sábado, 21 de julho de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 13

O morgado de Tavarede desempenhou estas funções até ao ano de 1655, tendo pedido escusa do cargo. O rei, aceitando a petição feita, aceitou a escusa. Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Havendo visto a petição que me fizestes para vos haver por escuso de continuar no cargo de capitão mor da vila de Buarcos, de que estais encarregado, e as razões que vos obrigam a pedi-lo.

Com atenção a elas, hei por bem de vos haver desobrigado da dita ocupação. E para que o tenhais assim entendido, mando fazer este aviso. Escrita em Lisboa a 31 de Julho de 1655. Rei.

Já referimos que um dos seus filhos, Manuel de Melo, tinha sido morto em combate contra os espanhóis. É intessante transcrever a carta que El-Rei escreveu ao fidalgo de Tavarede a lamentar o sucedido: Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. O Mestre de Campo João de Melo me deu conta da entrada, que em 16 de Março próximo passado, fez em Castela, e do sucesso dela e do encontro que teve com o inimigo, em que o vosso filho Manuel de Melo foi morto, do que tive desprazer e sentimento e pareceu-me dizer-vos que fico com lembrança de sua morte e do valor com que procedeu na ocasião, para vos fazer mercê que houver lugar. Escrita em Lisboa a 21 de Maio de 1655. Rei. Aliás, deve referir-se que uma das grandes preocupações deste fidalgo tavaredense, foi o de fazer trasladar o corpo deste seu filho, deixando escrito no seu testamento que “se eu, na minha vida, não trouxer para a dita sepultura (no convento de Santo António) o meu filho, Manuel de Melo, sepultado em Almeida, onde morreu ao serviço do Rei D. João, o meu testamenteiro o mande buscar à custa de meus bens, para que mortos logremos todos juntos lugar certo”.

Fazemos, agora, a transcrição integral do seu testamento, pois são sempre documentos que nos permitem analisar melhor a personalidade do testamenteiro. Pedimos desculpa, no entanto, por possíveis erros, pois a leitura de onde o retirámos (cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo) é bastante dificíl, pelo menos para nós.

Em nome de Deus Amen. Padre, Filho, Espirito Santo que hé hum só Deus em Essencia e distinto em pessoas.

Eu Fernão Gomes de Quadros estando neste lugar da Figueira doente com todo o meu entendimento que Nosso Senhor me deu, Considerando o quanto he a morte certa, o quanto he duvidosa a hora della, e a conta que heide dar ante o Divino Juizo, de tudo o que fiz, e hora obrigado a fazer como Christão emquanto vivo, para descargo de minha consciencia e das obrigaçoens em que posso estar, para ordenar as cousas convenientes de toda a Alma Christan, hade fazer indo-se desta vida transitoria para outra eternal, em principio deste acto, digo o que eu tenho e creio firmemente tudo aquillo que tem e cre a Santa Madre Igreja Catolica, e protesto de sempre assim o ter na vida e na morte, e se o Demonio carne, ou o Mundo o contrario em algum tempo ou hora offerecer ao meu pensamento desde agora para então abruncio disse ao Eterno Deus, por sua Imensa Mizericordia, pelo Sangue Preciozissimo, que o Redemptor do genero humano, Jesus Christo, derramou, digo Cristo Nosso Senhor, derramou, pela salvação das Almas, receba este probertecção e lhe ajude acabar nesta vida em penitencia de meus pecados, e rogo a Sacratissima Virgem, Nossa Senhora, pelas dores que recebeo na morte de seu preciozo Filho, Jesus Christo, que seja minha intreceptora ante o Divino Tribunal naquella expantosa hora, para me alcançar de meus pecados, perdão e gloria eterna.

Pimeiramente elejo por meu Testamenteiro a meu Parente Rodrigo Homem de Quadros de quem na vida fui muito amigo, e espero que elle o seja da minha alma, na morte, e delle fio dará certo da brevidade cumprimento a meu Testamento.

= Mando, que meu corpo seja sepultado no Convento de Santo António deste lugar da Figueira na Capella mór, de que sou Padroeiro, e que me lancem no mesmo lugar em que minha mulher, que Ds bem jáz, e se eu em minha vida não trouxer para a dita sepultura os ossos de meu filho Manoel de Mello que Ds. tem, que está sepultado em Almeida aonde morreu, no serviço de ElRey D. João, e peço a meu Testamenteiro, mande buscar, seus ossos, a custa de meus bens, para que mortos, logremos todos juntos lugar certo, emquanto nos não virmos no céo, como Ds o permitirá por sua divina Mizericordia = E porquanto, eu sou Cavaleiro Professo da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, mando que o meu corpo vá vestido com o Abito, que tenho da mesma ordem, como sou obrigado, e debaixo levarei o de Sam Francisco, de que sou devoto, pelo qual darão dois mil reis de esmola, e a Irmandade da Mizericordia de Bo-Arcus outo mil reis e a Irmandade de Santo Aleixo de Tavarede quatro mil réis, que quero que os Irmãos della com sua bandeira vestidos em suas vestias me acompanhem, e ainda que me levem à sepultura, na Tumba da Mizericordia de Bo-Arcos, e ao Provedor della, e Irmam, peço que consintam, que me levem nelle quatro clerigos, que meu Testamenteiro nomeará os mais pobres que houver, de que darão de esmola a cada hum, mil reis, com obrigação de que dirão cada hum duas missas .

= Deixo a Confraria do Santissimo 4 mil reis de esmola e a de Nossa Senhora do Rosario outros 4 mil reis, e a do Nome de Jesus e de S. Sebastião, a cada huma 2 mil reis, e estas confrarias são as da Igreja de S. Martinho de Tavarede, e meu Testamenteiro, aplicará estas esmolas ao que mais for necessario nas ditas confrarias, não as entregando aos Mordomos dellas, e com a sera de todas as confrarias e da Irmandade de Santo Aleixo, se fará meu enterro, e se lhe pagará o que se gastar, e a Confraria de S. Martinho, aplicados da mesma forma deixo 2 mil reis .

= E dado o cazo, que eu falleça em parte que se não possa trazer meu corpo à sepultura da Capella mor de Santo Antonio da Figueira, ordeno que aonde se enterrar esteja em deposito, para quando for tempo me trazerem meus ossos a sepultura, de que faço menção na mesma forma declarada neste meu testamento, e o pesso assim a meu Testamenteiro.

= Ordeno que os officios se me fação à capucha e sem mais fausto nem pompa, que a que a mesma capucha soffre, e não quero que haja sermão de exequias, pois não he justo, que se falle depois de morto em quem emquanto vivo viveo tão mal, e aos pobres que acompanharem meu corpo darão aos que forem pequenos hum vintem, e aos homens e mulheres dous vintens, e huns e outros serão pobres e não muitos, que sem o serem vão ganhar esse jornal, que praza a Deus mereção com alguma oração; e o mais de meu enterramento disporá meu Testamenteiro, como eu confio delle e o meu amor lhe merece.

= E dado o caso que eu em minha vida tenha feito os dittos meus oficios, couza que desejo muito, nesse cazo, me farão um só officio de corpo presente, o que tambem será no dia de meu enterro, no caso que os tres se hajam de dilatar, o que pesso não seja, e este officio se pagará aos Padres alem da esmola que, pelos tres oficios e offertas lhe mando dar.

= Dara o dito testamenteiro aos Padres de Santo António 20 mil reis em dinheiro e hum moio de trigo e huma pipa de vinho e todos os Padres, que estiverem em caza, dirão nos tres dias Missa pela minha Alma e o mesmo todos os clerigos, que quizerem achar-se nos ditos oficios, dando-lhes a cada hum mais hum tostão do que he costume, e para o jantar dos Padres, nos tres dias dos oficios lhes darão duas arrobas de vaca, seis carneiros e seis almudes de vinho.

