sábado, 18 de agosto de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 41


1972.01.26     -     CONTO DE INVERNO (MAR ALTO)
                 Integrado no programa de aniversário, o grupo cénico da SIT acaba de dar ao público de Tavarede mais uma peça – Conto de Inverno, de Shakespeare – em que José Ribeiro, ainda outra vez, põe à prova as suas invulgares qualidades de encenador e ensaiador. Desta feita tudo lhe pertence: até a tradução da obra.
                Num palco acanhado para uma peça recheada de mutações, a sua mão mágica consegue que os seus cordelinhos façam milagres.
                Antes da representação, José Ribeiro leu ao público o prefácio que escreveu como nota explicativa desta curiosa obra de Shakespeare. Todas as peças de Shakespeare são difíceis; esta também o é:
                = Mutações constantes (a pedir palco giratório);
                = Muitos personagens em cena (uma grande parte com boas rábulas);
                = Muitos estreantes (o que causa sempre dificuldades para a unidade da peça).
                Magníficos os cenários (alguns adaptados), e um extraordinário guarda-roupa de Alberto Anahory, talvez o mais rico que ali foi apresentado até hoje.
                De belo efeito a cena final, pela grandiosidade do guarda-roupa, pela montagem e pelo magnífico jogo de luzes.
                Representação incerta, própria de uma première.
                “Conto de Inverno”, como o título diz, é um conto. Ele merece ser visto e ouvido por todo o público, pelo que o recomendamos aos nossos leitores.
                O público aplaudiu sem reservas. No final do espectáculo obrigou a subir o pano várias vezes e exigiu a presença de José Ribeiro em cena.
                Entre os convidados estavam os srs. engº. José Jorge de Pinho, presidente da Câmara da Figueira, e sua esposa; cónego Tomás Póvoas, reitor do Seminário; revdº. José Manuel Leite e sua esposa; revdº. João Severino Neto, etc.

1972.01.27     -     “CONTO DE INVERNO”, DE SHAKESPEARE (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Assistimos no passado sábado à récita de aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, que sempre tem primado por apresentar bom teatro, e mais uma vez demos por bem empregue a nossa deslocação à vizinha Tavarede.
                Mestre José Ribeiro não proferiu a habitual palestra que antecede as estreias, mas leu o prefácio que escreveu sobre a peça “Conto de Inverno”, de William Shakespeare, que pela primeira vez era representada em Portugal, em língua portuguesa, já que em 1939 fora apresentada em Lisboa por um grupo de ingleses e estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em récita particular.
                Com “Conto de Inverno”, Skakespeare esteve presente pela terceira vez em Tavarede. A primeira em 1964, por ocasião do seu 4º. centenário  com a “mui excelente e lamentável tragédia Romeu e Julieta”, sem dúvida a sua mais popular obra, adaptada ao teatro e ao cinema em variadíssimas versões. Quatro anos depois o dramaturgo inglês voltou ao palco de Tavarede com o Dente por Dente, com adaptação de Luís Francisco Rebelo, e agora com Conto de Inverno, traduzida e adaptada por João José, pseudónimo artístico de José Ribeiro.
                “Conto de Inverno”, uma quase tragédia em 5 actos e 10 quadros, foi representada na corte de Jaime I, em 5 de Novembro de 1610, seis anos antes da morte do seu autor, Alma do século, Monumento sem túmulo, Doce cisne do Avon, como Shakespeare foi classificado por Bem Johnson.
                José Ribeiro disse que “Conto de Inverno” tinha qualidades para agradar a crianças e a adultos, e, de facto, assim é.
                Concebida longe dos moldes de “Hamlet”, “Romeu e Julieta”, “O mercador de Veneza”, e outras, a peça ora apresentada em Tavarede conta-nos a história do ciumento Leontes, rei da Sicilia, que pretendeu matar o seu pretenso rival Polixenes, rei da Boémia, mandou abandonar sua filha recém-nascida num monte deste país e fez julgar Hermione, sua mulher, por crime de adultério, de que estava inocente conforme depois foi confirmado pelo Oráculo de Delfos.
                A peça tem um final imprevisto e acaba bem, reconhecidos que foram os infundados ciúmes de Leontes.
                Nada menos de 37 são as personagens que intervêm em “Conto de Inverno”, que conta com a participação dos “veteranos” João Cascão, Violinda Medina e Silva, Fernando Reis, João de Oliveira Junior e José Luiz do Nascimento.
                Boas presenças de José Medina, João Medina, José Santos, Manuel Cerveira, Luiz Medina, Ana Cristina de Oliveira, Rosa Maria da Silva, etc.
                A cenografia é do prof. Manuel de Oliveira e de José Maria Marques, com um excelente guarda-roupa de Alberto Anahory que, como sempre, primou por apresentar luxuosas indumentárias da época.
                A encenação é do nosso já consagrado e competente José Ribeiro que, como as que tem apresentado no palco da SIT, lhe deu todos os condimentos necessários para fazer de “Conto de Inverno” mais um assinalado êxito para os amadores de Tavarede.

1972.10.07     -     CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO DE OS LUSÍADAS (O FIGUEIRENSE)

                O IV Centenário da Publicação de “Os Lusíadas” teve, na Figueira, a mais brilhante comemoração por parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que, na quarta-feira, em espectáculo oferecido pela Câmara Municipal ao público da cidade, representou no teatro do Peninsular, o “Auto de El-Rei Seleuco” e “Camões e Os Lusíadas”. Foi uma noite de Arte e Beleza, bem digna do nome glorioso que se quis homenagear.
                Não permitem o tempo e o espaço que nos detenhamos na apreciação do espectáculo, em que o saber de José Ribeiro e o talento dos seus distintos amadores mais uma vez se evidenciaram.
                Queremos apenas acrescentar que nessa noite, a Câmara homenageou a Sociedade de Instrução Tavaredense, entregando à sua direcção a Medalha de Mérito, em ouro. O público associou-se a tão justa homenagem, sublinhando o acto com fartos aplausos. O vereador sr. dr. Carlos Albarino Maia disse palavras a propósito e o sr. presidente da Câmara fez a entrega da medalha.
                O revdº Cónego dr. Urbano Duarte dissertou com brilho sobre as razões daquele sarau. Prestou homenagem à Sociedade de Instrução Tavaredense pelo seu esforço em prol do Teatro e fez rasgado elogio de José Ribeiro e do seu trabalho, que procurou trazer a figura e a imortal obra do grande épico ao nível do nosso povo, para este melhor o entender e admirar.
                Em cena aberta, os distintos amadores receberam, no final, as calorosas homenagens do público. José Ribeiro teve chamada especial e trouxe consigo ao proscénio António Tomás, que com felicidade gravou as vozes de Garrett e de “Os Lusíadas” e realizou toda a sonorização.
                Enfim, uma noite de Arte e Beleza.

