sábado, 15 de setembro de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 21


            
              
              Depois do falecimento de seu marido resolveu vir viver para Tavarede. Chegada à nossa terra, decidiu passar peocuração a seu primo António Xavier Juzarte de Quadros, morador em Coimbra, que, anos mais tarde, acabaria por ter grande influência nos factos que ocorreram e que tiveram enorme consequência no seu destino.        Também foi em Tavarede que D. António Madalena tomou amizade com João Anselmo de Melo Barreto de Eça, natural de Águeda, que adiante participará na história e o qual viria a ser nomeado seu mordomo e administrador.

            Embora possuidora de rendimentos elevados, isto durante os anos de 1805 a 1809, várias foram as causas que, especialmente a partir dos finais de 1807, trouxeram a decadência à Morgada de Tavarede. … As dívidas que ficaram de seu marido, a necessidade (e vontade) de viver de acordo com a sua condição social, a necessidade de dar destino aos filhos, alguma inabilidade e a certa falta de preparação para a gestão dos seus bens, os muitos interesses de terceiros que giravam à volta dessa administração e principalmente as consequências locais das invasões francesas serão as causas mais seguros para o descalabro económico… (A Casa de Tavarede).

            Terá sido para sua segurança que D. Antónia Madalena resolveu ir para Lisboa, por volta do ano de 1810, acompanhada de sua filha, a qual, por ordem do principe regente D. João, havida sido recolhida no convento da Visitação, em Lisboa, como educanda, tendo seu filho sido educado no Colégio dos Nobres.

            Entretanto seu filho, feito barão e mais tarde conde de Tavarede, como veremos, casou em 1810, tendo então 16 anos, com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araujo e Meneses, de Trancoso, tendo D. Antónia Madalena dotado seu filho com a propriedade e o usufruto de um terço dos bens livres e administração e uso da Casa de Tavarede, vínculos e prazos, bens livres, em cujo governo entraria logo que casasse… … ficando este obrigado a pagar-lhe 2 800 000 reis anuais, em mesadas iguais… vivendo ela separada do filho.

            No caso de seu filho faltar às obrigações nomeadas no dote, D. Antónia Madalena poderia tomar de novo a administração da casa de Tavarede, ficando, no entanto, com a obrigação de lhe dar 6 000 cruzados anualmente, a título de alimentos.

            O jovem casal passou a residir em Tavarede, conjuntamente com os  pais da noiva. Desentimentos vários, inclusivé a falta do pagamento das verbas estipuladas, levaram D. Antónia Madalena a ir residir para Lisboa, acolhendo-se no Convento de Santos, juntamente com sua filha, pois tivera de a retirar do convento da Visitação, por não ter possibilidades económicas de ali a manter.

            Devido a várias tropelias cometidas por seu filho e, especialmente, pelo pai de sua nora, retirados, entretanto, para Trancoso, D. Antónia, na tentativa de evitar que a Casa de Tavarede, da qual recobrara a administração, fosse consumida pelas exigências dos credores, recorreu à administração judicial de sua casa. A administração foi concedida por provisão de 12 de Novembro de 1810, tendo sido nomeado juiz administrador o Desembargador José António da Silva Pedrosa.

            Foram duas as causas principais para a grande quebra de rendimentos da Casa de Tavarede. A primeira causa era devida às invasões francesas que trouveram grande instabilidade a quem vivia de seus rendimentos. A segundo, e principal, terá sido o péssimo exercício da administração que, sendo exercida por juizes residentes em Lisboa, permitiam negócios e concluios altamente lesivos da a Casa.

            Parece que a culpa de tudo o que se passava era do Desembargador Pedrosa, que passou a julgar-se dono e senhor da Casa de Tavarede. Deixou de cumprir o pagamento da pensão a que D. Antónia tinha direito, ficando esta de tal forma que, em Julho de 1811, teve de sair do convento de Santos, visto não ter com que ali pudesse sobreviver decentemente.

            Por aviso régio de Fevereiro de 1811, obtivera o favor de mandar recolher, até ao final de Março, sua filha no convento da Visitação, a título de acabar a sua educação. A pensão estabelecida era de 60 000 reis mensais, que só davam para tenda, aguadeira e lavadeira.

