segunda-feira, 16 de maio de 2011

TAVAREDE HOMENAGEOU CAMÕES

O Dr. Hernâni Cidade, no palco da SIT, depois do espectáculo de homenagem a Camões



Conforme já aqui tivemos ocasião de noticiar, o categorizado grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense (quase 70 anos de permanente actividade, posta, com a maior devoção e ternura, ao serviço da cultura popular), mais uma vez voltou a dar amplas provas do seu reconhecido valor e da sua incontestada capacidade artística.



E mais uma vez soube impor os seus relevantes e incontestados méritos, numa aceitação total, plena de emoção e de delirantes aplausos, perante um público categorizado e exigente, em que se encontravam gradas personalidades de Lisboa, Figueira, Coimbra, Leiria, etc., etc., algumas das quais se habituaram, desde há muito, a ir ao encontro dos amadores-artistas de Tavarede, nas suas representações teatrais – para as apreciar e aplaudir, não por mera e generosa benevolência, mas por convicção e inteira justiça.



Sábado, 4 de Novembro. Mais um espectáculo, no elegante e confortável teatrinho de Tavarede (totalmente remodelado e beneficiado, há poucos anos, graças à generosa ajuda material da benemérita Fundação Gulbenkian), com a muito grata e honrosa presença do eminente Prof. Dr. Hernâni Cidade, ilustre presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”, que de Lisboa, acompanhado de outras também ilustres personalidades, ali se deslocou.



O espectáculo comemorativo do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, constava da representação do “Auto de El-Rei Seleuco”, da autoria do imortal Poeta; e de uma “Evocação”, em duas partes e dez quadros (a 1ª parte – “O Trinca-Fortes” (1551), com as cenas “Encontros no Mal-Cozinhado”, “A merenda da Infanta” e “Do tronco para a Índia”; e a 2ª parte – “Os Lusíadas” (17 anos depois), com as cenas “Regresso da Índia”, “… e ninguém mais falou nele!”, “Ante o censor dos Lusíadas”, “O Velho do Restelo”, “O Adamastor”, “Concilio dos Deuses” e “Quem compra os Lusiadas”, da autoria de mestre José Ribeiro, interpretada por mais de 50 dos seus briosos e consagrados pupilos; caprichosamente montada, vestida e encenada, sob o maior rigor, pelos apaixonados amigos da SIT, de Lisboa, srs. Alberto Anahory, que estudou e preparou todo o primoroso guarda-roupa, histórico e de fantasia; António Tomás, que gravou, amavelmente, a “Voz de Garrett” e a “Voz dos Lusíadas” e realizou toda a sonorização; José Maria Marques, que se incumbiu da cenografia, a todos os títulos brilhante e rigorosa, excepção feita a algumas cenas no “Mal Cozinhado” e do”Concilio dos Deuses”, com as quais foram evocados os ilustres e saudosos amigos daquela benemérita instituição cultural (que tanto tem sabido honrar a sua linda aldeia, senão o Concelho da Figueira e o próprio distrito de Coimbra, onde não é ignorado o real valor dos amadores teatrais tavaredenses), prof. Manuel de Oliveira e Rogério Reynaud (este figueirense) e o actual padre da paróquia local, dr. João Evangelista Amado, que orientou o cântico litúrgico.




E – já agora – expliquemos os precedentes que motivaram tão louvável e patriótico movimento artístico e conduziram o José Ribeiro à decisão – a todos os títulos louvável – de procurar vincar, pelo teatro, na sua aldeia e pelos seus pupilos, esta histórica efeméride.




Tendo sido previamente convidado – muito digna e acertadamente - pela Câmara Municipal (pelouro da cultura) para estudar a maneira de pôr em prática a representação, na Figueira da Foz, por intermédio do laureado núcleo dos seus amadores, uma peça alusiva à Comemoração do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, aquele nosso ilustre conterrâneo e muito prezado e velho amigo – coração de oiro e alma sempre aberta às mais elevadas e dignificantes iniciativas culturais e filantrópicas -, prontamente correspondeu a tão delicada incumbência…



… escrevendo, ensaiando e preocupando-se, ainda, apaixonadamente – como é próprio dos seus brios e das suas reconhecidas exigência – com a montagem das peças a que acima aludimos…



… e cujas representações (cremos que já em número de seis ou sete), quer na oficial – chamemos-lhe assim – realizada no Grande Casino Peninsular, que redundou, ao que nos foi informado, numa consoladora e delirante apoteose, tendo nessa altura sido conferida à veneranda Sociedade de Instrução, num relevante acto de consciência e de justiça, a Medalha de Mérito (Ouro) da Câmara Municipal, quer em Tavarede, redundou num assinalado e consolador êxito…



… e numa grande satisfação e alegria para José Ribeiro e para os seus simpáticos e garbosos discípulos.



