quinta-feira, 5 de maio de 2011

José Luis do Nascimento

Natural da vizinha Brenha, onde nasceu no ano de 1919, era filho de Manuel Luís do Nascimento e de Maria Francisco e casou com a tavaredense Efigénia Grilo, da qual teve dois filhos, Guilhermina e António.


Começou a fazer teatro na Troupe Recreativa Brenhense “onde conheceu José Ribeiro, numa ocasião em que ele lá foi dar os últimos retoques a uma peça”.


Quando veio residir para a nossa terra, de imediato começou a dar a sua colaboração ao grupo cénico da Sociedade de Instrução. Desde Chá de Limonete, em 1950, até Na Presença de Garrett, no ano de 1999, foram cerca de 95 os personagens por ele vividas no palco.


Característico, com especial vocação para a criação de figuras populares, recordamos, sem desprimor para outras interpretações, os papéis de Marchante, em Chá de Limonete, Jeremias, barão da sovela, em Terra do Limonete, O homem da Vaca, David Secura, Carro Gandarês, nas diversas fantasias postas em cena por José Ribeiro.










Quando foi homenageado conjuntamente com João Medina (José Luís à esquerda)

“… representarei enquanto tiver forças para o fazer. O teatro deu-me um à-vontade muito grande e grande facilidade de conversa: não tenho medo de falar com um médico ou com um advogado”, disse ele em certa ocasião.


A Sociedade de Instrução nomeou-o sócio honorário em 1982 e homenageou-o publicamente no ano de 2000, num espectáculo promovido para o efeito. Faleceu em 30 de Março de 2005.


Caderno: Tavaredenses com história

António Paula Santos (António dos Prazeres)

Ribeiro de Tavarede - Chá de Limonete - desenho Zé Penicheiro



Nasceu a 12 de Outubro de 1918 e faleceu no dia 21 de Outubro de 1963.



Figueirense, mecânico de automóveis, casou com a tavaredense Elisa Marques, (1.11.1915 – 14.11.1992) passando a residir na nossa terra. Tiveram um filho, António.



Dotado de boa voz, passou a fazer parte do grupo dramático da Sociedade de Instrução, iniciando a sua colaboração em 1948, em Auto da Barca do Inferno, até ao ano de 1961, na fantasia Terra do Limonete.



Foi ele o primeiro intérprete da famosa Canção do Limonete.



Sua esposa, Elisa, também foi amadora do mesmo grupo cénico. Participou no elenco das peças As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, A Cigarra e a Formiga, O Sonho do Cavador, Canção do Berço, Entre Giestas, O Grande Industrial, etc. Terminou em 1940, colaborando nos Autos Pastoris, uma organização do Grupo Musical.



Caderno: Tavaredenses com história

O CÉLEBRE JANTAR DO DEÃO

A colheita e jantar era um tributo que, todos os anos, o Couto de Tavarede, tal como todos os Coutos da jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra, tinham que pagar, em dinheiro e em géneros.


Mas, segundo o Foral que estabelecia esta obrigação, era o Deão da referida Sé que, anualmente e por alturas do S. João, devia visitar os Coutos e receber o dinheiro e os géneros para o jantar, que, segundo dizia o Deão na cena final do primeiro acto do 'Chá de Limonete' "era apenas um farnel".



Ora em 1536 o Cabido resolveu não mandar o Deão mas, sim, três cónegos seus para receber o tributo. E naturalmente, o juiz e os oficiais da Câmara do Couto de Tavarede, escrupulosos cumpridores do legalmente estabelecido, não pagaram, dizendo mesmo aos enviados que só pagariam ao Deão. Estes pediram um documento comprovativo da recusa ed o mesmo foi enviado a El-Rei que, estando em Évora com a sua Corte, ali fez o julgamento ed proferiu a respectiva sentença. Vejamos o processo:



Dom João, por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio na Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A Vós, Juizes do Couto de Tavarede, jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra e a todos os outros juizes e justiças, oficiais e pessoas dos meus reinos e senhorios a quem esta minha carta de sentença fôr mostrada e ao conhecimento dela por qualquer guisa que seja feita, saúde.
Faço-vos saber que perante mim, nesta minha Corte, e Casa de Suplicação e Juizes dos meus feitos, nela foi apresentado um instrumento de agravo que diante Vós tirou o Cabido, Dignidades e Cónegos da dita Sé, aos oito dias do mês de Julho de presente ano de mil quinhentos e trinta e seis, no q ual se continha, entre outras muitas coisas nele contidas, que os ditos Suplicantes vieram com um requerimento por escrito, a Vós ditos Juizes, dizendo nele que o dito Couto era obrigado pagar de colheita e jantar ao dito Cabido, a seu recado para os visitar e lhes administrar justiça, por serem seus vassalos e sujeitos a toda a jurisdição cível ser sua, e sendo visitadosx em cada ano, até ao S. João de cada ano, e então eram as colheitas seguintes, a saber: dos moradores do dito lugar de Tavarede sem os do termo, pagavam pelos seus livros dos Direitos Alfandegários, seiscentos e oitenta reis da moeda ora corrente, e mais, pelas heranças do lugar da Chã e casais de cada um, dois carneiros e dois cabritos, e seis almudes de vinho da medida corrente, e dez galinhas e um quarteiro de cevada pela medida corrente de Coimbra, e mais cem pães ou por cada pão dois reis da sobredita moeda ora corrente, cinco reis para especiarias ou por elas cinco reis da sobredita moeda ora corrente, e meio alqueire de manteiga e outras coisas e vinagre que baste para as ditas coisas se cozinharem, a qual colheita ou jantar Vós Juizes e oficiais em cada ano fintáveis pelo concelho e pelo povo dele, segundo acima ficava declarado, e era tão antigo que não havia memória dos homens em contrário e o preço era notório dever-se, e assim o tinham por leis na sua Câmara, e ora findo como foram em nome do dito Cabido, Francisco Monteiro e Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos, a visitar o dito Couto antes do S. João, neste ano de quinhentos e trinta e seis, no primeiro dia de Junho da dita era, e visitando e provindo em tudo o que era necessário, os ditos Juizes e oficiais punham dúvida a pagarem e lhe darem a dita colheita e não eram obrigados, pelo que vos requeria lhe desseis a pagásseis a dita colheita e o jantar deste ano de quinhentos e trinta e seis, como em cima era declarado.
E melhor, se melhor de direito lhe pertencesse segundo seu costume, e não querendo lhes fosse dado seu instrumento com sua resposta, ou sem ela se a dar não quizesse, e com fé do tabelião do que no caso se passava e com o teor das visitações aos visitados réus, e protestavam serem privados de tão manifesto agravo, do qual agravavam para mim e meus desembargadores e de haver todas as perdas e custas e danos e interesses por quem de direito fosse, segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido no dito instrumento.
Respondeu o Juiz e vereadores e procurador do dito Couto, dizendo na sua resposta que a colheita ou jantar que no requerimento se dizia, que era devido ao Cabido da Sé no dito seu Couto de Tavarede em cada ano, e que requeriam que o desse ao dito Cabido o ano presente de trinta e seis, por dizer que Francisco Monteiro, Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos dessa Sé, foram visitar o dito Couto, agora no primeiro dia de Julho do presente ano, pelo que diziam eles Juiz e Oficiais que não podiam mandar pagar ao dito Cabido a dita colheita e jantar, que lhes era pedido, pelo dito concelho de Tavarede ter no Foral o contrário.
A saber: dava o dito Foral que, indo o Deão da dita Sé pessoalmente visitar, uma vez por ano, o concelho de Tavarede, os moradores do dito lugar lhe pagassem, a ele Deão, a referida colheita e jantar, e porque o Foral assim o mandava expressamente, sem nenhuma limitação, sempre de tempo imemorial que eles oficiiais se acordavam, e sempre a dita colheita e jantar se dera e pagara ao Deão, que era da dita Sxeé, e se pagavam agora a João Rodrigues Ribeiro, Deão actual da dita Sé, o qual em cada ano pessoalmente a vencia e se lhe pagava sem nunca os do Cabido tal colheita e jantar pedirem senão agora, se eles, do Cabido, tivessem alguma Provisão minha em que mandasse que lhe fosse pago sem embargo do Foral, que lhe mostrassem e a guardariam e cumpririam em tudo, porque o que dizia em seu Regimento não bastava para lhes ser dado o que pediam, pelo dito Foral ser em contrário, pelo que requeriam ao tabelião que nos instrumentyo que lhes havia de passar, tresladasse neles as verbas do Foral que no dito caso falavam, porque eles não tinham em Câmara outra lei por onde se regiam acerca dele, somente estas verbas, que apontavam no dito instrumento eram tresladadas, e sem isto os do dito Cabido se quisessem instrumento de agravo, que pediam lhe fosse dado e contestavam de treplicar, se cumprisse segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido na dita resposta, ao que os juizes, vereadores e procuradoer responderam ao dito requerimento, ao qual outrossim respondeu o Deão, dizendo em sua resposta, que era verdade, que ele, como Deão, estava em posse por dez, trinta, cinquenta, cem anos a esta parte, e por tanto tempo que a memória dos homens não era em contrário, e se nisso houvesse dúvida daria testemunhas no concelho e fora dele, se por si e pelos Deões antepassados e antecessores deverem, em cada ano, ir visitar o dito Couto de Tavarede, o jantar que ora o Cabido dizia e pedia, não indo ele Deão em pessoa se não devia dar a pessoa alguma outra do Cabido, e ficava no concelho, como a todos era notório e muitas vezes ficara , em tempo dele Deão e seus antecessores e assim o tinham muitos jantares noutros lugares em que o Cabido não tinha jurisdição e mesmo noutros em que a tinha.
Como era este por serem prestes do seu Deão, como são a terça da Lousã e de Vradigos, que tinham certas igrejas no Arcediago do Vouga e noutras partes em que o Cabido não tinha jurisdição alguma, pelo que, neste presente ano de trinta e seis, que ao dito Couto de Tavarede de Fora vencera e merecera a dita colheita e jantar, e o foram tirar e mandar a sua casa como sempre fizeram desde o dito tempo, e portanto o Cabido não tinha razão no que pedia nem de sgravar de Vós juizes, segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido na resposta do dito Deão, as quais respostas o Cabido replicou e o Deão e oficiais treplicaram e como tudo o dito Cabido e Dignidades dele pediram o dito instrumento de agravo, o qual lhe foi dado com o treslado das sentenças, o qual instrumento fora nesta minha Corte apresentado em tempo e forma de vida, e foi junto a outros e outros a este, que o dito Cabido tirou doutros Coutos, e deles foi dada vista às partes, e fora por eles tanto de seu Direito e Justiça alegado, que o dito instrumento me foi levado finalmente concluso, o qual foi visto por mim em Relação com os do meu desembargo.


