sábado, 28 de maio de 2011

UMA VISITA À IERAX



Saímos da Figueira em direcção a Tavarede. Esperámos que os semáforos passassem a verde, atravessámos a povoação e deparámos com a igreja. Subimos a estrada que se situa ao meu lado direito e, poucos metros volvidos, eis a IERAX – a fábrica que faz os sacos de plástico, no dizer do leigo – o nosso destino. Ora vamos lá ver como se fazem os sacos.


Começamos por ser extremamente bem recebidos pelo sócio-gerente sr. Fernando J. Ferreira da Silva, que tirando uns bons nacos ao tempo de trabalho absorvente, nos forneceu as informações pretendidas bem como nos acompanhou na visita às instalações da fábrica. Ao santuário do plástico afinal.


O início da construção do complexo fabril remonta a 1968, ainda que nessa altura as dependências fossem reduzidíssimas. A sua laboração teve início ainda nesse ano, em pequena e rudimentar escala. Foi adquirida por esta gerência em 1978 tendo, então sim, beneficiado de profundas e progressivas obras bem como sido alargado o parque industrial e a problemática do fabrico.


A sua área – contando com a vastidão dos terrenos circundantes – é de 67 000 m2 sendo a área coberta superior a 6 000 m2.


Situação exacta, já a demonstrámos em “croquis”, no início desta crónica. É fácil lá se chegar.


Número inicial de postos de trabalho (em 1968) – 10.
Em 1978: 50.
Em 1981: 91, sendo 67 homens e 24 mulheres.


Vamos agora tentar explicar, por palavras simples, o que existe de maquinaria: máquinas de extrusão (já explicaremos o palavrão) – 7, de injecção – 4. De impressão e flexografia (até 6 cores) – 4. Corte, soldagem e rebobinagem – 7. De acabamentos – 26. Total – 50, exceptuando as de pequeno porte e de escritório. E ainda as do parque automóvel e de armazém.


Todas estas máquinas juntas formam uma autêntica linha de produção não sendo aproveitáveis sem a ajuda de outras. São de produção sequencial, em espessuras e larguras de filmes e mangas para os diversos fins de aplicação.


E, como é óbvio, vai a administração da fábrica acompanhando a evolução do país tentando desde já preparar o futuro com a procura de novas e actuais máquinas para um melhor acompanhar da produção – isto em forma, também, de novos processos. Faz-se notar que o mercado externo tem outras exigências e qualidades, e desde já se procura emparceirar com a própria CEE.


E a CEE tem muito que se lhe diga. As peças produzidas nos países desta organização têm de ser embaladas em sacos especiais, o mesmo acontecendo aos produtos portugueses, sendo necessário nova maquinaria tendente a cobrir tudo isto. Enfim, toda uma exigência de um saco próprio com as características exigidas – o saco artístico industrial que cobrirá todas as exigências.


Estes irão servir para tudo. Saiem da fábrica em filme técnico, que são umas folhas de plástico bem compridas e largas, que depois, nas fábricas que possuem as máquinas necessárias as vão fechando já com o produto dentro e pronto a seguir para o mercado.


Encontrámos um exemplo deste sistema na fábrica de arroz de Ernesto Morgado, no Alqueidão.


Resumindo: a IERAX produz sacos artísticos e industriais, para uso comercial, e embalagens para fins industriais e agrícolas, quer para consumo interno, quer externo.


Aqueles nossos conhecidos sacos das compras são aqui feitos.


Se seguirmos a linha de produção constatamos que se trabalha principalmente em polietilenos de alta e baixa densidade, que já são produzidos em Portugal pela CNP (Companhia Nacional de Petroquímicos, EP). Depois da entrada deste produto na fábrica, segue para a extrusão, que é a fusão das resinas (polietilenos). Nesta operação as resinas são transformadas em “mangas” e filmes de diversas espessuras, aptos para os fins a que se destinam. Segue-se a impressão, o corte, soldagem e rebobinagem (esta no caso de filmes técnicos).


Produzem cem toneladas mensais. A exportação apenas tem expressão na que provém de valores acrescentados e que a empresa considera exportação indirecta, isto é, produzem-se embalagens para produtos agrícolas, do mar e têxteis, entre outros, que depois são exportados. Consequentemente, o plástico também o é.