1972.10.11     -     CENTENÁRIO DE “OS LUSÍADAS” (MAR ALTO)

                Atingiu raro brilhantismo o sarau que a Câmara Municipal, através do sector Cultural, promoveu, com ingressos gratuitos, no teatro do Grande Casino Peninsular.
                Representou o grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense, o “Auto de El-Rei Seleuco”, do Poeta, e “Camões e Os Lusíadas”, uma evocação da autoria de José Ribeiro.
                O cónego dr. Urbano Duarte pronunciou uma oração brilhante acerca da obra e figura de Camões, que a Figueira homenageava com a colaboração da Sociedade de Instrução Tavaredense. Referiu o trabalho de José Ribeiro no campo da Cultura e agora no engrandecimento do Épico.
                No final, os amadores, José Ribeiro e António Tomás, colaborador do grupo, foram ovacionados calorosamente.

1972.10.12     -     CENTENÁRIO DE “OS LUSÍADAS” (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Decorreu com o nível previsto o espectáculo que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, a convite dos Serviços Culturais da Câmara Municipal, e para comemorar o 4º. centenário da publicação de “Os Lusíadas”, levou a efeito no Teatro do Casino Peninsular, na penúltima quarta-feira.
                Antes do início do espectáculo, com a presença da Direcção daquela colectividade, e do seu competentíssimo director cénico, o presidente do Município Figueirense, sr. eng. José Jorge de Pinho fez-lhe a entrega da Medalha de Mérito da Cidade, com que, por proposta do antigo vereador da Cultura, sr. dr. Marcos Viana, fora agraciada.
                O dr. Carlos Albarino Maia, actual vereador daquele pelouro, proferiu breves palavras sobre o acto e sobre a pessoa encarregada de justificar as razões do espectáculo que ia seguir-se, o sr. cónego dr. Urbano Duarte.
                Este, no uso da palavra, divagou sobre o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e de Tavarede, que representaram para ele, recentemente, maravilhosa descoberta. Terminou pela leitura dum poema de Miguel Torga, sobre Camões.
                O espectáculo abriu com a representação do “Auto de El-Rei Seleuco”, de Camões, em que o grupo cénico da terra do limonete brilhou, mais uma vez, a grande altura.
                Uma nova “estrela” abre promissoras perspectivas à arte de representar – a gentil Ana Cristina de Oliveira – numa terra de tão gloriosas tradições teatrais, como é Tavarede.
                João Cascão, José e João Medina, José Luís do Nascimento, Fernando Reis e João de Oliveira Junior todos já experimentados e conscienciosos amadores, deram relevo à representação, procurando tirar partido duma peça que, escrita em verso arcaico, poucas probabilidades tinha de assegurar o êxito perante o espectador comum.
                Com uma sucessão de quadros de grande efeito cénico e sabor camoneano, inspirados em Camões e “Os Lusíadas” – trabalho excelente de José Ribeiro – completou-se o espectáculo.
                Nele fez a sua reaparição o notável amador António Jorge da Silva, no papel de Telmo Pais, do “Frei Luís de Sousa”, em que noutros tempos tanto se destacou.
                Os restantes intervenientes deram homogéneo contributo à representação.
                O público aplaudiu demoradamente e saíu satisfeito desta condigna comemoração do 4º. centenário da publicação de “Os Lusíadas” na nossa terra.

1972.11.04     -     PROFESSOR DR. HERNANI CIDADE (O FIGUEIRENSE)

                Hoje à noite, o grupo de teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense representa, novamente, esplêndido programa comemorativo do IV Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, constituído pelo “Auto de El-Rei Seleuco”, de Luís de Camões, e pela evocação de “Camões e Os Lusíadas”, da autoria de José da Silva Ribeiro.
                A esta representação assistirá o ilustre presidente da Comissão Nacional das Comemorações, sr. Prof. Dr. Hernani Cidade.
                Este eminente camonista profere amanhã uma conferência sobre Luís de Camões e “Os Lusíadas”, na reunião do Rotary Clube da Figueira, a realizar em almoço no Grande Hotel.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 17


Foi com este fidalgo que, nos primeiros anos do século dezoito, se iniciou o aforamento de muitas parcelas da Morraceira, para o fabrico do sal. Com o aumento da população também foi necessário alterar os fornos da poia, O facto de os moradores estarem obrigados a cozer nos fornos da Casa, por este sistema de exploração directa, obrigava a que esta suportasse os encargos da exploração e manutenção que, no fundo, eram a justificação dos emolumentos recebidos (A Casa de Tavarede). Na Figueira, em 1717, existiam dois fornos que rendiam anualmente, para a Casa de Tavarede, 60 000 reis. Eram insuficientes e o fidalgo de Tavarede estabeleceu outro, perto da Igreja de S. Julião,

            A necessidade de terrenos para novas construções, levou a Casa de Tavarede a um rápido desmembramento dos terrenos que possuía na zona da foz do Mondego. Todos estes processos – o da exploração de sal na Morraceira e o da divisão dos cerrados da Figueira – mostram que a Casa de Tavarede não ficou de olhos fechados perante o crescimento e progresso daquelas zonas, aproveitando o fenómeno para conseguir maior e mais certo rendimento. Mas, talvez porque se tratou de um processo conduzido por factores económicos gerais, e muito rápido, parece quase certo que os administradores da Casa não se adaptaram a esse aumento de rendimento, presumindo-o constante, o que de alguma forma explicará o descalabro financeiro da administração do morgado seguinte. Diga-se, porém, que a ruína ou riqueza deste tipo de Casas não se pode explicar somente através de comportamentos individuais. Ainda está por analisar, creio eu, a influência da sazonal falta de dinheiro que as pessoas sentiam nessas épocas, fruto quase sempre do calendário agrícola. Considere-se simplesmente que nesses tempos não existiam bancos, recorrendo constantemente as pessoas de todas as classes a empréstimos particulares mais ou menos onerosos, para diversos fins, actos de que são testemunhas ainda silenciosas as escrituras de empréstimos que enxameiam os livros dos tabeliões desses tempos, escreve o Dr. Pedro Quadros Saldanha no seu trabalho ‘A Casa de Tavarede’.

