sábado, 23 de junho de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 9


PEDRO LOPES DE QUADROS

3º. Senhor de Tavarede - Morgado

Pedro Lopes de Quadros, segundo filho e herdeiro de Fernão Gomes de Quadros, nasceu no ano de 1559 e faleceu no dia 6 de Março de 1634. Como referimos, herdou o morgado, sendo filho segundo, devido a seu irmão mais velho, António Fernandes de Quadros, ter sido morto pelos mouros em Mazagão, ainda solteiro, portanto sem descendência.

Casou com D. Maria de Carvalho, filha de Belchior do Amaral, Desembargador do Paço, e de D. Ana de Abreu, natural de Guimarães. Viveu em Tavarede.

Do seu casamento terão nascido, presume-se, dez filhos, mas, pelo menos dois, terão morrido em crianças. Os restantes oito foram:

- Fernão Gomes de Quadros, que foi seu herdeiro;

- João de Quadros e Sousa, crismado em Tavarede pelo Bispo de Coimbra, António Furtado de Mendonça, no dia 24 de Maio de 1618. Frequentou a Universidade de Coimbra, tendo-se formado em Maio de 1633. Foi nomeado e exerceu as funções de Prior de Tábua. Terá falecido em Tavarede no ano de 1663;

- Belchior de Quadros, nascido em 1595, foi baptizado na igreja de Tavarede no dia 8 de Agosto deste ano, e que viveu com seus pais em Tavarede;

- D. Catarina de Quadros, baptizada em Tavarede em 1 de Outubro de 1596;

- D. Genebra de Quadros, baptizada em Tavarede no dia 9 de Junho de 1529;

- D. Jacinta de Quadros, que também foi baptizada em Tavarede no dia 13 de Abril de 1601;

- D. Isabel de Quadros, igualmente baptizada em Tavarede a 9 de Julho de 1603; - e Francisco Gomes de Quadros, como todos seus irmãos e irmãs, também recebeu o baptismo em Tavarede, no dia 20 de Abril de 1607. De notar que as quatro filhas do casal foram todas elas freiras no Convento de Santa Clara, em Coimbra.

Este Pedro Lopes de Quadros foi o que mais procurou rentabilizar a ínsua da Morraceira, quer por emprazamentos, quer por exploração directa.

No dia 1 de Julho de 1587, e para esclarecimento de que era seu o prazo de Vila Verde, temos o seguinte reconhecimento: … por ele foi dito que ele possuia o dito prazo de Vila Verde em fatiosim perpétuo, por virtude de uma carta de arrematação com licença, que oferece pelo bispo de Coimbra, feita aos 14 dias de Março de 1552, e ainda oferece um instrumento do bispo D. Gil Lopo, de Coimbra, feito a Luís Geraldes e sua mulher Maria Gonçalves, deste prazo de Vila Verde, de fatiosim perpétuo, pelo qual conteúdo o dito bispo lhe aforar em perpétuo com o foro e obrigação de lhe pagar em cada um ano dez libras da moeda antiga, pelo dia de S. Miguel, em Setembro. Feito em Coimbra aos 8 dias de Fevereiro da era de 1540… … o dito prazo por autoridade de justiça a Fernão Gomes de Quadros, seu pai que Deus haja, em arrematação e com licença de que atrás fica feito menção, e o dito Pero, por morte de seu pai, o herdara e pagava em cada um ano o dito foro de pensão de dez libras ao dito senhor bispo e à sua mesa episcopal e reconhecia por direito de senhorio…

Em 1597, fez um arrendamento, por quatro mil e cem cruzados e dez moios de trigo, dois de cevada e um de chícharos. Transcrevemos uma certidão relativa a este arrendamento: Saibam quantos esta certidão virem. Certifico eu, Gregório de Basto, tabelião público e judicial pela Universidade de Coimbra, nesta vila dos Redondos, que é verdade que a Morraceira é jurisdição desta dita vila, assim no cível como no crime, e que todas as justiças desta vila entram nela, na dita Morraceira, com suas varas, quando lhe é necessário e administram suas justiças todas as vezes que é necessário e lhe requerem, por ser jurisdição desta vila e havendo culpados os trazem à cadeia desta dita vila, e os delitos que nela fazem, assim no cível como no crime, se livram nesta dita vila de suas culpas, e que havendo gados nos danos das unidades e ervagem que andam contra vontade do governador dela, os contam, juntam e trazem ao curral dela vila e nela são condenados nas coimas, conforme as posturas da Câmara e privilégio que o senhorio da dita lezíria tem para si e nesta Câmara desta vila se dá o juramento ao guardador que guarda a dita Morraceira, que o senhorio apresenta, por ser jurisdição da dita vila o que tudo me reporto aos autos e posturas e livros de coimas que estão em meu poder e por me ser mandado pelo juiz desta vila passar a presente certidão a passei, por mim assinada de meu sinal que tal é e escrevi, e o juiz aqui assinou também, hoje, aos doze dias de Junho de mil quinhentos e noventa e um. António Gomes, juiz.

Foi igualmente este Pedro Lopes de Quadros quem criou muitas jeiras de cultura, dedicando-se também à criação de gado e à exploração de sal. ‘Criava cada um ano muitas éguas, poldros e poldras, cavalos, mulas e mulatos, asnos e femeas’. Para incrementar a produção de sal, procedeu à criação de muitas marinhas que aforava ou arrendava a marnotos.

Para o serviço de transportes para a Morraceira, mandou construir uma barca de passagem, cujos serviços eram pagos por si e pelos outros utentes da ilha, tendo o preço fixado com base na área que cada um cultivava.

O Cabido de Coimbra, argumentando com os seus presumíveis direitos, procurou determinar qual era o rendimento que o morgado de Tavarede recebia da exploração e dos foros e rendas, para fixar a quantia que lhe devia ser paga. Segundo elementos encontrados, calculou um rendimento de cerca de dois contos de reis, ao que corresponderia um dízimo de duzentos mil reis..

Bem procurou o Cabido receber aquilo a que tinha direito. Recorreu para a Corte Eclesiástica de Braga, em 1609, mas a sua reclamação não foi atendida. Insatisfeito, o Cabido ordenou nova demanda, desta vez para o Juizo dos Feitos da Coroa da Relação do Porto. A defesa de Pedro Lopes de Quadros apresentou argumentação dizendo que D. Sancho I somente doara à Sé de Coimbra os direitos reais que a ele e à Coroa pertenciam no Couto de Tavarede, os quais eram declarados no foral de 1516. Somente estes o Cabido possuia no Couto, sendo que os moradores dele eram senhores dos seus bens, vendendo-os livremente e sem necessidade de licenças ou de pagamento de terradegos ao Cabido. Aliás, o foral, ao fixar o regime tributário e os direitos que o Cabido tinha no Couto, não se referia à obrigatoriedade de as pedir nem de as pagar. Assim, todos os moradores estavam de posse por tempo imemorial de assim procederem (A Casa de Tavarede).

Foram muitas as réplicas e as tréplicas apresentadas pelos demandantes. E neste caso o Cabido perdeu. A sentença emitida pelo Ouvidor do Cabido refere sendo o couto de Tavarede um reguengo da Coroa doado ao Cabido da Sé de Coimbra, verificava-se no entanto que do foral não constava a obrigação de lhe pedir licenças e de lhe pagar terrádegos aquando das vendas e trocas de propriedades. Pelo contrário, ficara provado por testemunhas de ambas as partes que os moradores estavam de posse antiquíssima de os não pagarem nem de as pedir, salvo quanto a algumas propriedades aforadas pelo Cabido, por títulos particulares, que não eram as da contenda. Apelou, por duas vezes, o Cabido para a Santa Sé, em Roma, tendo o último recurso sido recusado por um breve datado de Abril de 1614.

