sexta-feira, 25 de maio de 2012

Quadros - os Senhores de Tavarede - 5

Podemos calcular a enorme vastidão dos dominios territoriais da Casa de Tavarede pelo que o Dr. Santos Rocha escreveu, no livro ‘Materiais para a História da Figueira – séculos XVII e XVIII’. “… só no século XVIII a Casa de Tavarede começou a fazer concessões de terrenos para se construirem casas, tanto no lado setentrional da rua Bela, na parte que abrange as três primeiras casas do lado do nascente, como no lado ocidental da rua de Santo António e no lado oposto da mesma rua, e bem assim na rua, travessas e ladeira da Lomba e no lado oriental da rua da Bica; ainda em 1761 os representantes da Casa de Tavarede diziam numa escritura: ‘que eles eram senhores e possuidores de um chão pousio, sito por baixo de Santo António da mesma Figueira, a cujo pousio chamam a Lomba…’. Outro cerrado abrangia o Mato e a costa oriental do Monte até à Rua da Fé, entre o rio e o caminho da Várzea e constava como terra de pão, mato, pedreiras e barrocos. A Casa de Tavarede vendeu-o em 1738. Um outro cerrado estendia-se, desde o sítio da Lapa e do Mato, pelo Vale até ao caminho de Santo António. Ainda nos princípios do século XVIII a Casa de Tavarede aforou ‘uma jeira de mato, no monte, confinante com a estrada das Lamas, sob a condição do enfiteuta a reduzir a cultura…’”.

A primeira questão com o Cabido de Coimbra de que encontramos nota, data de 1535. Trata-se de um Auto de Inquirição de testemunhas, datado de 15 de Julho daquele ano, a requerimento de António Fernandes de Quadros, nomeadas contra o Cabido sobre os terrádegos. E, no ano seguinte, ‘Contra os Quadros (cartas régias a respeito de António Fernandes de Quadros, - apontamento do cabido da sé de Coimbra para El Rei nosso senhor sobre António Fernandes de Quadros, morador em Tavarede). Estes elementos, e muitos outros que se seguirão, foram retirados do trabalho ‘A mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira’, do Dt. Rocha Madahil.

Como referimos, António Fernandes de Quadros casou com D. Genebra da Fonseca. Já não seria novo, embora não saibamos a data do seu nascimento, que, como já se referiu, se presume ter sido por volta de 1475. Não se sabe ao certo quando se realizou o casamento. No entanto, uma provisão do rei D. João III, datada de 30 de Agosto de 1523, ordena ao Almoxarife ou recebedor da Alfândega de Aveiro, que do rendimento deste presente ano de 1523, deis a António Fernandes de Quadros, sessenta mil reis de dote do seu casamento de cavaleiro. Foi Andre de Quadros, residente em Aveiro e procurador do fidalgo de Tavarede, seu parente, quem recebeu aquela importância, em duas prestações, emitindo o respectivo recibo em 5 de Setembro de 1524. Pode-se concluir, por estes documentos, que o casamento terá ocorrido no ano de 1524.

Deste casamento resultaram três filhos:

- Fernão Gomes de Quadros, primogénito e herdeiro;

- D. Filipa de Azevedo, que casou com António Homem, natural de Soure, que foi contador em Coimbra;

- D. Ana de Azevedo, freira no Convento de Celas, em Coimbra.

Foi um grande benfeitor do Convento de Santo António, fundado por Frei António de Buarcos, no ano de 1527. “ …Mas estes destroços, e os do tempo, não tiveram nem terão eficácia para riscarem da memória dos nossos religiosos, o nome do ilustre Cavaleiro António Fernandes de Quadros, seu particular devoto e benfeitor, antes pretendemos restituir-lhe a glória que outros lhe usurparam, dizendo que a capela mor deste convento se devera a Fernão Gomes de Quadros, seu filho, o que é totalmente alheio da verdade: porque o letreito da pedra, que cobre seu corpo no meio da mesma capela, está requerendo justiça e clamando que esta capela é sua, e nela fora sepultado no mês de Julho de mil quinhentos e quarenta, que foi a ocasião em que passou da vida presente.

Por este epitáfio, consta que já neste tempo era seu o padroado da capela e que Fernão Gomes, seu filho, entrara nele mais por sucessão do morgado, que por doação do convento. Também o escudo das suas armas, gravado no arco da mesma capela e remate da abóboda, declaram que é sua desde a fundação da casa. Porém, o nome de seu patrono e titular, Santo António, posto que fosse muito do agrado e gosto daquele instituidor, foi eleição do venerável padre Frei António de Buarcos, autor principal de toda a fábrica do convento…”.

Igreja do Convento de Santo António

(O convento era no edifício ao lado. Posteriormente foi adquirido pela Santa Casa da Misericórdia, que remodelou o edifício e ali montou um hospital, que funcionou durante muitos anos, até ser inaugurado o novo hospital, sito na margem sul do Mondego. Actualmente é a sede da Santa Casa, tendo uma das suas dependências de assistência)

António Fernandes de Quadros teve um papel muito importante na nossa terra. Podemos apontar três casos dos mais significativos realizados por aquele fidalgo: estabeleceu e aumentou, de forma considerável, a sua Casa, nomeadamente com o aforamento da ilha da Morraceira; a instituição de um morgado, cuja aprovação solicitou ao rei D. João III, mas a qual não chegou a receber, pois, entretanto, faleceu; e a sua participação na fundação do convento de Santo António, como já referimos.

Debrucemo-nos, para melhor nos inteirarmos do que acima fazemos referência, sobre os diversos elementos que, para o efeito, conseguimos reunir. E, antes do mais, desejamos prevenir que as nossas limitações foram muitas. As pesquisas que fizemos foram, praticamente, todas realizadas na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, onde, além da imprensa local e alguns livros escritos por figueirenses estudiosos e ilustres, lemos e analisámos, com os nossos parcos conhecimentos na matéria, os cadernos manuscritos legados pelo Dr. Mesquita de Figueiredo, que recolheu as suas notas enquanto conservador da Torre do Tombo, em Lisboa, e nos arquivos do Cabido de Coimbra, e o importante trabalho do Dr. Rocha Madahil, publicado no ‘velho’ Album Figueirense, sobre a mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira da Foz, e que fez as suas pesquisas nos arquivos da Sé e Universidade de Coimbra. E, prestado este esclarecimento, nada melhor do que transcrevermos o seu testamento. Ressalvamos, contudo, possíveis erros que possam existir, devido à dificílima leitura dos referidos cadernos acima citados:

“Eu, António Fernandes de Quadros, faço, pelo presente, o meu testamento. Primeiramente recomendo minha alma a Deus, pedindo-lhe que, pelos merecimentos da sua sacratíssima Paixão e precioso sangue que derramou pela redenção e geração humana, haja misericórdia de mim e me queira perdoar meus pecados e dê graças para que acabe em salvação.

Mando que o meu corpo seja enterrado na capela da Igreja do Mosteiro de Santo António da Figueira. Deixo por minha testamenteira Genebra de Azevedo, minha mulher, e assim a deixo por tutora e curadoura de meus filhos, porquanto a dita Genebra de Azevedo e eu próprio havemos assentado fazer um morgado de todas as nossas terças, ressalvando cada um de nós até cem cruzados, para nossas exéquias e se dispenderem no que nós quisermos; digo, por mim, que se aparte e tomem todas as minhas terças, de que se tire cem cruzados que se entregarão à dita Genebra de Azevedo, minha mulher, e ela os dispenderá nas minhas exéquias e naquelas coisas que ela já de mim sabe em que os há-de dispender, dos quais ditos cem cruzados mando que lhe não seja tomado contas.

Tudo mais que ficar de minha terça, mando que se tome na Lezíria da Veirôa e nas casas principais de Tavarede, se lhe puderem caber, e que da dita minha terça e a que sair da dela, minha mulher, se faça um morgado, que ficará a Fernão Gomes, nosso filho, mais os fornos de Tavarede, e em toda a sua geração, e, falecendo ele, sem filhos legítimos, ficará a uma das nossas filhas, à mais velha, o qual morgado andará sempre no filho mais velho lídimo, se o houver, ou na filha mais velha, não o havendo; não a havendo, também, passará o morgado para o parente mais chegado, e sendo dois ou mais no mesmo grau, sempre procederá o varão.

Peço a El-Rei nosso senhor que haja por bem que neste morgado entre a legítima que o dito Fernão Gomes, nosso filho, venha a herdar por falecimento meu e da dita Genebra de Azevedo, sua Mãi; e se o dito Fernão Gomes não quiser que as suas legítimas sejam metidas no morgado, hei por bem que ele não haja o dito morgado e o haja uma filha mais velha, contanto que suas legítimas entrem no morgado como atrás é dito do Fernão Gomes.

