sábado, 21 de julho de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 37

1968.02.14 - O MÉDICO À FORÇA (MAR ALTO)

Por obra e graça do grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, teve a Figueira da Foz, há cerca de um ano, o gosto e o proveito de contactar com o teatro de Molière. Por obra e graça do mesmo grupo, agora pode tornar a vê-lo. Não se trata, porém, de uma reposição: é uma nova e grande farsa que surge.

Sem a força social de “Tartufo”, por exemplo, a peça actualmente em cena é de conteúdo ideológico superior ao das “Artimanhas de Escapino”, obra esta talvez demasiado chegada a moldes italianos. A retomada, portanto, significa que, batendo embora a mesma tecla, José Ribeiro não dá, com isso, prova de cansaço. Na verdade, representar e fazer representar bem “O médico à força”, é incontestavelmente progredir, no mundo do Teatro e de Jean Baptiste Poquelin.

“La règle de toutes les règles, c’est de plaire”. Esta norma do autor de “A avarento” realizou-a ele plenamente, no seu hilariante “Médico à força”, feliz arranjo de uma xácara medieval. Eis por que a peça agora em cena no palco de Tavarede é de agrado certo, para mais bem montada e realizada como está.

Em plano de relevo, situamos Maria Dias Pereira (Martinha), João Cascão (Lucas) e João de Oliveira Júnior (Esganarelo), todos com momentos destacados. Outra vez, porém, tal como já notáramos em “Todos eram meus filhos”, surge Violinda em plano superior, fazendo da secundária figura de Jaquelina a dominadora da cena, sempre que nela entra.

Uma palavra, também, para os cenários, do prof. e pintor Alberto de Lacerda e do cenógrafo José Maria Marques; uma outra para o mobiliário, na maior parte da Sociedade, ajudado por umas peças de adorno cedidas pelo Museu Municipal da Figueira.

Mas a última palavra, a de mais apreço, de facto e de direito, cabe, ainda agora, a José Ribeiro, a quem continuamos a dever a manutenção e a dignificação do Teatro, na Figueira da Foz.

1968.02.24 - O MÉDICO À FORÇA (O FIGUEIRENSE)

Quem ainda não viu, pode satisfazer o seu desejo de rir com alegria amanhã à tarde, assistindo à representação da célebre comédia de Molière “O Médico à Força”, que faz a sua despedida em Tavarede.

Esplêndido espectáculo de teatro, pela peça, que é do melhor e do mais característico do genial Molière, e pela apresentação que lhe dá o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, o público aproveita gostosamente estas duas horas de alegria e boa disposição.

Representando-se agora pela última vez e em espectáculo à tarde, pode desde já garantir-se mais uma enchente.

1968.03.09 - TEATRO (O FIGUEIRENSE)

O distinto grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, deu no passado domingo, em “matinée”, um novo espectáculo com mais uma magnífica representação da engraçadíssima comédia de Molière: “O Médico à Força”.

Foi um belíssimo espectáculo, que deu aos assistentes uma dupla satisfação: a de passarem duas horas de alegria e boa disposição e de contribuirem para ajudarem uma obra beneficente digna de todo o carinho, como é a Conferência de S. Vicente de Paulo, à qual a SIT, como o tem feito muitas vezes em relação a outras instituições, destinou a receita do espectáculo.

Satisfazendo os pedidos de muitas pessoas que não puderam ainda assistir à representação de “O Médico à Força”, a direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense resolveu dar amanhã, também em “matinée”, um novo espectáculo com a bem urdida e esplêndida peça do celebrado Molière.

1968.04.13 - JARDIM ESCOLA DAS ALHADAS (O FIGUEIRENSE)

Conforme aqui anunciámos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense veio dar, na Sociedade Boa União Alhadense, um espectáculo com a representação da chistosa comédia em 3 actos, “O Médico à Força”, do grande dramaturgo Molière, cujas peças que escreveu, apesar de antigas, são sempre actuais. Esta comédia, que é engraçadíssima, sem cair no disparate, teve por parte dos amadores de Tavarede uma interpretação correctíssima como é seu timbre e até o seu mestre foi, nesta peça, ensaiador-actor, tendo aparecido numa pequena rábula com uma dignidade a todos os títulos brilhante.

José Ribeiro – Tio Baldo – ao entrar em cena foi alvo de uma calorosa manifestação por parte do público que enchia a vasta sala de espectáculo dispensando-lhe calorosa salva de palmas. O desempenho, como sempre, brilhante, não havendo lugar a destacar este ou aquele, pois todos se houveram à altura dos seus créditos já firmados.

No final do espectáculo e em cena aberta duas crianças do Jardim-Escola acompanhadas de sua professora-regente, srª D. Manuela Simões Marinheiro entregaram a D. Violinda Medina, essa extraordinária intérprete de Jacquelina, e a José Ribeiro, dois lindos ramos de cravos, acto este premiado com prolongada salva de palmas. Falou o sr. Galamba Marques pelo Lions Clube, organizador deste espectáculo, para agradecer ao grupo de Tavarede a forma como acarinhou esta iniciativa vindo dar uma lição de teatro a esta localidade, cujo produto revertia para auxílio da compra de um novo orgão para o Jardim Escola das Alhadas. Agradeceu à direcção da Boa União a forma gentil e carinhosa como acedeu ao pedido que lhe havia sido feito, cedendo a sua casa sem qualquer encargo para o clube realizador.

Na mesma ordem de ideias falou o presidente da Comissão de Assistência pelo Jardim Escola reiterando os agradecimentos feitos pelo sr. Galamba Marques.

Por fim falou José Ribeiro, que com a sua fluente palavra disse que não eram devidos agradecimentos ao seu grupo mas sim este é que estava grato por lhe ter sido dado ensejo de contribuir com o seu trabalho para auxiliar uma obra digna de todo o carinho. Lembrou o acto inaugural do edifício do Jardim Escola, a que assistiu, e que nessa altura, frente ao seu instituidor, o saudoso e grande benemérito que foi Fortunato Augusto da Silva disse: São precisos hospitais e asilos, mas não o são menos as escolas infantis, os Jardins Escolas. José Ribeiro, há 50 anos, já era o orador fluente e arrebatador que ainda hoje é. Grande ovação recebeu José Ribeiro ao terminar o seu notável improviso, como de improviso fala sempre.

Na cantina do Jardim Escola foi servido um fino beberete confeccionado pelas senhoras do Lions Clube e das Alhadas, que foi motivo para brindes feitos por José Ribeiro, para agradecer em nome do seu grupo às senhoras que tão gentilmente ali os recebiam, enaltecendo a obra levada efeito pela professora-regente; e dr. Carlos Januário Ribas de Freitas em nome da direcção da Boa União, dizendo que esta colectividade continuará sempre ao dispor do Jardim Escola para tudo em que lhe possa ser útil. Por fim falou o distinto advogado figueirense sr. dr. Dias Costa, que brilhantemente dissertou sobre o significado desta encantadora festa com alusões várias a José Ribeiro, que foi grande amigo de seu saudoso pai, e o grupo que tão proficientemente dirige, e que o seu Clube (Lions) está sempre pronto a auxiliar obras como a do Jardim Escola das Alhadas.

Felicitamos muito sinceramente todos quantos contribuiram para o bom êxito deste espectáculo e fazemos nossas as palavras do presidente da Comissão de Assistência. Bem hajam! Bem hajam todos.

1968.07.13 - DENTE POR DENTE (O FIGUEIRENSE)

A estreia da peça “Dente por Dente” de Shakespeare, adaptação de Luís Francisco Rebelo, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, no último sábado, aguardada com o maior interesse no meio local, ultrapassou toda a espectativa.

Desde a interpretação pelo notável conjunto de amadores ao mais pequeno pormenor da montagem, está valorizada extraordinariamente pelo adequado jogo de luzes, maravilhoso guarda-roupa e artísticos cenários, pode afirmar-se que foi um grande espectáculo que o mestre de teatro, que é José da Silva Ribeiro, ofereceu ao público. Antes de subir o pano, dissertou longamente sobre o mérito da obra do genial dramaturgo, sendo muito aplaudido pela numerosa assistência, bem como no final da representação.

No próximo sábado o memorável espectáculo será repetido na sede da colectividade.

