quinta-feira, 19 de maio de 2011

Arte do Povo e para o Povo

Entre os muitos deslumbramentos que em mim causou a viagem aos países nórdicos, ocupa um lugar destacado a protecção do Estado e das comunas ao teatro do povo, dando à expressão o seu verdadeiro significado – artistas do povo representando para o povo. Particularmente na Finlândia, onde me apercebi com mais detalhe do problema, essa protecção ultrapassa o dever do estado para atingir as culminancias duma verdadeira consagração nacional. São às dezenas os grupos de amadores que, desde as regiões polares até Helsínquia, se dedicam, no intervalo das suas vidas de trabalho afadigado e operoso, a fornecer ao público o precioso alimento espiritual de que, só o teatro, na sua simplicidade e na sua estreita comunhão, é capaz. Não posso, é claro, pronunciar-me sobre o valimento desse teatro, pelo desconhecimento completo da língua arrevezada e difícil, mas o que posso garantir é que ouvi a artistas finlandeses as melhores referências e a afirmação de que são esses núcleos os permanentes mantenedores do prestígio dum espírito sem o qual o teatro acaba por estiolar-se! E é precisamente desses núcleos que saem os grandes artistas profissionais, para os quais, segundo parece, se não exige um exame declamatório e enfatuado…


Por aquilo que ouvi, não é possível fracassar na Finlândia uma iniciativa deste género, a não ser por incapacidade congénita dos amadores, pois as facilidades económicas são tão grandes e o acesso aos teatros tão acentuado que, agrupados os artistas e expostas as suas pretensões, o ambiente oficial ou comunal e a compreensão pública se manifestam, não no campo das promessas, mas sim no das certezas e realidades.


Parece-me ser este o caminho e esta a única solução. Se assim sucedesse, entre nós, é natural que o Teatro não apresentasse o aspecto confrangedor que o arrasta pelo Parque Mayer ou que as iniciativas altas e honradas de alguns homens sérios morressem desfalecidas e sem protecção. Isto no que respeita à compreensão oficial do papel dos pequenos núcleos porque, como é óbvio, o que se passa com os grupos profissionais excede todas as críticas.


Mas vem isto a propósito de dois acontecimentos ocorridos no nosso meio artístico, para os quais chamo a atenção dos interessados e dos próprios poderes políticos.


O primeiro é do conhecimento geral:
A grandeza do Teatro dos Estudantes de Coimbra, dirigidos pelo saber e pelo sacrifício do professor Paulo Quintela, cuja fama ultrapassa as fronteiras e constitui grande jubilo para todos os portugueses, através da atmosfera de entusiasmo que o envolveu na sua digressão pela Alemanha, Itália e Espanha, sobretudo nos dois primeiros países, em que a cultura teatral faz parte integrante da cultura geral.


O segundo é a arte excepcional do grupo de Tavarede, cujo “Frei Luiz de Sousa”, recentemente representado em Leiria, demonstra a que altura pode chegar a massa anónima do povo quando iluminada pelo trabalho persistente e pela humana cultura dum José Ribeiro.


No primeiro caso há que contar, sem dúvida, com a preparação dos jovens artistas, estudantes universitários, conhecedores do ambiente e da literatura, ou, pelo menos, acessíveis à compreensão dos temas e dos personagens. É um facto a contar que não desmerece do valor e da beleza desse agrupamento de “elite”.


Mas o segundo?


Haverá melhor expressão de riqueza popular do que esses artistas proletários, debruçados dia a dia, nos trabalhos duros da profissão e entregues nos longos serões à “compreensão” dos seus papéis, sem cultura, alguns analfabetos e outros sabendo ler mas ilaqueados pelas dificuldades intelectuais duma rápida assimilação?


Mesmo que tenham à sua frente um homem invulgar como José Ribeiro, seu mestre e companheiro, como desconhecer o esforço hercúleo dessa massa erguendo-se à contemplação da beleza e sabendo-a transmitir de forma a causar inveja a alguns filiados no Sindicato profissional?


Só quem, como nós, assistiu à representação do “Frei Luiz de Sousa” pode avaliar da emoção, da verdade e da sinceridade, que esses proletários-artistas põem ao serviço duma arte, que eles tanto sentem nos recessos das suas almas de eleição, embora tocados por uma simplicidade comovedora e aliciante.


