sábado, 1 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 43


1976.06.04     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense estreia amanhã, no seu teatro, a peça em 3 actos “Monserrate”, original de Emmanuel Robles e tradução de Francisco Mata.
                “Monserrate” é uma peça de construção clássica, nela se reunindo as três unidades – de tempo, de lugar e de acção. Decorre toda ela na sala da guarda da Capitania General em Valência de Venezuela e sem interrupção. O ponto de partida desta acção refere-o a rubrica da peça:
                “Julho de 1812. O chefe venezuelano foi batido e capturado na grande batalha de 11 de junho pelo Capitão-General Monteverde. Simão Bolívar, lugar-tenente de Miranda, conseguiu pôr-se em fuga. Escondido pelos patriotas, escapa às buscas dos perseguidores. Os espanhóis ocupam três quartos do país. A repressão é terrível. Sucedem-se os massacres e pilhagens”.
                Bolívar, o “Libertador”, é a grande figura da obra, sempre presente, embora nunca apareça em cena. Duas personagens dominam os três actos, Monserrate e Izquierdo, travando-se espantoso e aliciante duelo, numa linguagem que o Autor dá rica de beleza, de vigor e de verdade, cheia de força dramática, em que se aliam a violência e a ironia, num realismo sem quebra.

1976.09.10     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                No último sábado o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve uma grande enchente: lotação esgotada, e muitos pedidos de lugar só poderão ser atendidos na próxima representação.
                “Monserrate” dominou a assistência, que no 3º acto se não conteve e interrompeu a representação com calorosa salva de palmas. Esses aplausos repetiram-se no final, mais demoradamente e com entusiasmo.
                Isto quer dizer que no próximo sábado, dia 11, terá nova enchente o Teatro de Tavarede.

1978.01.25     -     EM TAVAREDE MORA O TEATRO (MAR ALTO)

                Tal como “Mar Alto” noticiou no seu último número, estreou-se na Sociedade de Instrução Tavaredense, em récita de aniversário, a peça do conhecido dramaturgo inglês William Shakespeare – “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.
                Estivemos presentes a mais esta noite de teatro em Tavarede, e sem pretendermos ser crítico teatral – porque o não somos – mas porque gostamos de teatro, não podemos deixar de aqui expor as nossas opiniões sobre mais esta obra de um clássico, que o grupo cénico da SIT nos proporcionou.
                À hora pontual, como é hábito na Sociedade de Instrução Tavaredense, teve início a récita com uma exposição de mestre José da Silva Ribeiro, que a jeito de intróito nos situou dentro da obra que se iria representar, e que simultaneamente, numa intencional linguagem simples e compreensível, nos deu uma bela lição de teatro. Se mais não valesse, só para ouvir mestre José Ribeiro, valeu bem deslocarmo-nos à SIT, pois que de um agradável espectáculo de teatro se tratou.
                É evidente que não poderemos comparar esta peça de Shakespeare a um “Romeu e Julieta”, mas sem dúvida que se trata de uma bela peça. A mensagem trazida até nós, tem ainda actualidade, se atentarmos na frase colocada na boca do Rei de França – que aliás traduz o sentimento de toda a peça – em que ele, insurgindo-se contra um dos seus fidalgos, por não querer casar com a filha de um plebeu – “filha de um simples médico” – pergunta irritado se o sangue dela não será igual ao seu – dele Rei – se há diferença na cor, no peso ou no aspecto. – Quando se pretende criar uma sociedade igualitária entre os homens, ainda hoje se poderia citar esta frase a muito boa gente.
                Só quem, como nós, conhece o trabalho de bastidores, poderá compreender o esforço necessário para que, comodamente instalados nas nossas cadeiras, pudéssemos apreciar esta representação. – É todo um trabalho persistente de estudo, ensaios, o montar e desmontar das cenas – que não quebraram o ritmo do espectáculo – é enfim um mundo de ocupações.
                Foi com simpatia que vimos no palco da SIT alguns jovens – hoje que a juventude se espalha por diversas ocupações, nem sempre as mais recomendadas – que a par de alguns “velhos”, nos deram um belo exemplo e nos fazem confiar no futuro da nossa juventude. Lado a lado com os já consagrados – João Medina, Fernando Reis, José Medina, Manuel Lontro, vimos, entre outros, os jovens Ana Paula Fadigas e Francisco Carvalho – que julgamos serem estreantes – e que julgamos serem promissoras as suas aptidões para o teatro, – nunca a coragem e boa vontade vos falte. – Uma palavra ainda para Maria Conceição Mota, que para nós foi uma agradável revelação.
                Tratou-se de uma estreia, e estamos certos, ou não conhecessemos os métodos de trabalho da SIT, de que algumas arestas serão ainda limadas. Para todos os que gostam de teatro, aconselhamos a que em sessões futuras se desloquem a Tavarede e a par de um belo espectáculo, aceitem uma boa lição de teatro, pois que “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.

1978.04.13     -     CORRIGINDO UM LAPSO DO PROF. PAULO QUINTELA (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A propósito da divulgação do teatro de Gil Vicente e uma entrevista dada pelo prof. Paulo Quintela ao jornal “Diário de Notícias”
                .........................
                Ora a verdade é que a velhinha Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada ali na vizinha e ridente povoação de Tavarede, a “Terra do Limonete”, em 1904 e desde então ininterruptamente dedicada, sem quebras nem desfalecimentos, a uma louvável obra de educação e cultura do povo, desfruta também de inteiro e inegável direito a figurar entre os agrupamentos cénicos que, de forma efectiva e permanente, têm dado notável contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente, fazendo-o com elevado nível artístico e invulgar persistência e dedicação.
                Há 62 anos sob a orientação do mesmo director artístico, José da Silva Ribeiro, um verdadeiro mestre de teatro e que o serve com uma devoção e uma competência inexcedíveis, bem pode afirmar-se, sem receio de contestação, que o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, se conta hoje entre os melhores do país.
                Mas este homem, dominado pela profunda convicção de que, perante os incapacitados para a leitura, a arte dramática deve ser, tem de ser, precioso elemento da grande obra de difusão da cultura, não podia deixar de dedicar particular atenção à escolha do respectivo reportório. E assim é que, para além de ter levado à cena, mais de uma dúzia de originais da sua autoria (só ou em colaboração) e mais de meia dúzia de traduções e adaptações por ele efectuadas, fez representar pelo menos quatro peças de Shakespeare, outras tantas de Molière e também dos Irmãos Quintero, além do teatro de Almeida Garrett, D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Pinheiro Chagas, Chagas Roquette e uma infinidade de outros mais, tanto portugueses como estrangeiros, mas sujeitos todos a criteriosa escolha e selecção. E toda essa vasta, vastíssima, galeria de obras, autores e personagens, encenada com rigorosa subordinação ao princípio de que, sobre as tábuas dum palco, os defeitos da representação atingem tal relevância, que chegam a perverter as próprias virtudes dos textos.
                Do que fica dito já será fácil de prever que um homem de teatro como José da Silva Ribeiro dificilmente poderia deixar de dar no seu teatro, a Gil Vicente, o lugar de relevo que ele merece e toda a dimensão que estivesse ao seu alcance.
                Assim, portanto, nenhuma admiração nos deve causar que ele tenha feito representar pelos seus amadores tavaredenses nada menos de onze originais vicentinos. A começar do “Auto da Mofina Mendes”, seguido do “Auto da Barca do Inferno”, de “Todo o Mundo e Ninguém” (do “Auto da Lusitânia”), do “Auto Pastoril Português”, da “Farsa do Velho da Horta”, do “Pranto da Maria Parda”, do “Dom Duardos”, de fragmentos do “Auto Pastoril Português”, “Romagem dos Agravados” e “Breve Sumário da História de Deus” e a acabar no “Auto da Feira”.
                Extraordinária sim, temos de considerar a divulgação desse repertório para além de Tavarede. Através de famosa “campanha vicentina” em redor do concelho e visando as suas aldeias rurais. De deslocação a Coimbra, ao Teatro Avenida, com “Noite de Teatro Português”. De comemoração do “Dia Mundial do Teatro”. E de comemoração do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”. Em qualquer dos casos em espectáculos realizados nesta cidade e promovidos pelos Serviços Culturais da Biblioteca Municipal da Figueira. Um repertório que havia também de dar lugar a uma admirável, inesquecível e verdadeira criação artística de Violinda Medina, no “Pranto da Maria Parda” e numa interpretação com a qual, sem o mínimo de exagero se pode dizer, poucas e destacadas profissionais seriam capazes de ombrear.
                Para além do que fica referido, quanto não poderia e deveria ainda escrever-se sobre o assunto. Se para tanto houvesse maior jeito e o espaço o permitisse.
                Cremos, no entanto, que mais não será preciso para comprovar que houve lapso do Prof. Doutor Paulo Quintela quando não incluiu os amadores tavaredenses, de José da Silva Ribeiro, entre os que muito se empenharam em dar o seu contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente.