Apresentamos as nossas saudações a todos os intervenientes na representação pela sua ilimitada dedicação ao Teatro, que, sendo um dos mais poderosos instrumentos de cultura, honra sobremaneira a nossa terra.

1968.07.31 - DENTE POR DENTE (MAR ALTO)

Eu não sei se se pode encontrar por esses Mundos este património de Arte que vive impregnado nos componentes do grupo cénico do Teatro de Tavarede, com a compenetração, com a espontaneidade que ressalta em todas as suas interpretações, que servem para ganhar tanto prestígio e tanta admiração!

Estes homens que não sabem deter-se no trabalho duro, exaustivo, nos ensaios, nos espectáculos, seguros de si mesmo, como se estivessem erguendo a sua própria casa, pedra sobre pedra, com o sentido propósito de vencerem sempre com entendimento, com coração de quem sente na sua mais acentuada intimidade; essa doce ambição, essas sentidas e justas aspirações, que unem todos os tavaredenses, de elevarem o nível cultural e o nome da formosa e acolhedora terra que os viu nascer!

Grande tarde de teatro, a da matinée de domingo, 21, realizada no moderno teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, assistido por um público vivamente interessado e atraído pela categoria do autor e pelo prestígio do seu grupo cénico!

“Dente por dente”, obra famosa de Shakespeare, entrou em cheio no teatro de Tavarede, onde o seu admirável conjunto fez teatro de verdade, teatro de profissionais!

Falemos de uma tarde de teatro e de dois intérpretes fora de série – dois gloriosos veteranos do teatro de Tavarede: D. Violinda Medina e João Cascão e da sua maravilhosa e magistral interpretação nos difíceis papéis de “Dona Serôdia” e “Pompeu”, interpretação que mereceu os mais calorosos aplausos do público.

Os nossos justos elogios para uma nova vedeta: Maria Inês, actriz perfeita que com propriedade e ternura tão bem soube encarnar o papel de “Isabel”.

Falemos de Fernando Reis, que triunfou no difícil papel de “Duque”, e de João de Oliveira Júnior, muitíssimo bom, no papel de “Ângelo”.

Refiramo-nos também a José Medina, do seu bom humor, e de Alice Pereira Lontro, da sua excelente dicção, muito expressiva em “Mariana”; de Júlio Teixeira e António Santos, nos papéis de “Sargento” e “Corvino”.

Todos muito bem e uma referência especial a esses homens que nunca se vêem e que transformam, impecavelmente, em poucos segundos, as catorze cenas de extraordinária beleza que nos oferece esta maravilhosa obra de Shakespeare!

A admirável interpretação de todos os componentes, a linda música da época, que se ouve durante a representação da peça, os belos cenários, o riquíssimo guarda-roupa, constituem um conjunto que nos atrai, que nos prende, que nos domina do princípio ao fim do espectáculo, tornando-o recomendável a quem a ele ainda não assistiu.

Mas, por cima destes elementos, é justo valorizar, na sua exacta dimensão, o grande, o exaustivo trabalho de Mestre José Ribeiro na difícil arte de ensinar a fazer teatro, teatro de verdade, como aquele a que agora assistimos.

Contudo, escrever sobre Mestre José Ribeiro é bem difícil. Excede as nossas possibilidades literárias! É que a objectividade da sua Obra, o carinho que dedica ao seu teatro, o seu talento, são imensamente grandes e sobejamente conhecidos no país inteiro.

Ele elegeu Tavarede, o lindo e acolhedor rincão do nosso concelho, para construir o seu mundo de teatro, para aportar sempre a uma realidade incontestável, que é todo esse imenso reportório de sucessos do seu grupo, a quem ensina, a quem transmite um pouco da sua sabedoria, proporcionando-nos agora, talvez, a melhor peça que o seu teatro tem apresentado ao público!

Os nossos parabéns a Mestre José Ribeiro, credor da maior admiração, por quem temos o maior respeito – quase devoção – pela sua acção generosa em prol da sua terra e pela divulgação da difícil arte de fazer teatro, à Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense e a todos aqueles que contribuiram para o êxito incontestável da peça em cena, no teatro de Tavarede!

1968.08.07 - SHAKESPEARE EM TAVAREDE (MAR ALTO)

Há peças feitas, peças que aos actores apenas exigem que as digam razoavelmente; e há peças que o actor tem de fazer. Há peças polarizadas, com toda a acção recaíndo sobre um actor, ou sobre um pequeno conjunto de actores; e há-as descentralizadas, exigindo muito de todos ou quase todos os actores. Dente por Dente pareceu-nos uma peça despolarizada e para ser feita. Mais: pareceu-nos também uma peça de exercitação, mais pronta para o cinema do que apta para o palco – não residirá aí o motivo da sua escassa popularidade? -, com uma primeira parte inegavelmente muito cortada por quadros distintos, único meio de integração do público na acção.

Quer dizer: Dente por Dente, a pouco conhecida mas bem representativa tragicomédia shakespereana, exige muito de muitos artistas, e grande soma de recursos técnicos de palco – cenários, trajos, luzes, som -. Por tais motivos, é uma peça difícil para qualquer elenco, e exigente para qualquer técnico: espécie de teste, para qualquer grande companhia.

Temos de convir, e com todo o gosto, em que os Tavaredenses passaram no teste técnico. Cuidamos que esse mesmo terá sido o móbil de José Ribeiro. Os quadros, sucederam-se num bom ritmo, para um palco não rotativo; e foi-nos dado ver como podem harmonizar-se justamente o cenário clássico e o moderno jogo de luzes.

Da representação desta peça, que se nos afigura inadequada ao actual elenco de Tavarede, diremos que nos pareceu nivelada, embora a um plano mais modesto do que aquele a que já às vezes nos chamou José Ribeiro. Era isto natural: as duas maiores figuras do presente elenco amador de Tavarede – Violinda e João Cascão -, têm um papel tão breve, que verdadeiramente não contam para o juizo final sobre a actuação; e a figura de graduação imediata – João de Oliveira Júnior -, não alcançou meter-se todo no papel que lhe coube, demasiado complexo e vário como era, sobretudo desajudado pelo tempo exíguo concedido para as mutações psicológicas exigidas. Desta maneira, e com o elenco inteiro esforçando-se por cumprir o melhor que pode, tivemos uma representação ao exacto plano amador; o que é bastante bom, numa peça assim.

Resumindo: boa prova de maturidade técnica de palco, cenários, trajos, sons e luzes – estas muito apoiadas sobre dois esplêndidos projectores exteriores; representação modesta mas honesta de um esforçado grupo de amadores, numa terra que lhes não deixou jogar os melhores trunfos que incontestavelmente possui.

1968.09.25 - FESTA DE TEATRO EM TAVAREDE (MAR ALTO)

Bonita festa, a de sábado em Tavarede.

Ali foi recebido, em ambiente de grande elevação, o dramaturgo Luís Francisco Rebelo.

Lotação esgotada. Ar de festa. Lindas plantas decoravam o magnífico teatro.

Ali vimos os srs. cónego Tomás Póvoa, reitor do Seminário; dr. Mira Coelho, director da Escola Industrial e Comercial, com sua esposa; dr. João Rigueira, director do Liceu; dr. Adelino Mesquita, pintor Alberto de Lacerda, prof. Rui Martins, Alberto Anahory (consagrado indumentarista, que há muitos anos se devotou à Sociedade de Instrução Tavaredense, e que se deslocou propositadamente de Lisboa); Moreira Júnior e esposa; tenente António Pascoal, comandante da PSP; dr. Olívio de Carvalho e esposa; drª. D. Cristina Torres Duque, dr. Carlos Estorninho e esposa, dr. Melo Costa e esposa, etc.

Quando o sr. dr. Luís Francisco Rebelo, com sua esposa, entrou na sala, ouviu-se uma grande e prolongada salva de palmas. E antes do início da representação da peça de Shakespeare – Dente por Dente – José Ribeiro fez a apresentação do homenageado, num improviso vibrante, pondo Luís Francisco Rebelo em confronto com outras figuras de grande relevo no Teatro Português.

