sexta-feira, 23 de março de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

Algumas vezes mais visitámos Alexandre em sua casa, depois da celebre noite d’um piteirão transformado em malfeitor.


Encontravamol-o quasi sempre absorvido na penetração das exposições do Piloto instruido, das taboas de Nereie, com presistencia perfurante de quem quizesse em um dia metter nas aguas furtadas toda aquella disciplina de calculos de navegação. Preparava-se para ir a Lisboa examinar-se em piloto.


Conversava-mos a espaços longos que se entremeiavam de uma pregação sobre o... ir com o rumo e distancia buscar lattitude e appartamento. Lá porque uma ou outra vez divergissemos em opinião com relação a um ou outro problema, franzia a testa, zangava-se, largava os livros e remoia á surdina o seu despeito.


Levantava-se então, acendia um cigarro que lhe dava um compasso de espera entre o mau e bom humor, e, sentando-se logo, continuava folheando uma postilha de Moraes! “O raio está para o cosmo assim como a tangente para o raio”. Não é assim, lhe dizemos, - não é assim!


Falando-lhe desta forma, pretendiamos somente despegal-o dos livros, para o alhearmos d’aquelle rude estudo, como é rude e procellosa a vida do mar.


Voltavamos então á conversação amena, distraente, do passado presente e quiçá do futuro, em que Alexandre, pensando, ia-nos acostumando a ideia de vel-o partir, a iniciar os seus estudos na escola polytechnica...


Com pequenas variantes, assim passámos dias, e elle, refazendo-se do seu estado, precario de saude, dispunha-se a partir para a capital.


Chegado esse dia, despedimo-nos, sob intensão de tão de pressa nos não encontrar-mos, mas quiz o acaso que fossemos a Lisboa, e indo ao historico paradeiro dos maritimos da Figueira (casa de João Movilha, Ribeira Nova, nº. 7 e 8) lá encontrássemos o nosso Alexandre, enforcado no seu jaquetão de panno piloto, com uma gola a trepar-lhe pelo pescoço acima, bonet á ingleza, cachimbo apertado nos dentes, e todo contraído, como quem ainda sentia doentiamente o rigor do frio que então fazia.
Alexandre, ao ver-nos se

m esperar, contrahiu n’uma effusão de alegria os braços contra o tronco, sempre imergidos nos insondaveis bolços do sopradito jaquetão, e apertando mais o cachimbo entre dentes, dominado de contentamento, lá proferiu... “Oh, É... tu por aqui agora?!”. “É verdade, lhe respondemos. Graças a uns cobres que temos podido juntar, e umas choradeiras feitas ao velho, pude conseguir arranjar o preciso para vir ver-te e passar uns tres dias em Lisboa”.


Alexandre ficou contentissimo; ter-nos-ia no entanto, de aturar por esses dias, e n’esta supposição, já ruminaria alguma partida que lhe faziamos por esse tempo.


Iamos da provincia e precisavamos alinhar a nossa pouca barba, pelas exigencias da capital. Perguntando ao nosso amigo aonde fazer a barba e n’uma barbaria perto, indicou uma ali perto, um pouco acima da casa do ti João Movilha. Encaminhamo-nos para lá.


O Figaro passeava d’um lado para a estreiteza da sua loja, parecendo querer fixar de memoria quantas polegadas teria de comprimento e quantas de largura. A compasso ia acentando o fio a uma barbara navalha, uma serra, com que depois nos manipulou os queixos. (Gazeta da Figueira 7.11.1896)

sexta-feira, 16 de março de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

A noute apresentava-se de má catadura, forrada d’um negro profundo, não dando muita vontade de palmilhar o caminho de Tavarede á Figueira, mas isso era inevitavel.


Despedimo-nos do nosso amigo promettendo voltar a vel-o, e, quando já ao sair para a rua, Alexandre que nos acompanhava a porta, tendo reparado no calliginoso da noite, diz-nos:


- Que noite...! Nada, eu não consinto que vás. Ficas.


- Hei-de ir, repetimos-lhe.


- Pois muito bem, - já que não ficas, has-de levar um revolwer que ali tenho.


E subindo a buscal-o, entregou-nos.


Ao recebermos aquelle arcabuz ainda lhe objectámos: que só para o satisfazer o traziamos, pois que o caminho, apesar de em peores circumstancias do que hoje, era comtudo como actualmente é - limpo de maus visinhos.


Depois... aquilo não era um revolwer; era um machinismo immenso, interminavel: - uma especie de peça de Paulo Cordeiro.


Despedimo-nos então e fomos estendendo as pernas pelo caminho, não sem receio de cair em alguma ravina cheia d’agua, porque, a respeito de lama, louvado Deus, havia que fartasse: marinhava-nos já pelas calças acima. A cada passo, quando da escuridão emergia algum ponto mais escuro, julgavamo-nos logo de cara a cara com algum matador de má catadura e logo... apertavamos na mão a coronha do revolwer, pondo-o prompto á primeira voz em defeza das nossas costellas.


Chegando ás proximidades da quinta do fallecido dr. José Maria de Lemos e da capellinha das Almas, deu-nos na vista um pequeno ponto luminoso em um vallado fronteiro a ella.


Ahi temos algum malvado á nossa espera; querem vêr?


Do seio da escuridão avultava um corpo, de homem, necessariamente, mais negro ainda, e o negregado fumava muito tranquillamente o seu cigarro, sem remorso de esperar o momento em que nos mandaria para os anjinhos.