SENTENÇA


Acordei, visto os requerimentos feitos pelo Cabido da Sé de Coimbra aos Juizes e Oficiais dos Coutos nestes instrumentos contidos e as respostas dos ditos oficiais e assim as respostas do Deão, sentenças dadas sobre a jurisdição dos ditos Coutos e como se mostra pelas ditas sentenças a jurisdição dos ditos Coutos ser julgada ao dito Cabido, por respeito da igual jurisdição e visitação se dão os jantares e colheitas nos Coutos da contenda, o que tudo visto com o mais que dos autos consta, declaro os ditos jantares e colheitas pertencerem ao dito Cabido e mando aos juizes e oficiais dos ditos Coutos, que lhe acudam e façam acudir com eles, segundo forma de suas doações, porque os ditos jantares e colheitas lhes são concedidos e esta declaração e sentença servirá a todos os Coutos nos ditos instrumentos contidos, e os mando que assim cumpram, guardem e façam em tudo muito inteiramente cumprir e guardar como por mim é julgado, acordado, mandado e determinado.
E mando que esta sentença se cumpra e guarde com efeito realmente como da maneira que nela é contido, e porquanto o Cabido pagou parte do Deão cento e sessenta e sete reis, vos mando que requereis que os pague, e se pagar não quiser, o fareis penhorar em tantos dos seus bens móveis e de raíz e lhos façais vender e rematar, de acordo com as minhas ordenações, de maneira que o dito Cabido haja pagamento dos ditos cento e se4ssenta e sete reis, o que assim deve cumprir.
Dada na minha cidade de Évora, onze dias do mês de Agosto. El-Rei o mandou pelo licenciado Álvaro Martins, do seu desembargo e juiz de seus feitos em sua Corte e Casa de Suplicação. Francisco Pires a fez por Afonso Ferandes de Toar, escrivão. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta e seis.

sábado, 30 de abril de 2011

Almeida Cruz



Amanhã, 1º. de Maio, António Almeida Cruz, nascido na nossa terra, completaria 132 anos. É uma efeméride a recordar. A nota abaixo copiei-a do Album Figueirense.


Quando comecei a frequentar a Escola Industrial Bernardino Machado, estava ela instalada na casa do Paço. Foi isto por volta de 1898; não tinha eu ainda 10 anos.

Em contacto directo com os alunos, havia ali dois modestos funcionários, nos quais tanto a figura como o temperamento contrastavam. Um era o senhor Sampaio, tipo baixo e gordo, de bigode rapado e suiças negras, tão pachorrento nas falas como nas passadas; o outro era o senhor Cruz, magro e vivo, de bigode quási branco, homem sem papas na língua, a quem mais familiarmente tratávamos por senhor José Maria.


De quando em quando, a-propósito de nada, explodia entre os dois uma altercação que era sempre passageira. A política também os separava; mas ambos eram bons, e igualados, a final, pela estima e pelo respeito que os alunos a um e a outro devotavam.


Frequentei a Escola Industrial até 1903 ou 1904, e foi dentro dêsse período que se fez a sua transferência para o actual edifício dos Paços do Concelho. Emquanto por lá cabulei, não conheci outros funcionários.


Ora, foi pouco depois dessa mudança, que o senhor José Maria, residente em Tavarede, de onde vinha tôdas as noites desempenhar as suas funções na Escola, viveu alguns dias de inquieta saudade pelo filho que abalara para Lisboa, disposto a abraçar a vida artística que o seduzia. Embora fôsse com o seu consentimento que êste resolvera dar tal passo, nem por isso o seu coração de pai se resignou fàcilmente com a ausência de quem tanto estremecia. E através dos desabafos que lhe escutei nos intervalos das aulas, algumas lágrimas lhe vi enxugar quando mais enternecidamente falava do filho querido, ansioso por ver confirmadas quantas esperanças êle levara no êxito e na glória; assim como vive ainda na minha lembrança a satisfação com que o bom José Maria nos deu conta das primeiras notícias que recebera, confortadoras pelo entusiasmo com que o filho lhe confessava o sucesso dos seus primeiros ensaios. Também então, mas de júbilo, algumas lágrimas orvalhavam o seu lenço tabaqueiro.