Por aqui se aquilata a necessidade de proteger esses núcleos, tal como se pratica nos países do norte europeu. Protecção que terá de ser eficiente no aspecto das facilidades oficiais, na isenção de taxas e sobretaxas, no acesso aos teatros, na oferta de literatura especializada e na abertura de pequenos anfiteatros, onde os responsáveis e os esclarecidos exponham, em conversa fácil, os problemas da arte teatral.


O mesmo principio deverá ser aplicado a todas as manifestações de arte do povo, sejam eles os orfeãos magníficos que possuímos e que vivem uma hora difícil e agónica, as orquestras populares e as manifestações plásticas dos nossos artistas populares e desconhecidos.


A “carolice” não pode fazer milagres e não é justo exigir-se das bolsas particulares e do suor não compensado de meia dúzia, todo um trabalho em beneficio da Nação e, portanto, de todos nós.


É esta uma das modalidades duma política do espírito, a que daríamos a nossa adesão se alguém se lembrasse de a efectivar.


Quando será? (República - 1952.11.13)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

TAVAREDE HOMENAGEOU CAMÕES

O Dr. Hernâni Cidade, no palco da SIT, depois do espectáculo de homenagem a Camões



Conforme já aqui tivemos ocasião de noticiar, o categorizado grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense (quase 70 anos de permanente actividade, posta, com a maior devoção e ternura, ao serviço da cultura popular), mais uma vez voltou a dar amplas provas do seu reconhecido valor e da sua incontestada capacidade artística.



E mais uma vez soube impor os seus relevantes e incontestados méritos, numa aceitação total, plena de emoção e de delirantes aplausos, perante um público categorizado e exigente, em que se encontravam gradas personalidades de Lisboa, Figueira, Coimbra, Leiria, etc., etc., algumas das quais se habituaram, desde há muito, a ir ao encontro dos amadores-artistas de Tavarede, nas suas representações teatrais – para as apreciar e aplaudir, não por mera e generosa benevolência, mas por convicção e inteira justiça.



Sábado, 4 de Novembro. Mais um espectáculo, no elegante e confortável teatrinho de Tavarede (totalmente remodelado e beneficiado, há poucos anos, graças à generosa ajuda material da benemérita Fundação Gulbenkian), com a muito grata e honrosa presença do eminente Prof. Dr. Hernâni Cidade, ilustre presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”, que de Lisboa, acompanhado de outras também ilustres personalidades, ali se deslocou.



O espectáculo comemorativo do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, constava da representação do “Auto de El-Rei Seleuco”, da autoria do imortal Poeta; e de uma “Evocação”, em duas partes e dez quadros (a 1ª parte – “O Trinca-Fortes” (1551), com as cenas “Encontros no Mal-Cozinhado”, “A merenda da Infanta” e “Do tronco para a Índia”; e a 2ª parte – “Os Lusíadas” (17 anos depois), com as cenas “Regresso da Índia”, “… e ninguém mais falou nele!”, “Ante o censor dos Lusíadas”, “O Velho do Restelo”, “O Adamastor”, “Concilio dos Deuses” e “Quem compra os Lusiadas”, da autoria de mestre José Ribeiro, interpretada por mais de 50 dos seus briosos e consagrados pupilos; caprichosamente montada, vestida e encenada, sob o maior rigor, pelos apaixonados amigos da SIT, de Lisboa, srs. Alberto Anahory, que estudou e preparou todo o primoroso guarda-roupa, histórico e de fantasia; António Tomás, que gravou, amavelmente, a “Voz de Garrett” e a “Voz dos Lusíadas” e realizou toda a sonorização; José Maria Marques, que se incumbiu da cenografia, a todos os títulos brilhante e rigorosa, excepção feita a algumas cenas no “Mal Cozinhado” e do”Concilio dos Deuses”, com as quais foram evocados os ilustres e saudosos amigos daquela benemérita instituição cultural (que tanto tem sabido honrar a sua linda aldeia, senão o Concelho da Figueira e o próprio distrito de Coimbra, onde não é ignorado o real valor dos amadores teatrais tavaredenses), prof. Manuel de Oliveira e Rogério Reynaud (este figueirense) e o actual padre da paróquia local, dr. João Evangelista Amado, que orientou o cântico litúrgico.




