quarta-feira, 15 de junho de 2011

De Casa de Cultura a... Taberna (6)

(continuação)



E, depois, a seguinte, de 7 do mesmo mês:

“..............
Comentando o procedimento de um pároco da região de Mortágua, comenta-se, depois:
...... Quando dum recente casamento, na igreja de Tavarede, convidados estranhos à terra exprimiram a sua surprêsa ao ver o padre fechar a porta do templo e realizar a cerimónia à porta fechada, êste explicava o seu procedimento queixando-se do povo, que não o acatava nem respeitava. E dizia: - “Veja V.Exª.: no domingo, quando fazia a visita pascal, até palha me ofereceram”. Isto foi-nos referido por pessoa que o ouviu.



São excessos lamentáveis, sem dúvida.



Mas que esperam colher estes padres que outra coisa não fazem senão semear ventos?”.

Entretanto surgiu a resposta e, como atrás dizemos, não foi pelo padre Dinis.



Antes de começarmos com esta transcrição e alguns comentários, permitimo-nos abrir um pequero intervalo para prestar um esclarecimento. No ano de 1914, a chamada Quinta do Robim, havia sido adquirida aos herdeiros do seu fundador, Robim Borges, por Abílio Simões Baltazar, Angelo de Carvalho e Luiz Pedro Pinto, todos naturais de Almalaguês.



Começou, então, uma grande corrente migratória para as redondezas de Tavarede. Daquela grande zona do vale do Ceira, desde Miranda do Corvo até quási Coimbra e estendendo-se para os lados de Condeixa e Penela, uma enorme quantidade de pessoas se mudaram para cá. Adquiriram terrenos e arrendaram outros, refazendo a sua vida nesta região. Gente laboriosa, a sua quase totalidade dedicava-se à agricultura. Procuravam uma vida melhor para si e para os seus. Conseguiram-no. Mas, teremos que o recordar, toda esta zona em redor de Tavarede beneficiou, e muito, com os novos habitantes, que, desde logo, se integraram perfeitamente na vida tavaredense.



Ainda hoje, e talvez por influência da naturalidade daqueles adquirentes do Robim, continuam a ser chamado de “Almalaguezes”, mas sem qualquer intuíto ofensivo ou perjorativo, pois desde sempre respeitaram os locais e por estes foram respeitados. Claro que há já muito tempo que são tavaredenses, como os melhores.



Estes migrantes eram, e continuam a ser, bastante religiosos e praticantes activos da fé católica. Naturalmente que apoiaram a acção do padre Diniz. Certamente que não terão levado a bem a campanha desencadeada contra ele, com ou sem razão. E foi um deles, a quem os pais já tinham conseguido dar uma elevada educação intelectual, que chamou a si a defesa do sacerdote.



Foi em “O Figueirense”, nos finais de Maio de 1930, que ela começou:

“ Há jornais que sentem um prazer infinito em mistificar os factos, atropelar a verdade, indo portanto desfechar na mentira. O ponto está em sair a primeira; as outras sucedem-se em rosário. Não se contentam em mentir só uma vez, porque como muito bem dizia Swift, para sustentar uma mentira é preciso forjar pelo menos vinte. E a Voz da Justiça não ilude essa necessidade, antes a provê com largueza. Nós não queriamos. Tinhamos pensado em deixar circular á vontade as revoltantes atoardas que aquele jornal arremessou ao mundo da publicidade, que, parecendo afectar a dignidade sacerdotal do paroco de Tavarede, decididamente, pouco lucro lhe podem render no barato bazar dos doestos. Não queriamos perder um tempo precioso num trabalho tão ingrato - a desfazer pedestais de cinza.



O ofendido não lhe quiz dar essas honras, ou melhor, essa importancia.



Perante calúnias de tal jaez - dizia-nos êle há pouco tempo - há só um caminho a seguir: desprezar o caluniador.



Quando lhe démos a entender a nossa resolução, a resolução que tomámos de escorchar toda a campanha que a Voz tem sustentado contra êle, aconselhou-nos a que os desprezassemos tambem.



De facto o desprezo é uma grande arma para combater êstes processos de jornalismo, como de resto, todas as baixezas de coração. Não há remedio mais eficaz. Mas em certos casos pode ser levado á conta de cobardia, e, portanto, é necessario combater, e combater com energia.



A Sociedade pretende impor-nos o dever duma paciência ilimitada para toda a maldade, todo o absurdo, toda a vilania. Quando porém alguém ultrapassa as raias da tolerância, costuma dizer-se que desafia a paciência a um santo.



Deviamos talvez aproveitar o conselho do Padre de Tavarede. Ele não precisava da nossa intervenção nem da nossa defesa. Sabe redigir melhor do que nós, e, digamos em abono da verdade, tem muito valor como professor. Mas, já agora, como dizia o ferrador do “Amor de Perdição”: - estamos com as mãos na massa, tanto se nos dá amassar um alqueire como dois.



Para o podermos fazer, andámos, com paciência beneditina, a colher todas as informações indispensáveis; e, francamente, estamos embasbacados... Não supunhamos que houvesse jornais que se prestassem a desempenhar papeis tão indignos, tão vituperantes... Jornais pretenciosos de dignididade! Emfim... vão ter a palavra novamente os números e os factos. Posso desde já assegurar aos leitores que tiverem a paciência de nos acompanhar nesta crusada, que lhes estão reservadas grandes surprezas...