Num intervalo foi entregue à esposa do homenageado, pela menina Otília Medina Cordeiro, um ramo de flores em que predominava o limonete. E no final da representação houve chamada do sr. dr. Luís Francisco Rebelo ao palco. Em breves palavras, referiu-se à actividade do grupo de Tavarede, tão seu conhecido há muitos anos. Do valor dos seus amadores, e de quanto fez José Ribeiro. Uma grande ovação cobriu estas palavras, que se prolongou calorosamente quando por D. Violinda Medina, a excelente amadora tavaredense, foi entregue ao orador um ramo de flores.

No final do espectáculo foi oferecido, no palco, um copo-de-água, em que usaram da palavra os srs. cónego Tomás Póvoa, dr. Luís Francisco Rebelo, José Ribeiro e António de Oliveira Lopes.

O sr. dr. Luís Francisco Rebelo escreveu para “Mar Alto” o seguinte: “Devo à gente de Tavarede, a todos os elementos do seu grupo teatral, desde José Ribeiro ao mais modesto e anónimo, e a todos os espectadores, porque é da conjunção de uns e outros que torna possível esta coisa extraordinária a que hoje assisti – devo a todos, repito, uma das mais belas, mais puras e mais exemplares lições de amor, de verdadeiro amor pelo Teatro”.

1968.09.28 - LUÍS FRANCISCO REBELO (O FIGUEIRENSE)

Revestiu-se de excepcional brilhantismo a festa de homenagem ao ilustre dramaturgo dr. Luís Francisco Rebelo, realizada no último sábado na Sociedade de Instrução Tavaredense e promovida pelo seu grupo cénico, que representou a peça “Dente por Dente” de William Shakespeare na adaptação feita pelo homenageado.

A ampla sala de espectáculos, que se encontrava repleta, oferecia o belo efeito das grandes representações.

O brilhante escritor, que se fazia acompanhar de sua esposa, foi recebido com estrondosa ovação por parte da assistência.

Antes do início do espectáculo, o director do grupo cénico, sr. José da Silva Ribeiro, veio ao proscénio saudar o ilustre visitante.

A representação decorreu em bom nível artístico, pois que o festejado grupo de amadores devia ter realizado uma das melhores representações da peça do imortal dramaturgo.

No final do espectáculo o dr. Luís Francisco Rebelo, acedendo simpaticamente às constantes chamadas do público, desceu ao palco acompanhado pelo Presidente da Assembleia Geral da SIT, sr. Professor Rui Fernandes Martins, para receber as homenagens da assistência, sendo-lhe entregue pela principal amadora, Violinda Medina e Silva, um ramo de flores da nossa terra.

A sua esposa já anteriormente havia sido oferecido um vistoso ramo de flores pela gentil menina Otília Maria Medina Cordeiro.

Ao agradecer as calorosas saudações que a numerosa assistência lhe tributara, o ilustre dramaturgo e historiador do Teatro pronunciou um brilhante discurso, exaltando a notável obra cultural e artística que a SIT vem realizando, a qual considerou surpreendente.

Seguidamente foi servido a todos os convidados e ao pessoal do palco um abundante “copo de água”, durante o qual fizeram uso da plavra para cumprimentar o ilustre homenageado vários dos presentes.

Em suma, os tavaredenses souberam receber na sua modéstia, as deferências que eram devidas ao ilustre autor da peça “O Dia Seguinte” que obteve assinalado êxito no palco da SIT, a quando da sua representação.

sábado, 14 de julho de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 36

1967.01.11 - AS ARTIMANHAS DE SCAPINO (MAR ALTO)

O presente comentário, que anunciámos em 21 do mês findo, deve-se a uma Senhora. Diplomada pela Universidade de São Paulo, desde há anos exerce professorado na Figueira. Muito interessada em Teatro, naturalmente acabou por "descobrir" o Grupo de Tavarede, sobre o qual hoje pela primeira vez publicamente se manifesta.

Honrado por esta distinta presença, "Mar Alto" tem gosto em apresentar aos seus leitores uma nova colaboradora.

A Sociedade de Instrução Tavaredense estreou, como todos sabemos, no passado dia 17 de Dezembro, a peça em três actos "As artimanhas de Scapino", de Molière. Tomadas pelo habitual entusiasmo que nos despertam as actividades dessa casa, não faltámos à estreia.

A peça não é das mais representativas de Molière; o interesse reside, sobretudo, nas peripécias endiabradas do personagem principal: "Scapino".

Scapino é a alma da peça; Scapino inventa e complica, mas a sua imaginação fértil encontra solução para tudo, a acção depende inteiramente dele e por isso todas as outras personagens dependem dele e são animadas por ele.

Sem dúvida alguma, João de Oliveira Júnior deu-nos mais uma vez prova da sua grande capacidade de comediante, encarnando um Scapino vaidoso da sua malícia, irreverente, matreiro, cheio de complacência para com os apaixonados; saiu-se com absoluta mestria nas cenas principais do I e II actos, falhando um tanto na dificílima cena II do III acto.

Quanto às outras personagens, que nada mais são do que um apoio para nos apresentar Scapino em acção, temos a louvar os pais dos apaixonados, João Medina e Fernando Reis, sobretudo o último, pela sobriedade no desempenho da personagem. As figuras femininas, de interesse diminuto, na peça, são a nosso ver também as mais fracas; esta crítica estende-se a todas as figuras femininas que temos visto, à excepção da notável "Maria Parda". Não queremos com isto desencorajar as componentes do grupo, mas incitá-las a um trabalho cada vez mais profundo, com vista a uma maior perfeição, galardão com que todos desejarão premiar o homem esforçado, alma de uma obra a todos os títulos notável, que é o director do grupo, sr. José Ribeiro.

Tecnicamente, temos a louvar a justeza dos cenários, sobretudo a maneira engenhosa como nos foi apresentada a III cena do III acto.

Para terminar, só temos a dizer que a Sociedade de Instrução Tavaredense está de parabéns. É uma instituição que deve ser incentivada, cada vez mais, pelo seu brilhante contributo em prol da cultura.

1967.02.25 - PRIMOROSA NOITE DE TEATRO (JORNAL DA MARINHA GRANDE)

.... o grupo cénico de Tavarede, cuja direcção artística é da competência do sr. José da Silva Ribeiro, veterano nos segredos a arte de Talma, levou à cena no palco do Teatro Stephens a “revolucionária" peça denominada “O Processo de Jesus”.

Este original, sabiamente interpretado pelos componentes do grupo de Tavarede (que nos deram uma grande lição na arte de representar), é da autoria do famoso dramaturgo italiano Diego Fabri e pode considerar-se uma autêntica peça renovadora d teatro moderno.

De facto, Diego Fabri, no “Processo de Jesus” coloca-nos perante um dilema enormemente difícil de compreender, pleno de actualidade, onde todos parecem ter razão. Depois a agitação da peça é de tal calibre, as verdades são tão evidentes, que tudo faz estremecer o mais pacífico de coração. Aliás, segundo nos parece, este facto foi evidente.

É que, Diego Fabri, o inovador do Teatro Italiano, apresenta a sua tese de um modo invulgar – um à guisa de julgamento, sendo o rei, nada mais nada menos, do que o próprio Cristo. Eis, pois, um pormenor ousado. Cristo como réu! É porque não? A temática em causa é de tal ordem que mais parece vermos todo o século XX a julgar o “Rabi Nazareno”, o Salvador do Mundo. Isto, não obstante os factos apresentados pelos (personagens) contemporâneos Dele – os apóstolos Pedro, Tiago e (o bom patriota) Judas. Depois a “pecadora” Madalena, Lázaro, Caifás e Pilatos.

Com efeito, estes personagens apresentam cada um o seu depoimento perante o tribunal de um modo extraordinário, segundo a ideologia de cada um, quer política, quer religiosa, e por isso mesmo lógica.

O debate deu-se de tal forma que, até ao fim do primeiro acto, tudo nos levava a crer que a “condenação” de Cristo seria (de novo) evidente! Realmente, sob o ponto de vista judiciário tudo nos indicava esse caminho.

Entretanto, no segundo acto, a agitação continuou e até mais intensiva. Mas Diego Fabri apresenta desta vez o “humanismo” a falar. De súbito oferece uma surpresa. Positiva. Lógica. Actual. Para além dos meandros do tribunal – juizes e testemunhas – surge o “público” com o seu ponto de vista, não baseado em argumentos judiciários mas sim no real que a vida nos proporciona no dia a dia.