Prossigamos a nossa história. Com o pai deste fidalgo de Tavarede, a sua Casa havia começado a perder influência. O enorme progresso da Figueira da foz do Mondego, devido à sua excelente localização, teve grande influência na Casa de Tavarede. Por um lado, o sal e os cereais produzidos na Morraceira, e a posse da maior parte dos terrenos circundantes da Figueira, que emprazados em parcelas, proporcionaram aos senhores de Tavarede elevados rendimentos, por outro lado perderam a iniciativa dos seus antepassados, desinteressando-se de criarem riqueza e preocupando-se apenas a gozar os rendimentos que, devido a despesas de ostentação e outras do mesmo tempo, deram início ao processo que, anos depois, levaria a Casa praticamente à ruína.

            Adiante veremos os resultados…
             

Fernão Gomes de Quadros e Sousa

7º. Senhor de Tavarede - Morgado

             Eu, Fernão Gomes de Quadros, oitavo senhor de Tavarede…

            Pois é, conforme referi no princípio deste caderno, julgo que Mestre José Ribeiro foi buscar este oitavo à mesma fonte onde eu fui quando descrevi a genealogia dos morgados tavaredenses: aos cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo. Outros autores também terão cometido o mesmo erro

            Na verdade, e como já atrás está referido, houve um dos considerados senhores de Tavarede que não foi empossado com este título, devido a ter falecido em vida de seu pai. Exactamente a mesma situação que encarei quando da instituição do morgadio. Considero que o primeiro morgado de Tavarede terá sido o segundo senhor de Tavarede. É que, quando o rei D. João III validou o pedido da constituição do morgadio feito por António Fernandes de Quadros, já este havia falecido, razão que considero mais que válida para não o considerar como o primeiro morgado. Simples pormenores de um curioso.

            Este Fernão Gomes de Quadros e Sousa, que nascera no período entre 1705/1710, era filho de Pedro Lopes de Quadros e Sousa e de D. Madalena de Mendonça, os quais faleceram, respectivamente, em 29 de Agosto de 1751 e em 18 de Janeiro de 1749. Presume-se, todavia, que tomou a administração da Casa de Tavarede, conjuntamente com seu pai, quando casou por volta de 1730.

            Foi sua esposa D. Beatriz Josefa da Silva e Castro, nascida em Santarém, filha de António Leite Pacheco, tenente de cavalaria e, mais tarde, capitão de-mar-e-guerra, na Índia, para onde tinha ido degredado, e de D. Joana Madalena da Silva. Não deixa de ser curioso este facto: a junção de sangues, um do carácter violento e despótico do fidalgo tavaredense, e a violência assassina de seu sogro. Esta junção terá originado o carácter bestial e sanguinário do primogénito do casal.

            E vou socorrer-me, uma vez mais, do Dr. Pedro Quadros Saldanha e do seu trabalho ‘A Casa de Tavarede’. … se com seu pai começou a reconversão de parte do património da Casa de Tavarede, exigida pelo crescimento populacional da Figueira, durante a administração de Fernão o ritmo da concessão de terrenos foi acelerado. Mas, se com Pedro Lopes de Quadros este processo não trouxe grandes implicações, para além do aumento do rendimento, com o seu filho as consequências foram enormes. Para além da alteração de parte das características económicas da Casa, houve uma radical mudança de atitude na sua administração. Esta forma fácil de obter rendimento, aliada ao crescimento da riqueza nas redondezas, levaram Fernão de Quadros a iniciar um período de dissipação e de gastos excessivos, sem dúvida facilitado pelo seu carácter. Como veremos, este período deixou marcas que se saldaram, para sempre, numa perda de influência…

            O casal teve quatro filhos:
            - Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, que nasceu a 5 de Novembro de 1731;
            - António Leite de Quadros e Sousa, nascido em 16 de Janeiro de 1738;
            - D. Joana Madalena da Silva e Castro, que nasceu em 29 de Julho de 1740; e
            - Joaquim Leite de Quadros, nascido no dia 14 de Agosto de 1742.

            No capítulo seguinte desenvolverei a história dos três filhos primeiros, uma vez que o último morreu ainda criança.

sábado, 11 de agosto de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 40


1971.09.22     -     A FORJA (MAR ALTO)

