sexta-feira, 27 de abril de 2012

QUADROS - Os Senhores de Tavarede

Não foram santos, antes, pelo contrário, alguns foram verdadeiros tiranos, opressores do povo tavaredense. Mas também tiveram os seus heróis, mortos nos campos de batalha, e virtuosos. Mas, em 1771, com a mudança da Câmara e suas Justiças para a recém-criada vila da Figueira da Foz do Mondego, acabou-se o seu poder em Tavarede, o sistema que aqui existia e que havia sido um verdadeiro feudalismo. Mas foi a Família Quadros, a partir dos fins do século dezoito, amiga e protectora dos habitantes da nossa terra. É a eles que Tavarede deve, de alguma forma, os princípios da Instrução, Cultura e Associativismo, que tanto elevaram a TERRA DO LIMONETE. Por isso, e embora de forma despretenciosa e muito incompleta, pretendo aqui honrar a memória de tão ilustre Família, recordando um pouco da sua História.

 

Paço de Tavarede, vista pelo pintor António da Piedade

Nota introdutória - Um breve comentário
Foi no ano de 1950, quando começaram os ensaios da peça-fantasia “Chá de Limonete”, no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, que comecei a conhecer a história da minha pequena e linda aldeia. Mestre José da Silva Ribeiro, Homem de uma cultura extraordinária e vastíssima, e que acabou, em consequência de circunstâncias conhecidas, por se dedicar, quase que em exclusividade ao teatro, à colectividade e a Tavarede, sua terra natal, foi o grande professor.

Tinha uma forma muito especial de nos ensaiar. Principalmente nos chamados “ensaios de mesa ou de leitura”, ele aproveitava para nos instruir e ensinar, muitas vezes não só sobre a acção da peça em ensaios, mas, também, divagando e esclarecendo a história, não só local, costumes e usos de outros povos e de outras gerações, criando em nós um verdadeiro interesse em aprender e a conhecer muito além daquilo que aprendíamos nos bancos das escolas.

Por outro lado, sempre que ia para a escola primária, sita aos Quatro Caminhos do Senhor da Areeira, olhava, com verdadeira admiração, para aquele enorme casarão, já em não muito bom estado de conservação, onde a tradição da terra dizia ter vivido uma importante família de fidalgos.

Naquele tempo, é verdade, aquela casa pouco nos dizia. Prestávamos mais atenção, é certo, aos pavões que abriam os seus lindíssimos leques no terraço da casa e ao pequenino macaco que, preso por uma corrente, passava o tempo a subir e a descer o pau a que se encontrava preso, descansando no topo do mesmo, sentado sobre um pedaço de tábua ali pregado.

Mas, quando comecei a ouvir, na peça acima citada, falar dos Morgados, da doação feita por um rei, do jantar ou colheita do Cabido, nos fornos da poia e, sobretudo, no terceiro acto, aquele magnífico poema do “velho palácio” – pedindo que, depois dos saraus gloriosos que vivera e que recordava, o deixassem apodrecer em paz, no chiqueiro infecto dos currais -, passei a olhar de forma bem diferente para o tal casarão e a desejar saber mais, muito mais, sobre aqueles fidalgos que ali viveram e, igualmente ambicionei, conhecer a história da minha terra, cujas origens perdem-se na noite dos séculos, conforme nos dizia Mestre José Ribeiro pela boca do personagem “Velho-Tavarede”.

Os anos foram correndo e sempre íamos escutando atentamente os ensinamentos que nos eram proporcionados. Até que um dia, foi uma das surpresas encontradas na minha já longa vida, dei por mim, devido à disponibilidade de tempo, procurando na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz e na biblioteca da Sociedade de Instrução Tavaredense livros, jornais e revistas ali existentes e que tratassem da história de Tavarede.

Encontrei muita coisa, especialmente na imprensa figueirense. Consultei atentamente todas as coleções dos jornais locais ali existentes, desde meados do século dezanove até à actualidade (esta actualidade, esclareço, refere-se ao ano de 2000). Achei tão interessantes os conhecimentos que fui adquirindo (copiava todas as notas encontradas referentes a Tavarede) que, a determinada altura, comecei a pensar se não seria bastante interessante ordenar aquelas notas, por temas, e fazer uns cadernos, onde fosse possível consultar o que se sabia sobre a história da minha terra, tão diferente actualmente que se tornava, na prática, impossível descobrir o que era nos meus tempos de criança.

Assim fiz e, sem verdadeiramente o ter procurado, surgiu a publicação de dois livros. Um sobre a história e outro sobre o associativismo em Tavarede e recordando algumas ilustres figuras, tavaredenses e não tavaredenses, que marcaram algo em vida em prol da nossa terra. Mas continuei sempre à procura de mais elementos, pois ainda havia muita coisa a consultar e a aprender. O que estava era muito disperso, tornando a busca mais difícil. Além dos jornais, nos trabalhos feitos por estudiosos investigadores e historiadores figueirenses, que se encontravam em vários livros publicados, a história de Tavarede ia-se abrindo para mim.

Uma fonte, verdadeiramente preciosa, está contida nos cadernos e livros manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo, um brenhense que, profissionalmente, se embrenhou, na Torre do Tombo e nos arquivos em Coimbra, nos velhos papéis e pergaminhos que por lá estão guardados e que teve a paciência e o trabalho de copiar, manuscritamente, para os citados cadernos e livros que doou à Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.

São verdadeiras preciosidades. Pena é que sejam, a maior parte deles, de leitura bastante difícil, pelo menos para nós, leigos e apenas curiosos na matéria. Naturalmente, pelo que me diz respeito, terei cometido alguns erros de transcrição. Julgo, porém, que em nada alterei o sentido do que lá está escrito.

Mas, evidentemente, por muito boa vontade que haja, da parte dos investigadores, não raras são as vezes em que se deparam com lapsos, lapsos estes que, na minha ignorância, copiei. Não têm, no entanto, gravidade de maior. A propósito da família Quadros, os célebres fidalgos de Tavarede, encontram-se algumas incorrecções nos cadernos acima mencionados, salvo o devido respeito à memória do Dr. Mesquita de Figueiredo, e que serviram de fonte informativa não só para mim, mas, também e por exemplo, para Mestre José Ribeiro.

Vejamos: na fantasia “Chá de Limonete”, numa das cenas do primeiro acto em que estão alguns populares a conversar com o Rendeiro do Cabido da Sé de Coimbra, sobre o pedido que este fizera ao Rei para mudar a Câmara de Tavarede para o lugar da Figueira da foz do Mondego, para acabar com o poder, verdadeiramente feudal, dos fidalgos Morgados de Tavarede, quando entra em cena o fidalgo este diz: Eu, Fernão Gomes de Quadros, oitavo senhor de Tavarede, não consentirei…

A questão está naquele oitavo senhor de Tavarede. A sua origem esteve nos famosos cadernos manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo. Também eu, no primeiro livro publicado, ao descrever a genealogia dos fidalgos Quadros, considerei aquele Morgado como o oitavo senhor de Tavarede. Parece, no entanto, ter havido erro e vou agora procurar esclarecer o caso.

Segundo o Dr. Pedro de Quadros Saldanha, descendente daquela ilustre família e que teve a trabalhosa tarefa de compilar e publicar um muito bem elaborado estudo, a que deu o título de ‘A Casa de Tavarede (1540 – 1906), de que existe uma cópia na Biblioteca da Figueira da Foz, que atentamente li e estudei, aquele seu ascendente não teria sido o oitavo mas, isso sim, o sétimo senhor de Tavarede. E, sinceramente, acredito que a razão estará do seu lado.

O Dr. Mesquita de Figueiredo refere Pedro Lopes de Quadros, o segundo do mesmo nome, como o quinto Morgado de Tavarede. Acontece, porém, que este morreu ainda em vida de seu pai, logo não herdando o morgadio, que passou, por morte de seu pai, para o seu filho primogénito Fernão, tal como seu avô. Esta a razão do fidalgo acima passar de oitavo para sétimo.

Também terá havido lapso com os três seguintes. Tendo sido Fernão (ou Fernando) Gomes de Quadros o sétimo, o oitavo foi seu primeiro filho, Pedro Joaquim. Mas, como veremos no capítulo próprio, este terá sido uma “espécie” rara nesta família. Por ter assassinado um tio seu, que era frade, foi condenado à pena de prisão perpétua. Logo, não podia ser o herdeiro, mas sim seu irmão, António Leite, que assumiu o cargo sob a tutela de sua mãe.

Mas o homem põe e Deus dispõe. Por amnistia decretada pela Rainha D. Maria I, Pedro Joaquim foi libertado. E foi com muita surpresa de sua mãe e de seu irmão, que o recém-liberto apareceu em Tavarede e reivindicou para si a herança de seu pai, passando a ser, logicamente, o oitavo senhor de Tavarede. Mas foi-o por pouco tempo. Voltou à libertinagem e à bebida e fez tais desacatos, que aquela amnistia foi revogada e foi novamente conduzido à prisão, não mais voltando a Tavarede, pois faleceu na cadeia.