E – já agora – expliquemos os precedentes que motivaram tão louvável e patriótico movimento artístico e conduziram o José Ribeiro à decisão – a todos os títulos louvável – de procurar vincar, pelo teatro, na sua aldeia e pelos seus pupilos, esta histórica efeméride.




Tendo sido previamente convidado – muito digna e acertadamente - pela Câmara Municipal (pelouro da cultura) para estudar a maneira de pôr em prática a representação, na Figueira da Foz, por intermédio do laureado núcleo dos seus amadores, uma peça alusiva à Comemoração do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, aquele nosso ilustre conterrâneo e muito prezado e velho amigo – coração de oiro e alma sempre aberta às mais elevadas e dignificantes iniciativas culturais e filantrópicas -, prontamente correspondeu a tão delicada incumbência…



… escrevendo, ensaiando e preocupando-se, ainda, apaixonadamente – como é próprio dos seus brios e das suas reconhecidas exigência – com a montagem das peças a que acima aludimos…



… e cujas representações (cremos que já em número de seis ou sete), quer na oficial – chamemos-lhe assim – realizada no Grande Casino Peninsular, que redundou, ao que nos foi informado, numa consoladora e delirante apoteose, tendo nessa altura sido conferida à veneranda Sociedade de Instrução, num relevante acto de consciência e de justiça, a Medalha de Mérito (Ouro) da Câmara Municipal, quer em Tavarede, redundou num assinalado e consolador êxito…



… e numa grande satisfação e alegria para José Ribeiro e para os seus simpáticos e garbosos discípulos.



E pressentimos este “fenómeno”, porquê?



Precisamente porque – e tão sentimentais e dignificantes decisões não nos consta que houvessem sido tomadas por mais ninguém, no País, com mais possibilidades e obrigações morais para o fazer – mas não fez -, isso proporcionaria mais uma admirável oportunidade para provar que à humilde gente de uma linda aldeia portuguesa, toda devoção e paixão pelo teatro, não havia escapado mais uma data histórica e, como tal, sentiria orgulho em comemorá-la!...



Assim, e a exemplo de que acontecera nas respectivas datas, em que na SIT, em Tavarede, foram comemorados, com a maior relevância e dignidade, o 5º Centenário de Shakespeare; o Centenário de Almeida Garrett; o Centenário do Infante D. Henrique; o Cinquentenário da Morte de D. João da Câmara e o Centenário de Marcelino Mesquita; se aos reconhecidos méritos dos amadores-artistas da linda terra do limonete tinha isso sido possível, essa grande honra, graças à batuta-mágica de mestre José Ribeiro, na sua qualidade de autor e ensaiador competentíssimo, porque não havia ele, acedendo, de ânimo jubiloso, ao que, em tal sentido, lhe fora solicitado oficialmente, de aproveitar a oportunidade para marcar, mais uma vez, uma relevante posição do seu admirável querer e das suas ricas possibilidades intelectuais e artísticas, escrevendo, ensaiado e pondo em cena a referida peça, comemorativa da patriótica efeméride do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões?



Ora foi precisamente isso que se deu…



E com que prestigiante elevação!...



Foi, pois, ao espectáculo do passado dia 4, realizado no teatro da SIT, que o ilustre professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sr. Dr. Hernâni Cidade, eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações Camonianas – que desde há muitos anos se digna honrar-me com a sua preciosa amizade, a pontos de já por diversas vezes ter colaborado no meu “Jornal de Sintra” -, esteve presente e se fez acompanhar de diversos intelectuais seus amigos.



Entusiasmado por meu filho, que dias antes, vindo do Norte e indo beijar a familia a Tavarede (onde também nasceu), assistiu a uma representação da aludida peça, também, com ele, a esposa e filha, minha mulher e um casal amigo, ali me desloquei.



Dou-me por muito feliz tê-lo feito. O contrário redundaria numa carga de remorsos que nunca mais deixaria de pesar-me na consciência…



Ao abrir o espectáculo, José Ribeiro, descendo ao proscénio, num improviso felicíssimo, como sempre, cumprimentou e saudou, brilhantemente, o ilustre e categorizado académico, regozijando-se com a grata presença de tão elevada personalidade, que honrava, sobretudo a veneranda colectividade de cultura popular da sua terra e os seus humildes amadores teatrais, todos gente do povo, para quem pediu a maior generosidade e benevolência na interpretação das peças que iriam apreciar.



