sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 39


1970.07.08     -     DE NOVO E SEMPRE MOLIÈRE EM TAVAREDE (MAR ALTO)

                O génio de teatro, que se chamou Molière, há anos já foi descoberto por José Ribeiro, que generosamente o tem vindo a ensinar no seu belo palco de Tavarede, a todos quantos o representam ou vêm representar. Foram, primeiro, “As Artimanhas de Scapino”; depois, “O médico à força” e “O avarento”; agora será “Tartufo”, uma das mais famosas e estudadas peças do maior comediógrafo francês.
                A fama e o estudo são justos, até na medida em que Tartufo, o falso devoto de toda a ideologia, nem por sombras é uma figura histórica: ele aí está, pleno de vitalidade e próspero; vive no meio de nós, cruza-se connosco na rua, nas repartições, nos recintos de diversão, na igreja; passa e repassa, fazendo o seu governo à custa dos incautos; maneja a hipocrisia com subtil perícia e arrojo; no respeitante a processos, claro que tem evoluído com o tempo, que o mesmo é dizer, progredido muito sensivelmente...
                Pois é essa a figura que uma vez mais hoje se desmascarará perante um público sempre fiel, no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Como será, desta vez?... Continuarão aqueles valentes amadores a ser capazes de representar Molière? Quem não gostará de ir hoje a Tavarede?
                Mais uma vez, a representação foi um êxito: casa praticamente cheia, interessada, vivendo ao sabor da acção que no palco ocorria, rindo muito nos momentos de rir, sentindo menos os momentos de sentimento.
                É natural esta diferença, quando está em cena uma peça do génio comediógrafo de Molière. Mais natural é ainda também no grupo de Tavarede, uma vez que, na obra, as cenas de maior expressão sentimental cabem aos jovens, enquanto as de efeito cómico couberam aos mais velhos, que ainda hoje dentro do grupo se impõem decididamente, ou só pela superior prática e vivência de palco, que todos têm, ou também pela maior capacidade artística que alguns deles incontestavelmente possuem. Sob a pressão do momento, estamos ainda a lembrar-nos muito bem de todos: de João Medina (Orgon), de José Luís do Nascimento (Cleanto), de Fernando Reis (Meirinho)...; mas, para exemplificação do pensamento antes expresso, recordemos outros.
                Recordemos Maria Teresa de Oliveira (Mme. Pernelle), essa extraordinária artista que, mau grado o destroço que nela causa a doença, ainda consegue excepcionais apontamentos, sobretudo em atitudes e jogo fisionómico!
                Recordemos João Cascão que, em cinco minutos de cena, no brevíssimo desempenho de um (Leal) oficial de diligências, é o exemplo acabado do artista perfeito num papel que lhe quadra.
                Mas recordemos também João de Oliveira Júnior, por ser um caso diferente dos anteriores: mau grado outra vez vestido numa pele que lhe não cai bem – um “Tartufo” não “de carne e osso”, como algures na peça se diz, mas exclusivamente “osso”; uma figura naturalmente hirta, boa para asceta ou marcial, para crítico ou homem de ciência exacta, metida na personagem que se presume untuosa e anafada do hipócrita oportunista e cruel -, às vezes conseguiu mesmo integrar-se no papel, para acabar muito bem, na atitude de vencido.
                Recorde-se, por último, Violinda, toda dentro da função, a representar sempre, mesmo quando é mera figura de fundo. Esta mulher põe em risco de desequilíbrio toda a cena em que entra, uma vez que as restantes personagens, se se descuidam, podem desaparecer, apagadas pela sua presença superior!
                Eis por que as demais figuras, as mais jovens do elenco, estão em nítida desvantagem, neste novo jogo de Molière. Vale-lhes o não se entregarem vencidas, desempenhando sempre o melhor que sabem e podem os seus papéis: José Medina (Damis), Maria Inês Lavos (Elmira), e Rosa Maria da Silva (Mariana), por exemplo, tiveram momentos francamente bons, os dois primeiros às vezes já muito mais naturais do que em representações anteriores.
                Mas, repetimos, aqui os jovens estão com os papéis mais difíceis de salvar, pois são quase todos de sentimento, e o primeiro tom da peça é de comicidade aberta.
                Sente-se, de resto, neste precioso grupo amador, uma crise de gerações: entre os mais velhos do palco e os novos nele, falta uma meia-idade; de onde, talvez, o desequilíbrio a que acabamos de aludir. Onde estarão os sucessores directos e naturais dos “velhos”?... Parece-nos que seria necessário aos jovens que lá andam que amadurecessem teatralmente depressa, muito depressa. E estará isso ao seu alcance?...
                Supomos que a resposta pode ser de esperança. E damo-la precisamente quando vamos falar de António Manuel Morais, que esta noite, supomos, fez a sua estreia.
                Embora secundário, o papel de “Valério” exigia mais do que podia dar-lhe o seu intérprete: é a movimentação no palco; sobretudo, são os braços, ao mãos, as atitudes. Isso é difícil, de facto! E, não obstante, António Morais conseguiu um desempenho meritório; sobretudo, possui uma voz estimável, capaz de modulações curiosas, e já diz bastante bem. Estudante, como é, aproveite essa excepcional vantagem e leia muito teatro, mesmo só para si; diga-o em voz alta e represente-o, mesmo só para si; faça isso em casa; ouça o parecer dos pais; a mãe talvez possa dar-lhe preciosa ajuda no assunto, professora como é. Acreditamos que, se quizer trabalhar com inteligência, aplicação e humildade, em breve estará com os restantes jovens do grupo, realizando o tal amadurecimento rápido que nos parece necessário. Se puder, faça isso e ajude a fazer.
                Estamos convencidos de que José Ribeiro precisa de todos os seus amadores vivos: os de agora, os que já foram, e os que podem sê-lo. Precisa de todos e merece-os. Que ele tem dado a Tavarede o melhor que alguém pode dar a outrem: cultura.

1970.10.24     -     O PROCESSO DE JESUS (O FIGUEIRENSE)

                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresenta hoje no elegante teatro da sua sede a célebre peça em 2 partes, “O Processo de Jesus”, uma obra de teatro revolucionário que consagrou Diego Fabri como um dos mais notáveis inovadores do teatro moderno italiano.
                “O Processo de Jesus” evoca os passos do drama bíblico com exemplar clareza e, como disse a crítica aquando da estreia da peça em Portugal, interpreta figuras e factos à luz de um critério, poético e humano, feito de compreensão e tolerância. “As razões de Caifás, a traição de Judas, o alheamento de Pilatos, as hesitações de Pedro adquirem, deste modo, sentido bem diferente do que a lenda e o rodar dos séculos lhes emprestaram”.

1970.11.28     -     O TARTUFO, EM COIMBRA (O DESPERTAR)