N’estas alturas bem dizia a lembrança do Alexandre em nos fornecer o revolwer.


A respeitosa distancia demos um tiro para o ar, fazendo saber ao do vallado que estavamos prevenidos.


E o maldito ficou hirto e quêdo, insensivel a tudo!


Outro tiro!


A nada o bruto se movia!


Mais outro e outro tiro...


O mesmo resultado negativo.


Motivado pelas detonações áquella hora, já se percebiam umas inquietações de luzes atravez das vidraças da casa do dr. Lemos.


Enchemo-nos de coragem, então. O medo, a conservação propria, produz algumas vezes um valente. Guardamos os dois tiros restantes para o que désse e viesse e fomos passar pela frente do facinora que nos esperava.


Arma em punho e prompto, já se vê.


..................................................................................


Oh! desillusão!


O terrivel, não passava de um velho piteirão, de que deixaram apenas um pouco de tronco, e o cigarro que fumava:- ... um d’esses insectos luminosos da especie dos pyrilampos, que repousava sobre o tronco carcomido do defensor dos vallados! (Gazeta da Figueira - 29.07.1896)

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas

1946

TEATRO, NA FIGUEIRA

No espectáculo que se realizou na sexta feira da semana finda no Teatro do Grande Casino Peninsular o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense teve mais uma noite de triunfo com a representação da sua nova peça “Injustiça da Lei”.


“Injustiça da Lei”, original do eminente dramaturgo espanhol Liñares Rivas, é uma produção teatral emocionante, arrebatadora, elegantemente conduzida por uma magnífica técnica e formosura literária que prende a atenção do espectador.


E o grupo de Tavarede, que tem sido tanta vez aplaudido, tem nesta peça mais uma ocasião de brilhar porque o seu desempenho é muito equilibrado, muito correcto, quasi de impecável perfeição.


O público, que enchia por completo o elegante Teatro do Casino, brindou os simpáticos e beneméritos amadores de Tavarede com quentes e merecidas ovações.


O espectáculo revertia a favor dos cofres do Monte-Pio Figueirense, e foi abrilhantado pela apreciada orquestra “Ginásio Jazz”. (Notícias da Figueira – 02.16)

1947

GIL VICENTE

Eis uma notícia que vai ser agradavelmente acolhida pelos amadores de bom teatro: o grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense vem ao Teatro do Parque-Cine na próxima sexta-feira, 10. Isto basta para assegurar uma boa enchente, porque o grupo tavaredense é sobejamente conhecido e bem apreciado nesta cidade. Mas o espectáculo de agora desperta uma especial curiosidade: pela primeira vez os amadores tavaredenses interpretam Gil Vicente.


O programa é constituído pelo auto vicentino Os Mitérios da Virgem (Auto da Mofina Mendes) e pela notável peça em 2 actos, de Liñares Rivas, Cobardias. Ambas as obras são apresentadas com a probidade de montagem que distingue os espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense, com cenários do distinto artista Rogério Reynoud e do professor de cenografia do Conservatório de Lisboa, Manuel de Oliveira.


No Auto de Mofina Mendes, uma das mais belas obras de teatro histórico que nos deixou o genial fundador do teatro português e que pela primeira vez se representa na Figueira, ouviremos música da época, executada pela orquestra do distinto amador nosso patrício António Simões e acompanhada a orgão pelo menino João Monsanto: a Cantiga da Mofina é uma canção do século XV que o ilustre professor do Conservatório, Flaviano Rodrigues, harmonizou propositadamente para a Sociedade de Instrução Tavaredense, e o Canto dos Anjos aos pastores é do compositor português João de Badajoz que foi contemporâneo de Gil Vicente e é por este citado em vários passos da sua obra. Os figurinos são do distinto artista Alberto de Lacerda.


Plenamente se justifica a curiosidade com que se aguarda este espectáculo, para o que está aberta a inscrição na Tabacaria Africana. (Notícias da Figueira – 01.04)

TEATRO, NO PARQUE CINE

O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que prima pela apresentação das suas organizações da difícil Arte de Representar, trouxe até nós, no passado dia 10, uma nova modalidade das suas arrojadas e interessantes iniciativas, no Teatro Parque-Cine, onde apreentou uma curiosíssima revisvência no Teatro Vicentino – “Os Mistérios da Virgem” ou “Auto da Mofina Mendes”.


Ao mais despreocupado espectador não teriam passado despercebidas algumas das inúmeras dificuldades da montagem e da representação – nos nossos dias – duma peça de teatro da era de Quinhentos, interpretando, a um tempo, o espírito da época da fundação do teatro português – com as suas figuras simbólicas, a encenação, a movimentação das personagens, e a arte de dizer. (Para confronto de processos teve a assistência, na mesmo noite, uma magnífica peça da actualidade que se seguiu ao “Auto da Mofina”: “Cobardias”, de Liñares Rivas).


É de notar como o grupo cénico da SIT enquadrou as personagens simbólicas num cenário propositadamente frio, rígido, representado como cumpria, quase sem “movimento de cena”, a constratar com as personagens do primeiro plano, que representavam para aquem da cortina: os pastores e a Mofina, aqueles interpretando o “maravilhoso”; estes a “vida terrena”.


E não faltou a pormenor da música bem escolhida, perfeitamente adequada. Uma orquestra de cordas com acompanhamentos de orgão pelo jovem João José da Costa Monsanto, sob a hábil direcção de António Simões, que expressamente compôs a música dos Anjos e o coro final, tendo também sido executada uma canção popular do Séc. XV, propositadamente harmomizada pelo professor Flaviano Rodrigues e o Canto dos Anjos aos Pastores, delicadíssima composição de João Badajoz, contemporâneo de mestre Gil.