Antes de escrever mais qualquer coisa sobre este breve, refere-se que, para sua defesa, Pero Lopes de Quadros indicou 48 testemunhas, de diversas localidades da região, as quais … provaram que este Couto embargante e todo seu termo é de natureza antiga e reguengo da Coroa, segundo se vê no foral que lhe foi dado pelos reis passados, cujo traslado autêntico se oferece e no qual estão expressamente declarados os direitos reais que os moradores do dito Couto têm obrigação de pagar, nem se podem pedir nem levar outros sobre graves penas contidas no dito foral…

Relativamente a este processo e ao depoimento de todas as referidas testemunhas, encontra-se o seguinte comentário: … Não há que maravilhar as misérias e tribulações que ora vemos tão acesas nos nossos tempos, porque mais me maravilhara eu se os não vira, vendo o que se passa neste feito, e a facilidade com que os homens juram falso por respeitos muito pequenos e de leve interesse: mas basta qualquer que ele seja e um respeito muito pequenino para jurarem muitas pessoas o que não é, o que não foi, o que não sabem, o que não entendem, como se fôra assim, e o souberam e o entenderam. E contudo não devia ser assim.
Paço de Tavarede - Desenho do pintor figueirense António da Piedade
Quer dizer, os representantes do Cabido tinham plena consciência que os declarantes indicados pelo fidalgo tavaredense mentiam por ‘ordem’ do dito fidalgo. Mas, na verdade, o Cabido acabou por perder a questão e, como acima se refere, foi a própria Santa Sé que não aceitou o recurso. … aos 25 de Maio de 1616 se tratou em Cabido de quão trabalhosa e terrível parte era contra o Cabido por Pedro Lopes de Quadros. E as mais de que se valia em negociar com este Cabido cometendo concerto e usando de dilações. E desejando o Cabido de em tudo conservar conservar o proveito da casa, assentou que menos de dezasseis Capitulares presentes se não fale em concerto com Pedro Lopes de Quadros, porque se receia de seu modo de negociar. E que falando-se no tal concerto, seja nulo quantos o fizer como não sejam presentes em Cabido dezasseis capitulares como dito é.



Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 33

1964.06.06 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

Constituiu invulgar êxito a representação, no penúltimo sábado, no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, da famosa peça “Romeu e Julieta” com que o grupo cénico daquela colectividade se associa às comemorações do IV centenário do mais notável poeta inglês, William Shakespeare.

Lotação esgotada. Presentes em lugares de honra distintas entidades oficiais convidadas a assistir à memorável récita.

Antes de começar o espectáculo José da Silva Ribeiro, devotado e prestigioso orientador artístico da SIT, veio ao proscénio para falar da obra monumental legada à humanidade pelo genial dramaturgo, tendo-lhe a numerosa assistência tributado quente e calorosa ovação.

O espectáculo, que era aguardado com justificada espectativa, decorreu com apreciável nível artístico, por isso que os intérpretes de “Romeu e Julieta” receberam a justa consagração do público, que fazendo funcionar o pano de boca várias vezes nos finais dos actos, lhes dispensou clamorosos aplausos.

Mestre José Ribeiro, acedendo às constantes solicitações da assistência, sentiu, nas vibrantes e entusiásticas manifestações com que foi saudado, quanto a sua extraordinária obra dentro da SIT, a bem da cultura do povo, é apreciada.

Estamos, na verdade, na opinião de distintas individualidades que assistiram à récita, perante uma notável realização cénica: cenários deslumbrantes, guarda-roupa magnificente, que apropriado jogo de luzes mais faz realçar.

O mesmo entusiasmo por parte da assistência, que enchia completamente a vasta e confortável sala de espectáculos, se verificou no domingo.Vimos ali pessoas de várias localidades do país, que não quizeram faltar à “première”.

Ainda bem que assim é, que o esforço da SIT está a ser compreendido pois que as responsabilidades financeiras assumidas pela montagem da peça, ainda ascendem a cerca de duas dezenas de milhar de escudos.

Bem hajam, portanto, todos quantos, com a sua presença, correspondem à acção da SIT, no sentido de proporcionar ao povo espectáculos de autêntica arte.

Resta-nos felicitar os componentes do grupo dramático e todos quantos contribuiram para o êxito alcançado.

1964.06.27 - ROMEU E JULIETA (O FIGUEIRENSE)

Com a representação de domingo, em matinée, de “Romeu e Julieta”, terminou a série de espectáculos com que a Sociedade de Instrução Tavaredense se associou às comemorações do IV centenário do grande dramaturgo inglês Skakespeare.

Todos os louvores são devidos à filantrópica Fundação Calouste Gulbenkian pela sua generosa iniciativa que, prestando culto à memória dum dos maiores valores espirituais da Humanidade, tem possibilitado ao público português, no vasto ciclo das comemorações, o prazer de assistir a magníficos e inolvidáveis espectáculos de arte.

Durante as sete representções na SIT da famosa peça, que foi posta em cena com uma escrupulosa montagem, cenários maravilhosos, guarda-roupa sumptuoso e apropriado jogo de luzes, não só os tavaredenses como também muitos apreciadores de bom teatro, provenientes das mais diversas localidades do país, vieram admirar e aplaudir o esplêndido conjunto, formado por mais de 40 figurantes.

Se bem que o total das receitas dos espectáculos, sendo nos informaram, esteja longe da soma das enormes despesas feitas com as exigências da montagem da peça, não podemos deixar de louvar a arrojada deliberação da SIT em tomar parte nas comemorações shakespearianas.

É que, prosseguindo no seu programa de acção, serviu o teatro em prol da cultura do povo, sem qualquer fim material, como, há 60 anos, vem fazendo.

1964.06.18 - ROMEU E JULIETA (A VOZ DA FIGUEIRA)

Embora saibamos que as nossas palavras nenhuma influência possam ter no êxito desta nova jornada artística do categorizado elenco teatral de Tavarede, que se não quis dispensar de marcar presença nas manifestações comemorativas do IV Centenário de William Shakespeare, consideramos de nosso dever deixar expressas em breves linhas – breves por crónica tirania da falta de espaço – as nossas impressões acerca da representação da famosa e popularíssima peça “Romeu e Julieta”.

Qualquer pessoa habituada a ver teatro, depressa chega à conclusão de que esta peça é de difícil e dispendiosa montagem.

Só um homem com o querer e a proficiência de José Ribeiro se arrojaria a fazê-la representar num palco da província e tirar dela o partido que ele conseguiu.

Não é porque no palco de Tavarede se não tenha movimentado número mais elevado de figuras do que aquele que “Romeu e Julieta” apresenta perante os espectadores, mas pelas dificuldades naturais da peça.

Todas essas dificuldades foram ladeadas e se “Romeu e Julieta” não fizer – porque não faz – carreira compensadora das canseiras e das despesas que a sua apresentação em cena ocasionou, isso deve-se única e exclusivamente ao violento clima passional em que decorre, clima que contende com os desejos de evasão dominantes no geral da massa frequentadora dos espectáculos teatrais. O público de hoje procura o teatro alegre, ainda que roce pela obscenidade.

A representação de “Romeu e Julieta” patenteia equilíbrio, homogeneidade. Na generalidade, é evidente. Também mostra algumas dissonâncias que nos dispensamos de concretizar. O ensaiador conhece-as, esforçou-se por extirpá-las, e ninguém mais do que ele as lamenta. Mas o nível geral é de tal ordem elevado que as deficiências se diluem sem dar muito nas vistas.

A jovem Maria Madalena Machado continua a afirmar aquelas extraordinárias qualidades de presença e sensibilidade que desde a sua auspiciosa estreia vem evidenciando.

Ela, João Medina, João Cascão, José Medina, João de Oliveira Júnior, João Pedro de Lemos, Fernando Reis, José Luís do Nascimento e Violinda Medina, nos papéis principais, imprimem carácter à representação.

Todos dão o melhor das suas possibilidades.

Por isso todos merecem louvores, que em primeiro lugar são devidos a José Ribeiro, por mais esta afirmação de garra que nos ofereceu com “Romeu e Julieta”.

