sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 6


Aprovação

Saibam quantos este instrumento de aprovação e ratificação deste testamento virem, como no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540 anos e aos nove dias do mês de Março do dito ano e no lugar de Tavarede, termo da vila de Montemor-o-Velho, e casas de morada de António Fernandes de Quadros, morador no dito lugar, jazendo ele, dito António Fernandes de Quadros, doente numa cama, com todo o seu sizo e entendimento cumprindo que lhe deu Nosso Senhor Deus, logo por ele António Fernandes foi tomado, da sua mão, este testamento cerrado e selado com sete selos e o deu a mim, tabelião, perante as testemunhas adiante nomeadas, dizendo ele, dito António Fernandes, que este era o seu testamento que ele tinha ordenado nestes dias e lho fizera um padre, o qual testamento ele tinha apurado por bom e lhe prazia que todo o conteúdo nele, se cumprisse e guardasse como se nele continha e o ratifica e aprova este testamento por ele assinado, e abaixo do seu sinal nenhuma cláusula achará e, portanto, tudo ratificava, e roga a mim, tabelião, que lhe fizesse este instrumento de aprovação e ratificação, por tanto lhe aprazia que este valesse e por assim ser; testemunhas que estão presentes Pedro de Azurara, clérigo de missa, morador em Montemor, e Lucas de Azevedo, e o bacharel Miguel Gomes, morador na dita vila, e António Nunes, filho de Manuel Nunes, de Lavos, e Álvaro Gonçalves e Cristovão Lopes e Gonçalo Pires, moradores no dito lugar, que assinarão com o dito António Fernandes e outros; e eu, João Manhos, tabelião público e judicial e notas na dita vila, pelo Mestre nosso Senhor, que este escrevi e de meu público sinal assinei que tal é.

- Lugar do selo do sinal público-.

Miguel Gomes, António Nunes, António Fernandes de Quadros, Cristóváo Lopes, um sinal de Álvaro Gonçalves, e uma cruz de Gonçalo Pires.

(Impõe-se uma nota: o testamento está datado de 8 de Maio de 1540 e a aprovação e ratificação com data de 9 de Março do mesmo ano Logo, um dos documentos terá indicado o mês errado, mas não sabemos, até agora, qual está correcto).

Adição de Itens

Disse mais António Fernandes que depois de ter seu testamento feito em sua consciência a seu parecer bem ordenado lhe acudia mais estas lembranças em as quaes aprovava e ratificava por bom a firme e valioso todo o conteúdo e mandado em seu testamento e também mandava que se cumprisse o seguinte: Disse que ele não declarava nenhuma coisa que lhe fizessem por sua alma assim no presente como aos outros oficio nem menos trintairos (?), nem missas nem outras algumas exéquias somente o deixava todo em Genebra de Azevedo sua mulher, por muita confiança que nela tem, e por o que ele faria ficando a semelhante carrego.

Disse que não mandava coisa nenhuma em sua sepultura, e cova na Igreja somente o deixava tudo em sua mulher e seu filho. Disse mais que quando Deus para si o quiser levar que o vistam no hábito de Cristo por ser da Ordem. Disse mais que sua vontade era vestirem dez pobres mais necessitados que aí houver entre os quais entrará Leonor Dias, que se vestirá de bodo e os outros serão os que Genebra de Azevedo ver que o hão mister. Disse que mandava que se pagassem todos os seus criados a cada um segundo seu serviço e tempo entre os quais declara a Thomé Pires, e mandava que dessem 20 cruzados a seus herdeiros. Disse que deixava para tutor e curador de seus filhos André de Quadros seu primo em quanto eles não forem de idade perfeita e disse que pagassem António Travassos o tempo que serviu e assim a todos os outros segundo o tempo e serviço que fizeram.

Mandava que se pagassem as dívidas que se acharem que devo, que claramente se mostrassem que as devi; porque não queria penar por o alheio nem menos tomar a minha mulher e filhos pesados a ninguém. Disse que lhe deviam muitas dívidas, e que as mais se achariam por conhecimento, e onde houvesse dúvidas ele lhe aprazia que fossem cridas as partes por seu juramento aquelas onde se não prezumisse jurariam falso. Disse que uma vaca se matára na Morraceira com um cão e que diziam que era de João Peres, e que depois disseram que era de Tomé Pires, que se soubesse cuja era, e que lhe pagassem.

Disse mais que ele tomára umas terras a Jorge Lourenço e a seus criados por lhe fazerem o que não deviam no Campo e as dera a Diogo de Amorim que mandava que lhas tornassem e dessem outras a Diogo de Amorim no campo que se agora tapa. Disse que ele devia de um escrito a Lucas Geraldo três cruzados manda que lhos pagassem e por aqui disse que havia seu testamento por acabado e queria que também se guardasse e cumprisse como nele é conteúdo, o qual foi feito aos nove dias do mês de Maio de 1540 = e também por ele assinado e por mim Pedro de Azurara = António Fernandes de Quadros = Petrus D’azurara =

Aprovação

Saibam quantos este instrumento de ratificação e aprovação destes itens e declarações que atrás fica virem, como no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540, e aos nove dias do mês de Maio do dito ano, em o lugar de Tavarede, termo da vila de Montemor-o-Velho, e casas de morada de António Fernandes de Quadros, estando ele numa cama muito doente, com todo seu sizo e entendimento, que lhe deu Nosso Senhor Deus: logo por ele, dito António Fernandes, foi dada a mim, tabelião, estes itens e declarações. - que atrás foram assinados perante as testemunhas adiante nomeadas, e disse que além do testamento que ele ora fizera e tinha feito, que eu tabelião agora fizera aprovação nas costas dele, ele fazia mais e aprovava estes itens e lhe aprazia que em tudo se cumprissem como se nelas contém mandados, fazendo em o dito testamento que eu, tabelião, agora fiz aprovação e por quanto a mim tabelião que nas costas destes itens lhe fizesse este instrumento de aprovação para se com o dito testamento cumprir, digo, testamento em tudo se cumprir, e portanto lho fez testemunhas que estão presentes Pero de Azurara, clérigo, e o bacharel Miguel Gomes, moradores na dita vila e António Nunes, filho de Manuel Nunes de Lavos e Lucas de Azevedo e Cristóvão Lopes, alfaiate, e Gonçalo Peres e Àlvaro Gonçalves, moradores no dito lugar, e assinou o dito António Fernandes nos ditos itens que atrás ficam ao pé deles e feitos e assinados por Pero de Azurara tabelião e as testemunhas deste instrumento são as da aprovação do dito testamento, e por tudo assim passar na verdade eu João Manhos tabelião público e judicial e notas na dita vila de Montemor-o-Velho e termos, por o Senhor Mestre Duque Nosso Senhor e Senhor da dita vila, que este instrumento fiz e de meu público sinal o assinei que tal é = Lugar do sinal público =.

Abertura

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540, aos 4 dias do mês de Julho do dito ano, no Couto de Tavarede, nas casas da morada de Genebra de Azevedo, mulher que foi de António Fernandes de Quadros, defunto que no dito dia faleceu, estando aí João Diz, juiz no presente ano no dito Couto, e bem assim estando aí Fernão Gomes, filho do dito António Fernandes e da dita Genebra de Azevedo e Pero de Azurara, clérigo de missa morador em Montemor, primo que foi do dito António Fernandes defunto, e logo por eles, Fernão Gomes e Pero d’Azurara, em nome da dita Genebra de Azevedo foi dito que o dito António Fernandes, seu pai, fizera antes de seu falecimento seu testamento cerrado com um instrumento de aprovação nas costas como de direito se requer e ele o podia fazer; e que por ele falecer naquele mesmo dia e ser necessário o dito testamento ser aberto para saber o que o que o dito defunto nele mandava para se cumprir e que porque eles não podiam fazer sem autoridade de justiça lhe pediam e requeriam que o mandasse abrir e depois de aberto o cumpriam como o defunto nele mandasse e lhe entregariam logo o dito testamento cerrado e selado com sete selos e outro mais pequeno de certos itens e declarações pegado com ele, os quais tinham cada um seu instrumento de aprovação nas costas e sendo assim feitos por o dito juiz ele presente os sobreditos e as testemunhas ao diante escritas mandou a mim escrivão que os abrisse e lesse, pelo qual logo presente todos os ditos testamentos ambos foram descozidos e lidos, e sendo lidos como dito é, o dito Fernão Gomes e Pero d’Azurara em seu nome e da dita Genebra de Azevedo sua Mãi, requereram que lhe fizesse um auto de como assim foram abertos por autoridade de justiça nas costas dele, digo nas costas dos tais testamentos, que são os que atrás ficam cozidos, mandou fazer este auto e os tornou a entregar ao dito Fernão Gomes para se cumprirem.

Testemunhas que estavam presentes: Tomé da Costa e António Diz, e Álvaro Gil e Pedro Anes, capitão, e Gonçalo Pires, tanoeiro, e Veríssimo Fernandes, vigário de Buarcos e Tavarede e o padre Frei António da Pederneira, frade do mosteiro de Santo António da Figueira: Eu Francisco Diz escrivão no dito Couto, que por mandado o dito juiz este escrevi no dito dia, mês e ano”.

Como se vê, uma das grandes preocupações de António Fernandes de Quadros, além da constituição do morgado, foi a protecção ao Convento de Santo António. Havia decidido que ali seria sepultado. Deve-se dizer que o edifício do convento e a igreja (capela) que lhe estava anexa, se encontravam construídos em terrenos doados pela Casa de Tavarede, assim como a respectiva cerca.

Resta-nos acrescentar que, contra o primeiro Senhor de Tavarede, cedo começaram os problemas jurídicos levantados pelo Cabido da Igreja de Santa Cruz de Coimbra, como legítimo donatário do Couto de S. Martinho de Tavarede, graças à doação feita por El-Rei D. Sancho I. Como já se disse, este fidalgo julgava-se no pleno direito de não pagar ‘terrádego’ pelas compras de terrenos que fazia. As demandas agravaram-se com os seus herdeiros e, na devida ocasião, procuraremos mencionar as mais importantes. A primeira data que temos sobre este tema é a de 15 de Julho de 1535, relativa a um ‘Auto de Inquirição de testemunhas, nomeadas por António Fernandes de Quadros, devido a uma sentença havida contra ele, por ter comprado várias terras em Tavarede sem licença do Cabido e sem pagar ‘terrádego’.

Não se pode acabar este capítulo sobre o fundador da Casa de Tavarede sem escrever alguma coisa sobre os célebres “fornos da poia”. Julga-se que terão tido início cerca de 1440, tendo por base um contrato celebrado entre os moradores no Couto de Tavarede e Martim Ripote, escudeiro do Infante D. Pedro, e no qual se referia que este “fazia um forno em que todos pudessem cozer o seu pão, com a condição de não haver qualquer outro forno ou fornalha na terra”.

É interessante o facto de, tendo havido alguns infractores a este contrato, foi levantado um auto contra os mesmos, tendo a pena, sentenciada pelo ouvidor geral da Sé de Coimbra, sido estabelecida em 50 reis, pela primeira infracção, 100 reis pela segunda e 200 reis pela terceira, revertendo metade da multa para o autor e outra metade para a Câmara local. Passou, depois, a posse do forno para sua filha, Branca Rodrigues, que casou com Miguel da Peneda. Anos depois foi adquirido por João Tobim, tendo mais tarde sido comprado, julga-se que por Fernão Gomes de Quadros e integrados na herança de seu filho primogénito Aires Gomes de Quadros, sendo incluido na compra que António Fernandes de Quadros fez por morte daquele seu irmão.

Passou a ser considerado como um imposto, aliás bastante vexatório para os povos da terra, pois estes passaram a não poderem cozer em suas casas o seu pão, nem as suas carnes, nem, sequer, “pois se até as tristes peras que o vento atirou ao chão, verdes que nem o porco as quer, para as podermos comer temos de as trazer ao forno da poia!”, escreveu Mestre José Ribeiro, no quadro ‘Forno da Poia’, em ‘Chá de Limonete’.