= Ordeno que por minha Alma se mande dizer mil missas para que por meio dellas, se lembre Deus della, e isto em brevidade possivel, e cem dellas, serão a Virgem Nossa Senhora, para que seja minha interessessora e 50 a S. João Bautista, e 50 a Santo Antonio, e 50 a N. Sª. da Esperança, a quem darão de esmolla, 2.000 reis para as suas obras, ou o que mais necessario fôr e parecer ao dito meu Testamenteiro.

=.Ordeno a meu testamenteiro que para assistirem a meus officios vista 20 pobres, os quais assistirão nelles com sua vella aceza, rezando por minha Alma, e nesses tres dias lhes mandara dar a cada hum de jantar ou hum vintem para elle, e no cabo dos 3 dias hum tostão a cada hum, e recomendo que sejão os mais pobres que houver.

= E porque he minha benção que o Morgado desta minha casa dos Quadros, va em crescimento nomeio meu Neto Fernão Gomes de Quadros, o meu Prazo de Rendide, em que na ultima vida, e se eu nelle não houver renovação de emprazamentos, dar tres vidas, que o direito dá, e que determino fazer, em tal cazo, visto que na ultima vida, transfiro e traspaço, como em direito mais valioso fôr, no meu dito Neto Fernam Gomes de Quadros, todo o direito, que tenho de poder pedir ao directo senhorio, que he o Mostº. de Alcobaça, a renovação do dito Prazo, para que seja seu, pois que tenho grande gosto e por este modo quero que vá em aumento o acrescentamento de minha Caza; assim como em tudo o que pude o procurei fazer, dizerdando-me em vida, só para aumenta-la, e peço ao meu dito Neto que no que puder siga sempre este intento, para que sua caza em nome creça, em honra e bens, e como os de sua colidade, e pera isso dando vida a seus irmãos segundos; peço, lhe não pafrepele imaginação casar seus Irmãos, nem filhos nem filhas que tenhão, antes lhes dê a vida de Freiras recolhendo-as em hum Mosteiro que que houverem de sêlo, muito meninas.

= Declaro que o meu Prazo de Lares que comprei ao Conde de Basto, Dom Diogo de Castro, emquanto na segunda vida que he de nomeação, nomeo no ditto meu Netto, Fernão Gomes de Quadros, pelas mesmas razoens assima referidas e por razão, que quem for senhor do Morgado do Campo da Morraceira, seja di dito Prazo, visto que o não é do lugar de Villa Verde, o que Deus quererá que ainda seja por ser assim razão e justiça, a que Deus ainda na falta da tersa dá.

=Declaro que as Numeaçoens dos dous Prazos faço com declaração, que no caso, que o dito meu Neto, Caze, o que Deus não permitta, com mulher Cristan Nova, Moura, Mulata, ou Negra, não tenhão vigor, e quero, que em direito posso, que logo os dittos Prazos passem a meu Neto, Pedro Lopes de Quadros ou em falta sua, ao que mais velho fôr e tambem quero, que se algum delles cometter crime contra as Magestades divina ou humana, porque haja de perder os bens, e os ditos Prazos desde agora os hei por nomeados, 6 dias antes de tal cometimento, em outro Netto, sendo sempre o mais velho, e em falta delles machos, na Neta que estiver em estado de poder com isso casar, e só nesse caso o aprovarei, e pesso ao meu dito Neto e a todos meus Descendentes e pessuidores desta minha caza queiram sempre nomear estes dous Prazos seus possuidores deste meu Morgado, para que nunca a Caza diminua antes sempre creça.

= E declaro, que meu Netto Fernam Gomes de Quadros, he herdeiro do Morgado de minha caza, e peço a Nosso Senhor lho deixe lograr muitos annos; e porque no campo da Murraceira está ainda alguma parte, que não he do Morgado, mando que se tome nella a terça parte de minha terça conforme a instituição do mesmo Morgado, para que o seja todo, e pela mercê das partilhas, que está em puder de M.el Pinto, Escrivam de Tavarede, se verá o que do campo não he Morgado, e o em que consiste tudo o delle, e se a vida me der lugar, eu farei todas estas declarações, com as solemnidades necessarias confirmadas por ElRey, para que fiquem na Torre do Tombo, para sempre, quando eu o não faça, peço ao ditto meu Netto como sucessor do dito Morgado, que o faça, e peço e encomendo ao dito meu Netto e mais sucessores, que forem di dito Morgado, que se lembrem muito de encumendar a Deus as Almas, de meus vis Avós Antonio Fernandes de Quadros e Genebra dazevedo como instituidores delle, fazendo-o de tudo o que tinhão, e mostrando grandes desejos de o fazer maior se poderão, no que meu Avô e Pai os não emitaram, e peço ao dito meu netto, se desvie de os emitar a elles nisto, e lhe encumendo que em tudo o que, puder, o acrescente, e eu lhe não deixo para isto senão duas partes da minha terça, por ser necessidade preciza, e despender-se em meus legados e discargos de minha consciência e salvação de minha alma, que vou desenganado da vida, e que os que ficão nella com os bens herdados, que poucos, que se lembrem della o que eu não espero de meu Netto, porque alem das obrigações deselo, as que me tem, pelo que o amo, e as que me teve seo Pay, são notorias ao Mundo todo.

= Declaro, que se depois dos legados pagos, e estiver dado cumprimento a tudo o deste testamento, houver algum crecimento, que chegue a se puder comprar dinheiro a validade de hum annual de Missas peço a meu Testamenteiro, as mande dizer na Capella mor de Santo Antonio da Figueira pela minha Alma e de minha mulher que Deus tem, e isto no caso, que eu o não deixe ordenado, que he couza de que trato, e se a quantia , que crecer depois de tudo o assima ordenado, não for o que baste para fazer o que digo, neste cazo o que montar o crecimento, se cazem dez orfãos, dando a cada hum 10 mil reis, e uma cama, em que jazão, e mais, se o houver, se me mandará dizer em missas, e isto será do dinheiro, que me acharem, que não poderá ser muito indo mal.

= Declaro, que devo, e me devem algumas dividas, e porque as vou pagando e cobrando, as não declaro aqui, e dellas e de alguns discargos de minha conciencia clarejos necessarios deixarei feito hum apontamento, que quero e me contente, que lhe dem inteiro crédito em todo, e se para isso ser lhe falta alguma solenidade, ou declaração em direito necessaria, que eu aqui hei por expressa e declarada, quero que valha, como se fosse em Testamento e a meu Testamenteiro peço que lhe dê em tudo cumprimento e dado o caso, que algumas pessoas digão, que eu lhe devo alguma cousa, e não tenham disto escripto meu, sendo pessoas dignas de crédito, bastará que o jurem pª serem pagos.

= E peço ao meu Netto que honore e ajude meus criados, e aos seus faça o mesmo, porque deste modo os terá para o servirem com amor, vontade, e que a tenha grande de ter a casa muito cheia delles, para que não aconteça que esteja sem elles, tendo com quê, e estes são os parentes adquiridos por nós na vida, e se no que lhe der for muito liberal será Senhor dos homens, do mundo e do Cêo.

= Declaro que a minhas Irmans sou obrigado a dar em cada hum anno de terça a cada huma 25 mil reis e 15 alqueires de bom trigo, e que esta mesma obrigação tem meu netto, por ter a caza de seu Pay, que Deus haja os bens de suas legitimas, que eu comprei ao Convento de Santa Clara de Coimbra aonde são Freiras, declarando no contracto, que fis com ellas, que lhes pagaria a dita tença em minha vida, e por minha morte, meu filho, ou netto a quem recomendo, e peço que lhes pague a dita tença, com cuidado e boa vontade, e porque a tenho grande de que o dito meu Netto se componha com sua Prima Netta minha, e filha de meu filho Manoel de Mello, que Deus tem, que está no convento de Villa Longa para assim ser Freira, e sendo isso, me he necessario fazer algumas declaraçoens do que he seo, e quando isto não tenha efeito, declaro por discargo de minha conciencia, que do dinheiro, que recebi do Dote de seu Pai lhe não devo mais do que 6 mil cruzados, porque o demais que falta para o recibo que fiz entreguei ao dito meu filho seu Pay.