1964.10.24 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

Como anunciámos, deslocou-se no sábado a Aveiro, onde foi dar um espectáculo em benefício da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários daquela cidade, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Foi representada “Uma noite de Teatro Português”, conjunto de obras de Gil Vicente, Almeida Garrett e Luís Francisco Rebelo.

Sem traírmos a verdade, não exageraremos em afirmar que o exemplar grupo dramático da SIT obteve, na encantadora Veneza portuguesa, êxito extraordinário, pois a numerosa assistência, que enchia a vasta sala, aplaudiu entusiástica e vibrantemente a representação, interrompemdo algumas das principais cenas, magistralmente reproduzidas pelos figurantes, principalmente a distinta amadora Violinda Medina e Silva e a jovem Maria de Lourdes Moura.

No intervalo do 2º para o 3º acto, e em cena aberta, o sr. capitão Firmino Silva, prestigioso Presidente da Direcção dos Bombeiros Voluntários, acompanhado dos 1º e 2º comandantes da briosa corporação, srs. António Cunha e Albano Pereira, e outras individualidades, proferiu um primoroso discurso de saudações, enaltecendo o mérito dos amadores tavaredenses e a sua notável obra cultural e beneficente, a que José da Silva Ribeiro respondeu com brilhante improviso, salientando a humanitária acção dos Bombeiros em prol do bem comum.

Pelo Comandante da Corporação foi então oferecido a Violinda Medina um belo ramo de cravos vermelhos, tendo sido entregue ao Presidente da Direcção da SIT uma artística jarra de faiança com significativa inscrição, executada nas importantes Fábricas Aleluia.

No final do espectáculo foi a caravana tavaredense obsequiada com um beberete, durante o qual trocaram cumprimentos o Presidente dos Bombeiros e o director do grupo cénico da SIT.

Não desejamos terminar este apontamento sem deixarmos aqui expressa a nossa gratidão aos bons amigos aveirenses, de modo particular aos srs. António Cunha e Albano Pereira, ilustres directores da Empresa do Teatro, pelas inúmeras demonstrações de simpatia e consideração com que gentilmente distinguiram os nossos conterrâneos, durante a sua estadia naquela progressiva e sedutora cidade.

Resta-nos felicitar muito sinceramente os dedicados amadores da prestimosa colectividade local pelo seu magnífico triunfo, que, elevando-a, constitue excelente motivo de propaganda da nossa querida terra.

sábado, 16 de junho de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 8

Entretanto as queixas do Cabido contra Fernão Gomes de Quadros continuavam. Por uma provisão emitida pelo rei D. Sebastião, atendendo a dúvidas do Cabido da Sé de Coimbra, é ordenado: Diz o Cabido de Coimbra que eles têm no Couto de Tavarede, que é do dito Cabido, muitos direitos e propriedades que Fernão Gomes de Quadros, por ser muito rico e poderoso, lhe usurpa e não lhe pagar imposto em tudo. Ele e sua mãe Genebra de Azevedo, que é viúva, e por lhe usurpar os direitos que ao Cabido pertencem e por alguns desaguizados que o dito Fernão Gomes, no dito Couto fazia, deram dele capítulos a Vossa Alteza, pelos quais foi preso e se livrou perante o Corregedor da Corte dos feitos crimes e foi condenado. E quanto às causas cíveis ficou relevado direito para o demandar, a ele e a sua mãe, perante quem pertencem os direitos e no Couto são todos suspeitos e não pode haver juiz que o livre, por o dito Cabido ser senhor do Couto.

Como por o dito Fernão Gomes de Quadros ser na terra muito poderoso e temido. E na vila de Montemor também todos são suspeitos por causa do dito Fernão Gomes e o Corregedor da Comarca de Coimbra é outrossim suspeito por ser cunhado do dito Fernão Gomes de Quadros e o aconselha em suas causas e por estas razões o não demandam e se perde seu direito: pede a Vossa Alteza que lhe faça mercê de haver por bem que todas as ditas causas e para a que lhe ficou reservado seu direito, possam demandar perante o Corregedor da Corte dos feitos civis, por estarem nele os autos ou o Juiz perante o Juiz de fóra da dita cidade de Coimbra ou perante o Conservador das Escolas, a qual cidade está a sete léguas do Couto e são os mais competentes julgadores de fóra que há.


D. Sebastião, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, senhor da Guiné, etc… Faço saber aos juizes de fóra da vila de Montemor-o-Velho, que havendo respeito ao que na petição atrás escrita diz o Cabido da cidade de Coimbra, hei por bem e por mando, que tomeis conhecimento dos casos entre o dito Cabido e Fvernão Gomes de Quadros, somente contraídos da dita petição e, ouvidas as partes, os determinem como fôr justiça, dando apelação agravo qual no caso seja resolvido e os autos que sobre isso houver nos sejam levados nos termos em que estivessem.

El-Rei nosso Senhor mandou para os doutores Filipe Antunes e Cristovão Mendes de Carvalho, ambos do seu Conselho e seus desembargadores do Paço. João de Barros o fez em Lisboa aos 15 dias de Fevereiro de 1560.

Como já referimos, foram muitas as questões levadas aos tribunais pelo Cabido de Coimbra contra o fidalgo de Tavarede. Também não nos alongamos, pois julgamos suficiente as acusações que foram feitas contra ele, no ano de 1574: - Espancou Jorge Gaspar, um homem de bem, velho, honrado, de Tavarede, de que há autos na Corte. E no feito a Jorge, se achava a sentença. E como também mandou espancar o padre Jorge Fernandes (?) e o trataram muito mal de pancadas por seu mandado. A um Pimentel, de Tavarede, dos honrados da terra, numa procissão do Santíssimo Sacramento, quebrou um cirio na cabeça.

- Ao Jorge Migueis (?), capelão do Cabido, que foi ao Couto por seu mandado, esperou de noite com outros e deu-lhe muita pancada e o lançou numa vala de sujidades, pelo que foi condenado em degredo e penas de direito.

- Saltou contra um homem, juiz da Alfândega da Figueira e o tratou muito mal e sobre isso disse que o primeiro homem saltara sobre ele. E foi condenado em custas por sentença da Relação.

- É costumado a desonrar todo o mundo, como se lhe não fazem a vontade, e todos são vilões ruins, cornudos, bebados, de modo que se não pode ninguém valer contra ele.

- Aos mareantes que entram a barra, afronta de palavras e toma-lhes as velas e a uns prende e fazia perder suas viagens, e comummente se cuida que tudo é fim de o peitarem e a lhe darem do que trazem nos navios, como foi uns que vieram carregados de sardinha e atum, e isto por ter o ofício de os visitar, como capitão mor de Tavarede e Figueira, por cujas barra entram.

- No mês de Maio passado, entrou pela barra um navio de atum e corvina, e o mestre lhe fez saber, como capitão mor, e ele mandou que lhe dessem do atum e corvina e quando chegou este rec ado, o navio era em cima na ‘barranqua’ e ao tornar para baixo, mandou fazer autos ao dito mestre, e por Jerónimo Dias mandou-lhe tomar as velas, dizendo que lho haviam de pagar e fez-lhe muitas vexações e injúrias.

- Tinham Manuel Homem e Francisco Homem, seu filho, moradores na Batalha, certo gado de dízimo, que traziam na Lezíria de Fernão Gomes, com sua licença, por parte do dito gado o haverem dele de dizimo, o qual podia valer bem vinte mil ou mais, e o Fernão Gomes o vendeu por seu, sem nunca querer dar o dinheiro aos ditos pai e filho. E estão este Francisco Homem em casa de Simão Gonçalves por algumas vezes, não podem haver já pagamento do dito Fernão Gomes nem ousam requere-lo.