                Alves Redol faz girar o conflito que separa e isola e destrói os personagens, uma família, à volta de três temas centrais: a perseguição cega de um objectivo materialista com fim único da vida (no caso de “A Forja”, a compra de uma casa); a decepção da mulher perante o homem outrora amado, decepção que ela pretende ultrapassar centrando o amor de mãe no filho mais novo, a esperança na vida renovada; e o inelutável fracasso da vida se o homem abandona o seu destino em mãos alheias (mesmo que sejam as do próprio pai).
                O dramatismo da peça adensa-se porque Redol lança mão não de um mas de dois sentimentos profundos: o materialismo cego do pai e o excessivo amor da mãe.
                Redol segue a lição de Balzac, que introduziu na literatura o tema da importância vital do dinheiro na vida.
                Balzac concentra, digamos, o amor ao dinheiro e aos três filhos numa personalidade, no pai, em Goriot. Redol serve-se de dois personagens para dar figuração àqueles sentimentos. O “père Goriot” é mais humano: o amor às filhas vence as preocupações do dinheiro. Talvez propositadamente Redol só dá rapazes ao casal desgraçado, assim isolando ainda mais o “pai”.
                Mas a densidade do dramatismo da peça de Redol ressalta ainda num traço próprio da alma portuguesa, a visão exagerada do trágico da existência, que nos atraía Unamuno, o genial espanhol, um dos estrangeiros que mais nos admirou e amou.
                Este elemento, a visão exagerada do trágico da existência, é sabiamente explorado por Redol.
                A intensidade dos sentimentos, o apego do pai à forja, fonte do dinheiro que permitirá a compra da casa; a decepção da mãe, que a leva a centrar toda a capacidade de amar no filho mais novo, e quase cega para o plano inclinado em que a família, como um bloco, rola para a destruição, desenham estas figuras a traços fortemente marcados, diremos mesmo, excessivamente acentuados.
                Redol fez uma peça para portugueses, é certo, para gente que, como o “pai” da “Forja”, aceita o trágico da existência, a força do destino, como ele repete. Mas não terá Redol perdido, dalguma maneira, o sentido da medida? Não terá ele ido um pouco além? Não quererá Redol, com este apontar da resignação ao trágico da existência, criticar, mostrar o absurdo deste sentimento? Redol parece dizer, através do “pai”, que o homem deve ser indiferente ao destino, deve lutar sempre, como um homem autêntico. A morte do “pai” às mãos da “mãe” parece deixar crer que o homem será castigado se viver alheio a tudo, ao seguir cegamente uma paixão. O “pai” sente que fracassou por se ter fixado, abandonado a vida de vagabundo. Também aqui Redol aflora um tema trágico: o das paixões amorosas intensas, fonte de infelicidade.
                No fundo, este entrechocar de temas e sugestões, Redol talvez queira dizer que na miséria, entre gente esmagada por dívidas, sacrificada pelo trabalho, mal alimentada, a luta acaba na auto-destruição. O trabalho só por si, bem no fundo, nada resolve, é inútil o esforço.
                Todavia, esses excessos de Redol, homem de sentimentos profundos, homem que talvez se revoltasse contra uma visão dominadora do trágico da existência, não prejudica a peça. Sentimo-nos opressos pelo dramatismo de Redol, mas não nos cansamos.
                A arte de Redol surge a toda a luz no perdão que concede aos pais, na simpatia pelo povo, o povo humilde, por vezes endurecido por séculos de miséria e opressão.
                Certo que Redol humaniza por vezes a ferocidade dos dois desgraçados. Fá-lo, porém, episodicamente, em lances propositadamente rápidos. O ambiente bravio e tormentoso em que o conflito se desenvolve, em tom ora colérico ora lamentoso, ameniza-se por vezes instantâneamente, como acontece nas grandes tempestades. Mas desde logo a cólera, o ódio, o desencanto retomam os seus direitos. Tudo isto é dado com uma arte, um poder, uma força latente que a encenação de José Ribeiro nos parece ter servido fielmente.
                As aproximações e os distanciamentos das figuras estão bem marcados, conjuga-se bem o texto com a movimentação dos personagens.
                Se aqui e ali se notam certas hesitações, uma ou outra rigidez de atitude, tudo incipiências próprias duma primeira representação, a movimentação das figuras, o ritmo global da representação foi francamentre bom. As aparições da “Morte” são momentos de grande beleza rítmica e de intensa densidade emocional.
                A presença de Violinda Medina garantia, a priori, um êxito para a peça; mas a actuação de sábado excedeu a expectativa. Uma notável representação da excelente amadora, que se elevou há muito tempo a um nível invulgar. Todo o dramatismo da figura difícil e atormentada de uma mãe vergastada por sentimentos contraditórios é transmitido com sobriedade, delicadeza e verdade.
                João Medina, no pai, enquadra-se num esquema simples, que aceitamos, porque o sentimos emanado do texto e da encenação, mas a que pomos algumas reticências. Não poderia haver menos rigidez nas atitudes, com mais frequência? O clima geral da peça, o vigor do texto, a força da movimentação dos personagens não permitiriam atenuar a dureza das atitudes individuais?
                Mas, digamo-lo sem reservas, Violinda e João Medina quase se igualam no vigor, na firmeza com que nos deram uma noite de teatro de aplaudir.
                José Medina e João de Oliveira Júnior, dois dos quatro filhos, souberam também acompanhar o nível da representação. E nisto está o seu melhor elogio. João de Oliveira Júnior é o elemento consciencioso de sempre, a um tempo sóbrio e brilhante, e José Medina sustentou bem – e valorizou-as – cenas que poderiam afrouxar nas mãos de um amador menos bem dotado.
                Os restantes surgem como peças secundárias mas nem por isso menos essenciais ao equilíbrio do conjunto. Que nunca tivessem claudicado com manifesta evidência, é mérito deles e duma encenação cuja mão firme e sabedora está sempre presente.
                As virtudes desta peça de Redol e deste grupo de magníficos amadores poderiam levar-nos mais longe, mas cremos que estas linhas serão suficientes para dar ideia da valia do espectáculo de sábado em Tavarede, e que o público soube compreender.

1971.09.22     -     A PALESTRA DE JOSÉ RIBEIRO (MAR ALTO)

                Antes da representação, o director do grupo fez aos associados da SIT a sua palestra, como habitualmente na estreia das peças.
                Depois de Molière com o seu imortal Tartufo, onde a rir se dizem coisas muito sérias, desejou-se dar aos tavaredenses um original português – e aqui temos Alves Redol com a sua Forja, obra notável de êxito invulgar no nosso teatro.
                Dando fugídio resumo da peça, de forte realismo marcado de valores simbólicos, referiu as várias representações da peça por profissionais e amadores, no continente e em Moçambique, aludiu à diversidade de encenações que teve, de que só pode fazer ideia pelas críticas, pois as não viu, mas por estas críticas podendo concluir-se que essas encenações foram de diferentes estilos e diferentes processos, umas de mais vincado simbolismo, outras dando arrojado teatro de vanguarda, com escadas exteriores e interiores com estrados e degraus, com diferentes jogos de luz e de som, - em todos, afinal, usando-se da liberdade que aos encenadores o próprio autor outorgou: “Ficará a liberdade de concepção para os que queiram fazer representar esta tentativa de teatro”. Referiu-se ao coro que Redol, em sugestão da tragédia grega, meteu na sua Forja, aqui ainda mais actuante, coro que nas várias encenações foi utilizado de diverso modo – coro misto, coro feminino, vestido de cores várias e actuando em bailado, e até suprimido e substituído por um cantador de baladas. Muito de leve aludindo às figuras da peça, que Alves Redol recreou numa evocação dos seus familiares que ele sentiu ou adivinhou a queimarem-se na forja dos Venâncios, referiu-se a uma personagem de primacial valor na acção – a Morte, a “noiva branca”, que aos condenados da forja aparece como “uma figura de beleza apetecida, uma mulher que seduz sem violência”.
                A propósito de as críticas terem notado na Forja de Redol influências de Lorca e de Brechet, e lembrando outras palestras anteriores em que se falara aos tavaredenses dos estilos e das técnicas do teatro medieval, clássico e burguês, muito resumidamente referiu a técnica brechtiana da distanciação, o teatro épico, oposta à forma dramática do teatro: nesta, o teatro é activo, o actor toma o lugar do próprio personagem, o espectador sente a acção, é arrastado para ela; o teatro épico é narrativo, nele o actor não representa, não sente a acção, narra-a e o espectador não é imiscuido na acção, analisa-a e toma posição.
                Que se fez aqui em Tavarede ao trazer ao nosso povo esta obra pujante de Redol, esta humaníssima tragédia, tão opulenta de beleza literária e ao mesmo tempo tão rica de linguagem teatral? Fiéis ao princípio de que sempre se deve ter em vista o público ao qual a representação se destina, procurou dar-se à representação da peça a forma de melhor a fazer chegar, na sua totalidade, ao público da nossa aldeia, sem lhe diminuir o vigor de tragédia humana e sem lhe reduzir os seus valores simbólicos. Certamente, a linha de encenação realista que se adoptou será diferente das que até agora foram seguidas. Mesmo assim, a consciência diz-nos que não atraiçoámos Alves Redol, antes o quisemos dar ao povo desta aldeia, com humildade, sim, mas com perfeito sentido de dignidade. Queremos que os actores tavaredenses sintam as suas personagens, que sejam elas próprias na ficção cénica; desejamos que o público que aqui veio sinta a peça em toda a sua profundidade e extensão – e desejamo-lo com a certeza de que esse deixar-se arrastar na acção de modo algum o impedirá de tomar partido. Bem entendido que também em Tavarede se usou um pouco da liberdade que Alves Redol concedeu aos encenadores da sua Forja. Mas tudo se fez precisamente para servir Alves Redol. Grande romancista, eis Alves Redol um autêntico dramaturgo; e sendo moderno, permitindo à sua Forja – e pelo visto com êxito excepcional – as mais arrojadas encenações, a verdade é que esta sua peça está cheia de indicações de movimento e psicológicas, de pormenores de interpretação, de rubricas que inteiramente esclarecem o pensamento do autor. O que fizemos foi seguir essas rubricas, que tão completamente iluminam o admirável texto.
                A terminar, pediu-se aos tavaredenses que lessem o prefácio da Forja – duas dúzias de páginas fulgentes da melhor literatura contemporânea.