O filho do senhor José Maria, que à arte se quis dedicar, era o hoje consagrado tenor e ilustre artista Almeida Cruz. Contava então êste nosso conterrâneo 22 anos de idade. Dotado de muitas aptidões artísticas, senhor de boa figura, insinuante pelo aspecto e pelas maneiras, êle fôra naqueles últimos tempos quem mais realçara na boémia figueirense, sempre farta de episódios.


Prestigiava-o sobretudo a sua voz maravilhosa, rica de plasticidade e de timbre, que nas serenatas da época marcava com excepcional fulgor. O privilégio de tal voz envaidecia a Figueira, e a sua presença era disputada por aquêles que no bom canto encontravam precioso deleite. Algumas vezes, nessas noites já distantes, interrompi o sono para o ouvir, mercê do empenho que fazia em se deliciar com suas cantigas o meu vizinho no Largo Luiz de Camões, dr. Joaquim Lopes de Oliveira.


Com tais predicados, a admiração que Almeida Cruz inspirava não podia circunscrever-se aos escassos limites dêste burgo mondeguino, e por isso êle foi também um valioso colaborador da boémia coimbrã. Foram muitas, na cidade da linda Inês, as tertúlias e as festas em que figurou, quer de futricas, quer de estudantes, no antigo teatro da Rua da Trindade.


O famoso “Pad’Zé” a cada passo solicitava a sua companhia; e foi por direito legítimo que Almeida Cruz alcançou o título de Presidente da Associação dos Depenados do Distrito de Coimbra. Cumpria a estes assoaciados a cotização semanal de... cinco réis, que conjuntamente rehaviam com juros... de boa pipa, numa ceiata económica em taberna pataqueira, logo que a verba o permitia. Mas Almeida Cruz nem essa mísera cota lograva satisfazer... Se aqui tentasse referir os seus feitos mais notáveis nessa época divertida, êste número do Album Figueirense incharia como um volume. Boémio perfeito, por temperamento e conduta, Almeida Cruz foi, incontestàvelmente, a figura de maior relêvo na estúrdia figueirense dos últimos anos do século passado. E nessa aura singrava, quando...

Em Agôsto de 1901, passou pela Figueira, numa volta pela província, a companhia do Teatro da Trindade, dirigida por José Ricardo, e o nosso Príncipe D. Carlos encheu-se três ou quatro noites para se apreciarem algumas das melhores operetas do seu repertório. Acabadas as récitas, os artistas da companhia procuravam no restaurante Barba-Azul a confortadora ceia da praxe.


Era, pois, neste centro da boémia figueirense que, numa das últimas noites de espectáculo, os artistas alfacinhas ceavam alegremente, divididos por dois gabinetes. Num abancava José Ricardo com Amélia Loppícolo, António Gomes, do Trindade, a actriz Estefânia e o actor Gervásio; no outro, arranchava o empresário Gouveia (sócio de José Ricardo na Emprêsa José Ricardo & Gouveia, que então explorava o “Trindade”) com as actrizes Isaura e Rosa Pereira, o maestro Tomaz Del-Negro e o actor Firmino João Rosa.


A preseença dêstes artistas no Barba-Azul fizera que ali confluisse a fina flor da rapaziada. Era noite de gala para os boémios da terra. Havia luar; cheirava a madressilva; e no pátio beberricava-se e petiscava-se por todos os cantos. A certa altura surgiu um grupo, que rodeou o cego Monteiro, guitarrista afamado de Coimbra. Era o Pad’Zé com com Almeida Cruz e o dr. Zé Pinto. Estralejava a chalaça.


O cego dedilhou a guitarra, e, na estridência das suas cordas, o fado, tomando colorido, refulgia por entre o claro escuro das sombras caprichosas que o seguiam nos bordões tangidos por Almeida Cruz na sua tiorba sem par. Mas logo a voz poderosa e doce dêste nosso patrício eclipsou tais efeitos.


Almeida Cruz, que só cantava fados seus e músicas suas, soltou aos ares uma canção. A assistência entusiasmou-se, e, quando amigos e admiradores vivamente o aplaudiam, abriu-se a porta dum gabinete e alguém procurou conhecer, cheio de interêsse, quem possuía a primorosa voz que assim arrebatava. Era o actor Firmino Rosa. Feita a apresentação, Almeida Cruz voltou a cantar; mas não tardou que Firmino, maravilhado por tão imprevisto quão feliz encontro, o apresentasse, por sua vez, aos demais companheiros.