Este passo é da máxima conveniência, já para salvaguardar a honra de um pároco que a Voz da Justiça se afadiga em deslustrar, já porque o sr. dr. Julio Gonçalves, fazendo fé pelo que se tem afirmado naquele jornal, disse no tribunal, referindo-se ao pároco em questão: - “Os jornais locais teem narrado factos ainda não desmentidos. O Padre de Tavarede ainda não se defendeu”. Quais jornais locais? - perguntamos nós! Um jornal local, sim, - A Voz da Justiça - e só ela! Houve, portanto, confusão! este sr. tem a monomania de confundir tudo! - dezenas com centenas, singulares com plurais. Dá-nos a impressão que a taboada e a gramática nunca foram o seu forte... “Nunca se defendeu”, dizem eles! Nem defendeu nem defende! Se nas referências que lhe foram feitas houvésse matéria incriminavel, levá-los-hia aos tribunais. De outro modo, não se defende nem lhes responde!... E isto não pode de modo algum ficar assim. Vamos, pois, ao assunto!



Antes de nos emiscuirmos propriamente no assunto da campanha, pedimos ao leitor pio e benevolente, nos consinta duas palavras apenas àcêrca da vida das associações locais. É conveniente pô-los primeiramente ao facto da vida associativa desta terra, visto que o articulista de A Voz da Justiça lhe fez logo ao principio esta alusão: - Em Tavarede há duas associações de instrução e recreio, que manteem escolas nocturnas e teatro. Rapazes e raparigas ali se reunem, colhendo os benefícios da escola, onde se lhes ministra a instrução, e do palco, onde distraem e educam o espirito”.



Lamentamos que só agora o cavalheiro tivésse descortinado a outra associação local. Até aqui só era conhecida uma! - a Sociedade de Instrução Tavaredense. A outra era coisa ignorada, a avaliar pelo silencio que ela tem merecido ao ilustre articulista. Anunciava e realisava espectáculos, tanto valia! A cegueira ou miopia não lhe permitia a visão.



Quando a Voz, por um dever de cortezia, precisava de agradecer algum convite que aquela colectividade lhe enviava, escrevia: Grupo Musical Tavaredense. O lema Instrução desaparecia do cartaz! Se anunciava um espectáculo, dizia sempre: realiza no seu teatrinho, etc. Este teatrinho, em sentido depreciativo, bem entendido. Era tudo assim. É como dizia há dias o sr. João d’Oliveira - uma das pessoas mais dignas de respeito, que mais consideração merece em Tavarede: “nunca o nome das duas colectividades foi evocado naquele jornal, senão agora, quando se atiraram ao Padre, para lançarem a poeira aos olhos dos papalvos”. E estas palavras do sr. João de Oliveira são verdadeiramente consentaneas, são um triste e lamentavel facto. Porque convem explicar, diz-se por aqui que o articulista da Voz é um dos dirigentes da Sociedade de Instrução Tavaredense, apezar dêle ter emitido as suas tiradas filosoficas sob a indecorosa capa do anonimato. Não era necessário, contudo, que nos dissessem quem era, porque pelo dedo se conhece o gigante.



Em todo o caso, era preferível - para nós - que êle declinásse a sua identidade, para que o público o ficásse conhecendo como jornalista, depois de escorchada a sua formidavel campanha. Aos seus numerosos predicados teria a juntar mais um: sentinela vigilante da honra alheia”.





(continua)

O Convento de Santo António saqueado

O guardião e frades do Mosteiro de Santo António da Figueira, situado junto da vila de Buarcos, fizeram petição a Vossa Majestade nesta Mesa (Mesa da Consciência e Ordens), dizendo que, desembarcando os ingleses, no mês de Maio passado, na barra da dita vila, deram com o dito Mosteiro e o roubaram e destruiram de tudo o que nele havia, sem ficar coisa alguma, quebrando todas as imagens de santos e levando os retábulos, sinos e ornamentos, com que o dito Convento ficou de todo destruído e sem coisa alguma com que se celebrasse os ofícios divinos e se remediarem as necessidades da casa, e desejando o conselho da Universidade de Coimbra fornecer o dito Mosteiro e frades dele, lho impedem os estatutos por ser sem licença de Vossa Majestade, pelo que pedem a Vossa Majestade seja servido dar licença à dita Universidade para que lhes faça esmola do que Vossa Majestade fôr servido, informaram o Reitor e deputados da dita Universidade, que no tempo em que ela acudiu em socorro da vila de Buarcos, quando os ingleses a saquearam, se viu o grande estrago que fizeram nela e juntamente no Mosteiro de Santo António das Figueira, e que logo então muitos dos estudantes que foram na jornada, lhe aplicaram de esmola o soldo que venceram os dias que lá gastaram e que contudo lhes parece que deve Vossa Majestade ser servido dar licença à Universidade, para que das rendas dela dêem aos frades do dito Mosteiro, cinquenta cruzados para ainda eles se repararem da perda que tiveram.


Parece que visto o que os suplicantes alegam e a informação que houve da Universidade, que Vossa Majestade deve haver por bem de dar licença à dita Universidade, para que das rendas dela dêem aos suplicantes os cinquenta cruzados de esmola de que em sua carta fazem menção.


Em Lisboa, 9 de Janeiro de 1603.


(cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo – C.11 – P. 7)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O CONDE D. SISNANDO E TAVAREDE

Conquistara Fernando Magno a cidade de Coimbra em 1064, segundo a melhor cronologia, ao cabo de seis meses de apertado cerco.


Dentre os capitães que o coadjuvaram nesta empresa, escolheu a D. Sisnando para governador de Coimbra e de todo o distrito que desanfrontara dos mouros, deixando-lhe um exército volante que protegesse as conquistas.


Muitas razões aconselharam El-Rei de Castela a preferir D. Sisnando para tão importante emprego. Além das mostras de esforço e prática militar, que recentemente havia dado, tinha amplo conhecimento do terrítório de Coimbra, porque sendo filho de David, rico moçárabe da que hoje denominamos província da Beira, senhor de Tentúgal e de outras terras vizinhas, não só por estes sítios passára os primeiros anos da vida, mas neles fizera depois várias entradas entre os cristãos.