1971.09.23     -     “A FORJA” (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Marcada para 26 de Junho último, só agora foi possível levar à cena esta peça, afastados que foram os motivos impeditivos da sua estreia na data primitivamente marcada.
                No pretérito sábado, as luzes da ribalta do airoso teatrinho da Sociedade de Instrução Tavaredense mais uma vez se acenderam, desta feita para nos proporcionar um tema português, de um grande escritor português – “A Forja”, de Alves Redol.
                Mestre José Ribeiro, que há largas décadas conduz com mão firme e sabedora a nau da secção dramática da Sociedade de Instrução Tavaredense, antes do pano subir, explicou que depois do grupo ter dado aos seus associados o célebre “Tartufo” do clássico universal Molière, apresentava agora aos tavaredenses uma obra notável de um escritor português, quase que do estilo burguês pelo assunto e pela forma de apresentação, contendo em si algumas marcas de teatro moderno ou o coro da tragédia grega.
                Alheando-se das várias encenações que desconhecia – disse – os tavaredenses pegaram na peça de Alves Redol com muito carinho e muito humildemente, para apresentar ao povo de Tavarede tal como Alves Redol a escreveu e sentiu, guiando-se apenas pela intenção do autor cuja peça considera como uma obra prima da moderna dramaturgia portuguesa.
                “A Forja” é uma tragédia rústica com princípio, meio e fim, um fim triste como é próprio de todas as tragédias, um fim que se adivinha, antes do pano descer para o primeiro acto.
                O Malafaia, ferreiro de profissão, mau, tiranete e rezingão, vivia obcecadamente para a sua forja, alheando-se da saúde dos filhos que, agarrados ao malho e à bigorna, dia a dia iam tuberculizando.
                Da voragem da forja salvar-se-iam o António que fugiu de casa, a conselho do João, já com encontro marcado com a morte para a Primavera, e o Luís – o mais novo – a quem o pai sarcasticamente apelidava de “doutor-ferreiro” e lhe queimava os livros.
                João Medina, no papel de pai, teve uma interpretação à altura de qualquer profissional consagrado, sem incorrer em exageros de dicção ou de gestos.
                Violinda Medina e Silva, a mãe extremosa e esposa sofredora que tudo suporta por amor dos filhos, foi igual a si própria: mãe e esposa como tantas que a vida nos oferece a cada passo.
                João de Oliveira Junior, José Medina, Saul Pereira e José Manuel Pinto, são os quatro filhos do casal que odeiam o pai e que estremecem a mãe, a sua “capa de misericórdia”.
                Lucília Pinto e Ana Cristina Oliveira, compõem discreta e graciosamente uma “vizinha” e a “Morte”.
                O cenário, cujo autor desconhecemos, é de perfeita concepção artística.
                Parabéns à Sociedade de Instrução Tavaredense, a mestre José Ribeiro e aos amadores tavaredenses por mais esta magnífica peça que proporcionaram aos amantes de bom teatro.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 16



PEDRO LOPES DE QUADROS E SOUSA

6º. Senhor de Tavarede - Morgado

            Pedro Lopes de Quadros e Sousa nasceu em Tavarede, no ano de 1672, tendo sido baptizado na capela do Paço, no dia 16 de Agosto daquele ano. Era conhecido pela alcunha de ‘O Manco’, pois manquejava de ambos os pés. Casou por duas vezes. A primeira vez, no dia 21 de Outubro de 1699, contraíu casamento com D. Josefa Isabel Zambado de Vasconcelos, natural de Ançã, filha do Dr. Bento Dias Zambado e de D. Ana Maria Clara de Vasconcelos. Nesse mesmo ano foi provido na Comenda de S. Pedro das Alhadas.

            Neste casamento a noiva foi representada por seu pai, só mais tarde se juntando a seu marido. Consta que terão tido uma relação muito pouco bem sucedida. Esta senhora faleceu, em 17 de Fevereiro de 1703, em casa de seus pais, tendo sido sepultada na sua terra natal. Deste casamento não houve filhos.

            Em 1705, casou, pela segunda vez, com D. Madalena Maria Henriques de Meneses, nascida na Quinta do Alvito, em Alenquer, filha de Garcia Lobo Brandão de Almeida, familiar do Santo Ofício, senhor do Couto de Castelo Viegas e do morgadio de Alvito, em Alenquer, e de D. Lourença Ferrão de Castelo Branco.