= Declaro que depois da morte de meu filho Pedro Lopes de Quadros, que Deus tem, comprei huma Quinta no termo de Torres Vedras, aonde chamão a ponte do ril, com o dinheiro que ficou do ditto meu filho, que he de meus nettos, e assim não tem que entrar em partilhas de meus bens a dita quinta, nem o valor della.

= Declaro, que eu deixo ao Padre Miguel d’Oliveira, que está em minha casa, pelo amor com que me serve e servio sempre a meus filhos à muitos annos, o meu Cazal, que está junto deste lugar da Figueira, frente com Mosteiro de S.to Antonio e lomba, que comprei a Isabel deniz de Maiorca com obrigação de me dizer duas Missas, todos os annos por minha alma, e por sua morte tornará ao herdeiro de minha casa, e mando mais, que lhe deem em dinheiro 100 mil reis, para comprar humas casas ou fazer o que quizer os quais se lhe darão em dinheiro.

= Deixo a Domingos Romão criado meu que me serve ha muitos annos, humas cazinhas, que já lhe dei com seu quintal, para cazamento de huma filha, afilhada minha, e lhe dei na data dellas, hum escripto, feito e assinado por mim, que mando se lhe cumpra como se fôra escriptura publica.

= E à Maria Antonia, cunhada sua deixo outras, que já lhe dei por certas obrigações e mando que se lhe guarde hum escripto que lhe dei na forma sobredita, e lhe deixo mais a minha Quinta que foi de Melchior Ribello, para ajuda de criar Antonio, seu filho e meu.

= E declaro, que o dito Antonio meu filho natural deixo o que remanecer, depois de pagar todos os legados assima declarados, das duas partes de minha terça, para o sustentarem athé a idade de o puderem fazer frade, olhoro, ou o mandarem para a India, e depois de se lhe dar huma destas vidas, qual elle quizer, ou para a que tiver mais geito, tomarão os bens, que houverem de dar ao possuidor do meu Morgado, e porquanto o dito Antonio, he muito pequenino e o dito Padre Miguel de Oliveira he seu Padrtnho, e pelo amor, que conheço nelle me teve sempre e a minhas cousas o creará, como meu filho Natural, lhe peço queira tomar sobre si o crialo, e correr com o rendimento da dita fazenda, que lhe deixo na forma assima dito para o criar e lhe dar vida, e assim peço ao meu dito testamenteiro, lhe faça entregar, o que digo os bens, que remanecerem, para que com os rendimentos delles se fazer o que ordeno.

= E declaro que a meu Testamenteiro Rodrigo Homem de Quadros, deixo a minha mullata velha çapateira, em recompensa da amizade, que sempre tivemos do trabalho de ser meu Testamenteiro.

= Declaro, que por morte de meu filho Manoel de Mello, que Deus tem, ficaram tres escravos, de que morreu huma por nome Caterina, e outra, mandei a sua filha, e outra por nome Doruthea, com dous filhos, que está em meu poder, que mando se lhe entreguem, e assim mais hum escravo, por nome Antonio Muleque, que dei a João Cardoso para dar a sua sobrinha filha de meu filho Manoel de Mello doas faltas e seis cadeiras atamaradas, que elle levou para Lisboa, aonde ficarão, e o mais que ficou por sua morte, mandei à sua filha, faço esta declaração para que se não faça duvida, o que lhe ficou, dizendo que hera mais ou menos.

= A Nicoláo, escravo meu, tenho dado hum escripto meu em que o deixo forco por me servir com amor, mando que se lhe guarde o dito escripto porque essa he minha vontade e dos mais escravos, que ha em minha casa, disporei nos apontamentos, de que aqui faço menção, e do que no tocante a isto dispuzer, se dará cumprimento na forma declarada neste testamento.

= Declaro que o vincullo que ponho no Casal de Santo Antonio, que deixo ao Padre Miguel d’Oliveira, que são duas missas, cada semana, ficará para sempre, posto no dito casal, assim em vida do dito Padre Miguel de Oliveira, como depois da sua morte athe o fim do Mundo.

= Declaro que eu fiz este Testamento em 3 de setembro de 665, estando doente na cama, mas em todo o meu juizo e entendimento, que Deus me deu, e o que nelle ordeno, he minha ultima vontade, quero que valha como testamento, cedula, codicilio, em milhor modo, e maneira que ser possa, para effeito de em Direito mais valler, para o que hei aqui por expressas e declaradas todas e quaisquer clauzulas, cautellas, como se cada huma se houvesse de fazer expressa menção e para desta ultima vontade constar em publica forma, seja para bem de minha Alma e Gloria de Nosso Senhor, o qual seja sempre louvado, para sempre dos sempres Amen.

= Roguei ao Padre Frei Ricardo da Madre de Deus, Religioso da Ordem de S. Bernardo, que este fizesse por mim o qual eu fis a seu rogo, e me assignei = Fernão Gomes de Quadros = Freire Ricardo da Madre de Deus.

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 37

1968.02.14 - O MÉDICO À FORÇA (MAR ALTO)

Por obra e graça do grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, teve a Figueira da Foz, há cerca de um ano, o gosto e o proveito de contactar com o teatro de Molière. Por obra e graça do mesmo grupo, agora pode tornar a vê-lo. Não se trata, porém, de uma reposição: é uma nova e grande farsa que surge.

Sem a força social de “Tartufo”, por exemplo, a peça actualmente em cena é de conteúdo ideológico superior ao das “Artimanhas de Escapino”, obra esta talvez demasiado chegada a moldes italianos. A retomada, portanto, significa que, batendo embora a mesma tecla, José Ribeiro não dá, com isso, prova de cansaço. Na verdade, representar e fazer representar bem “O médico à força”, é incontestavelmente progredir, no mundo do Teatro e de Jean Baptiste Poquelin.

“La règle de toutes les règles, c’est de plaire”. Esta norma do autor de “A avarento” realizou-a ele plenamente, no seu hilariante “Médico à força”, feliz arranjo de uma xácara medieval. Eis por que a peça agora em cena no palco de Tavarede é de agrado certo, para mais bem montada e realizada como está.

Em plano de relevo, situamos Maria Dias Pereira (Martinha), João Cascão (Lucas) e João de Oliveira Júnior (Esganarelo), todos com momentos destacados. Outra vez, porém, tal como já notáramos em “Todos eram meus filhos”, surge Violinda em plano superior, fazendo da secundária figura de Jaquelina a dominadora da cena, sempre que nela entra.

Uma palavra, também, para os cenários, do prof. e pintor Alberto de Lacerda e do cenógrafo José Maria Marques; uma outra para o mobiliário, na maior parte da Sociedade, ajudado por umas peças de adorno cedidas pelo Museu Municipal da Figueira.

Mas a última palavra, a de mais apreço, de facto e de direito, cabe, ainda agora, a José Ribeiro, a quem continuamos a dever a manutenção e a dignificação do Teatro, na Figueira da Foz.

1968.02.24 - O MÉDICO À FORÇA (O FIGUEIRENSE)

Quem ainda não viu, pode satisfazer o seu desejo de rir com alegria amanhã à tarde, assistindo à representação da célebre comédia de Molière “O Médico à Força”, que faz a sua despedida em Tavarede.

Esplêndido espectáculo de teatro, pela peça, que é do melhor e do mais característico do genial Molière, e pela apresentação que lhe dá o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, o público aproveita gostosamente estas duas horas de alegria e boa disposição.

Representando-se agora pela última vez e em espectáculo à tarde, pode desde já garantir-se mais uma enchente.

1968.03.09 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

O distinto grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, deu no passado domingo, em “matinée”, um novo espectáculo com mais uma magnífica representação da engraçadíssima comédia de Molière: “O Médico à Força”.

Foi um belíssimo espectáculo, que deu aos assistentes uma dupla satisfação: a de passarem duas horas de alegria e boa disposição e de contribuirem para ajudarem uma obra beneficente digna de todo o carinho, como é a Conferência de S. Vicente de Paulo, à qual a SIT, como o tem feito muitas vezes em relação a outras instituições, destinou a receita do espectáculo.