Se é certo não ser “teatro” para representar repetidamente, valeu como demonstração das possibilidades do “Grupo” e como revivescência do Teatro Vicentino.


A completar o espectáculo o grupo apresentou primorosamente – conforme já referimos – a encantadora peça em 2 actos “Cobardias”, original espanhol de Liñares Rivas, que mereceu a honra de ser “posta” em cinema, sob o título “Um homem às direitas” e que alcançou merecido sucesso.


Também nesta peça o grupo de Tavarede conquistou e conquistará novos louros para si e para o seu elenco, no qual notámos novos e valiosos elementos. (Notícias da Figueira – 01.18)

TEATRO PARA O JARDIM ESCOLA

Realizou-se na quarte-feira o anunciado espectáculo a favor do Jardim-Escola João de Deus da Figueira, o qual teve lugar no Teatro do Casino Peninsular com a representação de um número de variedades pelas 80 crianças que frequentam aquele estabelecimento de ensino infantil e a representação da encantadora peça em 2 actos – “Cobardias” – pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.


A parte desempenhada pelas crianças – canto, coros, solos, uma história, canções de gesto e danças – foi, como tudo em que entram crianças, apraciada e aplaudida pela assistência admirada de quanto trabalho aquilo representa por parte de quem dirige e ensaia aquela irrequieta miudagem.


A parte teatral teve, como de costume, o aprumo que o grupo de Tavarede dá às peças que representa. “Cobardias” é uma simpática peça do dramaturgo espanhol Liñares Rivas. Foi a primeira vez que a vimos e gostámos do desempenho por parte de todos os amadores, salientando-se o trabalho do amador João Cascão, e revelando-se de forma notável a amadora Maria Dias, que possue os predicados essenciais para o teatro: figura elegante, dicção graciosa e gesto e jogo fisionómico bem expressivos. É um elemento que dá brilho ao já consagrado grupo de amadores de Tavarede. (Notícias da Figueira – 04.26)

NOITE DE TEATRO PORTUGUÊS

Excedeu em muito a nossa espectativa e, por certo, a de toda a assistência, a magnífica representação de três épocas definidas do nosso Teatro, que o distinto grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense nos proporcionou, na passada sexta-feira, 6 de Junho, no Parque-Cine.


Estamos habituados a que a SIT se nos apresente em rigorosa encenação e montagem de peças dramáticas de vários moldes, mas foi um espectáculo inteiramente novo aquele que o grupo agora nos ofereceu, em três aspectos completamente diferentes, quase com os mesmos intérpretes nas três peças que levou à cena – “Auto da Barca”, de Gil Vicente (Teatro Histórico); o 2º. acto de “A Morgadinha de Valflor”, de Pinheiro Chagas (Teatro Romântico) e o 3º. acto de “Entre Giestas”, de Carlos Selvagem (Teatro Realista) e nos quais se tornou para o público, mais flagrante a diferença da Arte de Representar e as possibilidades astriónicas do elenco do apreciado grupo de Tavarede, num conjunto harmónico admirável, em que cada um está no seu lugar, sem exageros por excesso ou por deficiência. Permitimo-nos, no entanto, fazer particular referência a Violinda Medina que nos deu uma Morgadinha e uma Clara inexcedíveis, soberbas na interpretação!


José Ribeiro, o director do Grupo, conversou com o público, versando da sua palestra “à laia de prólogo” de cada uma das peças que iam sendo interpretadas, a evolução do Teatro Português, pondo-o em paralelo com o Teatro estrangeiro e bordando considerações, deveras interessantes, acerca da influência da civilização e dos costumes dos Povos na Arte de Representar e na literatura teatral.


E a orquestra, sob a proficiente direcção de António Simões, deliciou-nos com boa música portuguesa dos Séculos XV e XVI, extraída do Cancioneiro de Barbiere; “Minueto”, de José Henrique dos Santos e uma inspirada composição do Director da orquestra “Sobre Canções Populares da Beira”, trechos musicais que também mereceram ao director do grupo cénico da SIT especiais referências.


Assim o entendemos e assim o entendeu o público que teve a satisfação de assistir a esta “Noite do Teatro Português” e que aplaudiu calorosamente todos os intérpretes das três peças que foram levadas à cena, naquela noite que ficou memorável! (Notícias da Figueira – 06.14)

TEATRO, EM COIMBRA

O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense realizou um espectáculo em Coimbra em benefício do Asilo da Infância Desvalida daquela cidade, de que é presidente o grande filantropo sr. Dr. Elísio de Moura.


O espectáculo constou da representação do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente; do 2º. acto do drama “A Morgadinha de Valflor”, de Pinheiro Chagas; e do 3º. acto da peça “Entre Giestas”, de Carlos Selvagem.


O Teatro Avenida encheu-se por completo e os amadores de Tavarede foram calorosamente aplaudidos pela plateia conimbricense que tem por eles grande admiração.


Na abertura dos actos, José Ribeiro, director do grupo, falou sobre o teatro português de três épocas diferentes e três estilos diferentes, e fê-lo com a competência que o distingue, recebendo da plateia muitas palmas, e principalmente quando se referiu à obra filantrópica do ilustre catedrático sr. Dr. Elísio de Moura.