E então, com toda a legitimidade, seu irmão, António Leite, foi o seu herdeiro, passando ele a ser o nono senhor de Tavarede. Este, militar de carreira, acabou por morrer solteiro, não deixando, portanto, descendência. Mas deixou testamento, legando o morgadio e o título a sua sobrinha, D. Antónia Madalena, filha de sua irmã, D. Joana Madalena. Está refeita a sequência cronológica e D. Antónia Madalena foi a 10ª. senhora de Tavarede, como vulgarmente é conhecida. Lá mais para a frente veremos toda esta história mais desenvolvidamente.

Surgiu-me, ao ler tudo isto, a vontade de fazer mais um caderno para tentar deixar escrita, de forma simples, a história desta família. Dei-lhe o título de “QUADROS – OS SENHORES DE TAVAREDE”. É claro que se trata, única e exclusivamente, de copiar trabalhos de outrém ou de aproveitar-me deles. De origem minha muito pouco será encontrado. Mas serei perdoado pela ousadia. Na verdade, a vida destes fidalgos durante cerca de dois séculos e meio, teve enorme importância na história tavaredense. Alguns, todos o sabem, foram mesmo maus, egoístas, déspotas e tiranos. Abusaram altamente de hipotéticas regalias e procederam de tal forma que chegaram a cumprir penas de prisão e de degredo em África. Mas nem todos terão sido assim.

Há casos, e refiro-me somente, por aqui, a D. Antónia Madalena, a décima senhora de Tavarede, que, diz a lenda, foi enterrada ainda com vida… Terá sido a verdadeira antítese dos seus antecessores. Chegam a ser comoventes algumas situações que teve de suportar e viver. E logo ela, que foi casada com um dos mais ilustres fidalgos portugueses daquele tempo! Veremos, contudo, se serei capaz de levar a efeito a tarefa a que me propuz e meti ombros.


Teatro da S. I. T.- Notas e Críticas - 25

1955.02.03 - SERÃO HOMENS AMANHÃ, EM MARINHA GRANDE (REGIÃO DE LEIRIA)

Mais uma vez o “Teatro de Tavarede” na Marinha Grande, sob os bons auspícios do SOM e habilmente guiado pelas “mãos milagrosas” do exmo.sr. José da Silva Ribeiro, competentíssimo director, ensaiador, alma do “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense”.

Este grupo que já nos tinha dado um esplêndido e invulgar “Frei Luís de Sousa”, trouxe-nos desta vez a peça argentina “Serão homens amanhã”. O seu autor apresenta-nos um drama da vida real, o velho tema dos filhos ilegais, inocentes vítimas das irregularidades da carne, cujo problema é de ontem, de hoje, de amanhã e de sempre, e será pelos tempos fora de palpitante actualidade.

O seu autor (da peça) mostra-nos o drama que se desenrola, surdamente, num entrechocar de paixões, à volta de três inocentes crianças, que vivem felizes, alheias às misérias humanas, ignorando-as completamente, bem como a sua pecaminosa origem, pois são filhos de uma mulher solteira e dum homem com um lar exterior legalmente constituído, que se serve de vários embustes para mascarar a sua paternidade.

O drama inevitável surge e um temporal desfeito fustiga inexoravelmente o pseudo-casal, como um látego justiceiro, até que uma alma generosa – outra vítima desses embustes – salva a situação, levando a todos uma regeneração digna, a bonança enfim, acabando tudo em bem. O autor da peça resolveu aquele difícil problema, com um final bastante simpático, o público gostou, aplaudiu e saiu satisfeito.

Porém, na vida real, raramente aquilo sucede, e no geral, as crianças, as inocentes vítimas do pecado, são como que uma bola de futebol, aos pontapés de uns e outros, no terrível jogo da vida, em que o árbitro é o Destino, o público – a sociedade que os despreza, e o resultado da luta – inferioridade em que são colocadas em relação aos filhos do matrimónio. E para todos, afinal, são os filhos dum pecado que eles não cometeram...

Na peça “Serão homens amanhã” tudo acaba em bem, graças a Deus. A interpretação....(falta texto)....... Cró Brás (Chiquinho), João José Nogueira e Silva (Eduardinho) e a mais velhinha, Maria Natália Santos (Mariazinha); a caminhar assim e dirigidos por mão de mestre, dentro em pouco serão realmente “os homens de amanhã”. Enternece vê-los e dá vontade de abraçá-los!

O sr. João Cascão (Carlos) é outro grande esteio do grupo. É um verdadeiro actor. Chega a convencer que não faz outra coisa que representar! Ele foi o anjo salvador daquelas crianças e da mãe, de uma derrocada moral e social, e tão bem o fez, que nos pareceu realmente o pai dos três filhos...

O sr. Fernando Reis (Luís Reys), o verdadeiro pai e o maior pecador da peça, foi, por fim, e com muita verdade, a alma que se sacrifica pela felicidade dos filhos, recebendo como castigo da sua falta, a grande chicotada do Destino e que foi a destruição do seu lar verdadeiro.

O sr. António Jorge da Silva (Hermenegildo) e D. Maria Teresa de Oliveira (Delfina) são os pseudo-avós dos pequenos; foram dois velhotes impagáveis, alegrando a peça com a sua graça e ingenuidade provincianas, sem ao de leve suspeitarem da tragédia de que estavam sendo comparsas. Também e com toda a justiça merecem parabéns.

A criada Joana (D. Vitalina Lontro) foi uma verdadeira criada, até no simples gesto de atar o avental, e os srs. António da Silva Coelho e João de Oliveira Júnior, em dois papéis episódicos, não desmancharam aquele belo conjunto, bem como o sr. José Luís do Nascimento, no criado. Cenários magníficos, modernos, vistosos, do prof. sr. Manuel de Oliveira.

O arranjo das cenas, a decoração do palco com um esmero escrupuloso nos mais pequenos pormenores, tornando os interiores de agradabilíssimo aspecto.

Mais uma vez o “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense” venceu na Marinha Grande e por isso estão todos de parabéns bem como o seu Director exmo. Sr. José da Silva Ribeiro, e... até à próxima!

1955.03.24 - TAVAREDE, ALDEIA-ESCOLA DE TEATRO! (JORNAL DE ACTUALIDADES)

Quando aceitámos a direcção desta página, imediatamente nos propusemos cumprir uma missão que há muito desejávamos realizar: a utilização deste espaço que o destino nos oferecia para, sempre que fosse possível, acompanharmos o esforço do teatro amador português. No meio de tanta desorganização, indisciplina e comercialismo – o barómetro parece indicar sensível melhoria de tempo... – determinados grupos de amadores representam uma luz muito viva a pretender atravessar o nevoeiro que, desde há um certo tempo, caíu sobre alguns dos poucos palcos da nossa terra.

Para o leitor desprevenido o facto de iniciarmos esta primeira fase de colaboração com os amadores teatrais, escolhendo um grupo duma modesta aldeia beirã, Tavarede, poderá causar uma relativa estranheza. Mas Tavarede é um nome a fixar por todos quantos ainda sentem forças para lutar pelo progresso duma arte que é um dos pilares mais sólidos da cultura dum país!

A aventura maravilhosa daquela aldeia pobre, a espreitar a Figueira da Foz, é uma verdadeira gesta de amor e de dedicação. Noite caída e ceia tomada, rapazes e raparigas de Tavarede, trabalhadores do campo e das oficinas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros dirigem-se para o pequeno palco-escola da Sociedade de Instrução Tavaredense, uma associação cultural e recreativa fundada em 1904, que tem, desde a sua fundação, mantido um extraordinário labor.

Esta associação derrama a sua benéfica e luminosa actividade numa aldeia muito pequena e esse mesmo motivo faz com que poucas famílias não tenham representação no seu grupo de amadores teatrais.

José da Silva Ribeiro tem conseguido o milagre de num espaço de trinta anos manter o fogo sagrado do Teatro em Tavarede. A sua invulgar têmpera e tenacidade, o seu sentido de orientação fez com que peças como “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “A Nossa Casa” de George Michel, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler e “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça fossem representadas no minúsculo palco da Sociedade de Instrução Tavaredense. O drama “Frei Luís de Sousa” de Garrett – que ainda há pouco tempo foi apresentado em Coimbra – mereceu uma montagem que a todos tem deixado em espanto, pela verdade minuciosa da sua expressão plástica. E Gil Vicente, nos Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” encontrou na boca do povo que ele tanto amou, o eco imortal das suas frases eternas.

Mas o aspecto para nós de maior realce na actividade de José da Silva Ribeiro está consubstanciado na sua ideia de tornar os amadores de Tavarede intérpretes conscientes das personagens, dos seus sentimentos, das ideias que as determinam na época em que vivem e do ambiente em que essas mesmas personagens se movem. Tudo lhes é indicado através de pequenas palestras durante os ensaios, palestras que são esquematizadas sem ar de lição mas que são compreendidas pelo seu heterogéneo grupo de amadores.