Satisfazendo os pedidos de muitas pessoas que não puderam ainda assistir à representação de “O Médico à Força”, a direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense resolveu dar amanhã, também em “matinée”, um novo espectáculo com a bem urdida e esplêndida peça do celebrado Molière.

1968.04.13 - JARDIM ESCOLA DAS ALHADAS (O FIGUEIRENSE)

Conforme aqui anunciámos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense veio dar, na Sociedade Boa União Alhadense, um espectáculo com a representação da chistosa comédia em 3 actos, “O Médico à Força”, do grande dramaturgo Molière, cujas peças que escreveu, apesar de antigas, são sempre actuais. Esta comédia, que é engraçadíssima, sem cair no disparate, teve por parte dos amadores de Tavarede uma interpretação correctíssima como é seu timbre e até o seu mestre foi, nesta peça, ensaiador-actor, tendo aparecido numa pequena rábula com uma dignidade a todos os títulos brilhante.

José Ribeiro – Tio Baldo – ao entrar em cena foi alvo de uma calorosa manifestação por parte do público que enchia a vasta sala de espectáculo dispensando-lhe calorosa salva de palmas. O desempenho, como sempre, brilhante, não havendo lugar a destacar este ou aquele, pois todos se houveram à altura dos seus créditos já firmados.

No final do espectáculo e em cena aberta duas crianças do Jardim-Escola acompanhadas de sua professora-regente, srª D. Manuela Simões Marinheiro entregaram a D. Violinda Medina, essa extraordinária intérprete de Jacquelina, e a José Ribeiro, dois lindos ramos de cravos, acto este premiado com prolongada salva de palmas. Falou o sr. Galamba Marques pelo Lions Clube, organizador deste espectáculo, para agradecer ao grupo de Tavarede a forma como acarinhou esta iniciativa vindo dar uma lição de teatro a esta localidade, cujo produto revertia para auxílio da compra de um novo orgão para o Jardim Escola das Alhadas. Agradeceu à direcção da Boa União a forma gentil e carinhosa como acedeu ao pedido que lhe havia sido feito, cedendo a sua casa sem qualquer encargo para o clube realizador.

Na mesma ordem de ideias falou o presidente da Comissão de Assistência pelo Jardim Escola reiterando os agradecimentos feitos pelo sr. Galamba Marques.

Por fim falou José Ribeiro, que com a sua fluente palavra disse que não eram devidos agradecimentos ao seu grupo mas sim este é que estava grato por lhe ter sido dado ensejo de contribuir com o seu trabalho para auxiliar uma obra digna de todo o carinho. Lembrou o acto inaugural do edifício do Jardim Escola, a que assistiu, e que nessa altura, frente ao seu instituidor, o saudoso e grande benemérito que foi Fortunato Augusto da Silva disse: São precisos hospitais e asilos, mas não o são menos as escolas infantis, os Jardins Escolas. José Ribeiro, há 50 anos, já era o orador fluente e arrebatador que ainda hoje é. Grande ovação recebeu José Ribeiro ao terminar o seu notável improviso, como de improviso fala sempre.

Na cantina do Jardim Escola foi servido um fino beberete confeccionado pelas senhoras do Lions Clube e das Alhadas, que foi motivo para brindes feitos por José Ribeiro, para agradecer em nome do seu grupo às senhoras que tão gentilmente ali os recebiam, enaltecendo a obra levada efeito pela professora-regente; e dr. Carlos Januário Ribas de Freitas em nome da direcção da Boa União, dizendo que esta colectividade continuará sempre ao dispor do Jardim Escola para tudo em que lhe possa ser útil. Por fim falou o distinto advogado figueirense sr. dr. Dias Costa, que brilhantemente dissertou sobre o significado desta encantadora festa com alusões várias a José Ribeiro, que foi grande amigo de seu saudoso pai, e o grupo que tão proficientemente dirige, e que o seu Clube (Lions) está sempre pronto a auxiliar obras como a do Jardim Escola das Alhadas.

Felicitamos muito sinceramente todos quantos contribuiram para o bom êxito deste espectáculo e fazemos nossas as palavras do presidente da Comissão de Assistência. Bem hajam! Bem hajam todos.

1968.07.13 - DENTE POR DENTE (O FIGUEIRENSE)

A estreia da peça “Dente por Dente” de Shakespeare, adaptação de Luís Francisco Rebelo, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, no último sábado, aguardada com o maior interesse no meio local, ultrapassou toda a espectativa.

Desde a interpretação pelo notável conjunto de amadores ao mais pequeno pormenor da montagem, está valorizada extraordinariamente pelo adequado jogo de luzes, maravilhoso guarda-roupa e artísticos cenários, pode afirmar-se que foi um grande espectáculo que o mestre de teatro, que é José da Silva Ribeiro, ofereceu ao público. Antes de subir o pano, dissertou longamente sobre o mérito da obra do genial dramaturgo, sendo muito aplaudido pela numerosa assistência, bem como no final da representação.

No próximo sábado o memorável espectáculo será repetido na sede da colectividade.

Apresentamos as nossas saudações a todos os intervenientes na representação pela sua ilimitada dedicação ao Teatro, que, sendo um dos mais poderosos instrumentos de cultura, honra sobremaneira a nossa terra.

1968.07.31 - DENTE POR DENTE (MAR ALTO)

Eu não sei se se pode encontrar por esses Mundos este património de Arte que vive impregnado nos componentes do grupo cénico do Teatro de Tavarede, com a compenetração, com a espontaneidade que ressalta em todas as suas interpretações, que servem para ganhar tanto prestígio e tanta admiração!

Estes homens que não sabem deter-se no trabalho duro, exaustivo, nos ensaios, nos espectáculos, seguros de si mesmo, como se estivessem erguendo a sua própria casa, pedra sobre pedra, com o sentido propósito de vencerem sempre com entendimento, com coração de quem sente na sua mais acentuada intimidade; essa doce ambição, essas sentidas e justas aspirações, que unem todos os tavaredenses, de elevarem o nível cultural e o nome da formosa e acolhedora terra que os viu nascer!

Grande tarde de teatro, a da matinée de domingo, 21, realizada no moderno teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, assistido por um público vivamente interessado e atraído pela categoria do autor e pelo prestígio do seu grupo cénico!

“Dente por dente”, obra famosa de Shakespeare, entrou em cheio no teatro de Tavarede, onde o seu admirável conjunto fez teatro de verdade, teatro de profissionais!

Falemos de uma tarde de teatro e de dois intérpretes fora de série – dois gloriosos veteranos do teatro de Tavarede: D. Violinda Medina e João Cascão e da sua maravilhosa e magistral interpretação nos difíceis papéis de “Dona Serôdia” e “Pompeu”, interpretação que mereceu os mais calorosos aplausos do público.

Os nossos justos elogios para uma nova vedeta: Maria Inês, actriz perfeita que com propriedade e ternura tão bem soube encarnar o papel de “Isabel”.

Falemos de Fernando Reis, que triunfou no difícil papel de “Duque”, e de João de Oliveira Júnior, muitíssimo bom, no papel de “Ângelo”.

Refiramo-nos também a José Medina, do seu bom humor, e de Alice Pereira Lontro, da sua excelente dicção, muito expressiva em “Mariana”; de Júlio Teixeira e António Santos, nos papéis de “Sargento” e “Corvino”.

Todos muito bem e uma referência especial a esses homens que nunca se vêem e que transformam, impecavelmente, em poucos segundos, as catorze cenas de extraordinária beleza que nos oferece esta maravilhosa obra de Shakespeare!

A admirável interpretação de todos os componentes, a linda música da época, que se ouve durante a representação da peça, os belos cenários, o riquíssimo guarda-roupa, constituem um conjunto que nos atrai, que nos prende, que nos domina do princípio ao fim do espectáculo, tornando-o recomendável a quem a ele ainda não assistiu.