Falecendo o dito Fernão Gomes, se suceder no morgado, sem ter filho legítimo, e havendo de haver o morgado a nossa filha, entram suas legítimas nele, como atrás é dito; e mando que o dito Fernão de Quadros, meu filho, e todos os seus sucessores no morgado que se houver de fazer, serão obrigados a deixar, cada um, a terça da sua terça, para se juntarem a este morgado; e se os possuidores do dito morgado não tiverem legítimos descendentes, serão, em tal caso, obrigados a deixar, para juntar ao dito morgado, a terça parte de toda a sua fazenda; e se os ditos sucessores quiseram deixar mais da sua fazenda para acrescentamento ao dito morgado, poderão fazê-lo; e não será possuidor do morgado quem não deixar o terço da sua fazenda para o morgado, como dito é.

A pessoa que suceder no dito morgado, faça meter no mesmo tudo como é dito, ficando o dito Fernão Gomes, meu filho, e todos os seus sucessores, a serem obrigados a mandar dizer, em cada ano e na dita Igreja de Santo António onde estará meu corpo, 100 missas, a saber: três cantadas, uma pelo dia de Nossa Senhora da Anunciação e outra no dia de Santo António, pelas festas que se realizem, e outra dos finados, pelo seu dia, e as outras rezadas com responso, sobre minha sepultura, e estas missas se digam pela minha alma e da dita Genebra de Azevedo, minha mulher e das outras pessoas que deixarem fazenda ao dito morgado.

E porque eu, ao presente, estou doente e não sei o que Nosso Senhor fará de mim, e não tenho tempo para haver tão cumprido conhecimento das condições que devo meter no morgado, além das que neste testamento digo, nem o posso fazer com a dita minha mulher com aquela solenidade e condições que se requerem; mando que o testamento que a dita Genebra de Azevedo, minha mulher, fizer com o consentimento e conselho de André de Quadros e de Pero d’Azurara, de Montemor, meus primos, seja bom e se cumpra, e todas as condições que nele meterem hei por bem e que se cumpram inteiramente, como se eu as aqui houvesse ditas e declaradas e hei por bem que todas as condições metidas neste testamento se cumpram.

E acontecendo que falecendo minhas filhas ou cada uma delas sem serem de idade para fazerem testamento, que a terça parte de toda a sua fazenda seja encorporada e metida neste morgado, e se ao tempo que elas, e cada uma delas, falecerem e a dita Genebra de Azevedo, sua máe, por falecida, hei por bem que toda sua fazenda e herança seja metida e encorporada no dito morgado que aqui hei por deixado.

E porque a dita Genebra de Azevedo, minha mulher, e eu temos assentado de fazermos de nossas terças este morgado, como dito, hei por bem que fazendo ela dentro de um ano um testamento em que deixe sua terça a este morgado pela maneira que atrás é dito e houver confirmação de El-Rei nosso Senhor deste morgado, para ficar de tudo assentado e feito dentro em outro ano, que serão dois anos que se estenderão do dia do meu falecimento para diante.

Hei por bem que esta minha terça, e morgado que faço, fique a dita Genebra de Azevedo, minha mulher e testamenteira, em dias de sua vida, com seus encargos, e para melhor ela poder sustentar sua pessoa e encaminhar nossas filhas e enquanto assim possuir o dito morgado, será obrigada a prover e sustentar o dito Fernão Gomes, segundo sua pessoa e as possibilidades dela; e por seu falecimento, fique o dito morgado ao dito Fernão Gomes, nosso filho, e sendo ele falecido, sem filhos, como atrás é dito, à filha mais velha, como dito é.

E se a dita Genebra de Azevedo se casar, hei por bem que ela não possua o dito morgado, mas seja logo do dito nosso filho e assim lhe seja tirada a tutoria e administração de meus filhos; e falecendo a dita minha mulher antes de meus filhos serem de idade maior ou casando-se, deixo por seus tutores e curadores aos ditos André de Quadros e Pedro d’Azurara.

E sendo caso que o dito meu filho ou os sucessores do dito morgado fizerem algum erro contra a lei de Deus ou contra lesa Magestade ou outro excesso tal que por direito deva perder seus bens, o que prazará a Deus que não será, eu lhe hei por tirado o dito morgado e mando que logo seja do seu sucessor.

Recomendo e mando e rogo ao sucessor do morgado que faça, à sua própria custa, o coro aos frades em Santo António e mais corrigirá e reparará as obras do que for necessário, a saber, o telhado e goteiras.

Mais disse, ele dito António Fernandes, que sendo caso que os padres mandem trazer de Flandres o retábulo para a capela, que o sucessor do morgado lhes dê, para ajuda dele, 20 cruzados.

Mando a todos os possuidores do dito morgado que paguem muito bem as missas aos padres do dito mosteiro e também saibam se se dizem, e vindo algum que também as não queira pagar, mando que as pague, ao menos segundo constituição do Bispado; e mais mando que lhe dêem em cada ano, para sempre, 8 arratéis de cera para as candeiras das ditas missas, e quatro alqueires de azeite para alumiar a lampada da capela.

Rogo e recomendo aos ditos meus sucessores do dito morgado, que olhem pelo que cumpre e bom aproveito do dito mosteiro e procurem por ele, e quando souberem que tem necessidade de mantimentos, ao dito mosteiro de mantimentos o ajudem com suas esmolas como puderem.

E por aqui, disse ele, dito António Fernandes de Quadros, que havia seu testamento por acabado, e roga a mim, Bento Vaz, clérigo de missa, e morador no dito Couto de Tavarede e capelão de Nossa Senhora do Rosário e de Santo Aleixo, que este escrevesse, e eu a seu rogo o escrevi, e ele assinou por sua própria mão; o qual foi feito aos 8 dias do mês de Maio da era de 1540 anos. - António Fernandes de Quadros - e eu, Bento Vaz, o assinei por minha mão e reli.

- Mais disse que todos os bens que assim os ditos sucessores deixarem ao morgado, por via da terça, como por via de herança, sejam em bens de raiz aqueles que mais pertencentes forem ao morgado e não os tendo em raiz que se curem dentro de um ano.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

QUADROS - Os Senhores de Tavarede - 4

E, em Dezembro desse mesmo ano, surge a sua nomeação para “Juiz das Sisas de Tavarede”: D. João, etc. A quantos esta nossa carta virem, fazemos saber que confiando nós de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da nossa Casa e Adail da nossa cidade de Azamor, que visto nos servira sempre bem e fielmente, como cumpre ao serviço de Deus e meu, e a bem das partes pertence, e querendo-lhe fazer graça e mercê, temos por bem e o damos agora e daqui por diante, por Juiz das nossas sisas de Tavarede e seu ramo, assim e pela maneira que ele o deve fazer e o até agora foi Gil Gonçalves, que por um mandado do Contador da dita comarca servia, o qual lhe deu por bem do nosso Regimento, do qual ele agora renunciou em nossas mãos para o darmos ao dito António Fernandes, segundo pareceu por um público instrumento feito por Henrique, de Coimbra, aos sete dias do mês de Novembro passado deste ano de quinhentos e ….

… por virtude do qual lhe fizemos do dito ofício mercê, com o qual nos praz que ele haja de mantimento em cada um ano, sem ser do que as sisas dinheiro renderem, à razão de vinte reis por milheiro, até à conta de dois mil e mais são à custa dos rendeiros quando forem as vendas e quando não haver e os … e percalços, ordenamos a ele, pelo nosso Regimento, e se não houvera mais privilégios alguns dos rendeiros montante o dito rendimento e recebendo-se executar-se-á nele e as que não se dão aos juizes que … e os rendeiros lhas derem e incorrem nas penas que se dão àqueles que peitam Juizes e isto tudo segundo forma das minhas ordenações.

E mandamos ao nosso Contador e a dita comarca que o metam logo em posse do dito ofício e lho deixem servir e usar dele e haver tudo o que dito é, sem a ele pôr dúvida nem embargo algum, que lhe acho seja … porque assim é nossa mercê, o qual António Fernandes jurar na nossa Chancelaria aos Santos Evangelhos, que bem e verdadeiramente sirva o dito ofício, guardando o serviço de Deus e nosso e as partes seu direito, e pago ordenado dele mil e quinhentos reis.