Estabelece-se assim um diálogo dificílimo. Agitador. Comunicativo. Pleno de temática. Arrebatador. Na “plateia” havia uma atmosfera de suspense. Quem teria razão? O personagem “Padre”em pleno desacordo ora com o “Intelectual” ora com o “jornalista”... A “Ruiva” que se considerava uma “espécie” de Madalena não podia concordar com o ponto de vista do “Intelectual”, além de que Cristo era para ela a única salvação?... O “Filho Pródigo” ou o “cego”? Quem teria, de facto, razão se todos tinham algo a dizer?...

Muito embora este diálogo fosse de um despertar de consciência arrepiante, inquietador, a verdade é que em virtude da inesperada (mas muito sábia) entrada de “A velhinha”, nova personagem quiçá a maior, há um período de bonança, de tranquilidade íntima dadas as palavras que “A velhinha” profere.

Personificando uma mãe a quem fuzilaram o filho por razões que ela ignorava e, por consequência, se encontrava autenticamente só, mas infinitamente eserançada no “além”, onde sentiu o seu filho, e dotada de uma sincera e profunda fé, a velhinha surgiu no tribunal a fim de solicitar a mesmo que não condenasse Jesus, enfim, a dar-nos uma verdadeira lição e mãe... A peça teria atingido aqui o seu maior apogeu. Dir-se-ia que era impossível chegar mais longe. De tal forma que até o próprio acusador público, no personagem “David”, acabou por se “render” e cair nos braços enternecedores de “A velhinha”.

Com efeito, Cristo, acabou por não ser julgado judicialmente. Mas sim “classificado” pelos factos reais da vida humana personificada, no “público”, em síntese, pelo fervor e incomensuridade da fé...

Tivemos, pois, uma magnifica Noite de Teatro. Só é pena que seja tão raramente quando afinal o nosso público, com consciência ou sem ela, com maior ou menor grau de capacidade, começa a estar presente nestas (educativas) Noites de Ribalta.

Quanto à actuação do Grupo de Tavarede, uma palavra apenas: foi primorosa! Bom, meio século de teatro é muito. É sinónimo de longa aprendizagem. Há muito saber nos seus componentes. Os nossos aplausos, portanto, à Sociedade de Tavarede, mormente ao sr. José da Silva Ribeiro, a pedra básica deste grupo – homem dotado de uma extraordinária perseverança e que desde há longos anos vem dirigindo o Grupo Cénico de Tavarede como só ele sabe.

Para quando nova noite de Teatro com o elenco de Tavarede? Oxalá seja breve...

1967.02.25 - SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE (O FIGUEIRENSE)

Incluido no programa das festas comemorativas de mais um aniversário da fundação do Grupo Operário Marinhense, deslocou-se no último sábado à Marinha Grande, para ali dar um espectáculo com a notável peça do grande dramaturgo italiano Diego Fabri, “O Processo de Jesus”, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Como se verificou nas récitas dadas na sede, e na no dia 25 de Janeiro findo no Teatro do Grande Casino Peninsular, a representação agradou plenamente, pois que a assistência aplaudiu calorosamente os seus intérpretes.

No final do espectáculo foram os componentes da caravana obsequiados com um abundante beberete, trocando-se saudações entre os representantes das duas colectividades, e oferecida uma primorosa peça artística em vidro ao grupo da nossa terra.

Amanhã, vai o mesmo grupo representar no teatro do Quiaios Clube a hilariante comédia de Molière “As Artimanhas de Scapino”, que ainda no teatro do Grupo Instrução e Recreio, no dia 12, conquistou assinalado êxito.

1967.03.04 - “AS ARTIMANHAS DE SCAPINO” (O FIGUEIRENSE)

Como dissemos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou no domingo, no Quiaios Clube, “As Artimanhas de Scapino”.

A representação do alegre espectáculo, que os amadores tavaredenses proporcionaram à numerosa assistência, decorreu muito bem, e agradou, como o demonstraram os vibrantes aplausos de que foram alvo e o seu ilustre ensaiador José da Silva Ribeiro.

A famosa comédia de Molière, que viveu entre 1622 e 1673, constitui, na verdade, um grande espectáculo de permanente gargalhada.

Aquela extraordinária imaginação que o célebre autor cómico põe no cérebro privilegiado de Scapino é admirável...

É certo que todos os dias aparecem relatados na grande imprensa casos semelhantes de indivíduos que pelas suas habilidades são capazes de enganar a Cristo... como diz o povo.

No domingo, 12 do corrente, o engraçado espectáculo será apresentado no teatro do Grupo Vilaverdense.

1967.08.09 - NOVA CONSAGRAÇÃO DE UMA ACTRIZ (MAR ALTO)

No actual complexo urbano e suburbano figueirense, a nota definitória de Tavarede é o seu Grupo Cénico. E tal realidade deve-se ao trabalho ímpar de José Ribeiro, cujo enamoramento pelo Teatro, porque lhe vem do berço, o faz hoje a personificação mais viva de uma tradição que ali, na Terra do Limonete, se perde nos séculos. Pode dizer-se que, só graças a essa força imensa e apaixonada, o Teatro ainda hoje existe no meio figueirense.

Mas a esta primeira verdade há que juntar uma outra. E é a de que os amadores de Tavarede são mesmo de lá; porquanto só fazem Teatro na SIT os que na Terra do Limonete vivem. Por tal princípio, se é certo que aumentam as limitações do Grupo - está em jogo sempre apenas a "prata da casa" -, também é certo que o benefício da cultura teatral se torna mais sensível, pois constantemente atinge um mesmo aglomerado humano. Teatro em Tavarede, por e para Tavarede, é a norma ali adoptada.

E quem vai de fora, ou quem fora o recebe, não pode esquecer tais características. Porque, sempre que se renova a aventura de Teatro pelos amadores de Tavarede, antes de apreciá-la já temos que louvá-la: trata-se de um milagre de amor, dedicação, sacrifício.

Depois de Gil Vicente e de Shakespeare, de Molière, Pirandello e Diego Fabri, José Ribeiro quis dar-nos a sua versão de "Todos eram meus filhos", de Artur Miller. Aconteceu isso com uma casa cheia, no último sábado à noite, uma noite difícil, recheada de inoportunas interrupções da corrente eléctrica.

A representação foi outra consagração de Violinda Medina, até na medida em que todos os restantes elementos em cena, honestos embora no esforço por cumprir, por qualquer circunstância ficaram sensivelmente distantes dela, que assim foi uma actriz sem réplica.

É certo que João Medina, a figura mais ligada a Violinda, teve momentos de boa presença, como os tiveram as outras figuras, femininas e masculinas, incluindo o pequeno António Manuel. Mas esteve menos à vontade do que n'"O Processo de Jesus", por exemplo; isso aconteceu sobretudo quando interpretou o industrial astuto e senhor de si, amável e faceto enquanto se sentia próspero.

Por sua vez João Medina, que foi quem esteve mais próximo de Violinda, teve dificuldades nas situações de à-vontade, quando cabeça, braços ou mãos podiam tomar atitudes de perfeito repouso. De resto, ele como os outros quase sempre estiveram melhor nas situações tensas, de onde nos ter agradado de preferência a ponta final da peça, o que é sempre importante.

Uma palavra ainda para João de Oliveira que, num papel pequeno, fez o que lhe cumpria.

Na distribuição do cenário, apenas o caramanchão nos pareceu excessivamente retirado da vista do público.

Por este apontamento de hoje, não de crítico mas de modesto espectador, pretendemos o mesmo que no sábado fizémos: aplaudir os amadores de Tavarede e tentar colaborar com eles, formas de agradecer o grande benefício que nos prestam, dando-nos Teatro do melhor!

1967.08.12 - TODOS ERAM MEUS FILHOS – (O FIGUEIRENSE)

O público integra-se de tal forma no desenrolar do tema, envolvente desde o primeiro ao último acto, que acaba por ter absoluta razão de ser a expontaneidade dos fartos aplausos com que premeia a actuação dos amadores no final de cada uma das partes do espectáculo.