                A noite de 23 foi o que, optimista e hiperbolicamente, poderemos designar como abertura da temporada teatral citadina, e ao grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, representando em homenagem à Casa da Infância Desvalida Doutor Elísio de Moura, se devem as primeiras salvas de palmas que nesta época, soaram no Avenida, quando apresentou “Tartufo” (será preciso acrescentar: - de Molière?) na versão portuguesa de António Feliciano de Castilho.
                E porquê esta versão?
                No fim do espectáculo, José Ribeiro, que há longos anos se dedicou devotadamente a manter acesa a arte dita de Talma na Terra do Limonete e, por feliz adição, nas terras onde os tavaredenses logram ir mostrar quanto vale a perseverança da sua obra, explicou-nos que, de todas as traduções suas conhecidas e nem sempre de melhor qualidade, os direitos a pagar tornavam incomportável para o Grupo a sua utilização, o que, por prescrição, não se verificava já com a versão de Castilho. Mais uma vez se prova, assim, - se mais alguma prova fosse necessária – que nem sempre se faz o que se deseja mas sempre e só o que se pode, pese isto aos que pouco ou nada fazem, embora saibam (saberão?...) como deveria fazer-se muito. Aliás, para além das inevitáveis dificuldades em vencer o ritmo do poema (nem sempre logradas, reconheça-se) o que nos chocou na versão utilizada foi, ao que nos pareceu, a sucessiva utilização da mesma frase, das segundas e terceiras pessoas verbais, aquelas para o modo de tratamento utlizado na época, estas para ocasionais necessidades de concordância de rima.
                Aceite, porém, a versão escolhida, há que reconhecer o equilíbrio do espectáculo apresentado, tanto no estilo da representação, como no guarda-roupa, adereços e cenografia, ressalvando as cortinas com apontamentos (mais que apontamentos, afinal) de papel engradado, nas portas do segundo cenário.
                A interpretação foi digna dos pergaminhos alcançados há muito pelo Grupo de Tavarede, que nos apresentou um muito geitoso naipe feminino – desde a veterana Violinda em Dorina (é extraordinária a vitalidade e o amor com que ela se atira às personagens que lhe são distribuidas) à, segundo nos disseram, estreante Rosa da Silva, em Mariana, com passagem pela também veterana Teresa de Oliveira, em Madame Pernelle, e por Inês Lavos, Elmira, prestes a abandonar a actividade por imperativos... agora que se afirmava muito positivamente.
                No naipe masculino, Nascimento (Cleanto), João Medina (Orgon), Oliveira Jor. (Tartufo) lembrando fisicamente Jouvert mas que talvez preferíssemos mais untuoso, e Reis (num curto mas correcto Meirinho), deram o que nos pareceu a justa medida, com Cascão algo exuberante no oficial de diligências Leal, José Medina um pouco contrafeito em Damis e Morais ainda incipiente no osso de Valério.
                José Ribeiro, bem secundado pelos seus auxiliares técnicos (Cordeiro a ouvir-se aqui e além, Silva, Almeida e Sousa), continuou a ser a alma do Grupo, ainda que a sistemática omissão do seu nome nos programas merecesse um castigo.
                Nas palavras que proferiu antes de abrir o pano, Ribeiro pediu que os possíveis aplausos que viessem a alcançar se destinassem também a homenagear a memória de Molière. Que homenagem, porém, poderia ser maior do que essa que os séculos já lhe prestaram transformando em adjectivo qualificativo o que inicialmente não passava dum simples substantivo próprio – Tartufo?
                Foi, então, assim que, como inicialmente dissemos, abriu a época teatral de Coimbra – sob o signo da desmistificação. Oxalá possa prosseguir desmistificando e demitificando, nem que para isso seja preciso continuar com Molière, subir cronologicamente a Gil Vicente, atingindo até o próprio Plauto.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 15


FERNÃO GOMES DE QUADROS E SOUSA

5º. Senhor de Tavarede - Morgado
  
            Nasceu em Tavarede, onde foi baptizado, na igreja de S. Martinho, no dia 3 de Janeiro de 1655. Sucedeu ao seu avô no morgado de Tavarede, visto seu pai ter falecido em vida de seu avô, como foi referido no capítulo anterior. Foi esta situação que deu origem ao lapso cometido pelo Dr. Mesquita de Figueiredo e outros, como, por exemplo, Mestre José Ribeiro, conforme foi lembrado ao princípio deste caderno.

Como ainda era menor, quando seu avô faleceu, foi sua mãe, D. Maria Teles de Meneses, nomeada como tutora, e que ficou como admninistradora da sua casa e bens. Anos mais tarde, entrou para o convento de Celas, em Coimbra, onde faleceu.

… Aproveitando o período mais calmo dos finais do século dezassete, Fernão Gomes de Quadros e Sousa limitar-se-ia a administrar a Casa para obter um rendimento seguro. Para além do investimento corrente pouco mais terá feito. Assim se terá passado nas questões dos fornos da poia e da Ínsua da Morraceira… (A Casa de Tavarede).

            Casou muito novo, pois tinha apenas quinze anos de idade, em 1670, quando contraíu matrimónio com D. Brites Maria de Albuquerque, filha de António de Albuquerque Coelho de Carvalho e de D. Inês Maria Coelho de Carvalho. Alguns autores dão-lhe o nome de Beatriz.

            Sucedeu também a seu pai na comenda de S. Pedro, das Alhadas, sendo provido neste cargo em 1689. Foi provedor da Misericórdia de Buarcos nos anos de 1691 e 1692.

            Do seu casamento teve numerosa descendência que, como era costume nesta e noutras famílias fidalgas, seguiram as carreiras militar e religiosa, sendo esta uma forma de preservar os bens de sua casa. Foram os seguintes os seus nove filhos:

- Pedro Lopes de Quadros e Sousa, nascido no ano de 1672 e que foi seu herdeiro;
- D. Mariana Coutinho de Meneses, baptizada em Tavarede no dia 11 ou 12 de Junho de 1673, (há assento do baptismo nos dois dias) que ingressou no convento do Lorvão;
- D. António Coutinho de Quadros, que também recebeu o baptismo em Tavarede no dia 23 de Agosto de 1674. Foi cónego no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, em 1699, depois foi prior de Figueiró dos Vinhos, em 1707, e prior de São Martinho de Salréu, Estarreja, sabendo-se que ali vivia em 1732;
- José de Melo Pereira, igualmente baptizado em Tavarede no dia 13 de Outubro de 1677. Foi frade Bernardo;
- Manuel de Melo Pereira de Quadros, também baptizado em Tavarede, a 21 de Agosto de 1678. Seguiu a carreira militar, tendo combatido na guerra da sucessão, em Espanha, e foi morto na tomada de Cidade Rodrigo, em 1704, com o posto de capitão de cavalaria;
- D. Inês Francisca de Carvalho, baptizada em 17 de Janeiro de 1680, freira no convento do Lorvão;
- D. Leonor Coutinho, que foi baptizada em Tavarede em 12 de Dezembro de 1680, que foi freira, como suas irmãs, no convento de Lorvão, embora também haja alguns autores que dizem ter morrido em criança;
- e Francisco Teles de Meneses, baptizado no dia 18 de Maio de 1682, que foi frade e monge da Ordem de S. Bento de Aviz, em Palmela.

            Além dos filhos legítimos, teve ainda um filho bastardo, o qual foi baptizado em S. Julião da Figueira, com o nome de António Fernandes de Quadros. Este filho bastardo, que havia nascido sendo seu pai ainda solteiro (teria, então, 13 ou 14 anos), seguiu a carreira militar, tendo sido soldado em Lisboa.

            Sua esposa, D. Brites Maria de Albuquerque, faleceu em Tavarede no dia 29 de Junho de 1684. Fernão Gomes de Quadros e Sousa foi grande devoto de S. Francisco, sendo muito religioso. Depois de ter enviuvado, e considerando que seu filho primogénito já tinha idade suficiente para lhe suceder como seu herdeiro, ingressou como noviço no convento de S. Francisco, de Varatojo, tendo tomado votos em Maio ou Junho de 1697, tomando o nome de Frei José de Jesus Maria.

                   Foi bem casado, que as virtudes de sua mulher eram forte grilhão para lhe prender o afecto, sendo como devem ser só estas lisonjas para o gosto, pois o não pode ser maior, como ser virtuosa uma mulher, mas como a felicidade no mundo vai e não dura, experimentou na sua morte o mais duro golpe, ficando a braços com uma saudade, doença tão valente, que sempre está ‘febristante’ e assim para convalescer, achou no desengano o melhor remédio, conhecendo os embustes de que faz parte o mundo, pois este nas rosas que oferece lisonja o olfato, é para encobrir os espinhos, inimigos capitais do gosto, em que, saindo o teatro sombrio do mundo, a graça da luz do desengano, foi tomar o hábito de leigo no convento do Varatojo, ficando ‘havido’ astro daquele céu donde desfeitos os vapores que da terra se levantam, os sujeitos que nele entram, se ilustram. É este o retiro em que se avalia a miséria, o que no mundo se estima para reencontrar a felicidade, que sempre dura com abundância, que nunca se acaba. Aqui viveu tão cheio de virtudes, que triunfando da culpa, caminha para a Glória, por ser a penitência a melhor estrada, pois seguramente a ‘vadeia’ o que procede desta forma.
            Mostrou no desprezo ter tudo em pouco, pois casas e filhos lhe não serviram de embaraço, obrando uma tal valentia o seu ânimo, que no ouro fez o maior estrago, entendendo prudente que no generoso sangue tem a virtude seu natural assento, por ser adúltera da nobreza, que se sujeita do vício; pois esta escravidão é a que mais infama por ser contágio, que infeciona a alma e assim com razão se honra que por tão fortes obstáculos corta, por ser o conhecimento próprio e com que se adquire o melhor nome; pois só será mais nobre o que for bem, que o ruím sempre fica posto que por filho de Júpiter se desvaneça, e assim servir a Deus, conservar sua imagem é a nobreza mais segura, sendo estes os exercícios em que se adquirem imortais louros, e se logram na eternidade de ufanos assentos.