A situação económica? Enfim, a crise portuguesa reflecte-se nas empresas. No entanto, os ordenados, caixas, impostos e afins, encontram-se em dia. No dizer do administrador da IERAX as dificuldades provém da própria CNP, que em dificuldade dificulta todas as outras empresas. É que a inflação atinge os 300 por cento. Não sendo da ordem dos 28-30 por cento como por aí tentam fazer crer.


A maioria do pessoal pertence a Tavarede, exceptuando algum pessoal especializado, que vem de fora. Orgulham-se de nunca terem sofrido nenhuma greve ou paralização laboral e consideram-se bem vistos pela população local, para a qual nunca faltam com donativos para as suas beneficências. Acompanham sempre os contratos colectivos de trabalho, não dando azo a reinvindicações.


A empresa IERAX possui ainda um gabinete de desenho, uma secção fotográfica para trabalhos a cores e artes finais e possui fabrico próprio de clichés de fotopolímeros. Os escritórios são computadorizados, possuindo uns vastos arquivos extraordinariamente bem organizados prontos a acudir rapidamente a qualquer solicitação.
Vejam bem: em terrenos, maquinaria e computadores, estão ali quase um quarto de um milhão de contos, isto aos preços de alguns anos atrás! É obra!


A nossa obra, de entrevistar e visitar todo aquele vasto complexo, chegou ao fim. Saímos satisfeitos. Constatámos, mais uma vez que a indústria, no nosso concelho, não se encontra inerte.


(A Voz da Figueira - 3 Maio 1984)

DE CASA DE CULTURA A... TABERNA! (3)

(continuação)


Uma questão religiosa


Não nos vai ser nada fácil escrever este capítulo. É que é sempre possível alguém mais desprevenido julgar que nos movem segundas intenções, especialmente sobre algum ou alguns dos intervenientes nos acontecimentos que a seguir irão ser narrados.


Nada disso. A nossa única pretensão, e bem a sabemos bastante ambiciosa, é deixar aqui descrita, em especial para os mais novos, que os desconhecem totalmente, alguns dos principais factos relacionados com a história da nossa terra. Aliás, as fontes onde recolhemos as notas que nos irão servir, estão ao alcance de qualquer um.


Pensámos, maduramente, em omitir os nomes dos intervenientes na polémica que se irá dar a conhecer. Mas, afinal de contas, para quê? É natural que, numa ou noutra situação, se tenha dito e escrito demais, mas a história é mesmo assim e, se a queremos relatar, não devemos acrescentar ou retirar algo aos factos sucedidos. Também não queremos dizer que tenham havido ou sido cometidos actos menos correctos ou desprestigiantes. A época era mesmo assim e os intervenientes viveram os casos com verdadeira paixão.


Mas vamos prosseguir com a nossa tarefa. As notas seguintes, neste capítulo e no posterior, completam, em conjunto com o primeiro, uma história real que teve enorme influência na vida cultural e associativa em Tavarede, nos anos 20 e 30 deste século.

* * * * *

O dia 12 de Agosto de 1928 marcou profundamente toda a população da freguesia de Tavarede, e não só. Era domingo. Com destino a Fátima tinha partido de manhã, da nossa terra, uma peregrinação de fiéis católicos, desejando participar nas cerimónias religiosas que ali teriam lugar nessa noite e no dia seguinte.


O director espiritual da peregrinação era o reverendo padre Manuel Vicente, pároco da nossa freguesia.


Foi por volta das 5 horas da tarde que ocorreu o acidente, na ladeira de Reguengo Fetal, entre a Batalha e Fátima.


O condutor da camionete que originou o desastre, no início da ladeira buzinou para que a camionete dos tavaredenses lhe deixasse a passagem livre. Esta “afastou-se um pouco, do meio da estrada para o lado, em que há um declive de sete metros, a fim de deixar passar a outra. Neste momento, a camioneta de Alcobaça passou-lhe à frente, mas, como a estrada é muito apertada e a manobra não fosse feita com a necessária perícia, o cubo da roda do segundo veículo foi bater, violentamente, na roda esquerda da frente do primeiro. Este, com a rude e inesperada pancada, perdeu a direcção, resvalando para o declive e dando uma volta completa”.


Com maior gravidade ficaram feridos somente dois ocupantes: Abílio Simões Baltazar, um dos proprietários da Quinta do Robim, que dado o seu estado crítico foi enviado para casa, onde faleceu pouco depois da chegada “no meio de horrorosos sofrimentos” e o padre Manuel Vicente, que sofreu uma forte comoção cerebral e apresentava várias contusões graves.