Mas, por cima destes elementos, é justo valorizar, na sua exacta dimensão, o grande, o exaustivo trabalho de Mestre José Ribeiro na difícil arte de ensinar a fazer teatro, teatro de verdade, como aquele a que agora assistimos.

Contudo, escrever sobre Mestre José Ribeiro é bem difícil. Excede as nossas possibilidades literárias! É que a objectividade da sua Obra, o carinho que dedica ao seu teatro, o seu talento, são imensamente grandes e sobejamente conhecidos no país inteiro.

Ele elegeu Tavarede, o lindo e acolhedor rincão do nosso concelho, para construir o seu mundo de teatro, para aportar sempre a uma realidade incontestável, que é todo esse imenso reportório de sucessos do seu grupo, a quem ensina, a quem transmite um pouco da sua sabedoria, proporcionando-nos agora, talvez, a melhor peça que o seu teatro tem apresentado ao público!

Os nossos parabéns a Mestre José Ribeiro, credor da maior admiração, por quem temos o maior respeito – quase devoção – pela sua acção generosa em prol da sua terra e pela divulgação da difícil arte de fazer teatro, à Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense e a todos aqueles que contribuiram para o êxito incontestável da peça em cena, no teatro de Tavarede!

1968.08.07 - SHAKESPEARE EM TAVAREDE (MAR ALTO)

Há peças feitas, peças que aos actores apenas exigem que as digam razoavelmente; e há peças que o actor tem de fazer. Há peças polarizadas, com toda a acção recaíndo sobre um actor, ou sobre um pequeno conjunto de actores; e há-as descentralizadas, exigindo muito de todos ou quase todos os actores. Dente por Dente pareceu-nos uma peça despolarizada e para ser feita. Mais: pareceu-nos também uma peça de exercitação, mais pronta para o cinema do que apta para o palco – não residirá aí o motivo da sua escassa popularidade? -, com uma primeira parte inegavelmente muito cortada por quadros distintos, único meio de integração do público na acção.

Quer dizer: Dente por Dente, a pouco conhecida mas bem representativa tragicomédia shakespereana, exige muito de muitos artistas, e grande soma de recursos técnicos de palco – cenários, trajos, luzes, som -. Por tais motivos, é uma peça difícil para qualquer elenco, e exigente para qualquer técnico: espécie de teste, para qualquer grande companhia.

Temos de convir, e com todo o gosto, em que os Tavaredenses passaram no teste técnico. Cuidamos que esse mesmo terá sido o móbil de José Ribeiro. Os quadros, sucederam-se num bom ritmo, para um palco não rotativo; e foi-nos dado ver como podem harmonizar-se justamente o cenário clássico e o moderno jogo de luzes.

Da representação desta peça, que se nos afigura inadequada ao actual elenco de Tavarede, diremos que nos pareceu nivelada, embora a um plano mais modesto do que aquele a que já às vezes nos chamou José Ribeiro. Era isto natural: as duas maiores figuras do presente elenco amador de Tavarede – Violinda e João Cascão -, têm um papel tão breve, que verdadeiramente não contam para o juizo final sobre a actuação; e a figura de graduação imediata – João de Oliveira Júnior -, não alcançou meter-se todo no papel que lhe coube, demasiado complexo e vário como era, sobretudo desajudado pelo tempo exíguo concedido para as mutações psicológicas exigidas. Desta maneira, e com o elenco inteiro esforçando-se por cumprir o melhor que pode, tivemos uma representação ao exacto plano amador; o que é bastante bom, numa peça assim.

Resumindo: boa prova de maturidade técnica de palco, cenários, trajos, sons e luzes – estas muito apoiadas sobre dois esplêndidos projectores exteriores; representação modesta mas honesta de um esforçado grupo de amadores, numa terra que lhes não deixou jogar os melhores trunfos que incontestavelmente possui.

1968.09.25 - FESTA DE TEATRO EM TAVAREDE (MAR ALTO)

Bonita festa, a de sábado em Tavarede.

Ali foi recebido, em ambiente de grande elevação, o dramaturgo Luís Francisco Rebelo.

Lotação esgotada. Ar de festa. Lindas plantas decoravam o magnífico teatro.

Ali vimos os srs. cónego Tomás Póvoa, reitor do Seminário; dr. Mira Coelho, director da Escola Industrial e Comercial, com sua esposa; dr. João Rigueira, director do Liceu; dr. Adelino Mesquita, pintor Alberto de Lacerda, prof. Rui Martins, Alberto Anahory (consagrado indumentarista, que há muitos anos se devotou à Sociedade de Instrução Tavaredense, e que se deslocou propositadamente de Lisboa); Moreira Júnior e esposa; tenente António Pascoal, comandante da PSP; dr. Olívio de Carvalho e esposa; drª. D. Cristina Torres Duque, dr. Carlos Estorninho e esposa, dr. Melo Costa e esposa, etc.

Quando o sr. dr. Luís Francisco Rebelo, com sua esposa, entrou na sala, ouviu-se uma grande e prolongada salva de palmas. E antes do início da representação da peça de Shakespeare – Dente por Dente – José Ribeiro fez a apresentação do homenageado, num improviso vibrante, pondo Luís Francisco Rebelo em confronto com outras figuras de grande relevo no Teatro Português.

Num intervalo foi entregue à esposa do homenageado, pela menina Otília Medina Cordeiro, um ramo de flores em que predominava o limonete. E no final da representação houve chamada do sr. dr. Luís Francisco Rebelo ao palco. Em breves palavras, referiu-se à actividade do grupo de Tavarede, tão seu conhecido há muitos anos. Do valor dos seus amadores, e de quanto fez José Ribeiro. Uma grande ovação cobriu estas palavras, que se prolongou calorosamente quando por D. Violinda Medina, a excelente amadora tavaredense, foi entregue ao orador um ramo de flores.

No final do espectáculo foi oferecido, no palco, um copo-de-água, em que usaram da palavra os srs. cónego Tomás Póvoa, dr. Luís Francisco Rebelo, José Ribeiro e António de Oliveira Lopes.

O sr. dr. Luís Francisco Rebelo escreveu para “Mar Alto” o seguinte: “Devo à gente de Tavarede, a todos os elementos do seu grupo teatral, desde José Ribeiro ao mais modesto e anónimo, e a todos os espectadores, porque é da conjunção de uns e outros que torna possível esta coisa extraordinária a que hoje assisti – devo a todos, repito, uma das mais belas, mais puras e mais exemplares lições de amor, de verdadeiro amor pelo Teatro”.

1968.09.28 - LUÍS FRANCISCO REBELO (O FIGUEIRENSE)

Revestiu-se de excepcional brilhantismo a festa de homenagem ao ilustre dramaturgo dr. Luís Francisco Rebelo, realizada no último sábado na Sociedade de Instrução Tavaredense e promovida pelo seu grupo cénico, que representou a peça “Dente por Dente” de William Shakespeare na adaptação feita pelo homenageado.

A ampla sala de espectáculos, que se encontrava repleta, oferecia o belo efeito das grandes representações.

O brilhante escritor, que se fazia acompanhar de sua esposa, foi recebido com estrondosa ovação por parte da assistência.

Antes do início do espectáculo, o director do grupo cénico, sr. José da Silva Ribeiro, veio ao proscénio saudar o ilustre visitante.

A representação decorreu em bom nível artístico, pois que o festejado grupo de amadores devia ter realizado uma das melhores representações da peça do imortal dramaturgo.

No final do espectáculo o dr. Luís Francisco Rebelo, acedendo simpaticamente às constantes chamadas do público, desceu ao palco acompanhado pelo Presidente da Assembleia Geral da SIT, sr. Professor Rui Fernandes Martins, para receber as homenagens da assistência, sendo-lhe entregue pela principal amadora, Violinda Medina e Silva, um ramo de flores da nossa terra.

A sua esposa já anteriormente havia sido oferecido um vistoso ramo de flores pela gentil menina Otília Maria Medina Cordeiro.