Na corte do rei de Sevilha se introduziu D. Sisnando, no tempo de Ibn Ablad, e pelos seus talentos e importantes serviços feitos ao príncipe sarraceno, chegára a ocupar o cargo de ‘wasir no divan’, isto é, de membro do supremo conselho do emir, que o distinguia particularmente entre os seus conselheiros.


Ignora-se o motivo porque resolveu abandonar o emir de Sevilha, para entrar ao serviço de Fernando Magno, mas o seu procedimento posterior persuade que a isso o impeliu alguma ofensa dos sarracenos.


Admitido na corte de Leão e Castela, alcançou brevemente convencer D. Fernando das vantagens que obteria invadindo o residente da antiga Lusitânia. O resultado da invasão justificou as previsões de Sisnando, e o rei de Leão retribuiu o bom serviço que lhe fizera o moçárabe, dando-lhe o governo de um distrito constituído com as novas conquistas e com a terra portucalense ao sul do Douro, ao qual servia de limites, pelo oriente a linha de Lamego, Viseu e Seia, e de fronteira pelo sueste, o pendor setentrional da Serra da Estrela.


Vinte e sete anos lograra D. Sisnando o senhorio de Coimbra e de toda a terra de Santa Maria, com o título de conde (que os reis sucessores de Pelágio davam a todos os governadores que punham nas cidades), a qual não só defendeu com seu valor em todo o tempo da sua vida, mas ainda por morte deixar mais acrescentada e melhorada do que a havia recebido.


Além dos edifícios que construíu em Coimbra, e que ainda enobreciam a cidade no tempo do autor da Corografia Portuguesa, povoou e restaurou muitas, outras levantou de novo e fortaleceu. Entre as mais se nomeiam as vilas de Cantanhede e Tentúgal, os castelos de Foz do Arouce e Penela, e a nobre vila de Montemor-o-Velho, a qual, ao seu tempo, começou a levantar a cabeça das ruínas e opressões passadas.


Fundou e dotou muitas igrejas; edificou o mosteiro de S. Jorge e ao de Vacariça deu o lugar de Ota (ou Oiã) e à Sé de Coimbra muitas terras além do rio Mondego. Outro monumento erigiu D. Sisnando, que tornou o seu nome caro aos homens de letras. Estabeleceu, junto da Sé catedral de Coimbra, um seminário para se doutrinarem os moços que se dedicassem ao estado eclesiástico.


Já em era tão inquieta e arredada, havia naquela cidade escolas de boas letras, nas quais se formava a mocidade portuguesa; foram como as percursoras das que, em época mais próxima e tranquila, engrandeceram a Atenas Lusitana.


É, pois, o conde D. Sisnando o primeiro senhor que se acha nas terras de Portugal com jurisdição dilatada; e, posto que em alguns documentos confessa receber da mão de El-Rei D. Fernando, de Leão, o senhorio de Coimbra, e mais terras da sua comarca, restituídas aos cristãos, desde Lamego até ao mar, correndo entre o Douro e o Mondego, todavia a todas elas possuia em livre e independente soberania, podendo delas dar e doar, como vimos, a seu beneplácito e arbítrio. Faleceu em 25 de Agosto de 1091.


Tratando-se do lugar em que repousam as cinzas do conde D. Sisnando, diz Frei António Brandão: “Dizem que está sepultado no adro da Sé de Coimbra, em um dos arcos da parede: o que devia ser, porque naquele tempo se não sepultavam dentro das igrejas, nem ainda mesmo os príncipes”.


Pedro Alvares Nogueira, no catálogo manuscrito dos bispos de Coimbra, diz primeiramente que o conde D. Sisnando estava sepultado em um monumento que tinha um marco, cujo lugar se ignorava, e em outra parte diz haver memória de que a sepultura era no adro.
O que é incontestável, presentemente, é que em Coimbra, encostado ao lado exterior da parede da Sé Velha, junto à quina ocidental, em altura de sete palmos, está um túmulo de pedra calcárea, oblongo, abaulado, de cinquenta e cinco polegadas de comprido, trinta e seis de alto e vinte e três de largo.


Na face externa, lê-se em caracteres alemães minúsculos a seguinte inscrição: “Aqui jaz um que em outro tempo foi grande varão, sabedor e muito eloquente, abundado e rico e agora é pequena cinza, encerrada em este monumento. E com ele jaz um seu sobrinho, dos quais um já era velho e o outro mancebo e o nome do tio Sisnando e Pedro havia nome o sobrinho”.


Diz João Pedro Ribeiro que, por ser em português esta inscrição, não pode datar acima do reinado de D. Afonso III.


Com efeito, nesse tempo é que se reformou a Sé, e talvez depois se traduziu em vulgar alguma inscrição latina que dantes estava no túmulo, que este actual substituiu, o que parece mostrar a sintaxe, que indica mais uma versão de latim que obra original. Por baixo do túmulo está o lugar de uma lápide, embebida na parede, que já falta; seria talvez a inscrição original.


Deste monumento sepulcral faz menção o sr. Conde A. Raezynoki, na sua obra – Les Arts en Portugal -, transcrevendo, em francês, a inscrição e focando alguns dos principais factos da vida do célebre personagem a que respeita. Deste monumento sepulcral nos diz também o visconde de Almeida Garrett, que “em Inglaterra, ou noutro país cristão, seria conservado com respeito e veneração de relíquias”. E invectiva, indignado, o desprezo em que é tido.


Dezasseis anos antes que o grande poeta soltasse estas vozes patrióticas, havíamos erguido a nossa, posto que humilde, pedindo remédio a tamanho escândalo: “As venerandas cinzas de tão egrégio varão, a quem Coimbra, a sua pátria, e as mais povoações vizinhas devem grandes benefícios, quiseramos se puzessem a melhor recato, mudando o túmulo para lugar mais decente, abrigando-o da inclemência das estações, a que está exposto”.