A sua forte compleição física terá contribuido para, na volta da camioneta, sofrer diversas lesões interiores. Tendo sido internado no hospital de Leiria, e apesar de aparentar estar a reagir bem, a verdade é que acabou por sucumbir alguns dias depois. O seu funeral, para Tavarede, encontra-se descrito no nosso segundo caderno.


Como breve comentário diremos que este pároco era bastante admirado e acarinhado pelo povo da freguesia. Havia sido transferido para esta paróquia em fins de 1901 e, o seu trato afável, conquistou os tavaredenses, mesmo aqueles que não eram católicos. Acompanhou a vida associativa, especialmente na Sociedade. “O presidente da direcção fez o elogio breve mas bem significativo de Manuel Vicente, agradecendo-lhe ao mesmo tempo todas as atenções e sacrifícios em favor da Sociedade, dizendo que só um homem da sua têmpera, com uma vontade igual à sua, seria capaz de tantas canceiras em prole de uma terra que lhe era desconhecida. Tanta noite perdida, indo longe da sua casa, muitas vezes debaixo de chuva, levar aos outros o produto do seu recurso intelectual, só da sua candura de alma se poderia obter”.

* * * * *

Após o falecimento do padre Manuel Vicente abre-se um novo ciclo na história de Tavarede. Sucedeu-lhe na paróquia, poucos meses depois, o reverendo padre José Martins da Cruz Diniz.


Muito jovem, acabára de ser ordenado padre, bastante inteligente e declaradamente conservador, parece que terá ficado deveras surpreendido com a pouca frequência que muitos tavaredenses dedicavam à sua igreja.


As lutas políticas, com a recentíssima instauração da ditadura salazarista, tinham aberto profundas brechas na população da aldeia. Não esqueçamos que a grande vítima acabaria por ser uma associação: o Grupo Musical.


O novo sacerdote de imediato iniciou o trabalho da “reconversão” dos seus paroquianos. Era o seu papel. E, segundo os elementos que conseguimos, parece ter bem desempenhado o mesmo. Mas, claro, encontrou adversários pela frente e, digamos, de respeito.


Não foi só em Tavarede que estas lutas ocorreram. Por esse país fora, casos semelhantes terão sido inúmeros.


A igreja, conservadora por tradição, o poder político ultraconservador, os republicanos destituídos do poder, dois anos antes, algo liberais mas essencialmente progressistas, forçosamente provocaram situações de choque, nalguns casos mais ou menos pacíficas, mas noutras bastante violentas, sobretudo na imprensa. A violência escrita, talvez ainda mais que a verbal, foi muita e por alguns anos.


Atentemos, para começar, nesta notícia publicada em “O Figueirense”, de 7 de Novembro de 1929:

PELA IGREJA

“Depois que se encontra nesta povoação o novo Paroco, teem-se dado scenas bastante desagradaveis, que colocam mal o povo desta povoação.


Lá porque o sr. Prior chamou á Igreja, um numero já bastante avultado de crentes, que teem fé em Deus, os inimigos da Igreja, (os maçons) fazem os possíveis para desanimar o novo Paroco.


E dão-se casos ridiculos. Varias vezes teem-se organisado grupos de analfabetos que vão para o adro da igreja cantarolar e fazer grande berreiro no momento em que no templo estão em oração. E aqueles que vieram pedir por favor, que se calassem, foram mal tratados!...


Mas como isto ainda fosse pouco, deu-se uma scena vergonhosa e vil, na ultima quarta-feira.


Quando na igreja se encontravam na oração, entrou uma trupe de seis. Quatro ficaram á entrada, e dois começaram a passear dentro da igreja como se ali fosse algum picadeiro. Como viram que não lhes ligavam importancia, começaram a ofender o sr. Prior.


Chegaram até ao ponto de o desafiar cá para fóra. Ora isto, francamente, é vergonhoso. Tudo nos leva a crer, segundo consta, que estes analfabetos incorrijiveis, andam a ser pagos por meia duzia de maçons, para ver se conseguem atingir o alvo desejado.


Mas não conseguem, porque uma forte muralha vai de encontro ao seu ódio - o desprezo. A igreja não obriga seja quem fôr a ir lá, portanto os que a não querem respeitar, não vão lá. Por hoje poupamos a vergonha de não publicar os nomes destas trupes, sem educação, mas se estas scenas continuarem, serão os seus nomes aqui publicados, para sua vergonha e de seus pais.”