Chegaram, os fidalgos de Tavarede, a mandarem os seus criados invadirem as casas onde suspeitavam haver algum forno clandestino, para os destruirem e, algumas vezes, desancarem os pobres moradores…

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 30

1960.01.20 - TEATRO EM TAVAREDE (REPÚBLICA)

Durante a já nossa longa vida temos visto muito teatro. Temos presenciado os mais variados géneros de espectáculo. Desde a alta comédia (género de que mais gostamos) à comédia burlesca, drama, revista, fantasias musicadas, etc., de tudo temos visto e pelos maiores artistas. Sabemos avaliar, pois, sem vaidade o dizemos, o bom e o mau teatro.

Sempre que vemos no palco um artista de valor a desempenhar com agrado o papel, sentimo-nos satisfeitos; mas quando acontece o contrário partilhamos da mágoa que inferioriza o actor.

Estas palavras servem como de explicação à notícia que vamos desenvolver pelo que vimos em Tavarede interpretado pelo extraordinário grupo de amadores dramáticos da prestimosa Sociedade de Instrução Tavaredense.

Com uma só palavra traduziremos a nossa admiração pelo que nos foi dado observar, “colossal”.

Nunca vimos amadores a produzirem teatro de tanta categoria! Diremos mais: companhias de profissionais temos visto fazer teatro muitas vezes inferior ao que nos foi dado presenciar agora em Tavarede.

Com a peça em 3 actos “As árvores morrem de pé” que havíamos já visto no Nacional, e em que a grande Palmira Bastos desempenhava o papel de avó, festejou o seu 56º aniversário esta Sociedade de tão alto valor educativo.

Para se fazer uma ideia de quanto vale numa pequena povoação rural esta incomparável colectividade basta dizer que logo à entrada do edifício onde tem a sede se encontra afixada uma lápida com a seguinte legenda: “Instruir é construir”.

Mas não é só ao teatro que esta prestimosa colectividade se dedica. Mantém de igual modo, um grupo musical de agrado certo e uma biblioteca assaz frequentada.

“As árvores morrem de pé” de Alexandre Casona, na tradução de Acúrcio Pereira, encontrou no grupo dramático que a representou agora, uma exibição de grande classe, ultrapassando todas as nossas previsões.

A srª D. Violinda Medina, na “Avó”, podemos afirmá-lo, se a própria Palmira Bastos a visse neste papel a felicitaria pela maneira como o encarnou e o soube desempenhar. Em que grande artista dramática esta simples amadora se transformaria se seguisse o teatro como profissão!

Com um à vontade inalterável, dicção perfeita, jogo fisionómico sempre adequado às frases, pisando e gesticulando como se uma avó velhinha propriamente já fosse, fez-nos pensar que estávamos à frente de uma avó que não era desempenhada por uma simples amadora mas sim por uma profissional categorizada.

Bravo srª D. Violinda Medina da Silva, os nossos parabéns.

D. Maria Isabel Reis, nos papéis de Marta-Isabel, é inconfundível. Disseram-nos que esta amadora tem apenas 15 anos de idade, o que mais nos surpreende, ainda, dada a forma como desempenhou este duplo papel de fases bem difíceis e que ela venceu perfeitamente.

Quem habituado a ver teatro não ficará surpreendido pela forma como Isabel Reis venceu os transes difíceis da “Isabel”? Teve intensidade dramática suficiente, sem exageros nem quebras naquelas cenas em que interpretava quer com a avó quer com o pseudo-marido.

Estamos convencidos de que se Maria Isabel Reis seguisse a vida de teatro, enfileiraria dentro em breve no número das ingénuas dramáticas de grande valor artístico.

O desempenho foi tão certo e tão harmónico que eleva o conjunto a um tal plano que muitas vezes se não verifica em muitos elencos profissionais.

Do elenco masculino os que mais nos impressionram, certamente porque a responsabilidade dos papéis a isso os forçou, foram Fernndo Reis, no “Maurício” e António Jorge da Silva no avô “Fernando Balboa”. Principalmente o primeiro em alguns transes difíceis em que o papel o obrigava, houve-se com o mérito de um verdadeiro profissional.

Maria Dias Pereira, na “Helena”, e Maria Teresa de Oliveira em “Genoveva”, foram perfeitas, absolutamente correctas na missão de que se incumbiram.

Os demais intérpretes desta peça ainda no número de sete, saíram-se todos admiravelmente.

Resta-nos fazer a nós próprios as seguintes perguntas: - Como é possível em Tavarede fazer-se teatro desta categoria? É isto devido à elevada instrução dos componentes do grupo? Será porque os seus componentes, não tendo outros afazeres, se dedicam exclusivamente ao teatro para entreter as horas de ócio? Não, não é nenhuma destas razões que transformam o grupo de amadores dramáticos de Tavarede no mais completo, no mais homogéneo, no mais artístico grupo de amadores que temos visto representar.

A razão máxima porque saímos daquela pequeníssima sala de espectáculos encantados, assombrados, consiste no facto do mestre deste excelente grupo de amadores dramáticos ser José Ribeiro.

Quem conhece o seu valor como nos foi descrito por pessoas que com ele desde há muito tratam; a sua paixão pelas lides do palco; o seu espírito de sacrifício e carolice, compreende então que o grupo dramático desta prestimosa, tão prestimosa como educadora colectividade, pode fazer o que faz e como faz, devido ao grande valor pedagógico do seu mestre que, além de tudo o mais, sabe muito de teatro.

Transformar camponeses, trabalhadores de oficinas, costureiras ou domésticas num grupo de tão grande valor cénico, só o pode conseguir um homem superior que, como este, vem desde há algumas dezenas de anos dando o melhor do seu esforço, com o maior sacrifício da sua vida e interesses em prol da educação popular, o que lhe deveria dar juz a ser compensado e recompensado pelo triunfo da causa a que se dedicou e pela qual vem desde há muito batalhando com extraordinário êxito.

1960.04.09 - A SIT EM TORRES NOVAS (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Constituíu um verdadeiro êxito artístico a representação do “Frei Luís de Sousa” naquela localidade.

O público, que seguiu com invulgar interesse todo o espectáculo, aplaudiu com muito entusiasmo nos finais dos actos, mas especialmente no fim da peça, que ovacionou demoradamente e de pé, pedindo a presença do ensaiador, sr. José da Silva Ribeiro.

Apesar de sermos tavaredenses, não temos relutância em afirmar, que “Frei Luís de Sousa” atingiu um nível de representação dificil de igualar.Os amadores sentem-se completamente à vontade e vão para o palco, nesta peça, sem qualquer nervosismo, razão porque todos parecem verdadeiros artistas, numa peça dificílima, que exige um elenco experimentado, muito igual, para que a representação não fraqueje nem caia no ridículo.

É uma peça que poucos grupos de amadores representam devido às grandes exigências da montagem, equilíbrio de valores de todos os figurantes, assim como um ensaiador fora de série.

Como tinhamos anunciado, o espectáculo reverteu a favor do Jardim-Escola que naquela vila foi inaugurado no passado dia 3, com a assistência de S. Exas. o sr. Ministro das Obras Públicas e do Subsecretário da Educação Nacional.

Antes de começar o espectáculo disse algumas palavras a propósito da visita do grupo cénico da SIT, o sr. Engenheiro João Pedro das Neves Clara, deputado da Nação.

E com aquela facilidade de palavra que lhe conhecemos e num improviso empolgante, falou a seguir sobre a vida e função dos Jardins-Escolas o sr. José da Silva Ribeiro. Obteve, como «é de prever”, uma ovação extraordinária, já pelos recursos invulgares da sua oratória como ainda pelo assunto versado em que ele está como peixe dentro de água.

No final do espectáculo foi dado a todo o grupo e acompanhantes um delicioso e abundante “copo de água”, agradecendo em nome da Comissão Pró-Torres Novas o sr. Luís Marques Galamba, retribuindo em nome da SIT o director do grupo cénico.

Que a Sociedade de Instrução Tavaredense continue na sua cruzada de Bem-Fazer, são os nossos votos.

1960.04.09 - A SIT EM TOMAR (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Estamos convencidos de que a Figueira da Foz e as suas entidades oficiais não se apercebem da actividade quase permanente, do grupo cénico da SIT, e da propaganda que resulta da sua actividade artística nas diversas cidades e vilas por onde actua, com uma regularidade talvez única no país.

Por toda a parte se fala no grupo dramático de Tavarede, e, logicamente, da Figueira da Foz. É um verdadeiro cartaz de propaganda – da nossa terra o maior de todos e em todos os tempos – que há 50 anos canta o nome de Tavarede e da Figueira, e que nós, os tavaredenses, mais do que ninguém sentimos quando o grupo se desloca a qualquer parte.

Nas recepções -, algumas extraordinárias, em que quase uma cidade inteira (o caso de Tomar, já por duas vezes), se manifesta em peso com a sua população, filarmónicas, entidades oficiais, formando formidável cortejo pelas ruas principais, ornamentadas com lindíssimas colgaduras, - é que nós avaliamos a consideração que dispensam ao nosso grupo cénico e a propaganda que isso representa para a Figueira e para Tavarede.

Foi uma vez mais a Tomar o grupo cénico da SIT, e uma vez mais foi recebido duma forma que prendeu e cativou todas as pessoas que fazem parte da secção dramática, assim como dos seus acompanhantes.

Numa camioneta de 42 lugares, o grupo cénico, acompanhado de alguns sócios e famílias, saíu pelas 9 horas da manhã de domingo, 24, num magnífico autocarro. Parou-se em Leiria, Batalha e em Fátima, onde se almoçou num lugar aprazível, seguindo-se depois para Tomar com chegada às 13,30 horas. Na sede da Comissão de Turismo foi o grupo recebido com todas as honras, proferindo um breve mas sentido discurso o Exmo. Sr. Tenente Alves de Sousa, vice-presidente da Câmara Municipal de Tomar, que naquele lugar se encontrava a representar o respectivo presidente, conforme o mesmo senhor afirmou.

Agradeceu o director do grupo cénico, sr. José da Silva Ribeiro, a quem Tomar já conhece há muitos anos e por quem tem grande admiração. Os seus discursos são sempre ouvidos e aplaudidos com vibrantes aplausos, devido à sua fluente e empolgante oratória. A todas as pessoas foram distribuidas plaquetes de propaganda da bela e histórica cidade.

À noite realizou-se o anunciado espectáculo com As Árvores Morrem de Pé, que, como já aqui dissemos, reverteu a favor do Jardim-Escola João de Deus. A representação decorreu por forma a justificar os calorosos aplausos do público que enchia totalmente o belo teatro, interrompendo a representação no terceiro acto com uma calorosa salva de palmas.

No intervalo do segundo acto, o sr. dr. Ângelo Tamagnini, da Comissão de Assistência do J. E. de Tomar, agradeceu a presença do grupo da SIT, - mais uma vez naquela cidade, - e a todas as pessoas que organizaram aquele espectáculo.

Seguiu-se-lhe o sr. dr. Jaime Lopes Dias, Presidente da Assembleia Geral da Associação de Jardins-Escolas João de Deus, de Lisboa, que propositadamente veio da capital. Depois de várias considerações acerca da função dos Jardins-Escolas, e do seu fundador, e ainda de seu filho, dr. João de Deus Ramos, a quem teceu rasgados elogios, fez um apelo a todos os tomarenses no sentido de apoiarem e facilitarem a vida do seu Jardim-Escola.

Mais uma vez José Ribeiro teve de agradecer as amáveis palavras que os dois oradores tiveram para com o grupo dramático e para com ele próprio, e fê-lo num dos seus mais poéticos e vibrantes improvisos que tem feito naquela terra. Duas criancinhas do Jardim-Escola entregaram a José Ribeiro e dr. Jaime Lopes Dias, lindíssimos ramos de flores.

No final foi servido um magnífico copo de água a todo o grupo e acompanhantes.

Depois de uma esplêndida viagem, a camioneta chegou a Tavarede às 4,30 horas da madrugada.

E não param as jornadas de Bem-Fazer – da Sociedade de Instrução Tavaredense...

1960.06.04 - SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Conforme aqui anunciámos, realizou-se no passado sábado, 28, um espectáculo com as peças O Beijo do Infante e O Dia Seguinte.