O nosso desejo anunciamos ainda hoje. Pedimos a quem com obrigação de conservar estes preciosos restos de tão famoso monumento “livre das intempéries do tempo o túmulo do conde D. Sisnando”.


(Cadernos Manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo – L. 51 – pág. 77 a 82)

O conde D. Sisnando estará, para sempre, ligado à história de Tavarede. Foi ele que enviou para cá Cidel Pais, seu companheiro de armas, com a obrigação de repovoar a vila e de reconstruir a igreja de S. Martinho de Tavarede, que havia sido vítima da conquista muçulmana.

De Casa de Cultura a... taberna! (5)

(continuação)


Mas “A Voz da Justiça” continuou. Logo a 19 de Abril daquele ano escrevia:

“Antes de mais nada, vamos lá desfazer a estranheza de algumas pessoas que nos atribuiram propósitos que não tivémos: aludimos àquelas que não levaram a bem que nós, referindo-nos no último número ao sr. vigário de Tavarede, escrevêssemos: “Pe. José Martins da Cruz Denis, solteiro, pároco de Tavarede”.


Que tôda a gente sabe que os padres são solteiros, e que nós, acrescentando-lhe ao nome a designação do seu estado, tivemos intuitos desprimorosos para com o sacerdote em questão.
Valha-nos Nossa Senhora!


Nós limitámo-nos a copiar o requerimento que o pároco de Tavarede dirigiu ao meretíssimo juiz da comarca, requerimento que começa assim: “Diz Padre José Martins da Cruz Dinis, solteiro, maior “ etc.


Foi êle, e não nós, quem frizou a sua qualidade de solteiro. Bastaria a sua qualidade de padre católico para se presumir que seria solteiro. Mas o sr. Pe. Denis, não se satisfazendo talvez com a presunção, quis êle próprio acentuar que era solteiro. Ele lá sabe as razões que tem para frisar êste pormenor, que nós quisemos respeitar, como nos cumpria.


Fica, pois, assente, que o sr. Pe. José Martins da Cruz Denis é solteiro, maior, e provàvelmente também vacinado.

* * * * *

Os factos aqui narrados, embora só agora dêles tivéssemos conhecimento, já são antigos. A população de Tavarede conhecia-os há muito, e há muito êles andavam já de bôca em bôca, comentados como era natural que o fôssem por gente simples que, tendo sido sempre religiosa, não podia deixar de estranhar as inovações que o novo pároco introduziu no regime da sua igreja. A irregularidade do horário fatalmente escandalizaria o povo de Tavarede, que não leva a bem o excessivo zêlo do padre e a excessiva devoção das suas ovelhas.


Além do mais, a mocidade impetuosa do padre leva-o a praticar e a dizer inconveniências. Quere mostrar-se autoritário - e cobre-se de ridículo quando proclama que há-de ensinar êste povo ignorante e malcriado. Ameaça a torto e a direito - e desrespeitam-no. Contou-nos um director duma das associações locais, que, numa ocasião em que o padre, na igreja, fazia a campanha contra as colectividades, insultando mais ou menos disfarçadamente as raparigas que nos teatros destas associações representam, uma das atingidas, que assistia, soltou uma gargalhada, levantou-se e saíu.


A acção do padre está-se reflectindo na harmonia do lar duma forma expressiva. No dia 25 de Março uma pobre mulher que saíra de manhã para a igreja, só voltou a casa, que fica num lugar afastado, depois das 23 horas. O marido teve de fazer o seu almôço e de tratar dos animais. Quando ela chegou, o homem não se conteve e... a pobre da mulher gemeu sob uma tareia. Para as bandas dos Condados sucedeu coisa parecida, mas aí bateu o homem na mulher e a mulher no homem...


Os comentários picarescos refervem, sendo nêles especialmente visado o padre, que com êste desenvolvimento da fé católica leva as pobres mulheres que êle fanatiza a esquecerem os seus deveres domésticos.


Paremos hoje por aqui.


E continua firme o oferecimento destas colunas ao sr. vigário de Tavarede, que não precisa gastar dinheiro para chegar até elas, pois lhe dispensamos o papel selado”.

Ocorreu, entretanto, a tradicional celebração da Páscoa. Conforme adiante se verá, parece que terá havido bastante exagero por parte deste jornal ao publicar, a 23 de Abril, esta local:

“O sr. Pe. José da Cruz Denis, solteiro, pároco em Tavarede, deve a estas horas estar já bem convencido de que não é com ameaças, com atitudes despóticas que resultam ridiculas e com os excessos e inconveniências que o tornaram conhecido, mais do que convinha, em todo o concelho da Figueira, que poderá conquistar a estima e o respeito dos tavaredenses.


A população do vizinho lugar de Tavarede infligiu-lhe no domingo de Páscoa o devido castigo. Várias casas, em número relativamente elevado, fecharam-lhe as portas; e mesmo noutras onde entrou, o “acolhimento” foi, segundo nos informaram, bastante significativo. Nunca semelhante espectáculo se verificou em Tavarede. Abstemo-nos de relatar episódios que se deram e devem ter vexado aquele sacerdote, mas que têm natural explicação na antipatia e na reprovação que o seu procedimento despertou nos habitantes de Tavarede. Nem sequer lhe fica o direito de atribuir o “acolhimento” de que foi alvo aos adversários da igreja, porque foram vários os católicos que, pela primeira vez na sua vida, agora fecharam a porta ao seu pároco em dia de Páscoa.


Foi uma lição, lição que ainda não terminou, porque noutros lugares da freguesia diversas pessoas lhe fecharão também a porta no domingo de pascoela.


Mas a culpa não é apenas dêle. É tambem dos que, devendo aconselhá-lo e moderar-lhe os impetos da mocidade, o deixaram assim lamentavelmente desamparado.


