domingo, 31 de julho de 2011

De Casa de Cultura a... Taberna! (13)

No mesmo jornal e na mesma data:

“ Não tencionavamos, nem desejavamos voltar a êste assunto, mas “O Dever” veio à estacada com um acêrvo de sofismas, que podem parecer aos olhos do leitor incauto uma resposta, para chegar à conclusão ingénua e luminosa, de que nos retratámos em pontos onde ficou patente expressamente o contrário.


O processo não é novo nem original. A-fim-de iludir realidades demasiadamente fortes, em atitudes de prestidigitador, o articulista recorreu a expedientes que só servem para nos revelar a sua atrapalhação. A hostilidades reduz-se a mero quixotismo: num esfôrço desesperado, pour èpartir le bourgeots foi-se ao texto do nosso artigo, truncou, mutilou, mistificou, deu-lhe tratos de polé para o obrigar a dizer o contrário do que ali se demostra duma maneira inequívoca.


Era de esperar. Dum tema falso não podem sair senão arrasoados falsos. Um exemplo:


Haviamos nós escrito, referindo-nos à representação lida e entregue ao sr. Bispo de Coimbra por dois membros da Comissão Organizadora da Casa do Povo de Tavarede:
S.Exª. Revª. concordou plenamente com os pontos de vista da Comissão, prometendo-lhes todo o seu apoio e declarando-se disposto a mandar proceder, em devido tempo, às obras necessárias, nomeando a seguir o pretendido pàroco para Tavarede.


“ O Dever” a-pesar da sua coragem não se atreveu a desmentir, mas agarrou-se a um expediente capcioso: isolou a frase prometeu-lhe todo o seu apoio e sentenciou fanfarrão: “a casa não foi prometida a ninguém, pois o sr. Bispo só prometeu o seu apoio; não se pode confundir apoio com casa”.


É singular êste nosso colega e singularíssimas as leis da sua polémica! Se usa da mesma liberdade e escrúpulos na interpretação dos textos bíblicos não tarda que tenhamos a lamentar a mais horripilante das heresias de que a história resa. É capaz de chegar à conclusão de que o Evangelho foi escrito antes de Cristo!... Com esta sencerimónia tôda é natural que lá chegue.


Continúa céptico “O Dever” - escudado não sabemos em que provas - quanto à promessa da casa do Grémio. Nem a carta do sr. Bispo, tão simples e tão clara, o convenceu. Pobres pecadores somos nós e... ficámos convencidos. Isto é, merece-nos absoluta confiança o testemunho de S. Exª. Revmª.


Talvez o documento que vamos publicar a seguir consiga o milagre da sua conversão. É o depoimento do Académico de Ciências Domingos Afonso Condado a que já nos referimos, em que êste aluno da nossa Universidade Coimbrã declara por sua honra de cidadão e católico praticante, que na audiência concedida pelo sr. Bispo aos dois membros da Comissão Organizadora da Casa do Povo foram por S. Exª. Revmª., finda a leitura da representação que lhe foi lida e entregue, tomados os seguintes compromissos:
1º- Mandar proceder às obras necessárias no edifício do Grémio de Tavarede, a-fim de ser nele instalada a séde da Casa do Povo;
2º- Cedê-lo em boas condições à Comissão Organizadora;
3º- Nomear pároco novo para Tavarede. Sôbre êste ponto disse S. Exª. Revmª. que se não tivesse, na altura própria, pároco disponível, como era natural, encarregaria da freguesia de Tavarede um dos sacerdotes em serviço no Seminário ali existente, solução que os portadores da representação aplaudiram sem reservas.


O depoimento que aí fica não se destina ao público que já está suficientemente elucidado. Publicamo-lo especialmente para “O Dever” que nestas coisas é pior que S. Tomé... Está tão céptico, tão céptico, que põe em dúvida as afirmações do seu próprio Prelado.


Isto não o impedirá certamente de continuar a afirmar com o costumado amor... à sua verdade: “Sabiamos há muito que o sr. Bispo mostrara boa vontade e tinha prometido o seu apoio e sabemos que cumpriu até onde poude, mas igualmente que não prometeu a casa”.


Seria caso então para perguntar em que consistiria o seu apoio (não lhe foi pedido outro além da cedência da casa e da nomeação de pároco novo) e até que ponto cumpriu a sua promessa. Quer-nos parecer que “O Dever” está a prestar um péssimo serviço ao seu Prelado. Se fôssemos a dar crédito às suas engenhosas explicações, tinhamos que concluir que o sr. Bispo cometera um grave deslise prometendo sem condições expressas uma coisa que não era sua e portanto não podia prometer. Esta é que é a duríssima verdade.


Tem depois uma série assombrosa de explicações sôbre as relações entre a Diocese, o Prelado e a Predial Económica, proprietária, à face da lei, da chamada Casa do Grémio. Não se canse o colega a explicar-nos o que é a Predial Económica. Sabemos muito bem o que é juridica e religiosamente aquela sociedade e até a razão da sua existência. As suas explicações só podem servir para convencer algum pobre diabo mal precavido. Se as fôssemos a aceitar chegariamos à convicção absurda de que “O Dever” sabe melhor o que é a Predial Económica do que o seu próprio Prelado.


Não gaste o seu latim, colega! Quanto mais explica... pior se coloca. Depois de negar à gente de Tavarede categoria para se corresponder com o Exmo. Prelado, afirma “O Dever” que a carta a pedir as condições em que seria vendido o edifício do Grémio, não foi recebida por S. Exª. Revmª. Vinha talvez a propósito fazer aqui duas considerações sôbre o remoque infeliz do nosso colega. Mas adeante. Não nos cabe discutir se sim ou não os queixosos (a quem foi reconhecida categoria para desempenhar os mais altos cargos na direcção dos organismos católicos de Tavarede) teem categoria para se corresponder com o sr. Bispo. Só a S. Exª. Revmª. compete decidi-lo. E está provado pelo documento que publicámos no Figueirense de 12 de Novembro que S. Exª. Revmª. respondeu à carta enviada pela mesma via e pessoa, a solicitar a realização das prometidas obras na chamada Casa do Grémio.