Talvez porque se tratava de duas estreias, o público acorreu por forma a justificar uma casa completamente à cunha. As representações foram esplêndidas, agradando, sobremaneira, O Dia Seguinte, principalmente pela magnífica actuação de Maria Isabel Reis, que tem nesta peça a melhor interpretação da sua carreira de amadora. O público fez-lhe justiça interrompendo a representação numa cena em que ela brilhou a grande altura.

A peça é maravilhosa. Trata-se de uma peça moderna que Luís Francisco Rebelo urdiu duma forma invulgar e que o público aceitou sem reservas. O tema é inteligentemente tratado, com diálogos primorosos, parecendo real o que nos é apresentado como irreal, pois o assunto versado é um caso de todos os dias: a luta pela vida, com os seus horríveis quadros de miséria e de desemprego. Termina com uma violenta condenação ao suicídio, que é, afinal, o conceito da peça.

José Ribeiro fez previamente uma dissertação àcerca da representação preparando o público menos culto para a transcendência da peça. Cenário de belo efeito.

No final do espectáculo foram convidados a pisar pela última vez as tábuas do velho palco os amadores antigos e actuais, procedendo ao arranque da primeira tábua a amadora Violinda Medina e Silva, a quem foi entregue um lindíssimo ramo de flores, assim como a José Ribeiro. Durante esta cerimónia caíam sobre os amadores milhares de pétalas de rosas.

No dia imediato teve lugar o anunciado baile que decorreu animadíssimo até tarde, procedendo-se também às primeiras camarteladas nas velhas paredes.

O camartelo foi leiloado, cabendo a honra de iniciar a demolição à gentil filha da srª. D. Conceição Ferreira Sotto-Maior, pois foi esta senhora que ganhou o primeiro leilão.

1960.06.04 - FESTA DA DESPEDIDA (O FIGUEIRENSE)

José da Silva Ribeiro, o homem que pelas suas invulgares qualidades de carácter, superior inteligência e profundos conhecimentos da arte de Talma, em nosso entender, e sem a menor quebra de admiração pelos seus dedicados colaboradores, a Sociedade de Instrução Tavaredense, ou, por outra, Tavarede fica devendo a arrojada obra de transformação do seu teatro, antes de subir o pano disse da saudade da velha sala de espectáculos, recordando enternecidamente todos aqueles que há mais de 50 anos têm trabalhado para o prestígio da nossa colectividade, afirmando, em certa altura, que Tavarede devia aquele teatro ao benemérito João Costa e a sua ampliação à filantrópica Fundação Calouste Gulbenkian.

As peças escolhidas “O Beijo do Infante” e “O Dia Seguinte”, encerraram com chave de ouro o ciclo de representações ali efectuadas, por isso que a assistência, que enchia totalmente o velho teatro, se manifestou de maneira apoteótica.

Contudo, os louros da inesquecível noite foram, sem desprimor para os restantes amadores, para a simpática e talentosa amadora, Maria Isabel de Oliveira Reis, pelo magnífico desempenho no papel de Matilde, em “O Dia Seguinte”.

No final do espectáculo, o incansável Presidente da Direcção, sr. Marino de Freitas Ferraz, convidou todos os amadores da SIT, velhos e novos, a subir ao palco para, sobre as suas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e aborrecimentos imperecíveis passaram, assistir ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhe haviam proporcionado.

No domingo, houve um encontro de futebol entre as equipas da secção dramática e secção desportiva da SIT, cujo resultado foi um empate a 1 bola, após o que os jogadores e outros sócios se reuniram em lauta bacalhoada, que decorreu animadíssima.

À noite efectuou-se o baile, que teve a dar-lhe entusiasmo, o excelente conjunto “Satélites do Ritmo”, dessa cidade.

Foi um grande e inesquecível baile, que, estamos certos, há-de perdurar por largo tempo nos corações da mocidade radiosa.

1960.06.19 - O GRUPO CÉNICO EM VILA REAL (A VOZ DE TRÁS-OS-MONTES)

Conforme já havíamos anunciado, esteve entre nós, no passado dia 11, o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que levou à cena, no nosso Teatro Avenida, a peça do consagrado dramaturgo, D. João da Câmara, - “Os Velhos”.

Como o produto desta récita se destinava à Cantina da Sé, quiseram as humildes criancinhas, que ali recebem os seus benefícios, serem as primeiras a prestar as honras da Casa, a quem de tão longe aqui veio, apenas com o desejo de auxiliar esta cruzada de beneficência.

Satisfeito o pedido feito ao seu director, logo largaram em alegre debandada por esses campos ainda floridos, colhendo flores campesinas, humildes e pequeninas como as suas próprias pessoas, que depois lançaram, por entre vivas e palmas, sobre os componentes da Caravana de Tavarede, como preito da sua gratidão.

Mas, foi ainda mais longe o desejo de manifestarem o seu reconhecimento!

Cotizaram-se por entre todas: deixaram neste para elas tão grande dia, de saborear as guloseimas tão apetecidas nestas idades, para adquirirem uma série de minúsculos pucarinhos de barro que, depois de presos a um laçarote, colocaram na lapela dos visitantes seus amiguinhos. E isto para que levassem todos os tavaredenses a certeza de que, neste rincão serrano, ainda desabrocham as flores perfumadas da gratidão.

Foram-lhes seguidamente apresentados cumprimentos por alguns dos principais Amigos da Cantina da Sé, tendo em nome dos contemplados dito algumas palavras de agradecimento, na qualidade de seu director, o Padre Henrique Maria dos Santos, que na mesa de honra se encontrava ladeado pelos senhores Presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Engº Humberto Cardoso de Carvalho; Director artístico do Grupo Cénico de Tavarede, jornalista José da Silva Ribeiro; e Marino Ferraz, Presidente da Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Em nome dos visitantes, usou da palavra o jornalista José da Silva Ribeiro.

Finalmente, a récita, que tantos já ansiavam.

Antes de abrir o pano, no proscénio, o Dr. Otílio de Carvalho Figueiredo, falou-nos da obra da Cantina da Sé, produzindo uma boa lição sobre sociologia. A seguir, José da Silva Ribeiro, a quem um gaiato da Cantina, ofereceu um ramo de flores e uma lembrança, disse, e muito bem, algumas palavras acerca do seu agrupamento artístico e transmitiu-nos notas explicativas sobre a obra dramática de D. João da Câmara, e muito principalmente sobre a peça que ia representar-se.

Apoiado! O público necessita ser suficientemente elucidado sobre o trabalho que vai ver e muito mais, se o for, por informador daquela classe.

Apoiado José Ribeiro, e muito obrigado pelos conhecimentos que nos divulgou, quanto à obra de D. João da Câmara e sua interpretação.

A encenação a cargo do mesmo senhor José da Silva Ribeiro, verdadeira magia, traduziu com exactidão e realismo os sentimentos, expressão, identificação e temperamento do autor.

O público assim o compreendeu e aplaudiu com entusiasmo, o que raramente se verifica nas nossas plateias!

A nossa atenção e a nossa curiosidade estavam prezas ao movimento e dicção e não sabemos que mais admirar, se a competência do mise-en-cene, se a habilidade e o à-vontade dos intérpretes que souberam extraír e transmitir-nos tudo quanto de belo e profundo existe na obra de D. João da Câmara.

Sem exageros, podemos afirmar que uns conjuntos destes raramente se têm visto nesta cidade – e o de Tavarede conseguiu vencer e convencer todos os espectadores!

Todos os intérpretes estiveram à altura dos seus papéis, mas teremos no entanto de destacar Maria Isabel de Oliveira Reis, no papel da encantadora Emilinha; Violinda Medina e Silva, que foi magistral no papel de Avó; João da Silva Cascão, no Patacas, ultrapassou alguns profissionais; o Barbeiro da aldeia, sobretudo no 3º acto, e no decorrer da ceia, foi empolgante e fantástico.

Uma noite admirável, que muito gostaríamos se voltasse a repetir, porque há bastantes anos que não tinhamos ocasião de nos deliciarmos com umas tão boas horas de tão pura arte!

No dia seguinte, foi servido um almoço íntimo na sala do Refeitório Económico ao Grupo de Tavarede, a que assistiram, além dos colaboradores da Cantina, o Director do Semanário local “O Vilarealense” – senhor Heitor de Matos, que, aos brindes, saudou os visitantes e fez votos para que em breve os voltasse a ver por estas paragens.

O Revdº Padre Henrique secundando os votos do orador anterior, mais uma vez agradeceu aos visitantes o auxílio prestado à sua obra.

Em nome dos visitantes, José Ribeiro, orador fulgurante, produziu um brilhante discurso.

A caravana seguiu depois para Tavarede, tomando a estrada da Régua, para admirar, agora, o belo horrível das escarpas da região duriense, tendo sido até ali acompanhada pelos organizadores desta festa.

1960.06.23 - O GRUPO CÉNICO DA SIT EM TRAZ-OS-MONTES (A VOZ DA FIGUEIRA)

Constituíu mais um assinalável êxito, como era de prever, a deslocação do grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, a Amarante e a Vila Real de Traz-os-Montes, onde satisfazendo convites que lhe foram dirigidos, a sua arte foi, mais uma vez, posta ao serviço da beneficência.

Em breves linhas, vamos registar nas nossas colunas o honroso acolhimento que nas duas cidades aos nossos patrícios foi dispensado:

Em Amarante – À entrada da vila esperavam os visitantes a corporação dos Bombeiros, Filarmónica local, representantes das colectividades com os seus estandartes, a Comissão promotora do espectáculo, que era a favor do Hospital da Misericórdia, e muito povo. Formou-se um cortejo que percorreu várias ruas, e das janelas, donde pendiam colgaduras, foram lançadas flores.

No edifício da Câmara Municipal deu as boas-vindas o Vereador do pelouro da Cultura e Presidente da Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão.

À noite, no teatro, com a grande sala repleta de um público ordeiro e correcto, que aplaudiu calorosamente, fez a apresentação do grupo de Tavarede, num brilhantíssimo discurso, o ilustre advogado sr. Dr. Balbino de Carvalho, que é um grande amigo e admirador da Figueira.

A impressão deixada com a representação de “Os Velhos”, foi excelente.

No dia seguinte, os distintos figueirenses srs. Eng. António Gravato e sua Ex.ma Esposa, ofereceram aos visitantes, no belo parque florestal onde tem a sua residência, um almoço que foi motivo para que todos trouxessem de Amarante recordações inesquecíveis.

Em Vila Real – O espectáculo foi também com “Os Velhos”, a favor da instituição local “A Nossa Casa”, obra benemerente do Padre Henrique Maria dos Santos, que protege da fome para cima de 3 centenas de crianças.

À chegada houve na sede de “A Nossa Casa” uma breve sessão de boas-vindas. Ali se encontravam o sr. Presidente da Câmara de Vila Real, dr. Aristides de Figueiredo; o sr. Heitor Correia de Matos, director do jornal “O Vilarealense”; Aquiles de Almeida, entusiasta promotor desta visita dos tavaredenses a Vila Real; as senhoras da Conferência de S. Vicente de Paulo; muitas crianças que cobriram de flores os visitantes, à sua entrada; e outras pessoas de representação.

O discurso de boas-vindas foi proferido pelo sr. Padre Henrique, cujas palavras, cheias de beleza e bondade, deixaram em todos funda impressão.

No teatro, a apresentação do grupo foi feita pelo sr. Dr. Otílio de Carvalho Figueiredo. Nessa ocasião, uma das crianças da obra do Padre Henrique Maria dos Santos ofereceu à SIT, um jarrão – artística obra de faiança. Como em Amarante, o público de Vila Real, que enchia a enorme plateia do teatro, aplaudiu com extraordinário entusiasmo a representação de “Os Velhos”.

No dia seguinte, realizou-se um almoço de despedida, no qual falaram o sr. Padre Henrique, director do semanário católico “A Voz de Traz-os-Montes” e o director do “Vilarealense”, sr. Heitor de Matos, tendo agradecido o director do grupo cénico.