Quem semeia ventos...”

A resposta a todas estas notícias só veio mais tarde, como veremos, e não pelo visado, mas sim por um seu amigo.


Entretanto, e por acharmos o caso curioso, ainda vamos transcrever duas locais do jornal acima. A primeira de 3 de Maio:

“ Pessoa desta cidade que no último domingo foi a Tavarede assistir a um casamento, veio dali indignada com o procedimento do padre e quis contar-nos o que se passara.


Muitas pessoas da Figueira foram a Tavarede para assistir ao casamento; quando se dispunham a entrar na igreja, após o cortejo, o padre, sem ao menos usar as regras que uma pessoa bem educada nunca esquece, fechou-lhes a porta na cara. E o casamento fez-se à porta fechada.


Os comentários foram o que o leitor pode supor, chegando alguns ânimos a exaltar-se, felizmente sem consequências, dada a prudência da maioria. E o nosso amigo exprimia-nos a sua estranheza pelo que presenceou, censurando acremente a atitude do padre, que, além de incorrecta, foi considerada inconveniente sob outros aspectos.


Devemos dizer que não nos surpreendeu o que ouvimos. Já há tempos o nosso correspondente de Tavarede informara que êste magnífico padre fazia os casamentos à porta fechada. E devemos também acrescentar francamente que o facto não nos interessa.


O que nós estranhamos não é que o padre, para realizar certos actos, feche a porta da igreja de dia, mas sim que êle a abra de noite, a horas incertas e inconvenientes. Isro é que o povo de Tavarede não leva a bem! Isto é que escandaliza uma população que não tem memória de na igreja da sua freguesia se ter feito tal coisa!


A uma das pessoas que fazia parte da comitiva dos noivos e que de viva voz manifestou a sua estranheza ao padre quando o viu fechar a porta da igreja, tentou êle justificar o acto, despejando insultos sôbre os tavaredenses, acrescentando que não podia viver naquela terra e que já tinha ido a Coimbra solicitar do seu Bispo que o tirasse dali, ao que êste não acedeu, respondendo-lhe que a hora era de... sacrifício e, portanto, que se sacrificasse... Imagine-se que tal deve ter sido o procedimento dêste vigário, que assim comseguiu ter contra si a antipatia de tôda uma população que é de índole submissa, incapaz de hostilizar quem quer que seja, salvo em circunstâncias extremas, e que é, na sua maioria, de crenças católicas!


Emfim, o padre de Tavarede sacrifica-se...


E assim o sr. Pe. José da Cruz Denis, solteiro, caminha a largas pernadas para a celebridade”.



(continua)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

INESQUECÍVEL FIGUEIRA DA FOZ


Regresso. Regresso da Figueira da Foz, sim, mas desta vez maravilhado. A Figueira é cidade que de longe se me tornou familiar. Lá passei mais de três anos da minha já distante mocidade; lá criei amizades que a morte, no seu ceifar constante, desamoravelmente vai destruindo; e lá, ainda, dei os primeiros passos vacilantes, da difícil missão de educador. Recordo com saudade nomes que me foram queridos: o dr. Mendes Pinheiro, sábio e pedagogo, que modelou o seu colégio pelo figurino das “Écoles dês Roches” e de onde saíram rapazes que marcaram na vida, porque saíram dali apetrechados para a dominarem e vencerem; os drs. Manuel e José Cruz, dois irmãos ilustres, o primeiro, advogado dos melhores do seu tempo, e o último, médico abalizado, amigos democratas da mais pura gema; o tenente Girão, que foi tempos depois major na Grande Guerra, que morreu coronel de artilharia, comandando em Vargens, sua terra adorada, o regimento local; o Paulo Santos, músico distinto, folgazão, sempre metido no seu fraque impecável; o dr. Manuel Gaspar de Lemos, estudioso e culto, que mais tarde foi ministro da República, e que, felizmente ainda vivo, é uma relíquia da Democracia portuguesa, que, pelo seu aprumo moral, se impõe ao nosso respeito e veneração; o Júlio Vaz, escultor de mérito, que modelou o gigante Adamastor; o Augusto Pinto, rapaz ao tempo dado às letras pátrias, e que é de há muito um jornalista de vulto; e tantos outros que os anos fizeram desaparecer, da vida ou do meu convívio social.


Quem substituiu o lugar destas figuras marcantes da linda cidade ribeirinha?


Praia por excelência, a Figueira atrai-me, mesmo antes dos grandes melhoramentos com que constantemente tem sido dotada. Ficaram marcados no meu cérebro em caracteres indeléveis, aqui e além, factos que vivo hora a hora, com saudade intensa, aquela saudade que “é um mal de que se gosta e um bem que se padece”.


Desta vez fui à Figueira para me deleitar com a representação da fantasia histórica de Tavarede, escrita e posta em cena pelo José Ribeiro, esse autodidata inteligente e culto, que, com uma “pena de ouro”, alimentada com tinta da mais preciosa, fez de “A Voz da Justiça” jornal desejado e lido por muitos milhares de portugueses, e que nunca mais quis ser o jornalista de mérito que é, viúvo saudoso da grande gazeta, que é ainda o sonho querido da sua vida, cheia de ideias mais firmes e vigorosas.


Regresso, repito, maravilhado pelo que vi e ouvi naquela noite inolvidável de Agosto. O “Chá de Limonete” é, acima de tudo, uma peça literária, que põe em cena toda a história da antiga vila de Tavarede, desde os tempos mais recuados e é desempenhada com uma arte tão sublime que explica o valor e a devoção que a “Escola da Arte de Representar”, de Tavarede possui, e que faz do homem da plebe, um actor consumado. Aqueles que dizem que o Teatro está em crise, que venham admirar a obra educativa que a Sociedade de Instrução de Tavarede organiza, e defende, neste país onde a bola impera despoticamente e sem finalidades quanto ao problema educativo, de que deveria ser complemento salutar.