(continua)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DE CASA DE CULTURA A... TABERNA! (2)

(continuação)



Passou, assim, de desejado a indesejado, de benemérito e protector a difamador!... As razões? Querer receber o seu dinheiro? Houve, da sua parte, difamações? Quais teriam sido? Respostas para estas questões não as conseguimos obter.


E em Junho de 1930, após diversas diligências para solucionar o caso, foi deliberado vender o prédio. Assim fizeram. O Grupo, esse, porque, entretanto, nem a renda conseguia pagar, e porque o comprador vendeu a casa pouco depois e o novo comprador quis a casa, como veremos lá mais para diante, o Grupo, diziamos, teve que mudar. Foi para o palácio dos condes de Tavarede, onde se manteve durante largos anos, mas já sem uma das suas principais actividades, senão mesmo a principal: o Teatro.

* * * * *

E deveriamos, talvez, terminar aqui este capítulo da história que estamos agora a tratar.


Mas, embora com algumas repetições de cadernos anteriores, e porque o facto atrás narrado acabou por ter importantes alterações ao meio cultural tavaredense, vamo-nos permitir ainda acrescentar umas coisas.


Já dissémos, portanto, que com a venda da sua sede e posterior transferência para o palácio, acabou o teatro no Grupo Musical.


Vamos, porém, reflectir e ponderar um pouco sobre o que entretanto aconteceu com a grande maioria dos amadores da secção dramática daquela colectividade.


Tinham alcançado notáveis êxitos, quer no drama ou na comédia, quer no teatro musicado. Vários amadores tavaredenses se tinham distinguido, com a sua intuição natural para esta arte.


De todas as figuras do grupo, uma houve que bem alto se elevou. Falamos de Violinda Medina e Silva. Começou bem cedo a representar, aos 12 anos, levada pela mão de seu pai, António Medina, acompanhada por José Medina, seu tio e outro dos grandes amadores tavaredenses, que foi pena ter falecido tão prematuramente, e por seu irmão mais velho, António.


Mestre José Ribeiro, evocando Violinda Medina para uma pequena notícia sobre a sua morte, a pedido daquele seu irmão António, acaba, assim, a carta: “E o Teatro de Tavarede sempre o vejo e sinto com a Violinda Medina - admirável Mulher que a paixão da filha única, brutalmente arrancada ao seu grande amor de Mãe, matou para toda a alegria, só lhe deixando alma para resignadamente desfiar o rosário das desventuras”.


Pois bem, temos uma recolha exaustiva de comentário e críticas feitas, durante décadas, a Violinda Medina por distintos críticos teatrais. Esperamos, um dia, trabalhá-los, mais aprofundadamente, e fazer deles um pequeno caderno que, nas colectividades aonde representou, a recordem. Mas, temos que o dizer, seria injusto só recordar esta amadora que, em 1930, era a primeira figura do teatro no Grupo Musical. Lembremos, por exemplo, Manuel Nogueira e Silva e Fernando Severino dos Reis, sem menosprezar a real valia de mais uns tantos.


Acabado o teatro no Grupo Musical, onde se iniciaram e guindaram ao primeiro plano, que fazer? Bem sabemos que entretanto foi fundada nova secção dramática, a do Grémio Educativo, que por mais dois ou três anos utilizou a casa que havia sido do Grupo. Este tema será desenvolvido lá mais para diante, para tentarmos descrever, com a maior clareza, toda a história daquela casa e os acontecimentos relacionados com ela e que acabaram por originar a total ruína, do edifício, claro.


Teve enorme influência, na ocasião, e como depois explicaremos, a situação política vivida nos finais da década de 20 e princípios da seguinte, bem como as convicções religiosas e ideológicas dos tavaredenses de então,nomeadamente daqueles que pertenciam aos “quadros” do Grupo Musical.


Uns, democratas liberais, isto em termos actuais, outros conservadores, enquanto, que na Sociedade de Instrução Tavaredense pontificavam mais os republicanos, mais progressistas.


O que aconteceu foi que, e em relação ao pessoal do teatro do Grupo, enquanto os conservadores se integraram na nova associação, o Grémio Educativo, de índole religiosa, os outros, aqueles que, à distância, classificamos de liberais, ou abandonaram a arte dramática ou passaram-se para o grupo da SIT. E não foi nada pacífica esta mudança de “camisola”. Desde vendidos a traidores, e outros termos até mais soezes, muito tiveram de ouvir e suportar dos seus anteriores companheiros, e não só.


