sexta-feira, 8 de julho de 2011

De Casa de Cultura a... Taberna! (10)

Era inevitável o debate jornalistico. A comissão tentava, com todos os elementos de que dispunha, argumentar que tinha razão. O Bispo de Coimbra havia-lhes prometido todo o apoio e esse apoio, entendiam eles, incluia a cedência da casa. Sem mais comentar, transcrevemos a resposta que enviou ao jornal “O Figueirense”, e que foi publicada no dia 12 de Novembro de 1938:

“O semanário católico “O Dever” respondeu com a maior desenvoltura ao comentário que aditámos a uma local do “Diário de Coimbra” sôbre a venda da antiga séde do Grémio Educativo de Tavarede para instalação duma taberna, depois de prometida à Comissão Organizadora para a séde da Casa do Povo da mesma freguesia. E péde-nos, em termos deveras impressionantes, para fazermos a devida correcção, segundo a versão que apresenta do facto.


De boa vontade acederíamos ao seu ingénuo pedido se não estivessemos absolutamente certos de que as coisas se passaram um pouco peor do que nós as referimos.


Afirma o orgão católico que o prédio em questão nunca foi propriedade de qualquer alto dignitário eclesiástico, mas da Sociedade por Quotas Predial Económica, com séde em Coimbra. E convida-nos a verificá-lo nas repartições competentes.


Vamos responder-lhe com um testemunho esmagador, irrefutável, o único que talvez mereça confiança. Êsse testemunho é do nosso circunspecto colega. Foi êle que o afirmou duma maneira categórica e iniludível. Com efeito, lá vem na própria local comentada pelo “Diário de Coimbra” (nº. 465 de “O Dever”) com que se noticia a venda do prédio:


-”Achamos acertada a resolução do sr. Bispo, pois que a casa encontra-se em péssimo estado de conservação”, etc.


Por isso, se faltámos à verdade foi por sua conta... Mas não faltámos, como podemos demonstrar. Que a nossa informação é verdadeira atesta-o desesperadamente “O Dever” na própria local em que pretende corrigir-nos.


Ao negar (só nos espantam a facilidade e a coragem com que estas coisas se negam!) que o prédio tivesse sido prometido a alguém, escreve com a sua conhecida desenvoltura:


- “Houve quem o pedisse mais ou menos claramente; mas em resposta foi-lhe dito que nem se emprestava nem se arrendava - A Diocese não podia fazer despeasas - só se vendia”.


Note-se bem: a Diocese!!!


Portanto, se o prédio em questão não era propriedade particular de S. Exª. Revmª. era pertença da Diocese e estava confiado à sua guarda como fiel Administrador dos bens diocesianos. Ora foi isto precisamente o que nós quizémos dizer. E permanece de pé a nossa afirmação. É isso que nos interessa.


Nem de outra maneira, se compreenderia que para vender o referido prédio fôsse necessário - como foi pedir autorização ao Sumo Pontífice.


Podiamos ainda opôr à verdade das suas afirmações, a simples verdade dos factos que é muito mais eloquente.


Preferimos, porém, em conformidade com a doutrina que não devia ser tão esquecida pelo “Dever”, historiar o caso com toda a simplicidade, servindo-nos, para isso, de documentos há muito em nosso poder, pois não pretendemos fazer polémica.


Em fins de Outubro do ano transacto, chegando ao conhecimento de alguns sócios do Grémio Educativo que a casa onde funcionava aquela associação ia ser posta em venda, foi por três membros da sua Direcção convocada uma Assembleia Geral para deliberar, em tal emergência, sôbre o caminho a seguir.


Consultado préviamente o Revº. Arcipreste, sr. Padre Palrinhas, êste declarou-se contrário à restauração do Grémio, por não lhe ver condições de vida, aconselhando com paternal interesse a creação da casa do Povo a instalar naquêle edifício, para o que se tornava necessário solicitar do sr. Bispo a devida autorização, acrescentando que Ele concordaria por certo em cedê-lo, para tal fim, em condições favoráveis.


A Assembleia Geral realizou-se no dia 5 de Dezembro na séde do Grémio, sendo aprovada por unanimidade a idea da creação da Casa do Povo e resolvido solicitar do Prelado a nomeação de pároco próprio para aquela freguesia, a-fim-de lhe poder ser confiada, mediante retribuição condigna, a regência da indispensável escola nocturna.
De acôrdo com esta deliberação, dois membros da Comissão Organizadora, que imediatamente começou a constituir-se, dirigiram-se a Coimbra onde acidentalmente encontraram um amigo comum, aluno de ciências da nossa Universidade, que os acompanhou ao Paço Episcopal e ali entregaram a S. Exª. Revmª. uma circunstanciada representação que foi lida por um dêles.
Depois de ponderados devidamente alguns pormenores, S. Exª. Revmª concordou plenamente com os pontos de vista da Comissão, prometendo-lhe todo o seu apoio e declarando-se disposto a mandar proceder, em devido tempo, às obras necessárias, nomeando a seguir o pretendido pároco para Tavarede.
Talvez esteja aqui o ponto nevrálgico da questão, visto o actual pároco encarregado da freguesia não ter visto ao que parece com bons olhos, tal medida alheando-se sistematicamente duma causa que devia merecer todo o seu apoio.
Em princípios de Julho, encetadas as primeiras demarches e ouvidas sobre o assunto as esferas oficiais, que verificaram as optimas condições do edifício para os fins em vista, um dos membros da Comissão Organizadora solicitou por escrito a Sua Exª. Revmª. a execução das prometidas obras, tanto mais que a Junta de Freguesia começára a exigir a reparação externa dos edifícios locais e o do Grémio era o que oferecia aspecto mais desagradavel.