O primeiro a quem aquêle actor o apresentou foi o empresário Gouveia, preferência de que José Ricardo não gostou, porque já nessa altura se esboçava entre êle e o sócio a desinteligência que havia de separá-los. Mas entre aquêle empresário e José Ricardo, como em tôda a companhia, foi unânime o acôrdo sôbre o mérito do nosso conterrâneo, sôbre as faculdades da sua voz extraordinária, e em volte de Almeida Cruz tôda a noite rodopiavam os elogios e as sugestões para que seguisse a vida artística, onde todos lhe prediziam um triunfo glorioso.


Se os elogios, por virem de quem vinham, eram autorizados e conscienciosos, as sugestões eram pertinazes e convincentes.


Aquela noite foi decisiva para o estimado boémio, que às serenatas da Figueira imprimira um brilho jamais igualado; e quando, de madrugada, Almeida Cruz deixou a camaradagem daqueles artistas, havia anuído já, por insistência do empresário Gouveia, a comparecer na tarde seguinte no Hotel Aliança, onde a companhia estava hospedada, para fazer, ao piano, mais completas demonstrações da voz.


Á hora aprazada não faltou no hotel, onde o aguardavam alguns artistas com o maestro Tomaz Del’Negro. Levava as músicas que compusera, mas porque estavam escritas na clave de sol, para violão e canto, não serviam para a experiência. O ilustre maestro apressou-se, porém, a dispensá-lo das demonstrações, que reconhecia desnecessárias, e limitou-se a apontar a lápis algumas notas nas composições de Almeida Cruz, que êste distinto figueirense conserva como recordação do seu primeiro passo para a vida artística. Ali se assentara, finalmente, na sua ida com a companhia para Lisboa.


E foi assim, depois de tranquilizados os pais pelo compromisso do empresário Gouveia, tomado perante o padrinho de Almeida Cruz, Doutor António Lopes Guimarãis Pedrosa, de fazer tôdas as despezas com a experiência combinada e de o repor sob as telhas paternas se o êxito não confirmasse o vaticínio de todos, que, dois dias depois dessa última noite de boémia no afamado Barba-Azul, o nosso glorioso patrício deixou definitivamente a terra natal para iniciar a carreira em que depressa conquistou, através dos mais brilhantes triunfos, o primeiro lugar entre os tenores portugueses.

António Maria Monteiro de Sousa de Almeida Cruz nasceu em Tavarede no dia 1 de Maio de 1879, e é filho de José Maria de Almeida Cruz e de D. Maria Guilhermina Monteiro de Sousa e Cruz.


A sua inclinação para o teatro manifestou-se cedo. Tinha apenas 9 anos quando representou pela primeira vez em público. Foi no Casal-da-Fonte, freguesia de Lavos, em casa do Dr. Lopes, numa récita carnavalesca, com a cena cómica Um Alho. O ilustre artista ainda hoje revive o insucesso inesperado dessa verdadeira... alhada.


Antes da sua altura de subir ao estrado, garganteou uns fadunchos o dr. Jaime da Guitarra, conhecido boémio que era Administrador do Concelho, na Figueira. Os aplausos foram fartos. O jovem estreante partilhou do entusiasmo do público, e, sentindo receio de não fazer boa figura, disse aos pais que já não recitava.


Para vencer tal teimosia, teve a mãi de lhe pregar um sopapo, e a cena-cómica Um Alho, dita ainda a choramingar, teve daquela vez o sabor dum alho...chocho.


Aos 13 anos, num teatrito da segunda travessa da Rua das Rosas, em récita dos alunos da escola do saudoso Joaquim Evangelista, onde estudava, desempenhou em travesti o papel de Dona Ana na comédia em um acto Não subas as escadas às escuras.


Em 1895, foi Almeida Cruz para Coimbra assentar praça no Regimento de Infantaria 23, como aprendiz de música, e ali tomou parte numa festa promovida por sargentos no teatro “dos Bôrras”, cantava fados e modas da sua autoria, por êle próprio acompanhadas a violão.


Com 18 anos, em Tavarede, no teatrinho do Paço do Conde, desempenhou o papel principal da comédia Atribulações dum estudante. Pela mesma altura representou também neste teatro e no teatro Duque, de Buarcos, a comédia Médico à força.


Em 1898 embarcou para Luanda, com colocação prometida na casa Lopes Ferreira & Cª., pertencente a dois figueirenses. Quando, porém, um dêstes patrícios lobrigou na bagagem do recém.chegado uma rabeca e um violão, torceu o nariz com suspeitas do hereje, que assim mostrava pecar contra a boa ortodoxia do comerciante pragmatista, pé-de-boi, incompatível com quaisquer pruridos de literatura ou de arte, e vedou-lhe as portas do seu estabelecimento, colocando-o na Companhia do Gás, daquela cidade, onde Almeida Cruz foi desempenhar as funções de inspector. Mas a tolerância do gerente da Companhia emparelhava com a do bemquisto comerciante, e pouco tempo ocupou o lugar. Em face da hostilidade daquele meio comercial, abalou para Catumbela, onde foi guarda-livros da casa João J. Branco & C.ta.