E pressentimos este “fenómeno”, porquê?



Precisamente porque – e tão sentimentais e dignificantes decisões não nos consta que houvessem sido tomadas por mais ninguém, no País, com mais possibilidades e obrigações morais para o fazer – mas não fez -, isso proporcionaria mais uma admirável oportunidade para provar que à humilde gente de uma linda aldeia portuguesa, toda devoção e paixão pelo teatro, não havia escapado mais uma data histórica e, como tal, sentiria orgulho em comemorá-la!...



Assim, e a exemplo de que acontecera nas respectivas datas, em que na SIT, em Tavarede, foram comemorados, com a maior relevância e dignidade, o 5º Centenário de Shakespeare; o Centenário de Almeida Garrett; o Centenário do Infante D. Henrique; o Cinquentenário da Morte de D. João da Câmara e o Centenário de Marcelino Mesquita; se aos reconhecidos méritos dos amadores-artistas da linda terra do limonete tinha isso sido possível, essa grande honra, graças à batuta-mágica de mestre José Ribeiro, na sua qualidade de autor e ensaiador competentíssimo, porque não havia ele, acedendo, de ânimo jubiloso, ao que, em tal sentido, lhe fora solicitado oficialmente, de aproveitar a oportunidade para marcar, mais uma vez, uma relevante posição do seu admirável querer e das suas ricas possibilidades intelectuais e artísticas, escrevendo, ensaiado e pondo em cena a referida peça, comemorativa da patriótica efeméride do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões?



Ora foi precisamente isso que se deu…



E com que prestigiante elevação!...



Foi, pois, ao espectáculo do passado dia 4, realizado no teatro da SIT, que o ilustre professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sr. Dr. Hernâni Cidade, eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações Camonianas – que desde há muitos anos se digna honrar-me com a sua preciosa amizade, a pontos de já por diversas vezes ter colaborado no meu “Jornal de Sintra” -, esteve presente e se fez acompanhar de diversos intelectuais seus amigos.



Entusiasmado por meu filho, que dias antes, vindo do Norte e indo beijar a familia a Tavarede (onde também nasceu), assistiu a uma representação da aludida peça, também, com ele, a esposa e filha, minha mulher e um casal amigo, ali me desloquei.



Dou-me por muito feliz tê-lo feito. O contrário redundaria numa carga de remorsos que nunca mais deixaria de pesar-me na consciência…



Ao abrir o espectáculo, José Ribeiro, descendo ao proscénio, num improviso felicíssimo, como sempre, cumprimentou e saudou, brilhantemente, o ilustre e categorizado académico, regozijando-se com a grata presença de tão elevada personalidade, que honrava, sobretudo a veneranda colectividade de cultura popular da sua terra e os seus humildes amadores teatrais, todos gente do povo, para quem pediu a maior generosidade e benevolência na interpretação das peças que iriam apreciar.



E o espectáculo começou pela ordem em acima referida…



… e acabou, sob uma estrepitosa, interminável e delirante salva de palmas, devidas aos artistas competentes, e chamadas entusiásticas a José Ribeiro . que bem mereceu, de facto, as retumbantes manifestações de carinhoso apreço de que foi alvo!



Antes do pano baixar, o ilustre espectador, sr. Dr. Hernâni Cidade, subiu ao palco, onde lhe foi entregue, por uma amadora, um lindo e viçoso ramo de flores, após o que, no uso da palavra, proferiu um eloquente discurso – que foi bem uma magnifica lição histórica – em que envolveu, na simpática pessoa de José Ribeiro, o seu apreço ao grupo cénico que acabara de apreciar e o seu abraço de simpatia ao bom povo da linda aldeia em que se encontrava, rodeado dos mais cativantes e bem merecidos carinhos.



Uma apoteótica salva de palmas coroou a magistral lição do ilustre orador.