Em resposta recebeu a seguinte carta que vale mais do que tôdas as subtilezas possíveis e imaginárias.

“Cª. 10-VII-938
Exmo. Snr.
Recebi a carta de V.Exª. Como estamos em deficit e grande,
depois de ouvir o Conselho Diocesiano, resolvi não fazer obras por
falta de recursos, o que muito me penaliza.
Se houver necessidade de proceder à caiação, V.Exª. terá a bondade de
prevenir o Snr. Vice-Reitor do Seminário.
Os membros do Conselho inclinam-se à venda do prédio por
entenderem que não é possível começar com novas despesas.
De V.Exª.
Mt.Attº. e Obrig.
a) + António B. de Coimbra “

Como é fácil de calcular teve de ser maduramente ponderada a nova situação que esta carta veio criar.


Ventilado convenientemente o assunto, foi enviada a S. Exª. Revmª., pela mesma via e pessoa, nova missiva em que se pedia para, em face daquela resolução, ser a Comissão informada do preço e condições em que seria vendida a casa do Grémio e com quem se devia entender para esse efeito.


A resposta demorou... mas veio e toda a gente a conhece: foi a notícia da venda em circunstancias tão estranhas quanto é certo que os membros da Comissão acima referidos haviam ponderado a S.Exª. Revmª. a inconveniência que havia em vender a casa ao outro pretendente que a desejava para instalação duma taberna (e não mercearia e vinhos, como se pretende fazer crer).


Quanto à Comissão, que tudo tratou com lealdade e lisura, não mereceu até hoje a honra duma explicação.


Honrou-a “O Dever”, além do mais, com a confirmação solene de que nada lhe fora prometido... o que já é alguma coisa.


Podemos, pois, asseverar que a Comissão Organizadora (que se julgava preferida, pois vira superiormente condenada a ideia da venda para taberna) quinze dias depois de fechado o contrato ainda o ignorava e aguardava confiadamente as informações pedidas a quem de direito.
Calcule-se a surpreza ao ter conhecimento do sucedido.


É certo que várias pessoas, convidadas pelo pretendente, acompanharam uma visita ao prédio, dias antes da compra, muito convencidas de que o homem nada conseguiria em Coimbra, sabido o pé em que as coisas se encontravam.


E a pessoa que acompanhou o comprador a Coimbra ia na mesma convicção. Não foi ali para ajudar ao negócio mas com o fim único, segundo estamos informados, de obter por compra a residencia paroquial de Tavarede, doada ao Seminário por seu padrinho, o falecido Pe. Manuel Vicente, e também registada nas repartições competentes em nome da Sociedade por Quotas Predial Económica.


De resto, nenhuma destas pessoas fazia parte da Comissão Organizadora que nem sequer foi consultada se oferecia mais que o pretendente.


E ponto final. Confessamos que não desejavamos ir tão longe nesta sêca exposição dos factos, nem sentiremos prazer em voltar ao assunto.


Se o fizermos cabe ao “Dever” a culpa, que não soube guardar o prudente silêncio, tendo em atenção que nestes casos, como em muitos outros, o silêncio vale mais de que ouro...


As coisas são o que são e não o que se pretende que elas sejam.


A menos que seja possível encontrar uma segunda verdade para apertos desta natureza.


Nós só conhecemos uma e temos muito respeito por ela”.


(continua)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

José Fernandes dos Santos

Natural de Buarcos, onde nasceu no dia 14 de Outubro de 1919.


Desenhador profissional nos Serviços Municipalizados da Figueira da Foz, foi projectista de construção civil em regime liberal.


Desde muito novo que se dedicou ao teatro amador. Fez parte do grupo de amadores do Grupo Caras Direitas, onde representou várias peças, destacando-se, sobretudo, na célebre peça Redenção, em que figurou o papel de Jesus Cristo.


Grande amigo de Tavarede, onde criou profundas amizades, também colaborou na Sociedade de Instrução Tavaredense, participando no elenco das peças Conto de Inverno, Camões e os Lusíadas, Auto da Barca do Inferno e Mesa Redonda.