Regosijamo-nos com mais esta jornada de Bem-Fazer dos simpáticos amadores de Tavarede. (Notícias da Figueira – 11.15)

sexta-feira, 9 de março de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

Tavarede, obrigada pela proximidade do mar, deu tambem o seu contingente de marinheiros, alguns distinctos, que singraram até nos mares da India e da China. Entre outros que conhecemos, e de que havemos de tratar, lembra-nos em primeiro um, com quem mantivemos apertados laços de amizade, e, devido a alguns lances tragicos, que se deram no percurso do sentimento de affeição que mantinhamos, é digno, por incidente, de aqui figurar em primeiro logar. Chamava-se Alexandre Pereira de Figueiredo Tondella, e era irmão d’uma Luiza de Genoveva, casada que foi com o operario José do Ignácio, já fallecido, de quem nos occupámos no decorrer d’estes escriptos em alguma parte.


Não sabemos hoje, por onde anda de embarcadiço este bom rapaz; sabemos só, e vagamente, que ainda existe, naturalmente em viagens pelas costas do Brazil.


O Brazil era para elle um ponto de attracção irresistivel... o seu El Dorado.


Os paes principiaram por enfronhal-o na vida pratica, monotona, de tanoeiro, depois, por qualquer motivo foi gastar uns dias de vida n’uma officina de poleame, até que a sua organisação nervosa e moral, reagindo contra esses meios que se não coadunavam com o seu ideal de vêr quebrar o mar de encontro ao costado d’um navio, arrastou Alexandre para o viver feiticeiro do mar, tão cheio de poesia e de hecatombes dilacerantes. Lá foi...


Dando o ultimo abraço em seus velhos paes, que o idolatravam, vendo n’elle o esteio de seus ultimos dias, o nosso amigo partiu para as terras de Santa Cruz, ainda humedecido pelas justas lagrimas dos seus progenitores.


Passaram-se annos e nunca mais ouvimos falar d’elle. Andámos em viagens na costa do Brazil e não podémos nunca por lá descobrir o seu rasto.


Viveria? - teria morrido? Interrogações que a nós faziamos sem resultado algum. Só o echo dos nossos proprios sentimentos em repetição dolorosa, nos vinha ferir a alma.


Chegámos a esquecel-o. Prescrutar, saber aonde parava era tudo um trabalho de um resultado atroz.


* * *


Por um razoavel dia de inverno de 1865, fômos surprehendidos em nossa casa pela noticia da chegada do Alexandre a Tavarede. Já não cabiamos dentro da pelle á espera do momento em que haviamos de vel-o. Logo depois do jantar, partimos para lá e, dentro de pouco mais do que um quarto d’hora de tempo, iamos subindo a escada da sua habitação, ao cimo da qual nos esperava de braços abertos.


Abraçamo-nos freneticamente, dissémos cousas que as expansões de alegria subita nos fazem dizer, quasi sem nexo, e em seguida sentados vis-a-vis na sua sala, iamos inquirindo das mudanças que o tempo havia produzido nas nossas physionomias.


Alexandre vinha extenuado das fadigas d’uma viagem laboriosa do Brazil para Lisboa.


Magro, com as faces cavadas, parecia não ter carne na cara para deixar ondular n’ella os sorrisos d’alegria.


Estava doente, ambicionava o repouso d’uma vida socegada.


Passámos a tarde toda em relato de factos que a um e outro haviam succedido durante o tempo que nos não vimos, e assim passou o tempo, até que as dez horas da noite se fizeram ouvir no relogio da casa.


Por esse tempo, as ordens paternaes não deixavam que nos alargassemos tanto em serões fora de casa, e por isso vimo-nos obrigados a deixar a companhia tão grata do nosso amigo e a resistir-lhe ao constante convite de lá pernoitar. (Gazeta da Figueira - 22.07.1896)

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 19

1945

HORIZONTE, NA FIGUEIRA

Foi mais uma noite de glória, a de sábado último, para a Sociedade de Instrução Tavaredense com a representação da sua nova peça – Horizonte – no Teatro Parque-Cine desta cidade.


A peça, bem urdida, é um episódio da vida rústica cheio de realidade, tratado num vocabulário simples e popular, e está muito a carácter para o festejado grupo de Tavarede.


A dar-lhe realce tem esplêndidos cenários do hábil artista Rogério Reynaud e arranjos de cena muito cuidados, principalmente o primeiro acto passado ao ar livre num ambiente campestre de notável verdade.


José da Silva Ribeiro, o ensaiador do grupo de amadores seus patrícios, demonstrou mais uma vez a sua competência, dando à peça uma interpretação que devia encher de contentamento e satisfação o seu autor Manuel Frederico Pressler, que assistiu ao espectáculo numa frisa do teatro.


Todos os amadores se compenetraram dos seus papeis, e o desempenho decorreu certinho, mas há que distinguir, de salientar, o trabalho de Violinda Medina e de João Cascão, pelo que ele tem de mérito artístico dentro da sua actuação de simples amadores, muito principalmente do 2º. acto, que foi calorosamente aplaudido, como poucas vezes temos visto nas plateias figueirenses, devido ao admirável e extenuante trabalho dos dois exímios amadores.


Também merece referência especial o amador Fernando Severino dos Reis, pela forma correcta como conduziu a sua personagem.


No final do 2º. acto, o grande acto da peça, foi chamado ao palco o autor, sendo-lhe feita uma grande ovação por parte da numerosa assistência e oferecido dois lindos ramos, um deles de limonete – o símbolo da aldeia de Tavarede – por meninas componentes do grupo cénico.