- No mês de Novembro deste ano presente de 1574, mandou o C abido a Ambrósio de Sá e ao doutor Álvaro Migueis carregues a Tavarede a certos negócios de importância e pousavão em casa de um João Duarte, homem de bem do Couto, onde lhe faziam de comer, e sabendo a mulher de Fernão Gomes que nos seus fornos assavam galinhas e outras carnes para os ditos cónegos e seus familiares, mandou os forneiros que tal coisa não assassem, nem a coisa nenhuma de casa do dito João Duarte, cujos hóspedes, os ditos cónegos, estavam.

- Na Igreja ofende a quem quer e toma-se com os capelães e quer despedi-los e outras coisas absolutas. E tem toda a Câmara de sua mão porque ele fez as eleições este ano com subornos.

- A um Antão Lopes, marchante de Lisboa, comprou Genebra de Azevedo, mãe de Fernão Gomes, muito gado vacuum, que importaram trezentos mil reis ou quase. E como ele gado era bravo, fugiu do caminho algum dele ao marchante e tomou-se a lezíria de Fernão Gomes, onde podia pastar até aproveitar tudo, porque assim era o contrato. E Fernão Gomes tomou todo o gado, que se tomou a lezíria, para si, sem querer dá-lo nem o dinheiro dele ao marchante. E deu-lhe muita perda.

- Trouxe este marchante uma carta de excomunhão do Núncio, para que quem soubesse do dito gado lho dissesse, a qual carta se publicou na Igreja de Tavarede, em presença de Fernão Gomes, sem sair a nada. E saíu sua mãe e publicamente disse na mesma Igreja, ao publicar da carta, que seu filho tinha o gado, e que a excomunhão ficasse sobre ele, e que ele, marchante, se queixasse a El-Rei, pois seu filho lhe desobedecia nisso e em tudo. E Fernão Gomes respondeu que se ela tinha vendido alguma coisa do marchante que lhe pagasse, sendo coisa notória ser o gado da mãe e ela o vender.

- Que espancou em uma rua pública Gaspar Fernandes, de Tavarede, e o desonrou e a sua mulher de “puta”, “ladra”, que ele a tirara de baixo de cinquenta frades…

Perante a gravidade de tais acusações, que se revelaram verdadeiras, foi Fernão Gomes de Quadros condenado, além de largar as terras que havia tomado indevidamente, a degredo por um ano em Ceuta, e por dois anos proibido de entrar no Couto de Tavarede, nem podendo estar ‘quatro léguas para dentro junto ao Couto.

… Visto o libelo do Cabido da Sé de Coimbra, autor, contra Fernão Gomes de Sá, réu, e mais artigos recebidos e provado, visto como se prova o dito réu arrancar o marco da contenda e o mandar daí levar e se empossar dos maninhos e matos no dito libelo declarados, e assim se prova viver no dito Couto de Tavarede inquietamente no prejuizo da jurisdição do dito Cabido e suas doações, e inquietando os moradores do Couto de Tavarede seus vassalos, assim ácerca das pagas dos foros que são obrigados a pagar, como em outras coisas, havendo respeito e qualidade das ditas culpas, e da pessoa do dito réu, e casos como aconteceram e como tudo não basta para maior condenação, condenei o dito réu, que com um pregão na audiência fosse degredado por um ano para Ceuta, e não entrasse por tempo de outros dois anos no dito Couto de Tavarede, nem quatro léguas ao redor. E que tomasse à sua custa pôr o dito marco no lugar onde foi tirado e abra mão dos matos que tem tomados e valados ao dito Cabido, ficando-lhe seu direito renovado sobre a propriedade, e o condenei nas custas, e feita nele a execução do pregão e pagas as custas, irá o dito réu cumprir o dito ano de degredo a Ceuta…

Ainda alegou Fernão Gomes de Quadros que os ditos maninhos os tivera antes sua mãe Genoveva da Fonseca, então ainda viva. Não foi atendido e teve de cumprir a setença que havia sido dada eem Lisboa a 4 de Junho de 1558, pelo rei D. Sebastião.

Apesar de tantas preocupações, tantas questões e demandas levantadas contra si pelo Cabido da Sé de Coimbra e de tantos filhos do casamento, consta que ainda teve tempo para arranjar mais dois bastardos, como atrás já referimos: um, de nome António, que foi morto no cerco de Chaul e outro, de que se não sabe o nome, que morreu na Pérsia.

Como se vê, afinal, apesar de terem sido bastante abusadores e prevaricadores, opressores do seu povo, ‘seus vassalos’, como disse D. Sebastião na sentença, foram muitos os descendentes directos que morreram heroicamente nos campos de combate, lutando corajosamente pela sua Pátria, em locais tão longínquos, como a Índia.

Também se não deve omitir a sua grande religiosidade, totalmente contrária ao procedimento normal de violência contra os seus conterrâneos. Não esqueçamos que foram grandes beneméritos e protectores dos frades do convento de Santo António. Fernão Gomes de Quadros, cumprindo as disposições testamentárias de seu pai, que mandava ‘acabar com a maior perfeição o retábulo de capela’. Além da sua protecção a este convento, foi grande devoto de S. Francisco, sendo, também, confrade de todas as confrarias existentes em Tavarede. Por disposição sua, foi sepultado no convento de Santo António envolto no ‘hábito do bem-aventurado padre S. Francisco’.

Outros descendentes optaram pela vida religiosa, ingressando em mosteiros e conventos, onde alguns e algumas atingiram posições de alto relevo…

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 32

1963.03.30 - GIL VICENTE, NO PENINSULAR (NOTÍCIAS DA FIGUEIRA)

Esforço colossal, ao mesmo tempo ingrato, o de Mestre José Ribeiro, ao encenar Teatro Vicentino ao correr a cortina do Peninsular para apresentar o seu grupo de amadores, dizendo e mimicando os versos do criador do Teatro Português, do Género Satírico e Causticante, por vezes Sentimental e Poético de Mestre Gil Vicente. Esforço colossal, porque dar vida a qualquer das obras Vicentinas, conseguir de amadores – embora de grande categoria – o ritmo, a dicção, a sobriedade mímica, a simplicidade ingénua – que é dificuldade ingénita – a cor, a graça e o espírito essenciais nesta classe de espectáculos, é tarefa árdua e ousada, cometimento não conseguido por muitos profissionais de teatro, não só na visão geral, como na interpretação dos textos, difíceis de destrinçar, pois que, de peça para peça, surgem novos enigmas, géneros diferentes, momentos de puro lirismo, de audaciosa fantasia, em expressões do mais puro realismo, que obrigam o realizador a um estado especial para cada peça e às vezes para cada cena.

Ingrato, dissemos, porque infelizmente, os grupos dramáticos são pobres, não têm qualquer auxílio e as receitas das bilheteiras raras vezes dão para satisfazer os pesados encargos da representação. Ora, para a apresentação destes espectáculos, as despesas são avultadas e... Gil Vicente não consegue afluência à bilheteira, porque, só os raros que sabem ver Gil Vicente, vão ver Gil Vicente.

José Ribeiro é talvez o último abencerragem para cometimentos heróicos no tablado. A sua direcção e o seu saber, deram-nos um admirável espectáculo, triunfaram com mérito absoluto no teatrinho do Peninsular. Parabéns e um grande abraço.

Não podemos nem nos atreveríamos a apreciar as obras do Grande Mestre agora representadas. Sobre Gil Vicente, os maiores investigadores e mais notáveis literatos, têm escrito milhares de páginas. Nós que andamos sempre de braço dado com a saudade, recordamos as interpretações dos nossos mais notáveis artistas. Quem viu Augusto Rosa, no “Diabo da barca do Inferno”, jamais pode esquecer, a satânica figura, estilizada a seu modo, a musicalidade cantarolante da sua voz, o jeito cénico, ondulante e felínico que dava a impressão de uma figura irreal, as pausas, ou os gestos! Notável! Grandioso, simplesmente!

No Pranto de Maria Parda, Adelina Abranches – a Grande Adelina – encarnou a simbólica figura, com tanta inspiração e tanta verdade, deu um tão variado claro escuro ao fatigante trabalho, que, caso raro em espectáculos desta natureza, todo o público da plateia aos camarotes se pôs de pé para lhe tributar uma das mais expontâneas e formidáveis ovações, a que assistimos no nossa longa vida teatreira.