Entre outras peças, escreveu, para ser representado pelos jovens do nosso grupo cénico, a peça musicada, Raminho de Limonete, que alcançou muito sucesso.


Igualmente colaborou com outros grupos dramáticos do concelho da Figueira.


Foi presidente da Direcção da SIT, sendo de sua autoria o projecto do pavilhão desportivo da colectividade, que gentilmente ofereceu. Faleceu em 2006.


Uma cena de 'Raminho de Limonete', de sua autoria











Cderno: Tavaredenses com história

Ilda Stichini


Grande actriz do teatro profissional, foi dedicada amiga da Sociedade de Instrução Tavaredense, particularmente de José da Silva Ribeiro. Representou com o nosso grupo cénico num espectáculo levado à cena, em 18 de Julho de 1931, no teatro do Casino Peninsular, com a opereta A Cigarra e a Formiga, interpretando as figuras de A Fantasia e O Riso. “…Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida do público figueirense. Os versos da Fantasia disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do Riso, que Alberto de Lacerda escrevera expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que o ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e espontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido”.


Ilda Stichini nasceu no ano de 1895 e faleceu em 1977. Sócia honorária da colectividade, guarda-se ali o seu retrato, autografado, que ofereceu aquando uma das suas visitas.



Caderno: Tavaredenses com história

De Casa de Cultura a... Taberna! (9)

(continuação)

Casa do Povo ou Loja do Povo?!


Vamos, então, elaborar o terceiro capítulo da história que estamos narrando e que irá terminar com o desaparecimento, para sempre, da casa do pai do “velho Capitão Águas”, por onde passaram tantas festas esplêndidas, noites gloriosas para a cultura do povo tavaredense e que, ingloriamente, acabou por ruír, surgindo em seu lugar um moderno, para a época, estabelecimento de “mercearias e vinhos”.


Acompanhámos o fim do teatro do Grupo Musical. Seguimos atentamente o desenrolar polémico da acção evangelizadora do padre Cruz Diniz e o surgimento e queda do Grémio Educativo. Continuemos...


Sob o título “Incoerências”, o jornal “O Figueirense”, de 22 de Outubro de 1938, publicou a seguinte local:

“O último número do semanário da Figueira da Foz “O Dever” publica um interessante e oportuno artigo anónimo sobre “tabernas” com que estamos inteiramente de acordo, dada a boa doutrina que defende.


Nele se classifica a taberna de enorme desgraça individual e social e “o maior foco de infecção social”, o que ninguém se atreverá a contestar.


O pior é que, noutro local do mesmo número, se considera acertada a resolução dum proprietário, vendendo, para instalação duma taberna, a casa que possuía em Tavarede - Figueira da Foz - outrora sede duma associação católica.


Afinal, é bico ou cabeça?


Sem comentários...”

"O que o nosso presado colega não sabe é que a propriedade do prédio em referência era pertença dum alto dignitário eclesiástico e a sua resolução é tanto mais para deplorar quanto é certo que a venda do prédio foi feita sonegadamente, depois de prometido á Comissão Organizadora para instalação da Casa do Povo de Tavarede”.

Vê-se, portanto, que entretanto tinha sido organizada uma comissão para instalar em Tavarede uma Casa do Povo, um dos organismos corporativos que o regime ditatorial espalhou abundantemente pelo país, argumentando casas de cultura e recreio populares mas, efectivamente, com o objectivo de propaganda à sua ideologia política.


Para nos situarmos na questão lembraremos que a casa onde ultimamente estivera instalado o Grémio Educativo pertencia a uma empresa de Coimbra, denominada “Predial Económica”. Esta, por sua vez, era pertença da diocese coimbrã.


A já referida comissão organizadora pensou que era uma óptima solução para aquele edifício a sua adaptação a Casa do Povo. Iremos ver, mais adiante, as iniciativas tomadas e qual o resultado.


Optamos, no entanto, por seguir cronologicamente a data da publicação dos artigos polémicos, nos jornais “O Figueirense” e “O Dever”, e que se iniciou com a local acima transcrita.


Dias depois, a 28 do mesmo mês, “O Dever” trazia, na correspondência de Tavarede, o recorte:


“Segundo nos consta e é voz corrente o Governo vai entregar à comissão organizadora da “Casa do Povo” de Tavarede, a quantia de trinta ou trinta e cinco contos para a construção da “Casa do Povo” de Tavarede, em local apropriado, pois que a casa que foi sede do Grémio não foi achada em condições, não só por se ter reconhecido pequena, mas por estar muito deteriorada.


Tal é o que ouvimos dizer.


A ser verdade, achamos acertada ideia pois pode orientar-se consoante uma planta adequada ao funcionamento de tais agremiações.


Afinal temos de felicitar-nos por a casa do “Grémio” ter sido vendida, sem o que não teríamos um edifício novo para a “Casa do Povo”, e que foi apenas leviandade o barulho agressivo contra as pessoas julgadas com intervenção na sua venda”.