1960.06.25 - A SIT EM AMARANTE (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Já aqui temos dito que o grupo cénico da SIT é um autêntico cartaz de propaganda, não só de Tavarede como da Figueira, e mais uma vez se verificou isso mesmo nesta jornada de bem-fazer

Depois duma esplêndida viagem, com paragem em Aveiro e Porto, o grupo dramático foi recebido em Amarante estrondosamente. Aguardavam-no a filarmónica local, corpo de bombeiros, representações das colectividades locais com os seus estandartes, entidades oficiais, a comissão organizadora e muito povo.

Das janelas, onde se viam bonitas colgaduras, caíam flores sobre o enorme cortejo que seguiu pela rua principal até à Câmara, onde foram dadas as boas-vindas pelo Vereador do Pelouro da Cultura, sr. Engenheiro Alvelloz. Agradeceu o director do grupo sr. José da Silva Ribeiro.

Ao sr. Engenheiro António Gravato e sua Exma. Esposa, se deve a deslocação do grupo cénico. A este senhor se deve também o êxito do espectáculo, não só na parte material (a lotação foi excedida em mais de 200 pessoas), como na artística, pois tinham sido tomadas providências para que nada faltasse no arranjo de cena. A receita reverteu a favor do Hospital de Amarante.

Ainda a propósito de propaganda, diremos que no discurso de apresentação do nosso grupo aos espectadores feito pelo sr. Dr. Balbino de Carvalho, o nome da Figueira foi cantado bem alto, assim como alguns dos seus mais ilustres filhos, tais como Pedro Fernandes Tomás, Santos Rocha, Prof. Joaquim de Carvalho, João Gaspar Simões, etc., além das referências às belezas dessa cidade e da sua encantadora praia. Sabe bem ouvir estas coisas fora de casa...

Agradeceu e falou acerca da peça e do seu autor, o director do grupo.

O senhor Engenheiro Gravato, que foi duma gentileza sem igual, assim como sua esposa, ofereceu a todos os amadores e acompanhantes um lauto almoço no magnífico Parque Florestal. Servido à sombra de árvores frondosas e num ambiente verdadeiramente familiar – lá estavam seu sogro sr. Eduardo Ferreira e sua esposa – o almoço, com pratos escolhidos ao paladar figueirense, não podia ser melhor.

Foi depois desta magnífica refeição que o grupo seguiu para Vila Real com bastantes saudades.

O sr. Aquiles de Almeida, que foi o grande animador e principal obreiro da ida a esta cidade, apareceu no caminho ao encontro da camioneta. Orientou depois a marcha até Vila Real onde estava preparada uma curiosa recepção, formada, na maioria, pelos meninos e meninas de A Nossa Casa, para a qual se destinou a receita do espectáculo. Trata-se duma instituição presidida pelo sr Padre Henrique Maria dos Santos, que mantém uma cantina que mitiga a fome a mais de 300 crianças.

Foi na sede daquela benemérita casa que os amadores entraram debaixo duma verdadeira chuva de flores, atiradas por essas criancinhas, que foram dadas as boas-vindas pelo sr. Padre Henrique, o que lhe proporcionou um sentido e fluente improviso a que respondeu, agradecendo, o director do grupo cénico da SIT.

O espectáculo, à noite, com Os Velhos, foi das melhores representações obtidas com esta peça. O público aplaudiu delirantemente, pelo que se pode afirmar que a sua rebelde e exigente plateia ficou conquistada.

Antes de começar o espectáculo falaram os srs. Dr. Otílio Carvalho de Figueiredo e José da Silva Ribeiro, a quem foi entregue, - por uma criança da benemérita obra do sr. Padre Henrique – um artístico jarrão em faiança.

E no dia seguinte, depois do almoço, onde se trocaram brindes, a camioneta partiu a caminho de Tavarede tendo deixado e trazido as melhores impressões dessas duas terras encantadoras.

1960.07.02 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

Mais do que a falta de tempo de que actualmente podemos dispor, o nosso estado de saúde, como de costume, sobrepondo-se aos nossos desejos, não nos permitiu acompanhar o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, nos dias 10, 11 e 12 do corrente, nas suas jornadas de bem-fazer, desta vez a Amarante e Vila Real, facto que nos penalizou sobremaneira por não podermos viver, pessoalmente, as carinhosas e entusiásticas manifestações de simpatia e apreço de que foram alvo os nossos conterrâneos, naquelas importantes localidades nortenhas.

Mas nem por isso deixámos de acompanhar em espírito os briosos rapazes e simpáticas senhoras, que tão longe levaram o nome da nossa aldeia em missão cultural e beneficente, de sentir em nosso coração de tavaredenses o festivo ambiente que a todos rodeou.

E, assim, para que pudessemos registar em nossos “apontamentos”, informando os estimados leitores, da triunfal excursão tavaredense, pedimos a um nosso amigo, que a acompanhou, nos dissesse algo das suas impressões, pondo-se inteiramente à nossa disposição, gentileza que, além de nos cativar, reconhecidamente agradecemos.

Chegados a Amarante, à entrada da vila esperavam os visitantes a corporação dos Bombeiros, Filarmónica local, representantes das colectividades com seus estandartes, a Comissão promotora do espectáculo, que era a favor do Hospital da Misericórdia e muito povo. Formou-se um cortejo que percorreu várias ruas, e das janelas, donde pendiam colgaduras, foram lançadas flores.

No edifício da Câmara Municipal deu as boas vindas o Vereador do pelouro da Cultura e Presidente da Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão, tendo agradecido a carinhosa recepção dispensada o director do grupo cénico.

À noite, com a grande sala repleta dum público que aplaudiu calorosamente, fez a apresentação do grupo de Tavarede, num brilhantíssimo discurso, o ilustre advogado sr. dr. Balbino de Carvalho, que é um grande amigo e admirador da Figueira.

A impressão deixada com a representação de “Os Velhos” foi excelente.

Num dos intervalos foram oferecidos por simpáticas crianças, a José da Silva Ribeiro e às distintas amadoras D. Violinda Medina e Silva, menina Maria Isabel de Oliveira Reis, lindos ramos de flores, gentileza que muito os sensibilizou.

No dia seguinte, os tistintos figueirenses sr. Engenheiro António Gravato e sua esposa ofereceram aos visitantes, no belo parque florestal onde têm a sua residência, um almoço que foi motivo para que todos trouxessem de Amarante lembrança inesquecível.

Findo o almoço seguiram os nossos conterrâneos para Vila Real.

Nesta cidade o espectáculo realizado foi também com “Os Velhos”, a favor da instituição local “A Nossa Casa”, obra benemerente do Padre Henrique Maria dos Santos, que protege da fome para cima de 3 centenas de crianças.

À chegada houve na sede de “A Nossa Casa” uma breve sessão de boas vindas. Ali se encontravam o sr. Presidente da Câmara Municipal de Vila Real, o sr. Heitor Correia de Matos, director do jornal “O Vilarealense”; Aquiles de Almeida, entusiasta promotor desta visita dos tavaredenses a Vila Real; as senhoras da Conferência de S. Vicente de Paulo e muitas crianças, que cobriram de flores os visitantes à sua entrada; e outras pessoas de representação. O discurso de boas-vindas foi proferido pelo sr. Padre Henrique, cujas palavras, cheias de beleza e bondade, deixaram em todos funda impressão, tendo José Ribeiro, num vibrante discurso, agradecido as amáveis referências que o bondoso sacerdote acabara de dirigir ao grupo dramático que superiormente orienta.

No teatro, a apresentação do grupo foi feita pelo sr. dr. Otílio de Carvalho Figueiredo. Nessa ocasião, uma das crianças da obra do Padre Henrique Maria dos Santos ofereceu à SIT um jarrão que é uma artística obra de faiança. Como em Amarante, o público de Vila Real que enchia a enorme plateia do teatro aplaudiu com extraordinário entusiasmo a representação de “Os Velhos”.

As já numerosas crianças protegidas pelo Revdº Padre Henrique obsequiaram os visitantes, como lembrança da sua inesquecível digressão artística e beneficente, com miniaturas de louça regional.

No dia seguinte realizou-se um almoço de despedida, no qual falaram o sr. Padre Henrique Maria dos Santos e o Duirector do “Vilarealense”, sr. Heitor de Matos.

Ao agradecer, José Ribeiro, proferiu um brilhante improviso, cheio de ternura, em que a sua alma de eleição, dedicada aos pobres, deu largas aos seus sentimentos filantrópicos.

Comentava-se: nós, aqui na Serra, orgulhamo-nos de possuir águias, mas lá para as bandas da Figueira da Foz, nos choupos e salgueiros do ribeiro da pitoresca aldeia de Tavarede, também se criam extraordinários rouxinóis, que, pelas suas melodias e cantares, nos transportam, por momentos, às regiões do sonho.

À saída de Vila Real foram os nossos conterrâneos acompanhados até ao limite do concelho pelo Revdº Padre Henrique Maria dos Santos e outras distintas pessoas, que lhes prodigalizaram as maiores gentilezas.

As nossas felicitações ao grupo dramático da SIT por mais esta sua excursão que, sendo de arte e caridade, serviu, também, de pretexto para a melhor propaganda da sua e nossa ridente aldeia.

Bem hajam, pois.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 29

1959.04.18 - FREI LUÍS DE SOUSA, EM ALCOBAÇA (O ALCOA)


Bem andou o Círculo Alcobacense de Arte e Cultura ao trazer a Alcobaça o Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense que a todos proporcionou um espectáculo admirável e um nobre exemplo de solidariedade e sentido social, ao serviço da cultura popular.

Com manifesto agrado do público assistiu-se ao desenrolar do drama “Frei Luís de Sousa” que, estreado no Conservatório a 6 de Maio de 1843, foi desde então consagrado como obra prima do teatro nacional, coroa de glória do genial escritor. Embora ultrapassada a época do romantismo, este drama, quando bem interpretado, tem uma intuição de beleza poética que transforma a narrativa de Fr. António da Encarnação, num quadro de grande formosura.

O espectáculo foi apresentado pelo sr. Afonso da Cruz Franco, director do Círculo, que fez o elogio do sr. José da Silva Ribeiro, que tem dedicado a sua vida à cultura popular, e à obra gigantesca realizada desde 1904 pela Sociedade de Instrução Tavaredense. O sr. Silva Ribeiro, depois de agradecer os cumprimentos e as referências feitas, fez uma inteligente e agradável síntese da função cultural e educativa do teatro de amadores, que se projecta no bom gosto do povo e o recreia.

A representação teve muito nível e pasma-se como foi possível conseguir de amadores um conjunto tão uniforme de valores, que tem a valorizá-lo, com justo merecimento, a arte cenográfica de Manuel de Oliveira e a indumentária de Alberto Anahory. Bem merecem estes amadores uma parte descritiva de harmonia com o valor do grupo, cheio de talento e vocações.

Os principais papéis masculinos estiveram a cargo de João Cascão (Manuel de Sousa), Fernando Reis (Romeiro), António Jorge da Silva (Telmo Pais) e João de Oliveira Júnior (Frei Coutinho), que ouviram repetidos aplausos. Todos com boa dicção, sinceridade e sem maneirismos, revelaram fibra dramática. Necessariamente, pequenos pormenores distinguem o amador do profissional, mas seria descabido apontar um caso ou outro de maior excitação e duas entradas fora do tempo, prontamente disfarçadas, a revelar recursos. Na Arte, particularmente na poesia e no teatro, vivemos um somatório de impressões. Se o conjunto nos impressiona pela beleza das figuras, acorda sentimentos pela convicção, boa mímica e intuição artística dos personagens, atingiu-se o objectivo. Todo o jogo de cena teve acção própria e todos mostraram saber contracenar a tempo, sem excessos de atitudes, bem integrados nas personalidades respectivas. Fernando Reis, António da Silva e João de Oliveira Júnior foram mais regulares no decurso dos 3 actos, mas João Cascão teve momentos de grande intensidade dramática no 3º acto, mostrou possuir garra artística e intuição, que soube transmitir ao público.

Violinda Medina e Silva (Madalena de Vilhena) e Maria Isabel Reis (Maria de Noronha) foram duas grandes figuras que compreenderam a personalidade dos personagens, tiveram naturalidade e mostraram sentido dramático.