Se respondeu à primeira é porque aos queixosos foi reconhecida categoria e nesse caso a segunda também devia ter resposta ainda que por intermédio do seu secretário. Em que se firma “O Dever” para asseverar que S. Exª. Revmª. não recebeu esta carta? Não estaremos nós em presença duma restrição mental de que se abusa em certas esferas? Não teria o articulista pretendido dizer na sua que quem recebeu a carta foi o criado do Seminário ou o Secretário episcopal? Sendo assim... passe, embora não seja correcto nem de bom gôsto.


Nada de mistificações. Nós estamos informados de que a carta chegou ao seu destino. Foi recebida não há dúvida nenhuma. Se o articulista duvida, pergunte ao sr. Director de “O Dever”. Talvez êle saiba até porque não teve resposta. Ancioso de colher-nos em falso em qualquer coisa, “O Dever” agarra-se a um êrro dactilográfico aliás sem valor para a causa em discussão e atreve-se a afirmar, muito contente, que faltámos à verdade.


Haviamos escrito, na nossa péssima caligrafia: “Podemos asseverar que a Comissão Organizadora... quinze dias depois de fechado o negócio ainda o ignorava”. E não faltámos à verdade. Há só uma diferença, é que na passagem do manuscrito o dactilógrafo trocou o numeral onze por quinze. E assim a nossa informação está rigorosamente certa. É que só quando “O Dever” o noticiou, a 30 de Setembro, houve a certeza do disparatado negócio. Foi então que a Comissão Organizadora, composta por 15 pessoas, tomou inteiro conhecimento. Não quiz “O Dever” encerrar a sua pseudo-resposta sem brincar mais uma vez com a credulidade dos seus leitores. Diz que o falecido Padre Manuel Vicente não doou ao Seminário de Coimbra mas ao Bispo D. Manuel Luiz Coelho da Silva, de saudosa memória, a residência paroquial de Tavarede (aqui já se pode falar em propriedade dum alto dignitário?...) - a qual foi vendida (!!!) mais tarde à Predial Económica. Já sabiamos que “O Dever” tem artes para explicar o inexplicável. Em mais duma emergência o tem demonstrado.


É curioso notar que o falecido Padre Manuel Vicente, nos últimos anos da sua vida manifestou a várias pessoas das nossas relações o inabalável prepósito de doar por sua morte ao Seminário de Coimbra - ao qual devia a sua ordenação - a propriedade dos seus bens. E mais curioso ainda é que na altura em que foi vendida e Casa do Grémio um herdeiro e afilhado do Padre Manuel Vicente dirigiu-se a Coimbra para obter por compra a referida residência paroquial, e ali, a-pesar da Diocese viver em déficite e grande, foi regeitada a sua proposta com fundamento de que a residência paroquial, sendo um legado ao Seminário do falecido Padre Vicente, mal parecia que fôsse vendida!!! Não foi alegada, que nos conste., qualquer outra razão.
Como se vê permanece de pé tudo o que afirmámos. O resto nem fôgo de vistas chega a ser. É do mais pobresinho... E... sans rancune...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

TEATRO NO PORTO

Na sexta-feira foi ao Porto realizar um espectáculo em benefício do Asilo de S. João, daquela cidade, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que representou no Teatro de Sá da Bandeira a opereta Justiça de Sua Majestade.


Temos prazer em registar que os nossos patrícios alcançaram um belo êxito, que os enche de natural satisfação e muito honra o festejado grupo tavaredense.


O teatro encheu-se. Esgotou-se completamente a lotação da plateia e camarotes. E a assistência manifestou o seu agrado de maneira bem expressiva. A representação foi frequentemente cortada de aplausos. Logo no 1º acto, uma calorosa ovação sublinhou a linda Canção dos Beijos; e foram sucessivamente aplaudidas a Canção do Tabaco, o número de Roberta, e o coro final do 1º acto; o belo dueto dos dois criados rústicos no 2º acto, o terceto Açorda do Major, a formosa canção de D. Joana, que a assistência obrigou a bisar, o coro Boas-noites, o dueto de amor e o terceto do 3º acto, etc. No final as aclamações foram calorosas e prolongadas, fazendo-se chamadas que provocaram novas ovações.


E assim, a linda opereta, que no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense alcançou extraordinário agrado, obteve um êxito enorme com os aplausos expontâneos, sinceros, da culta plateia portuense.


Dirigimos ao grupo tavaredense as nossas felicitações cordiais, por este seu novo triunfo, abrangendo nelas o distinto compositor amador, nosso patrício, sr. António Simões, autor da maior parte dos números de música da opereta e que no Porto apresentou e dirigiu uma excelente orquestra.


No jornal do Porto Povo do Norte, de segunda-feira, o seu crítico teatral refere-se à récita dos tavaredenses com palavras de muito elogio. Transcrevemos:


“ Há, no meio jornalístico profissional do Porto, a monomania de ligar pouca importância aos grupos de amadores teatrais da província. Ainda na última sexta-feira, num espectáculo que se realizou, no Teatro Sá da Bandeira, em benefício do Asilo S. João, tivemos o ensejo de verificar esta lastimável verdade. Talvez porque se exibia ali um grupo de amadores de Tavarede, interessante aldeia vizinha da Figueira da Foz, não compareceu, naquele teatro, um único redactor dos diários portuenses a cumprir o dever de apreciar aquela tão simpática festa para, sobre ela, bem informar depois a curiosidade do público. E foi pena que assim acontecesse porque o espectáculo marcou, sem dúvida, uma nota artística digna de registo. Devemos confessar que nos surpreendeu o conjunto, que é mais harmónico que muitas companhias de profissionais que algumas vezes nos têm visitado”.