Ainda há poucos anos, o distinto actor Assis Pacheco, no Auto do Velho da Horta, obteve um estrondoso e justificado sucesso. Dicção, mímica e composição de figura, tudo sabiamente detalhado e estudado, artisticamente realizado!

Muito se dedicou a Gil Vicente, um grande artista há tempos afastado da cena, Joaquim de Oliveira, que publicou, e algumas vezes nos deixou ler, as suas valiosíssimas encenações. E mais não diremos, pois que, se nos alongássemos, teriamos de encher tal número de linguados, que não caberiam no nosso jornal.

Os distintos amadores de Tavarede, que há dez anos tanto temos apreciado, elevaram a espinhosa incumbência de José Ribeiro, a um verdadeiro caso no Teatro Português, no à vontade do desempenho, no diapasão das vozes e no ritmo dos movimentos. Velhos e novatos, mestres e discípulos, todos bem, homogéneos, sem um desfalecimento ou uma nota discordante.

Contudo, permito-me destacar a – Amadora Grande Actriz – Violinda Medina, no seu admirável trabalho, da Maria Parda, difícil de aguentar em todo o extensíssimo monólogo, sem caír no grotesto, mas sem desfalecimentos, sem diminuir o interesse, medindo as pausas e os movimentos, com a Arte e o Saber de uma verdadeira profissional. Simplesmente notável!

No Velho da Horta, João Medina Junior atingiu um nível superior no protagonista, secundado magistralmente por Maria Tereza de Oliveira, que foi uma figura Vicentina, perfeita nas atitudes, na dicção e nos gestos. Os outros, todos, em uma bela afinação de conjunto.

Guarda-roupa rico de Anahory. Cenários adequados, sendo por sua sobriedade, digno de relevo, o da Maria Parda. A todos, os nossos parabéns!

1963.03.30 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

Como referimos, realizou-se na Sociedade de Instrução Tavaredense, no sábado à noite, tendo-se repetido no domingo à tarde, o grande espectáculo de Teatro Português, constituído pelas obras de Gil Vicente “O Velho da Horta”, “Pranto de Maria Parda” e “Dom Duardos”, cujas representações fizeram convergir à sala de espectáculos daquela colectividade numerosos espectadores, que dispensaram aos simpáticos intérpretes os seus calorosos e vibrantes aplausos.

Foram, na verdade, com a sua perfeita montagem cénica, maravilhoso guarda-roupa e encantadores cenários, que um afinado jogo de luzes realçava, dois belos espectáculos de arte e beleza com que mestre José Ribeiro brindou o público, que nos finais dos actos reclamou a sua presença, para lhe manifestar as suas entusiásticas e calorosas saudações.

O distinto grupo cénico desloca-se hoje à Figueira para, no Teatro do Grande Casino Peninsular, e com o mesmo programa, prestar o seu concurso nas cerimónias comemorativas do Dia Mundial do Teatro, da feliz iniciativa do ilustre Director da Biblioteca Pública Municipal, sr. Professor António Vitor Guerra.

1963.04.06 - DIA MUNDIAL DO TEATRO (O FIGUEIRENSE)

O programa de Teatro Português que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense representou, no dia 27, no Teatro do Casino Peninsular, para comemoração do “2º Dia Mundial do Teatro” e por louvável iniciativa da Biblioteca Pública Municipal, fez atraír àquela elegante casa de espectáculos numerosa assistência, constituída por pessoas de todas as categorias sociais.

Mais uma vez tivemos o prazer de constatar o prestígio que aquele grupo, dirigido superiormente por José da Silva Ribeiro, goza entre os frequentadores da exigente plateia figueirense. Os aplausos clamorosos com que nos finais das representações das três peças de Gil Vicente, “O Velho da Horta”, “Pranto de Maria Parda” e “Dom Duardos” o público se manifestou, são disso testemunho inequívoco.

Na verdade, o espectáculo é, no seu conjunto, de rara beleza, pois que possui uma primorosa montagem cénica, com cenários encantadores, lindas canções populares da época vicentina, guarda-roupa riquíssimo executado propositadamente pelo grande artista Anahory e uma representação à altura dos créditos bem confirmados dos distintos amadores tavaredenses, em que há a salientar a notável actuação de Violinda Medina na peça “Pranto de Maria Parda”, que lhe valeu quentes e demoradas ovações em que a assistência envolveu os restantes amadores e o sr. José da Silva Ribeiro.

No começo do espectáculo, o sr. Prof. António Vitor Guerra, director da Biblioteca Municipal, proferiu algumas palavras justificativas da comemoração do “Dia Mundial do Teatro”, tendo o sr. António de Oliveira Lopes, presidente da Direcção da SIT, lido o discurso que o escritor dr. Luís de Oliveira Guimarães, que não pôde comparecer, devia pronunciar a abrir o belo espectáculo.

1963.04.11 - HONRANDO OS VALORES FIGUEIRENSES (A VOZ DA FIGUEIRA)

A abrir uma entrevista concedida pelo prof. António Vitor Guerra, ao jornalista Mário Rocha, encontramos na 1ª. página do último número do “Litoral”, de Aveiro, estas palavras que muito nos apaz arquivar, por nelas se prestar homenagem a dois notáveis valores figueirenses: Violinda Medina (intérprete do papel de Maria Parda) e José da Silva Ribeiro:

“Mal pensávamos nós que o Dia Mundial de Teatro, de 63, nos iria proporcionar a surpresa que nos proporcionou naquela noite invernosa do passado dia 27 de Março, na sala de espectáculos do Grande Casino Peninsular, na Figueira da Foz.

Valerá a pena deslocarmo-nos de noite e a tão longe, - monologávamos nós, enquanto a chuva inclemente batia raivosa nos vidros mansos do carro veloz -, valerá a pena tudo isto para irmos ver um Mestre Gil representado por um grupo de amadores duma aldeia que nem em todos os mapas aparece?

É certo que se sabe, nós sabemos, que dos bastidores sombrios do amadorismo, subiram para a ribalta nomes como Chaby Pinheiro, de ontem, e de Gina Santos, de hoje. É certo que se sabe, nós sabemos, que o grande Taborda foi tipógrafo, António Pedro, aprendiz de pedreiro, e Adelaide Douradinha, para não citarmos mais, mulher a dias.

Pois apesar de tudo isto ser sabido, de tudo isto sabermos, nós, desconfiados, ainda nos perguntávamos se de Tavarede nos podia vir um Gil Vicente, como se fosse possível que melindrosa peça de porcelana nos chegasse às mãos, arrancada do fundo de velha arca de pinho carunchento, após longa viagem de muitos baldões e sem uma arranhadura.

Não vamos esboçar sequer uma ligeira apreciação crítica do espectáculo que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense nos deu, sobre três textos vicentinos. Não ousamos esboçar a crítica, mas não resistimos a registar o exemplo. Em Tavarede, humilde lugarejo escondido à sombra da resplandente Figueira, arde em olímpica chama um acendrado culto à divina arte de Talma. Famílias, de geração em geração, entregam-se devotadamente à cultura teatral. À frente de toda esta pleiade de artistas, (aquela Maria Parda há-de ficar-nos para sempre guardada na galeria das melhores interpretações por nós vistas, conquanto o Teatro não seja, para nós, apenas uma arte de bem interpretar), se encontra um nome emérito no panorama do teatro amador em Portugal. Um homem, José Ribeiro, que nem a idade, nem o trabalho, nem o destreino impediram de aprender o inglês só para saborear Shakespeare na própria língua”.

1963.04.18 - DIA MUNDIAL DO TEATRO (O DEVER)

Conforme noticiámos, o dia 27 do mês findo, foi o dia mundialmente dedicado ao teatro.

Frizámo-lo também já – a Biblioteca Municipal encarregou-se de elaborar o programa.