A marcação foi correcta e sem atrapalhações, cumprindo todos os restantes figurantes bem o seu papel, bem como o coro.

Todos os actos mereceram aplausos e no final o público, de pé, tributou uma vibrante salva de palmas a premiar a categoria dos artistas e o esforço cultural da Sociedade.

1959.05.13 - AS ÁRVORES MORREM DE PÉ (O DESPERTAR)

Para provável fecho da temporada teatral (supomos que será assim, pois dificilmente, dado o adiantado da época, alguma outra Companhia, profissional ou de amadores, virá ao Avenida), que este ano, aliás, foi verdadeiramente excepcional, o Grupo Cénico da SIT – o mesmo que a tinha iniciado brilhantemente com a representação de “Os Velhos”, de D. João da Câmara – veio apresentar, em benefício do Asilo da Infância Desvalida, a interessante peça de Alexandre Casona, “As Árvores Morrem de Pé”. A sala estava cheia, o que, não sendo de admirar – dado o prestimoso destino da receita e o justo cartaz que os Amadores de Tavarede possuem em Coimbra – é sempre para louvar, e o público palmeou com entusiasmo o bom trabalho que lhe foi apresentado.

Não é, agora, o momento oportuno para fazer apreciações à peça, por forma que vamos já, embora rapidamente, dizer o que nos parece dever salientar-se do trabalho dos Tavaredenses. E comecemos pelos intérpretes:

Violinda alardeou, uma vez mais, todas as suas enormes possibilidades histriónicas, defendendo com galhardia uns pequenos lapsos de memória.

Teresa foi uma excelente Genoveva, sendo, sem dúvida, entre os vários papéis que lhe temos visto desempenhar um dos que mais completamente nos agradou.

Maria Pereira foi uma eficiente secretária e Aurélia uma atrapalhada dactilógrafa como cremos que a peça exigia.

A criada Felícia foi dada por Maria de Lourdes com boa presença e desembaraço.

Nos homens Fernando Reis teve o grande osso da peça, não só pelo papel em si próprio como pela necessidade que teve de se rejuvenescer. Só a sua grande capacidade permitiu que vencesse brilhantemente tão numerosas dificuldades. Um reparo só: o braço esquerdo rigidamente caído quando da cena amorosa com Isabel no I quadro do III acto.

António Jorge tevem no avô Balboa, uma actuação certíssima, sem um deslize. Oliveira Júnior, no neto fugitivo e desclassificado, fez jus, por contraste feliz, a uma muito boa classificação.

João Medina (o pseudo pastor protestante e pseudo marinheiro norueguês), Nascimento (o ladrão de ladrões), António Santos (o ilusionista) e Cerveira (o caçador) formaram o fundo indispensável ao desenvolvimento do I acto e foram buscar à sua experiência cénica a defesa indispensável para o artificial dos seus papéis. Cerveira, porém, que julgamos ser a primeira vez que vimos actuar, menos calejado, tentou a defesa com uma exuberância demasiado visível.

Para terminar esta parte, duas palavras em especial para Isabel Reis.

Amalgamando o critério de apreciação de Maurício perante a actuação de Marta-Isabel em casa de Eugénia de Balboa, dir-lhe-emos somente que marcou nitidíssimos progressos sobre a sua actuação em “Os Velhos” e confirmou, sem margem para dúvidas, que tem todas as condições para vir a ser uma excelente artista. Deve guardar-se, porém, não nos cansamos de prevenir, de considerar-se já impecável (e haverá alguém que o seja?), antes deve continuar a ouvir com atenção – com mais atenção ainda, se possível – os conselhos dos mais sabedores, maxime do seu director artístico. Resumindo: para já, um M.B. – mas é indispensável continuar a merecer a classificação.

Evidentemente que este grupo de muito bons Amadores teatrais não poderia constituir uma equipa se não tivesse um Director que sabe o que quer conseguir e como o pode alcançar nas circunstâncias objectivas em que trabalha. José Ribeiro mostrou, uma vez mais, que é um excelente Director, encenando, ensaiando e conseguindo sempre esplêndidas caracterizações.

A contra-regra de Adriano Silva foi muito certa, tal como a actuação do ponto, José Cordeiro, que não se ouvia mas estava sempre atento e salvou uns pequenos lapsos de memória de duas personagens.

Os cenários e a maior parte dos adereços, muito bem, como é costume; outra parte dos adereços, incluindo o mobiliário, as louças e vidros, sobre o fraco.

A mutação das luzes, no crepúsculo do I quadro do III acto, também não nos pareceu feliz pela brusquidão sacudida com que se efectuou. Não será talvez difícil conseguir um reóstato que, de futuro, gradue a exigida diminuição da intensidade luminosa, pondo-a de acordo com o alto nível do restante da representação. Estamos certos que o Grupo Cénico da SIT, que já tem resolvido problemas tanto ou mais difíceis (por exemplo, o relógio que trabalhava, da Conspiradora, em contraste com o relógio parado que nos mostrou a Companhia do Nacional em Alguém Terá de Morrer) irá resolver também estrouto a contento dos seus admiradores e amigos.

Um problema que se nos afigura de mais difícil solução – mas que, obtido, muito ajudaria ao brilhantismo total dos espectáculos – é o da música de cena, pois as gravações, por mais perfeitas que sejam, não atingem a veracidade requerida e destroem o equilíbrio ambiental que o esforço dos Amadores tem conseguido criar.

1959.05.13 - AS ÁRVORES MORREM DE PÉ (DIÁRIO DE COIMBRA)

Já aqui se disse que o espectáculo levado a efeito no Teatro Avenida em benefício do Asilo da Infância Desvalida, pelo Grupo de Tavarede, conseguiu mais um êxito, que muito nos apraz registar aqui.

O Avenida apresentava o aspecto das grandes noites, tendo esgotado a lotação.

À hora marcada, o pano subiu, e a distinta declamadora, Maria Isabel Reis, disse a poesia do genial poeta, Miguel Torga, intitulada “História Antiga”, que o público aplaudiu com vibração.

Depois, representou-se a peça de Alejandro Casona, “As árvores morrem de pé”, que teve uma interpretação harmónica, de nível superior, destacando mais um vez os elementos do grupo. Não é favor, no entanto, destacar do conjunto, os conhecidos elementos, Violinda Medina, Maria Isabel Reis, Maria Teresa de Oliveira, António Jorge da Silva e João de Oliveira Júnior.

No final de cada um dos actos, o público manifestou-se com entusiasmo e por último fez uma justa chamada ao palco do nosso velho amigo José Ribeiro, que tem sido e continua a ser a alma do soberbo conjunto de amadores, digno de toda a simpatia, não apenas pelos seus méritos mas também pela colaboração que sempre sabe dar às jornadas com carácter de solidariedade.

Pena foi não ter sido possível conseguir-se mobiliário que correspondesse à indicação do autor da peça, para os diferentes actos.

Isso, no entanto, não tirou o valor à representação que, repetimos, conseguiu agrado pleno, firmando os créditos já conseguidos pelo simpático Grupo de Tavarede.

1959.05.23 - AS ÁRVORES MORREM DE PÉ (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Alejandro Casona, autor moderno dos mais representados e aplaudidos, tem na peça “As árvores morrem de pé” um dos seus mais justificados êxitos.

Em algumas das suas peças quis acompanhar a corrente “abstracionista, modernista, existencialista, etc., etc.,” enveredar por processos e caminhos diferentes dos do velho teatro grego, dos séculos XV e XVI, do romântico e do contemporâneo; mas com inteligência e perspicácia, e para que o público o entendesse e aplaudisse, arranjou uma fórmula que condiciona, em harmonia com o género da peça que pretende escrever. É teatro de Casona.

Na peça “As árvores morrem de pé” sem hesitações, apresenta o primeiro acto, aquele que tem uma única finalidade – a de esboçar o conflito – com aparente desejo de apresentar teatro moderno. Há ambiente de mistério, luzes estranhas, portas falsas, figuras arrancadas aos velhos autos ou às velhas comédias italianas! Casona preparou este arranque da peça, ao novo jeito, mas com grande habilidade e senso artístico para não caír em Chinezise.

No segundo acto, resolveu enveredar por caminho mais próprio para a efabulação da peça e apresentou um rico e belo quadro de alta comédia, de perfeita e harmoniosa construção e com a emoção devida, bem condicionada, para o agrado do público, mesmo do mais exigente. No terceiro, com cenas alteradas de boa comédia e de bom drama, e não desprezando uma pontinha de romantismo, tão agradável a todas as plateias, solucionou a seu modo o conflito criado. Assim – Sal e Pimenta – Casona, com inteligência, engenho e saber, produziu uma grande peça para o público... e para os empresários.

Desempenho – Maria Isabel Reis, que tinhamos apreciado na Emilinha dos Velhos, não desmentiu o conceito que dela tinhamos formado, apresentando uma bela figura de ingénua de comédia, com emoção sentida nalgumas cenas de carácter dramático.

Progrediu e muito bem, António Jorge, no papel, (o canastrão da peça) muito certo nos poucos momentos em que tem de representar, e defendendo com denodo, os muitos momentos em que o autor o abandonou. Fernando Reis, absolutamente à boa vontade, discreto e representando bem. Os restantes intérpretes, todos bons, certíssimos no movimento, no ritmo e na afinação, sob a regência da batuta do mestre José Ribeiro, o há muito tempo consagrado homem de Teatro. Para o fim, reservamos a apreciação do trabalho de Violinda Medina e Silva. Minucioso e perfeito no detalhe, correcto e elegante nas atitudes, belo na intuição e na intenção do dizer. Nada mais dizemos a não ser, que esta Amadora é uma Grande Artista. Cenários e arranjos, de bom gosto.

1959.08.22 - FAZER JUSTIÇA A QUEM A MERECE (O FIGUEIRENSE)

Para conhecimento dos nossos leitores e por serem dignas de grande valor, para uma associação que tem feito tudo para a elevação educativa e cultural do teatro, transcrevemos estas considerações do jornal Diário de Coimbra:

“O Concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio

Nos dias 27 e 28 do mês findo estiveram em Tavarede, vizinha freguesia deste concelho, os srs. Couto Viana, actor Pedro Lemos e António J. Forjaz, que constituem o júri do Concurso de Arte Dramática dos Colectividades de Cultura e Recreio.

Nomeados pelo SNI, deslocaram-se de Lisboa, para assistirem às provas de selecção do famoso grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

A velha e prestigiosa colectividade inscreveu-se nas duas categorias do concurso: categoria A – drama, com “Frei Luís de Sousa” e categoria B – comédia, com “Os Velhos”.

Exigia o regulamento do Concurso que as peças a representar fossem portuguesas, e não pode negar-se que as duas peças com que o grupo de Tavarede se apresentou são autênticas obras-primas do teatro português, das tais que não podem chamar-se antigas nem modernas, porque são eternas, como são as obras de arte verdadeiramente geniais. A alta classe destas obras de Garrett e de D. João da Câmara, as dificuldades a vencer na interpretação e na encenação, deram ensejo a que o grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense patenteasse a homogeneidade e firmeza do seu conjunto e simultâneamente revelasse os seus valores individuais.

Digno de nota foi o cuidado com que a Sociedade de Instrução Tavaredense rigorosamente deu cumprimento a todas as disposições regulamentares.

Assim, estabelecendo o regulamento que seriam admitidas as colectividades que mantivessem grupos cénicos em actividade regular, apresentou a lista das obras representadas nos últimos 30 anos, indicando as peças levadas à cena em cada ano, numa constante actividade teatral.

Também o regulamento do Concurso estabelecia que as provas de selecção seriam prestadas, de preferência, na sala de espectáculos da sede, em récitas para sócios. Por isso, aquela Sociedade, reconhecendo embora que as provas ganhariam em beleza teatral sendo prestadas numa moldura cénica mais ampla, como a que lhe dariam os excelentes cenários do Prof. Manuel de Oliveira e de Rogério Reynaud num dos teatros públicos da Figueira, não quis sair da sua pequena e modesta casa em Tavarede, onde o júri pôde apreciar a actuação dos amadores tavaredenses no seu meio próprio, representando para os seus associados, na sua aldeia.