Depois de se referir à adaptação ao teatro da Justiça de Sua Majestade e ao modo como a opereta foi posta em cena, o crítico do Povo do Norte acrescenta:


“ Não faltou o mais insignificante detalhe de observação nos cenários e guarda-roupa, confeccionados de acordo com as exigências da época. Notou-se nas mais pequeninas coisas que andou ali dedo de quem percebia de teatro... E só assim se compreende o êxito alcançado por um conjunto de amadores, filhos do povo e do trabalho, que nas horas vagas se dedicam àquele modo de se instruírem e civilizarem, em vez de fugirem para os centros maléficos do vício e do crime. A música da peça deve-se aos profissionais Ferrão e Portela e ao maestro-amador do grupo, António Simões, que dirigiu com segurança a orquestra, durante o espectáculo, sendo toda inspirada em motivos populares, cheios de ingenuidade, que soam bem aos ouvidos daqueles que estão habituados a escutar as canções simples mas harmoniosas e sentimentais do povo aldeão.


No desempenho salientaram-se a característica Maria Tereza de Oliveira que, no papel de Roberta, nos deu a impressão de uma autêntica artista. D. Violinda Medina que, com um fiozinho de voz agradável, cantou bem e declamou sempre com muita naturalidade e acerto, dum modo a, por diversas vezes, justamente conquistar aplausos; e Guilhermina de Oliveira, num ingénuo papel de criada, que desempenhou com vivacidade. Muito graciosa, mereceu também as palmas com que os espectadores a distinguiram. Guardamos para o final o trabalho de Emília Monteiro, a triste apaixonada, que soube imprimir sentimento ao decorrer do desempenho do papel que lhe foi confiado.


Do elemento masculino, devemos salientar Jaime Broeiro que, no papel de José Urbano, revelou qualidades artísticas; e os restantes não desmancharam o conjunto. A apresentação do grupo foi feita pelo nosso prezado amigo dr. João Correia Guimarães, a quem José Ribeiro agradeceu num belo improviso as palavras com que a sua gente foi distinguida. Um pequenino educando agradeceu também o benefício que o seu asilo acabava de receber.


Foi comovente o modo como o director do grupo respondeu ao pequenino, dizendo-lhe que nada tinha que lhes agradecer porque estavam todos ali cumprindo um dever de solidariedade humana. A assistência que enchia o teatro sublinhou com uma estrondosa salva de palmas as palavras do nosso colega. Foi uma simpática festa que o Asilo de S. João organizou e que deve repetir-se logo que tenha oportunidade para isso”.


Também o Primeiro de Janeiro se refere elogiosamente à representação da Justiça de Sua Majestade:


“ A récita em benefício da simpática Associação Protectora do Asilo S. João realizada,, sexta-feira passada, no Sá da Bandeira, decorreu com entusiasmo e, por vezes, até com brilho mercê, principalmente, da peça representada e da segurança que mostraram no desempenho dos seus “papéis” os bons elementos que constituem o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, da Figueira da Foz”.


Alude em seguida à adaptação da Justiça de Sua Majestade, e termina:


“ A música traz as assinaturas dos maestros Raúl Ferrão e Raúl Portela e do amador figueirense António Simões, sendo, toda ela, de suave inspiração e melodia. O desempenho foi correcto e homogéneo, procurando todos os amadores concorrer – o que conseguiram – para o sucesso da representação a que o público não regateou aplausos. O grupo coral compartilhou, também, com justiça, desses aplausos, assim como a orquestra, sob a direcção do sr. António Simões. O interessante Grupo apresentou um bom guarda-roupa, à época (1852) e cenários apropriados do cenógrafo Rogério Reynaud e do artista Alberto Lacerda. Pode dizer-se que a récita da Associação Protectora do Asilo de S. João, instituição de beneficência que tantas simpatias conta nesta cidade marcou, este ano, como espectáculo de interêsse”.


A Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense está reconhecidíssima ao Asilo de S. João pelo acolhimento gentil que foi dispensado ao seu grupo cénico, e particularmente ao sr. Rogério Bettencourt, director daquela benemérita instituição, cujas atenções e gentilezas não serão esquecidas.


(A Voz da Justiça - Maio de 1935)

De Casa de Cultura a... Taberna! (12)

Entra, então, na disputa, e por se sentir visado injustamente, o padre Abrantes Couto, pároco de Buarcos e, interinamente, encarregado de Tavarede em substituição de padre Cruz Diniz, com uma carta dirigida a “O Figueirense”, que a publica a 19 de Novembro:

“Sr. Director de “O Figueirense” - Figueira da Foz

Numa local intitulada “À Volta da Casa do Povo de Tavarede” inserta no jornal de 12 do corrente de que V... é digno Director, faz-se uma referência inverídica à minha pessoa por estas palavras:
“-Talvez esteja aqui o ponto nevrálgico da questão, visto o actual pároco encarregado da freguesia não ter visto, ao que parece com bons olhos, tal medida alheando-se sistematicamente duma causa que devia merecer todo o seu apoio.”


Porque tal referência não corresponde à verdade, rogo o subido favor de publicar o seguinte esclarecimento:
1º. - sou pároco da freguesia de Tavarede por vontade de quem me nomeou que não por sentir nisso prazer e seria ridículo poder alguém supor que eu não veria com bons olhos a nomeação de pároco próprio para uma freguesia que tendo todas as responsabilidades de freguesia nunca me deu mais de cento e cinquenta escudos mensais, isto é, que sob qualquer ponto de vista não compensa os sacrifícios que tenho feito para poder paroquiá-la.
2º. - de facto não dei nem podia dar o meu apoio (que nunca os pretensos organizadores da Casa do Povo de Tavarede pediram) a indivíduos que tendo responsabilidades adentro do extinto “Grémio” (de que fui sócio cotista) não dispuzeram de influência nem arriscaram um centavo para evitar a sua ruina, ao menos conseguindo a ligação da luz cujo corte parece ter sido o primeiro passo para a morte daquela colectividade, e os quais estando à frente da Conferência de S. Vicente de Paulo, que algum bem fizera entre os pobresinhos, a deixaram igualmente morrer.
Fica, portanto, esclarecido, que terá sempre os meus agradecimentos quem conseguir fazer-me substituir bem depressa e que terá sempre o meu melhor apoio, desde que o queira, quem, com qualidades e competência, se lançar em qualquer empreendimento de interesse social.
Pela publicação desta carta lhe fica muito grato o que é de V... etc. Padre Alfredo de Melo Abrantes Couto (Prior de Buarcos, encarregado de Tavarede)”