E o espectáculo começou pela ordem em acima referida…



… e acabou, sob uma estrepitosa, interminável e delirante salva de palmas, devidas aos artistas competentes, e chamadas entusiásticas a José Ribeiro . que bem mereceu, de facto, as retumbantes manifestações de carinhoso apreço de que foi alvo!



Antes do pano baixar, o ilustre espectador, sr. Dr. Hernâni Cidade, subiu ao palco, onde lhe foi entregue, por uma amadora, um lindo e viçoso ramo de flores, após o que, no uso da palavra, proferiu um eloquente discurso – que foi bem uma magnifica lição histórica – em que envolveu, na simpática pessoa de José Ribeiro, o seu apreço ao grupo cénico que acabara de apreciar e o seu abraço de simpatia ao bom povo da linda aldeia em que se encontrava, rodeado dos mais cativantes e bem merecidos carinhos.



Uma apoteótica salva de palmas coroou a magistral lição do ilustre orador.



No salão de recepções da SIT foi, depois, servido a convidados de honra presentes ao espectáculo, amadores cénicos, etc., um suculento “copo-de-água”, que deu ensejo a que todos os presentes se regalassem de ouvir mais dois brilhantes discursos, primeiro, pelo velho amigo José Ribeiro, depois, pelo eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”.



Mais uma vez saí, orgulhoso, de Tavarede – e profundamente envaidecido pela cada vez mais aprimorada capacidade artística dos meus conterrâneos! Só é pena que, tanto o espectáculo de agora, como tantos outros que lá têm sido realizados, todos da mais reconhecida e categorizada interpretação e rigorosa encenação, fiquem só por ali e pela Figueira…



Um grande abraço de parabéns, pois, ao “velho” Zé Ribeiro e aos seus pupilos, entre os quais a “hierarquia” dos Medinas continua a estar bem representada – em quantidade e qualidade – graças a Deus!...



De represso a Sintra, pensei em dirigir um pedido de duas palavrinhas, sobre os tavaredenses, a tão ilustre catedrático, quase certo de que não deixaria de ser gratamente atendido; e, como tal, assim o fiz, tendo logo merecido a desvanecedora atenção de Sua Exª, que se dignou honrar-me com a carta que se segue – e aqui se agradece, reconhecida e gratamente, com um sincero e respeitoso abraço de muita admiração e estima. Bem haja, pois, por tamanha honra, sr. Dr. Hernani Cidade:



Sr. António Medina, Meu prezado amigo:



Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.



Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano – El-Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer.



José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração, que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra a sua devoção cívica e a sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneo.



É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.



Aqui tem, meu querido amigo, o que, da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo Hernâni Cidade. (Jornal de Sintra - 1972-11-25)

sábado, 14 de maio de 2011

Chá de Limonete - livro



Devido a umas buscas que ando a fazer, bastante difíceis por sinal, sobre a história da nossa terra e também da família Quadros, morgados e condes de Tavarede, não tenho grande disponibilidade para continuar, por agora, com estas historietas sobre a minha terra natal.


No entanto tenho muita coisa que ainda queria aqui transmitir, pois Tavarede foi fértil em temas interessantes.


Além de continuar com a publicação de alguns 'Tavaredenses com história', vou publicar algumas notícias, das muiotas que recolhi, e que estão nos 13 ou 14 cadernos que compilei da imprensa figueirense. Julgo que terão interesse. Hoje abri o caderno dos anos 50 do século passado. E lá foi encontrar, entre coisas curiosas, muitos escritos aquando da publicação do livro ' Chá de Limonete ', da autoria de Mestre José Ribeiro, por ocasião das Bodas de Ouro da SIT. Pena este livro estar esgotado. Mas. vejamos duas dessas notas:

Mais e mais temos de nos convencer de que Portugal não é só Lisboa: está ante nós uma xícara do delicioso “Chá de Limonete”, que é uma lição muito para meditar…
Em uma pequenina aldeia, lá para as bandas da Figueira da Foz, existe uma agremiação notável: deve ser pobre, pelo modesto centro onde actua e pela exiguidade das quotas dos seus sócios mas é rica de boa vontade e dedicação; é rica pelo fim que tem em vista e cumpre denodadamente – é a Sociedade de Instrução Tavaredense. A forma de cultura que adotou é a instrução pelo teatro. E assim instrui, educa e distrai.
Mantem o seu grupo cénico mas, para bem cumprir o seu mandato, cada peça a representar é o pretexto para uma alegre e proveitosa lição, desde a explicação dos vocábulos pouco acessíveis aos menos cultos, até ao estudo da divergência de géneros e estilos, ao esclarecimento de épocas, usos e costumes.
E há 30 anos que dura esta acção cultural!
Pois foi ao serviço da simpática e prestimosa Sociedade Cultural de Tavarede que José da Silva Ribeiro colocou o seu mérito de escritor dando ao grupo cénico a fantasia “Chá de Limonete”. E aqui, com esse trabalho, surge outra lição – lição de aprumo, lição de moral. O “Chá de Limonete” prova aos nossos revisteiros, que tão frequentemente recorrem à obscenidade, que se pode fazer trabalho meritório, teatro movimentado, atraente, sem abandonar a linha de decoro, sem esquecer que a principal e mais alta missão da cena é educar e moralizar, que para criar a beleza não é necessário estadear no palco montes de carne nua.
Às qualidades apontadas, o reconfortante “chá” junta ainda a alegria e a arte.
Esta peça tem uma curiosa novidade: é uma proveitosa lição de história. Levezinha, que o público a quem se destinou não está ainda em condições de profundar muito. Poderíamos chamar-lhe revista histórica ou monografia teatralizada.
Os sucessos, interessando o local, desde a sua antiquíssima origem, vão sendo referidos pelo “Velho Tavarede”, o respeitável ancião que tudo presenciou… E os quadros vão-se sucedendo, na mutação de revista e o público vai tomando conhecimento, a sorrir, do que foi a sua terra.
Original e muito interessante.
Mas o “Velho Tavarede” é tão velho, tão velho, que embora sabedor e de memória prodigiosa, já vai tendo lapsos, percalços de senilidade… E, por isso, e só por isso, se lhe teria varrido da ideia aquele convento das freirinhas da Esperança e o outro, o convento quinhentista e ainda, esquecimento de maior monta, o nome do nobre, douto e piedoso Dom Francisco de Mendanha, talvez o mais notável filho de Tavarede, que, depois de ter cursado letras em Paris, como ao regressar à pátria já tivesse falecido seu avô, renunciou ao Mundo procurando a paz do claustro. Mas aí, o douto cruzio, teve de exercer cargos de alta importância na sua Ordem.
Facto interessante: foi D. Francisco de Mendanha quem assistiu como Cancelario da Universidade de Coimbra ao acto de “Mestre em Artes” do infeliz Rei D. António, Prior do Crato.
Mas a mão já trémula do simpático Velho Tavarede deixaria cair de entre os outros o pergaminho onde em letras de oiro estava escrito o nome do culto e piedoso D. Francisco de Mendanha.
Bastaria a cena do acto de “Mestre em Artes” de D. António, com a assistência do Cancelario D. Francisco de Mendanha, para dar um final grandioso a qualquer dos actos da sua fantasia.
E poderia talvez influir com esse trabalho para se dar a uma rua de Tavarede o nome do nobilíssimo e notável padre cruzio D. Francisco de Mendanha.
“Chá de Limonete”… Limonete, Lúcia-lima, erva-luísa, bela-luísa, doce-lima… Chá perfumado que o nosso paladar muito aprecia e que recomendamos como remédio já muito antigo contra as dores de estômago, especialmente as desses estômagos delicados que não conseguem digerir as revistas que por aí pululam…
Muito digno de leitura por elucidativo e bem escrito, o prefácio. (A Voz)