Falamos da peça de Artur Miller, a primeira duma série que o célebre dramaturgo americano publicou, e que a Sociedade de Instrução Tavaredense, através dum punhado de entusiastas da arte de Talma, agora levou à cena e que na sua primeira sessão obteve assinalável êxito.

Trata-se dum problema do após-guerra, em que o entrechocar de certos e determindos conceitos serviu de tema a uma peça bem calibrada – em que não se notam excessos -. Há suavidade no sentido e na interpretação.

Um grupo equilibrado de intérpretes – destaque-se João Medina, bem acompanhado por Violinda Medina e Silva, José Lopes Medina e Maria Inês Barosa Lopes, sem desprimor para os restantes – deu dignidade a uma peça digna do nosso tempo.

Felicitamos a SIT pela escolha da obra, sobretudo pelo profundo sentido humano que encerra, (impressiona o acentuado sentido de honestidade e de amor); os seus amadores pela verdade que puzeram nos difíceis papéis distribuídos, e o público pela oportunidade que teve de assistir a um bom espectáculo.

TODOS ERAM MEUS FILHOS – OUTRA APRECIAÇÃO (O FIGUEIRENSE)

Continua mestre José Ribeiro, na sua infatigável devoção pelo bom teatro, a proporcionar-nos noites de autêntico encanto espiritual. No passado sábado, 5, a sua arte de encenador invulgar, evidenciou-se uma vez mais, na magnífica peça de Artur Miller, Todos Eram Meus Filhos.

Sempre que assistimos a uma estreia de autor célebre, no acolhedor e magnífico Teatro da SIT, nesta vetusta terra de Tavarede, toma-nos como que uma hipnose que nos tolhe a noção de espaço e tempo... Pois é lá possível que, nesta outrora importante mas hoje pacata e rústica aldeia, se faça teatro com tão elevado nível? Não estaremos na fabulosa Nova Iorque onde a peça Todos Eram Meus Filhos alcançou notável triunfo, merecendo ser-lhe atribuído o prémio do Círculo dos Críticos de Teatro?

Ao intervalo do 2º acto vamos até ao palco, convencer-nos de que não sonhamos... e procurar desvendar, nas figuras com que nos familiarizamos nos dois actos já representados, o desfecho dessa peça humaníssima! Deveria ela ser vista... e compreendida, por quantos põem na ambição das riquezas, na avidez do dinheiro, conseguido por meios mais que discutíveis, toda a razão de ser da sua existência! A tragédia do nosso tempo... O primado dos bens materiais sobre os valores espirituais; o egoismo desenfreado, opondo o fraticídio ao princípio cristão da fraternidade humana, tão esquecido na prosperidade e na paz e que a guerra vem reavivar dolorosamente...

João Medina dá-nos bem a medida do seu talento, na figura bonacheirona de Joe Keller, industrial de armamento, inculto mas sagaz e astucioso! A sua ambição visa um único fim: enriquecer os filhos. Mas na dura lição da guerra, estes aprenderam verdades que o pai ignora ou nem sequer consegue entender... E a vida daquela família tão feliz, tolda-se de nuvens de tragédia... Violinda Medina e Silva, “Kate Keller”, esposa de Joe e mãe de Chris Keller, vive a trágica desgraça de quem perdeu um filho na guerra e se vê na contingência de perder paz e quanto tem de mais caro – o filho Chris – brutalmente chocado pelas habilidades paternas; maravilhosa, como sempre, a sua interpretação! José Lopes Medina, no Chris, e Maria Inês Barosa Lavos, em Ann Deever, dão-nos um par encantador, ele confirmando as suas tradições de elemento já consagrado nos mais variados papéis; ela com a sua vivacidade tão natural, conquistando de peça para peça, com justificado mérito, um lugar entre os grandes.

João de Oliveira Junior, dá-nos nesta peça, em George Deever, uma amostra da versatilidade do seu talento, compondo uma figura retraída e sombria, amargurada pela dúvida e pelo ressentimento...

José Luís do Nascimento, muito bem no médico, e Carmina Moreira da Fonseca, sua esposa, fazendo progressos apreciáveis, bem como sua irmã Piedade Fonseca na Lydia Lubey.

Do pequeno António Manuel do Nascimento, bem se pode dizer que filho de peixe sabe nadar...

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 12

Claro que o Conselho de Coimbra, face a tal queixa, fez o que lhe competia: mandou ao rei os documentos para que providenciasse sobre os mesmos.

Gonçalo da Costa Coutinho, capitão mor de Montemor-o-Velho, escreveu a Vossa Majestade a carta inclusa em que refere que quer Fernão Gomes de Quadros, capitão mor de Buarcos, subordinado a D. Luiz de Almada, capitão mor de Coimbra, intrometer-se naquele distrito que Vossa Majestade lhe tem encarregado, tomando a jurisdição que não tem, e dando ordens aos capitães dele, um dos quais mando com esta a Vossa Majestade para cujo serviço e acervo dele parece que lhe devia logo em primeiro lugar dar conta do aviso que diz teve, sem ser pelo meu, que tomou para se fazer superintendente no distrito que Vossa Majestade só a ele tem encarregado, e mais quando a barra, e entrada que esta costa tem que é a Figueira da Foz fica nele, e a defensa de Buarcos, que por todas as partes fica cercado daquele distrito, se há-de fazer principalmente com a gente dele.

É o ânimo e desejo do dito Fernão Gomes em querer mandar naquele distrito em que é morador muito conhecido e muito antigo, e a esse respeito lhe disseram que tem tido muitas questões com os juízes de fora daquela vila, que pelo Duque governador dele faziam aqui o ofício de capitães mores e parece ainda as continuar, do que lhe pareceu dar conta a Vossa Majestade para que mande nisso o que mais for servido.

Uma notificação lhe mandava fazer para que não excedesse, nem alterasse, a forma das ordens de Vossa Majestade, e indo dois escrivães com a dita diligência lhes não quis dar lugar para a fazerem, como não fizeram que conste da pergunta, e suposto lhes pareceu que podia e devia proceder contra ele por ser morador naquele distrito, o que não quis fazer sem ordem de Vossa Majestade, pois o ocupa e lhe dá nome de capitão mor de Buarcos.

Vossa Majestade ordenará o que for servido, e sendo o de dar-lhe licença para poder vir a esta cidade onde tem negócios precisos, receberá mercê, porque no tempo presente, naquelas partes há já inverno e parece que segura e defende aquela costa, e que tomará a assistência dela, ou a outro qualquer ponto que Vossa Majestade lhe ordenar de seu serviço, em que sempre determina confirmar.

Ao Conselho parece que Vossa Majestade tem mandado declarar nos alvarás que mandou passar a estes capitães, uns a jurisdição de que hão-de usar, e que se lhe deve escrever de novo encarregando-lhes que cada um use da que se lhes deu sem se intrometer na de outro, e a Gonçalo da Costa se lhe deve conceder dois meses de licença que pede, para usar dela depois de entrado o mês de Novembro.

El-Rei não tardou a advertir o capitão mor da praça de Buarcos. Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Tenho entendido que vos intrometeis na jurisdição que toca ao capitão mor de Montemor o Velho, Gonçalo da Costa Coutinho, com intento de ampliardes a vossa e porque no alvará que vos mandei passar se declara a de que haveis de usar, e foi a dos termos dela não convém em nenhuma maneira estendê-la, pelos inconvenientes que disso podem resultar a meu serviço como parece. Digo-vos e adverti-vos que não excedeis em coisa alguma os limites da vossa jurisdição, porque o estranharei com rigor, antes tratai em ajudar-vos em tudo, com as ordens que vos tenho dado, procurando cumpri-las muito pontualmente, para que assim se faça e ainda melhor ao que se oferecer de o meu serviço. Escrita em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1642

Tudo se resolveu a contento de todas as partes. O rei D. João IV ficou satisfeito com a acção desenvolvida por Fernão Quadros. E entendendo que era muito conveniente estar tudo prevenido contra os sempre possíveis ataques dos espanhóis, resolveu emitir novo alvará ao capitão mor: Eu, El-Rei, faço saber aos que este meu alvará virem, que considerando quanto importa a todos os lugares do meu Reino estejam fortificados e com toda a prevenção necessária para qualquer invasão e cometimento que o inimigo intente fazer e principalmente os que estão mais perto da raia e costa do mar, e que para isso assistam neles pessoas de qualidade, partes e experiência, que com todo o cuidado tratem de os fortificar e defender com o zelo e fidelidade que convém, e por convir que na vila de Buarcos haja pessoa que sirva de capitão mor e na de Fernão Gomes de Quadros, fidalgo da minha casa, que há muitos anos exercita o mesmo cargo, com notória satisfação por nele concorrer tudo o referido e esperando que o continuará com a mesma e conforme a confiança que faço de sua pessoa por todos estes respeitos, hei por bem e me praz de lhe fazer mercê, como por este alvará faço, do posto de capitão mor da dita vila de Buarcos e seu distrito, para que o sirva e exercite enquanto Eu o houver por bem e não mandar o contrário.