E agora vamos transcrever as respostas e contra-respostas que se seguiram, indicando unicamente os jornais e datas das publicações.
Em “O Figueirense”, de 3 de Dezembro de 1938:

“ A carta dirigida a V.Exª. pelo sr. Padre Abrantes Couto e publicada no último número do seu conceituado jornal contém várias insinuações, uma das quais, como último presidente da Confraria de S. Vicente de Paulo de Tavarede, não devo deixar passar em julgado para que amanhã pessoas mal intencionadas não possam atribuir-me responsabilidades de que estou totalmente isento.
Diz S. Revª.:
“- de facto não dei nem podia dar o meu apoio... a indivíduos que tendo responsabilidades dentro do extinto Grémio... não dispuzeram de influência nem arriscaram um centavo para evitar a sua ruína... e os quais estando à frente da Conferência de S. Vicente de Paulo, que algum bem fizera entre os pobrezinhos, a deixaram igualmente morrer”.
O sr. Padre Couto, que em tempos bem recentes, ainda me deu tratamento de amigo e fez a meu respeito as mais lisongeiras referências, desde que eu me intrometi a pugnar pela criação da Casa do Povo de Tavarede, convencido de que com isso prestava à minha freguesia um serviço de real importância, tem manifestado por todos os meios a sua boa vontade contra este seu obscuro paroquiano.
Insultou-me numa epístola destrambelhada, teceu intrigas à minha volta, e até à calúnia recorreu, esquecendo lamentàvelmente o 8º. Mandamento do lei divina.
Por fim, no mais ignóbil cópula com um insultador do seu colega Cruz Diniz, andou a pescar pelos saguões anti-clericais um acervo de falsidades justificativas duma excomunhão fulminante e subsequente processo correccional no Tribunal Civel, ambos em preparação, como prémio dos meus serviços à causa católica.
Não satisfeito com isto tudo, até a morte da Conferência de S. Vicente de Paulo ousou atribuir-me, sem o menor respeito pela verdade e pela dignidade alheia.
Sua Revª. trazia há muito escondida no bolso da batina esta pedrinha para me atirar. Surgiu a oportunidade. Foi um alívio!
Restabeleçamos a verdade dos factos que o sr. padre Couto teima em não aceitar e veremos como sai incólume de mais este atentado...
A Conferência de S. Vicente de Paulo de Tavarede, iniciativa feliz do antigo pároco desta freguesia, Revº. Cruz Dinis, que com todos os seus defeitos, valia mais de que alguns com todas as suas virtudes, reuniu pela primeira vez em 9 de Setembro de 1932, com 6 membros efectivos, presididos por um novo que não tardou em abandoná-la, talvez porque notasse que tais funções não lhe trariam recompensa material.
Assisti à inauguração e às cinco primeiras reuniões semanais sem fazer parte dela. Na sexta reunião, em 21 de Outubro, fui convidado a tomar parte nos trabalhos, e na reunião seguinte, a 28, a assumir as funções de secretário.
Em 4 de Outubro de 1934, sem que o pedisse, antes pelo contrário bastante contrafeito por não reconhecer em mim qualidades e competência, elevaram-me à Presidência do referido organismo, cargo em que fui mantido até meados de Janeiro de 1936 em que cessou a sua actividade, depois de ter distribuido pelos pobrezinhos da freguesia além de roupas, alguns milhares de escudos em subsídios e géneros alimentares.
Muito poucos acompanharam a Conferência até final. Numerosos ficaram para traz, desalentados ou apegados ao seu invencível materialismo.
Pertenci ao número raro dos que a perseveraram, que a seguiram com carinho, do berço ao declínio. E sem vaidade o proclamo: o período da minha presidência foi o de maior prosperidade, como se pode verificar pelos respectivos livros. Cheguei a andar domingos consecutivos, acompanhado pelos meus rapazes, a calcurrear os acidentados casais da freguesia, de bolsa na mão, a pedir uma esmolinha para os pobres.
A população, a pesar de pouco habituada a estes espectáculos, entusiasmou-se e contribuiu na medida das suas posses. Ricos e remediados, tudo concorreu. A Conferência estava no auge da prosperidade.
Em principios de Agosto de 1935, vítima talvez do cumprimento do meu dever vicentino, pois visitava semanalmente um tuberculoso no último grau, alojado numa pocilga infecta ali para os lados da Chã, caí doente.
Robusto e sádio como poucos, todo o meu ser experimentou fortíssimo abalo de que ainda hoje estou sofrendo consequências. A medicina declara grave o meu estado. Manifestara-se pleuresia direita. O primeiro passo para a tuberculose.
No dia 2 de Setembro, a conselho médico, abalei para a minha terra - Almalaguez - onde permaneci em convalescença até fins de Outubro.
Encontrava-me ali há menos de um mês quando tive conhecimento de que a seu pedido fora transferido para Coimbra o revº. Cruz Diniz e substituído em Tavarede pelo sr. P. Eduardo Bastos, sacerdote digníssimo e de notáveis recursos, a quem presto as minhas homenagens.
No meu regresso, ainda bastante combalido, encontro os membros da Conferência, que eu deixára a funcionar normalmente, incompatibilizados uns com os outros, e as reuniões interrompidas há mais de um mês. Em suma, a Conferência estava em estado de sítio.
Que sucedera?
Um acidente que eu não poderia evitar, visto ocorrer na minha ausência: - Alguns confrades, não se conformando com a marcha dos acontecimentos, haviam comparticipado de certa manifestação que o revº. Cruz Diniz verberou asperamente à Missa dominical.
Um dos visados (que hoje anda de testo e pucarinho com o revº. Couto contra a minha humilde pessoa), secundado por outro, por sinal dos mais esclarecidos e devotados à causa dos pobres, recusou-se terminantemente a tomar parte nas reuniões, enquanto se mantivesse em Tavarede o revº. Cruz Diniz.
Os restantes confrades entendiam, e muito bem, (estes é que estavam no bom campo) que a Conferência devia ser completamente estranha a tais questões. Queriam reunir fosse onde fosse para que os pobres não ficassem prejudicados.
Rompeu a discussão, surgiu a discórdia, a cisão, e a Conferência viu-se privada de alguns dos seus melhores elementos.
Quiz apaziguá-los, trazê-los, de novo, empreguei porfiados esforços para o conseguir, mas debalde. Eles próprios podem testemunhar a minha insistência.
Coincidiu com esta deplorável ocorrência a posse do novo pároco, revº. Eduardo Bastos. Este, convidado por escrito a prestar a necessária assistência como pároco da freguesia, agradeceu em carta comovida mas talvez devido às suas muitas preocupações nunca compareceu.
Privado da assistência eclesiástica, e desfalcada embora dos seus mais activos elementos, reuniu ainda a Conferência durante quatro meses. A última reunião realizou-se no dia 12 de Janeiro de 1936, depois de se ter reconhecido que naquelas circunstâncias era inútil prosseguir.
Com a nomeação do sr. Padre Couto para Tavarede luziu no nosso espírito uma nova esperança. Convencemo-nos de que S. Revª. empenharia imediatamente o melhor do seu esfôrço e influência para reanimar os organismos católicos adormecidos.
Enganámo-nos redondamente! S. Revª. não arriscou um passo (e queria que os outros arriscassem capitais!) para tal fim, devendo ser ele o principal interessado.
Os problemas que logo de entrada absorveram todas as suas preocupações foram o da venda da Casa do Grémio e o magro rendimento da freguesia... Estavam em primeiro lugar do que a Conferência, sobre a qual vem verter agora lágrimas de crocodilo...
Quanto ao Grémio, nada tenho a objectar, porque felizmente não pertenci à sua última direcção. Que lhe responda quem quizer se entender que vale a pena.
A encerrar o seu desabafo (in cauda venenum...) diz o sr. Padre Couto que “terá o seu apoio, desde que o queira, quem, com qualidades e competência se lançar em qualquer empreendimento de interesse social”.
Que lhe agradeça essa amabilidade a Comissão Organizadora da Casa do Povo de Tavarede, constituída pelos católicos mais em evidência da freguesia (incluindo um Cónego e um Lente) na qual S. Revª. não descortinou pessoas com qualidades e competência dignas do seu apoio... Isto significa que os católicos de Tavarede são todos uns sarrafaçais, indignos de ter à sua frente um pároco tão ilustre.
Deve ser talvez por isso que o sr. padre Couto os trata desdenhosamente por seus parodianos, nas suas conversas com os colegas.
Pela publicação destas linhas se confessa muito grato o de V... a) Belarmino Pedro.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Festa Vindimária - Setembro 1941