Casado com D. Genebra (ou Genoveva) da Fonseca, filha de Lopo Fernandes de Azevedo, corregedor da Beira, e de D. Brites Afonso Coutinho, natural da ilha da Madeira, ‘senhora de distinta linhagem’, presume-se que nascida na vila de Montemor-o-Velho, e que era proprietária de ‘avantajados bens’ em Tavarede, mandou construir “umas casas nobres, que para aquele tempo, em que a vaidade não lançava os alicerces, são em tudo grandes: tem uma torre com ameias, o que se não permitia senão a pessoas de grande qualidade e são o solar desta família neste reino”. Note-se que, numa nota publicada nos finais do século dezanove na imprensa figueirense, se dizia que ‘… sobre os alicerces de uma antiga torre, ou vigia, ali existente, e nas fundações da qual se encontraram ainda uns estreitos cárceres com argolões que se desfaziam ao tocar-lhe, como se fora madeira podre – resistindo, aliás, muito bem à oxidação o chumbo que os fixava à pedra, e que se achou perfeitamente conservado”.

Senhores de vasta fortuna, com amizades e relacionamentos poderosos na Corte, foram sempre aumentando as suas propriedades, com a compra de terrenos pertencentes a pequenos proprietários e que os haviam adquirido, ou aforados, à Igreja de Santa Cruz de Coimbra, donatária de S. Martinho de Tavarede, como sabemos. E, como já referimos, visto não se considerarem com a obrigação de acatar o dever de pagar ‘terrádego’ ou qualquer imposto, desde logo começaram as demandas levantadas pelo Cabido.

Entretanto, uma carta régia, datada de 13 de Março de 1520, e emitida em Évora, ordenava à Igreja de Santa Cruz de Coimbra, que ‘mandeis meter em pregam a leziria da Aveirôa ou Oveirôa, que nunca fôra aproveitada por se cobrir de marés, e se empraze, em fatiota, a quem por ella der mais de fôro”. Eis a cópia do “Treslado de aforamento da Ínsua da Oveiroa”, posteriormente chamada Morraceira:

Saibam quantos este instrumento, deste dia para todo o sempre, virem, como aos onze dias do mês de Abril do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e vinte, na cidade de Coimbra, dentro do Mosteiro de Santa Cruz, estando todo o Cabido no lugar costumado, onde os semelhantes autos se usam fazer, estando aí presentes e juntos em Cabido, o Cabido como é de costume chamados por campainha tangida especialmente para o auto de que abaixo se fará mensão, convem a saber os muitos honrados Gaspar Fernandes, prior crasteiro e vigário no dito Mosteiro, pelo muito excelente e reverendíssimo senhor o senhor Infante D. Pedro, Cardeal de Portugal, etc., perpétuo administrador do dito Mosteiro, e os outros Cónegos e convento dele e outrossim, estando ali o muito honrado Gregório Lourenço, cavaleiro da Casa de El-Rei nosso senhor e Vedor do dito Mosteiro pelo dito senhor Cardeal, e também estando ali António Fernandes, cavaleiro da Casa de El-Rei nosso senhor e adail da cidade de Azamor, logo ali foi apresentado pelo dito Vedor uma carta assinada por El-Rei nosso senhor, endereçada a ele dito Vedor, a qual vinha sobre este caso da qual carta é o teor tal como se segue de verbo adverbum.

Gregório Lourenço. Nós, El-Rei, vos enviamos muito saudar, vimos a carta que nos escrevestes sobre a lezíria que chamam a Morraceira, que nunca fôra aproveitada por a cobrir as marés, e o mais que sobre isso nos escrevestes, e havemos por bem vos mandarmos que mandeis meter um pregão à dita lezíria e se empraze em fatiota a quem por ela mais der de foro em cada um ano e logo o fazei. Escrita em Évora, a treze dias de Março de mil quinhentos e vinte. Jorge Rodrigues a fez.

E apresentada assim a dita carta como dito é, logo pelo dito Vedor foi dito que ele, em cumprimento da dita carta de Sua Alteza, mandara logo um mandado ao juiz da vila de Redondos, terra e jurisdição do dito mosteiro, o qual mandado outrossim apresentou do qual o teor tal é como se segue de verbio adverbum.

- Juiz da vila dos Redondos, terra e jurisdição do Mosteiro de Santa Cruz, Gregório Lourenço, rendeiro da Casa de El-Rei nosso senhor e Vedor do dito Mosteiro pelo senhor Infante Cardeal, etc., meu senhor, vos faço saber que El-Rei nosso senhor me mandou por sua carta, que mandasse apregoar quem quizesse aforar a ínsua da Morraceira, que é do dito mosteiro, que se chama Aveiroa, para se aforar em fatiota a quem se obrigar a aproveitar e por ela mais der, e portanto vos mando, de sua parte, que atento que estiverdes, façais apregoar por essa vila a dita ínsua, dez dias, cada dia um após o outro cada dia, dois pregões pelo menos, perante o tabelião dessa vila, ao qual outrossim mando, da parte do dito senhor, que os ditos pregões escreva e os lanços que sobre a dita ínsua fizerem, e passados os ditos dez dias me enviem o auto que se disso fizer, por instrumento público, para se sobre tudo fazer o que Sua Alteza manda e cumprir assim uma e outro com muita diligência. Feito em Arazede aos vinte e oito dias de Março de mil quinhentos e vinte. Nuno de Parada a fez.

E apresentado assim o dito mandado como dito é, apresentou mais uns autos dos pregões que se, por virtude do dito mandado, fizeram, os quais pareceram ser feitos e assinados por Pedro Anes Sousino, público tabelião da dita vila dos Redondos, os quais se continham que a dita insua da Aveiroa, andara em pregão pelas praças e ruas da dita vila. A dez dias contidos no dito mandado, em cada um dos ditos dias dois pregões, e assim se mostra não lançarem pelas certas pessoas moradoras em Tavarede e Buarcos e que feitas as ditas diligências, se não achava quem em ela mais lançasse que o dito António Fernandes de Quadros, que nela lançou de renda e pensão em cada um ano trezentos e vinte reis e isto segundo eu, tabelião público, vi e li em presença das partes e das testemunhas que adiante vão nomeadas. A qual carta e mandado e autos assim apresentados como dito é pelos sobreditos fins. Crasteiro, cónegos e convento e Vedor do dito mosteiro foi dito que por virtude da dita carta de Sua Alteza e assim das comissões que tem do dito senhor Cardeal para os tais aforamentos poderem fazer, os quais são em poder de mim escrivão e tendo já sobre ele feito as diligências necessárias e sentindo assim por evidente proveito do dito mosteiro e mesa do prelado a que pertence, eles aforaram como logo de feito, aforaram deste dia para todo o sempre, a dita lezíria da Morraceira, que antigamente se chamava da Aveiroa, ao dito António Fernandes, para ele e sua mulher Genebra de Azevedo, e para todos seus filhos, netos e geração que deles para todo sempre descender, a qual lezíria disseram as ditas partes que partia de uma parte com a veia do Mondego e da outra com a veia de Lavos. Convém saber desde o arinho dos ovos, donde se as ditas veias afastam até ao pontão onde se tornam a juntar, a qual propriedade fica no limite de Buarcos, saber defronte da foz do Mondego onde o dito limite chega no meio do rio, a qual lezíria lhe assim aforavam como dito é, com tal preito e condição e condição que eles emprazadores e os que deles para todo o sempre descenderem e paguem para sempre em cada um ano ao dito mosteiro os ditos trezentos e vinte reis de foro e renda e pensão e haverão para si todo o proveito e frutos e uso que lhe Deus der na dita lezíria, assim de pão como sal ou a criação ou de qualquer outra coisa que dela se possa aproveitar como coisa sua e assim como pertence ao dito mosteiro e melhor se a eles melhor poderem sem de nada pagarem ao dito mosteiro coisa alguma senão os ditos trezentos e vinte reis, e eles, aforadores, não venderão nem trocarão nem em outra alguma maneira não alheara a dita lezíria nem parte dela, sem expressa licença e consentimento do dito mosteiro, sob pena de fazerem o contrário por esse mesmo feito perderem para o dito mosteiro todo o direito que nela tiveram, nem outrossim a partirão nem espedaçarão, mas antes para todo o sempre andará conjunta em uma pessoa e que por todas as coisas a este aforamento tocantes ele … e os que deles para todo o sempre descenderem sejam obrigados a responder perante o Ouvidor das terras do dito mosteiro, sem poderem declinar seu foro e juizo e começar a fazer a primeira paga da dita pensão pelo dia de S. Miguel de Setembro que vem, da era de quinhentos e vinte e um em diante em cada ano pelo dito dia, e disseram mais os sobreditos prior crasteiro, cónegos e convento e Vedor do dito mosteiro que querendo eles, os ditos aforadores, arrendar ou emprazar a dita lezíria por partes a lavradores pelo que bem lhes convier, o possam fazer sem mais autoridade e licença do dito mosteiro, pagando eles ditos António Fernandes e sua mulher e os que deles para todo o sempre descenderem, os ditos trezentos e vinte reis em cada um ano ao dito mosteiro, como dito é.