Terminamos por cumprimentar e felicitar José da Silva Ribeiro, por mais esta manifestação do seu primoroso espírito de mestre no ensinamento dos elementos de que dispõe na Sociedade de Instrução Tavaredense. (Notícias da Figueira – 05.26)

UM ESPECTÁCULO DE AMADORES

O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense representou no Parque Cine a peça em 3 actos – “Horizonte”- da autoria dum novo dramaturgo – Manuel Frederico Pressler – peça de acentuado sabor rústico, já representada no Teatro Nacional de Lisboa.


“Horizonte” vê-se com agrado. Se a sua concepção e realização não trazem nada de novo ao teatro português, não lhe falta um certo sentido de espectáculo que é essencial numa obra de teatro, sem o que, por muito bem vestida que se apresente, está condenada a um inevitável fracasso.


O primeiro acto é de todos o menos teatral. Não passam despercebidos os cuidados do encenador que pôs em campo todos os recursos do seu espírito minucioso, mas, em casos dêstes, o ensaiador não pode fazer tudo, embora por vezes faça verdadeiros milagres.


O 2º e 3º actos dão-nos uma noção mais optimista da capacidade dramática do autor e oferecem aos intérpretes um horizonte mais dilatado para êles exibirem as suas possibilidades.


A cena final do 2º acto, admiravelmente desempenhada por Violinda Medina e João Cascão, atinge um dramatismo, violência e rusticidade forte, convincente, esmagadora. Por tal forma arrebata o público que êste a interrompe, explodindo numa salva de palmas.


Violinda e Cascão são dois grandes intérpretes que em qualquer parte passavam por profissionais. Temos visto representar muito pior figuras diplomadas pelo Conservatório.


Maria Tereza de Oliveira, admirável nos papéis de velha, que compõe com muito acêrto.


António Graça, amador da velha guarda, diamante lapidado pelo saber e pela tenacidade dum bom ensaiador, é homem que dá sempre boa conta do recado.


Fernando Reis, a quem foi confiado o papel de galã, não pronuncia, por vezes, com clareza. É o maior defeito que lhe notámos.


Nos restantes, nenhuma revelação especial a assinalar. Contribuem todos – uns mais outros menos – para o êxito do conjunto, mas não nos parece que haja entre êles, escondidos, outro Cascão e outra Violinda, a quem José Ribeiro possa entregar àmanhã papeis de envergadura como aquêles que lhes temos visto representar.


Belos cenários de Rogério Reynaud. (O Figueirense – 06.02)

HORIZONTE, EM COLARES

Promovido pelo “Jornal de Sintra”, que há muito alimentava tal propósito, nunca posto em prética, em birtude da deficiência de condições oferecidas pelos palcos das associações recreativas de Sintra para a rigorosa montagem das peças a representar – associações essas que aliás mostraram sempre a melhor boa vontade em colaborar em tal iniciativa, - realiza-se brevemente uma excursão do brilhante Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense à vila de Sintra, que actuará no novo cine-teatro da Banda de Colares, por ser o único que reune, dentro do concelho, todas as condições precisas. As peças escolhidas, ambas de vulto, serão oportunamente anunciadas.


A Sociedade de Instrução Tavaredense, que há quase meio século exerce uma notável acção social, digna do maior respeito e aprêço, pois cultiva o teatro e a música, possui uma biblioteca muito razoável e mantém uma escola nocturna bastante frequentada pela classe operária, tem colaborado em importantes obras de beneficência – sempre sem quaisquer interêsses – tanto na Figueira da Foz e seu concelho, como em Coimbra, Pombal, Tomar, Marinha Grande, Pampilhosa, Leiria, Alcobaça, Vizeu, Aveiro, Porto, etc., nestes meios sendo muito apreciado o sei invulgar conjunto cénico, a quem a Imprensa já teceu os mais rasgados elogios.


Das peças ultimamente representadas pelos amadores de Tavarede, todas elas de alta classe e só próprias da interpretação de artistas de categoria, por isso eles mais e mais se impuzeram à consideração do público, destacam-se, por exemplo: Génio Alegre, Entre Giestas, Recompensa, A Nossa Casa, Horizonte, Morgadinha dos Canaviais, Jusriça de Sua Majestade, A Cigarra e a Formiga, O Grande Industrial, Envelhecer, Os Fidalgos da Casa Mourisca, Morgadinha de Valflor, O Sonho do Cavador (com cêrca de 100 representações), As Pupilas dos Senhor Reitor, etc.


Todas estas peças são rigorosamente montadas, tanto em cenários como em guarda-roupas. José Rfibeiro, o ensaiador competentíssimo do Grupo de Tavarede, que, como jornalista brilhante que é, cedo se revelou um crítico teatral de respeito, que as grandes companhias de profissionais muito consideram e admiram, não é homem capaz de apresentar o seu grupo, seja em que peça fôr – e onde fôr – sem que a peça esteja, em tudo-e-por-tudo, dentro do pensamento do respectivo autor.


Todos os cenários e guarda-roupas são pertença do Grupo de Tavarede.


E por quem é constituído êsse grupo de amadores teatrais?


Por tipógrafos, por serralheiros, carpinteiros, sapateiros, cavadores, empregados de escritório, ferroviários, etc.. E por muitas raparigas da costura, dos laboratórios e da mais árdua mas sádia labuta dos campos. À noite, depois do trabalho, tudo se aconchega às associações. Falamos no plural, porque Tavarede, sendo um meio relativamente pequeno, possui duas boas associações de recreio e instrução popular, que pela sua constante actuação causam a admiração e a estima dos estranhos, dentro e fora dos mutos do concelho da Figueira da Foz.