No Casino – esta elegante casa de recreio facultou no sábado passado a uma numerosa assistência, que por completo enchia o vasto salão do café e respectivas galerias, uma festa encantadora.


Tratava-se da glorificação da vinha e do vinho no que ambos têm de mais característico – a festa pagã das vindimas.


Confiado a Rogério Reynaud o arranjo ornamental da sala, conseguiu este distinto artista fantasiar uma decoração original a todos os títulos, desde a parte propriamente pictural até à harmónica e bem distribuida iluminação, que, em milhares de lâmpadas multicores descia da cúpula e se derramava pelas galerias, palco e colunários.


Quatro enormes cestos, transbordantes de uvas, estavam suspensos do tecto. Em torno da sala, as paredes enfeitavam-se de grandes cachos. Nas quatro colunas centrais, uvas enormes escorriam o precioso sumo sobre vastas taças. Mas o que, designadamente, atraía os olhares do público, era a feliz ideia de Reynaud, de enquadrar em medalhões de uvas e parras bustos de raparigas envergando os trajos pitorescos das várias regiões vinícolas portuguesas, encimada cada uma, pelo escudo de armas da cidade ou vila a que pertencia.


A festa, que começou pelas 22 e meia horas, terminou perto das seis, tendo-se representado, no pequeno estrado que servia de palco, uma bluette graciosa adequada ao assunto da festa, original de José Ribeiro, entremeada de danças de colorido sabor popular. Os actores e actrizes, pertencentes ao grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense foram, bem como o autor, entusiasticamente palmeados.


Apresentaram-se também, no intervalo das danças, em que se viam muito e pitorescos trajos regionais, o actor-cantor Francisco Costa e a bailarina espanhola Carmenchu. O rancho “Flores de Portugal” e as filarmónicas “Figueirense” e “10 de Agosto” ajudaram a animar a festa com o seu escolhido repertório.


Em barracas enfeitadas de verdura, que durante toda a noite foram bastante concorridas, vendiam-se ao público: vinho, bolos de bacalhau, pastéis, arroz doce, sonhos, etc.


Felicitamos sinceramente a direcção do Casino Peninsular, sem esquecer o sr. Carlos Afonso Nogueira, funcionário superior da casa, pelo esforço inteligentemente dispendido e pelo bom êxito que alcançaram.


(Notícias da Figueira - 1941.09.20)

Na Várzea de Tavarede - 1º. de Maio

Já os remotos druídas celebravam o “Bé-il-Tin”, - o começo do ano, - quando dealbava Maio.


É festa que vem de longe e, passeando em torno das idades, o seu guisalhar alegre e ruidoso.


O nome céltico de Maio, era “Cenduin”, - o primeiro mês, o primeiro tempo, - visto que era em Maio, que por êsses recuados e apartados dias, se dava comêço ao ano.


Na clara Grécia, na velha Galia, na soberana e olimpica Roma, - as “Floralias”, as “Palilias”, - os enormes fogareus lucilando e crepitando nos altos môrros, recordavam segundo a tradição de uma festa solar, vestígios de qualquer antiga comunidade pastoral.