Começou, então, a polémica. A comissão organizadora da Casa do Povo de Tavarede responde, terminando o seu ofício com a frase que ficou bem conhecida “A BEM DA NAÇÃO”.


É claro que “O Dever” não se ficou com a resposta. E, então, vá de comentar a mesma.

“Para rectificação da notícia publicada no nosso número passado, sobre a “Casa do Povo”, de Tavarede, em correspondência daquela localidade, recebemos a carta que segue:

“Exmo. Senhor Director de “O Dever”

Em correspondência de Tavarede publica o nº. 469 de “O Dever” uma notícia sobre a criação da Casa do Povo desta fréguesia que por conter informações inexactas nos permitimos rectificar, para evitar confusões.


Não é exacto que o Governo tenha tomado qualquer resolução, provisória ou definitiva, sobre a verba a entregar à Comissão Organizadora para construção, em local próprio, da futura sede daquele organismo corporativo.


Também não tem o menor fundamento que a chamada casa do Grémio, que a Comissão se propunha adquirir contraíndo para isso um empréstimo particular, fôsse reprovada por ser pequena e estar deteriorada. Pelo contrário foi e continua a ser considerada a que reune as melhores condições de adaptação e ampliação (quando necessária) de todos os prédios existentes nesta povoação.


Seria, além disso, ingenuidade supôr que com 30 ou 35 contos (que se não sabe se virão) obteríamos um prédio novo, maior, e em melhores circunstâncias.


Nada se sabe de positivo sobre o caminho a seguir, pelo que são extemporâneas quaisquer afirmações a tal respeito.


O autor da notícia melhor faria apresentando-se à Comissão Organizadora para colher afirmações seguras e bem assim enfileirar decididamente ao lado dos seus já numerosos componentes para ajudar a vencer dificuldades que pessoas menos escrupulosas lhe tem procurado criar nas próprias esferas oficiais.

A BEM DA NAÇÂO
Pel’A Comissão Organizadora
António da Silva Fonseca “

Da carta a que gostosamente damos publicidade, sem que nos tenha sido pedida, vê-se que a nossa correspondência não foi lida com atenção.


Nela não há nenhuma afirmação inexacta porque a única afirmação que fez é que corria a informação descrita, que apresenta e comenta sob uma condicional - e é verdade que a tal informação andava de boca em boca.


O que o sr. António da Silva Fonseca deve ter querido dizer é que o dito registado na nossa correspondência não passa dum boato destituído de fundamento.


Desta forma a sua carta destina-se, não rectificar a nossa correspondência, que é exacta, mas o boato que ela regista.


Embora não tenhamos nada com isso, é ainda com prazer que prestamos à Comissão Organizadora da “Casa do Povo” de Tavarede o insignificante serviço de desfazer o referido boato.


Como a carta se alarga em considerações que o público vai apreciar, julgamos do nosso dever fazer alguns reparos.


a) Diz-se nela que a Comissão Organizadora da “Casa do Povo” se propunha adquirir a chamada Casa do Grémio, considerada ainda a que reúne...


Mas porque não comprou?


Desde que sugerimos a fundação da “Casa do Povo” de Tavarede - fomos nós da ideia - até à venda da casa do Grémio, decorreram muitos meses.


Desde que a Junta de Freguesia e muitas outras pessoas tiveram conhecimento da existência dum 2º. pretendente, até ao encerramento do contrato de venda, decorreu tempo mais que suficiente para se prevenir.


A Sociedade proprietária teria muito prazer em vender o seu prédio para instalação da “Casa do Povo”, desde que alguém aparecesse com dinheiro e disposto a fechar contrato real e imediatamente.


Porque não comprou?


Teve tempo e encontraria boa vontade, dentro do menor prejuizo possível para a vendedora.


De certo não desejava que a casa se deteriorasse mais, com o fim da Sociedade proprietária sofrer ainda maiores prejuizos.


b) Afirma mais que, mesmo agora, ainda nada se sabe de positivo sobre o caminho a seguir, pelo que respeita à aquisição de edifício para a “Casa do Povo”.


Isto mostra bem que o nosso correspondente teve razão em achar acertada a venda a um comprador certo, para se evitarem maiores prejuizos, visto que a Casa do Povo, em organização, ainda hoje não é comprador, pois hesita no caminho a seguir; e, portanto, que foi leviandade grosseira o barulho agressivo contra as pessoas julgadas com intervenção na sua venda.


c) O senhor Fonseca não reflectiu quando pôs em dúvida que com 30 ou 35 contos oferecidos pelo Estado se pudesse obter em Tavarede uma casa melhor para instalação da “Casa do Povo”.


Os 35 contos do Estado, com alguns contos de compra e adaptação com que a Comissão se propunha adquirir a casa do Grémio contraíndo um empréstimo particular, dariam mais de 60 contos com o que, é absolutamente certo, se construiria uma casa melhor do que a do Grémio, tanto mais que seria possível obter terreno de graça e outras ajudas.


d) Achamos fora de propósito o reparo do nosso correspondente não ter colhido informações junto da Comissão Organizadora para a sua correspondência.