Como é que José Ribeiro fez de um grupo de trabalhadores agrícolas um elenco admirável que poderia e deveria levar a todos os recantos do país? Só ele o sabe. José Ribeiro marca no seu meio como um gigante das artes e das letras, impondo-se ainda pela sua grande modéstia, e pela sua grande elevação moral, à estima de quantos o conhecem e admiram. Poderá um Homem desta craveira ter inimigos? Águia que voa alto demais para que possa ser atingida por homúnculos e anões; trabalha sem cessar com uma abnegação e um estoicismo que encantam e arrebatam, sem atropelar ninguém, sem dizer mal de ninguém, contente consigo próprio, honrando a terra que lhe foi berço, e tornando “ditosa a Pátria que tais filhos tem”.


“Chá de Limonete”! Acabo também de te ler com o mesmo interesse e com o mesmo carinho com que te vi representar. Ficarás no rol das minhas recordações, como jóia do mais fino e puro quilate.


(O Mundo Português – Rio de Janeiro - República 1953.09.06)

DE CASA DE CULTURA A... TABERNA! (4)

(continuação)

Indiferente às críticas, o pároco continuou a sua tarefa evangelizadora. Queria atrair à igreja cada vez mais tavaredenses. Mas, também, a ignorância do povo o apoquentava. No entanto entendia que a cultura que as associações locais procuravam ministrar, através do teatro e das suas escolas nocturnas, longe de fazerem renascer o culto católico nos seus frequentadores, o afastavam dele.


Talvez tenha usado certos métodos que a alguns terão parecido menos correctos. Talvez, até, por alguma vez se tenha excedido. O que vamos transcrever, longe de tomar partido por uns ou por outros, resultou numa polémica violenta, com toda a certeza injusta nalgumas situações, mas que não nos compete comentar, pois que, de posse dos elementos transcritos, cada qual fará o seu juizo. Ou encolha os ombros, pura e simplesmente, há tanto tempo isto se passou.


Mas como se verá lá para a frente, tudo isto, e muitas coisas mais a seu tempo transcritas, se relacionam com a história da casa, da velha casa de cultura, a que dedicamos esta parte do nosso trabalho e que existiu em Tavarede.


Quem abriu as hostilidades foi “A Voz da Justiça”. Nos seus números de 12 e 16 de Abril de 1930, escreveu sob o título “Um padre que troca o caminho do paraíso pelo da celebridade”:

“ Não se trata, como poderá supor-se, do padre de Quiaios, que já hoje é entre a clerezia do concelho, um padre verdadeiramente célebre. As suas notáveis façanhas, e sua moral, o seu feitio despótico e conflituoso são bem conhecidos. O nosso distinto colaborador Rui Martins, apresentou-o tal como êle é, outorgando-lhe definitivamente o título de celebridade.


Há no nosso concelho um outro padre, da mesma marca do de Quiaios, que não quere ficar-se atrás dêste: é o de Tavarede. De tal modo procede, que bem depressa alcançará a celebridade para o seu nome, embora sacrificando delícias do paraíso, que tão gratas deviam ser à sua alma.


A conduta do padre de Tavarede está merecendo reparos. A sua acção ultrapassa limites que nenhum pároco naquela freguezia ouzou ultrapassar. Referiram-nos anteontem casos muito expressivos, que eufemisticamente classificaremos de excesso de zêlo religioso. O padre está abusando da bondade da população, servindo-se da ignorância e da cegueira espiritual de pobres criaturas que êle arregimentou e manobra como lhe apraz. Do que nos contaram anotámos o seguinte:


Em Tavarede há duas associações de instrução e recreio que mantêm escola nocturna e teatro. Rapazes e raparigas ali se reunem, colhendo os benefícios da escola, onde se lhes ministra a instrução, e do palco, onde se distraem e educam o espírito. Pois o padre faz prédicas na igreja condenando as associações, embora sem lhes citar o nome, apontando-as como um perigo moral e aconselhando os pais a proibirem que suas filhas as frequentem. Nada de teatros! Na igreja é que êle as quere, de dia e de noite!


- A igreja funciona, pode dizer-se, permanentemente, a tôdas as horas do dia e a tôdas as horas da noite. Semelhante facto, considera-o a gente de Tavarede como escandaloso, recordando que nunca tal se vira em tempos de outros padres.


- Certa madrugada de inverno, cêrca das 6 horas, noite fechada ainda, alguém que tivera necessidade de sair cedo da aldeia, passou pela igreja e notou que, a um canto do adro, sob uma árvore que ali existe, estava um vulto de mulher. Daí a instantes chegava o padre, sózinho, que abriu a porta da igreja, onde entrou, e logo após a rapariga.


- De outra vez, cêrca da meia-noite, um homem que a essa hora seguia para o seu serviço nocturno, viu uma mulher no mesmo canto do adro. Causando-lhe estranheza o facto de ali estar, àquela hora e sozinha, uma mulher, dirigiu-se-lhe e perguntou: - “Que faz aqui a esta hora?” - “Estou á espera de quem há-de vir” - respondeu. Era verdade: esperava o padre.


- Em outra noite, por volta das 2 horas e meia, uma outra rapariga foi vista, sentada junto da igreja, que estava fechada. Daí a instantes, quando a pessoa que viu isto passou de novo pelo local, a porta da igreja tinha sido aberta e a rapariga desaparecera do adro.


Tudo isto, esta irregularidade, ou como deve dizer-se, de horário de culto, causa estranheza e escandaliza. Mas há mais:


- Ultimamente, a população de Tavarede foi surpreendida, já de noite, por cantos que pareciam religiosos. Várias pessoas vieram às janelas e às portas. Que seria? - Era o padre que, vindo, parece, de Buarcos, atravessava a povoação comandando o seu batalhão feminino, que cantava em côro qualquer coisa da igreja.