            Deste segundo casamento, houve a seguinte descendência:
- Fernão Gomes de Quadros e Sousa, herdeiro do morgado;
- D. Maria Teles de Meneses, baptizada em Tavarede no dia 9 de Outubro de 1707, que casou, em 26 de Julho de 1722, com Gaspar Malheiro Reymão Marinho, fidaldo da Casa Real, mestre de Campo de Auxiliares de Viana, senhor da casa do Pomacharão, em Viana do Castelo;
- D. Isabel Inácia, também baptizada em Tavarede a 14 de Maio de 1710, que foi freira no convento do Lorvão;
- Caetano de Quadros, nascido em Tavarede a 23 de Agosto de 1716 que, segundo alguns autores, terá morrido em criança. Todavia, outros levantam a hipótese de se tratar de José Caetano de Quadros, que teria sido frade Mariano, de cuja Ordem foi expulso, e que viveu uns anos em Roma;
- Aires de Quadros, nascido em 21 de Setembro de 1717, que foi frade franciscano sob o nome de Frei Aires de Santa Ana. Este frade entrará  na nossa história mais à frente, pois acabou por ter influência nos destinos da Casa de Tavarede ao ser assassinado por seu sobrinho;
- Frei Amaro de Santa Rita, que nasceu em Tavarede no dia 15 de Janeiro de 1720, religioso da Ordem de S. Francisco Extra-Muros, de Coimbra;
- Álvaro Teles de Meneses Pereira de Quadros, igualmente destinado a seguir a carreira religiosa, mas que abandonou. Havia nascido em 25 de Novembro de 1721:
- D. Beatriz (ou Brites) Madalena Henriques de Meneses e Quadros, que nasceu no dia 28 de Janeiro de 1724. Foi casada com António Xavier Juzarte de Cardoso, fidalgo da Cara Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, que foi correio-mor de Coimbra e familiar do Santo Ofício;
- António Quadros e Sousa, frade no convento da Graça;
- Garcia Lobo Brandão, que foi para a Índia, onde faleceu.

            Antes de casar, teve Pedro Lopes de Quadros e Sousa dois filhos bastardos, de Escolástica Rodrigues, que se chamaram Luís e Catarina. Julga-se que, tendo nascido em 1689 e 1692, respectivamente, terão falecido antes de 1720. A Escolástica era a mais bela cachopa que então havia por estas redondezas: rendia de amores toda a rapaziada figueirense… … a galante filha dos castelhanos, Gregório e Ana Rodrigues. Nascida nesta foz do Mondego, em 1670, era insensível a todos estes galanteios. Quis saborear raças mais finas. Rendeu-se; mas, ao entregar a flor dos seus dezoito anos, escolheu, dentre os seus adoradores, aquele que a todos sobressaia pela nobreza e pela posição social. O leitor sagaz adivinhou já que foi Pedro de Melo de Quadros, primogénito do morgado de Tavarede, o conquistador da Escolástica Rodrigues… …A Escolástica teve como prémio de consolação – dote para casar – a quinta das Lamas…, diz-nos o Dr. José Jardim no seu livro ‘As Alfândegas – fidalgas figueirenses de outrora’. Refere mais adiante que apesar de já durázia e do mais que sabemos, casou, em 1709, quanto tinha 39 anos, com o sr. João Gomes Pinto, pessoa acomodatícia em questões de honra, o qual, como é da peça, deu cabo de tudo quanto a digna esposa tinha, vendendo a quinta das Lamas, em 1724, a Luíz de Salazar e Vasconcelos, por 192$000 reis.

            Ainda teve mais três filhos bastardos: Bento de Quadros, de Catarina de Paiva, faleceu na Índia; e D. Helena Maria de Quadros, que viveu com sua mãe, Maria Portulez. Professou no convento do Lorvão, tendo sido eleita abadessa por duas vezes; e D. Antónia, filha de Páscoa Gonçalves, e que foi freira no Convento do Varatojo, em Alenquer.

            Pedro Lopes de Quadros e Sousa, além de irmão da Misericórdia de Buarcos e cavaleiro professo da Ordem de Cristo, foi familiar do Santo Ofício. Eis a cópia do respectivo processo:              Pedro Lopes de Quadros e Sousa, casado com D. Madalena Maria Henriques de Menezes, comendador da Ordem de Cristo e morador no Couto de Tavarede – 1721.
            Exmo. Sr. – Diz Pedro Lopes de Quadros e Sousa, comendador da Ordem de Cristo, morador em Tavarede, freguesia de S. Martinho, Bispado de Coimbra, filho legítimo de Fernão Gomes de Quadros, comendador da dita Ordem e da mesma freguesia, e de D. Brites Maria de Albuquerque, que foi baptizada na vila de Gouveia, do mesmo Bispado de Coimbra, neto pela parte paterna de Pedro Lopes de Quadros, comendador da Ordem de Cristo, natural e baptizado em Tavarede, na mesma freguesia de S. Martinho, e de D. Maria Teles de Menezes, filha de D. Álvaro Pereira Coutinho, da cidade de Lisboa e baptizada na freguesia de Nossa Senhora do Paraíso, e pela parte materna neto de António de Albuquerque Coelho de Carvalho, comendador da Ordem de Cristo, natural da vila de Gouveia, e de D. Inês Francisca, natural da cidade do Porto, que ele deseja servir ao Santo Ofício, na qualidade de Familiar e porque nele concorrem os requisitos necessários.
            Pede a V.Exª. que procedendo às diligências costumadas, o queira admitir na dita ocupação de Familiar.
            Declara o suplicante ser casado com D. Madalena Maria Henriques de Menezes, filha de Garcia Lobo Brandão, Familiar do Santo Ofício e natural da vila de Alenquer, e de D. Lourença Maria de Castelo Branco, baptizada na igreja de S. Miguel, da dita vila. Neta pela parte paterna de João Lobo Brandão e de D. Isabel Henriques de Menezes, ambos da dita vila de Alenquer. Neta pela parte materna de Marcos Ferrão, baptizado na freguesia de S. Miguel da dita vila de Alenquer, que foi Familiar do Santo Ofício, e de D. Madalena Maria de Castelo Branco, natural da vila de Torres Vedras.
            (Despacho à margem: Os inquisidores de Coimbra informem com seu parecer. Lisboa 1 de Novembro de 1720)
            Exmo. Sr. – Tomámos informações com os comissários Manuel de Carvalho, José de Figueiredo Simões e com o padre António Alvarez de Faria, e com os notários Manuel da Costa Correia e Pedro Pereira, acerca da limpeza do sangue e mais requisitos e de Pedro Lopes de Quadros e Sousa, comendador da Ordem de Cristo, que pretende ser Familiar do Santo Ofício, conteúdo na petição inclusa, que V. Exª. nos manda informar e nos dizem os ditos informadores que por si, seus pais e avós paternos e maternos, é legítimo e inteiro cristão velho e por parte de sua mãe se acha o dito pretendente habilitado pelo Santo Ofício, por ser esta irmã inteira do Familiar António de Albuquerque Coelho de Carvalho e filhos dos mesmos pais, é casado com D. Madalena Maria Henriques de Menezes, filha do Familiar Garcia Lobo Brandão e de D. Lourença Maria de Castelo Branco, moradores na vila de Alenquer, é o dito pretendente de boa vida e costumes e tem capacidade para o lugar que pretende, é das mais nobres e esclarecidas famílias deste campo de Coimbra, trata-se com esplendor e luzimento, e seus pais e avós tiveram a mesma nobreza e tratamento; o seu rendimento importará em 6 para 7 mil cruzados, pelo que nos parece que V. Exª. lhe faça a mercê que pretende e V. Exª. mandará o que fôr servido. Coimbra, 2 de Setembro de 1720.
(despacho à margem: os Inquisidores de Coimbra mandem fazer as diligências ao suplicante e feitas na forma do regulamento as enviem ao Conselho. Lisboa, 6 de Setembro de 1720)
            Ilmos. Senhores – Passando ao Couto de Tavarede, freguesia de S. Martinho, achei pela informação que com muita individuação tomei extrajudicialmente com o padre cura Manuel Pinto da Rocha e o padre Francisco Rodrigues Portugal, e com o padre José Neto Coelho e Filipe Jacome, José de Almeida e Manuel Ferreira Coimbra, todos pessoas cristãos velhos, legais, fidedignas mais antigas e noticiosas, e naturais e moradores no dito Couto de Tavarede, que Pedro Lopes de Quadros e Sousa, casado com D. Madalena Henriques de Menezes, comendador da Ordem de Cristo, e natural e morador no dito lugar de Tavarede, deste Bispado de Coimbra, e filho legítimo de Fernão Gomes de Quadros, comendador da dita Ordem, natural do dito Couto de Tavarede, e de sua mulher, D. Brites Maria de Albuquerque, e neto paterno de Pedro Lopes de Quadros, comendador da Ordem de Cristo, natural do dito Couto de Tavarede e de sua mulher D. Maria Teles de Menezes, por via do dito seu pai e avô paterno, é legítimo e inteiro cristão velho, limpo de toda a infectanação (?), sem fama ou rumor em contrário.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 39