Para noticiar o que em Tavarede se dizia sobre o assunto e fazer votos para que tal dito fôsse verdadeiro, não precisava de mais informações.


O reparo só seria viável se a notícia dissesse que as coisas eram como se dizia.


e) Sobre dificuldades e pessoas menos escrupulosas, ignoramos que queira dizer e a quem se refira.


Fiquemos, pois, por aqui”.


(continua)

terça-feira, 28 de junho de 2011

De Casa de Cultura a... Taberna! (8)

(continuação)

“ Está provado, pelo que escrevemos no último número, que tanto os videntes como as visadas, - aquelas que esperavam o padre, - não teem existência real, apesar de A Voz da Justiça o asseverar, aliás sem justificação de espécie alguma.


Este processo não passa duma invenção, já antiga por sinal, de que os jacobinos se utilizam para fazer guerra à Igreja Católica. Não passa duma manobra jacobina. A sua grande arma é a Calúnia. É com ela que derribam os Estados, é com ela que fazem frente aos clérigos, cujo crime consiste em trabalhar incansavelmente, insanavelmente, para chamar ao aprisco as ovelhas tresmalhadas. E o padre de Tavarede está nestas condições. Tem trabalhado aturada e persistentemente. Os frutos teem sido compensadores, é certo. Pessoas que andavam afastadas da Igreja há muitos anos, ouvindo prégar a Verdade Católica, teem-na abraçado. E os jacobinos já não assustam ninguém, porque o novo pároco lhes vai encurtando caminho.


Os melhores padres, os mais trabalhadores, aqueles que pela sua inteligencia e conducta moral pretendem impôr-se para restaurar a ordem social, são justamente os mais combatidos, não com argumentos, mas com o terrível arcabuz da Calúnia.


Como não podem apontar-lhes defeitos, inventam, deturpam, trapaceiam, enxovalham, caluniam! Estamos em presença dum dêsses casos. Se os leitores conhecessem o lugar, relativamente central, onde fica situada a Igreja de Tavarede, verificariam com facilidade que aquela comédia sem personagens - ou com personagens anónimos - que A Voz da Justiça impingiu aos seus leitores, à luz da lógica, não pode ser admitida pelo cérebro mais tacanho e mais inculto.


Se os factos ali narrados fôssem verídicos, coitadas das raparigas que tivéssem a desdita de tomar parte nêles! A estas horas já todo o mundo sabia quem elas eram! Se as raparigas católicas são insultadas na rua frequentes vezes pela matulagem bêbeda de sangue, cega pelo ódio à Igreja, desgrenhada pela sanha revolucionária, chegando a dirigir-lhes obscenidades, o que não seria se um dêsses pobres diabos descobrisse que alguma delas seguia tal caminho! Dentro duma hora toda a povoação o sabia. Ai delas, se tal sucedesse! Seriam apontadas a dedo em rompantes de cinismo, apedrejadas até, quando passássem em Tavarede! A mofa, a algazarra, a vozearia, acossá-las-ia até casa. A Voz da Justiça publicar-lhes-ia o retrato, provavelmente, cumulando-as de aleivosias.


E como vês, leitor, nada disto ainda sucedeu. É prova evidente de que tôda aquela história não passou duma infame, duma torpe invenção de gazeta, invenção esta que podia ficar-lhe cara, se não tivésse sido forjada em sapiente prudência.


A Voz da Justiça quando pensou em engendrar esta comédia, já sabia muito bem que tinha facilidade em arranjar (se já não estivéssem arranjados préviamente), quem, sendo preciso, fôsse ao tribunal confirmar os factos. E, como essas testemunhas não podiam, de modo algum, ir apontar esta ou aquela rapariga, porque as consequências seriam pesadas, o pasquim, ao vêr-se notificado pelo meritíssimo Juiz de Direito desta comarca, e a requerimento do padre de Tavarede, não tendo outra tábua de salvação, apressou-se a declarar que as raparigas eram desconhecidas e que continuavam a ser consideradas por êles pessoas honestas!...


A Voz da Justiça convence-se que são todos parvos nesta terra! A mais rudimentar lógica pode lá admitir que um dos videntes que ela cita, estivésse a falar com uma das raparigas. sob uma boa lâmpada eléctrica, a perguntar-lhe o que estava ali a fazer, etc., e que no fim de tudo a não conhecesse?! Isto é lá possível?! Isto é lá racional?! Porque devemos partir desta hipotese: A Voz da Justiça, embora o negásse, - porque não podia dizer que sim... - quiz fazer crêr aos seus freguezes que o padre, reunindo ali as tais mulheres, não podia ser senão para fins menos honestos. Àquelas horas... nem outra coisa era de supôr!


Então A Voz da Justiça julgou-se numa terra de cafres, de selvagens, que a podéssem acreditar?