E o dito António Fernandes, que aqui presente estava, disse que ele por si e pela dita sua mulher, filhos e herdeiros nos recebera em si este aforamento da dita lezíria com todas as cláusulas e condições, penas e obrigações acima contidas, e se obrigava por si e seus bens móveis e de raiz … e jurava e de seus descendentes que para ele obrigou a tudo assim cumprirem e manterem e pagarem a dita pensão como dito é.

E os ditos prior crasteiro, cónegos e convento e Vedor do dito mosteiro obrigarão os bens e rendas deles a lhe fazerem este aforamento da dita lezíria para sempre, bom e de paz de quem quer que lho embargar quiser deles aforadores as condições deste contrato, o que tudo as ditas partes assim louvaram e outorgaram e prometeram cumprir e manter e em fé e testemunhas de verdade mandavam fazer uma nota da qual pediram seus instrumentos e os que lhe confirmam testemunhas que presentes foram, Fernando Anes, lavrador e morador em Antuzede e António Luís, criado do dito António Fernandes e outros.

Entretanto, António Fernandes de Quadros resolveu fazer um acordo com a Câmara da vila dos Redondos, sobre a aplicação de penas em que incorressem os moradores quanto a actos ou feitos ocorridos na Ínsua da Morraceira: Dom João, etc. A quantos esta minha carta virem, faço saber que por parte de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da minha Casa e Adail da minha cidade de Azamor, me foi apresentado um público instrumento com o treslado de um acordo e concerto que o concelho de Redondos, terra e jurisdição de Santa Cruz de Coimbra, com ele fizeram sobre as penas da sua lezíria da Oveiroa, e assim nas costas dele uma confirmação do licenciado João Vaz, Ouvidor das terras do dito Mosteiro, do qual, um após outro, o treslado é o seguinte:

- Saibam quantos este instrumento de treslado de um pacto, concerto e postura, dado por autoridade de Justiça, em pública forma, virem, como aos onze dias do mês de Agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e vinte e três, na vila dos Redondos de Buarcos, terra e jurisdição do Mosteiro de Santa Cruz, perante o honrado Vasco Anes Castelão, juiz ordinário, compareceu António Fernandes de Quadros, cavaleiro fidalgo da Casa de El-Rei nosso senhor e Adail de Azamor, e disse ao dito juiz que ele, com os oficiais da Câmara da dita vila, fizeram um pacto e concerto e postura e assento, sobre a guarda da sua lezíria da Oveiroa, no livro da Câmara, que lhe requeria lhe mandasse dar o treslado dele em público, para o confirmar com El-Rei nosso senhor, e visto pelo dito juiz seu requerimento, mandou a um tabelião e escrivão da Câmara da dita vila, que lhe passasse o dito instrumento, o qual entrepunha sua autoridade ordinária, que fizesse fé como o público original, o qual pacto de concerto, de verbo a verbo, é o seguinte:

Aos vinte e cinco dias do mês de Julho do ano de mil quinhentos e vinte e três, na Câmara da vila dos Redondos, estando aqui Vasco Anes Castelão, juiz ordinário na dita vila, e Manuel Rodrigues e Aleixo Afonso, vereadores, e Diogo Pires, procurador do concelho e bem assim Estevão Anes, carpinteiro, e Vasco Pires, homens da Câmara, com Vicente Esteves e Pedro Anes Carnide e Fernão Alvares, alcaide, e Álvaro Gonçalves e André Pires, ferreiro, e muitos homens do povo, e assim estando ali António Fernandes de Quadros, cavaleiro fidalgo da Casa de El-Rei nosso senhor, e da Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Adail da cidade de Azamor, logo pelo dito António Fernandes foi dito que ele tinha a lezíria da Oveiroa, segundo logo mostrava por uma carta patente de El-Rei Dom Manuel, que santa glória haja, e assim a mostrou um mandado que tinha de quinhentos reis de pena, a quem lhe, na dita lezíria, lançasse bois ou bestas ou lhe tomarem coisas dela ou lhe fizessem outro qualquer dano, o qual por a dita vila fôra apregoado por mandado da Justiça, segundo se pôs a procuração e assento por um tabelião escrivão da Câmara, e que por lhe parecer que a pena de quinhentos reis é muito grande, e assim por outros respeitos que a isso moviam a ele lhe aprazia como defeito, logo aprouve de não usar mais do dito mandado e penas e provisões que tinha e lhe aprazia que eles todos juntamente em Câmara ordenassem e puzessem aquelas penas que lhe bem parecessem e honestas fossem e nem a dita sua lezíria fosse guardada e o povo não fosse escandalizado, o qual visto tudo por o dito juiz, vereadores e procurador e homens bons e outros que ali se achavam, assim sem dizer como as penas serem grandes e as provisões que sobre isso tinha, lhes agradeceriam o que lhes faziam e todos logo, juntamente com a dita Câmara, ordenaram … da dita lezíria no modo seguinte: Que todo o boi ou vaca ou besta, ou outra qualquer alimária, que se a dita lezíria passasse contra vontade do seu dono, não pagasse mais que trinta reis por cabeça, e toda a pessoa que por sua vontade ou acintosamente lançasse ou mandasse lançar seu gado ou qualquer outra coisa sem licença do dito António Fernandes ou lá fosse achado lançando ou tirando o dito gado ou tomando-lhe alguma coisa de seu ou das que na dita lezíria sua se criam, pagasse trezentos reis de cadeia e assim aqueles que dentro da dita sua lezíria armassem ou atravessassem algumas redes, porquanto fez certo que com elas lhe causarão ou danificarão sua criação e que porquanto a dita sua lezíria estava entre duas “veàntes” no meio do rio, onde não podem ir sem batel para tirarem o gado fora e poderem trazer ao curral desta vila, ordenam que para melhor guarda da dita lezíria e menos opressão e perigo do gado, ele António Fernandes de Quadros fizesse à sua custa cerrado na dita lezíria em que se o gado bem cerrasse e apresentasse uma pessoa a que fosse dado juramento em Câmara, por o Juiz dos Santos Evangelhos, que bem verdadeiramente guardasse a dita lezíria e encerrasse os ditos gados e tomasse as ditas redes quando lá as achar e das ditas penas e coimas serão o terço para o concelho da dita vila, do qual assento e postura e pacto e concerto o dito António Fernandes aprouvesse e assim do dito Juiz e oficiais e homens da Câmara mandam a mim, escrivão da Câmara, que assim o escrevesse neste livro da Câmara e pediam ao Corregedor ou a El-Rei nosso senhor, que assim o confirmasse. E eu Pedro Anes Sousino, escrivão da Câmara da dita vila, o escrevi e eles todos por verdade o assinaram.

E treslado assim o dito assento do dito livro da Câmara, por mim tabelião, bem e fielmente o dito António Fernandes pediu o dito instrumento e o dito Juiz lho mandou dar. Testemunhas que foram presentes Pedro Anes Carnide e André Pires. Moradores um em a dita vila e outro. Eu Pedro Anes Sousino, tabelião público em a dita vila por El-Rei nosso senhor, que o escrevi e em ele meu público sinal fiz que tal é. Vi cá o licenciado João Vaz, Ouvidor nas terras de Santa Cruz, pelo mui ilustre e reverendíssimo senhor, o senhor Infante D. Henrique, cardeal perpétuo, Administrador do dito Mosteiro, etc.

Este concerto e concórdia feita entre o concelho da vila de Redondos, terra e jurisdição do dito senhor e seu Mosteiro, com António Fernandes de Quadros, cavaleiro da casa de El-Rei nosso senhor, sobre a guarda da lezíria da Oveiroa e penas e coimas dos gados e pessoas que ali fizerem danos e forem contra a vontade dele dito António Fernandes fazer algum dano, pelo qual me faz pedido que lhe quizesse confirmar assim como entre ele e o conselho da dita vila, em cujo termo este é acordado e assentado e que a concórdia é boa e justa e feita a prazer de partes a quem toca e pertence, e eu em nome do dito senhor Infante Cardeal e como seu Ouvidor, a prova a hei por boa por ela tal ser por boa guarda … dela e das novidades e frutos dela e mando que assim se cumpra e guarde e de para sempre a instituiram como entre eles está acordado e assentado e para fé e certidão fiz e assinei este aos vinte e nove de Dezembro de 1523.