E portanto, no dia 27, à noite, na sala de espectáculos do Casino Peninsular, assistimos ao desenrolar desse programa que demonstra bem o reconhecimento do povo da Figueira por tão alto instrumento de cultura, - o Teatro – como disse na alocução inicial o sr. Prof. Vitor Guerra.

A anunciada palestra do sr. Dr. Luis de Oliveira Guimarães, não foi proferida por Sua Exª que apenas redigiu algumas linhas saudando o Prof. Vitor Guerra e a Figueira “por si e pela Figueira”; - dizia o dr. Oliveira Guimarães, historiando o aparecimento do dia mundial do teatro, e desenvolvendo algumas ideias àcerca da sua importância cultural.

A razão da ausência ouvimo-la da boca do Prof. Vitor Guerra, que a todos agradeceu e saudou para dar depois a palavra ao Presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense, escolhido para ler as breves mas conceituosas linhas do Dr. Oliveira Guimarães, que fez preceder de umas notas bio-bibliográficas sobre o autor e grande homem de teatro imperiosamente longe de nós.

Depois, o sarau de teatro vicentino magnificamente levado a cabo pela Sociedade de Instrução Tavaredense. Já nos habituou ao sempre elevado nível das suas actuações mas não nos cansa esta constante.

Cenários e guarda-roupa do melhor para o género vicentino; actuação (e por conseguinte encenação) a grande nível de quase todos os elementos e permitimo-nos destacar a “velha” (perdão! Velha e afamada nestas lides teatrais!) Violinda Medina que deve ter realizado a sua melhor criação no “Auto da Maria Parda”. Não nos pode esquecer a magnificência de “D. Duardos” e os cenários e actuações do “Velho da Horta”.

E por detrás disto, “a alma e corpo da Sociedade” – como disse o Prof. Vitor Guerra -, a pessoa de encenador ilustre que é o sr. José Ribeiro. A sua mão de mestre está espelhada na sua obra no palco.

Com certeza que são mais proveitosas, cultural, moral e socialmente estas realizações do que as “eleições de Rainhas”!

E a terminar este nosso apontamento, temos de dizer que tudo o que se realizou neste dia e nesta cidade em prol do teatro, se deve, ao fim e ao cabo, ao esmero cultural e ao espírito de iniciativa do sr. Prof. Vitor Guerra. Está mais uma vez de parabéns Sua Exª.

1963.06.01 - TEATRO EM COIMBRA ( FIGUEIRENSE)

Como anunciámos, o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense levou à cena no Teatro venida, de Coimbra, na pretérita segunda-feira, um programa de teatro português, constituído pelas peças de Gil Vicente, “Farsa do Velho da Horta”, “Pranto de Maria Parda” e “Dom Duardos”, cujo produto se destinava ao Asilo da Infância Desvalida, a admirável obra de caridade do eminente Professor Sr. Dr. Elísio de Moura.

Antes da representação, o director do grupo cénico, sr. José da Silva Ribeiro, usou da palavra para saudar a numerosa assistência, que enchia a ampla sala de espectáculos e manifestar-lhes o sentido reconhecimento da SIT pela valiosa colaboração que veio dar à sua iniciativa com o propósito de auxiliar aquela benemérita instituição.

Fez ainda, o distinto orador, algumas considerações sobre os motivos que levaram a SIT a apresentar o referido programa de teatro português, que, como era do conhecimento público, foi representado por ocasião das comemorações do Dia Mundial do Teatro, na Figueira da Foz.

O espectáculo decorreu em bom nível artístico, como o demonstraram as vibrantes e entusiásticas aclamações da assistência, premiando, assim, o trabalho dos nossos amadores.

O sr. dr. Mário Temido, acompanhado de todos os amadores do Ateneu de Coimbra, de que é ilustre Presidente, na impossibilidade de estar presente na grandiosa homenagem que a SIT prestou, oportunamente, a Violinda Medina e Silva, aproveitou o ensejo para testemunhar à talentosa amadora todo o seu apreço e admiração pelos seus extraordinários dotes artísticos, tendo-lhe oferecido um lindo ramo de cravos.

A caravana tavaredense foi depois obsequiada com um beberete, que serviu de pretexto para a troca de amistosas saudações.

1963.10.05 - O FIM DO CAMINHO (O FIGUEIRENSE)

Como temos referido, foi inaugurada no sábado na Sociedade Instrução Tavaredense a época teatral de 1963/64.

A peça escolhida, “O Fim do Caminho”, a notável obra do grande dramaturgo Allan Martin, que o distinto jornalista e crítico de teatro Redondo Júnior traduziu, constituíu, desde o esmero e rigor com que foi posta em cena ao apreciável nível artístico em que decorreu o seu desempenho por parte do harmonioso conjunto que forma o grupo de amadores daquela prestante colectividade, um clamoroso êxito, que perdurará por longo tempo no espírito da numerosa e selecta assistência que enchia completamente o moderno teatro de Tavarede.

O público abandonou a sala com visível satisfação, pelo formidável espectáculo que mestre José Ribeiro lhe ofereceu.

Demonstraram-no inequivocamente, a entusiástica e vibrante ovação de que foi alvo no final dos actos, rodeado dos intérpretes da famosa peça.

Entre a numerosa assistência em que se notavam muitas pessoas dessa cidade, destacava-se a presença, muito honrosa para os tavaredenses, do ilustre Deputado da Nação e Vice-Reitor do Liceu Alexandre Herculano, do Porto, sr. professor Olívio de Carvalho, e do grande amigo da SIT sr. Alberto Anahory que se deslocou de Lisboa, propositadamente, para assistir à memorável récita.

1963.11.07 - “A CONSPIRADORA”, EM AVEIRO (A VOZ DA FIGUEIRA)

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A cidade de Aveiro recebeu carinhosamente a iniciativa dum grupo de amigos de Eduardo de Matos, e o teatro encheu-se dum público generoso e bom. De salientar o desinteresse monetário de todos os colaboradores da récita, a começar pela empresa do Teatro, que nada cobrou de aluguer, e a terminar na Sociedade de Escritores de Companhias Teatrais Portuguesas, que apenas levou 1$00 dos respectivos direitos de autor! E como estes actos de isenção e benemerência são hoje raros, mercê da onda de egoísmo que avassala o Mundo, mais é de admirar e realçar a bondade das gentes de Aveiro, cidade linda e progressiva, se dissermos que o homenageado não é dali natural, e apenas cativou o coração dos aveirenses através da arte teatral, quando ali representou inúmeras peças em que interpretava “papéis” com grande mérito artístico.

A representação da histórica peça “A Conspiradora” foi agradável e homogénea, constituindo na verdade um grande triunfo para o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. E se todas as “personagens” da peça foram interpretadas com naturalidade e convicção, justíssimo é destacar o excelente trabalho artístico de Violinda Medina e Silva, que arrancou uma espontânea e estrondosa salva de palmas, no decorrer duma cena do 3º. acto. Muito bem!

Os cenários do prof. Manuel de Oliveira, constituídos por duas salas ricas, que foram caprichosamente mobiladas e decoradas no estilo da época em que decorre a acção da peça (1833) e o guarda-roupa luxuoso de Alberto Anahory deram também grande relevo ao espectáculo.

Estão todos os tavaredenses de parabéns pela excelente récita que foram levar a Aveiro, pois fizeram bom teatro, foram praticar um acto de benemerência e fizeram propaganda da sua terra numa das mais belas cidades portuguesas, desinteressadamente, mas obtendo como prémio do seu esforço prolongadas salvas de palmas em todos os finais de acto.

O seu ensaiador e mestre de teatro, sr. José da Silva Ribeiro, no final da representação recebeu lindos ramos de flores, após ter dirigido palavras de carinho a Eduardo de Matos, e de louvor ao povo de Aveiro, pela maneira afável como recebeu o seu grupo de amadores. Em seguida, o prof. Sr. José Duarte Simão, em nome da comissão promotora da récita, agradeceu a caritativa colaboração da Sociedade de Instrução Tavaredense, enaltecendo o seu trabalho artístico, e patenteou ao público a melhor admiração pelo apoio que deu à homenagem ao actor Eduardo de Matos.