Parece-nos que mais não será necessário escrever para que fique esclarecido porque chamámos a TAVAREDE, a aldeia-escola de Teatro.

E para começarmos o nosso entusiástico roteiro não poderíamos deixar de escolher esse admirável agregado beirão, composto de gente que trabalha arduamente todo o dia e que, à noite, procura no Teatro a sua fonte de saúde mental.

Falámos de TAVAREDE. E isso muito nos honra.

1956.01.08 - ANA MARIA, NA FIGUEIRA (DIÁRIO DE COIMBRA)

A função da crítica em presença duma obra é da sua análise profunda baseada numa observação sistemática. Para toda e qualquer manifestação de arte o crítico tem de se situar nesse plano e só a partir dele deve actuar. Qual será então o motivo porque nas críticas teatrais feitas neste jornal a primeira coisa que se escreve é: Teatro de Amadores ou Teatro de Profissionais?

Se vivessemos num país onde o Teatro constituísse uma séria e portanto basilar manifestação artística ter-se-ia de estabelecer a mesma separação?

Evidentemente que sim. O profissional de teatro é o trabalhador de teatro como o cavador é o profissional da enxada e o intelectual o do livro. Já viram como o homem da cidade pega numa enxada? e a dificuldade com que o nosso trabalhador do campo lê um jornal?

Há portanto que destrinçar. Em países de fraca tradição teatral, com raras excepções, tem sido sempre o teatro de amadores que cria as grandes renovações. Desde há uns trinta anos a esta parte que o arrojo, principalmente da juventude, tem lançado esta arte na conquista de novas posições. Teatros experimentais ou de vanguarda – teatros de amadores – (a comercialização vem depois), foram trampolins para muitos êxitos, êxitos devido à estagnação de processos, o fraco nível moral e intelectual, os iletrados arrivistas dirigindo a mais complexa das artes, às sujeições de toda a espécie sem excluir a censura, etc., etc., etc. O Fundo de Teatro recentemente criado no nosso país o que visa a defender? O teatro? Qual teatro? Com t ou T? Onde ir buscar os alicerces que faltam para se criar um verdadeiro teatro? As respostas a estas perguntas deu-as aquele Fundo concedendo subsídios a Companhias Teatrais lisboetas que pelo que me foi dado observar até hoje não merecem de forma alguma esse subsídio. Qual o critério utilizado pelo Fundo para essa concessão? Que garantias recebeu das Companhias que subsidiou? Quais as pessoas capazes onde garantiu as centenas de contos concedidos em dois anos de trabalhos ineficazes e circunscritos à Capital? (Acaso a Província não terá categoria para apreciar esses espectáculos ou os espectáculos não terão categoria para vir à Província?).

Coimbra há quatro anos que não vê teatro declamado por uma companhia portuguesa ou pelo menos por um conjunto que mereça esse nome. O Fundo de Teatro não terá nada que ver com isso? Não falamos é claro no Teatro dos Estudantes que apesar dos seus dezoito anos de trabalho incessante em prol do Teatro Português aquém e além fronteiras, onde actuou de molde a envaidecer o Mestre que o dirige e os estudantes que o compõem e que representando este podre teatro português conseguiu que as gazetas o distinguissem sem ter que levar as notícias às agências telegráficas nem pagar aos críticos dos jornais. E qual a razão por que este grupo não foi subsidiado? Dará menos garantias artístico-culturais que os beneficiados ou a sua obra estará para além da compreensão daqueles a quem compete zelar pela valorização do teatro português?

E como pode o Fundo de Teatro alhear-se do que se passa com o Conservatório?

Para uma verdadeira ressurreição do teatro em Portugal não seria necessário uma valente vassourada, naquela casa? Quando é que o Conservatório se lembrará de apresentar espectáculos teatrais com os seus alunos, de forma a poderem apreciar-se os métodos e observar-se as revelações?

E não seria uma obra de largo alcance social e de profunda projecção nessa mesma valorização do teatro português que o Fundo de Teatro providenciasse a criação da Casa do Actor Profissional para onde fossem levados aqueles actores que todos reconhecem estarem já incapacitados de representar mas que as condições de vida obrigam a trabalhar e os críticos (?) a aplaudir devido ao seu passado?

E basta de considerações que não caberiam num jornal inteiro quanto mais num artigo.

Por tudo isto se vê que aos profissionais há que exigir a apresentação de espectáculos impecáveis e incentivar e aplaudir todas as manifestações honestas que dentro do campo do amadorismo (e bem poucas são) existem no nosso país. São estas que ainda constituem a pedra de toque (ainda que fraca) que nos permite verificar a pobreza do que os profissionais mostram sobre as tábuas.

Fomos à Figueira ver o “Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense”. José Ribeiro com uma persistência todos os títulos notabilíssima tem mostrado à gente da sua terra quase todos os aspectos por que o teatro se desdobra. Não pára. Agora foi uma opereta. Diga-se desde já – para além das restrições que se façam – que no estado actual do teatro português poucas terras do nosso país com a matéria prima de que podem dispôr, apresentariam um espectáculo como o que vimos. Quero com isto dizer que o espectáculo é uma perfeição? De maneira nenhuma; até porque não é este o género de teatro a que José Ribeiro se tem dedicado e uma opereta necessita antes de tudo o mais de vozes. José Ribeiro sabe-o bem e por isso mesmo procurou compensar esta falta que os ouvidos acusam com um guarda-roupa e caracterizações que os olhos apreciam. Quanto ao original surge-nos desiquilibrado. Há cantores a mais no 1º acto e muitas palavras no 1º quadro do 2º, equilíbrio dos segundos quadros do 2º e 3º actos.

A música de Joel de Mascarenhas é fraca e não ajuda em nada a criar o ambiente em que a peça se situa. Os cenários agradáveis. A orquestra à parte um ou outro descontrole dos instrumentos de sôpro teve nos violinas e no flauta o seu melhor.

A movimentação de cena esteve de uma maneira geral certa faltando às raparigas do coro naturalidade de salão em certas marcações musicais; aliás é a música que convida o “passo de rancho” em alguns momentos.

Na interpretação António Jorge da Silva, Vitalina Gaspar Lontro, Violinda Medina e Silva, Maria Isabel Reis e José Maria Cordeiro notabilizaram-se; a Manuel Gaspar Lontro faltou a convicção que caracteriza todos os malabaristas de feira; quando a arranjar fará um papel à altura dos primeiros.

É mais um espectáculo do Grupo de Tavarede que merece ser visto e aplaudido, um espectáculo escrito, musicado e representado por portugueses e que por isso mesmo não interessa ao Fundo do Teatro.

Quando manifestações como esta e como poucas mais merecerem o amparo e carinho dos que têm por obrigação defender o teatro em Portugal então pode ser que começando-se pelo princípio se faça obra de projecção. De outra maneira é tempo e feitio perdidos. Crie-se público em todo o país; criem-se actores dignos desse nome; mandem-se aprender ao estrangeiro os poucos que podem ser directores de cena no nosso país; expulsem-se os vendilhões do templo e só então se poderá começar a marchar rumo a um teatro – representado, escrito ou representado e escrito – em Portugal.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

O episódio último, publicado no jornal 'Gazeta da Figueira' no dia 5 de Dezembro de 1896, foi o fim destas 'Recordações' que Ernesto Fernandes Tomás nos deixou e que tão úteis se têm revelado para todos quantos procuram conhecer um pouco da história próximo passada da terra do limonete.
Ernesto Tomás, que assinava os seus escritos, sob o pseudónimo de 'Estoern', sofreu um grande desgosto com a morte de um filho e a partir daquela data, a doença apoderou-se dele tendo falecido pouco tempo depois.

Irei, seguidamente e a partir da próxima semana, publicar um pequeno 'trabalho' que escrevi sobre os 'Quadros - Os Senhores de Tavarede'.

sábado, 7 de abril de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas -

1953

TEATRO

De Buarcos – Conforme noticiámos, veio no passado domingo ao Teatro Trindade, desta vila, o distinto Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que honrou a terra com o célebre drama “Frei Luiz de Sousa”, representação esta em benefício da Associação dos Bombeiros Voluntários. O povo de Buarcos soube corresponder, pois a casa não podia comportar mais gente, completamente cheia. Bem haja esta benemérita Associação, que deve ter tirado qualquer resultado. Pena foi a casa não satisfazer o desejo de todos aqueles que quizeram contribuir, por ser pequena.