Pedindo-me o dito António Fernandes por mercê que lhe confirmasse o dito concerto e visto seu requerimento e como é a prazer de partes e assim a certidão do dito Ouvidor de como lhe parece bem e o aprova, por lhe fazer mercê me praz disso e por este lho confirmo e aprovo e hei por bem o dito concerto e acordo assim e na maneira que se em ele contem, e mando ao dito Ouvidor e juizes oficiais e outros quaisquer a que pertencer, que mui inteiramente lho cumpram e guardem e façam cumprir e guardar assim como nele é conteudo, porque eu o hei assim por bem e lhe dei disso esta minha carta por mim assinada e selada de meu selo pendente. Dada na minha cidade de Évora, a cinco dias de Outubro. Brás Afonso a fez, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e vinte e quatro.

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 28

1958.01.15 - A NOSSA CASA, EM COIMBRA (O DESPERTAR)

“Começou a época teatral em Coimbra”, poderíamos nós escrever se, de facto, a esta frase linda correspondesse uma realidade. Infelizmente não é esse o caso e, de acordo com as ideias que temos exposto em O Despertar, preferimos dizer que “tendo acontecido ser necessário um amparo financeiro às obras sociais do Centro Operário Católico e da Liga Operária Católica Feminina, aconteceu que uma Comissão se constituiu e foi pedir o auxílio, sempre pronto para a generosidade, do Grupo de Tavarede, que, uma vez mais, veio até Coimbra, oferecendo-nos o acontecimento teatral, que oxalá não seja único, desta época de 1957-58 – a “reprise” de “A nossa casa”, de George Mitchell, em tradução de António Sacramento”.

Há duas épocas, para o Asilo da Infância Desvalida; na época finda, para a Associação de Socorros Mútuos dos Empregados no Comércio e na Indústria (e não queremos alongar-nos citando as apresentações anteriores, sobre as quais nada escrevemos, e de que beneficiaram tantas outras instituições coimbrãs) – sempre o Grupo de Tavarede, grupo de trabalhadores que consagram os seus ócios a cultivarem-se e a prepararem-se para difundir a Cultura através do Teatro, tem vindo dar esta tripla lição de Arte, Benemerência e Constância de propósitos à cidade dos doutores, à Lusa Atenas.

... E Coimbra que, desde 1933 e quase anualmente (nalgumas épocas até mais de uma vez) assiste às lições, com uma cabulice que não se justifica, só tem demonstrado, sem discussão, que nada aprende, fazendo-nos recear até que se encontre já insusceptível de aprender alguma coisa de útil.

E – basta de lamentações!... – vamos à peça.

“A nossa casa”, de Mitchel, é, realmente uma peça muito interessante e curiosa – interessante porque, de onde em onde, afloram problemas de interesse (como sejam, além do fundamental da peça, quando o pequeno Cláudio, no III acto, afirma: “Se afinal é uma questão de dinheiro que os separa, é preciso reconhecer que o dinheiro é uma coisa muito má” ou, também no III acto, quando o avô Bonardon reconhece “É muito mais fácil ser bom do que ser justo”); curiosa porque, à velha maneira da tragédia grega, a luta não se estabelece propriamente entre personagens, mas entre a personagem principal e a fatalidade suprajacente. Daqui a existência de um protagonista – o armador Bonardon – e deuteros e tritagonistas, e resquícios de um coro (não explicativo, pois de tal não havia necessidade), a enquadrá-lo, a realçar-lhe todas as suas virtudes positivas ou negativas.

Neste momento julgamos indispensável dar um resumo da acção para que os leitores, que não conheçam a peça, possam acompanhar a nossa ideia

Cláudio Bonardon, importante armador de veleiros do Havre na transição dos séculos XIX-XX, tem uma ambição na vida: - a manutenção do seu nome (diremos melhor: - do seu apelido), cada vez mais firme e mais digno. Face aos Montmorencys, aos Angoulêmes, aos d’Herblays, duma aristocracia em decadência, ele quer impor cada vez mais o seu burguesíssimo Bo-nar-don, criado por ele próprio, à custa do seu esforço, da sua perseverança, da sua luta incessante, da conquista progressiva das rotas comerciais de todos os oceanos.

O seu único filho, Cláudio como ele, foi um fracasso. Como é frequente nos filhos de pais ricos que, não obstante todas as suas boas intenções familiares, não conseguem educar capazmente os seus descendentes, Cláudio II foi um mau filho, um péssimo marido (havia casado com Mariana, filha de Próspero Parjolier, velho e dedicado empregado da casa, só dado à bebida e aventuras fáceis, e com um só mérito – deixar descendência. O primogénito foi uma rapariga, mas, anos depois, Mariana havia dado à luz um rapazinho que passou a ser o alvo de todas as atenções do velho Bonardon – a criança seria Cláudio III, o continuador do nome.

E a vida, bafejada pela prosperidade, decorre calma e feliz, com Bornardon em discussões amigáveis com Parjolier (de quem é tão amigo que com o seu nome baptisa o mais recente veleiro que tem em construção) acerca dos seus netos, a acarinhar e a promover a educação de Cláudio e de Cristina, a estimar a nora e a tentar adivinhar a causa da tristeza que esta patenteia permanentemente. Isso não o impede, claro está, de zelar os seus interesses, confessando que manda alimentar e cuidar dos seus contratados como nenhum outro armador, pela razão simples de que, sabendo eles tal coisa, não desertarão dos seus navios, colocando-o em dificuldades.

Um dia, porém, a fatalidade fez-lhe conhecer a realidade terrível: - Mariana tivera um amante ainda durante a vida do marido, e um dos seus filhos não é o de Cláudio Bonardon II mas do amante, de João Remy. E então surge o grande problema do velho Bonardon – não o facto da nora ter tido um amante, mas o facto de ter tido um filho dele, e, portanto, ou Cristina ou Cláudio não ser, realmente, um Bonardom.

Ameaças, rogos, subtilezas, de tudo o velho Bonardon se serve para se esclarecer, para resolver o seu problema – o problema da manutenção da casa, que nós melhor diriamos: da persistência do seu nome – mas sempre em vão.

Passados três meses, ao fim de milhentas deduções, Bonardon chega à conclusão horrorosa de que seu filho havia sido o pai de Cristina, mas Cláudio era o resultado do adultério de Mariana com João Remy. Cláudio, oficialmente Bonardon também, no qual depositava todas as suas esperanças, era afinal, e de facto, Cláudio Remy. Pois bem, procederá como deve proceder Cláudio Bonardon, armador de navios, do Havre, conhecido em todo o mundo.

E quando o público supõe que o velho armador acabará por ceder, não propriamente com receio do escândalo mas por ter um continuador do seu nome (solução já explorada por romancistas e teatrólogos – lembramo-nos, de repente, Paço de Arcos, supomos que no “Caminho da culpa”), a verdade é que ele cede, sim, mas porque, tal como acontecia ao velho criado Justino em relação ao afilhado João Marru, ama entranhadamente o seu pequeno Cláudio, porque foi ele que o educou e dele recebeu todos os tesouros que a infância e a juventude concedem sempre aos seus educadores. Bonardon reconhece que – como o nosso Povo diz: “tê-los é dor; criá-los é amor” – não é rigorosamente justa a sua decisão, mas é a única admissível, porque é humana.

... E tudo acaba em bem.

Esta é a história, vejamos o seu desempenho:

O protagonista, já o referimos com a acepção grega clássica, é Bonardon. João Cascão foi, realmente, Bonardon – nada mais nos parece necessário acrescentar. Apesar disso não podemos deixar de dar o merecido realce à forma como segurou a cena do II acto, contracenando com Violinda (a quem cabem iguais louvores), interrompida pelo gargalhar da assistência como comenta; “O bom Deus meteu-se numa coisa que não lhe dizia inteiramente respeito!”.

Violinda Medina e Silva defendeu a sua Mariana com toda a sua arte e experiência do palco. Não podemos esquecer sua excelente mímica, por exemplo, ao entrar pela primeira vez em cena, quando o pequeno Cláudio transpõe a janela para ir abraçar, mais depressa, o velho Bonardon.

Parjolier foi dado, muito razoavelmente, por José do Nascimento.

Teresa de Oliveira foi Mamette, a criada de confiança de Mariana e sua intermediária na recepção das cartas de João Remy. Não tão feliz como quando nos deu a Morgada de Loures, de “A Conspiradora”, teve uma actuação meritória, só nos parecendo ter de corrigir o andar marcial que algumas vezes utilizou e um encolher de ombros demasiado repetido.

Aurélia Serra, que tão boas provas dera na Maria Helena, de “A Conspiradora”, teve uma interpretação episódica em que cumpriu inteiramente.