1978.04.27     -     TEATRO AMADOR DA FIGUEIRA DA FOZ (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Não podia ter sido escolhido melhor título nem mais nivelado grupo de amadores (nivelamento por cima) para fecho das II Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, do que o grupo cénico de José Ribeiro, que nas I Jornadas, por motivos alheios à sua vontade, esteve ausente.
                A presença dele nas Jornadas deste ano enriqueceu-as. É que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense pode chamar-se um grupo padrão.
                A peça escolhida – a comédia em 5 actos e 13 quadros, de Shakespeare, pode não cair no pleno agrado de todos os espectadores. Mas não deixa por isso de ser uma peça de difícil execução, o que para José Ribeiro nunca constituiu motivo de recusa. Ele até faz gala em transportar as dificulades que se lhe apresentam. E vence-as sempre, sejam elas de que natureza forem.
                “Tudo está bem quando acaba bem” foi montada com dignidade e representada ao nível do grupo cénico tavaredense, com muitos figurantes ainda noviços, mas já bem seguros e conscientes das suas responsabilidades.
                Dos velhos há que assinalar, nos principais papéis, a excelente presença de João Medina, José Medina, Fernando Reis, Manuel Lontro e José Luís do Nascimento, no naipe masculino. No feminino, Maria de Lourdes Lontro e outras.
                Ana Paula Fadigas, Ana Maria Bernardes e Maria Conceição Mota, as mais novas, vão muito bem nas figuras que compuseram.
                Parabéns a todos, porque todos deram, como dissemos, um contributo nivelado para a construção deste espectáculo.

1978.05.03     -     II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (O FIGUEIRENSE)

                “Tudo está bem quando acaba bem”. Assim diz o povo e assim se intitula a comédia que a Sociedade de Instrução Tavaredense trouxe no dia 25, ao palco do Teatro Peninsular, para encerramento das II Jornadas de Teatro Amador, em boa hora organizadas pelo benemérito Lions Clube da Figueira da Foz.
                Pode dizer-se que esta benéfica manifestação de actividade cultural em que participaram onze colectividades do nosso concelho, terminaram, também, como soi dizer-se, com “chave de ouro” e com dedo de mestre. José da Silva Ribeiro, considerado como um dos mestres do teatro português, ofereceu ao público que durante quase três meses semanalmente foi dar incitamento aos amadores figueirenses, uma excelente peça da autoria do imortal Shakespeare, com adaptação do ilustre tavaredense. E do espectáculo a que assistimos, não sabemos o que mais elogiar: se a representação em si admirável, pois todos os amadores, a maioria com craveira artística, foram contribuintes do êxito que ele alcançou, se da encenação em que tudo foi condigno, cenários e riquíssimo e variado guarda-roupa.
                Uma bela noite de teatro. Parabéns aos distintos amadores, ao mestre José Ribeiro, à SIT e ao Lions, que se propõe continuar, no próximo ano, esta bela iniciativa.

1978.05.05     -      II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (BARCA NOVA)

                Com William Shakespeare e o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, terminaram no passado dia 25 de Abril as II Jornadas de Teatro Amador, uma organização do Lions Clube desta cidade, como temos vindo a referir.
                Tudo está bem quando acaba bem foi a peça à qual couberam as honras do encerramento das jornadas e com a qual, teatralmente, foi atingido o ponto mais elevado deste certame.
                Partindo de um texto menos conhecido de Shakespeare, os amadores tavaredenses souberam construir um espectáculo, sem dúvida belo, beleza essa que assenta principalmente na sumptuosidade do guarda-roupa e na diversificada cenografia. Sobre a peça, não vale a pena determo-nos na sua análise, pois ela foi escrita por um dos “grandes génios literários e dramáticos da literatura mundial de todos os tempos”, talvez por ter sabido captar, como poucos, o particular e o universal simultaneamente.
                É justo realçar a magnífica interpretação dos amadores tavaredenses, que bastante contribuiu para o elevado nível artístico do espectáculo apresentado. Sem desprimor para nenhum dos outros elementos do elenco tavaredense, registem-se as intervenções de João Medina, José Medina, Fernando Reis, José Luís do Nascimento e Ana Paula Fadigas.