No desempenho da peça, não sabemos quem destacar, desde o protagonista até aos coros. Montagem, encenação e desempenho impecáveis. João Cascão e Violinda Medina e Silva nos papéis de Manuel (Frei Luiz) de Sousa e Dona Madalena de Vilhena; Maria Alice da Silva Mendes no papel de Dona Maria de Noronha; João de Oliveira Júnior no Frei Jorge Coutinho; Fernando Reis, no Romeiro e António Jorge da Silva, no Telmo Pais, foram de um extraordinário êxito, pois arrancaram aos espectadores os mais repetidos aplausos num nunca mais acabar, fazendo vir à cena o ilustre ensaiador sr. José da Silva Ribeiro. O público saiu convencido que voltará a ver muito em breve aquele muito apreciado Grupo Cénico em Buarcos, proporcionando-lhe um tão belo passatempo.


O Secretário da Direcção dos Bombeiros teve palavras de agradecimento para com a Direcção do União e do Grupo Cénico e muito especialmente para o seu director sr. José Ribeiro, que mostrou sempre de uma forma muito gentil e simpática a sua melhor boa vontade. Gostariamos de dar aqui resposta às consultas que nos têm sido feitas àcêrca de nova representação em Buarcos pelo Grupo de Tavarede, mas, limitamo-nos a encolher os ombros e a aguardar. Da nossa parte apresentamos os nossos parabéns à Sociedade de Instrução Tavaredense, que se presa de ter um grupo cénico digno de ser visto em qualquer parte. (O Figueirense – 01.24)

A SIT EM LEIRIA

A Sociedade de Instrução Tavaredense, com o agradável perfume do limonete – “alegria” desta pequenina aldeia – e a ansiedade de bem-fazer nos corações dos seus componentes cénicos, vai realizar mais uma jornada a Leiria, no dia 9 do corrente, e representar do Teatro D. Maria Pia a peça encantadora “Pé de Vento” dos saudosos e consagrados escritores espanhois, Irmáos Quintero, revertendo o produto da récita em benefício do Jardim-Escola João de Deus da simpática cidade do Lis.


Estamos convictos de que esta jornada será mais um triunfo para a Sociedade de Instrução Tavaredense, pois que o meio em que vai actuar sabe fazer justiça ao valor teatral dos que se lhes apresentam – quer sejam artistas de profissão, quer sejam simples amadores que do teatro colhem apenas o enlêvo espiritual.


Os nossos conterrâneos já são conhecidos da plateia de D. Maria Pia, de Leiria, e mais uma vez hão-de agradar com a interpretação da linda peça dos Quintero. (Notícias da Figueira – 02.07)


A SIT EM LEIRIA

Conforme dissémos a Sociedade de Instrução Tavaredense, foi a Leiria dar uma récita a favor do Jardim Escola João de Deus daquela cidade. Referindo-se a esse espectáculo de beneficência o jornal “Região de Leiria” diz:


“O Grupo Cénico de Tavarede realizou, no dia 9, o anunciado espectáculo a favor do Jardim Escola desta cidade. O Teatro D. Maria Pia, engalanado com bandeiras do concelho e bibes das crianças do Jardim Escola, estava cheio.


A representação da peça Pé de Vento agradou, sendo todos os seus intérpretes muito aplaudidos. No final do 2º. acto, o sr. Miguel Elias, em nome da Direcção, regente e professoras daquela instituição, proferiu palavras de agradecimento e elogio ao Grupo de Tavarede e seu Director, sr. José Ribeiro, aos quais ofereceu lembranças de mais esta benemérita visita a Leiria, lembranças que foram entregues por antigas alunas do Jardim Escola.


O sr. José Ribeiro – que é um experimentado e brilhante jornalista, democrata do mais puro quilate – expressou, em curto mas vibrante discurso, impressionante de sinceridade e grandeza moral, a devoção do seu Grupo à causa da solidariedade humana e o reconhecimento do mesmo pela forma como Leiria sempre o tem recebido”.


É com prazer que registamos a benemérita acção da Sociedade de Instrução Tavaredense e a continuação dos seus triunfos. (Notícias da Figueira – 02.21)


SERÃO HOMENS AMANHÃ

Alcançou extraordinário agrado a nova peça da Sociedade de Instrução Tavaredense – “Serão Homens Amanhã” -. O público, que esgotou a lotação e aplaudiu calorosamente, deixou-se empolgar pela curiosíssima alta-comédia. Rindo a bom rir com os ditos espirituosos e as situações imprevistas que se depararam no decorrer dos 3 actos, e enterneceu-se até às lágrimas nos passos em que o problema que dá o entrecho à peça é apresentado nos seus aspectos mais sérios.


“Serão Homens Amanhã” constitui um belo e risonho espectáculo que distrai, encanta e enternece, deixando o espectador contente e justificando plenamente o que escreveu o crítico do “Diário de Lisboa” quando, há 2 anos, esta obra argentina se estreou em Portugal.


“Teatro muito agradável. Essa exposição modelar de factos e cenas, mantém-se do princípio ao fim, ainda quando a história nos dá alguns truques e imprevistos, ou mesmo inverosimilhanças. Deve repetir-se que o assunto é tão habilmente explorado que desejamos, à medida que os factos se vão desenvolvendo, que se dê, na verdade, aquilo que acontece, o que só por si é uma indicação clara e valiosa da forma como se acha tratado”.


“Serão Homens Amanhã” repete-se hoje em última representação, na sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, estando já assegurada nova enchente (Notícias da Figueira – 12.25)

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE

Largando o paradeiro aonde nos ensaboaram, enfiámos loja adentro do tio João Movilha. O Alexandre lá estava na sua mesma atitude trocista, garrotado na longa golla do jaquetão e fumando freneticamente no seu inseparavel cachimbo.


Uma descompustura que á queima roupa lhe démos, a proposito de ter-nos indicado o tal mestre, nada produziu no seu espirito para que se commovesse! Ria a bandeiras despregadas e talvez mais por ver-nos encavacado.


Um dize tu, direi eu, que estabelecemos, fazia rir de bom humor o velho Movilha.


Pelo meio da tarde d’esse dia de burlescos sucessos, lembrámos a Alexandre que nos achavamos ao acazo, sem eira nem beira, e precisados d’uma pousada certa, definida - um hotel barato perto da Ribeira, mas pouco exigente nos nossos magros fundos.

- Aqui por cima, no primeiro e unico andar, disse-nos elle, ha um nas circumstancias que desejas: é o hotel Cezimbrense aonde estou installado. Vaes para o meu quarto.


Aceitámos; ficando para a noite o visitarmos a nossa installação.


Pela noite, a horas de recolher, lá subiamos as escadas do tal Cezimbrense, e encontrando ao cimo a locataria - uma senhora quarentona, gorda e prasenteira, a quem fomos apresentado pelo nosso amigo, ao mesmo tempo que este declarava estarmos envestido na qualidade d’um novo hospede.


Adiante do ultimo degrau da escada abria-se uma saleta, pouco mais larga do que um corredor, aonde estacionava uma meza d’abas, tendo em cima um candieiro com a luz abafada por um abatjour. A uma das extremidades acostava-se uma senhora, ainda nova, filha da dona da casa, que a custo deixou um romance que ia lendo para fazer-nos uma leve inclinação de cabeça.


Podémos de relance notar que, essa indifferença, aliás natural nas pessoas acostumadas á entrada de hospedes a cada hora, não se estendia até á personalidade de Alexandre.


Hum... fallavamos nós para dentro - aqui ha coisa.


Dentro em pouco, sobre a mesma mesa estendiam-se as chavenas do chá para uma ceia-leve.


Alexandre ia a pouco e pouco sorvendo o contheudo da chavena e olhando a furtos para a pequena do romance que lhe ficava ao lado. Encetou-se uma conversação para encher quartos d’hora, em que a dona da casa não deixava esquecer a sua espionagem policial, para saber d’onde eramos, de d’onde vinhamos, e se tencionavamos demorar muito em Lisboa. Mas isto, dito entre sorrisos amaveis, delicados, e entremeiados d’uns parenthesis captivantes, muito naturalmente dirigidos á nossa magra bolça.


Não sabemos porquê, sentiamo-nos ali mal e bem. De quando em quando o nosso tympano auditivo, era desgostosamente despertado por um regougar estranho, muito semelhante ao longinquo quebrar das vagas, com sibilos intercalados, modulados pelo assobiar do vento no cordame dos navios.


Este assobiar desusado vinha-nos do lado de uma porta que se abria para a pequena saleta em que estavamos ceiando.


- Que diabo de assobiadela é esta? diziamos para o Alexandre.


- Ora... são hospedes que pernoitam cá na casa.


- Sim, repetimos... olha que isto mais parece uma philarmonica desafinada, do que gente que possua um nariz educado.


Riram-se todos.


D’ahi a pouco havia terminado a ceia, e fazendo nós as despedidas da noite ás donas da casa, fomos entrando a fatal porta de d’onde vinham os roncos que admiramos.