Pode lá admitir-se que houvésse mulheres tão ousadas, ou como direi, tão destituidas de senso, tão imprudentes, que tivéssem o mau gôsto de estarem ali à beira dum caminho que serve três freguesias, expostas às vistas dos transeúntes, aos olhos de quem passásse, aguardando o padre para as suas entrevistas?


Qual seria a mulher capaz de se aventurar a dar êste passo, se ainda mesmo as debochadas, as barregãs de quantos feirões lhe aparecem, se ocultam o mais possível?


E qual seria também o padre tão pouco inteligente, tão parvo, digamos assim, que se quizésse dar que falar, ia escolher a Igreja, num lugar tão central, tão concorrido e tão iluminado e ainda por cima entrava e deixava a porta aberta?! Não teriam êles lugar mais apropriado e mais oculto?


Qual é a inteligencia, ainda que rude, que pode admitir isto sem uma revolta?!


Qual é o cérebro que pode admitir ainda, que as ignoradas pessoas que A Voz da Justiça diz terem presenciado tudo, olhássem para tais factos como boi para palácio, sem um assomo de curiosidade, sem uma sombra de interêsse?!...


Isto é sintomático!... Qual de vós, leitores, era capaz de manter tamanha indiferença, a ponto de nem procurar conhecer as raparigas?


Qual de vós, repito, é que em presença dum caso dêstes, um caso tão extraordinário, não sentiria a curiosidade necessária para investigar tudo até final, procurando conhecer não só o resultado como as victimas do padre de Tavarede?


Pode, pois, admitir-se tal absurdo? - Não! Não! Não e mil vezes não! - São caluniadores!


Senão que apareçam os videntes, que apareçam essas pessoas a quem A Voz da Justiça condenou ao anonimato!


Enfim... transparece em tudo a mesma incoerência, a mesma ausencia de escrúpulos, as mesmas intenções vilãs. Até as pequeninas coisas encerram grandes finalidades!


Aquela do padre entrar para a Igreja com as suas victimas e deixar a porta aberta, é uma delas!


O articulista não quiz dizer que a porta fôra fechada após a sua entrada, porque, se por acaso fôsse obrigado por lei, como de facto foi, a fazer qualquer rectificação, poder declarar que não tivera em vista afirmar que o padre de Tavarede se portou ou porta mal com qualquer mulher. Só assim se compreende aquela gafe da porta aberta! Já afirmámos que o padre de Tavarede enveredou pela única via de senso comum, e vamos prová-lo.


Se êle caísse na asneira de querelar A Voz da Justiça, por crime de abuso de liberdade de imprensa, a sua situação futura seria deploravel. Aquele jornal, com a sem-cerimónia que lhe é habitual, recrutaria entre os seus assalariados as testemunhas suficientes para irem ao tribunal confirmar os factos. A sua dignidade ressentir-se-hia publicamente porque, havendo só testemunhas de defeza, a questão dar-se-hia com certeza a favôr dos caluniadores. Resultado: de futuro, em face da decisão do tribunal, muita gente acreditaria na veracidade das calúnias.


Se lhe respondesse nos jornais, suceder-lhe-hia coisa identica. Em último caso, viriam os tais serviçais efectivos a fazer as suas declarações na imprensa. O que havia então a fazer? - Uma coisa só - o que fez o padre de Tavarede - requerer ao Juiz a notificação daquele jornal, obrigando-o a declarar se com aquilo se pretendeu afirmar que êle se portou ou porta mal com qualquer mulher.


Em caso afirmativo, iria para juizo; no negativo, nada se podia fazer - restava apenas o desprezo. Foi o que sucedeu.


A Voz respondeu desta forma à notificação: - Não pretendemos afirmar no artigo referido que aquele pároco se portou ou porta mal com qualquer mulher.


Afirmamos isto clara e terminantemente. E oxalá esta declaração restitúa ao padre de Tavarede o seu sono perdido.


Foi cobarde, porque da leitura de toda a sua campanha, claramente se infere essa finalidade! Mas negou... estava no seu direito...


É, como dizia o revº. pároco: “aquilo é a baixeza das baixezas; e a baixezas não se responde”. Eu não sou da mesma opinião. Para êstes homens devia haver sempre uma resposta...


E como êste já vai longo, não nos é possível contar hoje aqui a scena do julgamento a que aludimos no último artigo e que por sinal era uma preciosissima chave de ouro para encerrar o artigo de hoje. Ficará para o próximo número.

Deixemos por aqui esta questão religiosa. Para a nossa história já transcrevemos o suficiente para cada um aquilatar os animos que então ferviam na nossa terra. É verdade que, como já referimos, acreditamos tenha havido bastante exagêro, mas de parte a parte. O padre Diniz, acreditamos à distância, terá vivido à sua maneira os problemas sentidos na sua paróquia. E tanto lutou que, em 1931, conseguiu o seu fim: ter uma colectividade, organizada, dirigida e mantida como êle entendia que deveriam ser as colectividades populares.