Ao agradecer as calorosas saudações que a numerosa assistência lhe tributara, o ilustre dramaturgo e historiador do Teatro pronunciou um brilhante discurso, exaltando a notável obra cultural e artística que a SIT vem realizando, a qual considerou surpreendente.

Seguidamente foi servido a todos os convidados e ao pessoal do palco um abundante “copo de água”, durante o qual fizeram uso da plavra para cumprimentar o ilustre homenageado vários dos presentes.

Em suma, os tavaredenses souberam receber na sua modéstia, as deferências que eram devidas ao ilustre autor da peça “O Dia Seguinte” que obteve assinalado êxito no palco da SIT, a quando da sua representação.

sábado, 14 de julho de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 36

1967.01.11 - AS ARTIMANHAS DE SCAPINO (MAR ALTO)

O presente comentário, que anunciámos em 21 do mês findo, deve-se a uma Senhora. Diplomada pela Universidade de São Paulo, desde há anos exerce professorado na Figueira. Muito interessada em Teatro, naturalmente acabou por "descobrir" o Grupo de Tavarede, sobre o qual hoje pela primeira vez publicamente se manifesta.

Honrado por esta distinta presença, "Mar Alto" tem gosto em apresentar aos seus leitores uma nova colaboradora.

A Sociedade de Instrução Tavaredense estreou, como todos sabemos, no passado dia 17 de Dezembro, a peça em três actos "As artimanhas de Scapino", de Molière. Tomadas pelo habitual entusiasmo que nos despertam as actividades dessa casa, não faltámos à estreia.

A peça não é das mais representativas de Molière; o interesse reside, sobretudo, nas peripécias endiabradas do personagem principal: "Scapino".

Scapino é a alma da peça; Scapino inventa e complica, mas a sua imaginação fértil encontra solução para tudo, a acção depende inteiramente dele e por isso todas as outras personagens dependem dele e são animadas por ele.

Sem dúvida alguma, João de Oliveira Júnior deu-nos mais uma vez prova da sua grande capacidade de comediante, encarnando um Scapino vaidoso da sua malícia, irreverente, matreiro, cheio de complacência para com os apaixonados; saiu-se com absoluta mestria nas cenas principais do I e II actos, falhando um tanto na dificílima cena II do III acto.

Quanto às outras personagens, que nada mais são do que um apoio para nos apresentar Scapino em acção, temos a louvar os pais dos apaixonados, João Medina e Fernando Reis, sobretudo o último, pela sobriedade no desempenho da personagem. As figuras femininas, de interesse diminuto, na peça, são a nosso ver também as mais fracas; esta crítica estende-se a todas as figuras femininas que temos visto, à excepção da notável "Maria Parda". Não queremos com isto desencorajar as componentes do grupo, mas incitá-las a um trabalho cada vez mais profundo, com vista a uma maior perfeição, galardão com que todos desejarão premiar o homem esforçado, alma de uma obra a todos os títulos notável, que é o director do grupo, sr. José Ribeiro.

Tecnicamente, temos a louvar a justeza dos cenários, sobretudo a maneira engenhosa como nos foi apresentada a III cena do III acto.

Para terminar, só temos a dizer que a Sociedade de Instrução Tavaredense está de parabéns. É uma instituição que deve ser incentivada, cada vez mais, pelo seu brilhante contributo em prol da cultura.

1967.02.25 - PRIMOROSA NOITE DE TEATRO (JORNAL DA MARINHA GRANDE)

.... o grupo cénico de Tavarede, cuja direcção artística é da competência do sr. José da Silva Ribeiro, veterano nos segredos a arte de Talma, levou à cena no palco do Teatro Stephens a “revolucionária" peça denominada “O Processo de Jesus”.

Este original, sabiamente interpretado pelos componentes do grupo de Tavarede (que nos deram uma grande lição na arte de representar), é da autoria do famoso dramaturgo italiano Diego Fabri e pode considerar-se uma autêntica peça renovadora d teatro moderno.

De facto, Diego Fabri, no “Processo de Jesus” coloca-nos perante um dilema enormemente difícil de compreender, pleno de actualidade, onde todos parecem ter razão. Depois a agitação da peça é de tal calibre, as verdades são tão evidentes, que tudo faz estremecer o mais pacífico de coração. Aliás, segundo nos parece, este facto foi evidente.

É que, Diego Fabri, o inovador do Teatro Italiano, apresenta a sua tese de um modo invulgar – um à guisa de julgamento, sendo o rei, nada mais nada menos, do que o próprio Cristo. Eis, pois, um pormenor ousado. Cristo como réu! É porque não? A temática em causa é de tal ordem que mais parece vermos todo o século XX a julgar o “Rabi Nazareno”, o Salvador do Mundo. Isto, não obstante os factos apresentados pelos (personagens) contemporâneos Dele – os apóstolos Pedro, Tiago e (o bom patriota) Judas. Depois a “pecadora” Madalena, Lázaro, Caifás e Pilatos.

Com efeito, estes personagens apresentam cada um o seu depoimento perante o tribunal de um modo extraordinário, segundo a ideologia de cada um, quer política, quer religiosa, e por isso mesmo lógica.

O debate deu-se de tal forma que, até ao fim do primeiro acto, tudo nos levava a crer que a “condenação” de Cristo seria (de novo) evidente! Realmente, sob o ponto de vista judiciário tudo nos indicava esse caminho.

Entretanto, no segundo acto, a agitação continuou e até mais intensiva. Mas Diego Fabri apresenta desta vez o “humanismo” a falar. De súbito oferece uma surpresa. Positiva. Lógica. Actual. Para além dos meandros do tribunal – juizes e testemunhas – surge o “público” com o seu ponto de vista, não baseado em argumentos judiciários mas sim no real que a vida nos proporciona no dia a dia.

Estabelece-se assim um diálogo dificílimo. Agitador. Comunicativo. Pleno de temática. Arrebatador. Na “plateia” havia uma atmosfera de suspense. Quem teria razão? O personagem “Padre”em pleno desacordo ora com o “Intelectual” ora com o “jornalista”... A “Ruiva” que se considerava uma “espécie” de Madalena não podia concordar com o ponto de vista do “Intelectual”, além de que Cristo era para ela a única salvação?... O “Filho Pródigo” ou o “cego”? Quem teria, de facto, razão se todos tinham algo a dizer?...

Muito embora este diálogo fosse de um despertar de consciência arrepiante, inquietador, a verdade é que em virtude da inesperada (mas muito sábia) entrada de “A velhinha”, nova personagem quiçá a maior, há um período de bonança, de tranquilidade íntima dadas as palavras que “A velhinha” profere.

Personificando uma mãe a quem fuzilaram o filho por razões que ela ignorava e, por consequência, se encontrava autenticamente só, mas infinitamente eserançada no “além”, onde sentiu o seu filho, e dotada de uma sincera e profunda fé, a velhinha surgiu no tribunal a fim de solicitar a mesmo que não condenasse Jesus, enfim, a dar-nos uma verdadeira lição e mãe... A peça teria atingido aqui o seu maior apogeu. Dir-se-ia que era impossível chegar mais longe. De tal forma que até o próprio acusador público, no personagem “David”, acabou por se “render” e cair nos braços enternecedores de “A velhinha”.

Com efeito, Cristo, acabou por não ser julgado judicialmente. Mas sim “classificado” pelos factos reais da vida humana personificada, no “público”, em síntese, pelo fervor e incomensuridade da fé...

Tivemos, pois, uma magnifica Noite de Teatro. Só é pena que seja tão raramente quando afinal o nosso público, com consciência ou sem ela, com maior ou menor grau de capacidade, começa a estar presente nestas (educativas) Noites de Ribalta.

Quanto à actuação do Grupo de Tavarede, uma palavra apenas: foi primorosa! Bom, meio século de teatro é muito. É sinónimo de longa aprendizagem. Há muito saber nos seus componentes. Os nossos aplausos, portanto, à Sociedade de Tavarede, mormente ao sr. José da Silva Ribeiro, a pedra básica deste grupo – homem dotado de uma extraordinária perseverança e que desde há longos anos vem dirigindo o Grupo Cénico de Tavarede como só ele sabe.