A primeira prova prestada foi a da comédia, com a representação de “Os Velhos” e a segunda foi dada com “Frei Luís de Sousa”. Duas representações de muita categoria. O público, que enchia o teatro, deliciou-se com a frescura rústica, a singeleza e a graça que D. João da Câmara pôs nos seus “Velhos” e contagiado, sorriu e muitas vezes riu francamente; e no “Frei Luís de Sousa” sentiu-se verdadeiramente dominado, esmagado pela beleza e grandeza daquela tragédia, tão vigorosa e tão simples na sua forma clássica.

Foram dois espectáculos de autêntico teatro português, de um alto nível artístico e de uma grande dignidade, que honram o teatro de amadores – do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. Merecedor ainda de registo o cuidado com que aquela Sociedade cultural respeitou e serviu a letra e o espírito das duas belas obras na interpretação, nos cenários, no mobiliário, nos adereços, em tudo que o conjunto cénico exigia para que não saissem desfigurados ou desrespeitados os dois gloriosos dramaturgos portugueses que o grupo de Tavarede levou ao Concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio.

1959.09.23 - O GRUPO CÉNICO DA SIT NO TEATRO TRINDADE (REPÚBLICA)

Tavarede, a mais pobre freguesia do concelho da Figueira da Foz, com cerca de 500 habitantes apenas – cavadores, operários, gente humilde de vários ofícios – viu nascer e crescer no seu seio uma inicitiva que hoje, 55 anos volvidos, se afirma como uma das mais notáveis realizações em prol de elevação da cultura popular, à custa dos maiores sacrifícios e em luta com as maiores dificuldades.

De facto, é entre aquela população de trabalhadores que têm sido recrutados os membros do grupo cénico da colectividade local – a Sociedade de Instrução Tavaredense. Vemos assim operários e cavadores aproveitar as horas livres do dia – que bem poucas devem ser quantas vezes – para se entregarem ao teatro com uma dedicação e uma vontade que nunca serão demasiado encarecidas.

À frente daquele agrupamento encontra-se José Ribeiro, que a ele se tem dedicado desde há longos anos de uma forma que associa indelevelmente o seu nome a essa rara iniciativa. Na realidade, não poderia esta ser compreendida sem o esforço desse homem, que conseguiu, com gente que suporia apenas rude e inculta, formar um grupo cénico que se tem mostrado à altura de ombrear com outros agrupamentos congéneres, procedendo ao mesmo tempo à divulgação do que de mais válido se regista na nossa literatura dramática, através de representações, conferências e outras realizações. Todos os anos se renovam os seus espectáculos, de que também não são excluídos os mestres estrangeiros, e não deve haver hoje em Tavarede uma família que não tenha contribuído para a existência do grupo.

Ontem tivemos ocasião de apreciar os resultados da obra notável de José Ribeiro, no quarto espectáculo da fase final do Concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio, preenchido com a representação da comédia em 3 actos, de D. João da Câmara, “Os Velhos”, pela Sociedade de Instrução Tavaredense.

O público, que encheu a sala do Trindade, não deixou de lhes prestar justiça, e os aplausos que lhe dispensou por várias vezes não só sublinharam os méritos imediatos do espectáculo como constituíram também significativa manifestação do carinho e da admiração que o esforço desses humildes trabalhadores e do seu orientador naturalmente lhe inspiraram.

Protótipo do nosso teatro regionalista, “Os Velhos” oferece hoje várias dificuldades até por divergir das concepções e da técnica que o tetro dos nossos dias impôs.

Dessas dificuldades se saíram, de uma forma que se poderá classificar de brilhante, os amadores de Tavarede, que souberam incarnar com naturalidade, graça e saber os pitorescos personagens do Patacas, do Prior, do Bento, do Porfírio, do Júlio, da Emília, da Ana, da Narcisa, da Emilinha, interpretados, respectivamente, por João da Silva Cascão, Fernando Severino dos Reis, António Jorge da Silva, João Rodrigues Medina, João de Oliveira Júnior, Violinda Medina e Silva, Maria Teresa de Oliveira, Helena Rodrigues Medina e Maria Isabel de Oliveira Reis. Interpretação adequada e adequada a encenação em que é sugerido ao espectador o ambiente alentejano no qual se desenrola a acção de “Os Velhos”.

O lirismo naturalista e o humor, a verdade dos ambientes e o espírito de observação que servem de base à obra de D. João da Câmara e a esta comédia em especial, animaram a representação do agrupamento de Tavarede, que arrancou calorosos aplausos, chegando aquela a ser interrompida mais de uma vez, como aconteceu no último acto.

Assim se viram ontem mais uma vez confirmados os méritos do grupo de José Ribeiro, esse grupo que se tornou um exemplo talvez único e decerto admirável de quanto pode ser feito por aqueles que acreditam na capacidade de criação artística do povo, que será sempre um recurso, mesmo quando as crises parecem fechar todas as portas.

1959.10.03 - AS PROVAS FINAIS DO CONCURSO DE ARTE DRAMÁTICA (O FIGUEIRENSE)

Os leitores devem estar recordados deste Concurso de Arte Dramática promovido pelo Secretariado Nacional de Informação, em que foi classificado para as provas finais o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, com a comédia em 3 actos, Os Velhos.

Realizou-se esse espectáculo público, no Teatro Trindade de Lisboa, no dia 22 do corrente mês, em que entre outros jornais diários, fizeram referências elogiosas, “A República”, “A Voz” e o “Século” do qual transcrevemos:

“....a sala oferecia um belo aspecto e foi numa atmosfera de carinho que decorreu a apresentação da popular obra de D. João da Câmara, certamente aquela que o tempo mais envelheceu. Não que esteja ultrapassada pelo seu conflito, mas pela técnica e principalmente, pelos seus longos e estirados monólogos. Acentue-se todavia que os amadores de Tavarede se houveram galhardamente, transmitindo-nos aquele ingénuo encanto, aquela saborosa tela naturalista, em que não faltam alguns apontamentos de bom humor soberbamente observados e criticados. Duas salvas de palmas interromperam a representação do último acto em momentos magistrais, tão singelos tão puros, que pareciam arrancados à própria vida.

Subiram mais alto esses aplausos no final, envolvendo intérpretes e encenador, sendo lícito salientar entre aqueles: António Jorge da Silva (que roubou as melhores gargalhadas durante a cena da ceia), João da Silva Cascão e Maria Isabel de Oliveira Reis, plena de frescura e graça. Apontemos ainda os nomes dos outros artistas merecedores de referência: Fernando Severino dos Reis, João Rodrigues Medina, João de Oliveira Júnior, Violinda Medina e Silva, Maria Teresa de Oliveira e Helena Rodrigues Medina”.

Também o “Diário Ilustrado” disse de sua justiça:

“... convém dizer que Tavarede é a sede da mais pobre das freguesias do concelho da Figueira da Foz, com cerca de 140 fogos e apenas 500 habitantes. Trata-se duma pequena aldeia de lavradores e operários onde não há uma família onde alguém não tenha sido actor, no grupo dramático que exerce a sua actividade há mais de quarenta anos de espectáculos renovados.

... cumpre-nos elogiar a sobrevivência ao longo de quarenta anos duma tradição teatral num remoto canto da nossa província, sem recursos nem humanos nem financeiros”.

Sabe bem ler estas coisas a respeito da nossa terra.

FEZ-SE JUSTIÇA (O FIGUEIRENSE)

Depois de escrevermos a primeira notícia, temos agora a grande satisfação de dar aos nossos leitores, que foi atribuído o prémio à Sociedade de Instrução Tavaredense, pela representação “Os Velhos”:

“Prémio Francisco Taborda” – Sociedade de Instrução Tavaredense – “Os Velhos” – 6.000$00.

Encenação: “Prémio Carlos Santos” – José da Silva Ribeiro – 5.000$00.

Prémios de interpretação:

“Prémio Chaby Pinheiro” – António Jorge da Silva (no papel de “Bento”) – 3.000$00.

“Prémio Maria Matos” – Violinda Medina e Silva (no papel de “Emília”) – 3.000$00.

Menção honrosa: João da Silva Cascão, no papel de “Manuel Patacas”.

Está de parabéns o grupo dramático, merecendo as nossas felicitações, pelo triunfo que alcançou.

1959.10.08 - CONCURSO DE ARTE DRAMÁTICA (A VOZ DA FIGUEIRA)

Já depois de andar pelas mãos dos seus leitores o último número de “A Voz da Figueira”, foi tornado público o resultado do concurso de Arte Dramática promovido pelo Secretariado Nacional de Informação entre as sociedades de cultura e recreio de todo o país.

O triunfo da Sociedade de Instrução Tavaredense, como era de prever, foi de molde a convencer e honrosíssimo para a nossa terra.

A colectividade tavaredense foi galardoada com o “Prémio Francisco Taborda” (2ª. classificação da categoria B – comédia) pela representação de “Os Velhos”, de D. João da Câmara.

José da Silva Ribeiro recebeu, como ensaiador, o 2º. prémio “Carlos Santos” (5.000$00).

António Jorge da Silva e Violinda Medina e Silva foram contemplados com o “Prémio Chaby Pinheiro” e o “Prémio Maria Matos” (3.000$00 cada) de interpretação masculina e feminina, respectivamente, em “Os Velhos”.

E, finalmente, a João da Silva Cascão foi atribuida menção honrosa pelo desempenho do papel de “Manuel Patacas” na mesma peça.

O Juri era constituído pelos srs: Rogério Fonseca, delegado da Federação das Colectividades de Cultura e Recreio; D. Maria Manuela Couto Viana; e srs. António Pedro, Carlos Moreira, António Manuel Couto Viana, Pedro Lemos, António José Pereira Forjaz, Goular Nogueira, Armando Cortês e Carlos Wallenstein.

Felicitamos a Direcção da SIT, os distintos amadores e seu ensaiador, congratulando-nos sinceramente com o seu merecido triunfo.

1959.10.08 - CONCURSO DE ARTE DRAMÁTICA (A VOZ DA FIGUEIRA)

Levadas a efeito pelo SNI (Secretariado Nacional de Informação), estão a decorrer em Lisboa, no Teatro da Trindade, as provas finais do concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio, que em hora alta aquela entidade julgou por bem realizar.

Numa altura em que muito se fala de “crise teatral”, para a direita e para a esquerda, num período em que tais actividades culturais adormecem acariciadas pelo embalador sol estival, tal manifestação artística vem despertar o ânimo (ou desânimo), daqueles que não acreditam no teatro e, o que é mais notório, vêm demonstrar que a haver crise ela não tem a sua origem numa falta de valores representativos.

Após um juri especialmente nomeado ter percorrido o país para poder assistir às primeiras provas selectivas, foi tornada pública a lista das colectividades apuradas para a fase final e, note-se, chegar-se a esta parte do concurso é já um subido triunfo, uma vez que a categoria dos concorrentes obrigará agora a uma maior demonstração de valor, a uma mais certa e profunda actuação, qualidades essas que virão, como é óbvio, a realçar o prestígio dos finalistas.

Para trás ficaram agrupamentos que ao teatro têm dedicado o sangue da sua existência, como é o caso, v.g., da Sociedade Guilherme Cossoul e que neste concurso se apresentava com “Catão”, de Garrett, sob a direcção de Jacinto Ramos, uma pessoa que além de conhecer sabe o que é Teatro.

No grupo dos doze escolhidos aparece o nome da Sociedade de Instrução Tavaredense, grupo que há mais de 40 anos defende e difunde o Teatro dentro do amadorismo mais sadio que é possível conceber-se, procurando um grau de perfeição cada vez mais elevado, lutando contra todas aquelas barreiras que condicionam as colectividades pobres.

Pois bem, a SIT prestou as suas provas no Trindade, no passado dia 22, ante uma assistência numerosa que aguardava com visível interesse a subida do pano.