1978.11.16     -     UMAS BODAS DE DIAMANTE NOTÁVEIS (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A história dos primeiros 50 anos de vida dessa prestigiosíssima colectividade que é a Sociedade de Instrução Tavaredense, está fielmente retratada num livro comemorativo das respectivas “Bodas de Ouro”, da autoria do distinto jornalista, nosso conterrâneo, José da Silva Ribeiro, que propositadamente a escreveu em linguagem escorreita e cuidada, mas num estilo singelo, que revela clara intenção de pretender interessar pessoas de todos os graus de cultura e ser perfeitamente entendido mesmo pelos mais humildes dos seus leitores. Ela apenas pecará por uma sobriedade da apreciação de excepcional e admirável Obra levada a cabo, que bem se compreende e aceita, por o autor ser desde longa data o grande, esclarecido e proficiente mentor, guia e esteio dessa mesma Obra. O que a nós, estranhos a ela, mas seus incondicionais admiradores, nos cumpre suprir.
                Foi a 15 de Janeiro de 1904, que em Tavarede, ridente povoação dos arredores da Figueira, mas modesto aglomerado rural de menos de mil habitantes, catorze homens, todos de humílima condição social, parcos meios e modestíssimas profissões, resolveram fundar a Sociedade de Instrução Tavaredense. Finalidade: servir de suporte a uma escola para ensino dos sócios e seus filhos. Mas porque na terra havia largas tradições teatrais, logo elas foram reatadas com a criação de brioso grupo dramático, que ainda nesse ano deu o seu primeiro espectáculo.
                Os benefícios prestados à instrução pela escola nocturna desta prestimosa colectividade, no meio em que actuava e durante um período de 38 anos, em que funcionou, ininterruptamente, foram incalculáveis. Infelizmente, porém, em 1942, exigências de legislação totalitária do “santa combismo” forçaram a pôr termo a essa verdadeira campanha de combate ao analfabetismo.
                Apesar das dificuldades e encargos que, em lugar de estímulos e auxílios, lhe foram, num crescente, sendo impostos, o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense é que, longe de perder vitalidade ou mesmo soçobrar, cada vez em ritmo mais acelerado prosseguiu, tão resoluta como triunfantemente, e sob todos os aspectos, a sua brilhante carreira ascencional. Cresceu de maneira notável o seu nível artístico, tanto de reportório como de interpretação. Alargou-se a sua esfera de acção, ultrapassando a própria sede e área do concelho, com várias deslocações a terras como o Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Pombal, Soure, Marinha Grande, Pampilhosa, Colares, etc., sendo de registar, neste capítulo, que todas essas deslocações foram sempre para fins de beneficência e atingiram o número de 20 pelo que se refere a Coimbra e de 16 pelo que diz respeito à cidade de Tomar. Chegou-se mesmo ao ponto de levar a cabo uma campanha vicentina que, com o maior êxito e todo o mérito, se tornou extensiva às freguesias rurais do concelho.
                Ao fazer a resenha dos primeiros cinquenta anos de actividade do grupo cénico, que dirigia há já 38 anos, José da Silva Ribeiro interrogar-se-ia: “Como irá ser o futuro?”.
                Mas ele em nada desmereceu do passado. Muito pelo contrário.
                O seu famoso agrupamento manteve o mesmo ritmo de intenso labor. Requintou em primores de interpretação e montagem. Levou à cena cada vez reportório de mais alto nível, categoria e responsabilidade. Representou, entre muitos outros, Almeida Garrett, Luís de Camões, Marcelino Mesquita e D. João da Câmara, novas e várias peças de Gil Vicente, “Romeu e Julieta”, “Dente por Dente”, “Conto de Inverno”, “Tudo Está Bem Quando Acaba Bem”, de Shakespeare, “As Artimanhas de Scapino”, “Médico à Força”, “O Avarento” e “Tartufo”, de Molière. Além de umas tantas peças de José da Silva Ribeiro, que com elas totalizou 19 originais, adaptações e traduções destinadas ao seu grupo cénico.
                Não devendo esquecer-se as suas intervenções valiosas em comemorações como as do: “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”; “Dia Mundial do Teatro”; “IV Centenário de Shakespeare”; “5º. Centenário do nascimento de Gil Vicente”; e “4º. Centenário da publicação dos Lusíadas”.
                Quem ousará, portanto, pôr em dúvida que são na verdade notáveis as “Bodas de Diamante” da Sociedade de Instrução Tavaredense? Ou negar que elas constituem a concludente e irrefutável prova do invulgar amor ao teatro, do bairrismo e da perseverança no esforço colectivo, mesmo dirigido apenas às coisas do espírito, da gente da terra do limonete?
                Entre a qual, neste caso ocupa o primeiro lugar por direito próprio, que ninguém jamais tentou negar-lhe, José da Silva Ribeiro, nobre figura de indefectível democrata, com carácter espartano, que o emérito professor Joaquim de Carvalho considerava seu “companheiro de sentimentos e propósitos”.
                Um homem de invulgar inteligência e craveira intelectual, associadas a perfeita noção da perenidade dos autênticos valores espirituais e sociais, que há 62 anos, com notável estoicismo, é o grande arquitecto de tão admirável Obra, que no presente caso põe em jogo e acção todas as faculdades do espírito tanto de intérpretes como de espectadores. Facto que naturalmente leva a concluir que o teatro, como a música, deveriam fazer parte integrante da cultura geral dos indivíduos.
                Por tudo o que fica dito e o muito mais que ficou por referir, nos parece serem as próximas “Bodas de Diamante”, da Sociedade de Instrução Tavaredense, o ocasião mais oportuna para que a Figueira preste à referida colectividade e ao seu devotado director cénico as homenagens a que ambos têm inteiro jus.
                Com o que, por múltiplas razões, se cumprirá apenas um dever.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 19


Seguem-se as assinaturas de mais de trinta pessoas, residentes em Tavarede, Buarcos, Figueira e Maiorca. Não deixa de ser curioso que um destes assinantes terá sido João Adolfo de Crato, Juiz da Alfândega da Figueira, amigo e ‘banqueiro’ do morgado de Tavarede, talvez a maior fortuna local e que veio a adquirir grande parte dos bens da família Quadros.

            Segundo o Dr. Rocha Madahil, a primeira redação deste extraordinário e quase inacreditável libelo… … foi, depois retocada: cortaram-se alguns períodos e o articulado relativo ao desacato feito a Bento da Cunha Terrão e a Bernardo da Cunha; substituiu-se o termo vergalho, com receio, talvez que soasse mal… … toda a palavra vergalho trocada por chicote. Mas, de qualquer forma, chega a impressionar a opressão, crimes e maldades cometidas sobre o pobre e indefeso povo.

            E não se julgue que a posição assumida pelo Cabido era total a favor do povo. Estavam crentes de que, passando a Câmara e Justiças para a Figueira, se acabaria com o despótico poder dos fidalgos. Isso era verdade, mas o Cabido desejava para si continuar a ser o donatário do Couto de Tavarede, continuando a ter direito aos seus privilégios. Falharam os seus cálculos, mas a história de Tavarede, uma história de mais de sete séculos, deixou de ter qualquer significado, ficando dependente da nova vila da Figueira da Foz.

            Apesar da defesa que, a mando de El-Rei, a nobreza e o povo (?) de Tavarede deram, quanto ao pedido do Cabido para a mudança da Câmara e Justiças, não resultou…. É a Justiça inexpugnável fortaleza que não teme os rebates falsos; é Vossa Majestade o sagrado da mesma Justiça, como fonte e manancial dela; esta certeza, e a de que é próprio da real protecção de Vossa Majestade defender os oprimidos das violências, nos constitue na esperança de sair escusado o requerimento do reverendíssimo suplicado que só se induz de circunstâncias inatendíveis e não verdadeiras, e se o foram não podia competir com o direito adquirido e radicado na imemorial posse em que estamos da conservação da casa da Câmara neste Couto, desde a sua fundação, por cuja razão e pelo mais que com pura verdade expomos na presente resposta, deve ser desprezada a suplica, denegando-se ao reverendíssimo suplicado a provisão que intenta e assim o esperamos da equidade com que é distribuida a mesma Justiça pela real mão de Vossa Majestade não obstante a resposta da Câmara, cujos oficiais são este ano as daquele lugar

            Além da mudança da Câmara, as tropelias e crimes do fidalgo morgado de Tavarede não podiam ficar impunes. Acabou por ser levado a julgamento e condenado, tendo acabado os seus dias na cadeia da portagem em Coimbra.
  

 Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa
 8º. Senhor de Tavarede - Morgado
  
            Fernão Gomes de Quadros e Sousa faleceu, como atrás foi referido, na cadeia da portagem em Coimbra, no dia 15 de Março de 1767, tendo o seu corpo sido trasladado para ser sepultado na capela do Convento de Santo António, na Figueira da Foz. Já não assistiu, portanto, à concretização da mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira da foz do Mondego, em 1771.

            Seu filho primogénito, Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, que, como herdeiro, deveria tomar posse do morgado e da Casa de Tavarede quando seu pai morreu, não o podia fazer, pois estava preso.

            Como seu pai, havia sido uma pessoa de péssimos instintos. Já na exposição feita pelo Cabido a El-Rei D. José I, são denunciados diversos crimes praticados por ele. O mais grave, todavia, terá sido a morte de seu tio, Frei Aires de Santa Ana, religioso no convento de S. Francisco, em Lisboa. Consta que … morreu, infelizmente, de um tiro de pistola que lhe deu seu sobrinho Pedro Joaquim, estando rezando a uma varanda, por ter sido repreendido de uma desobediência a seu pai… Esta repreensão devia-se aos seus maus procedimentos que vinha de fazer no lugar da Figueira… andando pelas tabernas emborrachando-se. Aliás, diversos autores referem que Pedro Joaquim terá cometido o assassínio num excesso de vinho.

            Creio, porém, que Pedro Joaquim de Quadros foi de facto, pouco tempo após a morte que praticou, remetido preso para a Berlenga Maior, em cujo espaço, que não ultrapassa alguns poucos quilómetros quadrados, viveu do final da sua juventude até ao final da idade madura, escreveu o Dr. Pedro Quadros Saldanha em ‘A Casa de Tavarede’.