João de Oliveira Júnior compoz muito bem o seu tabelião Égalisse. Não nos surpreendeu, aliás, dadas as suas actuações anteriores em “A Conspiradora” (Conde de Riba de Alva) e no Miguel de Sande (dos “Peraltas e Sécias”)

Justino foi João Medina, e os créditos conseguidos com o Marquês de Sande (nos “Peraltas e Sécias) mantiveram-se, não obstante no início da peça ter dado pouco audivelmente duas frases, de interesse para a caracterização da personagem e ulterior resolução do conflito, referentes à chegada do seu afilhado Marru e ao enorme interesse em ir recebê-lo.

João Marru, segundo ouvimos dizer, não foi realmente desempenhado por Manuel Cerveira, impossibilitado de comparecer por doença. O seu substituto houve-se, porém, com toda a galhardia, o que aliás era de esperar num soldado da infantaria da marinha...

Um carteiro completou o elenco com os dois jovens Madalena Nogueira (Cristina) e Armando Braz (Cláudio). Sobre o primeiro nada há a referir em seu desabono; quanto aos dois manos só há que afirmar-lhes isto: - Deram boas provas, têm bom Mestre e conscienciosos Condiscípulos mais velhos. Não se envaideçam, não esqueçam as lições que constantemente estão a receber – e continuem trabalhar!

O ponto, António Domingues, desta vez ciciou um pouco mais forte do que é habitual; a contra-regra de Adriano Silva foi certa, como sempre. Permitimo-nos, porém, chamar a sua atenção para o movimento do pano do fundo do I acto, representantivo do oscilar dos barcos, e para as sombras projectadas no pano do fundo do III acto pelas personagens que iam entrar em cena mas muito antes de ser admissível que essas sombras fossem vistas.

Os cenários, dentro do estilo da peça, eram bons (um pouco menos bom, a nosso ver, o do I acto), e o mobiliário certo no II acto, um tanto heteróclito no I e admissível (ou não, conforme os critérios) no III. Devemos esclarecer, desde já, que, para nós, este mobiliário estava certo, pois condizia à riqueza da sala, e julgamos que nada impedia um armador do Havre, relacionado comercialmente com todo o Mundo e que servia aos seus convidados Vinho da Madeira, de ter em casa uma mobília D. João V. Seria mais lógica uma mobília Império ou em estilo flamengo – e onde encontrar essas mobilias nesta Coimbra doutora? -, mas a D. João V utilizada estava de acordo com o ambiente.

As caracterizações, como sempre, perfeitíssimas e a orquestra actuou com agrado. Pormenor saboroso: a assistência manteve-se muda e quêda quando foi executada, em muito bom nível, a selecção da ópera Madame Butterfly, de Puccini, e, em parte, palmeou quando (extra-programa) a orquestra tocou um fado. Absolutamente elucidativo!

Duas palavras sobre a tradução. Não conhecemos o original de Mitchel, por forma que, em consciência, não podemos avaliar devidamente os méritos do tradutor. Uma expressão, em todo o caso, nos feriu a atenção no III acto, além da repetição insistente de brutal, e palavras derivadas, no II e no III – quando Parjolier diz a Bonardon: “Venho dar-te a minha demissão”.

Manifestamente que teria sido preferível empregar a frase: “Venho apresentar-te a minha demissão”, pois, entre nós, quem dá ou concede a demissão é o superior hierárquico e, quem se quer demitir, pede ou apresenta a sua demissão. Igualmente nos parece que teria sido preferível, por menos complexo, substituir a frase de Bonardon para Parjolier, também no III acto, “... uma pergunta para me identificar completamente” por estrouta: “uma pergunta para me elucidar (ou esclarecer) completamente”. Utilizando o verbo identificar, julgamos que a frase deveria ter sido completada, por exemplo, do modo seguinte: “... para me identificar completamente com esse vosso enredo”.

E chegámos à encenação.

A peça, como não podia deixar de ser, foi encenada por José Ribeiro – o que significa que as marcações são perfeitas, a cena está sempre equilibrada, a movimentação das figuras é harmoniosa e lógica, e as personagens sabem para onde vão, quando devem ir e porque vão para lá. Num pormenor, porém, discordamos, desta vez, de José Ribeiro – em não ter vestido a peça à moda de 19... e poucos (os únicos problemas seriam os vestuários de Mariana, Cristina e Cláudio), pois isso destruiria o efeito de perplexidade ao depararmos um guarda-livros embaraçado para rectificar uma soma errada na importância de oito cêntimos ou a surpresa agradabilíssima de Mariana e Cristina por receberem, em recordação da viagem efectuada por Bonardon a Ruão, mil francos cada uma, que actualmente mal lhes permitiria comprar (se permitisse) um par de meias. É certo que na parede do escritório (I acto) lá estava um cartaz anunciador de um Congresso de Pesca de 1910 ou 1912, mas isso teria sido visto (se é que foi) num acto, e o vestuário actual das personagens estava sempre presente.

Vão extraordinariamente longas estas apreciações (o António de Sousa deve ter apertado as mãos na cabeça não sabemos quntas vezes...) mas julgamos que a obra de Cultura que José Ribeiro e o Grupo Cénico da SIT têm realizado e continuam a realizar, merece bem que lhe concedamos a nossa atenção interessada.

Mais uma vez, pois: - Muito bem! E... até aos “Velhos”!

1958.03.13 - FREI LUÍS DE SOUSA, EM POMBAL (O ECO DE POMBAL)

Pombal teve o prazer de assistir a mais um magnífico espectáculo do grupo cénico de Tavarede.

Como sempre, a gentileza do consagrado mestre que é o sr. José Ribeiro, a contracenar com a extraordinária habilidade do seu grupo.

Tivemos oportunidade de lhe dizer que ainda para além da actuação no palco admiravamos o que a acção de tão simpático agrupamento encerra de generosidade e altruísmo. Assim é. Quem vem de tão longe e com tão complicadas bagagens para regressar altas horas da noite a sua casa sem outra recompensa que não seja a satisfação de ter dado mais um passo ao encontro do seu semelhante, é porque tem, realmente, um conceito de fraternidade que impõe a maior consideração e respeito. Do contraste com o egoísmo que caracteriza os tempos que vão correndo, resulta a admiração que afirmamos.

“Frei Luís de Sousa” teve nos amadores de Tavarede uma interpretção que facilmente leva qualquer espectador desprevenido à convicção de que está em presença de bons profissionais. Telmo Pais, Maria e Madalena estariam bem em presença de qualquer intérprete exigente do pensamento de Garrett.

Esta referência especial não representa reparo aos restantes, tanto mais que, em naturalidade, não conhecemos melhor do que aquele Frei Jorge que nos dizia o que queria falando com as mãos e com os olhos.

Colocando-nos neste ponto de observação sentimo-nos à vontade para discordar do sr. José Ribeiro o referir, nas suas palavras à assistência, um “recurso ao ferro velho” na classificação dos recursos dos seus dedicados colaboradores.

Enternecedora a simplicidade da cerimónia em que uma velhinha beneficiária da “Sopa dos Pobres”, entregou ao Director do Grupo um ramo de flores brancas, a que o Presidente da Direcção dos Bombeiros, também em nome da Direcção da Sopa dos Pobres, chamou o testemunho da sinceridade que aquelas duas instituições punham nos seus agradecimentos.

O sr. José Ribeiro, num dos fidalgos gestos que o caracterizam, beijando as mãos daquela “sua irmã” mais desprotegida, afirmou, como única preocupação em toda a sua actividade, contribuir desinteressadamente para minorar o sofrimento do próximo, pela eliminação das necessidades e sofrimento do nosso semelhante.

Agrada-nos registar o entusiasmo com que o público de Pombal aplaudiu tão simpático como distinto e conceituado agrupamento.

Finalizamos estas considerações transmitindo a todos – Grupo Cénico de Tavarede e público de Pombal – os melhores agradecimentos dos Bombeiros de Pombal e da Sopa dos Pobres.

Foi um esforço magnífico em que alguns pombalenses deram a sua contribuição de dois modos, tendo outros marcado a sua presença embora impossibilitados de assistir ao espectáculo. Pena foi que os resultados não fossem materialmente mais compensadores, por terem sido grandemente prejudicados por encargos que não foi possível evitar.

1958.07.05 - OS VELHOS, NO PENINSULAR (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

D. João da Câmara, poeta e dramaturgo, escreveu muitas peças teatrais, de géneros diferentes, passadas em meios de várias camadas sociais, e desde a simplicidade rústica do nosso povo, que ele, como poeta, tão bem soube apresentar, às peças de tema e até de tese de difícil realização, venceu sempre todas as dificuldades de efabulação e triunfou, pois que as suas obras foram compreendidas e aplaudidas pelo público e elogiosamente analisadas pela crítica.