Por infelicidade o quarto que nós e Alexandre iamos habitar era contiguo ao detestavel paradeiro onde jaziam, quantas duzias de alemtejanos, deitados em camas infileiradas, á guiza de hospital. (Gazeta da Figueira - 5.12.1896)

sexta-feira, 30 de março de 2012

RECORDAÇÕES DE TAVAREDE


Ao ver o dono da locanda, e os miseraveis apparelhos que o circumdavam na loja para supplicio dos desventurados freguezes, tivemos um quarto d’hora de desanimo; veio-nos á memoria uma partida do Alexandre, a nossa situação perante aquella guilhotina, quizemos retroceder mas, transpunhamos já o limiar d’aquelle antro de horrores, havendo já tambem trocado uma mimica de intelligencia com o notavel barbeiro em que lhe davamos a conhecer que estavamos disposto a barbear-nos... e tudo.


Sentámo-nos pacientemente n’uma cadeira, que alguma vez teria tido a côr primitiva do pinho, sem tinta; dennunciando aqui e ali a qualidade da madeira de que era feita em uma ou outra clareira que o cebo ainda não havia invadido.


Estavamos no banco dos condemnados.


Ali, sentados n’aquella celebre poltrona, mais se nos afigurava estarmos perto do apparelho da guilhotina, do que nas mãos d’um inoffensivo barbeiro com uns vicios intoleráveis de aldeia.


De vez em quando, o nosso Alexandre, que demorava perto, em casa do tio João Movilha, ia espreitar da porta se effectivamente já estaria consumado o supplicio. E nós, com uma paciencia de martyr, assistimos á collocação, sobre o peito, de uma toalha, que em tempos poderia ser alva de neve, mas n’aquella ocasião tinha um todo acinzentado, semelhando um d’esses fórros nevoentos que se desdobram no ar em tempo nevoento.


A breve trecho tinhamos pelos queixos uma velha bacia de louça, com um recorte semi-circular onde entrava o pescoço, e um naco de sabão já gasto, com que, á mão, o mestre nos ia enchendo a cara de espuma. Após ella a navalha; uma serra, a deixar sulcos na nossa pobre epiderme como uma charrua n’um terreno. Para suavisarmos taes angustias olhavamos de vez em quando para um infeliz canario, pardacento do fumo, que o malvado Figaro tinha engaiolado n’uma gaiola - ainda mais negra do que todo o interior do estabelecimento.


- Alguma reliquia de familia deixada pelo avô, e cuidadosamente conservada com os mesmos tons de antiguidade.


A espaços admiravamos tambem o magnifico arsenal que ali existia de chapeus de sol de differentes épocas, uns cobertos a panninho vermelho, outros a panno azulado, alguns a seda, mas esta a despedir-se do serviço por inutil.


A esta abstracção eramos roubados a par e passo pela voz do nosso... carrasco a perguntar-nos: “A navalha está boa?” - “Sim, senhor”, lhe respondia-mos; o que queriamos era furtar-nos ao tempo de mais alguns momentos estar sob o supplicio que o nosso Alexandre nos havia inflingido.


Quando o homensinho deu por acabada a faina, depois de nos escovar o fato com uma escova que alguma vez teria dado lustro em calçado, sentimo-nos feliz de poder livremente vadear Lisboa, com barba feita a dois patacos, que foi quanto nos pediram por tal desastre.

Saimos d’aquella caverna mal humorado, exquisito, amaldiçoando Lisboa, que ainda conservava em seu sêio umas taes espeluncas de lavar a cara a saloios. Conservavamos ainda no nariz o cheiro nauseabundo d’aquelle (Gazeta da Figueira - 28.11.1896)

Teatro da S.I.T. . Nortas e Críticas - 22

1951

FREI LUIS DE SOUSA

A Sociedade de Instrução Tavaredense abriu no último sábado a sua época teatral: e fê-lo brilhantemente, tanto pelo valor e significado da peça escolhida – Frei Luis de Sousa – como pela grandeza e dignidade com que a apresentou.


Poucas vezes se terão ouvido no pequeno teatro de Tavarede tão calorosas e demoradas ovações, repetidas vibrantemente no final de todos os actos. O público, dominado pela beleza do drama e pelo desempenho, admirou os esplêndidos cenários, o guarda-roupa luxuoso, toda a montagem cénica, que é mais um título honroso a juntar aos vários com que a Sociedade de Instrução Tavaredense ilustra a sua notável actividade em prol do verdadeiro Teatro e da cultura do povo. Nem faltou, a completar o ambiente, uma pequena e harmoniosa orquestra de arco que nos intervalos tocou música apropriada.


Os aplausos de sábado passado vão repetir-se hoje à noite em Tavarede.


Na próxima quarta-feira, 5, o grupo tavaredense apresentará Frei Luis de Sousa nesta cidade, no Teatro do Peninsular. Como já é tradicional nas récitas dos tavaredenses, o espectáculo começará à hora marcada, 21,30 horas. O inscrição, aberta na Tabacaria Africana, está concorridíssima.


No dia 10 do corrente será a peça representada no Teatro Avenida, em Coimbra, a favor do “Enxoval do Recém-nascido na Maternidade de Coimbra”. (Notícias da Figueira – 12.01)

FREI LUIS DE SOUSA

Ainda não tinhamos visto a obra-prima do teatro português Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett, representada pelos Amadores de Tavarede.


Confessamo-nos por não ter ido à encantadora e simpática aldeia do limonete assistir à estreia daquela magistral obra na magnífica criação de que os tavaredenses a revestiram.


Esta nossa falta se deve ao facto de estarmos plenamente confiados de que esse maravilhoso espectáculo nos seria apresentado num ambiente adequado à transcendência da Obra.


Na passada quarta-feira, 5, quando entrámos no Teatro Peninsular para assistir à representação de “Frei Luis de Sousa”, e vimos a sala literalmente repleta de público apreciador, sentimos a imediata sensação de que iamos apreciar um invulgar trabalho.


De facto, esta nossa impressão não foi traída.


A excelência dos cenários de Manuel de Oliveira; do guarda-roupa de Alberto Anahory; do mobiliário desenhado pelo pintor Alberto de Lacerda e cenógrafo Manuel de Oliveira, teve como complemento o maravilhoso desempenho dos Amadores de Tavarede.


O público soube premiar com justiça em calorosos aplausos o belo espectáculo de Arte que lhe foi oferecido.


O nosso “bouquet” de admiração a todos os Artistas Amadores de Tavarede, que de maneira superior se desempenharam da sua missão, o entregamos com o maior carinho nas mãos da gentil menina Maria Alice da Silva Mendes, que no seu papel da jovem D. Maria de Noronha ultrapassou toda a nossa espectativa.


Maria Alice simbolisa bem aquela Escola da Arte de Talma, que a singela aldeia tavaredense, na pessoa do sr. José da Silva Ribeiro mantém com justificado orgulho.


Para todos, sem distinção, os nossos Parabéns. (Notícias da Figueira – 12.08)

1952

JORNAL MAGAZINE DA MULHER

No nº. 15 do “Jornal Magazine da Mulher”, formosa publicação cujos sumários são sempre excelentemente confeccionados, dando-lhe um cunho de beleza e distinção, vem uma honrosa referência aos amadores de Tavarede, a propósito da representação da fantasia “Chá de Limonete”, dizendo:


“UMA OBRA QUE DIGNIFICA.
EM TAVAREDE, MODESTA ALDEIA DA BEIRA, ENSINA-SE TEATRO.


Para quem descreia da existência dum fogo sagrado, constante e generoso que lute através de todas as contigências e de todas as dificuldades por uma ideia digna e firme do verdadeiro sentido da Arte teatral, ponha os olhos e o cérebro em Tavarede, terra pobre, perdida na Beira pobre.


Esse agregado beirão tem uma associação cultural e receativa, a Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 1904 e desde essa data lançada na maravilhosa missão de cultivar e difundir a cultura dos seus próprios associados.


Chega a pasmar como é possível manter-se uma obra duma projecção tão elevada e tão nobre num meio insuficiente, cheio de asperezas da sua condição geográfica e humana.


Desde há trinta anos que um homem de tenacidade e têmpera fora do vulgar, José da Silva Ribeiro, mantém um grupo cénico, na referida Sociedade. Esse grupo, com um reportório vastíssimo do qual indicamos, como representativos exemplos do critério de selecção “A Nossa Casa” de George Mitchel, “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, os Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” de Gil Vicente, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler, “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça, esse Grupo, repetimos, vem cumprindo tenazmente e com sacrifícios de vária ordem o programa do seu entusiástico orientador. Como a aldeia é pequena bem poucas são as famílias que não têm representação no agrupamento de amadores. E assim a ideia nascida num momento inspirado de amor pelos outros foi-se inveterando no espírito daqueles trabalhadores do campo e das oficinas, aqueles rapazes e raparigas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros que ao cair da noite, de corpo cansado pelo trabalho, vão alimentar o espírito nos ensaios deste admirável núcleo teatral. E dizemos alimentar o espírito porque eles não se limitam a decorar as deixas dos seus “papéis” e recitá-los no momento oportuno com maior ou menor ênfase. Procura José da Silva Ribeiro que eles não sejam “fantoches para divertir o público”, como tão bem nos transmite no prefácio duma sua peça ali já representada, mas que “tomem a consciência das respectivas personagens dos sentimentos que lhe vão na alma, das ideias que as determinam, da época em que viveu, do ambiente em que se movem”. E assim, o grupo cénico tem uma actividade misturada de disciplina escolar e de prazer de passatempo. Suponhamos que foi escolhido para uma próxima apresentação o “Auto da Barca do Inferno”. À assembleia de actores amadores, ávida de conhecimentos, será exposta a obra vicentina, a época em que viveu o fundador do teatro português, a paisagem humana e social da corte de D. Manuel e de D. João III. Procurar-se-á na bibliografia correspondente o auxílio para uma melhor compreensão. E durante os ensaios os comparsas do auto não terão unicamente a preocupação de assimilar o contexto. Há sim uma posição inteligente e culta perante o problema que os seus lábios, os seus gestos e a sua expressão irão desenrolar no palco da aldeia.