            Com a morte de seu pai e com a sua prisão, perpétua, nas Berlengas, foi sua mão que assumiu o governo do morgadio, ajudada pelo seu segundo filho, António Leite. Este, devido às circunstâncias verificadas, estaria crente que seria declarado o herdeiro da casa de Tavarede, certo que seu irmão não viveria muitos anos nas Berlengas.

            Terá sido enorme a sua surpresa, bem como a de sua mãe, D. Brites Josefa da Silva e Castro, quando, já reinando a rainha D. Maria I, apareceu em Tavarede Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, então com 46 anos de idade, e liberto graças a um perdão real que lhe fôra concedido.

            Pouco foi o tempo em que Pedro Joaquim esteve de posse do seu morgado. Nos cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo refere-se que … fez tais loucuras que foi mandado de vez para ela (prisão das Berlengas), onde morreu. A verdade é outra. Ele foi, na realidade, preso, mas foi encarcerado em Coimbra, na mesma prisão onde seu pai morrera.

            Tentou a sua defesa, como é natural. As acusações, no entanto, foram fortes. Como exemplo disso, transcrevo a informação que foi prestada pelo então Corregedor de Coimbra. O suplicante matou um tio seu religioso com um tiro por cuja causa se mandou para a Fortaleza das Berlengas, em que esteve muitos anos e dela saíu na ocasião do indulto geral do Fidelíssimo Senhor Rei D. José I. Veio para a sua casa de Tavarede e companhia de sua mãe, e se entregou a vícios, andando publicamente e escandalosamente amancebado e frequentemente ébrio. Costuma trazer consigo armas de fogo e em uma noite estando umas criadas de sua mãe à janela e desconfiando que elas o estavam espreitando e a uma concubina lhe atirou um tiro, mas não as ofendeu. E por estes factos é temido não só dos estranhos como também dos domésticos. Apareceu nesta cidade continuando a sua irregular vida, e imprópria do seu nascimento, causando escândalo e temor que rompesse nos seus costumados excessos e para se evadirem achando-me eu na comerca em correição e o juiz do crime doente, se deliberou o juiz de fora do cível mandá-lo prender e dar conta a Vossa Majestade pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, que me veio a informar, e remeti a informação em 14 de Dezembro próximo passado de 1778. Já anteriormente o juiz de fora da vila da Figueira representou a Vossa Majestade as desordens do suplicante e o temor daquele povo, que vindo-me também a informar expedi em 19 de Outubro do dito ano sem que de uma ou da outra tenha havido resolução. Não consta que o suplicante tenha culpas judicialmente formadas nem é razão esteja perpetuamente preso em uma cadeia pública; porém para se evadir a própria injúria e a de seus parentes, e eminente perigo da sua liberdade, me pareceu ser justo se tornasse a mandar para as Berlengas ou para outra alguma fortaleza deste reino onde se lhe administrasse o necessário para a conservação da vida, como já informei a Vossa Majestade ou dar alguma outra providência e sobre tudo mandará Vossa Majestade o que for servido.

            Pode depreender-se de tudo isto, que a própria família o desejava preso. E apesar do recurso apresentado e do testemunho favorável de pessoas influentes, a rainha não concedeu perdão. Mas, talvez até por simples curiosidade, transcrevo uma pequena parte dos testemunhos de sua defesa. 1 . O suplicante é quieto e pacífico e não costuma nem descompuzera pessoa alguma, antes acomoda as desuniões e rixas que sucede haver no dito couto e nesta vila e suas circunvizinhanças, sem que para este fim use de despotismos e tenha espancado pessoa alguma que não queira obedecer-lhe nos seus petitórios. Com bons modos pede que se acomodem algumas desuniões pois ‘o seu génio é de acomodar várias rixas que há entre algumas pessoas’. 2 . O couto de Tavarede é lugar triste e esta vila muito alegre por ser porto de mar, aonde entram várias embarcações com gentes civilizadas com quem o suplicante trata, sem que haja notícia tenha ofendido pessoa alguma. Tavarede era lugar pequeno e o suplicante tem algumas vezes vindo passear a pé e de cavalo à Figueira, sem que nela tenha ofendido pessoa alguma, antes tratando todos com muita cortesia. 3 . O suplicante é morgado e senhor da sua casa e por ser muito obediente a sua mãe, D. Brites Joséfa da Silva e Castro, lhe tem largado a administração de toda sua casa, sem que em nada encontre as determinações da referida sua mãe. Tem desistido da administração da casa, que entrega à mãe.

            Alguma coisa não está certa. Mentia o Corregedor de Coimbra ou mentiam as testemunhas de defesa? 

sábado, 25 de agosto de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 18


            Este morgado de Tavarede, Fernão Gomes de Quadros e Sousa, terá sido aquele que pior administração teve na Casa de Tavarede, levando uma vida de dissipação, criando enormes dívidas que, posteriormente, quase levaram à ruína…

            Entretanto, a sua violência sobre o povo, os vexames com que constantemente feria alguns e, sobretudo, as agressões de carácter sexual, de que foram vítimas muitas mulheres, levaram a que o Cabido da Sé de Coimbra deliberasse tomar a iniciativa de mudar a câmara, as justiças e a cadeia para a Figueira, convicto de que, com esta mudança, se acabaria com o ‘poder feudal’ que o morgado usava constante e abusivamente sobre os pobres povos de Tavarede e outros lugares vizinhos.

            Para este fim, e tendo obtido o acordo da câmara de Tavarede, formalizou uma queixa ao rei D. José I. A história desta questão foi minuciosamente estudada pelo ilustre investigador Dr. Rocha Madahil que, no ‘Album Figueirense’, publicou um extenso e bem elaborado estudo que intitulou ‘A mudança da câmara de Tavarede para a Figueira’, e no qual transcreve entre muitos outros documentos, a queixa apresentada e a resposta que a nobreza e o povo (obrigado a isso pelo seu senhor) deram, mas que, ao fim e ao cabo, resultaram na mudança efectiva das autoridades de Tavarede para a Figueira da Foz do Mondego.