Mas, analisando agora a situação, apetece-nos dizer que foi uma tomada de posição acertadíssima.


Pois teria sido admissível perderem-se tais talentos? Se eles alcançaram tal posição teatral em condições difíceis, isto é, com um amadorismo bem antiquado para aquela época (bastará recordar que nem havia a tiragem individual de papéis, e a sua fixação era feita “por ouvido”, nos ensaios), como seria em diferentes condições, como as que foram encontrar na Sociedade, com a direcção do extraordinário homem de teatro, mestre José Ribeiro, ensaiador do grupo cénico, com novas e modernas técnicas de ensaio, papéis tirados individualmente para que cada um os pudesse estudar e decorar em casa, por exemplo, palestras sobre o tema, explicações sobre isto e aquilo, sobretudo sobre os personagens que iriam desempenhar, e tantas outras coisas?


Foi assim que, com os elementos já em actividade e com os reforços provindos da extinta secção dramática do Grupo Musical, a partir daqueles anos, o grupo cénico da Sociedade conseguiu reunir o extraordinário conjunto de amadores que tão alto, e por esse país fora, elevou a tão grandes alturas o seu nome e o nome da terra que, todos eles, tanto amaram: Tavarede.


Esqueçamos as causas terríveis que foram vividas na e por causa da casa que estamos a historiar. Esqueçamos, até, alguns casos bem dramáticos vividos por alguns amadores em consequência do ocorrido e que deixaram profundas sequelas, esqueçamos, igualmente, a perda de um grupo cénico em grande actividade e que muitos serviços prestou à cultura tavaredense. Lembremos, unicamente, que, na nossa terra, afinal houve uma causa que ganhou: o Teatro.

(continua)

sábado, 21 de maio de 2011

Clarice Rodrigues Oliveira



Tavaredense, nasceu em Outubro de 1912, filha de João de Oliveira e de Guilhermina Rodrigues Cordeiro. Casou com António Martins de Sousa Gomes, e teve uma filha, Graça. Faleceu em 14 de Abril de 1988.


Muito nova, acompanhando seu pai e seu irmão António, começou a integrar o grupo dramático do Grupo Musical, revelando-se uma excelente amadora, participando em muitas peças, operetas e comédias. A propósito da sua interpretação na peça Noite de Santo António, um crítico refere “ tem voz, tem gesto, mas… teve medo, que a levou a fraquejar em certa altura. Deve perder esse medo; quando se possuem qualidades reais e verdadeiras, como ela possui, não há que temer e deve-se fazer realçar todos os recursos”.


Quando a colectividade terminou a sua actividade teatral, passou, com seus familiares, a fazer parte do elenco do Grémio Educativo, onde se manteve enquanto este teve actividade.


Seu marido, foi hábil músico, tendo organizado um conjunto que, ainda que por poucos meses, abrilhantou as festas do Grupo Musical.


Caderno: Tavaredenses com história

José Fernandes Matoso



No jornal “A Voz da Justiça”, do dia 28 de Abril de 1928, encontrámos a seguinte notícia:


“É, actualmente, raro o registo da morte de centenários no nosso concelho. Deu-se há dias o do sr. José Fernandes Matoso, natural do Saltadouro, freguesia de Tavarede, de quem hoje damos o retrato.


Era um tipo interessante, e conservou até final a lucidez de espírito. Casou pela primeira vez aos 38 anos, havendo desse matrimónio quatro filhas, das quais sobrevivem duas: Maria e Emília Loureiro Fernandes.


Casado em segundas núpcias com Emília da Silva Custódio Fernandes, houve deste matrimónio 11 filhos, dos quais sobrevivem 5: Teresa, Amélia, Beatriz, Celeste e João da Silva Fernandes. Deixa ainda 18 netos.


Em Novembro de 1902, sua mulher Emília Custódia, deu à luz três crianças, sendo duas raparigas e um rapaz.


Há 9 anos que o sr. José Fernandes Matoso vivia na Figueira. O retrato que hoje reproduzimos tem uns 4 anos”.

“… com a idade avançada de 107 anos, faleceu. Era pai de João Fernandes, proprietário da Sapataria Fernandes, e sogro de Aniceto Joaquim Afonso, sargento. O bondoso velhinho era natural do Saltadouro”.