A sede do Grupo tinha sido vendida. Não pagando as rendas teve que mudar de “poiso”. O novo proprietário entrou em negociações para a venda do edifício. Por influência do padre Cruz Diniz, a “Predial Económica”, de Coimbra, fez a compra. Esta sociedade era propriedade na sua totalidade da diocese de Coimbra. E então surgiu em Tavarede o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense. Mais uma vez, a “nossa” casa estava a cumprir a sua missão: era, novamente, uma associação de cultura popular.


Além do teatro, em que teve a colaboração de alguns dos anteriores amadores que não aceitaram mudar de “camisola”, também para lá o padre Diniz mudou a escola nocturna que então tinha aberta na sua residência. E se, em sua casa, no ano de 1930 teve uma frequência de 36 alunos, logo no ano seguinte, nas novas instalações, este número aumentou para 78.


Não se discute a actividade educacional e cultural daquele sacerdote. Foi inquestionável. Poderiam ser discutíveis os meios seguidos. Em Abril de 1932, O Dever, publicando a fotografia deste pároco, comentava a mesma: “Padre José Martins da Cruz Dinis - Digníssimo pároco de Tavarede e sábio professor de História no Colégio Liceu Figueirense, espirito esclarecido e activo, que á causa Santa da instrução na sua freguesia, tem consagrado toda a sua actividade, e a quem é devida a organização do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense”.


A actividade desta colectividade já foi por nós descrita no segundo caderno.


Ainda continuaram os ânimos azedos. De tal forma que em Setembro de 1935 o sacerdote Cruz Dinis foi transferido, a seu pedido, para a paróquia de S. Paulo de Frades, Coimbra, depois de ter paroquiado em Tavarede durante 7 anos, “onde sustentou algumas lutas contra os inimigos da religião e sofrido algumas calúnias”.


A notícia do seu pedido de transferência tinha caído na nossa terra como uma autêntica bomba. Os seus amigos e colaboradores não se conformaram facilmente. Ainda fizeram, e entregaram ao Bispo de Coimbra, uma exposição pedindo a conservação do pároco em Tavarede e que era assinada por mais de 300 chefes de família. Não conseguiram demovê-lo.


Já tinha acabado havia tempo o Grémio Educativo. Era ele a sua alma. As lutas que enfrentou na terra foram demasiado violentas. Desistiu. Pediu a sua transferência e foi inflexível na sua determinação. Só mais uma informação de interesse. Pode julgar-se que o padre Diniz, conservador convicto, estivesse de alma e coração com a regime então vigente. Nada de mais errado. Curiosamente, embora os intervenientes certamente não tenham achado graça nenhuma, em 1938 o padre Diniz foi preso pela Pide e, na cadeia do Porto, lá esteve encarcerado conjuntamente com um tavaredense que, religiosamente, o havia combatido enquanto à frente da nossa paróquia: mestre José Ribeiro. Um republicano e outro conservador, ambos convictos das suas ideologias, acabaram por encontrar-se presos pela polícia política. Ironias do destino, ou talvez não.


Mas a nossa história da “nossa casa” vai continuar. Pouco depois dos factos agora narrados outro destino se procurou para ela. Novas polémicas. Novos intervenientes. O capítulo seguinte irá recordá-los.


(continua)

RESPOSTA A INQUÉRITO

Em resposta a um inquérito ordenado pelo governo civil de Coimbra, de 5 de Novembro de 1835, houve uma resposta enviada pelos párocos da Figueira e Vila Verde, não respondendo o de Tavarede "por não haver já há tempos":





1 - Os filhos principiam a ser de alguma utilidade a seus pais depois dos 14 anos;





2 - Podem os homens gozando completamente de suas forças entregar-se ao trabalho na idade de 18 anos a 20;





3 - Neste concelho dão-se os homens a trabalho, particularmente do mar, em idade bem tenra, e não é regular que semelhante prática os prejudique na saúde;





4 - Os casamentos costumam celebrar-se ordinariamente de 20 a 30 anos;





5 - Costumam os mesmos (termo médio) de produzir de 5 a 7 filhos, não há esterilidade notável nos sexos, antes há bastante fecundidade, devida talvez à natureza dos alimentos, por ser quase toda de natureza quente;



6 - Principiam os sexos a ser prolixos dos 14 anos por diante, e deixam de o ser as mulheres dos 45 a 55 e os homens de 60 a 70;



7 - Deixam de ser próprios para o trabalho os individuos de ambos os sexos depois de 60 anos;



8 - O ar é puro e saudável;



9 - Não há pântanos;



10 - Os vícios mais frequentes são a embriaguês e a este mesmo se não é grandemente dado;



11 -Tem havido bexigas;



12 - Não há inundações que produzam prejuizos;





13 - Não há indigentes propriamente ditos, que o sejam por causa de serviços feitos à legitimidade ou por causa da usurpação.