            Alguns autores referem que Fernão Gomes de Quadros e Sousa, terá saído de casa, de noite e furtivamente, sem dar conhecimento das suas intenções, dirigindo-se a pé ao referido convento, ocultando de todos a sua qualidade. 

sábado, 28 de julho de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 38


1969.01.15     -     TEATRO CULTURAL EM TAVAREDE (MAR ALTO)

                Molière voltou a Tavarede e parece-nos que em boa hora!
                A noite estava muito fria e chuviscosa, e desaconselhada numa sala sem aquecimento. Contra isso, além do agasalho, sempre pouco e de alguns rebuçados, levava o gosto de ver os amadores de Tavarede e Molière.
                Valeria... entretanto, o risco? Porque, desta vez, havia mesmo risco... Ia levar meu filho ao teatro; era a primeira vez que tal acontecia: como iria reagir ele, nos poucos anos que ainda tem?
                Os primeiros momentos aumentaram as minhas dúvidas: o mobiliário pareceu-me pobre, desirmanado como não é uso em Tavarede; João de Oliveira, um dos melhores elementos do grupo, pareceu-me suportar com dificuldade um papel que lhe não quadraria bem; José Medina, sempre cheio de brio e de coragem – nesse esforço de aplicação, acho-o comparável só a Maria Inês -, não conseguia também imprimir a necessária convicção ao papel que lhe competia; e Amilcar Vitorino, num criado a favor do “jovem enamorado”, não possui ainda, jovem como é, nem voz nem postura própria, no palco...
                A pouco e pouco, porém, as coisas entraram de encaminhar-se. E, ao longo do tempo, João Cascão e Violinda sempre, e João Medina com bastante frequência, tomaram conta da situação: a posição difícil dos outros foi-se esbatendo; e o palco entrou a encher-se de alegria e força bastantes para suportar uma que outra crise, como a da voz suave, mas cheia de monotonia, de Alice Lontro.
                O espectáculo merece, pois, nota positiva. Pessoal, mas sentida: o meu filho seguiu sempre atento o desenrolar da peça, compreendeu-a, riu sem reticências nos melhores momentos cómicos e ainda hoje frequentemente os evoca. De quanto não estará servindo, aos Tavaredenses, a reflexão que têm feito sobre Molière?...
                E a notícia de que estão no fim as representações do “Avarento”, não pode deixar de causar-me pena. Quando tanto se fala em Cultura, é de lamentar que espectáculos como este que Tavarede tem oferecido a todos, não sejam vistos nem apreciados ao menos por uma maioria de estudantes: seriam o melhor complemento de muitas aulas, sobretudo de História e Literatura. Para quando o movimento em tal sentido?

 1969.02.05     -     “O AVARENTO”, COM A PRESENÇA DO DR. PAULO QUINTELA (MAR ALTO)

                 Se o actor faz o espectáculo, o público faz o actor. É assim no sentido do melhor, como no sentido do pior. Isso mesmo esteve à prova no sábado passado, na sala de espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Voltámos a Tavarede. Não iamos, propriamente, ver Molière, que já ali nos fora dado semanas antes; iamos ver os Tavaredenses, estar um pouco com eles, no acto do seu encontro com quem lhes fornecera uma versão em cena. Iamos, portanto, no melhor estado de espírito: sobre o espectáculo, já prestáramos as provas, fracas mas bem intencionadas, que haviamos de prestar, quando aqui mesmo, em tempo nos referimos a esta representação de “O Avarento”; desobrigados disso, apenas queriamos fazer companhia aos Tavaredenses, dar-lhes a nossa parte na estima que se lhes deve, pelo quanto de bom têm feito, através do Teatro, pela sua terra e pela Figueira.
                Bem mal avisados iamos, afinal! Porque o nosso espírito crítico foi outra vez provocado, impondo este regresso...
                O actor faz o espectáculo; o público faz o actor...
                Representar deve ser sempre um acto sério, para os amadores de Tavarede; mas representar diante do mestre de Teatro Paulo Quintela, era coisa bem mais grave: imprimia ao acto uma espécie de solenidade...
                Terão sentido isto os Tavaredenses: sentados nos balcões, longe do palco, bem notámos que andava no ar, enchendo a sala, a atmosfera tensa de um dia de exame...
                E a prova foi positiva! As figuras gradas não deixaram de o ser e as mais humildes generosamente deram o melhor de si; certas posições no palco ganharam um pouco de à-vontade, algumas vozes adquiriram naturalidade maior, e a representação subiu toda. Um tal progresso não se deve, seguramente, apenas a um maior número de ensaios.
                Mas o espectáculo desta vez, não findou com o avarento virando costas à vida, dando ao mundo o seu testamento negativo. Talvez determinado pelas palavras com que José Ribeiro abriu a representação, talvez também por esta mesma, e sem dúvida pela chamada que no final lhe foi feita, Paulo Quintela foi ao palco. E deu uma lição.
                As suas profundas raízes no povo, a sua completa escola de teatro, a sua cultura verdadeira, a sua vivência de professor, tudo ali se juntou, para uma lição inteira, com exposição e crítica, com aplauso e apelo.
                Nós, que sabemos tão bem quanto valem estas coisas, estamos certos de que as palavras do Prof. Doutor Paulo Quintela foram o melhor prémio para os Tavaredenses, para José Ribeiro, para os admiradores fiéis do esforço pelo Teatro da SIT, e, até, para alguns que naquela noite ali estiveram só por dever social.
                Num dos intervalos do espectáculo, foram oferecidas lindas flores às Exmas. Esposa e Filha do Prof. Paulo Quintela.
                Após o espectáculo, no salão nobre da Sociedade, realizou-se um beberete, durante o qual usaram da palavra os srs. António Lopes, presidente da Direcção, o Doutor Paulo Quintela e José Ribeiro. Nesse encontro, além dos corpos dirigentes da agremiação, dos artistas amadores e de amigos e familiares do ilustre visitante, lembramo-nos de ter visto os srs. dr. Artur Beja e esposa, banqueiro Jerónimo Pais e esposa, gravador Moreira Júnior e esposa, dr. Adelino Mesquita, reitor do Seminário, industrial Freitas Lopes e arquitecto Isaias Cardoso.