Tudo isto é conseguido em tom de palestra, à medida que as peças vão sendo ensaiadas, sem ar de lição que decerto se tornaria insuportável para aqueles homens e mulheres de corpo cansado pelo trabalho mas de alma iluminada pela luz duma arte bem compreendida e ainda melhor ensinada.


De vez em quando são organizados programas de carácter acentuadamente cultural. Como exemplo, um programa já realizado com muito êxito e denominado “Noite do Teatro Português”: I Parte – teatro hierático – Auto da Barca do Inferno; II Parte – teatro romântico – 2º. acto da Morgadinha de Valflor; III Parte – teatro realista – 3º. acto de “Entre Giestas”.


Estas peças quando representadas no teatrinho da Sede obtêm receitas insignificantes que raramente pagam as despesas. E o Grupo, depois de apresentadas aos sócios, leva-as à Figueira da Foz procurando assim obter receitas que cubram as despesas de montagem.


É uma luta constante, uma luta nobre e velha de trinta anos.

A aldeia de Tavarede tem uma obra que dignifica não só os seus conterrâneos como o mundo teatral português. Uma Obra que se traduz só em representações conscientes de verdadeiro Teatro como em palestras culturais e educativas feitas pelo director cénico.


Já foram abordados assuntos de interesse fundamental na cultura da arte de representar. As origens e evolução do Teatro (o teatro grego, em Roma, o drama religioso da Idade Média, a Renascença), o Teatro Português, as Trilogias Dramáticas (a trilogia ligada de Ésquilo – Oréstia, a Trilogia das Barcas de Gil Vicente, a Trilogia de O’Neill “Electra e os Fantasmas”) a Imortalidade do Teatro, tudo foi descrito em dissertações simples, acessíveis ao meio e sempre acolhidas com entusiasmo que dá vontade de continuar, feliz e convicto de que quando se quer Teatro não é necessário muito dinheiro, muito público e muita cultura. É necessário, sim, defender e criar nos outros a convicção de que o espírito precisa de Teatro como alimento e não como pura distracção. E só assim se pode conseguir esse maravilhoso milagre teatral de Tavarede, lição puríssima e desassombrada da Arte pela Cultura dos povos.


Ainda há pouco no teatrinho da SIT subiu à cena uma fantasia em três actos e 24 quadros de José da Silva Ribeiro, com música de António Simões, denominada “Chá de Limonete”. Essa fantasia que é a história singela da aldeia desde a sua fundação até aos nossos dias, foi montada a preceito, com cenários e guarda-roupa inteiramente novos; num esforço gigantesco que testemunha a vontade indómita e o admirável caminho seguido pelos amadores de Tavarede. Num livro de excelente apresentação gráfica e fotográfica do acontecimento, tivemos o prazer de constatar até que ponto o amor pelas coisas teatrais está espalhado naquele rincão da Beira. E comparando com o que por cá se passa, fazendo a proporção entre as centenas de Tavarede e os muitos milhares de Lisboa fica-nos no cérebro o clarão duma Obra que dignifica, reconhecida não só pelo seu público como por diversas associações humanitárias por ela protegidas em diversas representações de beneficência.


E nós, como verdadeiros amantes do verdadeiro Teatro, daqui dizemos, orgulhosos em ajudar a transmitir a sua mensagem: operários e modistas, cavadores e ceifeiras de Tavarede, homens e mulheres dessa aldeia, reduto duma Arte Eterna, obrigado! (Notícias da Figueira – 01.12)

OS AMADORES DE TAVAREDE, EM LEIRIA

Transcrevemos do nosso estimado colega “Região de Leiria” algumas passagens da narrativa do espectáculo, excelente crítica ao trabalho dos amadores de Tavarede, que na linda cidade do Liz obtiveram mais um ponto para a sua gloriosa classificação:


“Assistiu Leiria, na passada sexta-feira, 11 do corrente, a um magnífico espectáculo teatral que o Grupo de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense veio dar ao Teatro de D. Maria Pia, em récita promovida pelo seu congénere desta cidade (G. T. “Miguel Leitão”), cuja receita foi entregue ao Jardim-Escola João de Deus.


..................
Às 9 horas e meia (precisas, como é louvável hábito do Grupo de Tavarede) iniciou-se a representação, no palco do nosso Teatro, da peça rústica de Manuel Frederico Pressler, Horizonte, cujo desempenho foi unanimemente considerado dos mais brilhantes a que se tem assistido no nosso Teatro.


Encenada superiormente por José da Silva Ribeiro, sentem-se os efeitos da sua competência técnica, da sua extraordinária sensibilidade artística e da sua cultura teatral. É, sem dúvida, o trabalho de um mestre, servido por bons, disciplinados e maleáveis discípulos.


A peça, com um 1º. acto leve deixando que as personagens se exponham largamente, é vigorosa na construção, que atinge no 2º. acto o seu “màximum”, para voltar no 3º. a mostrar-nos o pitoresco das gentes ribatejanas, mas sem que o conflito se esbata, antes trazendo-o suspenso e presente até à inopinada “explosão” final.


É uma peça que faz vibrar intensamente o público, no seu 2º. acto, e recorta nos restantes curiosas e pitorescas figuras da nossa lezíria.


No papel de “Rita”, dramática figura de mulher voluntariosa, decidida e sonhadora, D. Violinda Medina e Silva foi inexcedível. O público, arrebatado, interrompeu-a no final da violenta cena do 2º. acto para a premiar com uma calorosa e prolongada salva de palmas. Poderíamos apontar-lhe o que, a nossos olhos, será um insignificante senão, mas que a perfeição do seu trabalho em toda a peça não pode consentir – pareceu-nos usar de excesso de sorriso na aceitação da corte que lhe faz “Chico Borrego”. Perdoar-nos-á se dissermos que ali foge um pouco para ambiente de “opereta”. Mas todo o seu esplêndido actuar ao longo da peça nos deixou, como já havia acontecido com o seu papel de “D. Madalena” de “Frei Luis de Sousa”, absolutamente encantados. É, sem dúvida, um talento dramático excepcional.


No papel de “Manuel Firmino” brilhou outra destacada figura do Grupo de Tavarede, João Cascão, que desenhou, principalmente nos 2º. e 3º. actos, um esplêndido tipo de homem do campo, característico daquela região. Deu soberba réplica a “Rita” no 2º. acto, mas foi prazer vê-lo no 3º., pitoresco, naturalíssimo, vivo e humano. Aquela pequena figura do “Manuel Firmino” encheu toda a “cena do jantar! O seu 1º. acto foi menos natural, à procura da altura a que costuma pairar... Belo actor, assim foi o julgamento do público.


Destacaremos ainda dos intérpretes: D. Maria Teresa de Oliveira, equilibrada como raros na “Ludovina”, de apreciável sobriedade e dramatismo ao longo da sua intervenção, sobretudo nas cenas do 2º. acto, com “Rita”.


Não queremos deixar de apontar a cena com João Cascão, também no 2º. acto, em que este foi primoroso, resultando num dos melhores momentos da peça.


António Jorge da Silva foi igualmente brilhante no “Zé Bicho”, mas no 3º. acto. Natural, perfeito, deu-nos um “bêbado” não diremos equilibrado (o que era difícil), mas justo. O público atentou nele e boa parte dos aplausos finais foram-lhe destinados.


“Rosa” e “Chico Borrego”, conquanto correctos, não têm inquestionavelmente nesta peça os seus melhores trabalhos.


Os amadores que desempenharam tais papéis, sabêmo-los dos mais valiosos elementos do “Tavarede”, mas a intérprete de “Rosa” não se esqueceu da sua própria pessoa, em prejuízo da sua personagem, e do “Borrego”, declamando bem, movendo-se com desenvoltura, sofreu as consequências de um papel, como soi dizer-se, ingrato, de uma personagem cuja intervenção na peça é mais “romântica” que natural.


O grupo de “velhos”, formidável de observação, de pormenor, de naturalidade – a cena de abertura do 2º. acto é magistral!