            Senhor
            Representa a Vossa Majestade o Cabido da Santa Sé de Coimbra, só para o fim de livremente usar dos seus direitos no Couto de Tavarede em que é donatário da Coroa e para desagravar as Justiças, que naquele Couto o dito exponente confirma, e manter as pessoas e famílias dele livres de injúrias e opressões de Régulos, poderosos e mal inclinados, e com o preciso protesto de que da averiguação da exposição infra não resulte imposição de penas de sangue e mutilação de membro.
            Que no dito Couto de Tavarede vive dissoluta e despoticamente Fernando Gomes de Quadros, com o foro de fidalgo da Casa de Vossa Majestade e comendador nas Alhadas, com tão absoluto e independente poder com vexação das Justiças e povo.
            Que tráz as Justiças daquele Couto debaixo do pé e nada se faz pelo Juiz e vereadores que se lhe não dê a saber. Não se faz Juiz, Vereadores e Procurador do Couto que não sejam as pessoas que ele quer ou não quer que sejam, porque quando se faz a Justiça chama a casa os que hão-de votar, e quando eles não vão os procura e os faz votar nas pessoas que ele muito quer, e fazendo o contrário os ameaça com um vergalho, como fez ao capitão Isidoro dos Reis, homem do hábito de Cristo, que sendo Juiz ele o foi esperar para lhe dar com o dito instrumento, o qual, tendo aviso, se retirou, quando não certamente o descompunha.
            Que quando a Justiça faz eleição de recebedor das cisas de Vossa Majestade, ou quatro e meio por cento e outras fintas, se lho não dão a saber, quer que livrem a todos quantos fazem e por este respeito sucede as mais das vezes, vir Caminheiro pelos quartéis, por não haver Recebedor por causa dele. E o povo paga muitas custas, que se houvera Recebedor que tivesse cobrado o pedido a tempo, escusava o mesmo povo de pagar ao Caminheiro e de experimentar tão grande vexação pela dita causa.
            Que toda a pessoa que intenta por alguma demanda justa ou quer cobrar alguma dívida, se a tal pessoa não vai primeiro pedir licença e dar conta do que intenta fazer, faz que as Justiças dêem a sentença contra a tal pessoa, ainda que tenha razão e justiça, pondo-se pela contrária, com todo o seu absoluto poder chamando as testemunhas para que jurem o que ele quer e descompondo as que juram a favor da tal pessoa. E não só as trata desta sorte mas aos Juízes, mandando-lhes com império e ameaços, que façam o que ele lhes insinua, aliás, pau e vergalho. Porém ainda aqui não param as vexações que o dito povo padece com a vizinhança deste homem.
            Que naquela terra há muitos criminosos, por roubos que fazem em casas e fazendas, por dívidas que devem, pancadas e facadas que dão, os quais logo se vão recolher a casa dele como couto mais privilegiado que algum que haja no Reino, e ele os recebe e é padrinho de todos. Porque só o é dos maus e deste valhacouto entram a continuar nos seus roubos, e dando descomposturas e ferindo à sombra e capa do seu patrono. Como também o é dos ciganos quando vêm àquelas terras, sendo capa e dando hospedagem a todo o ladrão e pessoa de má consciência.
            Que sendo o Couto de Tavarede muito pequeno, tráz nele um grande rebanho de cabras, destruindo todas as vinhas e mais novidades dos pobres, e se acaso lhas deitam fora os donos das fazendas, os criados se levantam contra eles e os ameaçam com seu amo, cujo respeito os intimida a não defenderem o que é seu. E o mesmo sucede com os gados das pessoas que são da sua casa, por serem muitos os compadres e afilhados que logrão da isenção e privilégios da mesma, e estes, ainda que os seus gados sejam daninhos, não são coimados e se algum, por esquecimento da Justiça o foi, logo o faz riscar do livro e fica isento da coima.
            Que para maior esplendor da sua nobreza e respeito da sua casa, quer que tudo o que pede se lhe faça, ou seja torto ou direito, para o que intimida as Justiças deste Couto com a sua crueldade, que como são homens de menos esfera, qualquer coisa os intimida, e por este causa lhe disfarçam as suas insolências, e a toda a pessoa que não faz o que ele pede lhe costuma levantar labéus e formar crimes falsos, e como tem muitas pessoas de seu séquito e igual condição, faz as provas que quer. E a outras as induz a que jurem o que ele quer, e se o não fazem os castiga com pau e vergalho, e assim se vinga de quem lhe ultrajou o respeito faltando-lhe ao seu empenho, sendo máxima deste sujeito, como praticou a certa pessoa, que para a sua casa ser respeitada, hão-de andar os vizinhos sempre debaixo de um pau, sendo palavra muito sua: eles não querem, pois há-de sair o castanho, que é um bordão daquela madeira, com que tem dado muitas pancadas em muitos e da mesma sorte.
            Que traz os pobres trabalhadores destas terras arrastados, porque todas as vezes que quer algum serviço feito, os manda rogar e se não vão logo, por terem prometido para outro serviço, os descompõe a pau e vergalho, e muitas vezes os costuma ir tirar do serviço de outras pessoas aonde andam, ou do seu próprio serviço, dizendo que está primeiro que ninguém, e como não lhes paga, ninguém o quer servir e se o servem é com o temor da outra paga que ele costuma dar.
            Que só as pessoas que vivem mal e são mal procedidas favorece e os ajuda para o mal e faz com que as Justiças os não persigam, só para os ter na sua mão, para com a ajuda destes fazer tudo quanto quer e ser respeitado e temido, pois o ajudam nas pendências como pessoas próprias, e nas ocasiões de alguma prova de alguma causa com os juramentos falsos, que por seu respeito dão.
            Que também tomou umas casas de sobrado e quintal a Teotónio dos Santos Pinheiro, da Figueira, as quais tinha no Couto de Tavarede, sem que até ao presente as queira restituir a seus herdeiros.
            Que querendo o Cabido exponente arrendar a renda de Tavarede, este contrato para o que mandou pôr editais para se saber o dia em que o dita renda se havia de arrematar, o dito, para sua vingança, mandou pôr outros editais e vários papéis com letra desconhecida, que diziam: que qualquer pessoa que tomasse aquela renda visse como a tomava, porque lhe haviam de roubar os frutos e perseguir a quem a tomasse, e por esta razão persegue ao presente rendeiro, causando-lher mil vexações e ao mesmo Cabido, induzindo o povo a que lhe não pague os foros que lhe são devidos, assim pelo foral do mesmo Couto, como por sentenças que contra eles tem alcançado. Porém, esta inimizade que o suplicado tem ao Cabido, não só é por ser malévolo, soberbo e de desordenados costumes, mas porque lhe vem por herança dos seus antepassados, contra os quais alcançou o Cabido exponente muitas sentenças, não só em favor do mesmo Cabido, mas também daqueles povos que, oprimidos das injustiças que aqueles perversos homens lhe faziam, recorriam ao Cabido, como donatário daquele Couto, por mercê do senhor rei D. Sancho, de gloriosa memória, e não só o dito senhor rei os defendeu daqueles cruéis vizinhos, mas os senhores reis seus sucessores, de que se acham sentenças e  cartas aos corregedores de Coimbra, para que acudam às vexações que os ditos sucessivamente lhe iam fazendo, que este ódio vem sucedendo de pais em filhos, de filhos em netos, até chegar a este. E assim como este ódio se estabeleceu por geração, assim tambem é malinidade e perversidade de génios e soberba se foi seguindo de uns para outros.
            Que fazendo algumas pessoas fornos para cozerem o seu pão em suas casas, lhes tem o suplicado entrado pelas portas dentro, acompanhado de seus criados e valentes, e lhos derrubam e desfazem, como fizeram a Luís de Faria, da Figueira, Teotónio dos Santos Pinheiro e António Osório, todos homens de bem naquela terra, o que obra com o pretexto de ter provisão e sentenças possesórias para ter forno de poia. Na Figueira tudo obtido em tempo em que aquela terra e povoações não chegaria a ter cem vizinhos, sendo que hoje tem mais de seiscentos, sendo impossível que este aumento de povo seja bem servido só com o dito forno e fornalha, que o predito pretende conservar, apesar de toda a povoação em notória perda da mesma e de seu pão, dano que sofrem para não serem espancados e descompostos pelo predito e seu filho Pedro José (Joaquim).
            Que o predito suplicado acutilou nas lojas do Padre Cura Manuel Tomás, ao feitor de Fernando Maria, morador na cidade de Coimbra, que habitava no lugar da Figueira por nome Manuel Ribeiro Bravo, que no dito lugar tinha loja de comércio, correndo atrás deste com a espada nua, desde o armazém em que estava quantidade de peixe, até às ditas lojas, por o predito feitor lhe não dar fiadas umas arrobas de pescadas secas que lhe pedia.