Escolheu a Sociedade de Instrução Tavaredense a comédia em 3 actos de D. João da Câmara – “Os Velhos” – peça que nos fala da gente humilde e franca do nosso povo, com os seus usos e tradicionalismos fortemente embrenhados na alma, dos seus dizeres tão característicos, das suas reacções em face do progresso, progresso este que neste caso vinha bulir com o rústico sossego que durante anos os conservava tal como eram e não desejariam deixar de ser.

Todas as dificuldades de encenação foram, contudo, vencidas pelos competentes amadores de Tavarede que conseguiram atingir, numa peça em que cada personagem retrata um tipo de indivíduo acentuadamente diferente dos outros elementos, uma categoria muito acima do nível geral do meio artístico amador nacional.

Será injusto destacar nomes numa representação que brilhou pelo equilíbrio e homogeneidade do conjunto, pela sobriedade e naturalidade com que cada um se houve do seu papel e, acima de tudo, pelo sentido artístico revelado do princípio ao fim.

Salientaremos apenas, tal como o público o fez com demorada salva de palmas, uma vigorosa cena do 3º. acto, na qual se gera uma aguda controvérsia entre... “os velhos”.

Cumpre-nos afirmar que a Sociedade de Instrução Tavaredense viu a sua actuação saudada calorosamente, não só nos finais de acto, como no desenrolar dos mesmos, para no final escutar da assistência, de pé, vibrantes aplausos, misturados com inúmeras exclamações de parabéns.

E de parabéns está a Figueira.

1959.10.15 - TAVAREDE NO TRINDADE (A VOZ DA FIGUEIRA)

Quando haviamos traçado as primeiras linhas sobre a actuação do grupo de Tavarede no Trindade, tinhamos adoptado como única base qualitativa um critério muito pessoal e, por tal, muito subjectivo, susceptível de toda e qualquer opinião contraditória. Dissemos, então, o que nos pareceu justo e de justiça afirmar-se e, evidentemente, a opinião mantém-se, opinião essa que foi corroborada quase por toda a crítica da especialidade. Quanto ao “quase”, ele apenas vem em favor da SIT, pois todo aquele que não tem pelo menos um “inimigo” não pode, por força, ser importante.

Agora, porém, se tal nos é permitido, falaremos em função de dados que além de concretos, são oficiais. Referimo-nos à classificação dada pelo juri do concurso e começaremos por lembrar que esta parte final engloba 12 concorrentes, pelos quais iriam ser atribuidos 32 prémios e menções honrosas, quer aos conjuntos como aos intérpretes. Ao atentarmos na lista classificativa reparamos que três associações obtiveram quase que metade da totalidade de citações. São elas – “Grupo de Teatro Miguel Leitão”, de Leiria, com 2 prémios e 3 menções honrosas; “Sociedade Recreativa e Dramática Eborense”, com 2 prémios e 3 menções honrosas; e “Sociedade de Instrução Tavaredense”, com 4 prémios e 1 menção. Se até há pouco podíamos ser acusados, por hipótese, de algo de regionalismo determinante de alguma crítica menos verídica, cremos, igualmente, que o “como queríamos demonstrar” não será alcançado, qualquer que seja o método adoptado.

Especificando e comentando os louvores atribuídos à Sociedade de Instrução Tavaredense anotamos a conquista do “Prémio Francisco Taborda” pelo agrupamento e, consequentemente, a atribuição a José da Silva Ribeiro do “Prémio Carlos Santos”, pela encenação de “Os Velhos”. Sobre tal já anteriormente tecemos o essencial. O “Prémio Chaby Pinheiro” (interpretação masculina, categoria B) foi para António Jorge da Silva, no papel de “Bento”, enquanto Violinda Medina e Silva no papel de “Emília”, obteve o “Prémio Maria Matos”, (interpretação feminina, categoria B). Para João Cascão, em virtude do seu papel de “Manuel Patacas”, foi uma menção honrosa de interpretação.

Prémios justíssimos, a atestar o dote do feito, os seus valores representativos, a sua sentida personagem artística, a qual, ainda que enformada por um amadorísmo íntegro, se revela pujante de qualidades cénicas. Afirmámos ser injusto destacar nomes, mas uma vez que eles já foram erguidos, poderemos sobre eles exprimir algo mais do que uma recompensa pode sugerir.

D. Violinda Medina foi, quanto a nós, o elemento mais valioso no palco. Igual desde o princípio ao fim, sempre a mesma suavidade de movimentação, igual candura de mímica em todos os actos, tudo inerente a uma “Emília” que D. João da Câmara desenhou. D. Violinda Medina dava a sensação de não representar, mas viver. António Jorge da Silva entregou-se de corpo e alma a um “Bento” sadio e aberto, homem sem “papas na língua”, desses que retratam todo um tipo de aldeão que ainda, felizmente, encontramos. A João Cascão foi atribuída “menção honrosa”. É justa, pois “Patacas” alternou o bom com o muito bom. Na cena que destacámos alcançou ele bitola alta, foi mesmo o soberano da situação.

Falou-se que a escolha da peça não tinha sido feliz. Talvez. Note-se, porém, que “Os Velhos” foram igualmente escolhidos pelo agrupamento “Os Modestos” e que, tal como o juri posteriormente esclareceu, para efeitos de selecção, não foi tomada a categoria das peças, mas sim o “mérito dos recursos artísticos dos componentes de cada grupo dramático concorrente, o seu valor de conjunto, o nível do espectáculo e o seu estilo e bom gosto da encenação em todos os seus efeitos”.

A não ser que a tal “voz discordante” esperasse ver Ionesco...

1959.10.17 - IMPRESSÕES DE UM AMADOR DA SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE COM A REPRESENTAÇÃO DE “OS VELHOS” NO TEATRO TRINDADE, EM LISBOA, NA FINAL DO CONCURSO DE ARTE DRAMÁTICA ORGANIZADO PELO SECRETARIADO NACIONAL DE INFORMAÇÃO (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Entrámos no Concurso de Arte Dramática organizado pelo Secretariado Nacional de Informação animados de grande esperança, se bem que de antemão soubéssemos que iam concorrer os melhores grupos de amadores do país.

Foi, pois, com uma grande força de vontade e apoiados no saber e competência do nosso ensaiador que começámos os ensaios a ensaiar a sério.

Mas se na verdade o Concurso exigia que fizéssemos boas provas, a verdade também manda que se diga que os amadores tiveram sempre o grande desejo de se apresentarem na capital. Nunca as circunstâncias o tinham proporcionado, apesar de conhecermos um grande número de palcos do país. Sintra tinha sido a localidade mais próxima...

Foi, pois, com entusiasmo, que todos os amadores encararam as provas de selecção, dado que nos surgia a grande oportunidade de representarmos em Lisboa.

A data foi marcada.

O nosso ensaiador deu os últimos retoques nos “Velhos” e no “Frei Luís de Sousa”. E perante o juri nomeado para a nossa zona - a mais numerosa em concorrentes e com grupos de grande valor - fizemos duas esplêndidas representações.

Aguardámos a decisão do Júri com muitas esperanças, pois os dois espectáculos tinham sido dos melhores que tinhamos feito durante a carreira das referidas peças.

Veio a notícia.

Iamos, finalmente, representar em Lisboa!

Os amadores sentiram-se radiantes. Não era só o Concurso; não eram os prémios... era, sim, o facto de representarmos para o público da capital...

A responsabilidade era grande. O nosso mestre fez-nos ver o tamanho dessas responsabilidades e o fracasso que seria se o espectáculo saísse mau.

Talvez por isso mesmo fizemos dois ensaios péssimos. O último foi mesmo muito mau, não sabemos porquê, pois todos sabiam bem os papéis. Nervos com receio dum público exigente.

O nosso ensaiador estava desapontado e receoso de uma exibição semelhante perante o júri; Chegou mesmo a lembrar que seria bom enviar um telegrama a desistir do Concurso...

Antes dele sair para Lisboa (teve de ir na véspera por causa da montagem dos cenários) deixou-nos uma grande folha de papel com indicações - dos erros cometidos durante esse desastroso ensaio.

Essas observações foram lidas com muita atenção; decoradas, até, como se fora um papel distribuido para uma peça, tal era a vontade de fazer um bom espectáculo perante um público desconhecido para nós.

Como seria o palco? Era muito grande? E o teatro?

Chegou, finalmente, o grande dia!

Cada um sentia o peso das responsabilidades...

... E o combóio partiu para Lisboa levando dentro dele um modesto grupo de amadores que tinham agora medo do público alfacinha...

O sonho tinha-se tornado em realidade, mas agora essa realidade pesava-nos como um fardo... Todos pensavam o mesmo mas ninguém se atrevia a dizê-lo...

O combóio chega ao Rossio. Na estação esperavam-nos alguns amigos figueirenses que vivem na capital e que quizeram dar-nos o prazer de nos dar um abraço.

Fez-nos bem, mesmo muito bem, pois sentimo-nos mais confiantes. Mas a nossa satisfação subiu mais alto, (que nos perdoem a franqueza) quando dentre essas pessoas que nos esperavam surgiu o nosso muito querido amigo pintor Alberto Lacerda. Em toda a parte o encontramos. Em toda a parte ele nos vai ver representar. E nem sequer nos tinhamos lembrado que afinal ele estava na sua terra...

Fomos para o teatro na sua companhia e quase nos esquecemos das responsabilidades que nos preocupavam.

Muito cedo comparecemos para nos vestirmos e caracterizarmos. Antes da hora estava tudo pronto para começar a representação.

Espreitámos para ver a sala de espectáculos. Lá estava ela, já quase cheia, cheia dum público selecto, desejoso de apreciar mais um espectáculo do Concurso.

Como iria sair a representação? Boa? Má?

Quando sentíamos o coração oprimido por recearmos esse público - mais até do que o próprio Júri - poisou nos nossos ombros a mão amiga de Alberto Lacerda. A seu lado estava Alberto Anahory; mais além José Ribeiro com os nossos carpinteiros e o nosso contra-regra...

Mas afinal, pensámos, estes amigos são os mesmos de Tavarede! O ambiente é o mesmo... Porque se não há-de fazer uma boa representação?

E foi com este pensamento que encarámos o espectáculo.

Subiu o pano...

Grande silêncio na plateia, sinal de público que gosta de teatro.

...........................................................................................................................................................................................

A representação do primeiro acto saíu bem.

O público aplaude calorosamente e ficámos muito animados. José Ribeiro está contente... e no intervalo aparecem as pessoas amigas a dizer que o acto tinha sido bom e que o público estava a gostar.

Foi então com mais segurança que entrámos no segundo acto.

Durante a representação observámos que o público não perdia uma palavra. Todas as falas eram seguidas com interesse e marcadas com gargalhadas as passagens mais cómicas.

No final deste acto redobraram os aplausos e sentimos então que tinhamos conquistado a plateia.

Reinava já grande alegria e satisfação entre os amadores...

Iamos entrar no terceiro acto - o de maior responsabilidade e o de maior espectáculo. A cena da ceia era para nós a maior preocupação... Mas se ela saísse bem, então seria o triunfo...

Sobe o pano.

A representação começa bem. Os amadores tornam-se senhores da situação. O público continua com uma atenção extraordinária - tão extraordinária que nos surpreende.

Chega a cena capital - a da ceia - e sai como nunca o fizemos!!! O público, esse público que nós tanto temíamos, recompensa-nos com uma tremenda salva de palmas, a premiar essa cena admirável que D. João da Câmara magistralmente concebeu e que o nosso mestre magistralmente ensaiou...

Recomeça a representação para, mais adiante, outra grandiosa salva de palmas interromper o espectáculo.

Cai o pano...

... E cai sobre nós uma ovação como nunca tiveramos ouvido em toda a nossa carreira de amadores.

O pano sobe, e desce para tornar a subir seis, sete, oito vezes... O nosso ensaiador é chamado ao palco... e os aplausos continuam com toda a plateia a aplaudir de pé.

Foi um verdadeiro delírio.

No palco o contentamento entre os amadores e as pessoas amigas não se podia descrever...

Abraços... Lágrimas... Parabéns...

Obrigado, público de Lisboa. Foi este o melhor prémio que nos podias dar.