Com toda a jurisdição, poder e alçada que por razão dele lhe pertencer e gozará de todos os privilégios, honras, preeminências, isenções e franquezas que direitamente lhe tocarem e que gozam os mais capitães mores das cidades e vilas destes meus Reinos, e servirá debaixo do juramento e posse que tem tomado e com que serve o mesmo cargo, pelo que mando ao governador de armas da província da Beira, de cujo distrito é, o tenha e haja por tal capitão mor, e a todos os capitães e oficiais e soldados das companhias da dita vila e que nela e seu distrito assistirem, e mais pessoas a que tocar, façam o mesmo e lhe obedeçam, cumpram e guardem as ordens que ele lhes der, como devem e são obrigados.

E quero que este alvará se cumpra e guarde bem inteiramente como nele se contém, tenha força e vigor, posto que seus efeitos hajam de durar mais de um ano, sem embargo da ordenação em contrário. Manuel Pinheiro o fez em Lisboa, aos 4 dias do mês de Junho de 1646 e eu, António Pereira, o fiz escrever. El-Rei.

sábado, 7 de julho de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 35

1966.06.29 - ENTREVISTA COM JOSÉ RIBEIRO, ENSAIADOR DO GRUPO CÉNICO DA SIT. (MAR ALTO)

Os Tavaredenses não são profissionais de Teatro; alguns labutam as doze horas por dia e, mal jantam, vão viver a sua paixão - ouvir, comentar, ensaiar ou representar -, até pela noite fora.

Pois bem: por mais estranho que tal pareça, constituiram um grupo cénico de apreciável categoria, do melhor que vai pelo País, em amadorismo puro: hoje possuem uma casa de trabalho e de espectáculos bastante boa - auxílio da Fundação Gulbenkian -, e vão a toda a parte onde lhes é solicitada a presença, sem intenções lucrativas.

O milagre é de todos: de José Ribeiro, o director e o elemento essencial, corpo e alma dados ao Teatro; e de cada um dos seus companheiros e colaboradores, alguns com uma vida toda amarrada às tábuas do palco ou às cordas dos cenários.

Só graças a esse espírito devoto se torna possível realizar, com felicidade, obra difícil como representar bem uma peça de Pirandello. Num trabalho de equilíbrio, como este, as principais figuras contracenam de facto, situando-se num belo e harmonioso plano.

Interessados no assunto, quisemos fazer perguntas a José Ribeiro, que gentilmente a isso se prontificou, sabendo embora que estava falando para um leigo apenas curioso.

Salvo o respeito pela opinião contrária, cuidamos que um director cénico precisa de possuir sempre uma razoável dose de tirania; quando procede à primeira leitura de qualquer peça ao seu grupo, salvo raras excepções isso quer dizer que a obra vai para a frente, que a coisa está decidida...

_ Senhor José Ribeiro, quais as suas intenções, ensaiando Pirandello? Apenas o intuito de fomentar a cultura teatral entre os seus companheiros e o seu público?

_ Principalmente isso, sim. Nesse sentido, Pirandello importava sobretudo porque, tendo revolucionado profundamente o estilo cénico permitia ensaiar uma peça diferente do muito que temos representado.

_ E que motivos presidiram à escolha de "Para cada um sua verdade", entre todas as peças do escritor italiano?

_ Primeiramente, o facto de tal peça ser, talvez, aquela que apresenta a diferença referida no grau mais acessível ao nosso público; porque nós trabalhamos para o nosso público. E depois, porque em outras peças do mesmo autor a representação de algumas cenas levanta, para os intérpretes tavaredenses, inibição de carácter moral, que insisto em respeitar.

_ Sabemos que a peça tardou a ensaiar mais do que é habitual, em Tavarede. Quanto tempo andou a obra em ensaio? E quantos ensaios se fizeram dela?

_ Trabalhámos na peça uns três meses, com uma média de quatro ensaios por semana. Muitos destes, entretanto e como é natural entre nós, foram ensaios parciais, ensaios de acto.

_ E em regra, em que dias e a que horas ensaiam?

_ Todos os dias da semana. Menos às quartas e sábados. E sempre depois do jantar, mais ou menos entre as nove e meia e as onze e meia. Não é possível ir mais além, pois temos quem principie o seu dia de trabalho às seis e meia da manhã...

_ Uma vez apresentada a peça, continuam a treiná-la num ritmo certo, ou não?

_ Enquanto a peça anda pouco rodada, na semana anterior a cada representação ensaiamos três dias, pelo menos. Depois de a dominarmos bem, esse ritmo abranda. Mas nunca vamos para qualquer representação sem, pelo menos, um ensaio.

De um modo geral, quase todas as personagens que já conheciamos de outras peças, nos parecereram mais evoluidas.

_ Qual a ocupação profissional ou habitual dos actores de Tavarede?

_ Há ocupações várias, mas todas modestas. As mulheres são domésticas, costureiras, vendedeiras, empregadas de balcão. Os homens são empregados de escritório, tipógrafos, barbeiros, serralheiros.

_ Teremos razão para afirmar o sentimento de progresso que referimos antes, ou não?

_ Sem dúvida que sim. Reconheço isso e fico muito contente, por ser notado pelos outros. Os Amadores de Tavarede são modestos, mas gostam de representar. Por aí, todos vão melhorando a sua maneira de pensar, o seu modo de sentir, tudo. Eu mesmo, tenho aprendido muito com eles e por sua causa.

Se Violinda Medina nos oferece uma Senhora Frola com alguns desdobramentos felizes, como quando joga com as palavras para um lado e os olhos ou os gestos para outro, simultâneamente representando dois papéis, António Jorge dá-nos um Ponza convicto e, às vezes, cheio de intensidade e vibração. Por outro lado, João de Oliveira Júnior, sempre em cena, representa um perfeito Laudisi.

_ Não lhe parece, senhor José Ribeiro, que papéis como o quem tem nesta peça, de tipo burguês familiar, são aqueles em que Violinda melhor se enquadra? Melhor, mesmo, do que no género popular de rua, em que a artista justamente é famosa?

_ Não; sinceramente, não me parece. Violinda integra-se em qualquer papel e tem alguns extraordinários. O de Madalena de Vilhena ou o de Maria Parda, por exemplo. Considero qualquer desses superior ao que ela tem em Pirandello; sem negar, entretanto, a qualidade deste.

_ Tem razão. Mas, falando agora de António Jorge, diga-nos, por favor: já antes alguma vez ele foi chamado a papel de tamanha responsabilidade, como o que tem aqui?

_ Já: António Jorge tem um papel magistral em "Os Velhos", na figura de Bento.

_ E não é de opinião que este Senhor tem dado provas de apreciável facilidade de acesso a papéis de tipo vário, como um Telmo Pais, um João Mortinheira ou um Ponza?

_ Sem dúvida que sim. E o Telmo de António Jorge é outro dos seus melhores papéis.

_ Por outro lado: atentemos em João de Oliveira: aquele seu tom seco e longilíneo, e o seu metal de voz ligar-se-ão melhor à céptica ironia de Laudisi, de Pirandelo, ou à seráfica figura de Frei Jorge, de Garrett?

_ Bem: Frei Jorge é, talvez, o melhor papel de Oliveira Júnior, o mais perfeito. Mas concordo em que a sua figura e a sua voz dizem muito bem com o papel que tem em "Para cada um sua verdade".