1970.07.08     -     DE NOVO E SEMPRE MOLIÈRE EM TAVAREDE (MAR ALTO)

                O génio de teatro, que se chamou Molière, há anos já foi descoberto por José Ribeiro, que generosamente o tem vindo a ensinar no seu belo palco de Tavarede, a todos quantos o representam ou vêm representar. Foram, primeiro, “As Artimanhas de Scapino”; depois, “O médico à força” e “O avarento”; agora será “Tartufo”, uma das mais famosas e estudadas peças do maior comediógrafo francês.
                A fama e o estudo são justos, até na medida em que Tartufo, o falso devoto de toda a ideologia, nem por sombras é uma figura histórica: ele aí está, pleno de vitalidade e próspero; vive no meio de nós, cruza-se connosco na rua, nas repartições, nos recintos de diversão, na igreja; passa e repassa, fazendo o seu governo à custa dos incautos; maneja a hipocrisia com subtil perícia e arrojo; no respeitante a processos, claro que tem evoluído com o tempo, que o mesmo é dizer, progredido muito sensivelmente...
                Pois é essa a figura que uma vez mais hoje se desmascarará perante um público sempre fiel, no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Como será, desta vez?... Continuarão aqueles valentes amadores a ser capazes de representar Molière? Quem não gostará de ir hoje a Tavarede?
                Mais uma vez, a representação foi um êxito: casa praticamente cheia, interessada, vivendo ao sabor da acção que no palco ocorria, rindo muito nos momentos de rir, sentindo menos os momentos de sentimento.
                É natural esta diferença, quando está em cena uma peça do génio comediógrafo de Molière. Mais natural é ainda também no grupo de Tavarede, uma vez que, na obra, as cenas de maior expressão sentimental cabem aos jovens, enquanto as de efeito cómico couberam aos mais velhos, que ainda hoje dentro do grupo se impõem decididamente, ou só pela superior prática e vivência de palco, que todos têm, ou também pela maior capacidade artística que alguns deles incontestavelmente possuem. Sob a pressão do momento, estamos ainda a lembrar-nos muito bem de todos: de João Medina (Orgon), de José Luís do Nascimento (Cleanto), de Fernando Reis (Meirinho)...; mas, para exemplificação do pensamento antes expresso, recordemos outros.
                Recordemos Maria Teresa de Oliveira (Mme. Pernelle), essa extraordinária artista que, mau grado o destroço que nela causa a doença, ainda consegue excepcionais apontamentos, sobretudo em atitudes e jogo fisionómico!
                Recordemos João Cascão que, em cinco minutos de cena, no brevíssimo desempenho de um (Leal) oficial de diligências, é o exemplo acabado do artista perfeito num papel que lhe quadra.
                Mas recordemos também João de Oliveira Júnior, por ser um caso diferente dos anteriores: mau grado outra vez vestido numa pele que lhe não cai bem – um “Tartufo” não “de carne e osso”, como algures na peça se diz, mas exclusivamente “osso”; uma figura naturalmente hirta, boa para asceta ou marcial, para crítico ou homem de ciência exacta, metida na personagem que se presume untuosa e anafada do hipócrita oportunista e cruel -, às vezes conseguiu mesmo integrar-se no papel, para acabar muito bem, na atitude de vencido.
                Recorde-se, por último, Violinda, toda dentro da função, a representar sempre, mesmo quando é mera figura de fundo. Esta mulher põe em risco de desequilíbrio toda a cena em que entra, uma vez que as restantes personagens, se se descuidam, podem desaparecer, apagadas pela sua presença superior!
                Eis por que as demais figuras, as mais jovens do elenco, estão em nítida desvantagem, neste novo jogo de Molière. Vale-lhes o não se entregarem vencidas, desempenhando sempre o melhor que sabem e podem os seus papéis: José Medina (Damis), Maria Inês Lavos (Elmira), e Rosa Maria da Silva (Mariana), por exemplo, tiveram momentos francamente bons, os dois primeiros às vezes já muito mais naturais do que em representações anteriores.
                Mas, repetimos, aqui os jovens estão com os papéis mais difíceis de salvar, pois são quase todos de sentimento, e o primeiro tom da peça é de comicidade aberta.
                Sente-se, de resto, neste precioso grupo amador, uma crise de gerações: entre os mais velhos do palco e os novos nele, falta uma meia-idade; de onde, talvez, o desequilíbrio a que acabamos de aludir. Onde estarão os sucessores directos e naturais dos “velhos”?... Parece-nos que seria necessário aos jovens que lá andam que amadurecessem teatralmente depressa, muito depressa. E estará isso ao seu alcance?...
                Supomos que a resposta pode ser de esperança. E damo-la precisamente quando vamos falar de António Manuel Morais, que esta noite, supomos, fez a sua estreia.
                Embora secundário, o papel de “Valério” exigia mais do que podia dar-lhe o seu intérprete: é a movimentação no palco; sobretudo, são os braços, ao mãos, as atitudes. Isso é difícil, de facto! E, não obstante, António Morais conseguiu um desempenho meritório; sobretudo, possui uma voz estimável, capaz de modulações curiosas, e já diz bastante bem. Estudante, como é, aproveite essa excepcional vantagem e leia muito teatro, mesmo só para si; diga-o em voz alta e represente-o, mesmo só para si; faça isso em casa; ouça o parecer dos pais; a mãe talvez possa dar-lhe preciosa ajuda no assunto, professora como é. Acreditamos que, se quizer trabalhar com inteligência, aplicação e humildade, em breve estará com os restantes jovens do grupo, realizando o tal amadurecimento rápido que nos parece necessário. Se puder, faça isso e ajude a fazer.
                Estamos convencidos de que José Ribeiro precisa de todos os seus amadores vivos: os de agora, os que já foram, e os que podem sê-lo. Precisa de todos e merece-os. Que ele tem dado a Tavarede o melhor que alguém pode dar a outrem: cultura.