No salão de recepções da SIT foi, depois, servido a convidados de honra presentes ao espectáculo, amadores cénicos, etc., um suculento “copo-de-água”, que deu ensejo a que todos os presentes se regalassem de ouvir mais dois brilhantes discursos, primeiro, pelo velho amigo José Ribeiro, depois, pelo eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”.



Mais uma vez saí, orgulhoso, de Tavarede – e profundamente envaidecido pela cada vez mais aprimorada capacidade artística dos meus conterrâneos! Só é pena que, tanto o espectáculo de agora, como tantos outros que lá têm sido realizados, todos da mais reconhecida e categorizada interpretação e rigorosa encenação, fiquem só por ali e pela Figueira…



Um grande abraço de parabéns, pois, ao “velho” Zé Ribeiro e aos seus pupilos, entre os quais a “hierarquia” dos Medinas continua a estar bem representada – em quantidade e qualidade – graças a Deus!...



De represso a Sintra, pensei em dirigir um pedido de duas palavrinhas, sobre os tavaredenses, a tão ilustre catedrático, quase certo de que não deixaria de ser gratamente atendido; e, como tal, assim o fiz, tendo logo merecido a desvanecedora atenção de Sua Exª, que se dignou honrar-me com a carta que se segue – e aqui se agradece, reconhecida e gratamente, com um sincero e respeitoso abraço de muita admiração e estima. Bem haja, pois, por tamanha honra, sr. Dr. Hernani Cidade:



Sr. António Medina, Meu prezado amigo:



Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.



Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano – El-Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer.



José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração, que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra a sua devoção cívica e a sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneo.



É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.



Aqui tem, meu querido amigo, o que, da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo Hernâni Cidade. (Jornal de Sintra - 1972-11-25)

sábado, 14 de maio de 2011

Chá de Limonete - livro



Devido a umas buscas que ando a fazer, bastante difíceis por sinal, sobre a história da nossa terra e também da família Quadros, morgados e condes de Tavarede, não tenho grande disponibilidade para continuar, por agora, com estas historietas sobre a minha terra natal.


No entanto tenho muita coisa que ainda queria aqui transmitir, pois Tavarede foi fértil em temas interessantes.


Além de continuar com a publicação de alguns 'Tavaredenses com história', vou publicar algumas notícias, das muiotas que recolhi, e que estão nos 13 ou 14 cadernos que compilei da imprensa figueirense. Julgo que terão interesse. Hoje abri o caderno dos anos 50 do século passado. E lá foi encontrar, entre coisas curiosas, muitos escritos aquando da publicação do livro ' Chá de Limonete ', da autoria de Mestre José Ribeiro, por ocasião das Bodas de Ouro da SIT. Pena este livro estar esgotado. Mas. vejamos duas dessas notas:

Mais e mais temos de nos convencer de que Portugal não é só Lisboa: está ante nós uma xícara do delicioso “Chá de Limonete”, que é uma lição muito para meditar…
Em uma pequenina aldeia, lá para as bandas da Figueira da Foz, existe uma agremiação notável: deve ser pobre, pelo modesto centro onde actua e pela exiguidade das quotas dos seus sócios mas é rica de boa vontade e dedicação; é rica pelo fim que tem em vista e cumpre denodadamente – é a Sociedade de Instrução Tavaredense. A forma de cultura que adotou é a instrução pelo teatro. E assim instrui, educa e distrai.
Mantem o seu grupo cénico mas, para bem cumprir o seu mandato, cada peça a representar é o pretexto para uma alegre e proveitosa lição, desde a explicação dos vocábulos pouco acessíveis aos menos cultos, até ao estudo da divergência de géneros e estilos, ao esclarecimento de épocas, usos e costumes.
E há 30 anos que dura esta acção cultural!
Pois foi ao serviço da simpática e prestimosa Sociedade Cultural de Tavarede que José da Silva Ribeiro colocou o seu mérito de escritor dando ao grupo cénico a fantasia “Chá de Limonete”. E aqui, com esse trabalho, surge outra lição – lição de aprumo, lição de moral. O “Chá de Limonete” prova aos nossos revisteiros, que tão frequentemente recorrem à obscenidade, que se pode fazer trabalho meritório, teatro movimentado, atraente, sem abandonar a linha de decoro, sem esquecer que a principal e mais alta missão da cena é educar e moralizar, que para criar a beleza não é necessário estadear no palco montes de carne nua.
Às qualidades apontadas, o reconfortante “chá” junta ainda a alegria e a arte.
Esta peça tem uma curiosa novidade: é uma proveitosa lição de história. Levezinha, que o público a quem se destinou não está ainda em condições de profundar muito. Poderíamos chamar-lhe revista histórica ou monografia teatralizada.
Os sucessos, interessando o local, desde a sua antiquíssima origem, vão sendo referidos pelo “Velho Tavarede”, o respeitável ancião que tudo presenciou… E os quadros vão-se sucedendo, na mutação de revista e o público vai tomando conhecimento, a sorrir, do que foi a sua terra.
Original e muito interessante.
Mas o “Velho Tavarede” é tão velho, tão velho, que embora sabedor e de memória prodigiosa, já vai tendo lapsos, percalços de senilidade… E, por isso, e só por isso, se lhe teria varrido da ideia aquele convento das freirinhas da Esperança e o outro, o convento quinhentista e ainda, esquecimento de maior monta, o nome do nobre, douto e piedoso Dom Francisco de Mendanha, talvez o mais notável filho de Tavarede, que, depois de ter cursado letras em Paris, como ao regressar à pátria já tivesse falecido seu avô, renunciou ao Mundo procurando a paz do claustro. Mas aí, o douto cruzio, teve de exercer cargos de alta importância na sua Ordem.
Facto interessante: foi D. Francisco de Mendanha quem assistiu como Cancelario da Universidade de Coimbra ao acto de “Mestre em Artes” do infeliz Rei D. António, Prior do Crato.
Mas a mão já trémula do simpático Velho Tavarede deixaria cair de entre os outros o pergaminho onde em letras de oiro estava escrito o nome do culto e piedoso D. Francisco de Mendanha.
Bastaria a cena do acto de “Mestre em Artes” de D. António, com a assistência do Cancelario D. Francisco de Mendanha, para dar um final grandioso a qualquer dos actos da sua fantasia.
E poderia talvez influir com esse trabalho para se dar a uma rua de Tavarede o nome do nobilíssimo e notável padre cruzio D. Francisco de Mendanha.
“Chá de Limonete”… Limonete, Lúcia-lima, erva-luísa, bela-luísa, doce-lima… Chá perfumado que o nosso paladar muito aprecia e que recomendamos como remédio já muito antigo contra as dores de estômago, especialmente as desses estômagos delicados que não conseguem digerir as revistas que por aí pululam…
Muito digno de leitura por elucidativo e bem escrito, o prefácio. (A Voz)



José da Silva Ribeiro é dos homens, neste País tão arredado das coisas da Arte, que mais tem feito pelo teatro de amadores. A ele se deve a actividade constante do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, com uma obra notável de cultura e divulgação teatral.
José da Silva Ribeiro, pelo seu saber, pela sua inteligência, pela sua fé inabalável nos destinos do teatro e da sua magnifica influência no público, pode, com absoluta justiça, considerar-se um mestre. É ao povo que vai buscar os seus colaboradores e dessa gente simples da terra tem sabido arrancar autênticas vocações e sabido moldar comediantes. A propósito do seu grupo, é José da Silva Ribeiro quem escreve: “Tenha-se presente que se trata de um grupo de amadores de uma pequena e humilde aldeia, pobre entre as que mais o são. Aqui se encontram os trabalhadores do campo e da oficina: rapazes e raparigas da enxada, que passam o dia cavando as terras e vêm à noite ao ensaio; operários carpinteiros, pedreiros, serralheiros, raparigas dos alfaiates e das modistas da cidade vizinha, um ou outro empregado de escritório também”.
Agora, José da Silva Ribeiro escreveu para o seu grupo uma fantasia em três actos e 24 quadros, “Chá de Limonete” (histórias de Tavarede), de rara beleza e sabor nitidamente regional, como convinha à intenção da obra. O autor foi à sua “humilde e pequena aldeia” e soube arrancar-lhe tudo quanto em tradição, pitoresco e beleza poderia interessar o espectador. “E se para mais não servir – afirma José da Silva Ribeiro – nem mesmo como espontâneo e franco depoimento de quem vem à barra dizer da sua razão e justiça sobre o teatro de amadores, “Chá de Limonete” ficará como testemunho da nossa dedicação à terra humilde onde nascemos e temos vivido, como hino ao trabalho rural e também como afirmação da simpatia que votamos e da solidariedade que nos liga aos homens da enxada da nossa aldeia, incessantemente cavando o amargo pão de cada dia em terras que não são suas”.
O autor conseguiu, inteiramente, o seu objectivo com a sua obra, quer no palco, em que teve a colaboração de António Simões, que compôs a partitura, e a de mestre Manuel de Oliveira, que desenhou as maquetes dos cenários, quer agora, publicando-a, como um belo documento do seu talento.
José da Silva Ribeiro não merece apenas a gratidão dos seus conterrâneos, da gente simples da sua aldeia, “pobre como as que o são”; merece-a também de todos quantos amam o Teatro. (O Século)