Figueira da Foz, 24 de Maio de 1836. O administrador do concelho, António Manuel da Cruz Rebelo.



JOÃO PEDRO FERNANDES TOMÁS


Aproveito para esclarecer que, após diversas pesquisas, nomeadamente no Album Figueirense, Biografias de Figueirenses e jornal O Operário, só consegui averiguar que João Pedro Fernandes Tomás, bacharel em Direito, cavaleiro de Ordem de Cristo, de valor, lealdade e mérito, era filho de Ricardo José Fernandes Tomás e de D. Maria Rita Ricardina, do Bom Velho, freguesia de Condeixa.



"Foi advogado notável, senão pela fluência oratória da palavra, pelo conhecimento profundo das causas que tratava, pela probidade com que recusava patrocinar litigios em que não divisasse a justiça, e pela engraçada e leve ironia com que matizava por vezes a aridez dos seus escritos".





De notar que algumas publicações indicam o dia 19 de Julho de 1810 como a data do seu nascimento. No entanto, como faleceu, com 81 anos, em Dezembro de 1882, terá nascido em 1811.





Tenho pena de não poder adiantar mais esclarecimentos ao meu caro amigo João Cascão, mas, apesar da minha vontade, mais não consegui.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

João Pedro Fernandes Tomás

Ao manusear os velhos cadernos e livros manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo, existentes na Biblioteca Pública da Figueira da Foz, em busca de elementos para um caderno que ando a compilar sobre a família Quadros - Os Senhores de Tavarede, encontrei imensas notas que julgo terem um interesse enorme, embora nem todas se relacionem directamente com Tavarede. É o caso da nota que hoje resolvi aqui incluir.


Trata-se de um figueirense de uma ilustríssima família da 'Praia da Claridade''. No próximo dia 19 de Julho do ano corrente, completar-se-ão duzentos anos sobre o seu nascimento. A sua história é muito interessante, pois leva-nos ao período miguelista, o rei absoluto que tantas lutas e vítimas causou no nosso País. Recorda-nos, ao ler a nota das suas prisões e dos tormentos passados, o passado de Mestre José Ribeiro, que tantas vezes nos contava as suas prisões políticas, no Porto, em Lisboa e em Angra do Heroismo, no Forte de S. João Batista. Estas histórias também nos levaram a recordar Fernando Namora e o seu livro 'Clandestinos', onde o seu 'herói' teve os mesmos tratamentos...


"Estão a terminar todos aqueles que durante o governo de D. Miguel sofreram e lutaram pela causa da liberdade. Agora coube a vez ao nosso amigo o sr. bacharel João Pedro Fernandes Tomás, o antigo administrador do concelho e conservador na Figueira e algumas vezes membro da Junta Geral, o qual faleceu ontem naquele cidade, na idade de 81 anos, pois nasceu em 19 de Julho de 1811.


O sr. Fernandes Tomás foi preso no concelho de Condeixa, no mês de Julho de 1828, tendo apenas 17 anos de idade, e no dia 16 desse mês deu entrada na cadeia da Portagem, desta cidade, com seu pai e um amigo, escoltados por 30 praças de milicias de Santarém, que então faziam guarnição de Coimbra.


Desta cidade foi o sr. Fernandes Tomás remetido para a praça de Almeida, onde foi vítima de cruel tirania, sendo ali metido no horroroso 'infernilho', e levando muita cacetada.


Passados tempos foi de Almeida transferido para outras cadeias do País, conseguindo por fim evadir-se e indo entrar na cidade do Porto, para tomar parte na heróica defesa daquela cidade.


Aí assentou praça no batalhão de voluntários académicos, como soldado nº. 157.


Em Junho de 1833 saíu do Porto na expedição para o Algarve, onde desembarcaram na praia da Cacela, no dia 24 desse mês.


Em Faro ficou por ordem do Duque da Terceira o comandante do batalhão académico, João Pedro Soares Luna; mas à excepção de alguns académicos que ficaram em comissão no Algarve, a quase totalidade do batalhão vem entrar triunfalmente em Lisboa, no dia 24 de Julho, e dessa expedição fazia parte o sr. João Pedro Fernandes Tomás.


O batalhão académico, e portanto o sr. Fernandes Tomás, tomou parte activa na defesa das linhas de Lisboa, até ao levantamento do cerco pelo exército de D. Miguel, no mês de Outubro do referido ano de 1833, e fez toda a campanha até ao fim da guerra civil em Maio de 1834.


Hoje já se não quer saber dos serviços à causa da liberdade. Já vai bem longe a época de tão grandes sofrimentos e sacrifícios, e a geração actual é indiferente a elas. Damos os sentimentos à família do nosso falecido Amigo, o sr. bacharel João Pedro Fernandes Tomás"


Afinal, sempre é verdade que a história se repete...

(A nota acima foi publicada em O Conimbricense, em 31 de Dezembro de 1892)