Como não há-de isto causar estranheza, se tal nunca se viu em Tavarede? A população era e é, na quási totalidade, religiosa, sem excessos de fanatismo. Ia à missa aos domingos, quando podia, fazia as suas festas tradicionais, e assim se desobrigava dos seus deveres católicos, a contento dos seus párocos, que, pelo visto, não usavam a cartilha do novo padre. E perguntam as pessoas que não toleram a disciplina actual, se a crença e o respeito a Deus exigem estas práticas, ridiculas, afrontosas e imorais em que o padre de Tavarede entretém a sua actividade e se está celebrizando. A gente sinceramente crente e simples de Tavarede não entende estas coisas e começa a desconfiar. Porque convém esclarecer que o “batalhão feminino do padre” é recrutado fora da população tavaredense, nos lugarejos e casais da freguezia, aproveitando especialmente uma numerosa colónia que há poucos anos veio fixar-se ali.


A acção fanatizadora do padre, que tem pormenores que, parecendo ridiculos, são sintomas que o bom-senso, a moral e o próprio prestígio da religião mandam combater, encontra no meio em que se exerce campo magnifico.


E não se suponha que todos estes excessos de fervor religioso partem dum padre que se desprende do mundo terreno numa constante aspiração de alcançar para as suas ovelhas as delícias do céu. Bem ao contrário, êste padre, que é ainda um rapaz - nós podemos chamar-lhe assim - é muito apegado às coisas da terra, muito cuidadoso no arranjo do corpo, gostando de ver-se bem pôsto, mirando-se e remirando-se em frente do espelho, como um janota de 20 anos, que poucos mais terá êste padre que tão apressadamente caminha para a celebridade.


O sr. prior-arcipreste Palrinhas, que nos dizem ser pessoa inteligente e diplomata, bem pode chamá-lo e dar-lhe alguns conselhos que o metam no bom caminho”.

“A propósito do artigo sob êste mesmo título aqui publicado no último número, fomos na segunda-feira à tarde notificados, a requerimento do Pe. José Martins da Cruz Diniz, solteiro, pároco de Tavarede, para responder aos seguintes quesitos:


1º. - Se essas referências, alusões e frases equívocas, dizem ou não respeito ao requerente;


2º. - em caso afirmativo, a esclareça, dizendo se com elas se pretendeu afirmar que o requerente se portou ou porta mal com qualquer mulher.


Sem esperarmos que decorra o prazo de cinco dias que a lei nos concede, respondemos já, imediatamente, para tranquilizar o espírito sobressaltado do sr. vigário de Tavarede:


1º. - O artigo refere-se ao pároco de Tavarede, que agora sabemos pela notificação chamar-se José Martins da Cruz Diniz;


2º. - não pretendemos afirmar no artigo referido que aquele pároco se portou ou porta mal com qualquer mulher.


Afirmamos isto clara e terminantemente. E oxalá esta declaração restitua ao padre de Tavarede o seu perdido sono.


Com que então - “se se portou ou porta mal com qualquer mulher?”!


Oh! sr. vigário...


Nós não pretendemos dizer isso; nós só pretendemos dizer o que dissemos; nós sabemos muito bem o que dizemos e só dizemos o que queremos dizer.


Que o sr. vigário se portou ou porta mal com qualquer mulher! Mas quem disse tal, quem pretendeu dizer, quem se atreveria a dizer semelhante coisa? A nossa lealdade manda até declarar que as pessoas que nos referiram os factos narrados no artigo de sábado não ousaram fazer semelhante afirmação. Nós, apenas por nós, também a não podemos fazer, pois não conhecemos a vida particular do padre de Tavarede, não sabemos, sequer, quem frequenta a sua igreja. Nós só nos atreveríamos a afirmar que o pároco de Tavarede se portou mal com qualquer mulher, se dêle próprio ouvíssemos a declaração. E nem assim! - nem assim porque podia ainda tratar-se duma gabarolice filha do despeito ou de excessivo zêlo contra qualquer ovelha teimosa que não quizesse entrar no aprisco.


Fica pois, bem esclarecido, que não pretendemos afirmar o que não afirmámos e o pároco de Tavarede parece ter desejado que nós afirmássemos. As pessoas a quem aludimos - as que esperaram à porta e as que entraram na igreja - e que nem sequer sabemos quem sejam, continuam a ser por nós consideradas pessoas honestas.


Ora o sr. vigário! O que êle queria que nós disséssemos!


Muito sinceramente lamentamos a falta de caridade cristã de quem, podendo fazê-lo, não desviou o pároco de Tavarede do atalho por onde êle se meteu. Sabemos que é um rapaz novo - e êste disparate da notificação explica-se com a sua pouca idade. Nós somos indulgentes com certas verduras da mocidade, mas o público é que não quere saber disso e todo se pela por guloseimas desta natureza. As pessoas mais sensatas, mais ponderadas e inteligentes deviam, pois, aconselhá-lo.


Já agora, e visto que o sr. vigário quis conversar, temos de dizer mais alguma coisa. Não pode ser hoje, porque a notificação foi-nos feita na segunda-feira à tarde.


Fica para outro dia, e oxalá o sr. vigário de Tavarede se disponha a conversar connosco. Pode já contar com estas colunas - mesmo sem ter de gastar dinheiro em papel selado e no resto... o que é efectivamente desagradável quando se não conta com isso”.

Como se depreende do segundo artigo, o padre Cruz Dinis recorreu às autoridades solicitando esclarecimentos. Mas não respondeu, pelo menos nos jornais, embora quási que podemos afirmar que o terá feito, igualmente de forma violenta, no seu local de trabalho, na igreja, durante as missas entretanto celebradas.