sexta-feira, 6 de maio de 2011

9 de Maio de 1516 - Foral



Foi D. Manuel I, por graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, etc., que, no ano de 1516, deu foral a Tavarede.


Os privilégios, eram para o Cabido, pois, como donatário do couto, pertenciam-lhe os direitos reais. E os tributos, quem os pagava, era o povo. E havia muitos...


Sobre este assunto, consideramos que a análise deste foral, bem como dos restantes tributos que pendiam sobre a vila de Tavarede, deverá ser incluida na parte em que nos debruçamos sobre a vida do povo.


Lá se encontrará um importante trabalho publicado pelo dr. Santos Rocha, em “Materais para a história do concelho da Figueira”, onde descreve os direitos reais, os direitos de entrada e de saída, as franquias, as portagens, os dízimos e os oitavos, as sisas, o eiradego, a colheita e, finalmente, o do forno da poia, este último dos fidalgos de Tavarede, mas ao qual também os moradores do lugar da Figueira da foz do Mondego não escapavam...


Para a câmara de Tavarede é que muito pouco era, pois, até do devido rendimento da sisa, cobrada pelos almoxarifes da Alfândega, “lhes passavam recibo dele, contentando-se com qualquer coisa que os almoxarifes lhes davam, para não perderem tudo”!


Mas, para a história da vila e couto de Tavarede, o mais importante é deixar registado o texto foraleiro.


“...O foral de Tavarede foi dado em 9 de Maio de 1516. Dele existe um dos originais no arquivo da Câmara Municipal da Figueira, mas sem a primeira folha, que continha o tributo raçoeiro do oitavo da produção das terras, como indica o índice do mesmo foral. Este facto explica talvez a mutilação: alguém supôs que, subtraindo a folha, ficariam as terras desoneradas de tão vexatório encargo...”


“... Esta falta é muito sensível, atendendo à referência que faz a esse título o dos -Prasos particulares. Eis as suas palavras: “E além da dita terra (de Tavarede e seu termo) ser aforada primeiramente, na medida que dito he, despois os senhorios com as partes fizerão novos contractos e aforamentos, segundo sam concertados por escripturas e titullos, etc.” “Disto se depreende que o termo de Tavarede era um prazo, cuja origem e natureza estavam explicadas na primeira folha do foral...”


“... Provavelmente esse prazo primordial era já de quotas de frutos ou rações, e tinha origem em algum outro foral ou carta de povoação anterior ao de D. Manuel, que fôsse concedido quer pelo rei, quer pelo Cabido da Sé de Coimbra, como donatário; e é talvez a esse foral primitivo que se refere o título da Colheita.


Livro: Tavarede - A terra de meus avós-1º.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

MARIA ÁGUAS FERREIRA



“Há bastante tempo que a bondosa senhora se encontrava doente e apesar dos carinhos da família e dos esforços da ciência, era esperado já o fatal desenlace, que muito consternou não só as famílias enlutadas como as numerosas pessoas das relações da extinta.


Tinha 66 anos de idade e era natural de Tavarede, filha do sr. Joaquim Alves Fernandes Águas, já falecido”.


Era casada com José da Cunha Esteves, antigo capitão da marinha mercante, e morava na sua Quinta do Peso.


Foi grande protectora das colectividades locais. Em 1900 já ofertara uma fita para o estandarte do Grupo de Instrução Tavaredense, extinto em 1903.


Faleceu em Abril de 1924 e o Grupo Musical e de Instrução, de que era sócia desde a sua fundação, prestou homenagem à sua memória, em Dezembro desse mesmo ano, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no seu salão.