Ao cabo de treze meses, por não lhe serem propícios os ares coloniais, regressou à Figueira. Não deixou, todavia, nesse curto período, de mostrar por lá as suas aptidões artísticas. No teatro de S. Paulo, daquelq cidade ultramarina, representou, com êxito notável, as comédias Lição para noivos e Atribulações dum estudante, e no teatro de S. Filipe, de Benguela, também representou várias vezes esta última, e cantou, com muitos aplausos, inspiradas modas, entre as quais uma chamada As minhas vizinhas, que ali se tornou predilecta.


Em 1900, no antigo teatro “do Celeiro”, de Buarcos, fêz o trabalhoso papel de Pedro no drama O coração dum bandido, representou as comédias História dum pataco e Quero falar à Srª. Queiroz, e a farsa O santo fingido, da autoria do pai do artista. No mesmo teatro e pela mesma altura foi também Almeida Cruz o ensaiador dum grupo cénico feminino, no qual começavam a revelar seus méritos as apreciadas amadoras Mabília Guerra e Maria Vieira.


No Natal do mesmo ano desempenhou o papel de pastor no Auto do Menino Jesus, nos teatros de Tavarede e Buarcos.


Tomou parte na inauguração do teatro de Brenha, e poucas foram as récitas de amadores dadas por êsse tempo nos teatros da Figueira, Buarcos e Tavarede a que êle não levasse a sua valiosa colaboração.


Também ao teatro de S. João-do-Campo ficou ligado o seu nome, quando o prestidigitador Hermann ali foi exibir as suas habilidades. O nosso conterrâneo completou o espectác ulo com a apresentação de um grupo musical de Tavarede, que dirigia.


No seu regresso de África, Almeida Cruz também se dedicou ao magistério. Foi o primeiro professor da Escola Nocturna Popular Bernardino Machado, em Buarcos, fundada pelo saudoso benemérito e democrata Fernando Augusto Soares. A posse foi-lhe dada pelo próprio patrono da escola, dr. Bernardino Machado, que presidiu à festa da sua inauguração.


Em 1894 foi para Guimarãis empregar-se na da Casa Noiva, e em 1897, na Figueira, esteve no escritório da Companhia do Gás e da Água, e também passou, como eu, que estas linhas subscrevo, e tantos outros, pelos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta, êsse refugium peccatorum da rapaziada figueirense. Embora fôsse sempre cumpridor nos seus empregos, o seu temperamento boémio e artístico em nenhum deles se acomodava. Outras tendências o impeliam; outra vida lhe estendia os braços carregados de aplausos.

São estes os traços principais da vida de Almeida Cruz antes de iniciar a sua brilhante carreira no teatro musicado português. A sua estreia profissional fêz-se com invulgar sucesso no teatro da Trindade, em Lisboa, na noite de 19 de Setembro de 1901, com o desempenho do papel de Nicolau, na opereta Os Sinos de Corneville; e, através das trezentas personagens que nestes 36 anos tem interpretado, sempre o ilustre figueirense triunfou.


Mas as referências à sua gloriosa vida de artista terão de ficar para outra vez, dada a extensão que já leva este artigo.



por Fernandes da Silva


(de Album Figueirense)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Primeiro de Maio e Os Inseparáveis

No dia 1 de Maio de 1971, em “reunião de saudade”, na sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, juntaram-se, para recordar tempos idos, os componentes do Grupo Os Inseparáveis ainda vivos e alguns convidados.


Do programa, distribuido aos presentes, constava uma romagem ao cemitério para deposição de flores nas campas de “Os Inseparáveis” já falecidos, seguindo-se o tradicional almoço de “raia de pitáu com batatas cozidas”.


Como introdução ao programa, escrevi, então, a seguinte “Evocação”:

“... já a música afinou os instrumentos. Potes floridos riem e bailam nas cabeças das raparigas. O ar está cheio de cor e de perfumes. Formou-se o cortejo. Tudo pronto!... Vamos! Vamos! Siga o rancho até à fonte, a cantar e a dançar e a dar a volta à Figueira!... Lá vai! Lá vai o Rancho do 1º. de Maio, lá vão os potes floridos da terra do limonete!... (De “O Chá de Limonete”)

Esta era uma das tradições do 1º. de Maio da nossa terra. Outra. também este dia, era o da reunião de “Os Inseparáveis”. Também tínhamos foguetes!... Também tínhamos música!... Mas, sobretudo, tínhamos a alegria, filha de uma sã e indesmentível amizade.

Depois do almoço, na quinta do sr. José Duarte


Sempre desejado por todos, ainda o sol não era nascido já nós acorríamos ao local da reunião, na esperança de mais um dia feliz. E essa esperança, ano após ano, sempre se tornou uma realidade.


Acabou o grupo! Porquê?... “Os Inseparáveis”, desmentindo o seu nome, separaram-se porque foram vencidos pela morte. Partiram alguns para a grande viagem sem fim. Era impossível a continuação sem eles.