1969.02.26     -     MARIA TERESA DE OLIVEIRA (MAR ALTO)

                Bonita festa a que homenageou D. Maria Teresa de Oliveira, que há meio século se devota ao Teatro e à Benemerência.
                Muitos dos seus admiradores foram a Tavarede numa noite de Inverno impiedoso dizer-lhe com a sua presença e os seus aplausos (que atingiram proporções de apoteose) que não olvidam o que a Mariquinhas representa no mundo de hoje. O que vale a sua devoção, o seu exemplo, a sua entrega, total e desinteressada, a uma obra de Arte e Benfazer. Cuidar dia a dia dos mil pormenores que exigem a actividade permanente dum palco e dum grupo de teatro. E tudo desinteressadamente. E tudo tão naturalmente como se respira.
                Cuidar da sua vida, dos seus problemas próprios, duma família tão experimentada por tantas vicissitudes, e ainda devotar-se profundamente, dia a dia, ao longo de meio século, a uma tarefa de valorização da Grei. E sem se pôr nos bicos dos pés, sem afrontar ninguém com os seus méritos reais e invulgares.
                D. Maria Teresa de Oliveira ajudou a pôr em cena muitas dezenas de peças; estudou muitos papéis; percorreu o País, quase sempre desconfortavelmente, para que a maior receita possível fosse beneficiar o maior número de necessitados; nunca recusou, nunca voltou as costas, nunca esperou que lhe batessem encarecidamente à porta. Com a Mariquinhas todos, em toda a parte, podiam contar. Todos, sem excepção, num diálogo de cinquenta anos.
                O espectáculo decorreu sempre numa permanente comunhão de sentimentos entre o palco e a sala.
                Todos sentiam a homenagem que se estava a prestar. O teatro de Gil Vicente, ainda não totalmente despido do ar pesado e duro da Idade-Média, era com o seu forte e intenso humanismo o primeiro clarão da festa. Depois veio a movimentação alegre, a música cheia de vibração e sentimento do Chá de Limonete e Terra do Limonete, as duas peças em que José Ribeiro evoca a história e os costumes da nossa região com tanto carinho. Constantes ovações, quadros repetidamente bisados, fizeram do espectáculo uma noite inolvidável.
                Depois foi a parte final: no palco todos os amadores, muitas flores, muitos abraços e felicitações de admiradores de D. Maria Teresa de Oliveira, a quem foi entregue uma mensagem assinada por centenas de pessoas.
                O sr. António de Oliveira Lopes, presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense, disse das razões da festa, do significado da homenagem, e agradeceu a presença de todos, especialmente da srª. drª. Cristina Torres, professora e figueirense distinta que, muito justamente, toda a Figueira admira e respeita.
                A srª. drª. Cristina Torres terminou a festa com uma lição de ternura, numa conversa de amiga para amiga, exaltando com simplicidade todo o valor de Maria Teresa, todo o valor da família Ribeiro, que tinha construído em Tavarede um oásis de Bondade.
                Se fosse mais nova, iria com José Ribeiro, por aí fora, construir outros oásis, onde o caminheiro pudesse descansar das longas caminhadas por entre as regiões áridas e hostis da vida dos nossos dias.
                Maria Teresa de Oliveira era o exemplo vivo do que é capaz uma pessoa desprovida de bens materiais: capaz de construir uma obra de bondade devotada aos que precisam, aos que carecem de tanta coisa, e que encontram em Maria Teresa e nos amadores de Tavarede um auxílio desinteressado e pronto.
                A srª. drª. D. Cristina Torres sugeriu que na Sociedade de Instrução Tavaredense se erguesse uma coluna em que ao nome de Maria Teresa de Oliveira se associasse apenas uma palavra: Bondade.
                Num beberete reuniram-se depois os amadores, directores e admiradores da distinta amadora.

1969.02.26     -     A SIT REPRESENTOU EM LEIRIA (MAR ALTO)

                Não carece da mais leve apresentação. Todo o país conhece este conjunto teatral, já pela sua actuação que não é de hoje nem de ontem, já pelas peças de vulto, de autores nacionais e estrangeiros, que tem levado à cena sob a proficiente direcção do Mestre de Teatro, José Ribeiro.
                E essa actuação não é aqui ou ali. Em toda a parte. Desde a capital, em muitos outros teatros de cidades, capitais de distrito, simples vilas e povoações a sua exibição é sempre de molde a constituir não um banal espectáculo, mas exibição ou exibições da Arte de Talma, com que se não topa a cada passo.
                Antes de subir o pano, o sr. Leite da Costa, ilustre funcionário de Finanças, fez a apresentação, tecendo ao grupo cénico merecidos louvores, já pelo nome de que é possuidor nos meandros da arte teatral, já porque de há muito que tem representado nesta cidade, sempre, como agora, com fins beneficentes.
                E seguiu-se a peça em que cada amador subiu, no seu papel, até ao máximo, porque, efectivamente, o que foi visto não pode ser ultrapassado.
                Aqui se frisa simplesmente o conjunto que como é já da história das lides teatrais tavaredenses é tão uno que sempre, agora, como em 1930 ou 1920 o que se viu e apreciou, de igual modo.
                Velhos conhecedores da Arte de Talma e seu valor integrado nos segredos de Teatro, apresentaram os seus parabéns a José Ribeiro, pena sendo que a escassez de tempo não permitisse mais delonga.

1969.03.01     -     MARIA TERESA DE OLIVEIRA (O FIGUEIRENSE)

                Realizou-se, no último sábado, na Sociedade de Instrução Tavaredense a festa de homenagem a D. Maria Teresa de Oliveira, uma das mais antigas e distintas amadoras, que há mais de 50 anos vem prestando a sua valiosa colaboração ao grupo cénico.
                O espectáculo era dividido em três partes, sendo a primeira constituida por Teatro Vicentino – “Quem Tem Farelos?” e “Pranto de Maria Parda” e a segunda parte por quadros extraídos das festejadas peças “Chá de Limonete” e “Terra do Limonete”, cujas representações os sócios muito apreciam, não só pelos seus interessantes diálogos como ainda por serem musicados.
                A terceira parte foi exclusivamente dedicada a Maria Teresa de Oliveira.
                Festa encantadora, sensibilizante, das melhores, pelo seu significdo, a que nos tem sido dado assistir na prestante colectividade da terra do limonete.
                O Presidente da Direcção, em breves palavras, disse das razões justificativas da homenagem, tecendo os maiores encómios a Maria Teresa de Oliveira pela sua proverbial bondade, naturalidade e firmeza com que, durante a sua longa vida de amadora teatral, soube interpretar as muitas figuras que lhe eram distribuidas pelo seu competente e exigente ensaiador, seu irmão sr. José da Silva Ribeiro.
                A Senhora professora drª Cristina Torres, congratulando-se com a feliz iniciativa da Direcção e de alguns amigos e dedicados directores da SIT fez, em termos que muito sensibilizaram a assistência, a apologia das excelsas virtudes de Maria Teresa de Oliveira e da sua extraordinária dedicação ao Teatro,
                A terminar, a assistência tributou à srª dr. Cristina Torres grande ovação.
                João de Oliveira Junior leu a mensagem escrita em pergaminho, que foi entregue à homenageada numa artística pasta executada pelo consócio e grande amigo da SIT, sr. Sebastião Pimentel.
                Ouviram-se, então, as entusiásticas manifestações do público, enquanto a Maria Teresa de Oliveira, comovida, recebia das mãos da engraçada menina Ana Maria Bernardes Caetano, expressiva lembrança, oferta da comissão organizadora, e flores, muitas flores, das meninas e amadoras que a rodeavam. De notar os lindos ramos de cravos que lhe foram entregues, um da comissão, e outro, do grande amigo da colectividade, sr. Alberto Anahory, que propositadamente se deslocou de Lisboa para se associar à justíssima homenagem.
                Entre a vária correspondência recebida destacava-se uma carta do sócio honorário da SIT, sr. Anselmo Cardoso, na qual enviava saudações amistosas e de admiração pelas excelentes qualidades morais e de amadora distinta da homenageada, sentindo não estar presente por o seu estado de saúde o não permitir.
                No final foi oferecido ao pessoal do palco e convidados um beberete.