Das suas peças, algumas passaram à posteridade, tendo sido sempre, do reportório de fundo das Companhias de declamação.

Mas entre elas, as que o público mais consagrou, foram “Os Velhos” e a “Triste Viuvinha...”.

E razão? Sem dúvida por serem aquelas em que o dramaturgo, se encontrou com o poeta, o poeta simples, que no seu lirismo cantava o que no nosso povo e na nossa paisagem, há de belo e encantador.

Não ouso apreciar nestas ligeiras notas, a obra de D. João da Câmara e nem poderia dizer mais do que ao correr do pano, disse José Ribeiro com a sua eloquência.

Felicito este apaixonado, estudioso e sabedor homem de teatro, que com amor e dedicação dirige o grupo cénico de Tavarede, por preferir o bom teatro português, pela escolha acertada das peças, visão nítida e perfeita da interpretação geral e justa e adequada realização cénica.

Bem haja José Ribeiro pelo carinho que dedica ao teatro, que, bem escolhido e bem apresentado, foi e será sempre um valiosíssimo elemento de cultura popular.

Os amadores, que desempenharam “Os Velhos”, alguns já veteranos, pisando o palco com firmeza e àvontade, e outros mais novos, mas cheios de belas qualidades, sob a regência da batura de José Ribeiro, deram à representação um ritmo, uma simplicidade e realismo que é raro ver-se em teatro de amadores. Salientarei, por que acho ser de justiça fazê-lo, a perfeita interpretação de João Cascão, no Patacas, a de Violinda Medina, na Emília, estes mais senhores da cena, sendo muito boas e perfeitas, as dos outros intérpretes, Fernando Reis, António Jorge da Silva, João Medina, João de Oliveira, Maria Tereza de Oliveira, Helena Medina e Maria Isabel Reis, que com inteira justiça foram aplaudidos pelo público.

Parabéns a José Ribeiro e ao Grupo Cénico de Tavarede.

1958.07.10 - TEATRO – “OS VELHOS” (A VOZ DA FIGUEIRA)

Com o louvável propósito de assinalar a passagem do cinquentenário de D. João da Câmara, ensaiou o destacado grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, a comédia “Os Velhos”, obra-prima do glorioso dramaturgo, que foi apresentada ao público da Figueira em récita realizada na última quarta-feira, no Teatro do Peninsular, razoavelmente composto, e pena foi que não estivesse “à cunha”. A categoria do espectáculo plenamente o justificava.

Antes de subir o pano, José Ribeiro, director do grupo cénico, preleccionou, em exposição fluente, sobre este seu novo empreendimento, dissertando largamente acerca do teatro e da figura de D. João da Câmara.

Acerca da representação, nada mais haverá a acrescentar, dizendo que foi confiada a Violinda Medina, António Jorge da Silva, João Cascão, Fernando Reis, João Medina, Maria Isabel Reis, Helena Medina e Maria Teresa de Oliveira.

Qualquer deles provou arcar galhardamente com o peso das responsabilidades, embora alguns mereçam destaque especial tal o cunho artístico e impecável rigor que imprimiram ao papel que lhes foi confiado, elevando a representação ao nível de um grande espectáculo, honroso para profissionais quanto mais para simples amadores da arte de representar.

Parabéns, por isso, a todos e ao seu ensaiador.

É igualmente meritória a resolução de homenagear a memória de D. João da Câmara, por parte da Sociedade de Instrução Tavaredense, o que aliás está sempre presente na sua preocupação de prestar culto às grandes figuras da dramaturgia portuguesa.

1958.08.02 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

Mais uma vez em cena “Os Velhos”, de D. João da Câmara, pelo magnífico grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, no Teatro do Grande Casino Peninsular, no próximo sábado, 9.

Falar deste grupo cénico, com esta ou aquela peça, é falar de José Ribeiro, dessa alma de artista, conhecedor profundo da arte de Talma, que estuda e faz interpretar as obras dos melhores autores e por quem, Santo Deus!, pelos seus conterrâneos, pelos filhos de Tavarede. É aí que forja os seus artistas, os seus colaboradores e os apresenta orgulhosamente em qualquer parte, porque em qualquer parte os pode apresentar, sem desdouro para a Arte nem para quem os molda.

Temos visto já bastantes peças do seu escolhido e fino repertório. Sempre obras dos melhores autores, e é sempre o mesmo cuidado, a mesma meticulosidade nos mais pequenos pormenores, resultando sempre obra perfeita, muito mais se pensarmos que se trata de amadores e não de profissionais.

José Ribeiro, além de ser a alma e vida do Grupo Tavaredense, é, sobretudo, um educador afincado da gente da sua terra, porque o teatro, queriamos dizer o palco, é uma escola de alto valor educativo. Vai-se a Tavarede, fala-se com qualquer pessoa que nos apareça e vê-se, nota-se logo o efeito dessa escola: aprumados, correctos, bem falantes, afáveis mesmo.

José Ribeiro dá sempre o exemplo de bondade e correcção, sempre pronto a acudir a um aflição, a praticar um acto de benemerência, levando atrás de si, e da melhor vontade, os seus colaboradores, os seus amigos.

Que a sua modéstia se não sinta tocada por estas simples palavras que nos acudiram ao bico da pena, pois bem sabemos que nos faltam merecimentos para falar de quem está acima de nós.

“Os Velhos” voltam à cena. Vale a pena ir vê-los, e que a casa se encha de amantes da boa Arte, do bom teatro.

1958.10.23 - OS VELHOS, NA MARINHA GRANDE (REGIAO DE LEIRIA)

...................

A direcção da peça, entregue, como sempre, a essa singular figura que é José da Silva Ribeiro, sem dúvida um dos maiores mestres do teatro português, decorreu de maneira tão impecável que nós “carolas” de teatro pasmamos como consegue, num palco tão pequeno, marcações tão primorosas num delineamento de figuras e ambientes, gestos e atitudes talhados com uma vida e humanidade próprias só dum artista em toda a plenitude do seu saber. Parabéns, José da Silva Ribeiro.

Das personagens diremos algumas palavras, afirmando no entanto, desde já, a uniformidade de todo o conjunto, sobrelevando valores individuais, aliás conforme as tendências do moderno teatro, que exige espírito de equipa e não saliências de cartaz.

João Cascão, foi o velho Patacas e houve-se de maneira admirável, sem um deslize, uma falta de pormenor e co m maleabilidade extraordinária, dando-nos uma figura plena de arte e humanidade. Não se faz melhor.

António Jorge da Silva, portentoso no seu Bento, o velho barbeiro bonacheirão, encheu o teatrinho da Marinha Grande, da sua graça imensurável. O seu apontamento do jantar no 3º acto é uma lição de arte de representar.

Fernando Severino Reis, no prior cego, soube compor a figura, talvez a mais difícil da peça, com um aprumo extraordinário, embora a voz por vezes atraiçoasse um pouco o moço encoberto nas vestes rígidas, mas dando-nos no entanto a emoção necessária que resulta da sua intriga.

Porfirio, o velho professor, de paixões recalcadas, grande no sofrimento, maior nas suas citações latinas, tirando dos seus fracassos, forças para lutar e sofrer pela felicidade de seus amigos, teve em João Rodrigues Medina um intérprete esplêndido, de recortes preciosos e desmarcações maravilhosas. Das três velhas, interpretadas por Violinda Medina e Silva, Maria Teresa de Oliveira e Helena Rodrigues Medina, só falaremos para lamentar que valores como estes, tão grandes e tão artistas, se percam um dia para a Arte sem terem jus ao nome que lhes compete. Simplesmente arrebatadoras.

João de Oliveira Júnior, deu-nos um Júlio talvez pouco convicente e inexperiente, mas soube ser correcto, não desmanchando o conjunto. É um valor de futuro a aproveitar.

Maria Isabel Reis, em Emilinha, emprestou toda a sua frescura e beleza ao papel, e estamos certos que com mais experiência se fará uma belíssima artista, pois tem figura e qualidades, que a farão impor defiitivamente.