Para quando nova noite de Teatro com o elenco de Tavarede? Oxalá seja breve...

1967.02.25 - SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE (O FIGUEIRENSE)

Incluido no programa das festas comemorativas de mais um aniversário da fundação do Grupo Operário Marinhense, deslocou-se no último sábado à Marinha Grande, para ali dar um espectáculo com a notável peça do grande dramaturgo italiano Diego Fabri, “O Processo de Jesus”, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Como se verificou nas récitas dadas na sede, e na no dia 25 de Janeiro findo no Teatro do Grande Casino Peninsular, a representação agradou plenamente, pois que a assistência aplaudiu calorosamente os seus intérpretes.

No final do espectáculo foram os componentes da caravana obsequiados com um abundante beberete, trocando-se saudações entre os representantes das duas colectividades, e oferecida uma primorosa peça artística em vidro ao grupo da nossa terra.

Amanhã, vai o mesmo grupo representar no teatro do Quiaios Clube a hilariante comédia de Molière “As Artimanhas de Scapino”, que ainda no teatro do Grupo Instrução e Recreio, no dia 12, conquistou assinalado êxito.

1967.03.04 - “AS ARTIMANHAS DE SCAPINO” (O FIGUEIRENSE)

Como dissemos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou no domingo, no Quiaios Clube, “As Artimanhas de Scapino”.

A representação do alegre espectáculo, que os amadores tavaredenses proporcionaram à numerosa assistência, decorreu muito bem, e agradou, como o demonstraram os vibrantes aplausos de que foram alvo e o seu ilustre ensaiador José da Silva Ribeiro.

A famosa comédia de Molière, que viveu entre 1622 e 1673, constitui, na verdade, um grande espectáculo de permanente gargalhada.

Aquela extraordinária imaginação que o célebre autor cómico põe no cérebro privilegiado de Scapino é admirável...

É certo que todos os dias aparecem relatados na grande imprensa casos semelhantes de indivíduos que pelas suas habilidades são capazes de enganar a Cristo... como diz o povo.

No domingo, 12 do corrente, o engraçado espectáculo será apresentado no teatro do Grupo Vilaverdense.

1967.08.09 - NOVA CONSAGRAÇÃO DE UMA ACTRIZ (MAR ALTO)

No actual complexo urbano e suburbano figueirense, a nota definitória de Tavarede é o seu Grupo Cénico. E tal realidade deve-se ao trabalho ímpar de José Ribeiro, cujo enamoramento pelo Teatro, porque lhe vem do berço, o faz hoje a personificação mais viva de uma tradição que ali, na Terra do Limonete, se perde nos séculos. Pode dizer-se que, só graças a essa força imensa e apaixonada, o Teatro ainda hoje existe no meio figueirense.

Mas a esta primeira verdade há que juntar uma outra. E é a de que os amadores de Tavarede são mesmo de lá; porquanto só fazem Teatro na SIT os que na Terra do Limonete vivem. Por tal princípio, se é certo que aumentam as limitações do Grupo - está em jogo sempre apenas a "prata da casa" -, também é certo que o benefício da cultura teatral se torna mais sensível, pois constantemente atinge um mesmo aglomerado humano. Teatro em Tavarede, por e para Tavarede, é a norma ali adoptada.

E quem vai de fora, ou quem fora o recebe, não pode esquecer tais características. Porque, sempre que se renova a aventura de Teatro pelos amadores de Tavarede, antes de apreciá-la já temos que louvá-la: trata-se de um milagre de amor, dedicação, sacrifício.

Depois de Gil Vicente e de Shakespeare, de Molière, Pirandello e Diego Fabri, José Ribeiro quis dar-nos a sua versão de "Todos eram meus filhos", de Artur Miller. Aconteceu isso com uma casa cheia, no último sábado à noite, uma noite difícil, recheada de inoportunas interrupções da corrente eléctrica.

A representação foi outra consagração de Violinda Medina, até na medida em que todos os restantes elementos em cena, honestos embora no esforço por cumprir, por qualquer circunstância ficaram sensivelmente distantes dela, que assim foi uma actriz sem réplica.

É certo que João Medina, a figura mais ligada a Violinda, teve momentos de boa presença, como os tiveram as outras figuras, femininas e masculinas, incluindo o pequeno António Manuel. Mas esteve menos à vontade do que n'"O Processo de Jesus", por exemplo; isso aconteceu sobretudo quando interpretou o industrial astuto e senhor de si, amável e faceto enquanto se sentia próspero.

Por sua vez João Medina, que foi quem esteve mais próximo de Violinda, teve dificuldades nas situações de à-vontade, quando cabeça, braços ou mãos podiam tomar atitudes de perfeito repouso. De resto, ele como os outros quase sempre estiveram melhor nas situações tensas, de onde nos ter agradado de preferência a ponta final da peça, o que é sempre importante.

Uma palavra ainda para João de Oliveira que, num papel pequeno, fez o que lhe cumpria.

Na distribuição do cenário, apenas o caramanchão nos pareceu excessivamente retirado da vista do público.

Por este apontamento de hoje, não de crítico mas de modesto espectador, pretendemos o mesmo que no sábado fizémos: aplaudir os amadores de Tavarede e tentar colaborar com eles, formas de agradecer o grande benefício que nos prestam, dando-nos Teatro do melhor!

1967.08.12 - TODOS ERAM MEUS FILHOS – (O FIGUEIRENSE)

O público integra-se de tal forma no desenrolar do tema, envolvente desde o primeiro ao último acto, que acaba por ter absoluta razão de ser a expontaneidade dos fartos aplausos com que premeia a actuação dos amadores no final de cada uma das partes do espectáculo.

Falamos da peça de Artur Miller, a primeira duma série que o célebre dramaturgo americano publicou, e que a Sociedade de Instrução Tavaredense, através dum punhado de entusiastas da arte de Talma, agora levou à cena e que na sua primeira sessão obteve assinalável êxito.

Trata-se dum problema do após-guerra, em que o entrechocar de certos e determindos conceitos serviu de tema a uma peça bem calibrada – em que não se notam excessos -. Há suavidade no sentido e na interpretação.

Um grupo equilibrado de intérpretes – destaque-se João Medina, bem acompanhado por Violinda Medina e Silva, José Lopes Medina e Maria Inês Barosa Lopes, sem desprimor para os restantes – deu dignidade a uma peça digna do nosso tempo.

Felicitamos a SIT pela escolha da obra, sobretudo pelo profundo sentido humano que encerra, (impressiona o acentuado sentido de honestidade e de amor); os seus amadores pela verdade que puzeram nos difíceis papéis distribuídos, e o público pela oportunidade que teve de assistir a um bom espectáculo.

TODOS ERAM MEUS FILHOS – OUTRA APRECIAÇÃO (O FIGUEIRENSE)

Continua mestre José Ribeiro, na sua infatigável devoção pelo bom teatro, a proporcionar-nos noites de autêntico encanto espiritual. No passado sábado, 5, a sua arte de encenador invulgar, evidenciou-se uma vez mais, na magnífica peça de Artur Miller, Todos Eram Meus Filhos.

Sempre que assistimos a uma estreia de autor célebre, no acolhedor e magnífico Teatro da SIT, nesta vetusta terra de Tavarede, toma-nos como que uma hipnose que nos tolhe a noção de espaço e tempo... Pois é lá possível que, nesta outrora importante mas hoje pacata e rústica aldeia, se faça teatro com tão elevado nível? Não estaremos na fabulosa Nova Iorque onde a peça Todos Eram Meus Filhos alcançou notável triunfo, merecendo ser-lhe atribuído o prémio do Círculo dos Críticos de Teatro?