_ Vamos concluir este apontamento sobre as personagens, sim? Em nosso entender, a curiosidade de que se alimenta toda a série de mulheres da peça é deliciosa; mas os maridos representam, em nível nada inferior, a sua condição de dominados...; eles e o próprio Perfeito, cheio de elegância, de distinção, no papel de julgar sem suscitar melindres. A família Agazzi, a família Sirelli e o par Senhora Cini-Senhora Nenni, são dos tais citados elementos progressivos. Não lhe parece isto, Senhor José Ribeiro?

_ Relativamente a todas essas figuras, estamos completamente de acordo.

_ E como explica o Senhor tal equilíbrio? Só pela peça?

_ Primeiramente, pela peça, claro. Depois, pelo aproveitamento que fazemos dos elementos disponíveis; não representamos qualquer obra, mas sim aquelas para as quais parece que temos gente adaptável.

Claro que a peça não é para o grande público, o das revistas e dos folhetins publicitários; mas é para o público bom, aquele que gosta de pensar e apreciar bom Teatro.

_ Quando projecta trazer à Figueira "Para cada um sua verdade"?

_ Por agora, não; "O Processo de Jesus", que andamos a ensaiar é tão absorvente que não dá margem a saídas. De resto, o melhor para nós seria que a Figueira fosse a Tavarede: dispomos de uma casa não muito grande, mas, assim mesmo, suficiente; as cadeiras não são estufadas, mas são limpas, cómodas e todas iguais; finalmente, a representação em Tavarede fica-nos muito mais barata.

_ Como é isso, Senhor José Ribeiro? Então, quando vêm representar à Figueira, não vêm solicitados pelas casas de espectáculos? Certamente, elas haveriam de ter interesse em contratar os tavaredenses, para proporcionar ao público da época balnear, ao menos de 15 em 15 dias, entre Julho e Setembro, uma sessão de teatro autêntico, como é este de Pirandello...

_ Até hoje, isso não aconteceu: quando vimos, vimos por nossa conta, ou a pedido de qualquer instituição de beneficência ou cultural (a Biblioteca Municipal, por exemplo); no primeiro caso, o aluguer da casa e todas as demais despesas, que são grandes, correm por nossa conta; no segundo, o nosso concurso é sempre dado a título gratuito. Ora as despesas são enormes e as quotizações dos sócios são as nossas únicas fontes de receita. Por isso...

Deixámos José Ribeiro, com o vivo sentimento de culpa, de quem faz perder muito tempo aos outros: faltava um quarto para as nove da noite, às nove e meia começava o ensaio, e ainda havia que ir até Tavarede e jantar.

Mas quando o vimos seguir ligeiro, a pé, jovem nos seus quase setenta e dois anos, o corpo e a alma dados ao Teatro, sentimo-nos desculpados. A tarde pareceu-nos mais amena, o Mundo à nossa volta mais harmonioso e o gosto de sonhar belas coisas cantou mais alto.

Evidentemente, porque não iremos todos nós a Tavarede, ver Pirandello? Porque não levamos lá todos os que gostam de teatro? Um caminho suave, um palácio antigo, uma sala boa, uma peça esplêndida, uma alma unindo tanta gente sã... Com luar ou sem luar...

1966.08.27 - O PROCESSO DE JESUS (O FIGUEIRENSE)

A estreia na bela casa de espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense, no pretérito sábado, da célebre peça de Diego Fabbri, tradução do dr. Agostinho Veloso, “O Processo de Jesus”, constituiu êxito extraordinário para o grupo cénico da prestimosa colectividade.

Os sócios esgotaram a lotação, tanto no sábado como no domingo. É verdade que a sala, apesar das regulares dimensões, não corresponde ao grande número de associados, pois estes ultrapassam os setecentos...

A representação decorreu em nível superior. O escolhido conjunto de intérpretes das difíceis figuras, ensaiados pelo mestre de teatro que é José da Silva Ribeiro, houve-se de tal forma que soube prender a atenção da numerosa assistência, que, embevecida, assistia às representações.

Não há dúvida que estamos na presença dum grande espectáculo, por isso que os sócios da SIT não devem deixar de o ver, pela sublime lição que “O Processo de Jesus” lhes oferece.

Palmas entusiásticas. Ovações calorosas. Chamadas especiais a José Ribeiro, traduzem insofismavelmente o valor dramático da obra e o mérito da representação, pelo que a todos envolvemos num sincero abraço de parabéns.

1966.09.14 - O PROCESSO DE JESUS (MAR ALTO)

Esta peça de Diego Fabbri, parece-nos perfeitamente em dia com os rumos mais actuais do pensamento católico; se não respeitássemos a cronologia, poderiamos ver até nela um "fruto conciliar". A tomada de uma consciência moral, como verdadeira mensagem de Cristo; a geral irreflexão, em actos que arrastam a consequências imprevistas, às vezes trágicas - convite implícito a uma benevolência universal -; a soma de preconceitos de que enfermam algumas atitudes anti-cristãs; uma versão quase "positiva" de Judas, como síntese de um judaísmo messiânico imperialista, e o seu decalque frequente, em casos do dia-a-dia; a revisão do papel histórico dos judeus, à luz de um simbolismo ecuménico; etc....; exemplificam o que afirmamos.

Tecnicamente, a novidade da peça consiste na disseminação de actores entre o público.

Afiguram-se-nos facilidades dela o constante apoio, para cada actor no palco, da presença dos restantes, sempre ali com ele, assim como o intenso estatismo em cena, quase sem entradas, saídas e deambulações.

Em compensação, cuidamos que a dificuldade maior da obra não é o tema, senão que o seu tratamento: uma dialéctica mais para ler-se que para ouvir-se, e um primeiro acto muito parado, com certas figuras obrigadas a autênticos discursos, longos, num quase desafio à monotonia...

Estes motivos e outros, favoráveis ou contrariantes, assim como a "necessidade" de fazer vingar uma peça da estirpe desta, é que, muito possivelmente haverão determinado a Companhia do Teatro Nacional D. Maria II a abrir-se, distribuindo papéis não só entre os seus actores, mas também entre algumas das mais distintas figuras de outras empresas cénicas da capital.

Todos os citados factores se alinhavam dentro de nós, numa expectativa quase pungente: como iria a Sociedade de Instrução Tavaredense, com as suas naturais exiguidades e limitações, sair-se da aventura de representar "O processo de Jesus"?

Antes de nos abalançarmos a esta impressão escrita, duas vezes necessitámos de ver a representação. Assim mesmo, releve-se, em nossa defesa, que jamais pretendemos ser críticos de teatro: somos apenas curiosos, interessados em instruir-nos e cultivar-nos. Este enunciado de condições é indispensável.

Nesta representação, uma vez ainda e como é seu timbre, os Tavaredenses realizaram trabalho perfeitamente honesto. Algumas figuras situam-se em nível modesto, outras alternam o razoável com o menos bom, outras ainda atingem uma alta craveira; todas, porém, se esforçam por cumprir.

E ninguém que se interesse por coisas de teatro e vá a Tavarede poderá deixar de perguntar como terá sido possível pôr em cena uma peça de tal responsabilidade. Há ali três ou quatro artistas, é certo; mas, em contrapartida, ali há, também, "actores" que nunca antes haviam representado... Como terá sido possível?

Será esse um dos segredos de José Ribeiro? Uma das virtudes é, com certeza.

No "tribunal", João Medina está perfeito, no papel de presidente, com figura, voz e gestos próprios. José Medina realiza bastante bem a função de acusador (melhor, talvez, que a de culpado); e Maria Inês, num papel também difícil, tem movimentos dignos de apreço; estes dois elementos frequentemente já atingem o grau de naturalidade que imprime verdade a uma representação.

Entre as "testemunhas", o papel mais a nosso gosto é o do veterano João Cascão que representa um Pedro autêntico, desde as atitudes à emotividade. Mas Fernando Reis adaptou-se muito bem ao ingrato papel de Judas; e a José Luiz do Nascimento, para ser um Caifás praticamente exacto, só lhe falta uma atitude mais hierática. Glória Maria de Sousa (cujo porte subiu sensivelmente entre as duas representações a que assistimos, e que possui uma voz timbrada e elegante), alcançou uma gentil figuração de Maria; a sua contracena com José da Silva Maltês é linda e de belo efeito lírico.