1958.11.12 - OS VELHOS, EM COIMBRA (O DESPERTAR)

Quando finalizámos a nótula que subordinámos ao título “O Velhos no Avenida” (in O Despertar, nº 4187, de 1 do corrente) foi real e sinceramente esperançados que escrevemos: “Como vai reagir o público de Coimbra? Cremos, apesar de tudo, que bem. Impenitentemente, talvez, nós confiamos que o Povo de Coimbra saberá ir dizer ao Avenida, na noite de 3 de Novembro: - “Obrigado, Tavaredenses! Nós estamos convosco”. Pois bem, quando nos dirigíamos para o Teatro Avenida não pudemos evitar que um certo grau de ansiedade se apoderasse de nós – é que, ao fim e ao cabo, tratava-se de Os Velhos e não de um qualquer Fogo no Pandeiro, pois em casos destes é que os automóveis costumam estar... para cima dos Bombeiros. Mas, não!, a casa estava cheia, verdadeiramente cheia e isso deu-nos duas consoladores certezas: - uma, de que os Conimbricenses sabiam manifestar a sua justa gratidão pelos Amadores de Teatro que tantas e tantas vezes vieram dar o seu esforço desinteressado em prol das instituições de assistência locais; outra, de que neles ainda não se perdeu o gosto pelo Teatro.

Permita-se-nos, pois, que, ao invés do que seria legítimo esperar, comecemos por escrever: - Bravo, Conimbricenses! Cumpristes o vosso dever com galhardia e marcastes reais possibilidades de colaborar na salvação do Teatro Português, o mesmo que dizer, da Cultura Nacional.

Os gostos, porém, nunca podem ser completos e isso mais uma vez se verificou pela ausência forçada (pelo falecimento muito recente de pessoa de família e estado grave de uma outra, em resultado de acidente de viação) de D. Maria de Jesus da Câmara, filha do autor da peça que se representava, D. João da Câmara, e cuja memória se pretendia homenagear no cinquentenário da sua morte. Estivesse presente – pudesse ter estado presente – D. Maria de Jesus e teria a justamente orgulhosa satisfação (embora orvalhada de lágrimas de saudade) de sentir que uma parte dos aplausos que coroou o intensivo e brilhante labor dos Amadores Tavaredenses eram também para seu Pai, comprovando assim, com factos objectivos, as asserções de Luís Francisco Rebelo quando escreveu: “João da Câmara foi um dos dois únicos dramaturgos portugueses do Século XIX que falaram uma linguagem susceptível de ainda interessar as plateias de hoje. O outro, desnecessário seria dizê-lo, foi Garrett” e também “... é nesta lição de simplicidade, de poesia, de humildade... que reside a força, ainda viva, de Os Velhos”,

E, posto isto, falemos do espectáculo:

Foi um espectáculo do Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, do grupo que José Ribeiro, com inexcedível carinho e muito saber, tem orientado e impulsionado – e isto quase dispensava maior notícia. Mas não queremos nem podemos – e não devemos – limitar-nos a tão pouco, (embora, simultaneamente, fosse tanto..., por forma que, em breves linhas, apreciaremos um pouco mais detidamente a forma como nos foi dada essa jóia do teatro de D. João da Câmara.

Comédia de contrastes em que os dois jovens – Emilinha e Júlio – quase que só existem para pôr em evidência as reacções de Os Velhos, as honras da noite couberam aos amadores que se encarregaram dos papéis de Patacas, Prior, Bento, Porfírio, Emília, Ana e Narcisa. E que esplêndido grupo foi esse!

João Cascão foi um óptimo, diremos até, um inultrapassável Patacas. Não sabemos qual é a sua profissão na vida real, mas ali, nas tábuas do palco, foi, indiscutivelmente, um lavrador autêntico, franco, hospitaleiro, hábil, um tanto autoritário, e também manhoso, zelando os seus interesses, e implicante de quando em vez, se já estava com um grãozinho na asa. Muito bom.

O papel de Prior encontrou um excelente intérprete em Fernando Reis. A difícil, a dificílima criação – na justa medida, que é o que interessa – de cego, mantida no nível adequado durante todo o espectáculo, não nos poderá esquecer jamais. Muito bom, igualmente.

António Jorge da Silva foi o Bento, barbeiro, indispensável. Velho solteirão a quem os amores infelizes não azedaram o ânimo, antes continuando sempre pronto para a brincadeira e molhadelas de boca, esta figura foi optimamente desempenhada por Silva. Merece também um bravo.

A João Medina coube desempenhar o papel de Porfírio – Porfírio da Encarnação Gomes, como rezava a planta cadastral -, mestre-escola com uns lumes de humanismo que o levava a introduzir nas conversas algumas citações latinas de duvidosa compreensão pelos seus auditores (salvo, naturalmente, o padre prior) mas de seguro efeito psicológico, maxime na mana Anica, embora isso pouco lhe interessasse. De todos os velhos era, para o nosso critério, o de mais difícil execução precisamente por ser o de menor brilho. Medina defendeu-o em condições de merecer boa nota.

Violinda foi Emília. E quando basta designar uma actriz, profissional ou amadora, por um nome só, isso significa que a sua maneira de actuar criou já... um nome. Poderemos, pois, acrescentar uma segunda parte à frase inicial deste período: - E Violinda continuou a ser Violinda.

Ana foi representada por Teresa de Oliveira. Excelentemente, é a síntese de tudo quanto poderíamos escrever para apreciar o seu trabalho.

Helena Medina foi a Narcisa que aquele grupo de velhos impunha. Muito bem.

Falta-nos falar dos dois amadores a quem couberam os ossos da peça. É que aos velhos o público olha-os com a ternura que as suas idades lhes fazem reivindicar, pois, afinal, eles, com as suas caturrices e as suas generosidades, as suas ideias fixas e as suas manifestações de bom coração, ainda hoje são como no tempo em que D. João da Câmara foi situar a sua peça – os jovens é que são algo de diferente, e todos nós sentimos isso.

Isabel dos Reis foi, apesar de todas as dificuldades decorrentes do que atráz dizemos e quanto a nós, uma boa Emilinha. Disse, ouviu, andou e gesticulou genericamente bem e de toda a sua figura só discordamos de um pormenor, aliás muito em evidência: os brincos que lhe adornavam as orelhas; e também sentimos algumas dúvidas quanto ao tipo de penteado que utilizou.

A João de Oliveira Júnior, já tão nosso conhecido, como quase todos os demais, de “A nossa casa” (Égalisse), de “A Conspiradora” (Conde de Riba de Alva) e “Peraltas e Sécias” (Miguel de Sande), coube o maior dos ossos da peça, tanto mais que a sua voz e, tanto quanto podemos ajuizar pelas suas brilhantes actuações anteriores, o seu temperamento – que lhe permitiram fazer, por exemplo, um excelente Conde de Riba de Alva..., não o ajudavam no tipo de galã romântico como era o de Júlio. Defendendo-se razoavelmente no primeiro acto e na pequena intervenção do terceito, claudicou um tanto no segundo acto que, aliás, justamente por ser o mais romântico e de cordelinhos mais à vista, era o de mais difícil defesa.

Resta-nos falar dos cenários (de Rogério Reynaud e do Prof. Manuel de Oliveira, ambos de muito boa factura e perfeitamente de harmonia com o estilo da peça), dos adereços (que António Simões, Alberto de Lacerda e Rogério Reynaud desenharam e executaram com toda a propriedade), do guarda-roupa (que nos pareceu certo, salvo a limpeza com que Júlio se apresenta no I acto, depois de ter cavalgado algumas léguas em plena charneca, e no II acto, após vir dos trabalhos do aterro), das caracterizações excelentes, dos acompanhamentos musicais – fandango e solo de saxofone (para nós, o menos feliz de tudo por as gravações não conseguirem fazer-nos esquecer... que são gravações) e da encenação.

José Ribeiro já deu provas mais do que suficientes de quanto é capaz e a encenação de Os velhos é apenas mais uma – mas excelente – confirmação do que acabamos de escrever.

Quem foi ao Avenida não poderá esquecer nunca a vida, a verdade com com que foi realizada a ceia do III acto. E quem não conseguiu ir jamais poderá compreender a sua extrema dificuldade e, daí, a demonstração insofismável de autoridade teatral com que foram resolvidos todos os óbices que a realização de tal cena implicava.

Não sabemos – mas julgamos que, em Coimbra ao menos, não – se há ainda incrédulos nas possibilidades de José Ribeiro como encenador. Se há, que vão ver (se acaso não viram já) Os Velhos e sejam sinceros na correcção dos seus juízos.

Quando terminámos a nota referente à representação de “A nossa casa” escrevemos: - “Mais uma vez, pois: - Muito bem! E... até a Os Velhos!”. Pois bem, hoje não achamos outra forma mais apropriada de finalizar estas considerações despretenciosas senão fazendo a integral reprodução do que nessa altura escrevemos: - Mais uma vez, pois: - Muito bem! E... até a Os Velhos!”, somente querendo esclarecer os Amadores de Teatro de Tavarede e os outros leitores destas notas que não é nossa ideia o não-renovamento do reportório, mas sim que nós desejamos viva e sinceramente deliciar-nos, um vez mais, com a representação de Os Velhos, pelo excelente Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.