Caderno: Tavaredenses com história

José Luis do Nascimento

Natural da vizinha Brenha, onde nasceu no ano de 1919, era filho de Manuel Luís do Nascimento e de Maria Francisco e casou com a tavaredense Efigénia Grilo, da qual teve dois filhos, Guilhermina e António.


Começou a fazer teatro na Troupe Recreativa Brenhense “onde conheceu José Ribeiro, numa ocasião em que ele lá foi dar os últimos retoques a uma peça”.


Quando veio residir para a nossa terra, de imediato começou a dar a sua colaboração ao grupo cénico da Sociedade de Instrução. Desde Chá de Limonete, em 1950, até Na Presença de Garrett, no ano de 1999, foram cerca de 95 os personagens por ele vividas no palco.


Característico, com especial vocação para a criação de figuras populares, recordamos, sem desprimor para outras interpretações, os papéis de Marchante, em Chá de Limonete, Jeremias, barão da sovela, em Terra do Limonete, O homem da Vaca, David Secura, Carro Gandarês, nas diversas fantasias postas em cena por José Ribeiro.










Quando foi homenageado conjuntamente com João Medina (José Luís à esquerda)

“… representarei enquanto tiver forças para o fazer. O teatro deu-me um à-vontade muito grande e grande facilidade de conversa: não tenho medo de falar com um médico ou com um advogado”, disse ele em certa ocasião.


A Sociedade de Instrução nomeou-o sócio honorário em 1982 e homenageou-o publicamente no ano de 2000, num espectáculo promovido para o efeito. Faleceu em 30 de Março de 2005.


Caderno: Tavaredenses com história

António Paula Santos (António dos Prazeres)

Ribeiro de Tavarede - Chá de Limonete - desenho Zé Penicheiro



Nasceu a 12 de Outubro de 1918 e faleceu no dia 21 de Outubro de 1963.



Figueirense, mecânico de automóveis, casou com a tavaredense Elisa Marques, (1.11.1915 – 14.11.1992) passando a residir na nossa terra. Tiveram um filho, António.



Dotado de boa voz, passou a fazer parte do grupo dramático da Sociedade de Instrução, iniciando a sua colaboração em 1948, em Auto da Barca do Inferno, até ao ano de 1961, na fantasia Terra do Limonete.



Foi ele o primeiro intérprete da famosa Canção do Limonete.



Sua esposa, Elisa, também foi amadora do mesmo grupo cénico. Participou no elenco das peças As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, A Cigarra e a Formiga, O Sonho do Cavador, Canção do Berço, Entre Giestas, O Grande Industrial, etc. Terminou em 1940, colaborando nos Autos Pastoris, uma organização do Grupo Musical.



Caderno: Tavaredenses com história

O CÉLEBRE JANTAR DO DEÃO

A colheita e jantar era um tributo que, todos os anos, o Couto de Tavarede, tal como todos os Coutos da jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra, tinham que pagar, em dinheiro e em géneros.


Mas, segundo o Foral que estabelecia esta obrigação, era o Deão da referida Sé que, anualmente e por alturas do S. João, devia visitar os Coutos e receber o dinheiro e os géneros para o jantar, que, segundo dizia o Deão na cena final do primeiro acto do 'Chá de Limonete' "era apenas um farnel".



Ora em 1536 o Cabido resolveu não mandar o Deão mas, sim, três cónegos seus para receber o tributo. E naturalmente, o juiz e os oficiais da Câmara do Couto de Tavarede, escrupulosos cumpridores do legalmente estabelecido, não pagaram, dizendo mesmo aos enviados que só pagariam ao Deão. Estes pediram um documento comprovativo da recusa ed o mesmo foi enviado a El-Rei que, estando em Évora com a sua Corte, ali fez o julgamento ed proferiu a respectiva sentença. Vejamos o processo:



Dom João, por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio na Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A Vós, Juizes do Couto de Tavarede, jurisdição do Cabido da Sé de Coimbra e a todos os outros juizes e justiças, oficiais e pessoas dos meus reinos e senhorios a quem esta minha carta de sentença fôr mostrada e ao conhecimento dela por qualquer guisa que seja feita, saúde.
Faço-vos saber que perante mim, nesta minha Corte, e Casa de Suplicação e Juizes dos meus feitos, nela foi apresentado um instrumento de agravo que diante Vós tirou o Cabido, Dignidades e Cónegos da dita Sé, aos oito dias do mês de Julho de presente ano de mil quinhentos e trinta e seis, no q ual se continha, entre outras muitas coisas nele contidas, que os ditos Suplicantes vieram com um requerimento por escrito, a Vós ditos Juizes, dizendo nele que o dito Couto era obrigado pagar de colheita e jantar ao dito Cabido, a seu recado para os visitar e lhes administrar justiça, por serem seus vassalos e sujeitos a toda a jurisdição cível ser sua, e sendo visitadosx em cada ano, até ao S. João de cada ano, e então eram as colheitas seguintes, a saber: dos moradores do dito lugar de Tavarede sem os do termo, pagavam pelos seus livros dos Direitos Alfandegários, seiscentos e oitenta reis da moeda ora corrente, e mais, pelas heranças do lugar da Chã e casais de cada um, dois carneiros e dois cabritos, e seis almudes de vinho da medida corrente, e dez galinhas e um quarteiro de cevada pela medida corrente de Coimbra, e mais cem pães ou por cada pão dois reis da sobredita moeda ora corrente, cinco reis para especiarias ou por elas cinco reis da sobredita moeda ora corrente, e meio alqueire de manteiga e outras coisas e vinagre que baste para as ditas coisas se cozinharem, a qual colheita ou jantar Vós Juizes e oficiais em cada ano fintáveis pelo concelho e pelo povo dele, segundo acima ficava declarado, e era tão antigo que não havia memória dos homens em contrário e o preço era notório dever-se, e assim o tinham por leis na sua Câmara, e ora findo como foram em nome do dito Cabido, Francisco Monteiro e Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos, a visitar o dito Couto antes do S. João, neste ano de quinhentos e trinta e seis, no primeiro dia de Junho da dita era, e visitando e provindo em tudo o que era necessário, os ditos Juizes e oficiais punham dúvida a pagarem e lhe darem a dita colheita e não eram obrigados, pelo que vos requeria lhe desseis a pagásseis a dita colheita e o jantar deste ano de quinhentos e trinta e seis, como em cima era declarado.
E melhor, se melhor de direito lhe pertencesse segundo seu costume, e não querendo lhes fosse dado seu instrumento com sua resposta, ou sem ela se a dar não quizesse, e com fé do tabelião do que no caso se passava e com o teor das visitações aos visitados réus, e protestavam serem privados de tão manifesto agravo, do qual agravavam para mim e meus desembargadores e de haver todas as perdas e custas e danos e interesses por quem de direito fosse, segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido no dito instrumento.
Respondeu o Juiz e vereadores e procurador do dito Couto, dizendo na sua resposta que a colheita ou jantar que no requerimento se dizia, que era devido ao Cabido da Sé no dito seu Couto de Tavarede em cada ano, e que requeriam que o desse ao dito Cabido o ano presente de trinta e seis, por dizer que Francisco Monteiro, Henrique de Sá e Jerónimo Salvado, cónegos dessa Sé, foram visitar o dito Couto, agora no primeiro dia de Julho do presente ano, pelo que diziam eles Juiz e Oficiais que não podiam mandar pagar ao dito Cabido a dita colheita e jantar, que lhes era pedido, pelo dito concelho de Tavarede ter no Foral o contrário.
A saber: dava o dito Foral que, indo o Deão da dita Sé pessoalmente visitar, uma vez por ano, o concelho de Tavarede, os moradores do dito lugar lhe pagassem, a ele Deão, a referida colheita e jantar, e porque o Foral assim o mandava expressamente, sem nenhuma limitação, sempre de tempo imemorial que eles oficiiais se acordavam, e sempre a dita colheita e jantar se dera e pagara ao Deão, que era da dita Sxeé, e se pagavam agora a João Rodrigues Ribeiro, Deão actual da dita Sé, o qual em cada ano pessoalmente a vencia e se lhe pagava sem nunca os do Cabido tal colheita e jantar pedirem senão agora, se eles, do Cabido, tivessem alguma Provisão minha em que mandasse que lhe fosse pago sem embargo do Foral, que lhe mostrassem e a guardariam e cumpririam em tudo, porque o que dizia em seu Regimento não bastava para lhes ser dado o que pediam, pelo dito Foral ser em contrário, pelo que requeriam ao tabelião que nos instrumentyo que lhes havia de passar, tresladasse neles as verbas do Foral que no dito caso falavam, porque eles não tinham em Câmara outra lei por onde se regiam acerca dele, somente estas verbas, que apontavam no dito instrumento eram tresladadas, e sem isto os do dito Cabido se quisessem instrumento de agravo, que pediam lhe fosse dado e contestavam de treplicar, se cumprisse segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido na dita resposta, ao que os juizes, vereadores e procuradoer responderam ao dito requerimento, ao qual outrossim respondeu o Deão, dizendo em sua resposta, que era verdade, que ele, como Deão, estava em posse por dez, trinta, cinquenta, cem anos a esta parte, e por tanto tempo que a memória dos homens não era em contrário, e se nisso houvesse dúvida daria testemunhas no concelho e fora dele, se por si e pelos Deões antepassados e antecessores deverem, em cada ano, ir visitar o dito Couto de Tavarede, o jantar que ora o Cabido dizia e pedia, não indo ele Deão em pessoa se não devia dar a pessoa alguma outra do Cabido, e ficava no concelho, como a todos era notório e muitas vezes ficara , em tempo dele Deão e seus antecessores e assim o tinham muitos jantares noutros lugares em que o Cabido não tinha jurisdição e mesmo noutros em que a tinha.
Como era este por serem prestes do seu Deão, como são a terça da Lousã e de Vradigos, que tinham certas igrejas no Arcediago do Vouga e noutras partes em que o Cabido não tinha jurisdição alguma, pelo que, neste presente ano de trinta e seis, que ao dito Couto de Tavarede de Fora vencera e merecera a dita colheita e jantar, e o foram tirar e mandar a sua casa como sempre fizeram desde o dito tempo, e portanto o Cabido não tinha razão no que pedia nem de sgravar de Vós juizes, segundo que tudo isto mais cumpridamente era contido na resposta do dito Deão, as quais respostas o Cabido replicou e o Deão e oficiais treplicaram e como tudo o dito Cabido e Dignidades dele pediram o dito instrumento de agravo, o qual lhe foi dado com o treslado das sentenças, o qual instrumento fora nesta minha Corte apresentado em tempo e forma de vida, e foi junto a outros e outros a este, que o dito Cabido tirou doutros Coutos, e deles foi dada vista às partes, e fora por eles tanto de seu Direito e Justiça alegado, que o dito instrumento me foi levado finalmente concluso, o qual foi visto por mim em Relação com os do meu desembargo.