            Que o dito suplicado foi a casa de Caetano dos Santos, do dito lugar da Figueira, para lhe dar, o qual com medo e para se livrar, saltou duma janela abaixo, do que ficou manco de ambos os pés e assim vive.
            Que não querendo um preto do Padre José dos Reis consentir que o gado do suplicado andasse em uma fazenda do referido senhor do preto, o dito suplicado, com um seu filho, entraram na dita fazenda para maltratarem o dito preto, que por fugir escapou de ser espancado com armas que levavam.
            Que as Justiças daquele Couto de Tavarede todas temem e tremem do suplicado e de seus criados, por estes não só castigarem por obra e palavra, não só ao que lhe fazem coimas a seus companheiros ou caseiros ou outros seus protegidos, mas a quaisquer que lhe não obedeçam em quaisquer matreiras de seu empenho, porque contra o supradito e sua família se não administra Justiça naquele Couto em tanto.
            Que dando o suplicado uns capítulos contra o rendeiro do Cabido exponente, e do juiz executor do mesmo Cabido, no suposto nome do povo e Câmara, sendo Vossa Majestade servido mandar que o Corregedor de Coimbra o informasse, mandou o referido Corregedor chamar os oficiais da dita Câmara de Tavarede, para que assinassem os ditos capítulos, os quais sendo vistos pelos ditos oficiais da referida Câmara disseram que tais capítulos se não fizeram nem mandaram fazer, e que o denominarem serem feitos em seu nome era com falsidade, como o era a narrativa dos mesmos e que por este motivo os não assinavam, do que sendo sabedor o suplicado mandou chamar os ditos oficiais a sua casa, e os descompôs e ameaçou, que se não assinassem os ditos capítulos, os havia de moer com um pau, e os preditos oficiais, para se verem livres das vexações que o dito suplicado costuma executar, com medo os assinaram, sem embargo do que Vossa Majestade informado da verdade pelo dito Corregedor foi servido escusar o requerimento.
            Que é o suplicado de tão depravado ânimo que até aos religiosos franciscanos de Santo António do lugar da Figueira chega a ferir a tirania daquele, porque querendo, fundamentado na sua fidalguia, se lhe faça tudo o que pede e sucedendo lançar fora do serviço daquela comunidade, o padre Guardião dela ao barbeiro da mesma, por faltas que tinha feito, recorreu o dito barbeiro ao patrocínio do suplicado e pedindo a este a dita graça, logo o suplicado o ameaçou que lhe havia de tirar quantas esmolas pudesse, como com efeito pratica pelos meios que pode excugitar os sermões daquelas freguesias vizinhas e outras mais esmolas que se costumam dar.
            Que o suplicado é costumado a proteger facínoras e a injuriar os honrados, porque andando um Francisco de Oliveira, do dito lugar da Figueira, homiziado por crime de traição e aleivosia, se refugiou na casa do dito suplicado (com exemplo deste proteger a outros mais delinquentes) e o dito suplicado o acompanhou com uma espada debaixo do braço até ao dito lugar da Figueira, e chegando ambos à porta do padre Libório (que era o ofendido com a dita traição e aleivosia) estiveram quietos muito tempo olhando para as janelas e casas do dito padre, observando se saía para o descomporem, segundo se entendeu.
            Que o suplicado nunca pagou a pessoa alguma que o servisse, assim com coisa fiada como emprestada, e se acaso alguns credores lhe pedem o que lhe emprestaram ou fiaram, os descompõe espancando-os com pau ou vergalho, e ao pouco de palavra e se manda pedir alguma coisa fiada e se não lhe fia faz o mesmo, com o que vivem aqueles povos tão oprimidos que ninguém é senhor de coisa alguma ao pé do suplicado, porque tudo o que lhe faz conta faz seu, tomando por força de pancadas o alheio se lho não dão, não pagando também aos trabalhadores que o servem.
            Que mandando a predito suplicado pedir a um inglês, chamado Daniel, umas pipas emprestadas, porque este lhas não emprestou, em razão de lhe serem necessárias para a condução dos seus vinhos, para o que já as tinha postas na praia para se embarcarem para a dita condução, o dito suplicado mandou conduzir para sua casa as de que necessitava, contra a vontade do dito Daniel, seu dono, sem sua licença. Como também mandou conduzir para sua casa uma pouca de madeira de um homem de Lisboa , de que estava entregue por comissão Luis da Costa, do dito lugar da Figueira. E haverá dois anos, com pouca diferença, mandou o dito suplicado pedir uma carrada de canas a um homem de Buarcos, e não condescendendo este com a petição porque as queria para as suas vinhas, o dito suplicado, com absoluto poder, mandou os seus criados à fazenda do dito homem e que dela trouxessem as canas, como com efeito violentamente trouxerão para as vinhas do referido suplicado.
            Que tendo António José de Saldanha, de Aveiro, uma quinta chamada da Fonte, com uma morada de casas de sobrado, no Couto de Tavarede, que são de uma capela, lhas demoliu violentamente o suplicado, e se aproveitou de toda a pedra, telha e madeiras, e fez das casas e da sua área picadeiro de cavalos, danificando os bens da capela que lhe não pertencem, e andando os bens desta arrendados por três moios de milho anualmente, o dito suplicado, pelo ódio que tinha ao referido António José, fez com que ninguem arrendasse a dita quinta por mais de setenta alqueires de milho, e alguns anos a fez ficar com menos renda por falta das ditas casas, que eram nobres e tinham acomodação para os frutos, que agora não tem.
            Que ao marchante João Lopes, de Maiorca, deve o suplicado quantidade de dinheiro de vaca que lhe fiou e quando aquele lhe pede a dívida o ameaça e descompõe com um vergalho, chamando-lhe nomes injuriosos. E todo o marchante que vai com vaca ao lugar da Figueira, ou há-de dar vaca para casa do suplicado e de suas amigas, sem osso, que nunca lhe paga, ou se algum o não faz é descomposto com pau e vergalho pelo suplicado ou sua família.
            Que o dito é tão costumado a obrar mal e de ânimo tão malévolo e falto de justiça, que vindo de Lisboa a Buarcos Bento da Cunha Terrão, a certo negócio de gosto, que tinha na dita vila, e convidando alguns parentes e amigos para o tal festejo o obséquio, o dito foi com os da sua facção, carregados de armas defesas, só a fim de deslustrarem o dito e seus convidados, chamando-lhe muitos nomes injuriosos, glosando-lhe várias poesias em que o descompunham e outros desaforos semelhantes, sem mais conveniência que a de fazer mal e de dar a conhecer a braveza de seu ânimo e a leveza do seu juizo. E o mesmo fez em Maiorca, aonde de noite foi ver uma comédia que se fazia em uma casa de Bernardo da Cunha, saindo com o seu capelão e mais pessoas da sua comitiva, segundo o uso e costume, com armas defesas, quis meter o festejo à bulha e descompôr o dito Bernardo da Cunha, que se não usara da sua prudência certamente o matariam, pois já iam com ânimo disso. Estas façanhas, parece, são estribadas na soberba e temerário juizo de que só a ele são devidos semelhantes obséquios, e por esta razão quer ser singular, desprezando desta forma ainda aos melhores daquelas terras, como é o dito Bernardo da Cunha.
            Que anda  o suplicado actualmente amancebado com uma filha sua, bastarda, chamada Antónia, filha de Isabel Gomes, mulher de Manuel Gomes Raposo, há mais de dez anos, e tem parido dele várias vezes, e chegou a ir a casa de sua mãe furtá-la, e deu muita pancada no dito Manuel Gomes Raposo, porque entendia ser sua filha e como tal a defendia para dele não ser roubada nem ofendida na sua honra, das quais pancadas esteve à morte e se queixou a Vossa Majestade, e veio decreto para ser preso. Porém, como é muito poderoso, fez com o Corregedor que era naquele tempo, que não desse a devida execução a tal decreto.
