde veio, há mais de 40 anos, para a freguesia de Brenha. Depois de passar, também, pela Escola Primária de Tavarede, fixou-se definitivamente na Escola Conde de Ferreira, onde leccionou durante mais de 30 anos.


Paralelamente com a sua actividade de professor, foi elemento preponderante da União dos Professores Primários, revelando-se nos respectivos congressos como um orador entusiasta e intemerato defensor dos mais avançados métodos de ensino, incluindo a escola mista, quase um sacrilégio para a época.


Colaborou em dezenas de jornais portugueses e brasileiros. Deixou publicados: “O esforço português nos descobrimentos, nas conquistas e na colonização”; “Gomes Leal – Breve evocação da sua obra”; “Exortação à mocidade”; “António Aleixo e Calafate – dois poetas do povo”; “A liberdade e os humildes na obra de Eça de Queirós”.


Foi elemento relevante no movimento associativo do concelho, aceitou, por exclusiva intervenção dos seus antigos alunos, a “Ordem de Instrução Pública”, tendo sido também distinguido com a “medalha de Ouro”, de mérito, da Federação das Colectividades de Instrução e Recreio”.


Foi casado com Margarida Gil de Castro, tendo dois filhos, Rui Manuel e José Alberto.


Dedicado de alma e coração ao movimento associativo local foi, durante largos anos, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Boa União Alhadense, da Sociedade de Instrução Tavaredense, do Sporting Clube Figueirense e da Troupe Recreativa Brenhense e presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz.


Na colectividade tavaredense desempenhou sempre uma actividade muito importante, nomeadamente para as obras de reconstrução e remodelação do edifício da sede, inauguradas em 1965, de que foi um dos mais entusiastas elementos.


Caderno: Tavaredenses com história