Por todo o lado, no dôce e suave mês de Maio-Moço, em que a Natureza inteira veste galas em honra e louvor da Deusa Primavera, - o entrar de Maio, foi motivo e razão de bailos e folgares, - ou à luz radiosa do Sol, ou sob o manto rútilo das estrêlas!


A Igreja, festeja em Maio-Florido, - Nossa Senhora.


É o Mês-de-Maria, - com os altares cheios de rosas claras.


O cristianismo, repudiou em seu começo as rosas, - dado o culto pagão votado à aromática flôr, pelos adoradores de Vénus, - a Deusa do Amor e da Fecundidade!


Bem cedo porém as rosas regressaram a encher os templos cristãos, a cobrir de seu oloroso perfume as naves altas, a atapetar com as suas finas pétalas de sêda, os pés da Virgem Nossa Senhora.


E por todo o Portugal formoso e crente, por capelas alpendradas no tôpo cinzento dos montes, por ermidas quietas e calmas, aninhadas no fundo das encostas ou erguidas ao remate das veigas tranquilas, se cantam e rezam, na doirada doçura das tardes macias dêste mês de Maio-Lindo, ladaínhas e litanias, erguendo aos Altos, - graças e louvores à Mãe-de-Deus!


Quando os Afonsos e os Sanchos, no alvorecer da nacionalidade, talavam a cortes de montante o solo da Nação, era em Maio que se organisavam as algaradas e se partia à reconquista cristã.


Então se clamava: - “Vamos ao Maio!” – E o mesmo era que dizer que abalavam por vales e cêrros, ao encontro das hostes infieis, - gentes d’Algo, infanções, cavaleiros temíveis e bravia peonagem.


“Ir ao Maio”, - marcava a largada das mesnadas heróicas, que iam bater-se gloriosamente para cimentar a Pátria, que nascia e se firmava entre os golpes de uma espada e o erguer de uma cruz!


As giestas, flôres d’oiro que cobrem em Maio-Formoso, tôda a faixa da Península, que vai do verde Minho ao moreno Algarve, simbolisam na sua arisca e rebelde graça, o mês mais contente de todo o ano.


Na manhã do primeiro dia de Maio, devem colher-se as giestas, e enramalhar com elas, as portas dos casais, os janelos, os currais do gado, a arca do pão e a talha do azeite.


... Para que Deus sempre dê fartura ao lar, e arrede maleitas e quartãs, - das gentes e do bicho vivo...


A giesta simbolisa o período da Primavera plena, e traduz o fino cantar do arroio calmo, o abrir da flôr no brotoejo dos ramos tenros, o chilreio dos ninhos e a vibração ligeira das azas que varam sem estôrvo o tranquilo e lavado azul!


Beber no alvôr da madrugada do 1º de Maio, água pura, gostosa e fresca, na Fonte milagreira da Varzea de Tavarede, - dá saúde, felicidade, alegria e sorte, para o ano inteiro!


Por isso, tôda a gente das terras ao derredor da linda e risonha aldeia, se agrupa e junta na praxista manhã, no largo onde a bica rumoreja num fio cristalino.


Não há moça de trabalho, que não consuma e môa a derradeira noite de Abril, a florir seu pote de barro vermelho, - que é grande o despique em apresentar caprichosamente enfeitadas, as cantaras airosas.


Urdem-se entre folhas de hera, os tenras ramagens de buxo ou loiro, círculos de rosas e cravos em coloridos e bizarros tons, que enastram o bôjo da vasilha, caem em aneis pelo talhe grêgo dos bocais, e pelo jeito em ânfora à roda das azas perfeitas.


E grandes laçadas de fitas de sêda, descem pelos pucaros bem torneados, humidos e apetitosos, que matam sêdes de água e amor, a beiços de namorados...


Ainda o céu é um crivo de estrêlas e mal se laiva o nascente de uma ténue e branda claridade, já descem dos píncaros do Cruzeiro, das azinhagas do Robim, da estrada de Mira, - seguindo no caminho fácil e geitoso da Várzea-de-Tavarede – ranchadas de gente môça e garrula, cantando e bailando, entre risos e folgares.


Em roda da Fonte, com seu arco moirisco, é bem uma romaria. Os toques, são às duzias. E andam pelo ar cantigas d’oiro, com résteas de Sol!


Chegou agora o grupo dos “Amorosos”. São de Brenha. A tuna, é de apetite. Os rapazes trazem bonés forrados de fustão branco. E as raparigas ramos de limonete e pandeiretas de onde pendem tiras vistosas de mil côres. Cantam, com acompanhamento de côro, a velha moda popular “Margarida-vai-à-Fonte”. Que linda voz tem a cantadeira...

Fui à Fonte-dos-Amores,
Fui à Fonte-dos-Amores,
P’ra ter um Amor também!
Puz na cantarinha flôres
E na Fonte-dos-Amores,
Fui encontrar o meu bem!

A água da cantarinha,
A água da cantarinha,
Mata a sêde dos desejos!
Junta a tua bôca à minha,
E à sombra da cantarinha,
Dá-me a água dos teus beijos...

Puz ao ombro a cantarinha,
Puz ao ombro a cantarinha,
Tôda florida a preceito!
Não há sorte como a minha,
Trago ao ombro a cantarinha,
Trago o teu Amor no peito!

Na Fonte-de-Tavarede,
Na Fonte-de-Tavarede,
Sabe a água a alecrim!
Meu Amor mata-me a sêde
Com água de Tavarede,
Que fôste buscar p’ra mim!

Este rancho que entra agora no largo, e tudo domina com o restôlho da pancadaria acêsa no bombo, marcando o compasso rubro e ardente duma chula nervosa, é do Saltadoiro. O tilintar dos ferrinhos vibra como um repique de sineta aguda em baptisado. A voz do rapaz é macia como um veludo. E a da rapariga, fina e ductil, lembra um doce trilo de rouxinol...