Caderno: Tavaredenses com história

DE CASA DE CULTURA A... TABERNA! (1)

Vamos dar início a uma 'espécie' de inovação, regressando à maneira dos folhetins que tanto estiveram em voga, nos finais dos séculos dezanove e princípios do século vinte. São histórias demasiados compridas para serem publicadas de uma só vez. Começamos por contar a história de uma casa que, tendo sido um verdadeiro 'santuário' da cultura popular, acabou, tristemente, em taberna, sendo, nos dias de hoje, uma mercearia. Se, porventura, os meus amigos visitantes não gostarem deste género de contar historietas da nossa terra, sejam francos, digam-me que eu abandonarei tal sistema. E vamos ao primeiro capítulo:


Uma casa que deixou saudades

No livro “50 Anos ao Serviço do Povo”, ao lembrar as casas “onde se representavam peças que fizeram correr rios de lágrimas e provocaram indigestões de gargalhadas”, Mestre José Ribeiro fala, entre outras, “na de Joaquim Águas, pai do velho capitão Águas, José Joaquim Alves Fernandes Águas, prédio em que mais tarde esteve o Grupo Musical Tavaredense”.


Embora, no segundo caderno, já por várias vezes tenhamos referido esta casa, especialmente quando ali tiveram as suas sedes o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense e, posteriormente, o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, não resistimos à tentação de aprofundar e aqui deixar, embora resumida, a história daquela casa que, durante mais de quinze anos, teve uma importância extraordinária no desenvolvimento cultural de Tavarede e que, por circunstâncias que procuraremos desenvolver no decorrer desta nossa história, acabou ingloriamente em ruínas, nos finais dos anos 30, tendo sido reconstruída e reconvertida em “mercearia e vinhos”, para não dizermos “taberna”, que, aliás, ainda conhecemos.


Não o fazendo totalmente, ocupava uma boa parte do quarteirão que, actualmente, é limitado a sul, pela Rua A Voz da Justiça; a norte, pela Rua do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense; do nascente, pelo Largo D. Maria Amália de Carvalho; e do poente, pela Rua D. Francisco de Mendanha.


Nos “velhos” tempos em que ali residia Joaquim Águas com sua família, lá se representava Teatro. Em condições deficientes, acreditamos, pois a sala de espectáculos era a ampla loja do rez do chão,mais apropriada a uma casa de arrecadação de lavradores do que a representações dramáticas, mas, certamente, com imensa vontade e satisfação.


Também é nossa convicção que foi ali que, nos últimos anos do século passado, funcionou um grupo teatral denominado “Bijou Feminino” e que igualmente foi ali que ensaiou e tocou uma tuna que denominaram “Bijou Tavaredense”.


Esta nossa historieta começa, portanto, com este breve apontamento. Vamos, agora, avançar um pouco no tempo.


Já sabemos que em Agosto de 1911 se funda o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, facto, aliás, bastante desenvolvido no já citado segundo caderno. As condições deficientes que esta jovem colectividade dispunha na sua primeira sede, na loja da Tia Romana Cruz, ao Largo do Paço, chamaram a atenção do abastado carritense Manuel da Silva Jordão, que havia comprado a casa de que estamos a tratar e que “motivado pelos fins propostos pelos activos dirigentes da nova associação, lhes cedeu aquela casa, colaborando nas obras necessárias para a construção duma boa sala de espectáculos”.


A inauguração teve lugar em Janeiro de 1915. Lembremos um pouco da notícia desta inauguração: “Com a maior solenidade, realisou-se no ultimo sabbado, como estava marcado, o primeiro espectaculo na nova séde d’aquella casa d’instrucção musical e teatral, que decorreu animadissimo.


Pouco antes de se começar o espectaculo foi, pelo sr. dr. Manuel Gomes Cruz, proferido um discurso, que enthusiasmou o publico, e não só a este como também aos sócios do Grupo Musical.


Aquelle senhor ao dizer, entre outras coisas, que o honravam com aquelle progresso na sua terra, e não só a elle como a todos os seus conterraneos, foi, para a numerosa assistência, que o ouvia com o maior respeito, uma alegria, e pouco depois, agradecendo em nome de todos os sócios d’aquella colectividade ao seu grande benemérito, ao seu grande protector, sr. Manuel da Silva Jordão, foi-lhe inaugurado o seu retrato, tocando a orchestra o hymno da Associação”...


A actividade da colectividade, que se desdobrava em teatro, música, escola nocturna, desporto e convívio, em breve mostrou a necessidade de novas obras.