            Que sendo denunciado pela dita amncebia, diante da Justiça Eclesiástica da cidade e bispado de Coimbra, e sendo preso pela denúncia (por ser tão poderoso não foi ao Aljube, ficando sob fiança em casa de seu cunhado, o Correio Mor de Coimbra), e estando assim preso, numa noite saíu à rua e deu também muitas cutiladas numas pessoas, que, ao que parece, alteravam a rua. E também por ser tão poderoso ficou com menos castigo do que merecia, e depois que se viu livre da Justiça e foi para sua casa, tratou de se vingar nas testemunhas, que, com medo dele, não tinham dito a metade da verdade. E o primeiro foi o soldado José Mendes Ribeiro, de Tavarede, que esteve tão mal das ditas pancadas, que recebeu os Sacramentos. As mais se ausentaram da terra, tendo por melhor o degredo voluntário que se porem no perigo de cair nas suas mãos, menos certo soldado que se pôs na resolução de o matar no caso que o dito se resolvesse a quer ofendê-lo. E como assim o publicassem o dito se absteve do projecto com que andava. Também deu muita pancada na mulher de Rafael Lopes, da Figueira, Maria da Costa, e não só por suas mãos fez estes e outros distúrbios semelhantes, mas também pelos seus criados, como foi à mulher de Tomé de Carvalho, mandando-lhe dar muita pancada, de que esteve à morte, chamada Teresa Simões, de Tavarede, por um seu criado valente, chamado José Gomes. E não é necessário que os criados sejam muito valentes, porque a atrocidade do amo os faz ser cruéis e destemidos, fiados no respeito do mesmo.
            Que naqueles países de Tavarede, Figueira e lugares circunvizinhos, tem desflorado muitas donzelas e orfãs, como foram Teresa, do Couto de Quiaios, Maria Neta e Maria da Silva, da Figueira, e com esta andou muito tempo amancebado. Caetana Gonçalves e Maria de S. José, filhas de Manuel Francisco Matulo, de Tavarede, e mais duas filhas da dita Caetana Gonçalves, uma chamada Teodósia, outra Josefa Teixeira, coabitando com mães e filhas tudo a um tempo. Não falando em mulheres que lhe vão a casa, que dessas nenhuma escapa, e ainda as próprias criadas e escravas. E se alguma das ditas donzelas ou orfãs resistem e não consentem, no seu depravado ânimo lhes impõe testemunhos, dizendo que são mal procedidas e que o têm sido com ele muitas vezes, não se livrando as pobres da desonra da fama por se livrarem da da obra. Mas muitas vezes as pobres sem assistindo ao seu apetite escapam de que ele não diga logo o mal que lhes tinha causado, e assim têm sido muitas desonradas de obra e palavra, porque logo o publica pelo seu depravado ânimo e pouco temor de Deus.
            Que até a própria concubina, estribada no seu valimento, faz desacatos sem conta, porque a muitas mulheres honradas tem descomposto com nomes injuriosos, e a uma Josefa Vieira, mulher de Paulo da Cunha, quis-lhe dar com uma faca de ponta, andando ela em seu quintal. E a pobre mulher, com medo da faca, caíu com um acidente.
            Que o dito suplicado anda sempre armado com pistolas, facas, bacamartes, e foi a Buarcos arrombar a porta a uma mulher honrada, chamada Teresa Rocha, e a quis forçar pondo-lhe uma faca de ponta nos peitos, ao que a mulher resistiu e se livrou como pôde desta insolência. E não só destas usa, mas também seu filho mais velho, com o bom ensino do pai, que também foi uma noite com as mesmas armas à vila de Redondos, que fica pegada com a de Buarcos, e abriu a porta de uma estrebaria do padre Cura da dita vila e lhe furtou uma égua, e foi nela para as partes de Peniche, aonde a vendeu, e até ao presente a não restituiu. E entregando-lhe o alferes Manuel Bernardes, do Moinho da Mata, ao pé de Montemor-o-Velho, quarenta e tantos mil reis e um cavalo, para ele os entregar em Montemor ao licenciado Manuel Pereira da Silva, procurador do Cabido exponente, a quem o dito alferesera devedor, e por quem era executado, e lhos entregou na confiança de que pelo respeito do portador lhe fizessem algum rebate, ele o fez tanto pelo contrário, que fugiu com o dinheiro e cavalo, e enquanto tudo durou não tornou mais a casa, ficando o alferes sem o seu dinheiro e cavalo, que até agora se lhe não repôs. E o dito alferes foi preso pela dita dívida e morreu na cadeia. E o outro filho mais novo, chamado António Leite, vai seguindo as pisadas de seu pai e irmão, e já tem dado várias facadas, cometendo mulheres casadas e donzelas, e não só os ditos executam estes insultos mas também seus criados e familiares.
            Que tinha um capelão em casa, chamado padre Manuel Gonçalves, que, abusando das Ordens e do seu hábito sacerdotal, é contratador de cal e de bestas, e é rendeiro da Morraceira e companheiro na dita renda do Parada, de Coimbra. E também usa de armas defesas, como são pistolas, facas de ponta, e também tem descomposto muitas pessoas de bem a pau, como foi a Manuel Jorge Tega, de Tavarede, por este lhe não querer ir com o seu carro buscar uns poucos de paus e mato para o forno da cal, e o pôs à Santa Unção defronte das casas de seu amo, e tem feito o mesmo a muitas outras pessoas. E também anda amancebado, com mulheres de todo o estado, enfronhado no respeito de seu amo e fazendo como ele faz. E da mesma sorte são os mais criados, acompanhando a seu amo em vários distúrbios e com a capa dele,fazendo outros, usando das mesmas armas que ele usa, não só nas ocasiões em que ele os manda mas nas que eles tomam por sua conta pelo seu mau exemplo.
            Que o dito suplicado tem feito muitas mortes, porque matou a António Pedro, cunhado do Juiz da Alfândega da Figueira, de noite, com dois tiros de pistola, E deu tanta pancada em Manuel Ribeiro Bravo que este das mesmas pancadas morreu; como também matou um galego, no lugar do Pombalinho e da mesma sorte deu muita pancada em António Gil, marido de Nazaré Gonçalves, em forme que logo no outro dia morreu delas. E também deu tanta pancada em Manuel Ferreira Castanheira, da Figueira, que o deixou por morto, por este lhe pedir certa quantia de dinheiro que lhe devia de vaca, que lhe fiou do seu açougue em tempo, quando o dito Manuel Ferreira era marchante, sem embaraço de que até ao presente lhe não satisfez.
            Que também o mesmo suplicado deu muitas bofetadas na cara e pancadas no corpo de um seu tio, por nome de João de Quadros e Sousa, irmão de seu pai Pedro Lopes de Quadros, por o dito João de Quadros chamar sua mulher para sua casa, ao qual o dito suplicado ainda hoje traz muito atropelado por lhe não pagar uma tença de oitenta mil reis que seu pai lhe deixou, motivo porque se acha muito necessitado. Como também deu muita pancada em André Pessoa, da Várzea, e deu também tantas em Manuel da Silva, do lugar do Lírio da Alhada, que se lho não tirassem das mãos certamente o matava. Como também deu o suplicado com uma espada, de noite, em Bernardo Migueis, de Tavarede, e lhe lançou as tripas fora, e sem dúvida o mataria se não sucedesse topar-lhe a espada em um osso que a fez resvalar, excesso que obrou sem causa alguma justificada. E da mesma sorte deu muita pancada na mulher de Paixão Rodrigues, de Tavarede, por respeito de uma concubina que o suplicado tem há muitos anos, por causa da qual tem espancado a várias pessoas, que as testemunhas dirão.
            Que o suplicado se porta com tão pouca emenda daqueles excessos, que pouco tempo há que despedindo D. Isabel Senhorinha, mulher do médico de Leiria, Fernando Miguel, a um moleiro de um seu moinho, por este se não querer dar por despedido sem aquela lhe ajustar contas, pagando-lhe o que lhe restava, se valeu a dita D. Isabel do suplicado, para que este espancasse, ou mandasse espancar, ao dito moleiro, e com efeito o suplicado aceitando a deprecação o mandou espancar, por dois criados, um chamado José Borges, seu caçador, e outro Domingos de Carvalho, ambos de Tavarede, o qual Domingos Carvalho anda sempre soicado de armas a consentimento do dito suplicado.
            Que tanto é vício natural no suplicado e seus predecessores o viver com excessos e absolutos, que já aquela prática passou ao filho mais velho do suplicado, quando, próximo dos meses de Novembro ou Dezembro do ano de mil setecentos e cinquenta e quatro, tiranamente matou seu tio, o padre Frei Aires, religioso de S. Francisco, dando-lhe um tiro com uma espingarda, por este o repreender de alguns distúrbios que vinha de fazer no lugar da Figueira, além de outros que expostos ficam.
            Pede a Vossa Majestade se digne mandar que sobre o exposto informe o Corregedor da Comarca de Coimbra por direitos de testemunhas fidedignas e que para estas jurarem sem medo ou suborno, o suplicado seja exterminado na distância de trinta léguas e seus filhos, até se concluir  a diligência e pelo que constar administrar inteira justiça, para que o exponente e moradores do dito Couto e seu termo, de que é donatário, vivam sem a opressão do suplicado e sua família, tudo debaixo do protesto, no princípio desta representação expresso que o Cabido exponente aqui há por repetido. Espera receber mercê.