Ao intervalo do 2º acto vamos até ao palco, convencer-nos de que não sonhamos... e procurar desvendar, nas figuras com que nos familiarizamos nos dois actos já representados, o desfecho dessa peça humaníssima! Deveria ela ser vista... e compreendida, por quantos põem na ambição das riquezas, na avidez do dinheiro, conseguido por meios mais que discutíveis, toda a razão de ser da sua existência! A tragédia do nosso tempo... O primado dos bens materiais sobre os valores espirituais; o egoismo desenfreado, opondo o fraticídio ao princípio cristão da fraternidade humana, tão esquecido na prosperidade e na paz e que a guerra vem reavivar dolorosamente...

João Medina dá-nos bem a medida do seu talento, na figura bonacheirona de Joe Keller, industrial de armamento, inculto mas sagaz e astucioso! A sua ambição visa um único fim: enriquecer os filhos. Mas na dura lição da guerra, estes aprenderam verdades que o pai ignora ou nem sequer consegue entender... E a vida daquela família tão feliz, tolda-se de nuvens de tragédia... Violinda Medina e Silva, “Kate Keller”, esposa de Joe e mãe de Chris Keller, vive a trágica desgraça de quem perdeu um filho na guerra e se vê na contingência de perder paz e quanto tem de mais caro – o filho Chris – brutalmente chocado pelas habilidades paternas; maravilhosa, como sempre, a sua interpretação! José Lopes Medina, no Chris, e Maria Inês Barosa Lavos, em Ann Deever, dão-nos um par encantador, ele confirmando as suas tradições de elemento já consagrado nos mais variados papéis; ela com a sua vivacidade tão natural, conquistando de peça para peça, com justificado mérito, um lugar entre os grandes.

João de Oliveira Junior, dá-nos nesta peça, em George Deever, uma amostra da versatilidade do seu talento, compondo uma figura retraída e sombria, amargurada pela dúvida e pelo ressentimento...

José Luís do Nascimento, muito bem no médico, e Carmina Moreira da Fonseca, sua esposa, fazendo progressos apreciáveis, bem como sua irmã Piedade Fonseca na Lydia Lubey.

Do pequeno António Manuel do Nascimento, bem se pode dizer que filho de peixe sabe nadar...

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 12

Claro que o Conselho de Coimbra, face a tal queixa, fez o que lhe competia: mandou ao rei os documentos para que providenciasse sobre os mesmos.

Gonçalo da Costa Coutinho, capitão mor de Montemor-o-Velho, escreveu a Vossa Majestade a carta inclusa em que refere que quer Fernão Gomes de Quadros, capitão mor de Buarcos, subordinado a D. Luiz de Almada, capitão mor de Coimbra, intrometer-se naquele distrito que Vossa Majestade lhe tem encarregado, tomando a jurisdição que não tem, e dando ordens aos capitães dele, um dos quais mando com esta a Vossa Majestade para cujo serviço e acervo dele parece que lhe devia logo em primeiro lugar dar conta do aviso que diz teve, sem ser pelo meu, que tomou para se fazer superintendente no distrito que Vossa Majestade só a ele tem encarregado, e mais quando a barra, e entrada que esta costa tem que é a Figueira da Foz fica nele, e a defensa de Buarcos, que por todas as partes fica cercado daquele distrito, se há-de fazer principalmente com a gente dele.

É o ânimo e desejo do dito Fernão Gomes em querer mandar naquele distrito em que é morador muito conhecido e muito antigo, e a esse respeito lhe disseram que tem tido muitas questões com os juízes de fora daquela vila, que pelo Duque governador dele faziam aqui o ofício de capitães mores e parece ainda as continuar, do que lhe pareceu dar conta a Vossa Majestade para que mande nisso o que mais for servido.

Uma notificação lhe mandava fazer para que não excedesse, nem alterasse, a forma das ordens de Vossa Majestade, e indo dois escrivães com a dita diligência lhes não quis dar lugar para a fazerem, como não fizeram que conste da pergunta, e suposto lhes pareceu que podia e devia proceder contra ele por ser morador naquele distrito, o que não quis fazer sem ordem de Vossa Majestade, pois o ocupa e lhe dá nome de capitão mor de Buarcos.

Vossa Majestade ordenará o que for servido, e sendo o de dar-lhe licença para poder vir a esta cidade onde tem negócios precisos, receberá mercê, porque no tempo presente, naquelas partes há já inverno e parece que segura e defende aquela costa, e que tomará a assistência dela, ou a outro qualquer ponto que Vossa Majestade lhe ordenar de seu serviço, em que sempre determina confirmar.

Ao Conselho parece que Vossa Majestade tem mandado declarar nos alvarás que mandou passar a estes capitães, uns a jurisdição de que hão-de usar, e que se lhe deve escrever de novo encarregando-lhes que cada um use da que se lhes deu sem se intrometer na de outro, e a Gonçalo da Costa se lhe deve conceder dois meses de licença que pede, para usar dela depois de entrado o mês de Novembro.

El-Rei não tardou a advertir o capitão mor da praça de Buarcos. Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Tenho entendido que vos intrometeis na jurisdição que toca ao capitão mor de Montemor o Velho, Gonçalo da Costa Coutinho, com intento de ampliardes a vossa e porque no alvará que vos mandei passar se declara a de que haveis de usar, e foi a dos termos dela não convém em nenhuma maneira estendê-la, pelos inconvenientes que disso podem resultar a meu serviço como parece. Digo-vos e adverti-vos que não excedeis em coisa alguma os limites da vossa jurisdição, porque o estranharei com rigor, antes tratai em ajudar-vos em tudo, com as ordens que vos tenho dado, procurando cumpri-las muito pontualmente, para que assim se faça e ainda melhor ao que se oferecer de o meu serviço. Escrita em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1642

Tudo se resolveu a contento de todas as partes. O rei D. João IV ficou satisfeito com a acção desenvolvida por Fernão Quadros. E entendendo que era muito conveniente estar tudo prevenido contra os sempre possíveis ataques dos espanhóis, resolveu emitir novo alvará ao capitão mor: Eu, El-Rei, faço saber aos que este meu alvará virem, que considerando quanto importa a todos os lugares do meu Reino estejam fortificados e com toda a prevenção necessária para qualquer invasão e cometimento que o inimigo intente fazer e principalmente os que estão mais perto da raia e costa do mar, e que para isso assistam neles pessoas de qualidade, partes e experiência, que com todo o cuidado tratem de os fortificar e defender com o zelo e fidelidade que convém, e por convir que na vila de Buarcos haja pessoa que sirva de capitão mor e na de Fernão Gomes de Quadros, fidalgo da minha casa, que há muitos anos exercita o mesmo cargo, com notória satisfação por nele concorrer tudo o referido e esperando que o continuará com a mesma e conforme a confiança que faço de sua pessoa por todos estes respeitos, hei por bem e me praz de lhe fazer mercê, como por este alvará faço, do posto de capitão mor da dita vila de Buarcos e seu distrito, para que o sirva e exercite enquanto Eu o houver por bem e não mandar o contrário.

Com toda a jurisdição, poder e alçada que por razão dele lhe pertencer e gozará de todos os privilégios, honras, preeminências, isenções e franquezas que direitamente lhe tocarem e que gozam os mais capitães mores das cidades e vilas destes meus Reinos, e servirá debaixo do juramento e posse que tem tomado e com que serve o mesmo cargo, pelo que mando ao governador de armas da província da Beira, de cujo distrito é, o tenha e haja por tal capitão mor, e a todos os capitães e oficiais e soldados das companhias da dita vila e que nela e seu distrito assistirem, e mais pessoas a que tocar, façam o mesmo e lhe obedeçam, cumpram e guardem as ordens que ele lhes der, como devem e são obrigados.

E quero que este alvará se cumpra e guarde bem inteiramente como nele se contém, tenha força e vigor, posto que seus efeitos hajam de durar mais de um ano, sem embargo da ordenação em contrário. Manuel Pinheiro o fez em Lisboa, aos 4 dias do mês de Junho de 1646 e eu, António Pereira, o fiz escrever. El-Rei.