Foram concluídas em Dezembro de 1924 e a elas se refere este recorte:


“Com as obras que a Direcção vigente meteu hombros e que já se encontram concluídas, esta associação é, hoje, sem dúvida alguma, pelas modificações nela introduzidas, uma das colectividades do concelho que melhor se acham instaladas, pois que possuindo todos os requisitos duma sociedade moderna tais como salas próprias para ensaios, leitura, recreio, etc., etc., estas são explendidamente iluminadas a electricidade”.


Sabemos já os êxitos alcançados nesta casa com o teatro e com a música. Também sabemos que, antes destas últimas obras, uma nova aspiração havia nascido aos então directores, que era a aquisição do edifício, para terem uma sede própria.


Haviam sido encetadas as necessárias diligências com o proprietário do prédio, de quem, como consta em actas da Direcção e da Assembleia Geral da colectividade, algumas já transcritas por nós, receberam a melhor compreensão e disponibilidade.


Foi feito o negócio, liquidado parcialmente e estabelecidas as condições para o pagamento da parte restante.


Mas... o problema é que, quando se estabelecem condições, há que cumpri-las. E a verdade é que, grande amigo e grande benemérito, o sr. Jordão começou a ver correrem os meses e os anos e nada de lhe pagarem, ou pelo menos amortizarem, a dívida contraída.


Curioso o facto de em 1928, quatro anos após a venda, aquele senhor escrever uma carta a dizer que desejava a liquidação em Novembro dêsse ano (quatro meses depois da carta), e a Direcção ter deliberado “não responder sem primeiro se averiguar se se consegue hipotecar o prédio a outro pela dívida principal do Grupo”.


As diligências não resultaram e, quanto ao pagamento, mais uma vez nada houve.


Devem ter azedado os ânimos bastante. Bastará recordar que, na sua reunião de 13 de Março de 1929, a direcção deliberou: “o presidente da direcção deu conhecimento que já havia liquidado contas com o principal credor do Grupo, sr. Manuel da Silva Jordão, propondo que o mesmo sr. fosse suspenso de sócio até à realização da primeira Assembleia Geral, pela qual deverá ser demitido, para o que se tem em vista o que se encontra estatuído, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da sua direcção e ainda que, em atenção à incorrecção manifestada, ou por outra, posta em prática pelo mesmo sr. Jordão, propoz também que fosse retirado imediatamente, da nossa sala de espectáculos, a sua fotografia, que ali se achava exposta...”. (continua)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O CASO DA "VOZ DA JUSTIÇA"

A propósito da local aqui publicada no último número sobre o célebre caso da “Voz da Justiça”, enviou-nos o sr. José da Silva Ribeiro o seguinte esclarecimento:


“Tavarede, 26 de Março de 1977
Prezado Amigo Sr. Anibal de Matos


No seu jornal de ontem li uma notícia sensacional, publicada em bom relevo e com um título também sensacional: Encerrado o caso da apreensão das máquinas e material que levou à extinção da tipografia do jornal “A Voz da Justiça”.


O quê?! Teria sido finalmente concluido o processo que corre pela 2ª Secção da Comissão Nacional de Inquérito do Ministério da Justiça?! O meu espanto logo se desfez à leitura das primeiras linhas. Não, não era nada a conclusão do processo: apenas um equívoco baseado numa nota publicada pela Comissão Administrativa da Junta Distrital de Coimbra.


Dê-me licença, amigo Anibal de Matos, que o esclareça e lhe dê elementos com que possa corrigir o erro da notícia e informar com segurança os seus leitores.


O caso da “apreensão” que o título da notícia refere é o do roubo da Tipografia Popular, Lda pela gente de Salazar, praticado há quase 40 anos. É verdade – quase 40 anos. E não está nada “encerrado”!.


Mergulhado naquele esquecimento que era norma do Salazarismo, dali o foi arrancar, pouco depois do 25 de Abril, precisamente a 22 de Junho de 1974, o meu velho amigo e patrício António Medina Junior, trazendo-o para a luz no seu Jornal de Sintra daquele dia. Foi ele, o Medina – não o esqueçamos, - quem deu origem ao processo a que atrás me refiro. O Medina foi notificado para fornecer à Comissão Nacional de Inquérito todos os elementos relacionados com os factos referidos no Jornal de Sintra. Em consequência, foram chamados a prestar declarações o dr. Rafael Sampaio, o dr. Adelino Mesquita e o Valdemar Ramalho. A estas declarações assistiu o advogado dr. Luis de Melo Biscaia. Se alguma vez (quando?...) o processo encerrar com sentença digna, que os herdeiros dos Sócios já falecidos fixem estes dois nomes – do Medina e do dr. Biscaia: o primeiro porque veio lembrar o que estava esquecido, o segundo porque, como figueirense, como simples cidadão democrata e depois como Deputado, tomou iniciativas para que não morresse definitivamente o caso da Voz da Justiça.