Trazes junto ao coração,
Um Senhor, no teu rosário...
= Quem me dera ter a sorte
De morrer nesse calvário...

Não sei se te hei-de amar,
Se fugir ao teu encanto!
Não sei se devo gostar,
De quem me faz sofrer tanto!

O nome que te puzeram,
= Maria! – não acho bem!
Maria, foi Mãe de Deus,
Nunca fez mal a ninguém...

O Sol rompeu, abriu, cobre tudo com a sua aza d’oiro. O ceu, é um esmalte puro, - dum azul sem nódoa ou ruga. E todo o claro espaço, cheira a madre-silva, a mangerico, a rosmaninho em flor!


Da bica, tomba a linfa fresca, onde bocas gorgolejam. Uma cachopa, a fugir dum moço atrevido, deixou cair o vistoso pote, - catrapuz! – e foi um coro límpido de gargalhadas em redor...


A meio do largo, dança-se um “Malhão” barulhento – entre o zangarreio de guitarras, estridores de violões, ganidos de harmónicos, saltitares de chinelas, farfalheiros de oiros nos peitos das mulheres, nuvens de pó do sapateado acêso dos rapazes, estalidos dos dedos, e a voz rude e forte do marcador:


= Volta” E vira! Uma cantiga...


Uma voz sàdia de moço, atira ao fino ar:

“Vai à fonte quem têm sêde”...
= Este dito é impostôr!
Vim à fonte, sem ter sêde,
E morro à sêde de Amor...

Uma rapariga, morena como um bago de centeio, retruca de grimpa alta:

A Fonte-de-Tavarede,
Mata a sêde a quem a tem!
= Mata a sêde a quem tem sêde,
Não dá juizo a ninguém!

Há risos e palmas! O rapaz, nem toma folego, larga com desembaraço:

Oh mandador do “Malhão”
Mande-a cá! – Peço-lho eu...

= Três pares à frente! Agarradinhos! Voltinha ao par...


E mal a pulha nos braços, jungindo-a ao peito largo, enovelando-se com ela em duas voltas quentes e lestas:

Já lhe sinto o coração
Às marradinhas ao meu!

(Raimundo Esteves – Jogos Florais da Primavera de 1941, organizados pela Emissora Nacional. Menção honrosa em palestra radiofónica) (O Figueirense - 2.8.1941)

terça-feira, 19 de julho de 2011

NOTÍCIAS INTERESSANTES!

Ao folhearmos os nossos apontamentos encontramos, muitas vezes, notícias ou comentários muito interessantes. São coisas velhas, é certo, mas vale sempre a pena recordar. Hoje recordo dois desses apontamentos encontrados:


Arredores de Tavarede, 4-11-940 Sr. Redactor:


Esta carta não foi escrita por mim, que mal sei ler e escrever ainda menos, mas foi ditada por mim e sou eu que tomo a sua responsabilidade por se tratar de uma coisa justa como vai ver.


O sr. Redactor, no seu jornal, faz os seus reparos muito a propósito e no que me toca pela roupa, à venda do leite aos banhistas, chega a ser cruel para com os desgraçados que estão sempre mortinhos pela época dos banhos para apurar uns tristes vinténs para viver e para pagamento de tantos compromissos. O negócio do leite é pobre e os que o exploram nestas redondezas são pobres também.


Veja agora o sr. Redactor o que se dá nos cafés em comparação com o que se passa connosco, coisa que eu observei e paguei: a nós tabelaram-nos o leite a 1$50 o litro em plena época e nos cafés agora no Outono é fornecido à razão de 12$00! Não é exagero. Eu demonstro:


No domingo foi dia de festa cá em casa e para dar um pouco de gozo ao espírito fomos de ranchada até à Figueira ao cinema, mas antes fomos tomar café ao Nicola, porque tristezas, e são tantas, não pagam dívidas, que também são muitas.


O Nicola estava cheiinho como um ovo. Lá conseguimos uma mesa e com espanto do criado por ver estes clientes maltezes endomingados, tomamos o nosso lugar e pedi:


= Para mim um café em chávena. Os copos são para o vinho. Para a patroa, um garoto em copo para variar.


= Credo homem que é isso?


= Cale-se, não se faça saloia.


Os cachopos tasquinhavam pevides, sempre ficava mais peitoral.


O criado veio com a sua bandeja atestada de material. Preparou o garoto: um dedal de leite no copo e um dedal de café a dar côr ao leite. Tomámos com cerimónia a nossa extravagância.


= Quanto custa?


= Dezasseis tostões.


Paguei sem bufar e mais dois tostões de gorgeta.


Na rua a minha mulher, que é uma moirinha no trabalho, desabafou. Disse que ia para os jornais, e é por isso que aqui venho, sr. Redactor, a dizer-lhe que repara dos pobres leiteiros na época de banhos subirem um nadinha no preço do leite e não dizer dos cafés o venderem ainda à razão de doze mil reis o litro.


Que tal lhe parece? O que me diz a isto sr. Redactor?


Se publicar este desabafo agradeço-lhe. Um leiteiro pobre.


As colunas do “Times” estão sempre à disposição dos que queiram tratar de assuntos de interesse público.


Informamos a pessoa que veio reclamar contra o preço do leite e do café nos Cafés do Bairro Novo de que na terça-feira foi feito abatimento, servindo-se agora cada chávena a seis tostões. E com um “cheirinho” custa a mesma coisa...


São bons amigos...


A segunda história é passada em Tomar. Foi igualmente na década de 40 do século passado. Foi anunciado um espectáculo com o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. Eis a história:


Noutro dia ia eu na rua, preocupadíssimo com o facto de não me estampar nalguns dos numerosos montes de pedra ou nas covas que apresentam as ruas há uns tempos para cá, quando ouvi atrás de mim uma voz gritar:


- Eh pá! Sabes quem vem cá?


Eu voltei-me logo, na intensão ingénua de dizer que não sabia quem vinha cá. Mas logo ouvi outra voz que plagiava a minha resposta e, como sou um tipo esperto, deduzi como qualquer polícia amador que a conversa não era comigo.