1959.10.24 - ENGENHEIROS DE OBRAS FEITAS (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Na nossa qualidade de figueirenses estamos sempre prontos a louvar com o justo realce tudo quanto prestigie a nossa terra, tanto no campo material como no campo cultural, numa coerência de princípios que os “engenheiros de obras feitas” cumprem muito gostosamente.

Recentemente, o Secretariado Nacional de Informação promoveu um Concurso de Arte Dramática para o qual seleccionou as colectividades do país que julgou dignas de concorrerem às diversas modalidades de teatro, opondo-as fora do seu ambiente e sob as vistas de um júri de mestres.

A finalidade deste Concurso e os resultados que dele resultarão, pensamos nós, serão mínimos e quase estéreis.

O teatro de amadores precisa de impulsos de outra ordem, mais palpáveis e substanciais, e para a elevada função que ele representa na instrução do povo, são necessárias outra directrizes mais profundas e eficazes, de forma a salvar da decadência a magnífica arte de representar que, no conjunto de amadores e profissionais, sofre uma crise de estímulo provocada por asfixiante regulamentação, como todos sabemos.

Mas isto é assunto para uma vasta apreciação e não é esse o nosso propósito neste momento.

Todos os figueirenses conhecem de sobejo o valor da “nossa” Sociedade de Instrução Tavaredense, que foi uma das colectividades admitidas ao referido concurso.

A sua obra e o seu valor estão documentados pela representação do que melhor existe no teatro nacional e estrangeiro. As peças de autores portugueses mais consagrados têm passado pelo pequenino teatro de Tavarede, representadas, sempre, por um grupo de grandes amadores, que têm enchido de prestígio não só a sua associação como a própria Figueira da Foz, através de quase todo o país.

É enorme a sua acção no campo cultural e beneficente, e neste último aspecto, ela tem dado tudo em prol dos outros, nunca pensando em si, e hoje, que quer reconstruir o seu teatrinho não o pode fazer porque não amealhou meios para isso.

Maior isenção, maior sacrifício pelo bem comum, não é possível encontrar nos dias de hoje.

A Sociedade de Instrução Tavaredense foi ao Concurso do SNI por méritos próprios, não se organizou ou ensaiou à pressa para se apresentar em Lisboa. O concurso encontrou-a preparada e apetrechada e não teve de recorrer a qualquer recurso para representar a sua peça, porque o bom teatro e as boas peças são norma corrente do seu trabalho.

Por isso, foi altamente honroso para a Figueira o resultado alcançado pelo grupo de Tavarede, e que se deve atribuir, exclusivamente, ao valor dos seus amadores, que souberam vencer, num confronto das maiores responsabilidades.

Atesta-o a classificação que obteve no referido Concurso, na Categoria B – Comédia, com quatro prémios.

= 2º. Lugar – Prémio “Francisco Taborda”, pela representação da comédia “Os Velhos”.

= Prémio “Carlos Santos”, ao seu ensaiador.

= Melhor interpretação feminina – Prémio “Maria Matos”, à amadora Violinda Medina e Silva, no papel de “Emília” na comédia “Os Velhos”.

= Melhor interpretação masculina – Prémio “Chabi Pinheiro”, ao amador António Jorge da Silva, no papel de “Bento” na mesma comédia.

= Foi, como se vê, o único grupo que alcançou quatro prémios, pois os restantes oito prémios foram assim distribuidos: - “Grupo Miguel Leitão” de Leiria, 2 prémios; Sociedade Recreativa e Dramática Eborense, 2 prémios; Círculo Cultural do Algarve, 2 prémios; Clube Popular de Faro, 1 prémio; Centro de Desporto, Cultura e Recreio do Pessoal dos CTT de Lisboa, 1 prémio.

Verifica-se assim,que o grupo de Tavarede alcançou um terço da totalidade dos prémios, devendo acrescentar-se duas menções honrosas: interpretação do amador João Cascão, no papel de “Patacas” de “Os Velhos” e encenação do “Frei Luís de Sousa”.

Quer dizer, os primeiros Artistas – Amadores do teatro português de comédia, são tavaredenses.

Ao distinções que definem bem o valor de uma colectividade com uma vida dedicada ao teatro, e que traduzem, ainda, uma enorme honra para a Figueira da Foz.

E é aqui que queríamos chegar:

Como se manifestou a Figueira no seu regozijo e no merecido agradecimento à Sociedade de Instrução Tavaredense?

Em nada, absolutamente nada.

Que contraste, que tristíssimo contraste com o acolhimento que a nossa vizinha Leiria dispensou ao seu grupo “Miguel Leitão”, que alcançou 2 prémios com a representação do drama “Tá Mar”.

O grupo leiriense foi recebido nos Paços do Concelho da sua terra por toda a vereação municipal, numa sessão solene em que participou toda a população.

A Câmara Municipal, atribuindo-lhe a medalha de ouro da cidade deliberou, ainda, aumentar de 6 para 10 contos o subsídio que lhe dá anualmente.

A Câmara de Leiria rematou o seu agradecimento, oferecendo um banquete aos componentes do grupo, e ao qual assistiram os srs. Governador Civil, Presidentes da Câmara e do Turismo e outras individualidades.

E por último realizou-se novo banquete, oferecido pelos amigos do grupo, presidido pelo sr. Presidente da Câmara e no qual tomaram parte dezenas e dezenas de pessoas de todas as camadas sociais.

Leiria e as suas entidades oficiais souberam, assim, agradecer ao grupo “Miguel Leitão” a honra de levar para sua terra 2 prémios do Concurso de Arte Dramática realizado em Lisboa.

E as entidades oficiais da Figueira como é que manifestaram o ser reconhecimento à Sociedade de Instrução Tavaredense pelos QUATRO prémios que ela alcançou para a nossa terra?

Nem uma simples referência, nem um modesto voto de louvor se tornou público (e tem havido tantos neste últimos tempos!) a galardoar tanto esforço, tanto trabalho pela instrução e pela beneficência do nosso concelho!

E se nos anais da nossa Câmara há registos que honram e enobrecem, a obra da Sociedade de Instrução Tavaredense devia ficar ali vinculada em letras de ouro, em preito do muito que ela tem prestigiado a nossa Figueira da Foz.

Seria o verdadeiro prémio a que ela tem incontestável direito, e uma prova de gratidão muito e muito merecida.

1959.11.05 - TRIBUNA LIVRE (A VOZ DA FIGUEIRA)

Temos pouco?... temos mau? ... mas também há bom, para não falar em muito bom e que não premiamos, como merece.

Vêm estas considerações a propósito de uma notícia lida, há poucos dias, sobre a homenagem prestada ao GRUPO TEATRO MIGUEL LEITÃO, por ter sido distinguido com o 1º. Prémio-Drama no Concurso de Arte Dramática, promovido pelo SNI, entre todas as Sociedades de cultura e recreio do nosso país.

Vamos nós ficar indiferentes ao retumbante êxito alcançado pela Sociedade de Instrução Tavaredense quando esta foi galardoada com o “Prémio Francisco Taborda” (2ª. Classificação da categoria B – comédia) pela representação de “Os Velhos”, de D. João da Câmara?

José da Silva Ribeiro recebeu, como ensaiador, o 2º. prémio “Carlos Santos”; António Jorge da Silva e Violinda Medina e Silva foram contemplados com o “Prémio Chabi Pinheiro” e o “Prémio Maria Matos”; e a João da Silva Cascão foi atribuida menção honrosa pelo desempenho do papel de “Manuel Patacas” na mesma peça – conforme vem publicado nos jornais, e em especial na local de A Voz da Figueira de 8 do corrente, que teve a feliz ideia, passando por cima da modéstia de José Ribeiro, de lhe publicar a sua fotografia. Limitamo-nos a ler essas notícias?

Se não fosse razão bastante o êxito alcançado bastaria, como causa principal, o que tantos têm recebido, através das comissões organizadas em várias terras do país, que têm solicitado, sem nunca ouvirem um não, o seu concurso, pois os fundos arrecadados através das suas magistrais interpretações, somam uns bons milhares de escudos.

Organizemos nós uma pequena, mas sincera homenagem, que será acarinhada, estou certo, por todas as terras onde são conhecidos, e de que são credores, transformando-se, imediatamente, em qualquer coisa de grande, digna desses rapazes e raparigas que, depois de um árduo dia de trabalho, ainda têm tempo para se sacrificarem, à noite, com ensaios, dias e dias seguidos, para que resultem sempre, dignas de aplauso, as suas representações, “grandes lições” (pois as peças são escolhidas com o maior cuidado) para todos, principalmente, hoje em dia, em que tanto se fala de educação cívica dos jovens, futuros homens de amanhã, que só pensam em “futebois e filmes americanos”.

Tem a Sociedade de Instrução Tavaredense muitos e distintos amigos e, sem querer melindrar ninguém, lembro o sr. Dr. Elísio de Moura, que se poderiam consultar e, estou certo, se juntariam a todos nós, para prestar justiça a quem a merece, sem esquecer a forma de se conseguir uns tostões que, multiplicados pelo número grande de inscrições, dariam um total razoável de umas centenas de escudos para as obras que a Sociedade pensa fazer na sua sede e que não têm sido possíveis, por falta de fundos.

Até José Ribeiro, que é contra homenagens, teria de a aceitar, pelo fim em vista, e, assim, juntar-se-ia o útil ao agradável.

Aguardamos, com fé, o aparecimento do jornal ou a Comissão que tenha tão feliz iniciativa.

1959.11.28 - FREI LUÍS DE SOUSA (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Frei Luís de Sousa, imortal obra de Almeida Garrett, não consente crítica ou comentário, pois que como todos sabem, é considerada Obra Prima do Teatro Clássico Português.

Linguagem, história e efabulação, tudo é perfeito, é sublime e grandioso.

Há mais de cinquenta anos que conhecemos a peça e temos assistido a dezenas e dezenas de representações.

Vimos as notáveis interpretações de Brazão e Pato Moniz do protagonista; as admiráveis criações de Álvaro e Cardoso Galvão no Romeiro; os perfeitos e conscientes desempenhos de Augusto Antunes e Carlos Santos do difícil Telmo Pais; muitos e bons actores no Frei Jorge, o papel ingrato da peça; grandes actrizes como Emília de Oliveira e Augusta Cordeiro na Dona Madalena de Vilhena; várias actrizesinhas no papel de grande vibração dramática de Dona Maria, que em 1916 teve a mais humanamente dolorosa encarnação em Judite de Castro, rapariguinha de 14 anos, naturalmente histérica e doente, que um ano depois, abandonou a carreira do Teatro.

As notáveis encenações de Augusto Rosa, Augusto de Melo e Carlos Santos, mestres no género, com cenários de Manini e Machado e figurinos de Manuel de Macedo, deram a essas representações um nível máximo, à grande altura a que tinha juz obra de tão reconhecido valor.

No passado dia 20 retomámos o contacto com o célebre drama, duvidando de que o grupo cénico Tavaredense conseguisse levar a cabo tão difícil como ingrato cometimento. Ouvimos a peça seguindo a representação com crescente admiração. Não pretendemos nem podemos analisar um por um, os trabalhos dos distintos amadores, saíndo-nos da pena com toda a sinceridade a seguinte apreciação: Todos bem, muito bem, havendo cenas que nos fizeram reviver as grandes interpretações a que nos referimos. Violinda Medina, Maria Isabel, Cascão, António Jorge, Fernando dos Reis e Oliveira Júnior, em grande conjunto com os restantes intérpretes, que em pequenos papéis contribuiram para mais um êxito do Grupo Cénico de Tavarede, como já dissémos – Muito Bem.

Eis as nossas impressões que no respeita ao que o público viu e aplaudiu.

Mas na parte que o público não vê, na vara mágica que fez viver a beleza e magnificência da peça, na cabeça que estudou e meditou, na direcção e ensaio, na minúcia do detalhe, finalmente na realização de tão complicado e científico trabalho, reside o maior valor do espectáculo, e esse sucesso, é devido à mão, à experiência e saber do Grande Homem de Teatro que se chama José Ribeiro.

Palmas ao Grupo de Tavarede – Parabéns a José Ribeiro.