José da Silva Ribeiro é dos homens, neste País tão arredado das coisas da Arte, que mais tem feito pelo teatro de amadores. A ele se deve a actividade constante do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, com uma obra notável de cultura e divulgação teatral.
José da Silva Ribeiro, pelo seu saber, pela sua inteligência, pela sua fé inabalável nos destinos do teatro e da sua magnifica influência no público, pode, com absoluta justiça, considerar-se um mestre. É ao povo que vai buscar os seus colaboradores e dessa gente simples da terra tem sabido arrancar autênticas vocações e sabido moldar comediantes. A propósito do seu grupo, é José da Silva Ribeiro quem escreve: “Tenha-se presente que se trata de um grupo de amadores de uma pequena e humilde aldeia, pobre entre as que mais o são. Aqui se encontram os trabalhadores do campo e da oficina: rapazes e raparigas da enxada, que passam o dia cavando as terras e vêm à noite ao ensaio; operários carpinteiros, pedreiros, serralheiros, raparigas dos alfaiates e das modistas da cidade vizinha, um ou outro empregado de escritório também”.
Agora, José da Silva Ribeiro escreveu para o seu grupo uma fantasia em três actos e 24 quadros, “Chá de Limonete” (histórias de Tavarede), de rara beleza e sabor nitidamente regional, como convinha à intenção da obra. O autor foi à sua “humilde e pequena aldeia” e soube arrancar-lhe tudo quanto em tradição, pitoresco e beleza poderia interessar o espectador. “E se para mais não servir – afirma José da Silva Ribeiro – nem mesmo como espontâneo e franco depoimento de quem vem à barra dizer da sua razão e justiça sobre o teatro de amadores, “Chá de Limonete” ficará como testemunho da nossa dedicação à terra humilde onde nascemos e temos vivido, como hino ao trabalho rural e também como afirmação da simpatia que votamos e da solidariedade que nos liga aos homens da enxada da nossa aldeia, incessantemente cavando o amargo pão de cada dia em terras que não são suas”.
O autor conseguiu, inteiramente, o seu objectivo com a sua obra, quer no palco, em que teve a colaboração de António Simões, que compôs a partitura, e a de mestre Manuel de Oliveira, que desenhou as maquetes dos cenários, quer agora, publicando-a, como um belo documento do seu talento.
José da Silva Ribeiro não merece apenas a gratidão dos seus conterrâneos, da gente simples da sua aldeia, “pobre como as que o são”; merece-a também de todos quantos amam o Teatro. (O Século)


sexta-feira, 6 de maio de 2011

9 de Maio de 1516 - Foral



Foi D. Manuel I, por graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, etc., que, no ano de 1516, deu foral a Tavarede.


Os privilégios, eram para o Cabido, pois, como donatário do couto, pertenciam-lhe os direitos reais. E os tributos, quem os pagava, era o povo. E havia muitos...


Sobre este assunto, consideramos que a análise deste foral, bem como dos restantes tributos que pendiam sobre a vila de Tavarede, deverá ser incluida na parte em que nos debruçamos sobre a vida do povo.


Lá se encontrará um importante trabalho publicado pelo dr. Santos Rocha, em “Materais para a história do concelho da Figueira”, onde descreve os direitos reais, os direitos de entrada e de saída, as franquias, as portagens, os dízimos e os oitavos, as sisas, o eiradego, a colheita e, finalmente, o do forno da poia, este último dos fidalgos de Tavarede, mas ao qual também os moradores do lugar da Figueira da foz do Mondego não escapavam...


Para a câmara de Tavarede é que muito pouco era, pois, até do devido rendimento da sisa, cobrada pelos almoxarifes da Alfândega, “lhes passavam recibo dele, contentando-se com qualquer coisa que os almoxarifes lhes davam, para não perderem tudo”!


Mas, para a história da vila e couto de Tavarede, o mais importante é deixar registado o texto foraleiro.


“...O foral de Tavarede foi dado em 9 de Maio de 1516. Dele existe um dos originais no arquivo da Câmara Municipal da Figueira, mas sem a primeira folha, que continha o tributo raçoeiro do oitavo da produção das terras, como indica o índice do mesmo foral. Este facto explica talvez a mutilação: alguém supôs que, subtraindo a folha, ficariam as terras desoneradas de tão vexatório encargo...”


“... Esta falta é muito sensível, atendendo à referência que faz a esse título o dos -Prasos particulares. Eis as suas palavras: “E além da dita terra (de Tavarede e seu termo) ser aforada primeiramente, na medida que dito he, despois os senhorios com as partes fizerão novos contractos e aforamentos, segundo sam concertados por escripturas e titullos, etc.” “Disto se depreende que o termo de Tavarede era um prazo, cuja origem e natureza estavam explicadas na primeira folha do foral...”