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1963.12.25 - A HOMENAGEM A ALBERTO DE LACERDA (A VOZ DA FIGUEIRA)

Decorreu com invulgar brilhantismo a festa de homenagem de apreço e gratidão que a Sociedade de Instrução Tavaredense promoveu, no penúltimo sábado, ao ilustre Professor Alberto de Lacerda.

Conforme programa que publicámos, foi apresentada a consagrada peça “O Fim do Caminho”, cujo desempenho mereceu os prolongados aplausos do público, impressionando-o vivamente, e evocados personagens das peças “Ana Maria”, “A Cigarra e a Formiga” e “Justiça de Sua Magestade”, interpretados admiravelmente por alguns amadores, que os crearam, devendo assinalar-se o facto, bastante curioso, de alguns, já avós, actuarem ao lado de seus filhos, a confirmar a tradição do amor ao teatro pelos tavaredenses.

Não fazemos referências especiais porque todos os discípulos de mestre José Ribeiro, se houveram de maneira a conquistar os nossos louvores e os da numerosa assistência, que enchia literalmente, a acolhedora sala de espectáculos, tributando-lhes aplausos calorosos.

No final da evocação das figuras, que representavam um passado glorioso do teatro tavaredense, deu entrada no palco, acompanhado do Presidente da Direcção, o homenageado, a quem os espectadores dispensaram carinhosa, prolongada e entusiástica recepção. Logo, sobre a figura veneranda do sr. Prof. Alberto de Lacerda caíu abundante chuva de pétalas de flores naturais, especialmente limonete, a característica flor da nossa terra, tão do seu agrado.

Manuel Gaspar Lontro, secretário da SIT, leu a mensagem “de admiração e agradecimento pelas manifestações do seu belo espírito, tão notáveis na Arte da Pintura, como na sua fidelidade entusiástica à quase abandonada Arte do teatro”, após o que, pelo tesoureiro sr. Waldemiro Félix Pinto foi feita entrega duma artística recordação ao ilustre homenageado.

A mais antiga amadora do grupo cénico, srª. D. Helena da Silva Medina entregou também um lindo ramo de cravos.

António Lopes, ao fazer uso da palavra, disse da admiração e alto apreço em que, não só os numerosos sócios da colectividade a que preside, como também do povo da sua freguesia, têm os elevados méritos pessoais e artísticos do homenageado, testemunhando-lhe a sua simpatia e reconhecimento pela devoção com que o sr. Prof. Alberto de Lacerda tem contribuído para o maior engrandecimento da prestigiosa colectividade.

José da Silva Ribeiro, amigo íntimo do homenageado, e por influência de quem o primoroso espírito de Alberto de Lacerda veio para Tavarede, recordou os primeiros contactos com o distinto Professor e, mais tarde, inteligente Director da Escola Industrial e Comercial da Figueira, a quem os figueirenses ficaram devendo a criação das primeiras oficinas daquele magnífico estabelecimento de ensino.

Referiu-se, o fulgurante orador, aos altos e inesquecíveis serviços prestados à SIT por Alberto de Lacerda e ainda à sua prodigiosa generosidade tão exuberantemente demonstrada em múltiplas manifestações da sua bondosa alma.

O público, que já nos vários actos acima referidos se havia manifestado entusiasticamente, numa estrondosa ovação abafou as últimas palavras do proficiente director do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Por último, agradeceu o homenageado a fidalga manifestação de simpatia que os seus queridos amigos tavaredenses lhe haviam dedicado, não com palavras que, na ocasião, não podia proferir, mas com as lágrimas da mais profunda gratidão pela carinhosa hospitalidade que sempre lhe dispensaram e de saudade pelos agradáveis e inesquecíveis momentos espirituais passados na Terra do Limonete.

Entre a numerosa assistência ao espectáculo notámos a presença de distintas individualidades da Figueira e de outros lugares, admiradores das excepcionais qualidades do grande Artista.

Na colectividade em festa foram recebidos cumprimentos de numerosos amigos do Prof. Alberto de Lacerda, que motivos imperiosos impediram de vir a Tavarede.

Estamos convencidos de que a noite gloriosa vivida no sábado no Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense e que constituíu justa consagração dum dos seus mais queridos amigos e prestimosos colaboradores, ficará por longo tempo no espírito de todos os que a ela tiveram o inefável prazer de assistir.

Bam haja, pois, a SIT pela sua generosa iniciativa, reveladora do índice dos belos sentimentos de que é possuidor o bom povo daquela terra.

ROMEU E JULIETA (A VOZ DA FIGUEIRA)

Também a Sociedade de Instrução Tavaredense, aliás como tem feito em relação a outros factos de relevo na história do Teatro, participa na celebração do 4º. Centenário, de William Shakespeare. Pela primeira vez vai ser dado ao povo de Tavarede uma obra do genial dramaturgo.

Pode dizer-se que não são apenas os tavaredenses que aguardam com o maior interesse a representação de Romeu e Julieta, que foi a peça escolhida para esta comemoração, mas também os figueirenses: na Figueira é grande a curiosidade que se nota pela próxima representação dos amadores de Tavarede.

As enormes dificuldades a vencer para a apresentação desta obra notável – das mais populares do célebre dramaturgo inglês – explicam em boa parte o interesse invulgar criado à volta deste empreendimento da Sociedade de Instrução Tavaredense. Com um número elevado de intérpretes e figurantes – cerca de 40 pessoas – e uma montagem complexa exigida pela sucessão de mais de 20 cenas com mudança de lugar da acção como é característica do teatro shakespeareano, necessitando guarda-roupa numeroso em quantidade e rico em qualidade – Romeu e Julieta constitui um grande espectáculo teatral. Para o apresentar com dignidade e sabendo, aliás, que o empreendimento não é comercial e se traduzirá num pesado encargo financeiro, a Sociedade de Instrução Tavaredense contou com colaborações valiosas, a começar pela ilustre tradutora da peça, Drª. Maria José Martins. O ilustre artista Prof. Alberto de Lacerda fez as maquettes de algumas cenas; Alberto Anahory encarregou-se da indumentária e o distinto cenógrafo José Maria Marques, de Lisboa, pintou os cenários.

A primeira representação será no próximo sábado, 23 do corrente, às 21,45 horas. No domingo, dia 24, terá lugar uma matinée às 16 horas.

sábado, 9 de junho de 2012

QUADROS - Os Senhores de Tavarede - 7

Fernão Gomes de Quadros

2º. Senhor de Tavarede - Morgado

António Fernandes de Quadros já seria de idade avançada quando casou com D. Genebra de Azevedo, bastante mais nova do que ele. Assim, quando faleceu, em 1540, seu filho e herdeiro, Fernão Gomes de Quadros, que teria nascido por volta de 1530, teve sua mãe como tutora até atingir a idade de tomar posse do morgado.

Também ele, seguindo o procedimento paterno, procurou aumentar as suas propriedades e não só em Tavarede, como adiante veremos. Naturalmente que, seguindo o mesmo sistema de seu pai, as questões com o Cabido de Coimbra não só continuaram como aumentaram. Terá sido mesmo ele que iniciou na nossa terra as práticas de ‘feudalismo’, com opressões e agressões aos seus ‘vassalos’.

Casou em Lisboa com D. Helena de Távora, filha de António Fernandes Encerrabodes e de D. Maria Juliana de Távora. Foram casados durante 23 anos e, durante o seu casamento, tiveram 22 (?) filhos. Em ‘A Casa de Tavarede’, o seu autor escreve, relativamente a este caso: O casamento de Fernão Gomes de Quadros com D. Helena de Távora, durou vinte e três anos, falecendo esta por volta de 1580. Durante esses anos cometeram, segundo vários autores, a proeza de ter vinte e dois filhos, coisa desde sempre rara. Permito-me, porém, suspeitar de tamanho exagero. É que se Fernão Gomes de Quadros casou em 1557, sua mulher teria de ter ainda filhos em 1578 ou anos seguintes. Porém, dos livros de baptismo da paróquia de Tavarede, que começam em 1578, não consta o nascimento de qualquer filho por esses anos.