Hoje, resta-nos a saudade. E foi essa saudade que deu origem a esta reunião. Vamos visitar, à sua eterna morada, os nossos queridos companheiros já falecidos. As flores da nossa terra, desta Tavarede que eles tanto amaram como nós amamos, serviam neste dia para enfeitar os “potes floridos”. Servem-nos agora para testemunhar a nossa saudade. Depondo-as sobre as campas dos que já partiram e evocando a sua memória, confirmamos que a amizade, tal como a saudade, ainda existe porque é eterna.”

Deixo aqui, e antes de resumir a história do grupo, o nome de todos aqueles que, por mais ou menos tempo, fizeram parte de “Os Inseparáveis”:

“Adriano Augusto Silva, Alexandre Simões, Alberto Ferrão, António Augusto de Figueiredo, António Migueis Fadigas, Augusto Marques Pereira, Augusto da Silva Jesus, César Fernandes, Elói Domingues, Fernando Machado, Fernando Severino dos Reis, Fernando da Silva Ribeiro, Francisco de Carvalho, Isolino da Silva Proa, João Medina, João Nogueira e Silva, João Renato Gaspar de Lemos Amorim, João da Silva Cascão, Jorge Medina, José Fernandes Mota, José Francisco da Silva, José Nunes Medina, José Russo, Manuel Duarte Gomes, Manuel Fernandes Pinto, Manuel Nogueira e Silva, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Pedro Nunes Medina, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos”.

Destes, restam ainda vivos, felizmente, cinco: Fernando Machado, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos.


Como começou?


Em meados dos anos vinte, meu pai, Pedro, e seus primos Jorge e João Medina, resolveram criar o costume de fazerem uma almoçarada no dia 1º. de Maio. Almoçar e confraternizar nesse dia festivo. Logo no primeiro ano chamaram para junto de si o irmão e primo Ricardo, ainda sem idade para trabalhar e, portanto, como convidado.


Estabeleceram desde logo a tradição do principal prato do almoço ser “raia cozida com molho de pitáu”. Vendo o prazer e satisfação daqueles familiares ao combinarem todos os pormenores, a irmã e prima Violinda, um pouco mais velha, logo se dispôs a lhes proporcionar uma singela sobremesa do tradicional arroz doce.


Mas eram poucos e, tendo tantos e tantos amigos seus conterrâneos, familiares ou não, logo nos anos seguintes, uns por convite e outros por iniciativa própria natural foi o aumento do grupo.


Não há elementos que permitam estabelecer a composição do grupo nas diversas reuniões. Para esta compilação, socorri-me do meu tio Ricardo (um dos cinco sobreviventes) e das fotografias, bem velhinhas, que existem.


Alvorada, na Rua Direita


Tomaram o nome de “Os Inseparáveis” e, efectivamente, formavam um grupo em que a amisade era nobre e verdadeira. Como exemplo, anota-se que, houve dois casos de conterrâneos inscritos mas que só lá estiveram um ou dois anos. Os seus feitios não se coadunavam com o espírito de “Os Inseparáveis” e, antes que houvesse problemas indesejados, foram convidados a abandonar o grupo.


Quando começaram a ser sete ou oito, houve que fazer algumas alterações ao sistema anterior. A raia de pitáu e o arroz doce já era pouco. Contrataram uma cozinheira: a Alice Fernandes, irmã do César. Consigo, e como ajudante, levou o Fernando, ainda muito novo e que, como paga do seu trabalho, participava nos “comes e bebes” gratuitamente, isto até se tornar sócio efectivo.


O “menú” foi reforçado. Além da raia, que sempre foi o prato forte, passou a haver ao almoço um prato de carne, normalmente bifes de cebolada.


Para o financiamento das despesas cada sócio comparticipava com uma quota semanal de um escudo (dez tostões!), o que dava cinquenta e dois escudos por ano e por sócio. Pois com este valor compravam o necessário para o pequeno almoço, almoço e jantar. E como compravam sempre os géneros em abundância, ainda iam jantar no dia seguinte. Era sempre uma fartura!


E como passavam o dia?


Manhã cedo, a alvorada. Foguetes e fanfarra na rua, acordando alegremente a aldeia com o acorde das violas, flauta, bandolim e outros instrumentos.


Seguia-se o pequeno almoço. Pão acabado de sair do forno, manteiga, café com leite...


Eram, então, distribuidas as tarefas: uns iam ao mercado, à Figueira, fazer as compras, outros preparavam as instalações. Nos últimos anos era em casa do Zé Duarte, pai do sócio Manuel, que a cedia de boa vontade. E nos dias de sol, o almoço era na eira, da parte de cima da casa, onde, perto, havia um enorme pinheiro manso, que dava uma sombra mesmo convidativa.


Depois do almoço havia que fazer a digestão: “bem digerir o que bem comeram e melhor beberam...”. Jogos de futebol, jogos de malha, sestas, cartas tudo servia para passar a tarde alegremente. Várias fotografias recordam estas tardes!