À passagem do touro tresmalhado, vacas, cavalos e campinos, tudo se adivinha por detrás do muro que nos encobre o primor de técnica que José Ribeiro usou para tal.


A suavidade daquela madrugada da abertura do 1º. acto, com a passarada e os galos a cantar, encantou-nos.


Todas as cenas estão tratadas com saber e representadas com mestria, num conjunto harmónico e sem desnível, além do que resulta da maior evidência de alguns papéis e da maior capacidade interpretativa de certos elementos, o que é notório.


Sente-se que há ali mão segura o ordenar todo aquele movimento, que atinge por vezes proporções respeitáveis, como na cena da festa de casamento, com dezenas de figuras actuando naturalmente, vibrantemente, mas sem choque, ordenadas, em resumo – bem!


Os cenários, de artista, como o é Rogério Reynaud, criando o ambiente.


Que mais havemos de dizer?


Ouvimos alguém dizer que o público de Leiria tinha acabado de receber uma “lição de teatro”! Foi sem dúvida uma esplêndida noite que oxalá as nossas companhias profissionais nos pudessem repetir mais vezes do que vem acontecendo há longos anos...”. (Notícias da Figueira – 02.09)


TEATRO, EM LEIRIA

O aplaudido grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, foi, mais uma vez, apresentar-se no teatro de Leiria representando a emocionante peça “Raça” de Ruy Correia Leite.


No nosso colega “Região de Leiria” vem a crítica teatral da acção do aplaudido grupo, que, com a devida vénia e com regosijo, passamos a subscrever:


“Assistiu Leiria, na passada 6ª. feira, 25 de Abril, a um novo espectáculo pelo reputado “Grupo de Tavarede”, tão nosso vizinho e que desconhecíamos tão completamente.


A peça representada agora foi “Raça”, de Ruy Correia Leite. Esta peça, que nos parecia apresentar maiores dificuldades de interpretação, de “creação”, aos artistas tavaredenses que a anteriormente apresentada entre nós (“Horizonte”), apesar de lhes termos visto representar “Frei Luis de Sousa”, cometimento de monta, mas em que a fixação dos tipos está definida, bastando – e não é pouco! – subir até eles, essa peça “Raça” teve um apreciável desempenho de conjunto e foi na maioria das suas personagens principais esplêndidamente representada, com uma nota de “magnífico” para o trabalho de D. Violinda Medina. De facto, artista reveste de tal personalidade, de tal verdade a sua personagem que dir-se-ia espalhar em sua volta um “fluido dramático” cuja força nos impressiona mesmo quando fica arredada dos primeiros planos da acção. Foi uma interpretação perfeita!


Depois João Cascão, cujo belíssimo trabalho foi subindo de acto para acto até nos dar um 3º. convincente, melhor que os anteriores, em que a interpretação do “Dr. Jerónimo de Castro” teve menos dignidade, com uma pincelada ou outra de “pictoresco” mesmo, embora tudo isto tão pouco perceptivelmente, que temo estar a ser injusto ou incorrecto para tão belo artista como é João Cascão.


O seu 3º. acto encantou-nos. Todos os estados de alma e os da “débacle” física nos foram dados com uma sobriedade digna e altamente emotiva. A presença dominadora de “Isabel de Fontelos” (D. Violinda Medina) sentia-se menos quando tinha em sua frente João Cascão, resultando um equilíbrio de representação sobremodo agradável. A cena de ambos no terceiro acto (2ª. cena), foi admirável de simplicidade, dando-nos toda a gama de sentimentos implícitos naquele momento dramático, em dois ou três “toques” sóbrios, num olhar, num gesto, numa atitude...


Gostámos muito também da “Vitória”, a velha criada, por D. Maria Teresa de Oliveira. Pitoresca, sem se deixar dominar pelo “fácil”, só desequilibrando a figura quando olha para o público, o que também lhe notáramos numa das peças anteriores. De resto, uma bem interpretada criada velha da nossa Província.


D. Maria Aurélia Ribeiro e Fernando Reis, desempenhando “Guidinha” e “Manuel Bernardo”, fiseram trabalho apreciável, ela, muito bem nas cenas amorosas, muito natural, muito convincente, mas estridente por vezes (poucas) noutras cenas de menos relevo teatral; ele, menos à vontade nas cenas de amor, bom nas cenas com “Zecas”, mas perdendo noutras cenas ao longo da peça, pelo tom declamatório de algumas suas falas, a linha característica da sua personagem: o homem que se fez por si, tenaz, seguro e “em guarda” (estes homens, quando falam, mesmo muito, não declamam em verso...). No entanto, sentimos bem quanto trabalho não representou o que nós vimos para F. Reis (ele perdoará as nossas observações!). No conjunto dos 3 actos teve uma presença correcta, marcando um “Manuel Bernardo” aceitável, o que a muitíssimos está vedado, teatro profissional, inclusivé.


A D. Maria Aurélia Ribeiro felicitamo-la: a sua “Guidinha” existiu no palco do “Maria Pia”, o que igualmente a tantas está vedado: dar vida, tornar reais, palpáveis, dar verdade às suas personagens.


D. Vitalina Lontro, curiosa na “Viscondessa”: duma comicidade, às vezes hesitante, mas sempre sóbria, elegante até. Merece felicitações especiais por ter conseguido dominar o quantas vezes indomável: o “fácil” da figura, e ainda por outros motivos que se prendem com a estrutura da sua personagem e a maneira como foi compreendida, quando teria sido tão natural interpretá-la de modo diverso.


“Zecas”, teve em João de Oliveira Júnior um intérprete forçado.


Não é papel para o seu temperamento e daí resultaram momentos menos bons no conjunto da peça. Trata-se, entretanto, dum belíssimo artista (e Leiria terá ocasião dentro em pouco de o verificar), mas não conseguiu dar-nos não só os elementos estruturais da psicologia da personagem, como ainda não pôde imprimir toda a respectiva personalidade aos momentos em que interveio. Dentro do que a sua voz, de doce modulação, lhe permitiu fazer, defendeu bem o encargo, mas foi vencido por vezes.


António Santos, no “Dr. Magalhães”, foi sem intenção levemente “caricato” mais do que a personagem podia admitir, mas aceitou-se e o conjunto permaneceu. Ajudou até certas cenas, com uma utilidade evidente.


António Paula Santos, muito correcto no pequeno papel de “Vilela”. Certíssimo.


Os restantes elementos: D. Maria da Conceição Santos e José Maria Cordeiro, bem, correctos, conscientes.


Bom cenário de Rogério Reynaud, nada ficando a dever a qualquer realização cenográfica dos palcos nacionais bem como a encenação, no tocante a arranjo de cena, mobiliário, etc.. Falam-nos da disparidade nos móveis: três estilos ao mesmo tempo ou coisa que o valha, mas é assunto que nos interessou somenos: não percebemos de móveis, nem percebemos porque interessarão a tal ponto numa sala que pelas suas condições especiais podia ter de tudo, desde, por herança, algumas arcas visigóticas até um maple com Dunlopillo!


A equipa de colaboradores de cena de José Ribeiro (o mestre de boas obras): ponto, contra-regra e maquinista, foi eficiente como sempre, mas anotamos uma menção especial para o primeiro. Os “cães” do início da peça estavam humanos, note o segundo.


E agora – José da Silva Ribeiro, cujo trabalho exaustivo de encenação lhe dá jus às mais vibrantes palavras de admiração, não tão brilhantes e expressivas certamente como as que proferiu no intervalo do 2º. para o 3º. acto”. (Miguel Franco).”


Também o jornal “A Voz do Domingo”, semanário de Leiria, se referiu ao espectáculo com a seguinte apreciação:


“......................
Nunca tinhamos tido ocasião de apreciar este conhecido grupo dramático, e à curiosidade natural dos que apreciam teatro, juntava-se a de ver “como se portaria” um grupo de amadores, numa peça já nossa conhecida através do palco de maior responsabilidade no país, o do Teatro Nacional de D. Maria II.


Confessamos gostosamente que excedeu toda a nossa espectativa!


A maneira como se apresentou, o à vontade de todos estes actores-amadores, fazem-nos esquecer esse “amadorismo” tão vulgar, e até desculpável, em realizações desta natureza.


A representação foi impecável, da parte de todos, mas não podemos deixar de destacar D. Violinda Medina e Silva, no papel de “D. Isabel Fontelos”, João Cascão no de “Doutor Jerónimo” e João de Oliveira Júnior no de “Zecas”, que nos parecem ter realizado interpretação dificilmente excedíveis.


Deve-se este êxito, em primeiro lugar ao requintado gosto do seu director, senhor José da Silva Ribeiro, cujo temperamento de artista consegue com segurança e rigorosa disciplina, um conjunto primoroso e harmónico, no qual nada é deixado ao acaso, e cada um ocupa o seu lugar plenamente, sem falsa timidez, e sem prejuizo dos outros.