(continua)

sábado, 28 de maio de 2011

UMA VISITA À IERAX



Saímos da Figueira em direcção a Tavarede. Esperámos que os semáforos passassem a verde, atravessámos a povoação e deparámos com a igreja. Subimos a estrada que se situa ao meu lado direito e, poucos metros volvidos, eis a IERAX – a fábrica que faz os sacos de plástico, no dizer do leigo – o nosso destino. Ora vamos lá ver como se fazem os sacos.


Começamos por ser extremamente bem recebidos pelo sócio-gerente sr. Fernando J. Ferreira da Silva, que tirando uns bons nacos ao tempo de trabalho absorvente, nos forneceu as informações pretendidas bem como nos acompanhou na visita às instalações da fábrica. Ao santuário do plástico afinal.


O início da construção do complexo fabril remonta a 1968, ainda que nessa altura as dependências fossem reduzidíssimas. A sua laboração teve início ainda nesse ano, em pequena e rudimentar escala. Foi adquirida por esta gerência em 1978 tendo, então sim, beneficiado de profundas e progressivas obras bem como sido alargado o parque industrial e a problemática do fabrico.


A sua área – contando com a vastidão dos terrenos circundantes – é de 67 000 m2 sendo a área coberta superior a 6 000 m2.


Situação exacta, já a demonstrámos em “croquis”, no início desta crónica. É fácil lá se chegar.


Número inicial de postos de trabalho (em 1968) – 10.
Em 1978: 50.
Em 1981: 91, sendo 67 homens e 24 mulheres.


Vamos agora tentar explicar, por palavras simples, o que existe de maquinaria: máquinas de extrusão (já explicaremos o palavrão) – 7, de injecção – 4. De impressão e flexografia (até 6 cores) – 4. Corte, soldagem e rebobinagem – 7. De acabamentos – 26. Total – 50, exceptuando as de pequeno porte e de escritório. E ainda as do parque automóvel e de armazém.


Todas estas máquinas juntas formam uma autêntica linha de produção não sendo aproveitáveis sem a ajuda de outras. São de produção sequencial, em espessuras e larguras de filmes e mangas para os diversos fins de aplicação.


E, como é óbvio, vai a administração da fábrica acompanhando a evolução do país tentando desde já preparar o futuro com a procura de novas e actuais máquinas para um melhor acompanhar da produção – isto em forma, também, de novos processos. Faz-se notar que o mercado externo tem outras exigências e qualidades, e desde já se procura emparceirar com a própria CEE.


E a CEE tem muito que se lhe diga. As peças produzidas nos países desta organização têm de ser embaladas em sacos especiais, o mesmo acontecendo aos produtos portugueses, sendo necessário nova maquinaria tendente a cobrir tudo isto. Enfim, toda uma exigência de um saco próprio com as características exigidas – o saco artístico industrial que cobrirá todas as exigências.


Estes irão servir para tudo. Saiem da fábrica em filme técnico, que são umas folhas de plástico bem compridas e largas, que depois, nas fábricas que possuem as máquinas necessárias as vão fechando já com o produto dentro e pronto a seguir para o mercado.


Encontrámos um exemplo deste sistema na fábrica de arroz de Ernesto Morgado, no Alqueidão.


Resumindo: a IERAX produz sacos artísticos e industriais, para uso comercial, e embalagens para fins industriais e agrícolas, quer para consumo interno, quer externo.


Aqueles nossos conhecidos sacos das compras são aqui feitos.


Se seguirmos a linha de produção constatamos que se trabalha principalmente em polietilenos de alta e baixa densidade, que já são produzidos em Portugal pela CNP (Companhia Nacional de Petroquímicos, EP). Depois da entrada deste produto na fábrica, segue para a extrusão, que é a fusão das resinas (polietilenos). Nesta operação as resinas são transformadas em “mangas” e filmes de diversas espessuras, aptos para os fins a que se destinam. Segue-se a impressão, o corte, soldagem e rebobinagem (esta no caso de filmes técnicos).


Produzem cem toneladas mensais. A exportação apenas tem expressão na que provém de valores acrescentados e que a empresa considera exportação indirecta, isto é, produzem-se embalagens para produtos agrícolas, do mar e têxteis, entre outros, que depois são exportados. Consequentemente, o plástico também o é.


A situação económica? Enfim, a crise portuguesa reflecte-se nas empresas. No entanto, os ordenados, caixas, impostos e afins, encontram-se em dia. No dizer do administrador da IERAX as dificuldades provém da própria CNP, que em dificuldade dificulta todas as outras empresas. É que a inflação atinge os 300 por cento. Não sendo da ordem dos 28-30 por cento como por aí tentam fazer crer.


A maioria do pessoal pertence a Tavarede, exceptuando algum pessoal especializado, que vem de fora. Orgulham-se de nunca terem sofrido nenhuma greve ou paralização laboral e consideram-se bem vistos pela população local, para a qual nunca faltam com donativos para as suas beneficências. Acompanham sempre os contratos colectivos de trabalho, não dando azo a reinvindicações.


A empresa IERAX possui ainda um gabinete de desenho, uma secção fotográfica para trabalhos a cores e artes finais e possui fabrico próprio de clichés de fotopolímeros. Os escritórios são computadorizados, possuindo uns vastos arquivos extraordinariamente bem organizados prontos a acudir rapidamente a qualquer solicitação.
Vejam bem: em terrenos, maquinaria e computadores, estão ali quase um quarto de um milhão de contos, isto aos preços de alguns anos atrás! É obra!


A nossa obra, de entrevistar e visitar todo aquele vasto complexo, chegou ao fim. Saímos satisfeitos. Constatámos, mais uma vez que a indústria, no nosso concelho, não se encontra inerte.


(A Voz da Figueira - 3 Maio 1984)