Disciplinados, amando profundamente a terra e sentindo elevada ternura pelos seus sistemáticos “serões” de todas as noites – os rapazes de Tavarede marcaram um dia a sua posição no campo da cultura musical e teatral, estando dispostos a não deixarem tombar em mãos alheias os seus bem firmados créditos e as suas honrosas tradições.


Bairristas por índole, briosos por sistema, caprichosos por n atureza, todos os amadores teatrais que dentro em pouco vêem representar à nossa terra hão-de querer, mais uma vez, confirmar os seus reconhecidos méritos artísticos, por isso não nos causando admiração o entusiasmo que por lá vai na premeditada deslocação a Sintra.


No próximo número daremos mais “informações” da embaixada tavaredense que o “Jornal de Sintra”, com o imprescindível espírito de colaboração e de solidariedade da Banda de Colares, pensou trazer até nós.


E para não nos tornarmos “suspeitos”, por nós falarão – dos amadores dramáticos de Tavarede – os diversos orgãos de Imprensa das terras onde esses briosos trabalhadores teem actuado – sempre por bem e dentro do maizs absoluto desinterêsse próprio.


Vão-se preparando, portanto, os admiradores de bom teatro, para assistirem, em Colares, à representação de duas peças de grande cartaz – interpretadas por amadores. (Jornal de Sintra)

sábado, 3 de março de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 18

1944

A NOSSA CASA

Se “teatro” consiste em nos facultar alguns aspectos da vida, aquelas lágrimas que assomaram a muitos olhos que assistiam à representação do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, demonstraram, bem, possuirem os intérpretes notáveis qualidades que é justo pôr em relevo.


As honras da noite para João da Silva Cascão, primeiramente e, depois, para Violinda Medina e Silva.


O primeiro, no seu “Bonardon” consciencioso, deu-nos muitas “tiradas” de óptimo efeito, em que a sua sensibilidade vibrou intensamente, como convinha, com uma fluência a carácter, exaltado quando convinha, moderando-se quando, como avô, falava a alma. É a melhor actuação que conhecemos a João Cascão.


Violinda Medina, vibrátil como sempre, provou, mais uma vez, que não há pequenos papeis: há sim pequenos papeis que requerem grandes artistas! E soube chorar, vivendo a figura que desenhou.


Os restantes personagens não desmereceram das tradições do grupo de Tavarede. Maria Teresa de Oliveira, Otília Medina, Maria Aurélia Ribeiro e António Broeiro, António Santos, António J. da Silva, Fernando Reis, A. Silva e Fermin Ferreira, procuraram acertar, com mais ou menos merecimento.


A peça é óptima, com um conflito social que nos faz pensar um pouco nos dramas familiares que nos surgem a cada passo. António Sacramento traduziu-a excelentemente do original francês de George Mitchel.


E, por fim, os nossos aplausos a José Ribeiro, a fada construtora que anima uma das melhores, e das maiores, afirmações de cultura na região.


O elegante teatro do Grande Casino Peninsular encontrava-se totalmente cheio e a enorme assistência aplaudiu calorosamente os simpáticos amadores.


Por falta de lugares deixaram de assistir à récita muitas pessoas, sendo de prever que a nova representação de “A Nossa Casa” seja um facto dentro de pouco tempo. (Notícias da Figueira – 02.12)

A NOSSA CASA

O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense representou, na sexta-feira, 4, com o brilho costumado, no Teatro do Casino Peninsular, a peça em 3 actos “A Nossa Casa”, de George Mitchell, tradução do original francês de António Sacramento.


Violinda Medina e Silva e João da Silva Cascão mereceram as palmas vibrantes da noite, pela sua interpretação, valiosa, imtegrando-se, com acerto, nas figuras que desempenharam.


Em cenas violentas, arrancaram lágrimas, que é, em nosso entender, o melhor elogio que lhes podemos fazer.


Os restantes intérpretes, muito abaixo das figuras principais, pela índole dos papéis e também vocação menos acertad, contribuiram, no entanto, para o êxito da peça, tem do em conta que se trata de amadores, simpáticos amadores confesse-se, que intervêm por prazer, compreendendo, simultâneamente, que a função do grupo a que se dedicaram carinhosamente é, na essência, educativa. (O Figueirense – 02/12)

A NOSSA CASA

Esta sublime peça francesa, original de George Michel, com tradução do actor António Sacramento, foi representada, brilhantemente, pelo magnífico grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e cedida pelo tradutor a este grupo cénico.


Encantadora obra teatral de ternura e bondade, que constituiu, tanto em França, como em Portugal, um extraordinário êxito, confirmado, agora, pelo explêndido e bem organizado grupo de Tavarede, e que, em breve, vai ser representada em Coimbra, como já noticiámos.


Como sempre, vincando uma passagem artística, José Ribeiro atirou à ribalta da Associação Naval, o grupo cénico de Tavarede.


À parte a adaptação escolhida feita, o elenco desenvolveu as personalidades com honestidade regular, aqui ou ali um esboço de técnica que pode modificar-se, sobressaindo impecável o trabalho consciencioso de Cascão e Medina, que nos deu a impressão forte dos valores cénicos que é de uso colher nos profissionais de qualidade.