SENTENÇA


Acordei, visto os requerimentos feitos pelo Cabido da Sé de Coimbra aos Juizes e Oficiais dos Coutos nestes instrumentos contidos e as respostas dos ditos oficiais e assim as respostas do Deão, sentenças dadas sobre a jurisdição dos ditos Coutos e como se mostra pelas ditas sentenças a jurisdição dos ditos Coutos ser julgada ao dito Cabido, por respeito da igual jurisdição e visitação se dão os jantares e colheitas nos Coutos da contenda, o que tudo visto com o mais que dos autos consta, declaro os ditos jantares e colheitas pertencerem ao dito Cabido e mando aos juizes e oficiais dos ditos Coutos, que lhe acudam e façam acudir com eles, segundo forma de suas doações, porque os ditos jantares e colheitas lhes são concedidos e esta declaração e sentença servirá a todos os Coutos nos ditos instrumentos contidos, e os mando que assim cumpram, guardem e façam em tudo muito inteiramente cumprir e guardar como por mim é julgado, acordado, mandado e determinado.
E mando que esta sentença se cumpra e guarde com efeito realmente como da maneira que nela é contido, e porquanto o Cabido pagou parte do Deão cento e sessenta e sete reis, vos mando que requereis que os pague, e se pagar não quiser, o fareis penhorar em tantos dos seus bens móveis e de raíz e lhos façais vender e rematar, de acordo com as minhas ordenações, de maneira que o dito Cabido haja pagamento dos ditos cento e se4ssenta e sete reis, o que assim deve cumprir.
Dada na minha cidade de Évora, onze dias do mês de Agosto. El-Rei o mandou pelo licenciado Álvaro Martins, do seu desembargo e juiz de seus feitos em sua Corte e Casa de Suplicação. Francisco Pires a fez por Afonso Ferandes de Toar, escrivão. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e trinta e seis.