Como público que somos, damos os parabens, e em nome dos pobrezinhos agradecemos aos dirigentes da L. I. C. de Leiria, e felicitamo-los pelo êxito da sua iniciativa que proporcionou à cidade uma representação de tão alto valor dramático”. (Notícias da Figueira – 05.17)

TEATRO PARA O POVO

A Sociedade de Instrução Tavaredense inicia uma digressão pelas diversas freguesias rurais do nosso concelho que é mais uma eloquente manifestação da sua actividade e uma afirmação brilhante da fidelidade ao seu programa de cultura pelo Teatro.


O Grupo de amadores tavaredense vai mostrar Gil Vicente ao povo do concelho da Figueira, representando-o nas sedes das diversas agremiações de recreio, mesmo daquelas situadas nas mais pequenas e humildes localidades – que a todas elas irá o grupo tavaredense.


Ao elaborar o seu programa de Teatro Português, a Sociedade de Instrução Tavaredense teve em consideração o facto de Gil Vicente ser inteiramente desconhecido, com talvez uma outra rara excepção, das populações a que se dirige. O espectáculo abre com uma palestra a preceder a representação de dois autos vicentinos, e fecha com uma peça de teatro contemporâneo.


Damos em seguida a programação:
I – 15 minutos de palestra sobre Gil Vicente – o seu tempo e a sua obra.
II – Representação do Auto da Barca do Inferno.
III – Representação do Auto da Mofina Mendes.
IV – A peça em 1 acto, de Ramada Curto, Três Gerações.


Esta digressão tem início amanhã, pelas Alhadas, seguindo-se nos domingos imediatos as outras povoações. Estão já marcados os dias para Brenha, Caceira e Quiaios. Depois, no mês de Julho. Serão visitadas as povoações de Vila Verde, Maiorca, Santana, etc..


Admirável exemplo que merece registo especial, o desta actividade da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense. (Notícias da Figueira – 05.31)

GIL VICENTE

Prossegue a tão simpática como invulgar actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense, no propósito de apresentar o seu programa de Teatro Português às populações rurais do concelho da Figueira.


Esta digressão começou no passado domingo, pelas Alhadas, e prossegue amanhã com a 2ª representação em Brenha, na sede da Troupe Recreativa Brenhense. Estão já marcados os dias para as visitas a Caceira, Quiaios e Vila Verde, continuando depois a digressão por outras freguesias.


O produto líquido de cada representação reverte integralmente a favor das colectividades em cuja sede se realize o espectáculo. Trata-se, porém, dum programa que obriga a despesas relativamente avultadas, visto que, além dos transportes do grupo cénico (34 pessoas) e do material de cena, há ainda o aluguer do guarda-roupa para os dois autos vicentinos, cabeleiras, etc., sendo de admitir que numa ou noutra localidade a visitar dada a sua pequena população e a pobreza do meio, a receita não chegará para as despesas: mas nem mesmo esta circunstância impedirá a visita dos tavaredenses, pois o “deficit” que se verificar será coberto pela Sociedade de Instrução Tavaredense.


Eis uma iniciativa digna de especial louvor. (Notícias da Figueira – 06.07)

1952.06.07 - ESPECTÁCULO NAS ALHADAS

Alhadas – Conforme demos notícia, teve lugar no domingo, 1 do corrente, um espectáculo em benefício do nosso Jardim-Escola, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.


A Direcção da Boa União cedeu do melhor agrado a sua casa, que se encheu de uma assistência selecta que sinceramente aplaudiu o magnífico Grupo que se exibiu de uma forma admirável.


O espectáculo abriu com a apresentação das crianças do Jardim-Escola, que se exibiram em danças e canto, acompanhadas a orgão pela digníssima Regente e auxiliada pela professora sua colega. A exibição das crianças agradou bastante e foram sempre muito aplaudidas pela assistência.


Seguiu-se uma magistral lição sobre o teatro de Gil Vicente, dada pelo Director do Grupo de Tavarede, nosso querido amigo José Ribeiro, que historiou a vida daquele grande poeta desde a apresentação das suas peças na côrte da excelsa Rainha D. Leonor até ao ponto em que elas foram proibidas de serem apresentadas em público.


A lição, que foi escutada em religioso silêncio, preparou a assistência menos culta a poder apreciar e perceber a representação dos autos que iam seguir-se. José Ribeiro foi, no final, delirantemente ovacionado, muito justamente, pois produziu uma lição daquelas que só ele sabe dar em conversa amena com o público que o escuta.


Seguiu-se a representação do “Auto da Barca do Inferno”, que teve por parte dos amadores-actores desempenho digno dos maiores aplausos, que de facto ouviram no final.


Vem, seguidamente, depois de curto intervalo, a representação do “Auto da Mofina Mendes”, um dos melhores que o iniciador do teatro português escreveu.


Este Auto, que tem alguma semelhança com os “Autos Pastoris” (Presépio), muito divulgados no nosso concelho, e que quase não há ninguém que não tenha visto representar, é de uma naturalidade, de uma singeleza, de uma ruralidade que impressiona.


Que beleza de teatro! O que de realidade encerra este Auto do Mestre Gil! Neste, como no da “Barca do Inferno”, o desempenho foi correctíssimo.


Fechou este inolvidável espectáculo com a representação da lindíssima e comovedora comédia do grande escritor teatral Ramada Curto – “Três Gerações” – que teve desempenho admirável por parte dos seus intérpretes, D. Violinda Medina e Silva, D. Maria Tereza de Oliveira, João Cascão, (da velha guarda) e as meninas Maria Aurélia Ribeiro e Lucídia Santos, estas quase estreantes, que representam como se fossem já velhas na arte de representar.


Que belo desempenho! Que magnífica lição! Que apresentação tão distinta! Que naturalidade! Muito bem. Assim é que se faz teatro!


Descido o pano, a assistência vibrando de entusiasmo, aclamou os distintos actores, fazendo chamada especial a José Ribeiro, o impulsionador do Teatro no nosso concelho, que, com certa comoção, agradeceu.


Subido, novamente, o pano, foi, por uma das crianças do Jardim-Escola, oferecido a José Ribeiro um lindo ramo de cravos, tendo, nesta altura, o Presidente da Comissão de Assistência do Jardim-Escola, agradecido, em breves palavras, o contributo material dado ao Jardim-Escola e ao prazer espiritual dado a quantos tiveram a felicidade de assistir a tão grandioso espectáculo.


Parabéns ao querido amigo José Ribeiro, e ao excelente grupo que dirige, pelo brilhantismo da sua representação.


Parabéns à Comissão de Assistência do Jardim-Escola pelo êxito obtido materialmente e pela sua acção no sentido de nos proporcionar uma tão agradável noite de Arte.


A Comissão de Assistência do Jardim-Escola das Alhadas, agradece, com muito reconhecimento, ao distinto grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e ao seu digníssimo director, exmo. sr. José da Silva Ribeiro, o inolvidável espectáculo que aqui vieram dar, em benefício desta Instituição, e que além do bom resultado material, constituiu um serão de bom Teatro e uma noite de Arte, que perdurará para sempre. (O Figueirense)

O GRUPO DE TAVAREDE EM LAVOS

No salão de festas do Sport Club de Lavos, teve lugar no passado domingo um explêndido espectáculo a que prestou o seu concurso a Sociedade de Instrução Tavaredense.


Foram representados o “Auto da Barca do Inferno” e o “Auto de Mofina Mendes”, de Gil Vicente e a comédia “Três Gerações”, de Ramada Curto.


Antes de começar o espectáculo, mestre José Ribeiro deu-nos, - como só ele sabe fazer, - e a título de breve explicação sobre o que se iria representar, uma magnífica lição sobre Gil Vicente e a sua obra.


Recebeu fartos aplausos.


Seguiu-se a representação das 3 peças que agradou em absoluto, como não podia deixar de ser.
No final foi feita uma chamada especial a José Ribeiro, a quem os associados do Sport, que enchiam completamente o salão, tributaram uma prolongada salva de palmas.


O presidente da colectividade, que se fazia acompanhar do 2º secretário da Direcção e de duas gentis meninas, subiram então ao palco para felicitar José Ribeiro, a quem ofertaram ramos de flores, bem como à grande amadora D. Violinda Medina e Silva.


Foi o que se pode chamar uma noite em cheio. E só é pena que espectáculos desta natureza se não possam repetir muitas vezes.


Que bom seria para todos nós se, periodicamente e em prasos curtos, nos fosse dada oportunidade de receber a visita do Grupo de Tavarede.


Iamo-nos cultivando quase sem dar por isso. Aprenderíamos melhor a conhecer a Arte, a Literatura e em resumo tudo o que existe de bom e que é genuinamente português. Mas, infelizmente, não acontece assim. Às aldeias só chega a voz do cinema ambulante que nos impinge, a maior parte das vezes, muitos abortos estrangeiros que nada nos cultivam e que apenas têm a virtude de nos ajudar a esquecer aquilo que nos pertence. (Notícias da Figueira – 08.02)