1970.10.24     -     O PROCESSO DE JESUS (O FIGUEIRENSE)

                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresenta hoje no elegante teatro da sua sede a célebre peça em 2 partes, “O Processo de Jesus”, uma obra de teatro revolucionário que consagrou Diego Fabri como um dos mais notáveis inovadores do teatro moderno italiano.
                “O Processo de Jesus” evoca os passos do drama bíblico com exemplar clareza e, como disse a crítica aquando da estreia da peça em Portugal, interpreta figuras e factos à luz de um critério, poético e humano, feito de compreensão e tolerância. “As razões de Caifás, a traição de Judas, o alheamento de Pilatos, as hesitações de Pedro adquirem, deste modo, sentido bem diferente do que a lenda e o rodar dos séculos lhes emprestaram”.

1970.11.28     -     O TARTUFO, EM COIMBRA (O DESPERTAR)

                A noite de 23 foi o que, optimista e hiperbolicamente, poderemos designar como abertura da temporada teatral citadina, e ao grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, representando em homenagem à Casa da Infância Desvalida Doutor Elísio de Moura, se devem as primeiras salvas de palmas que nesta época, soaram no Avenida, quando apresentou “Tartufo” (será preciso acrescentar: - de Molière?) na versão portuguesa de António Feliciano de Castilho.
                E porquê esta versão?
                No fim do espectáculo, José Ribeiro, que há longos anos se dedicou devotadamente a manter acesa a arte dita de Talma na Terra do Limonete e, por feliz adição, nas terras onde os tavaredenses logram ir mostrar quanto vale a perseverança da sua obra, explicou-nos que, de todas as traduções suas conhecidas e nem sempre de melhor qualidade, os direitos a pagar tornavam incomportável para o Grupo a sua utilização, o que, por prescrição, não se verificava já com a versão de Castilho. Mais uma vez se prova, assim, - se mais alguma prova fosse necessária – que nem sempre se faz o que se deseja mas sempre e só o que se pode, pese isto aos que pouco ou nada fazem, embora saibam (saberão?...) como deveria fazer-se muito. Aliás, para além das inevitáveis dificuldades em vencer o ritmo do poema (nem sempre logradas, reconheça-se) o que nos chocou na versão utilizada foi, ao que nos pareceu, a sucessiva utilização da mesma frase, das segundas e terceiras pessoas verbais, aquelas para o modo de tratamento utlizado na época, estas para ocasionais necessidades de concordância de rima.
                Aceite, porém, a versão escolhida, há que reconhecer o equilíbrio do espectáculo apresentado, tanto no estilo da representação, como no guarda-roupa, adereços e cenografia, ressalvando as cortinas com apontamentos (mais que apontamentos, afinal) de papel engradado, nas portas do segundo cenário.
                A interpretação foi digna dos pergaminhos alcançados há muito pelo Grupo de Tavarede, que nos apresentou um muito geitoso naipe feminino – desde a veterana Violinda em Dorina (é extraordinária a vitalidade e o amor com que ela se atira às personagens que lhe são distribuidas) à, segundo nos disseram, estreante Rosa da Silva, em Mariana, com passagem pela também veterana Teresa de Oliveira, em Madame Pernelle, e por Inês Lavos, Elmira, prestes a abandonar a actividade por imperativos... agora que se afirmava muito positivamente.
                No naipe masculino, Nascimento (Cleanto), João Medina (Orgon), Oliveira Jor. (Tartufo) lembrando fisicamente Jouvert mas que talvez preferíssemos mais untuoso, e Reis (num curto mas correcto Meirinho), deram o que nos pareceu a justa medida, com Cascão algo exuberante no oficial de diligências Leal, José Medina um pouco contrafeito em Damis e Morais ainda incipiente no osso de Valério.
                José Ribeiro, bem secundado pelos seus auxiliares técnicos (Cordeiro a ouvir-se aqui e além, Silva, Almeida e Sousa), continuou a ser a alma do Grupo, ainda que a sistemática omissão do seu nome nos programas merecesse um castigo.
                Nas palavras que proferiu antes de abrir o pano, Ribeiro pediu que os possíveis aplausos que viessem a alcançar se destinassem também a homenagear a memória de Molière. Que homenagem, porém, poderia ser maior do que essa que os séculos já lhe prestaram transformando em adjectivo qualificativo o que inicialmente não passava dum simples substantivo próprio – Tartufo?
                Foi, então, assim que, como inicialmente dissemos, abriu a época teatral de Coimbra – sob o signo da desmistificação. Oxalá possa prosseguir desmistificando e demitificando, nem que para isso seja preciso continuar com Molière, subir cronologicamente a Gil Vicente, atingindo até o próprio Plauto.