Perdoe esta digressão por águas passadas, que não desejo estagnadas.


Concretamente quanto às máquinas que estão em Semide: Não são todas as que, por ordem de Salazar, a polícia levou da tipografia da Figueira. O bolo, para além de contemplar Bissaia Barreto, que era então dono e senhor do distrito de Coimbra, foi distribuido por outras partes. Na acção civel que contra o Estado, a Polícia (PVDE) e outros foi posta no Tribunal desta cidade, indicava-se no artº 16º que “o réu Leitão transportou na sua caminheta, diz-se que para Lisboa, uma das melhores máquinas da autora” e no artº 17º referia-se que o réu Balsas e por ventura outras pessoas transportaram para vários locais quanto existia na Tipografia Popular, Lda. O processo desta acção, posta pela Tipografia Popular Lda descobriu-o o dr. Luis de Melo Biscaia, que tanto e tanto se tem interessado por não deixar esquecer o caso da Voz da Justiça. A esta acção foi dado o valor de 1.200 contos. No inventário sumaríssimo feito pela Policia quando do encerramento da tipografia, a todas as máquinas que ali havia foi atribuida a verba de 219 contos. Ora, as máquinas que estão em Semide de modo algum podiam considerar-se como indemnização do roubo feito à Tipografia Popular Lda. Porque, amigo Anibal de Matos, o roubo praticado não constou apenas de algumas máquinas que estão em Semide – constituem somente uma parcela muito pequena -, o roubo foi total: máquinas (uma nova, a mais valiosa, que nem sequer ainda estava paga, foi levada para Lisboa), armazém de papéis, colecções de tipos comuns e de fantasia, enorme variedade de outro material gráfico, biblioteca, valiosas colecções de jornais, os próprios livros de actas e da escrita da Empresa, numa palavra – tudo, só ficando as paredes do edifício, e estas mesmo depois de lhes terem arrancado os lavatórios. Eram instalações modelares, bem apetrechadas, salas próprias para impressão e para composição, salas de redacção e administração, etc.


Os valores que estou a referir são os de há 40 anos! Em linguagem monetária de hoje em quantos milhões de escudos deveremos traduzi-los?


Não, deixe-me repeti-lo. As máquinas que estão em Semide ninguém as aceitaria como indemnização daquele roubo para encerrar o caso. E não deve esquecer-se que os sócios ainda vivos da Tipografia Popular Lda são apenas dois; mas os sócios falecidos deixaram herdeiros. Os dois sobrevivos estão muito velhos; os herdeiros dos falecidos, esses são novos ainda e talvez tenham suficiente paciência para esperar a conclusão do processo que o Sr. Ministro da Justiça, respondendo ao requerimento do Deputado dr. Luís de Melo Biscaia, disse estar para breve... Isto foi em 9 de Março do ano passado...


Desculpe-me ter roubado tanto espaço a “O Figueirense”, se entender que deve publicar este esclarecimento; mas permita-me ainda que reafirme o meu louvor e agradecimento à Comissão Administrativa da Junta Distrital de Coimbra, que honradamente veio a Tavarede, onde sabia que residia um dos dois sócios ainda vivos da Tipografia Popular Lda, dar conhecimento da existência das máquinas na instituição que administra. Regosijo-me com a sua resolução de dar total aproveitamento às obras de assistência que tem a seu cargo, nomeadamente admitindo um monitor tipográfico que possibilitará, agora, arrancar do túmulo em que enferrujavam as máquinas que foram da “Voz da Justiça” e na Escola Profissional de Semide bom serviço podem prestar na preparação de bons trabalhadores das artes gráficas. Penso que, dadas as circunstâncias, deixar as velhas máquinas da “Voz da Justiça” a trabalhar naquela instituição, é mais digno e proveitoso destino que se lhes poderia dar.



Grato se confessa o que já foi seu camarada, José da Silva Ribeiro-



'O Figueirense - 1977-04.01'