1969.08.30     -     LUÍS FRANCISCO REBELO DE NOVO EM TAVAREDE (MAL ALTO)

                Quanto deverá a Cultura, na Figueira da Foz, à iniciativa particular? Bem mereceria contar-se essa história: além de acto da melhor justiça, ajudaria sensivelmente a futuros cronistas. Vem isto a propósito do caso que hoje nos ocupa.
                Luís Francisco Rebelo não é um dramaturgo desconhecido do nosso meio, graças, sobretudo, à Sociedade de Instrução Tavaredense, que já no-lo deu, não só como autor e adaptador de peças, mas também em carne e osso, como historiador e crítico de teatro.
                Pois Luís Francisco Rebelo está outra vez entre nós, de novo em Tavarede, com “Alguém terá de morrer”.
                Não vamos falar da peça, que não se nos impôs mas que, a seu tempo, os críticos apreciaram devidamente. Do fundo da nossa ignorância, apenas diremos que ela mereceria uma troca de impressões com o autor, no aconchegado ambiente de Tavarede, ou em Rotary Clube, dois dos centros particulares onde a preocupação cultural não é um mito.
                Também da representação pouco saberemos dizer: assistimos a ela uma só vez, no passado dia 2, já que, no sábado imediato, assustados pela falta de luz que assaltou a Figueira, pusemos de parte a ideia da revisão. Ora, ver uma vez é pouco, para quem mal sabe ser espectador.
                A primeira impressão que nos ficou foi a de que assistiramos a uma tragédia escrita para ser representada por duas mulheres que são também grandes artistas: Violinda Medina e Silva e Maria Teresa de Oliveira, as irmãs que o feitio e a vida separaram. A primeira habituou-nos à sua indispensável presença; mas a segunda, por motivos alheios ao querer de todos raras vezes em cena, teve um papel a que, em certos passos, emprestou uma actuação magistral; duas figuras de excepção.
                Acompanharam-nas bem João Medina e João de Oliveira Júnior: o primeiro, no papel do capitalista em crise, espírito pragmático e tão alheado do seu mundo familiar como a sua mulher, a nova-rica poço da vacuidade sem fim; o segundo, num papel que se lhe ajusta, de emissário da morte e crítico de costumes, campo este em que é secundado pelo estreante Amilcar Vitorino, o filho-família.
                E rematamos por outra figura de mulher, a da filha votada ao sacrifício. Maria Inês Barosa Lavos é uma actriz honesta que dá a cada papel o melhor de si mesma. O esforço dela sente-se em todos os desempenhos que lhe temos visto. Pois, desta vez, a sua função, de um dramatismo denso, pareceu-nos melhor conseguida. Só lhe faltam, exteriormente, um trajo e um penteado mais leves; falamos para 1969 e, não, para 1956, data da peça.
                Esta Sociedade de Instrução Tavaredense seria mesmo um dos casos mais dignos de interesse, no historial da iniciativa particular na Cultura local. Que tema, para uma tese de licenciatura!

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 14


Recunhecimento de aprovação

            Saibão quantos este publico instrumento de aprovação de testamento, como em direito mais valer, virem, que no Anno de Nosso Senhor Jesus Christo de 1665, aos 3 dias do mes de setembro neste lugar da Figueira, termo da villa de Montemor-o-Velho, e casas de murada de Fernão Gomes de Quadros, Fidalgo da Casa de S. Mag.de, Cavalleiro da Ordem de Christo; aonde eu Tabaliam fui chamado por mandado do dito Fernam Gomes de Quadros e elle estava em sua cama doente, de doença que Deus lhe deu, com todo o seu juizo perfeito, segundo o parecer de mim Tabalião, e das Test.as ao diante numeadas e neste testamento assinadas todos chamados por mandado do ditto Fernão Gomes de Quadros, e presentes todos, logo pelo dito Fernão Gomes de Quadros me foi dado da sua mão a de mim Tabalião, cinco folhas de papel, dizendo que nellas estava feito seu testamento, escripto em seis meas folhas, com esta sette com a do encerramento, que lhe approvasse e fizesse judicial, que tudo o que nelle tinha ditto, e relatado, queria que se cumprisse e guardasse e pedia às justiças de S. Magestade, assim o houvessem por bom, e lhe fizessem em tudo cumprir, porquanto hera sua ultima e derradeira vontade e revogava todos os mais feitos antes delle, cedula ou  codicilio assim o entregue e delle mandou ser feito este instrumento e o ditto testamento  todo de verbrumada verbo, vi, e não tem entrelinha, nem borrão algum e forão a tudo test.as presentes, que assinaram comigo Tab.am e o Doutor Antonio Mendes, m.or na cidade de Coimbra e o Revº. Simão Rodrigues Portugal, m.or no lugar de Tavarede e M.el Esteves da villa de Montemor-o-velho, e Sebastião Fernandes e Miguel Ribeiro do Couto de Tavarede e M.el de Mesquita de Loureiro e M.el d’Almeida de villa Verde, e o dito Testamento, esta assinado pelo testador e pelo Padre Freire Ricardo da Madre de Deus, e todas as test.as são pessoas reconhecidas de mim Tab.am, e logo eu Tab.am aprovei o dito testamento, tanto quanto em direito devo e posso lho fichei e sessei com seis pingos de lacre e o tornei a entregar ao dito Fernam Gomes de Quadros, fechado e serrado. Diogo Fernando Negrão, Tab.am o escrevi = Doutor Antonio Mendes = Simão Rodrigues Portugal = Miguel Ribeiro = Sebastião Fez = Manoel d’Almeida = Manuel Esteves = Manuel de Mesquita Loureiro.

Abertura do testamento

            Aos 6 de setembro de 1665 annos neste lugar da Figueira, onde eu escrivam fui chamado, por Precatorio deste Juizo com portador onde vim: e Fernão Gomes de Quadros, que Deus tem, onde estava o licenciado Simão Rodrigues Portugal, Juiz ordinario e dos orfãos do presente anno; ahi estava ainda o corpo de Fernam Gomes de Quadros, por enterrar, e ahi se apresentou a mim escrivam o testamento atras que tinha feito o dito Fernão Gomes de Quadros, o quel eu escrivão abri, e por estar fechado e lacrado e sendo elle aberto o Reverendo Padre Vigario de Boarcos o leo em alta vóz, estando presente o Provedor da Santa Casa da Mizericordia da villa de Buarcos, e mais Irmandade da ditta Santa Casa, e pelo dito juiz foi mandado se cumprisse, como nelle se contem, e se tirassem os treslados necessarios, e assinou com o dito Padre Vigario e o Provedor, Antonio Cardozo d’Azambuja, o escrevi = Simão Rodrigues Portugal, o qual testamento, aprovação e abertura eu Antº. Cardozo da Azambuja, Tab.am do publico, judicial e notas em esta villa de Buarcos pelo Duque de Cadaval, Senhor della fiz escrever, e escrevi, bem e fielmente do proprio a que me reporto e está em meu poder aos 18 do mes de setembro de 1665 annos. Antº. Cardozo da Azambuja, o escrevi e assinei em publico de meu sinal de que uzo fazer = lugar do sinal publico = hu testemunho e fé de verdade, aqui me assignei tambem Antº. Cardozo da Azambuja.
           
            Com o falecimento de Fernão Gomes de Quadros, em 1665, “encerra-se um dos mais importantes períodos da história da Casa de Tavarede. Pode-se dizer que esta finalmente estava instalada na zona. A sua administração, tal como a de seu pai e avós, foi caracterizada por permanentes conflitos, que agora deixaram de existir. Àquele período, que durou mais de cem anos, seguiu-se outro em que a administração da Casa foi essencialmente pacífica. Durante várias décadas a Casa de Tavarede pouco aumentará e não se reconvertará. Porque era sólida, os administradores terão procurado gosar o seu rendimento em vez de o aumentar”. (A Casa de Tavarede)
           
            Mas, antes de passarmos ao seguinte morgado de Tavarede, não podemos deixar de referir alguns apontamentos sobre Pero Lopes de Quadros, que seria o herdeiro do morgado se não tivesse falecido antes de seu pai.

            Nasceu em Tavarede e foi baptizado na Igreja de S. Martinho no dia 16 de Junho de 1625. Faleceu, também em Tavarede, a 27 de Dezembro de 1663, portanto, ainda em vida de seu pai.