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 42


1972.12.06     -     A SIT NAS COMEMORAÇÕES DE “OS LUSÍADAS” (MAR ALTO)

                O “Mar Alto” registou, com o merecido relevo, a contribuição da Sociedade de Instrução Tavaredense nas comemorações do centenário da publicação de “Os Lusíadas”. Mas talvez não seja descabido referir ainda uma outra opinião sobre os amadores tavaredenses e o seu espectáculo comemorativo. Uma opinião como a de Hernâni Cidade, presidente da Comissão Nacional das Comemorações Camonianas.
                Numa carta que o qualificado professor dirigiu ao tavaredense sr. António Medina Júnior, director do “Jornal de Sintra” o Dr. Hernâni Cidade assim se pronuncia:
                “Sr. António Medina
                Meu prezado amigo:
                Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.
                Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoniano – El-Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica ,maneira de lha agradecer.
                José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra sua devoção cívica e sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneo.
                É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.
                Aqui tem, meu querido amigo, o que da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
                Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo, Hernâni Cidade.

EM TAVAREDE MORA O TEATRO (MAR ALTO)

                Tal como “Mar Alto” noticiou no seu último número, estreou-se na Sociedade de Instrução Tavaredense, em récita de aniversário, a peça do conhecido dramaturgo inglês William Shakespeare – “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.
                Estivemos presentes a mais esta noite de teatro em Tavarede, e sem pretendermos ser crítico teatral – porque o não somos – mas porque gostamos de teatro, não podemos deixar de aqui expor as nossas opiniões sobre mais esta obra de um clássico, que o grupo cénico da SIT nos proporcionou.
                À hora pontual, como é hábito na Sociedade de Instrução Tavaredense, teve início a récita com uma exposição de mestre José da Silva Ribeiro, que a jeito de intróito nos situou dentro da obra que se iria representar, e que simultaneamente, numa intencional linguagem simples e compreensível, nos deu uma bela lição de teatro. Se mais não valesse, só para ouvir mestre José Ribeiro, valeu bem deslocarmo-nos à SIT, pois que de um agradável espectáculo de teatro se tratou.
                É evidente que não poderemos comparar esta peça de Shakespeare a um “Romeu e Julieta”, mas sem dúvida que se trata de uma bela peça. A mensagem trazida até nós, tem ainda actualidade, se atentarmos na frase colocada na boca do Rei de França – que aliás traduz o sentimento de toda a peça – em que ele, insurgindo-se contra um dos seus fidalgos, por não querer casar com a filha de um plebeu – “filha de um simples médico” – pergunta irritado se o sangue dela não será igual ao seu – dele Rei – se há diferença na cor, no peso ou no aspecto. – Quando se pretende criar uma sociedade igualitária entre os homens, ainda hoje se poderia citar esta frase a muito boa gente.
                Só quem, como nós, conhece o trabalho de bastidores, poderá compreender o esforço necessário para que, comodamente instalados nas nossas cadeiras, pudéssemos apreciar esta representação. – É todo um trabalho persistente de estudo, ensaios, o montar e desmontar das cenas – que não quebraram o ritmo do espectáculo – é enfim um mundo de ocupações.
                Foi com simpatia que vimos no palco da SIT alguns jovens – hoje que a juventude se espalha por diversas ocupações, nem sempre as mais recomendadas – que a par de alguns “velhos”, nos deram um belo exemplo e nos fazem confiar no futuro da nossa juventude. Lado a lado com os já consagrados – João Medina, Fernando Reis, José Medina, Manuel Lontro, vimos, entre outros, os jovens Ana Paula Fadigas e Francisco Carvalho – que julgamos serem estreantes – e que julgamos serem promissoras as suas aptidões para o teatro, – nunca a coragem e boa vontade vos falte. – Uma palavra ainda para Maria Conceição Mota, que para nós foi uma agradável revelação.
                Tratou-se de uma estreia, e estamos certos, ou não conhecessemos os métodos de trabalho da SIT, de que algumas arestas serão ainda limadas. Para todos os que gostam de teatro, aconselhamos a que em sessões futuras se desloquem a Tavarede e a par de um belo espectáculo, aceitem uma boa lição de teatro, pois que “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.

1973.01.18     -     PROF. DR. HERNÂNI CIDADE (A VOZ DA FIGUEIRA)

                É de arquivar, nas nossas colunas a seguinte carta dirigida pelo Prof. Hernâni Cidade a António Medina Junior e inserta no seu Jornal de Sintra.
                               “Sr. António Medina, Meu prezado amigo:
                Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.
                Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão expontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano - El Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela - a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer.
                José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração, que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra a sua devoção cívica e sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneio.
                É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.
                Aqui tem, meu querido amigo, o que, da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
                Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo
                                                                                                              Hernâni Cidade”

1975.03.15     -     UMA ESTREIA EM TAVAREDE (O DEVER)

                Eu que não assisto a nenhuma estreia, fui desta vez a uma, sem constrangimento, com prazer. Isto aconteceu num lugar pouco conhecido, porém, o mais teatral de Portugal: em Tavarede. Vila de 500 habitantes – perto da Figueira da Foz -, possui um grupo de teatro amador já famoso e cujo mentor, José Ribeiro, não precisa das acções de dinamização cultural vindas de fora, porque ele a dinamiza há já algumas dezenas de anos, e de dentro.
                Na verdade, em Tavarede faz-se mais teatro do que em Lisboa e do que em Paris e Londres; vejam bem: dos 500 habitantes, na última estreia, vimos cerca de 40 actores, uma dúzia ou mais de músicos tocando no fosso da orquestra, 20 técnicos de cena, enfim, uma percentagem considerável da população local.
                A peça estreada chama-se “Mesa-Redonda” e o seu autor-compilador é uma vez mais o infatigável José Ribeiro, 80 anos passados, mesmo após uma recente grave doença, continua cheio de “verve” e quando ainda, os outros têm de correr atrás. Diz-se: o que há de bom em Tavaredem é a água e o José Ribeiro. Mas voltando ao espectáculo: era o exemplo vivo da aliança da cultura “culta” (Gil Vicente, Sóror Mariana, Cântico dos Cânticos) com as preocupações locais e até políticas do momento, uma revista “sui generis”, com quatro “compères” (de mesa-redonda quadrada), com música, canções, finais e tudo, com dezenas de cenários ou apontamentos montados num abrir e fechar de olhos, rigorosamente, sem falha; e, dentro desse global recreativo os textos muito belos e sérios.
                A estreia foi um êxito, mas o eco não chegoum que eu saiba, a Lisboa. Ficou no seu lugar para o qual foi concebido o espectáculo, com honestidade, trabalho e talento, sem modas e oportunismos. E quase me penitencio de falar nele, neste jornal: é como desvendedar deslealmente um segredo, embora movido pela simpatia, admiração, e até mais.
                Eis o abraço do espectador de estreia, desta vez não renitente. (a) Jorge Listopad.
                N.R. – Respigámos do “Diário de Notícias”, de há dias, este belo “naco” de prosa, e aqui o transcrevemos, com aprazimento, em homenagem, bem merecida, ao nosso ilustre conterrâneo – alma-mater do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense – José da Silva Ribeiro.