Disfarçadamente voltei-me para ver quem falava. Eram dois garotitos farrapões. Um estava a tirar rendimento dum banco da praça, cabeça tronco e membros a ocupar a apertada taboínha onde as pessoas sentam. O outro estava sentado ao pé do monumento do Gualdim e ocupava-se asseadamente a limpar o nariz. Estava já disposto a seguir o meu caminho e teria sido bem bom para não estar agora a maçar os leitores, quando ouvi a mesma voz gritar:


- São aqueles tipos, os de Tavarede. Eh pá, aquilo é que são actores. Vêm cá trabalhar para a gente. Quem me dera ir!


O outro encolheu os ombros e começando a limpar com esmero o outro lado do nariz, berrou de cá, na linguagem de qualquer menina moderna:


- Eu cá, não posso ir, estou teso. Ouvi dizer que são uns gajos bestiais. Lá a’nha avó diz que eles são muito bons, que vêm ganhar dinheiro para dar depois aos pobres. Aquilo é gente bem boa!


Nesta altura da conversa, resolvi continuar o meu caminho. Mas as frases dos garotos tinham-se-me metido na cabeça. Vêm cá trabalhar para a gente! Dissera o garoto. E realmente era verdade. Aquele grupo de artistas que à força de arte têm conquistado simpatia, admiração, por muita terra de Portugal, vêm cá de vez em quando a Tomar, salvar a crítica situação da Casa dos Pobres. E os pobres conhecem-nos, e estão-lhes agradecidos.


Poderão dizer que “são uns tipos bestiais”, que a ideia da frase se eleva acima da rudeza da expressão.


Bemvindos sejam por isso os tavaredenses.


Os pobres são gratos para quem os acarinha. E até me dá vontade de chegar ao pé deles e dizer também como o farrapão: Apertem esses ossos. Vocês são uns tipos bestiais!


São ou não são retalhos interessantes?

sábado, 16 de julho de 2011

Teatro da SIT nas Alhadas

Alhadas – Conforme demos notícia, teve lugar no domingo, 1 do corrente, um espectáculo em benefício do nosso Jardim-Escola, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.


A Direcção da Boa União cedeu do melhor agrado a sua casa, que se encheu de uma assistência selecta que sinceramente aplaudiu o magnífico Grupo que se exibiu de uma forma admirável.


O espectáculo abriu com a apresentação das crianças do Jardim-Escola, que se exibiram em danças e canto, acompanhadas a orgão pela digníssima Regente e auxiliada pela professora sua colega. A exibição das crianças agradou bastante e foram sempre muito aplaudidas pela assistência.


Seguiu-se uma magistral lição sobre o teatro de Gil Vicente, dada pelo Director do Grupo de Tavarede, nosso querido amigo José Ribeiro, que historiou a vida daquele grande poeta desde a apresentação das suas peças na côrte da excelsa Rainha D. Leonor até ao ponto em que elas foram proibidas de serem apresentadas em público.


A lição, que foi escutada em religioso silêncio, preparou a assistência menos culta a poder apreciar e perceber a representação dos autos que iam seguir-se. José Ribeiro foi, no final, delirantemente ovacionado, muito justamente, pois produziu uma lição daquelas que só ele sabe dar em conversa amena com o público que o escuta.

Auto da Barca do Inferno - Os Cavaleiros de Cristo


Seguiu-se a representação do “Auto da Barca do Inferno”, que teve por parte dos amadores-actores desempenho digno dos maiores aplausos, que de facto ouviram no final.


Vem, seguidamente, depois de curto intervalo, a representação do “Auto da Mofina Mendes”, um dos melhores que o iniciador do teatro português escreveu.


Este Auto, que tem alguma semelhança com os “Autos Pastoris” (Presépio), muito divulgados no nosso concelho, e que quase não há ninguém que não tenha visto representar, é de uma naturalidade, de uma singeleza, de uma ruralidade que impressiona.


Que beleza de teatro! O que de realidade encerra este Auto do Mestre Gil! Neste, como no da “Barca do Inferno”, o desempenho foi correctíssimo.

As três gerações


Fechou este inolvidável espectáculo com a representação da lindíssima e comovedora comédia do grande escritor teatral Ramada Curto – “Três Gerações” – que teve desempenho admirável por parte dos seus intérpretes, D. Violinda Medina e Silva, D. Maria Tereza de Oliveira, João Cascão, (da velha guarda) e as meninas Maria Aurélia Ribeiro e Lucídia Santos, estas quase estreantes, que representam como se fossem já velhas na arte de representar.


Que belo desempenho! Que magnífica lição! Que apresentação tão distinta! Que naturalidade! Muito bem. Assim é que se faz teatro!


Descido o pano, a assistência vibrando de entusiasmo, aclamou os distintos actores, fazendo chamada especial a José Ribeiro, o impulsionador do Teatro no nosso concelho, que, com certa comoção, agradeceu.


Subido, novamente, o pano, foi, por uma das crianças do Jardim-Escola, oferecido a José Ribeiro um lindo ramo de cravos, tendo, nesta altura, o Presidente da Comissão de Assistência do Jardim-Escola, agradecido, em breves palavras, o contributo material dado ao Jardim-Escola e ao prazer espiritual dado a quantos tiveram a felicidade de assistir a tão grandioso espectáculo.


Parabéns ao querido amigo José Ribeiro, e ao excelente grupo que dirige, pelo brilhantismo da sua representação.


Parabéns à Comissão de Assistência do Jardim-Escola pelo êxito obtido materialmente e pela sua acção no sentido de nos proporcionar uma tão agradável noite de Arte. A Comissão de Assistência do Jardim-Escola das Alhadas, agradece, com muito reconhecimento, ao distinto grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e ao seu digníssimo director, exmo. sr. José da Silva Ribeiro, o inolvidável espectáculo que aqui vieram dar, em benefício desta Instituição, e que além do bom resultado material, constituiu um serão de bom Teatro e uma noite de Arte, que perdurará para sempre.


O Figueirense - Junho de 1952