            Casou na Corte, onde era moço fidalgo, no ano de 1651, com D. Maria Teles de Menezes, dama da rainha D. Leonor de Gusmão, filha do Desembargador dos Agravos, Antão Carotom e de sua mulher, D. Leonor de Faria. Tiveram os seguintes filhos:
            - Fernão Gomes de Quadros, que foi o herdeiro de seu avô, baptizado na igreja de Tavarede no dia 3 de Janeiro de 1655;
- Pedro de Melo Pereira de Quadros e Sousa, baptizado na mesma igreja, em 12 de Março de 1656. Foi irmão da Misericórdia de Redondos e Buarcos. Fez-se frade leigo, entrando para o convento franciscano do Varatojo;
- D. Leonor, baptizada na igreja de Tavarede, no dia 3 de Fevereiro de 1659. Não encontrámos mais elementos sobre ela, pelo que admitimos tenha falecido em criança;
- D. Isabel de Távora Coutinho, baptizada em, 1 de Julho de 1660. Casou com José de Sousa Pereira, familiar do Santo Ofício;
- Álvaro Teles, nascido e baptizado em Tavarede, a 6 de Janeiro de 1662, Foi confessor no convento do Lorvão. Frade Bernardo, foi depois para o Mosteiro de Alcobaça, onde foi mestre de Teologia. Foi promovido a abade do Mosteiro de Seiça e, depois, prior do Mosteiro de Alcobaça;
- D. Bernarda Teles, baptizada em 6 de Janeiro de 1663. Foi casada com Francisco de Miranda de Castelo Branco, e, tendo enviuvado, entrou para o convento do Lorvão, onde fora noviça antes do seu casamento. Foi escolhida para abadessa deste convento por três vezes. “… mandou fazer o refeitório e tirou dele a passagem para a cerca e a fez no claustro; mandou fazer a hospedaria e o muro da cerca fora e no fim do seu triénio, solicitou, com muitas diligências e trabalhos, a trasladação que se fez de Nossa Rainha Santa, vencendo-se muitas dificuldades que se fizeram em 1714. Segunda vez abadessa, mandou fazer o celeiro e consertar também a porta de baixo, aonde fez casa para que estivessem religiosas, que até esse tempo se não costumava, pela tal porta ter pouca serventia”. Em 1713, substituiu os primitivos túmulos das infantas D. Teresa e D. Sancha, por dois cofres de prata lavrada, que ficaram na capela mor.

            Terão tido ainda D. Luísa Teles e D. Maria Teles, que professaram no convento de Santa Clara, em Coimbra, e D. Brígida Teles, freira em Lorvão.

            Por intervenção da rainha D. Leonor de Gusmão, Pero Lopes de Quadros foi investido na comenda da Ordem de Cristo, das Alhadas, instituida na igreja daquele Couto, que lhe trazia alguns rendimentos, provenientes dos dízimos do lugar.

            Fernão Gomes de Quadros não conseguiu que lhe fosse reconhecido o direito ao prazo de Vila Verde, no qual teria sido, segundo se supõe, investido por seu pai. Aliás, reconhece-se que se até então tinha havido o cuidado em aumentar o morgado com todos os possíveis emprazamentos ou aquisições, foi a partir deste morgado que essa tendência terá desaparecido. A sua última aquisição terá sido o prazo de Lares, sito no limite de Maiorca, por 4 400 000 reis, a D. Diogo de Castro, conde de Basto.

            Teve desentimentos vários com seus irmãos, que se afastaram desmembrando a família até então muito unida. Foi esta desunião que acabou por, formando novas famílias, o apelido Quadros se tenhm espalhado por diversos locais da região.

            Com o aproximar do seu fim, também seguiu a tradicional tendência dos seus antepassados, quanto à sua religiosidade e devoção. Vê-se isso no seu testamento, pois  como era cavaleiro da Ordem de Cristo queria que seu corpo fosse em hábito desta Ordem e debaixo o de S. Francisco, de que era muito devoto. Deixou também diversos legados para esmolas a pobres.
 

sábado, 21 de julho de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 13

O morgado de Tavarede desempenhou estas funções até ao ano de 1655, tendo pedido escusa do cargo. O rei, aceitando a petição feita, aceitou a escusa. Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Havendo visto a petição que me fizestes para vos haver por escuso de continuar no cargo de capitão mor da vila de Buarcos, de que estais encarregado, e as razões que vos obrigam a pedi-lo.

Com atenção a elas, hei por bem de vos haver desobrigado da dita ocupação. E para que o tenhais assim entendido, mando fazer este aviso. Escrita em Lisboa a 31 de Julho de 1655. Rei.

Já referimos que um dos seus filhos, Manuel de Melo, tinha sido morto em combate contra os espanhóis. É intessante transcrever a carta que El-Rei escreveu ao fidalgo de Tavarede a lamentar o sucedido: Fernão Gomes de Quadros. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. O Mestre de Campo João de Melo me deu conta da entrada, que em 16 de Março próximo passado, fez em Castela, e do sucesso dela e do encontro que teve com o inimigo, em que o vosso filho Manuel de Melo foi morto, do que tive desprazer e sentimento e pareceu-me dizer-vos que fico com lembrança de sua morte e do valor com que procedeu na ocasião, para vos fazer mercê que houver lugar. Escrita em Lisboa a 21 de Maio de 1655. Rei. Aliás, deve referir-se que uma das grandes preocupações deste fidalgo tavaredense, foi o de fazer trasladar o corpo deste seu filho, deixando escrito no seu testamento que “se eu, na minha vida, não trouxer para a dita sepultura (no convento de Santo António) o meu filho, Manuel de Melo, sepultado em Almeida, onde morreu ao serviço do Rei D. João, o meu testamenteiro o mande buscar à custa de meus bens, para que mortos logremos todos juntos lugar certo”.

Fazemos, agora, a transcrição integral do seu testamento, pois são sempre documentos que nos permitem analisar melhor a personalidade do testamenteiro. Pedimos desculpa, no entanto, por possíveis erros, pois a leitura de onde o retirámos (cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo) é bastante dificíl, pelo menos para nós.

Em nome de Deus Amen. Padre, Filho, Espirito Santo que hé hum só Deus em Essencia e distinto em pessoas.

Eu Fernão Gomes de Quadros estando neste lugar da Figueira doente com todo o meu entendimento que Nosso Senhor me deu, Considerando o quanto he a morte certa, o quanto he duvidosa a hora della, e a conta que heide dar ante o Divino Juizo, de tudo o que fiz, e hora obrigado a fazer como Christão emquanto vivo, para descargo de minha consciencia e das obrigaçoens em que posso estar, para ordenar as cousas convenientes de toda a Alma Christan, hade fazer indo-se desta vida transitoria para outra eternal, em principio deste acto, digo o que eu tenho e creio firmemente tudo aquillo que tem e cre a Santa Madre Igreja Catolica, e protesto de sempre assim o ter na vida e na morte, e se o Demonio carne, ou o Mundo o contrario em algum tempo ou hora offerecer ao meu pensamento desde agora para então abruncio disse ao Eterno Deus, por sua Imensa Mizericordia, pelo Sangue Preciozissimo, que o Redemptor do genero humano, Jesus Christo, derramou, digo Cristo Nosso Senhor, derramou, pela salvação das Almas, receba este probertecção e lhe ajude acabar nesta vida em penitencia de meus pecados, e rogo a Sacratissima Virgem, Nossa Senhora, pelas dores que recebeo na morte de seu preciozo Filho, Jesus Christo, que seja minha intreceptora ante o Divino Tribunal naquella expantosa hora, para me alcançar de meus pecados, perdão e gloria eterna.

Pimeiramente elejo por meu Testamenteiro a meu Parente Rodrigo Homem de Quadros de quem na vida fui muito amigo, e espero que elle o seja da minha alma, na morte, e delle fio dará certo da brevidade cumprimento a meu Testamento.

= Mando, que meu corpo seja sepultado no Convento de Santo António deste lugar da Figueira na Capella mór, de que sou Padroeiro, e que me lancem no mesmo lugar em que minha mulher, que Ds bem jáz, e se eu em minha vida não trouxer para a dita sepultura os ossos de meu filho Manoel de Mello que Ds. tem, que está sepultado em Almeida aonde morreu, no serviço de ElRey D. João, e peço a meu Testamenteiro, mande buscar, seus ossos, a custa de meus bens, para que mortos, logremos todos juntos lugar certo, emquanto nos não virmos no céo, como Ds o permitirá por sua divina Mizericordia = E porquanto, eu sou Cavaleiro Professo da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, mando que o meu corpo vá vestido com o Abito, que tenho da mesma ordem, como sou obrigado, e debaixo levarei o de Sam Francisco, de que sou devoto, pelo qual darão dois mil reis de esmola, e a Irmandade da Mizericordia de Bo-Arcus outo mil reis e a Irmandade de Santo Aleixo de Tavarede quatro mil réis, que quero que os Irmãos della com sua bandeira vestidos em suas vestias me acompanhem, e ainda que me levem à sepultura, na Tumba da Mizericordia de Bo-Arcos, e ao Provedor della, e Irmam, peço que consintam, que me levem nelle quatro clerigos, que meu Testamenteiro nomeará os mais pobres que houver, de que darão de esmola a cada hum, mil reis, com obrigação de que dirão cada hum duas missas .