“... Provavelmente esse prazo primordial era já de quotas de frutos ou rações, e tinha origem em algum outro foral ou carta de povoação anterior ao de D. Manuel, que fôsse concedido quer pelo rei, quer pelo Cabido da Sé de Coimbra, como donatário; e é talvez a esse foral primitivo que se refere o título da Colheita.


Livro: Tavarede - A terra de meus avós-1º.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

MARIA ÁGUAS FERREIRA



“Há bastante tempo que a bondosa senhora se encontrava doente e apesar dos carinhos da família e dos esforços da ciência, era esperado já o fatal desenlace, que muito consternou não só as famílias enlutadas como as numerosas pessoas das relações da extinta.


Tinha 66 anos de idade e era natural de Tavarede, filha do sr. Joaquim Alves Fernandes Águas, já falecido”.


Era casada com José da Cunha Esteves, antigo capitão da marinha mercante, e morava na sua Quinta do Peso.


Foi grande protectora das colectividades locais. Em 1900 já ofertara uma fita para o estandarte do Grupo de Instrução Tavaredense, extinto em 1903.


Faleceu em Abril de 1924 e o Grupo Musical e de Instrução, de que era sócia desde a sua fundação, prestou homenagem à sua memória, em Dezembro desse mesmo ano, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no seu salão.


Caderno: Tavaredenses com história

José Luis do Nascimento

Natural da vizinha Brenha, onde nasceu no ano de 1919, era filho de Manuel Luís do Nascimento e de Maria Francisco e casou com a tavaredense Efigénia Grilo, da qual teve dois filhos, Guilhermina e António.


Começou a fazer teatro na Troupe Recreativa Brenhense “onde conheceu José Ribeiro, numa ocasião em que ele lá foi dar os últimos retoques a uma peça”.


Quando veio residir para a nossa terra, de imediato começou a dar a sua colaboração ao grupo cénico da Sociedade de Instrução. Desde Chá de Limonete, em 1950, até Na Presença de Garrett, no ano de 1999, foram cerca de 95 os personagens por ele vividas no palco.


Característico, com especial vocação para a criação de figuras populares, recordamos, sem desprimor para outras interpretações, os papéis de Marchante, em Chá de Limonete, Jeremias, barão da sovela, em Terra do Limonete, O homem da Vaca, David Secura, Carro Gandarês, nas diversas fantasias postas em cena por José Ribeiro.










Quando foi homenageado conjuntamente com João Medina (José Luís à esquerda)

“… representarei enquanto tiver forças para o fazer. O teatro deu-me um à-vontade muito grande e grande facilidade de conversa: não tenho medo de falar com um médico ou com um advogado”, disse ele em certa ocasião.


A Sociedade de Instrução nomeou-o sócio honorário em 1982 e homenageou-o publicamente no ano de 2000, num espectáculo promovido para o efeito. Faleceu em 30 de Março de 2005.


Caderno: Tavaredenses com história

António Paula Santos (António dos Prazeres)

Ribeiro de Tavarede - Chá de Limonete - desenho Zé Penicheiro



Nasceu a 12 de Outubro de 1918 e faleceu no dia 21 de Outubro de 1963.



Figueirense, mecânico de automóveis, casou com a tavaredense Elisa Marques, (1.11.1915 – 14.11.1992) passando a residir na nossa terra. Tiveram um filho, António.



Dotado de boa voz, passou a fazer parte do grupo dramático da Sociedade de Instrução, iniciando a sua colaboração em 1948, em Auto da Barca do Inferno, até ao ano de 1961, na fantasia Terra do Limonete.



Foi ele o primeiro intérprete da famosa Canção do Limonete.



Sua esposa, Elisa, também foi amadora do mesmo grupo cénico. Participou no elenco das peças As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, A Cigarra e a Formiga, O Sonho do Cavador, Canção do Berço, Entre Giestas, O Grande Industrial, etc. Terminou em 1940, colaborando nos Autos Pastoris, uma organização do Grupo Musical.



Caderno: Tavaredenses com história