É de notar, ainda, que José Ribeiro conduz todo esse trabalho, que reflecte um esforço apreciável sobre toda uma matéria prima subsidiária em que faltam preparações intelectuais próprias e onde existe uma vontade inquebrantável de todos.


Estranhei Broeiro, no secretário de Bonardon, que habitualmente marca uma característica diferente desta, interpretando, sentindo melhor, e que nos passa agora sobraçando um papel contrafeito, de pouco fotogénismo, gesto e maneiras inadequadas à sua longa prática e técnica. O criado é um noviço; dá a impressão que despeja o papel e, habitualmente deslocado, procura com insistência a personalidade de outro dentro da sua capacidade, sem conseguir dominar nesse esforço uma perfeita dignidade de incarnação.


Há um outro ponto que se deve tocar longe de destruir o trabalho feito, mas querendo dar-lhe até homogeneidade definida. O tabelião, que tem um aspecto simpático pelo determinado desembaraço, boa figura, vestindo bem, senta-se de forma que nos dá a figura de uma pessoa contrafeita que põe nessa atitude uma etiqueta exagerada, quando é certo que um tabelião, em França, é alguém de respeito e destaque social, prestígio, e a maior das considerações.


Muda esta opinião de ser frente ao raciocínio do autor que se não sabe como e a que pretexto creou o papel de Egalisse, que o não soube ligar à desventurada Mamette, como prémio de consolação, a não se compreender o despropósito das visitas esporádicas à residência dela e do sogro.


Sobre a psicologia rígida do armador, o amante da nora, que vai morrer em Valparaíso, tornaria mais leve a adaptação daquele a um intruso na família, momento que a carta cuja morte do amante de Mamette precedeu, ter deixado sem distinção a fortuna ao filho e à irmã, lição que serviria de exemplo à conduta de Bonardon, cioso da descendência legítima dos seus netos, e que apresentaria a cena mais suave e persuasiva na vira-volta dada ao terminar a encenação dos netos nos joelhos, chorando de alegria.


Seria norma de redimiria da culpa infundada os inocentes e não ficava no espírito da plateia a ideia insubmissa que o pai do rapaz era um aventureiro sedutor e que se acobardava perante um acto que tinha a legitimá-lo o casamento.


Talvez a inteligência cansada do autor não tivesse coragem de continuar, esquecendo o raciocínio e naturalmente a tendência humana, ao tratar-se de lógica ou consciência.


A literatura concede o direito de crear todos os personagens por mais originais que pareçam as filosofias dadas, contudo, não lhe podemos amputar a sequência natural, e todos os actos na vida, seja ela qual fôr, estigmatizam os caracteres.


No seio dessa mulher que o primeiro aventureiro perdeu, nunca poderia punir-se com uma recidiva, certo que a sua falta era um passo para a sua liberdade. Atrás dum escroc outro escroc, um princípio honesto que a miséria destruiu sem recompensa e ilogicamente creou uma situação e personagem deslocados.


E então qual seria a recompensa?


Tudo levava a crer e as esperanças especaram-se diante da figura enigmática de Egalisse, mas o autor não atou as pontas.


Conclusão: - Uma casa à cunha, fartos aplausos e se limarmos umas pequeninas arestas, fáceis sobretudo, José Ribeiro pode confundir todo esse trabalho que é volumoso e honestamente cumprido e dar-nos a ilusão absoluta de vermos no palco da Associação Naval, a rivalidade cénica, um grupo de profissionais.


“O que o leitor acaba de ler foi publicado no nosso prezado colega “O Despertar”, de Coimbra, a quem pedimos vénia pela transcrição. (Notícias da Figueira – 04.15)

ACIDENTE COM O GRUPO CÉNICO

Quando na noite de domingo para segunda feira regressava de camioneta de Pombal para Tavarede parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que àquela vila fôra dar duas récitas de beneficência, por interrupção de luz nos farois do veículo este saíu para fora do leito da estrada a pouca distância da referida vila e tombou-se sobre uma das árvores das margens, a qual evitou uma queda de alguns metros de altura, que podia ter graves consequências.


De Pombal saíu um carro de pronto-socorro dos Bombeiros Voluntários, que prestaram os seus serviços aos sinistrados, não havendo felizmente a registar qualquer ferimento de gravidade.


Foi apenas o susto e este não foi pequeno.


Serenados os animos e tomando lugar noutra camioneta, os amadores sinistrados regressaram aos seus lares aptos a continuar a sua santa cruzada. (Notícias da Figueira – 06.03)

GRUPO CÉNICO DA SIT

Com a representação, de segunda-feira passada, a favor das crianças francesas, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense encerrou – e com chave de ouro – a presente época teatral. A próxima época será inaugurada nos primeiros dias de Dezembro próximo, com uma peça nova que vai entrar em ensaios.


Durante a época finda representou o grupo tavaredense seis peças diferentes: quatro portuguesas – Recompensa, A Morgadinha de Valflor, Entre Giestas e O Sonho do Cavador – e duas traduções – A Nossa Casa e O Grande Industrial.


Para fins de beneficência deu o grupo dez representações, a saber: - na Figueira: para o Jardim Escola João de Deus, A Nossa Casa; para os asilos da Obra da Figueira, Recompensa; para o hospital da Santa Casa da Misericórdia, A Morgadinha de Valflor; para as crianças francesas vítimas da guerra e Cruz Vermelha Portuguesa, Entre Giestas. Em Tavarede – para a Junta de Freguesia, com destino ao Natal dos pobres da freguesia, A Nossa Casa. Em Tomar – para a Casa dos Pobres do Concelho de Tomar, O Sonho do Cavador e A Nossa Casa; Em Pombal – para a Obra “Natal dos Pobrezinhos” e Bombeiros Voluntários, O Grande Industrial e O Sonho do Cavador. Em Coimbra – para o Asilo da Infância (Obra do Prof. Doutor Elísio de Moura), A Nossa Casa.