= Deixo a Confraria do Santissimo 4 mil reis de esmola e a de Nossa Senhora do Rosario outros 4 mil reis, e a do Nome de Jesus e de S. Sebastião, a cada huma 2 mil reis, e estas confrarias são as da Igreja de S. Martinho de Tavarede, e meu Testamenteiro, aplicará estas esmolas ao que mais for necessario nas ditas confrarias, não as entregando aos Mordomos dellas, e com a sera de todas as confrarias e da Irmandade de Santo Aleixo, se fará meu enterro, e se lhe pagará o que se gastar, e a Confraria de S. Martinho, aplicados da mesma forma deixo 2 mil reis .

= E dado o cazo, que eu falleça em parte que se não possa trazer meu corpo à sepultura da Capella mor de Santo Antonio da Figueira, ordeno que aonde se enterrar esteja em deposito, para quando for tempo me trazerem meus ossos a sepultura, de que faço menção na mesma forma declarada neste meu testamento, e o pesso assim a meu Testamenteiro.

= Ordeno que os officios se me fação à capucha e sem mais fausto nem pompa, que a que a mesma capucha soffre, e não quero que haja sermão de exequias, pois não he justo, que se falle depois de morto em quem emquanto vivo viveo tão mal, e aos pobres que acompanharem meu corpo darão aos que forem pequenos hum vintem, e aos homens e mulheres dous vintens, e huns e outros serão pobres e não muitos, que sem o serem vão ganhar esse jornal, que praza a Deus mereção com alguma oração; e o mais de meu enterramento disporá meu Testamenteiro, como eu confio delle e o meu amor lhe merece.

= E dado o caso que eu em minha vida tenha feito os dittos meus oficios, couza que desejo muito, nesse cazo, me farão um só officio de corpo presente, o que tambem será no dia de meu enterro, no caso que os tres se hajam de dilatar, o que pesso não seja, e este officio se pagará aos Padres alem da esmola que, pelos tres oficios e offertas lhe mando dar.

= Dara o dito testamenteiro aos Padres de Santo António 20 mil reis em dinheiro e hum moio de trigo e huma pipa de vinho e todos os Padres, que estiverem em caza, dirão nos tres dias Missa pela minha Alma e o mesmo todos os clerigos, que quizerem achar-se nos ditos oficios, dando-lhes a cada hum mais hum tostão do que he costume, e para o jantar dos Padres, nos tres dias dos oficios lhes darão duas arrobas de vaca, seis carneiros e seis almudes de vinho.

= Ordeno que por minha Alma se mande dizer mil missas para que por meio dellas, se lembre Deus della, e isto em brevidade possivel, e cem dellas, serão a Virgem Nossa Senhora, para que seja minha interessessora e 50 a S. João Bautista, e 50 a Santo Antonio, e 50 a N. Sª. da Esperança, a quem darão de esmolla, 2.000 reis para as suas obras, ou o que mais necessario fôr e parecer ao dito meu Testamenteiro.

=.Ordeno a meu testamenteiro que para assistirem a meus officios vista 20 pobres, os quais assistirão nelles com sua vella aceza, rezando por minha Alma, e nesses tres dias lhes mandara dar a cada hum de jantar ou hum vintem para elle, e no cabo dos 3 dias hum tostão a cada hum, e recomendo que sejão os mais pobres que houver.

= E porque he minha benção que o Morgado desta minha casa dos Quadros, va em crescimento nomeio meu Neto Fernão Gomes de Quadros, o meu Prazo de Rendide, em que na ultima vida, e se eu nelle não houver renovação de emprazamentos, dar tres vidas, que o direito dá, e que determino fazer, em tal cazo, visto que na ultima vida, transfiro e traspaço, como em direito mais valioso fôr, no meu dito Neto Fernam Gomes de Quadros, todo o direito, que tenho de poder pedir ao directo senhorio, que he o Mostº. de Alcobaça, a renovação do dito Prazo, para que seja seu, pois que tenho grande gosto e por este modo quero que vá em aumento o acrescentamento de minha Caza; assim como em tudo o que pude o procurei fazer, dizerdando-me em vida, só para aumenta-la, e peço ao meu dito Neto que no que puder siga sempre este intento, para que sua caza em nome creça, em honra e bens, e como os de sua colidade, e pera isso dando vida a seus irmãos segundos; peço, lhe não pafrepele imaginação casar seus Irmãos, nem filhos nem filhas que tenhão, antes lhes dê a vida de Freiras recolhendo-as em hum Mosteiro que que houverem de sêlo, muito meninas.

= Declaro que o meu Prazo de Lares que comprei ao Conde de Basto, Dom Diogo de Castro, emquanto na segunda vida que he de nomeação, nomeo no ditto meu Netto, Fernão Gomes de Quadros, pelas mesmas razoens assima referidas e por razão, que quem for senhor do Morgado do Campo da Morraceira, seja di dito Prazo, visto que o não é do lugar de Villa Verde, o que Deus quererá que ainda seja por ser assim razão e justiça, a que Deus ainda na falta da tersa dá.

=Declaro que as Numeaçoens dos dous Prazos faço com declaração, que no caso, que o dito meu Neto, Caze, o que Deus não permitta, com mulher Cristan Nova, Moura, Mulata, ou Negra, não tenhão vigor, e quero, que em direito posso, que logo os dittos Prazos passem a meu Neto, Pedro Lopes de Quadros ou em falta sua, ao que mais velho fôr e tambem quero, que se algum delles cometter crime contra as Magestades divina ou humana, porque haja de perder os bens, e os ditos Prazos desde agora os hei por nomeados, 6 dias antes de tal cometimento, em outro Netto, sendo sempre o mais velho, e em falta delles machos, na Neta que estiver em estado de poder com isso casar, e só nesse caso o aprovarei, e pesso ao meu dito Neto e a todos meus Descendentes e pessuidores desta minha caza queiram sempre nomear estes dous Prazos seus possuidores deste meu Morgado, para que nunca a Caza diminua antes sempre creça.

= E declaro, que meu Netto Fernam Gomes de Quadros, he herdeiro do Morgado de minha caza, e peço a Nosso Senhor lho deixe lograr muitos annos; e porque no campo da Murraceira está ainda alguma parte, que não he do Morgado, mando que se tome nella a terça parte de minha terça conforme a instituição do mesmo Morgado, para que o seja todo, e pela mercê das partilhas, que está em puder de M.el Pinto, Escrivam de Tavarede, se verá o que do campo não he Morgado, e o em que consiste tudo o delle, e se a vida me der lugar, eu farei todas estas declarações, com as solemnidades necessarias confirmadas por ElRey, para que fiquem na Torre do Tombo, para sempre, quando eu o não faça, peço ao ditto meu Netto como sucessor do dito Morgado, que o faça, e peço e encomendo ao dito meu Netto e mais sucessores, que forem di dito Morgado, que se lembrem muito de encumendar a Deus as Almas, de meus vis Avós Antonio Fernandes de Quadros e Genebra dazevedo como instituidores delle, fazendo-o de tudo o que tinhão, e mostrando grandes desejos de o fazer maior se poderão, no que meu Avô e Pai os não emitaram, e peço ao dito meu netto, se desvie de os emitar a elles nisto, e lhe encumendo que em tudo o que, puder, o acrescente, e eu lhe não deixo para isto senão duas partes da minha terça, por ser necessidade preciza, e despender-se em meus legados e discargos de minha consciência e salvação de minha alma, que vou desenganado da vida, e que os que ficão nella com os bens herdados, que poucos, que se lembrem della o que eu não espero de meu Netto, porque alem das obrigações deselo, as que me tem, pelo que o amo, e as que me teve seo Pay, são notorias ao Mundo todo.