Chegada a hora do jantar, eis que se sentavam à mesa, prontos para o ataque. O almoço já lá ia. Arroz de ervilhas com galinha, coelho à caçador, era o costume. Mais sobremesa. Mais uns copitos. E, claro, para enfrentar a noite que ia caindo, nada melhor que uma “garujada”. E voltavam as violas, guitarras e bandolins a serem dedilhados. Não demorava muito para que meu tio José, músico de alta craveira, levantasse os braços para reger o orfeão. Bem afinadinho que, nessas coisas, ele não era para brincadeiras...


Lá vinha o “alecrim do monte”, a “menina Luísa” e outras tantas que faziam parte da tradição musical de Tavarede, terra de músicos como agora, infelizmente, não há.


Era já noite alta, madrugada adentro, quando tocava a dispersar. Um último copo e, até amanhã ao jantar, para acabar com as sobras e fazer as contas. Os cinquenta e dois escudos, que cada um pagava de quota, davam e sobravam.


E ao despedirem-se, na sua maioria visinhos de todos os dias, fazia-se a habitual promessa: “P’ró ano cá estaremos!...”

O PRIMEIRO DE MAIO DE TAVAREDE


Pote Florido -



P’ra saudar Maio florido,
Tão propício aos namorados,
Vem o cortejo garrido
Com seus potes enfeitados!

E as alegres raparigas,
Contentes com seus amores,
Enchem o ar de cantigas
E do perfume das flores...

E o pote de barro
Tremendo no ar,
Parece bailar
Alegre e bizarro,
Parece brincar
Co’a moça travessa
Que o leva à cabeça,
Feliz, a cantar...

É amanhã o 1º. de Maio. E então as raparigas correm os quintais, vão às leiras ajardinadas, e de toda a parte trazem flores!

Deixando o seu pote enfeitado, a cachopinha foi deitar-se; mas passou a noite em claro, a pensar na alegria da manhã que vai nascer... Ainda escuro, salta da cama, veste a saia ramalhuda e a blusa de rendas, põe na cabeça o cachené lavrado, e pega no cântaro florido, que cheira que consola! Ainda vem longe o dia, mas são horas de ir chamar as mais: - Ó Rosa! Ó Maria José! Ó Joaquina! Vá depressa, raparigas! Daqui a pouco nasce o Maio, e se ele dá com vocês na cama, já sabeis o que vos faz: deixa-vos amarelas todo o ano! Olha, ali vai o Manuel c’o violão... Avia-te, rapaz, que já lá estão os outros... Eia! Aí vem a Laura, mais a Anita, e a Augusta e a Teresa...

Já a música afinou os instrumentos. Potes floridos riem e bailam nas cabeças das raparigas. O ar está cheio de cor e de perfumes. Formou-se o cortejo. Tudo pronto!... Vamos! Vamos! Siga o rancho até à fonte, a cantar e a dançar e a dar a volta à Figueira!... Lá vai! Lá vai o rancho do 1º. de Maio, lá vão os potes floridos da terra do limonete!... (Mutação - Sobre um fundo azul, à luz ainda baça dum alvorecer que apenas se adivinha, mal se destacam os contornos da paisagem. Dois motivos dominam o quadro - uma fonte rústica onde a água não deixou de cantar, e o Sol, emergindo por detrás dos montes distantes. Ouve-se o rancho cantando ao longe a sua marcha tradicional do 1º. de Maio - Só vós ó belas... - enquanto o Sol vai subindo e doirando o ar. As vozes estão já muito perto; distingue-se o toque das rabecas, da flauta e dos violões. Todo o Sol se mostra já, redondo e brilhante, e a fonte está agora em plena luz, - e é quando entra o rancho cantando: - Viva o Maio! Viva o Maio! À frente da tuna o rapaz da pandeireta, depois as raparigas levando à cabeça os potes enfeitados, cada uma com seu rapaz ao lado. O rancho, sempre cantando, deu a volta e seguiu seu caminho, perdendo-se as vozes na distância...)


Espetáculo na SIT - 4.2.2004


Da peça 'Chá de Limonete - 1951 - José da Silva Ribeiro

sábado, 23 de abril de 2011

Carlos Lopes Pinto



Natural da freguesia de Tavarede, nasceu a 19 de Outubro de 1927, filho de António Lopes Pinto e de Carmina Pinto. Casou com Arcelina Domingues e teve dois filhos, Carlos e Fernando.


Faleceu no dia 10 de Fevereiro de 1998.


Durante vários anos pertenceu aos órgãos sociais da Sociedade de Instrução Tavaredense, onde desempenhou o cargo de presidente da Direcção nos anos de 1979 e 1980 e de presidente da Assembleia Geral em 1995 e 1996.


Também fez parte do grupo cénico, embora com uma participação muito breve.


Residia no Vila Robim e, profissionalmente, foi técnico de contas.

Caderno: Tavaredenses com história