Esclareço que os registos paroquiais da nossa freguesia, existentes no Arquivo da Universidade de Coimbra, onde podem ser consultados, começam no ano de 1564, mistos, isto é, o mesmo livro serviu para registar nascimentos, casamentos e óbitos. Como aqueles livros já se encontram informatizados, é possível a sua consulta na internet, mas, na verdade, eu não os consigo ler de forma a tirar quaisquer elementos.

Igualmente não consegui apurar o nome de todos os filhos, pelo que só se indicam alguns, a saber:

– António Fernandes de Quadros, militar, que foi foi morto em Mazagão, pelos mouros, sendo ainda solteiro. Seria ele o herdeiro;

- Pedro Lopes de Quadros, que, devido à morte de seu irmão, foi seu sucessor no morgado;

- Manuel de Quadros, que em 1585 foi para a Índia, onde esteve vários anos, de onde regressou a Portugal. Foi nomeado Comendador da Ordem de Cristo e faleceu em 25 de Março de 1603, ainda solteiro. Havia ensurdecido;

- Aires de Quadros, que também foi para a Índia, onde morreu em combate;

- João de Quadros, que também seguiu a carreira militar, tendo ido para a Índia, no ano de 1595. Para recompensa dos serviços prestados, foi-lhe concedida, por carta régia de 1 de Outubro de 1609, uma tença anual de 120 000 reis.

- D. Joana (ou Juliana) de Távora, havia sido destinada à vida eclesiástica, tendo sua mãe, em testamento, deixado uma tença de 10 cruzados, que receberia após a entrada no convento, tentando seu pai fazê-la ingressar no Convento de Santa Clara em Coimbra. Teve outro destino, pois casou com João Vaz da Cunha, senhor da Casa de Antanhol e que mais tarde comprou casa e quinta em Maiorca, onde passaram a residir. São de sua descendência os viscondes de Maiorca, que receberam o título em 1846;

- D. Margarida de Távora, freira no Convento de Celas, em Coimbra;

- D. Genebra de Távora, que ingressou no Convento de Santa Clara de Coimbra, como leiga, tendo sido nomeada testamenteira de seu pai no ano de 1582; e

- D. Leonor de Távora, freira neste último convento.

Como se verifica só se conseguiram identificar 9 dos falados 22… E de notar que Fernão Gomes de Quadros ainda teve mais dois filhos bastardos…

Foi Fernão Gomes de Quadros que adquiriu o prazo de Vila Verde, a Fernão Brandão, morador em Coimbra e foreiro à Mitra de Coimbra.

Em 1551, devido a questões surgidas com as demarcações deste prazo, envia a El-Rei uma petição na qual diz que “tem, num lugar que se chama Vila Verde, termo de Montemor-o-Velho, a qual parte com terras de Santa Cruz e com terras do Cabido de Coimbra”, informando ainda que “houve este lugar por título de compra, e as partes não querem chegar a averiguar se para cada um haja o seu …”.

Respondeu El-Rei, nomeando o Bispo de Tanger, por carta de 25 de Junho daquele ano, para proceder à pretendida demarcação: D. João, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar em África, Senhor da Guiné, etc.

Faço saber, a vós Juiz de Fora da cidade de Coimbra, que havendo respeito ao que disse Fernão Gomes de Quadros, na petição atrás escrita, hei por bem e vos mando que façais demarcação do lugar de Vila Verde, e dessas terras de que na dita petição se faz menção, sendo para isso citadas e requeridas as partes a que a dita demarcação tocar, e cujos forem as heranças e propriedades que com elas confrontam, os ouvireis e vos informareis por onde as ditas partem e confrontam, assim por testemunhas antigas dignas de fé, como por tombos e escrituras públicas, se as aí houver, e fareis logo demarcar por marcos e divisões aqueles casos em que não houve dúvidas e as partes consentirem e fiquem contentes, e nas em que a houver se não metam os ditos marcos e vós determinareis acerca disso o que for de justiça, dando apelação e agravo nos casos em que o couber, para onde tudo pertencer e de tudo se farão autos públicos, os quais assinareis com as partes e testemunhas que forem presentes, e com o Tabelião em que fazendo a dita demarcação, e querendo alguma das partes os treslados dos autos da demarcação para fazerem, vós lhos fareis dar de maneira que faça fé.

El-Rei Nosso Senhor manda para D. Gonçalo Pinheiro, Bispo de Tanger, e pelo doutor José Monteiro, chanceler dos Mosteiro e Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, ambos do seu Conselho e seus desembargadores do Paço. Baltazar Fernandes o fez, em Almeirim, a 25 de Junho de 1551. João de Castilho o fez escrever. a) Bispo de Tanger, a) José Monteiro. Pagou quarenta reis. Pero Gomes Ludovicus.

Em Março de 1557, respondendo a uma nova petição de Fernão Gomes de Quadros, El-Rei D. João III escreveu ao Almoxarifado de Coimbra uma carta. … E porquanto Fernão Gomes de Quadros, fidalgo da minha casa, me enviou dizer que entre as coisas que Juliana de Távora, sua sogra, lhe prometera em dote de casamento com D. Helena de Távora, sua filha, e mulher dele, dito Fernão Gomes de Quadros, fôra uma quinta que estava no termo da Recada, que se chama A Folarinhas, pelo preço em que fosse avaliada como mais largamente é declarado no contrato do dito dote e que depois do dito contrato ser feito, ele e a dita sua mulher, não foram contentes de tomarem e receberem a dita quinta no preço em que fôra avaliada, por acharem que seria a mais seu proveito receberem o preço dela em dinheiro de contado, para se empregar em juro ou em outras propriedades de que pudessem receber mais proveito e que a dita Juliana de Távora, sua sogra, por virtude das procurações que ele e a dita sua mulher fizeram vender a dita quinta a Nicolau Geraldes pelo preço e quantia de um conto e quinhentos mil reis, os quais foram depositados… …para se empregarem no dito juro ou em outras propriedades, por onde o dito dote estivesse mais seguro…

…entregou a João Gomes, fidalgo da minha casa, tesoureiro da Casa da Índia, como se viu por um conhecimento em forma, feito por Pedro Rodrigues, escrivão da dita Casa e assinado por ambos, em que era declarado lhe ficarem por ele carregado em receita os ditos um conto e quinhentos mil reis, o qual conhecimento era feito no primeiro dia de março deste ano presente de 557, pelo que a dita venda por perfeita e acabada na maneira sobredita e ela D. Helena aceitou e foi dela contente com todas as cláusulas e condiões sobreditas… …e encomendo a todos os reis meus sucessores, que pelo tempo forem, que cumpram e mandem cumprir esta carta e cada uma das coisas nela contidas… … e os quais cento e vinte mil reis hei por bem lhe sejam assentados no Almoxarifado da cidade de Coimbra e pagos por esta nossa carta geral pelo rendimento da Alfândega da Figueira da foz do Mondego e pelo ramo das sisas de Tavarede que são do dito Almoxarifado, pelo que mando ao Almoxarife da dita Alfândega e ao recebedor do dito ramo, que agora são e ao diante forem, que no primeiro dia de janeiro do ano de quinhentos e cinquenta e oito em diante, por esta nossa carta geral, sem mais ser necessário outra provisão minha nem do vedor da minha fazenda, lhe façam pagamento dos ditos 120$000 reis por esta maneira, a saber: O Almoxarife da dita Alfândega 100$000 reis e o recebedor do dito ramo 20$000 reis… Era mais um rendimento a juntar aos muitos que já possuia, em especial os produzidos pela ilha da Morraceira, formando uma soma considerável.