= Declaro, que se depois dos legados pagos, e estiver dado cumprimento a tudo o deste testamento, houver algum crecimento, que chegue a se puder comprar dinheiro a validade de hum annual de Missas peço a meu Testamenteiro, as mande dizer na Capella mor de Santo Antonio da Figueira pela minha Alma e de minha mulher que Deus tem, e isto no caso, que eu o não deixe ordenado, que he couza de que trato, e se a quantia , que crecer depois de tudo o assima ordenado, não for o que baste para fazer o que digo, neste cazo o que montar o crecimento, se cazem dez orfãos, dando a cada hum 10 mil reis, e uma cama, em que jazão, e mais, se o houver, se me mandará dizer em missas, e isto será do dinheiro, que me acharem, que não poderá ser muito indo mal.

= Declaro, que devo, e me devem algumas dividas, e porque as vou pagando e cobrando, as não declaro aqui, e dellas e de alguns discargos de minha conciencia clarejos necessarios deixarei feito hum apontamento, que quero e me contente, que lhe dem inteiro crédito em todo, e se para isso ser lhe falta alguma solenidade, ou declaração em direito necessaria, que eu aqui hei por expressa e declarada, quero que valha, como se fosse em Testamento e a meu Testamenteiro peço que lhe dê em tudo cumprimento e dado o caso, que algumas pessoas digão, que eu lhe devo alguma cousa, e não tenham disto escripto meu, sendo pessoas dignas de crédito, bastará que o jurem pª serem pagos.

= E peço ao meu Netto que honore e ajude meus criados, e aos seus faça o mesmo, porque deste modo os terá para o servirem com amor, vontade, e que a tenha grande de ter a casa muito cheia delles, para que não aconteça que esteja sem elles, tendo com quê, e estes são os parentes adquiridos por nós na vida, e se no que lhe der for muito liberal será Senhor dos homens, do mundo e do Cêo.

= Declaro que a minhas Irmans sou obrigado a dar em cada hum anno de terça a cada huma 25 mil reis e 15 alqueires de bom trigo, e que esta mesma obrigação tem meu netto, por ter a caza de seu Pay, que Deus haja os bens de suas legitimas, que eu comprei ao Convento de Santa Clara de Coimbra aonde são Freiras, declarando no contracto, que fis com ellas, que lhes pagaria a dita tença em minha vida, e por minha morte, meu filho, ou netto a quem recomendo, e peço que lhes pague a dita tença, com cuidado e boa vontade, e porque a tenho grande de que o dito meu Netto se componha com sua Prima Netta minha, e filha de meu filho Manoel de Mello, que Deus tem, que está no convento de Villa Longa para assim ser Freira, e sendo isso, me he necessario fazer algumas declaraçoens do que he seo, e quando isto não tenha efeito, declaro por discargo de minha conciencia, que do dinheiro, que recebi do Dote de seu Pai lhe não devo mais do que 6 mil cruzados, porque o demais que falta para o recibo que fiz entreguei ao dito meu filho seu Pay.

= Declaro que depois da morte de meu filho Pedro Lopes de Quadros, que Deus tem, comprei huma Quinta no termo de Torres Vedras, aonde chamão a ponte do ril, com o dinheiro que ficou do ditto meu filho, que he de meus nettos, e assim não tem que entrar em partilhas de meus bens a dita quinta, nem o valor della.

= Declaro, que eu deixo ao Padre Miguel d’Oliveira, que está em minha casa, pelo amor com que me serve e servio sempre a meus filhos à muitos annos, o meu Cazal, que está junto deste lugar da Figueira, frente com Mosteiro de S.to Antonio e lomba, que comprei a Isabel deniz de Maiorca com obrigação de me dizer duas Missas, todos os annos por minha alma, e por sua morte tornará ao herdeiro de minha casa, e mando mais, que lhe deem em dinheiro 100 mil reis, para comprar humas casas ou fazer o que quizer os quais se lhe darão em dinheiro.

= Deixo a Domingos Romão criado meu que me serve ha muitos annos, humas cazinhas, que já lhe dei com seu quintal, para cazamento de huma filha, afilhada minha, e lhe dei na data dellas, hum escripto, feito e assinado por mim, que mando se lhe cumpra como se fôra escriptura publica.

= E à Maria Antonia, cunhada sua deixo outras, que já lhe dei por certas obrigações e mando que se lhe guarde hum escripto que lhe dei na forma sobredita, e lhe deixo mais a minha Quinta que foi de Melchior Ribello, para ajuda de criar Antonio, seu filho e meu.

= E declaro, que o dito Antonio meu filho natural deixo o que remanecer, depois de pagar todos os legados assima declarados, das duas partes de minha terça, para o sustentarem athé a idade de o puderem fazer frade, olhoro, ou o mandarem para a India, e depois de se lhe dar huma destas vidas, qual elle quizer, ou para a que tiver mais geito, tomarão os bens, que houverem de dar ao possuidor do meu Morgado, e porquanto o dito Antonio, he muito pequenino e o dito Padre Miguel de Oliveira he seu Padrtnho, e pelo amor, que conheço nelle me teve sempre e a minhas cousas o creará, como meu filho Natural, lhe peço queira tomar sobre si o crialo, e correr com o rendimento da dita fazenda, que lhe deixo na forma assima dito para o criar e lhe dar vida, e assim peço ao meu dito testamenteiro, lhe faça entregar, o que digo os bens, que remanecerem, para que com os rendimentos delles se fazer o que ordeno.

= E declaro que a meu Testamenteiro Rodrigo Homem de Quadros, deixo a minha mullata velha çapateira, em recompensa da amizade, que sempre tivemos do trabalho de ser meu Testamenteiro.

= Declaro, que por morte de meu filho Manoel de Mello, que Deus tem, ficaram tres escravos, de que morreu huma por nome Caterina, e outra, mandei a sua filha, e outra por nome Doruthea, com dous filhos, que está em meu poder, que mando se lhe entreguem, e assim mais hum escravo, por nome Antonio Muleque, que dei a João Cardoso para dar a sua sobrinha filha de meu filho Manoel de Mello doas faltas e seis cadeiras atamaradas, que elle levou para Lisboa, aonde ficarão, e o mais que ficou por sua morte, mandei à sua filha, faço esta declaração para que se não faça duvida, o que lhe ficou, dizendo que hera mais ou menos.

= A Nicoláo, escravo meu, tenho dado hum escripto meu em que o deixo forco por me servir com amor, mando que se lhe guarde o dito escripto porque essa he minha vontade e dos mais escravos, que ha em minha casa, disporei nos apontamentos, de que aqui faço menção, e do que no tocante a isto dispuzer, se dará cumprimento na forma declarada neste testamento.

= Declaro que o vincullo que ponho no Casal de Santo Antonio, que deixo ao Padre Miguel d’Oliveira, que são duas missas, cada semana, ficará para sempre, posto no dito casal, assim em vida do dito Padre Miguel de Oliveira, como depois da sua morte athe o fim do Mundo.

= Declaro que eu fiz este Testamento em 3 de setembro de 665, estando doente na cama, mas em todo o meu juizo e entendimento, que Deus me deu, e o que nelle ordeno, he minha ultima vontade, quero que valha como testamento, cedula, codicilio, em milhor modo, e maneira que ser possa, para effeito de em Direito mais valler, para o que hei aqui por expressas e declaradas todas e quaisquer clauzulas, cautellas, como se cada huma se houvesse de fazer expressa menção e para desta ultima vontade constar em publica forma, seja para bem de minha Alma e Gloria de Nosso Senhor, o qual seja sempre louvado, para sempre dos sempres Amen.

= Roguei ao Padre Frei Ricardo da Madre de Deus, Religioso da Ordem de S. Bernardo, que este fizesse por mim o qual eu fis a seu rogo, e me assignei = Fernão Gomes de Quadros = Freire Ricardo da Madre de Deus.