Este registo faz honra à Sociedade de Instrução Tavaredense. (Notícias da Figueira – 10.14)

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

Fallando das capellas existentes e extinctas da freguezia deixamos um lapso, que aqui vamos preencher.


Para o nordeste da povoação, a perto de quatro kilometros, e na proximidade do regato que corre ao fundo do Valle de Sampaio ou de S. Paio, existiu em tempo uma capellita com a indicação do Santo que deu o nome ao valle. Pequena, acanhadinha, abrigava o santo a quem os visinhos dedicavam extremosa devoção. Sampaio ou S. Paio, era remedio infalivel para a cura de varios achaques, especialisando - o desapparecimento rapido das verrugas d’aquelles a que a elle recorriam com a necessaria fé. N’uma ribanceira, erma, lá estava o santinho solitario, posto n’um terreno pertencente aos frades cruzios de Coimbra.


O tempo foi fazendo dos seus fregueses uns descrentes desleixados, e a capella foi-se arruinando a pouco e pouco até deixar apenas o vestigio de alicerces.


Tendo sido comprada mais tarde a propriedade pelo fallecido sr. Caetano Gaspar Pestana, d’esta cidade, mandou este, obedecendo a uma obrigação antiga escripturada, levantar de novo a capella e refazer o santo.


S. Paio, era e é de pedra, e andando por uma adega da propriedade a servir, profanamente, de calço a pipas, foi-se aos poucos deteriorando, até que, o sr. Pestana, o mandou concertar collocando-o em seguida na capella em que hoje é venerado.


Pertence hoje a capella e terra circumjacente a António Monteiro, canteiro de Quiaios.


Ha coisa de quatro annos ainda lá foi feita festa ao santo pelo povo da freguesia.


* * *


Tambem, no caminho que segue d’esta cidade á serra da Boa Viagem e na proximidade do palacete dos Condados se vê uma outra capellinha, de acanhadas dimensões, lá edificada pelo sr. Francisco Affonso Dias, quando vindo do Brazil ha proximamente trinta annos.


É devotada a S. Francisco e Santa Anna.


De architectura simplissima, a branquejar n’aquelle sitio quasi deserto, eleva a alma do caminhante até ás regiões infinitas (?) do ceu.


E tendo nós chegado agora até o palacete dos Condados, cumpre-nos d’elle dar uma noticia pelo menos - rápida. Este palacete foi edificado ha cerca de quarenta e cinco annos pelo sr. Thomaz José Duarte, já fallecido, pae da exma. sr.ª D. Emilia Costa, sua actual habitante e proprietaria.


O local não é dos mais risonhos, inspirando antes no peito, um sentimento de saudosa melancholia.


Erguido em um planalto que começa a cahir em rampa para o lado poente do caminho da Serra, com a frente virada para o sul, aberta, sem vedação de arvoredo, está, pelo lado do norte, abrigado por pinhaes d’um tom verde escuro de d’onde em dias ou noutes de ventania veem uns tons plangentes d’uma tristeza esmagadora.


O spleen do seu primitivo proprietario, britannico de raça, fez ali levantar aquella habitação com todos os confortos da indole ingleza.


Compõe-se o palacete: de um rez-do-chão e andar superior, tendo sobre o telhado um mirante que se avista de muito longe.


No andar inferior e pelo lado da frente encontra-se - a sala de vizitas, escriptorio, uma outra sala repleta de luz, toda envidraçada, que olha para o poente com o assento em forma pentagonal. A meio da casa sóbe uma escada geometricamente lançada que se dirige para o andar superior. De tal systema foi talvez a primeira que se construiu nas cercanias da Figueira.

Ao fundo da casa ha, uma vasta sala de jantar e uma não menos vasta cozinha. Pelo lado de traz estende-se um grande pateo aonde se encontram: a cocheira, abegoarias, adega e casas para creados; pela frente desenvolve-se um largo pateo alguns metros acima do solo, sobre o qual foi levantada a construcção.


Deve-se a execução do edificio a um habil mestre d’obras da Figueira, José Baptista, que deixou bem assegurados os seus creditos na construcção da capella da Ordem Terceira, d’esta cidade.


Descendo do pateo da frente, da habitação para o poente, encontra-se a poucas dezenas de metros, o jardim da quinta dos Condados que, sem ser muito extenso é comtudo agradavel na sua pequenez. Ruas symetricamente dispostas, ladeadas de muros de buxo, uns canteiros de flores escolhidas, de côres variegadas, apresentando uns tons garridos, salpicos de sangue e anil, entremeiados de meias côres das flores mais pallidas.


No extremo norte do jardim uma pequena estufa, semi-octogonal, aonde vegetam flores variadas dos tropicos.


Enfim, uma habitação como dissemos, rodeada de todas as commodidades do corpo e do espirito como só inglezes e francezes sabem systematicamente crear.


Não se julgue por isto que estejamos delineando um eden; o que pretendemos dizer é que: - ao redor de Tavarede, sem duvida, o palacete dos Condados, no seu genero, é a vivenda que mais se distingue entre tantas outras que existem nos aros da povoação. (Gazeta da Figueira - 15.07.1896)