No "público", Violinda Medina e Silva e João de Oliveira Júnior naturalmente ultrapassam os restantes actores. Este último, às vezes talvez demasiado exuberante de atitudes, para um intelectual, possui a voz dialética, às vezes metalicamente satânica, e a viveza própria para o papel. Violinda está muito bem, de princípio a fim; aliás, precisamente porque ela existe, a representação tavaredense tem uma intensidade final difícil de atingir em qualquer outra companhia.

Neste ponto, achamos curioso anotar o facto de, na representação do D. Maria II, a velhinha nem sequer aparecer incluída entre as figuras destacadas, quando é certo que ela possui mais de um motivo para distinguir-se: tempo e modo de entrada, função cénica, etc.. Será este um lapso do texto que tivémos à mão?; será assim também na distribuição original do italiano? Qualquer que seja a hipótese, Violinda deu à figura o melhor de si mesma.

"O processo de Jesus" bem pode ser mais um motivo de exaltação da escola de teatro de José Ribeiro.

1966.09.24 - O PROCESSO DE JESUS (O FIGUEIRENSE)

No elegante e confortável teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, terminaram no passado sábado, as representações da célebre e discutida peça do grande dramaturgo Diego Fabri, intitulada “O Processo de Jesus”, que constitui um novo e assinalado êxito do distinto grupo de amadores daquela prestigiosa e benemérita Sociedade, dirigido magistralmente por José da Silva Ribeiro, incontestavelmente um mestre de Teatro, como o afirmou de novo nesta obra de Fabri, plena de dignidade, beleza e ternura, ao conseguir o “milagre” de fazer intervir no debate em que se analisam e discutem à distância de quase dois mil anos os milagres, o alcance e o resultado das pregações de Jesus Cristo, as circunstâncias sociais e políticas que rodearam o seu julgamento e morte, mais de duas dezenas de personagens, alguns deles misturados com o público, em tiradas de grande responsabilidade.

A peça agradou plenamente, assim o demonstrou o público com os seus quentes aplausos aos distintos amadores.

Naturalmente, entre tantos intérpretes do ousado trabalho de Fabri, uns se salientaram mais que outros, contando-se entre estes alguns principiantes que, no entanto, souberam imprimir perfeita harmonia ao conjunto.

João Medina, em Elias, o presidente; Maria Inês Barosa Lavos (Sara); José R. Medina (David); António Santos (o Padre); João de Oliveira Junior (o Intelectual); José Luís do Nascimento (Caifás); Glória Maria de Sousa (Maria); João da Silva Cascão (Pedro); Violinda Medina ( Velhinha); José da Silva Maltês (José); Fernando Reis (Judas); Maria de Lurdes Moura (a Ruiva), para só citar estes, souberam conduzir com inteligência as suas intervenções em obra tão apaixonante e de grande beleza e dignidade em que se evocam os passos do grande drama bíblico à luz de um critério impregnado de poesia e humanidade em que, como disse o “Diário de Notícias” há nos, quando “O Processo de Jesus” foi “discutido” no Teatro Nacional, “as razões de Caifás, a traição de Judas, o alheamento de Pilatos, as hesitações de Pedro adquirem, na obra de Diego Fabri, sentido bem diferente do que a lenda e o rodar dos séculos lhe emprestaram”.

1966.11.23 - ARTIMANHAS DE SCAPINO (MAR ALTO)

Quando há dias procurámos José Ribeiro (nosso mestre há mais de 30 anos) fomos encontrá-lo na sua casa - a Sociedade de Instrução Tavaredense.

Ali estava com os seus discípulos num dos camarins do belo teatro de Tavarede, dado que, nesta altura, a temperatura nocturna é bastante fria e, assim, agasalhados e comprimidos, pode resistir-se melhor.

Tivémos então o prazer de assistir à leitura da sua nova peça - "Artimanhas de Scapino" - uma magnífica comédia do célebre dramaturgo Molière.

Dizemos prazer, porque realmente assistir à leitura duma peça por José Ribeiro, é quase a mesma coisa que ver uma representação, tal a verdade que imprime a cada personagem e o ambiente que dá a cada cena.

Poucas pessoas terão tido a satisfação de assistir àquele espectáculo. Quando lê, interpreta o velho, o galã, a ingénua, a pessoa bondosa ou má, assim como o cínico ou o avarento.

Todas as reacções, todos os gestos, ele os faz quase insconcientemente, mas os amadores, ao ouvi-lo atentamente, vão gradualmente aprendendo nos sorrisos, nas lágrimas (às vezes chora), na ternura como na violência.

E é assim que trabalha, é assim que consegue verdadeiros milagres dos seus velhos amadores ou dos seus estreantes.

Uns e outros beneficiam sempre da sua cultura teatral. Uns e outros aprendem sempre com as suas lições antes e durante as leituras ou, mais tarde, nos ensaios de palco, que ele conduz do seu lugar na plateia.

Naquele teatro tem ele concentrado todo o seu saber, toda a sua ternura pelos seus pupilos, mesmo quando se exalta e ralha, esquecendo-se - com o seu entusiasmo - que muitas vezes esses rapazes e raparigas ali se encontram já fartos da dura labuta diária, não tendo - quantas vezes - pegado no seu papel.

Nesse palco (no mesmo lugar) tem o público de Tavarede assistido a espectáculos de alto nível. Por ali têm passado as peças mais exigentes, e nele se têm realizado verdadeiras noites de glória.

Sim, de glória, porque na verdade José Ribeiro conseguiu que algumas peças, tais como "Frei Luiz de Sousa", "Entre Giestas", "Os Velhos", e tantas outras, fossem representadas ao nível dos melhores grupos profissionais.

Papéis e rábulas como têm sido interpretados por uma Violinda Medina, irmãos António e Jaime Broeiro (f), António Graça (f), João Cascão, Manuel Nogueira (f), Francisco Carvalho ou Maria Teresa, para falar só dos mais velhos e ao correr da pena, dignificam o Teatro Português.

No decorrer dessas representações pode então ver-se José Ribeiro preso, encantado - por verificar que não foi inútil o seu trabalho, e não foi em vão que tantas horas ele perdeu ao pôr de pé uma peça que estudou para os seus amadores e para o seu público.

É esse o melhor prémio dos seus colaboradores: vê-lo satisfeito no final das representações.

Pois hoje temos o prazer de anunciar aos leitores de "Mar Alto", que se está a ensaiar em Tavarede "Artimanhas de Scapino" - uma das peças do grande clássico Molière, autor que os amadores já conhecem há muito, mas que nunca tiveram a honra de representar.

Lá estavam no camarim, à volta do Mestre, João de Oliveira, João e José Medina, Manuel Cerveira, Fernando Reis, José Luís, Maria Inês (uma nova revelação), Carmina e a Piedade, que serão os intérpretes desta célebre comédia.

Espera-se que seja representada em Dezembro.

Às pessoas que gostarem de um bom e alegre serão, "Mar Alto" anunciará o dia em que subirá o pano.

"ARTIMANHAS DE SCAPINO" (MAR ALTO)

Conforme tinhamos anunciado, representou a Sociedade de Instrução Tavaredense, na sua sede, no passado dia 31, esta magnífica peça do célebre dramaturgo Molière.

Trata-se de uma esplêndida comédia clássica, em que o autor não perde a oportunidade para glosar certo tipo de sociedade como, aliás, são quase todas as suas obras.

Representada em bom nível, com indumentária própria e cenários de bom efeito, a peça agradou em cheio.

Está bem interpretada, destacando-se Fernando Reis, João e José Medina, José Luís do Nascimento, Manuel Cerveira e Maria Inês Barosa e, em plano mais elevado, João de Oliveira Júnior no seu magnífico "Scapino".

Casa cheia. Ovações estrondosas. Chamadas ao encenador. Manifestações de riso e gargalhadas quase permanentes durante a representação.

A peça repete-se no próximo dia 8, em matinée, às 16,30 horas, sendo de esperar uma grande enchente.

Mais uma vez recomendamos aos nossos leitores esta esplêndida e hilariante comédia, que José Ribeiro montou com a sua marca, e que constitui mais um grande êxito do seu grupo.