            De qualquer forma procurava não descurar os negócios da Casa de Tavarede. Diz D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, Senhora de Tavarede, viúva de Francisco der Almada e Mendonça, que tendo obtido de Sua Majestade a graça de lhe conceder uma administração judicial para a sua Casa de Tavarede, de que V.Exª. é digníssimo Juiz, vem a Suplicante informar que representam a sua Casa com mágoa e defraudação, pelo que a sua Casa está sofrendo em alguns dos seus direitos. E principia, agora no presente requerimento, pelo abuso que várias pessoas da Figueira, Lavos e Vila Verde, têm feito da passagem para a Ínsua da Morraceira, sem reconhecimento, licença ou facultado deste Juizo ou da Suplicante.
            Entre os bens desta Casa se compreende a dita Ínsua da Morraceira, que é uma ilha próxima à foz do Mondego, cuja ilha é toda da Suplicante, e compondo-se de salinas, é a passagem para a dita ilha privativa da Casa da Suplicante, e ninguém pode atravessar por ela senão nos barcos estabelecidos para esse fim, e de cuja passagem pagam direitos, desde tempo imemorial, à Casa da Suplicante, tendo havido já sentenças obtidas pela Suplicante e seus antepassados a favor destes direitos.
            Acontece, pois, que ao presente muitas pessoas, com ofensa destes direitos, põem barcos para a passagem para a Morraceira, sem quererem reconhecer este Juizo ou a Suplicante, como senhora exclusiva deste direito, e por isso ela recorre a esta administração para que se digne mandar ordem ao Juiz de Fora da Figueira, a fim de se evitar este abuso, fazendo-se citar quaisquer pessoas que tenham barcos para a dita passagem, para mais o não praticarem, sem reconhecimento a este Juizo ou à Suplicante, com a pena de que fazendo o contrário lhe serem apreendidos e inutilizados os barcos, intimando-se igualmente Domingos José da Costa, da vila da Figueira, actual recebedor das rendas da Casa da Suplicante, para que com o seu conhecido zelo, fiscalize o exacto cumprimento da ordem sobredita, pondo os barcos necessários, fazendo os ajustes convenientes e recebendo o produto destes direitos, da mesma forma que recebe as mais rendas da Casa da Suplicante.
            A V.Senhoria se digne assim o haver por bem. D. António Madalena de Quadros e Sousa

            D. Antónia Madalena nunca negou as dificuldades que passou e que, para lhes fazer face, tivera de vender bens e contrair dívidas. … ocultava a venda do prazo de Torres Vedras e a das jóias, móveis, carruagens e bestas… E para encobrir a sua prodigalidade fingia despesas arbitrárias que jamais poderia comprovar… (A Casa de Tavarede)

            Entretanto o Desembargador Pedrosa foi substituido, em Dezembro de 1811, pelo Desembargador da Casa de Suplicação José Guilherme de Miranda. E em Março de 1813, a morgada regressou a Tavarede, onde passou a viver.e em Junho daquele ano tem lugar o casamento de sua filha, D. Ana Felícia, com D. Tomás da Cunha Manuel Henriques de Melo e Castro, senhor do morgadio da Roliça, moço fidalgo da Casa Real, tenente coronel do Regimento de Milícias da Figueira da Foz, condecorado com a medalha da Guerra Peninsular e que havia nascido em 1777.

sábado, 8 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 44


1979.05.11     -     O PROCESSO DE JESUS (BARCA NOVA)

                “... se existe perfeição e harmonia, tanto na peça como na sua interpretação dependem um do outro e têm valor por si próprios. Não pode assim existir uma reprodução fiel, objectiva, duma obra teatral: não teria interesse, nem sequer como ideal”. Assim, assistimos a um espectáculo bem elaborado nos seus múltiplos aspectos, ainda que se possa afirmar que a nível do texto dramático a argumentação feita pelo Intelectual não seja profunda, do que resulta a defesa aberta da religião.
                Como resultado do perfeito conhecimento da função de um encenador e de acordo com a opção estética feita, este espectáculo tem uma encenação correcta e equilibrada, o que não surpreende ninguem, pois o seu responsável é um profundo conhecedor da técnica teatral.
                Quanto ao trabalho dos actores é homogéneo, havendo uma boa construção de todas as personagens. Porém, as falas de João são excessivamente gritadas, o que denota mau controlo da voz e (ou) nervosismo do intérprete. O trabalho dos actores é homogéneo, mas não podemos deixar de salientar a interpretação de João de Oliveira Júnior e dessa grande senhora de teatro que é Violinda Medina e Silva, de quem nunca esqueceremos a sua interpretação do “Pranto de Maria Parda”, de Gil Vicente.

1980.02.22     -     SHAKESPEARE EM TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                Prossegue amanhã, dia 23, a carreira da nova peça da Sociedade de Instrução Tavaredense, “Rosalinda”, encantadora comédia romântica do genial Shakespeare, adaptação em 5 actos e 12 cenas da célebre peça “As You Like It”.
Um grande e belo espectáculo o que está em cena no Teatro de Tavarede. E o brilhante êxito alcançado – com lotações esgotadas – plenamente se justifica pela beleza, ternura e graça da peça, construída no riquíssimo e vigoroso estilo do imortal dramaturgo, recheada de situações de grande efeito teatral.
A montagem da peça honra a tradição tavaredense: interpretação excelente de um conjunto de 30 figuras, primorosamente vestidas com rico e belo guarda-roupa histórico do grande artista Anahory, e cenários de grande beleza nas 12 cenas em que se desenvolve a acção – fins do século 16.

1980.05.08     -     JORNADAS DE TEATRO AMADOR (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Distribuição: Camila de Almeida, viúva inconsolável de Plácido de Almeida, Maria da Conceição Mota; Maria Joana, amiga íntima de Camila, Maria de Lurdes Lontro; Becas (Maria José de Meneses) filha de Camila e de Vasco Meneses, Ana Paula Fadigas; Ângela, afilhada de Plácido de Almeida, Ana Maria Bernardes; Madalena, Condessa de Laranjeiro, Maria Adelaide Carvalheiro; uma criada, Helena Carvalho; Cândido Ventura, João Medina; Vasco Meneses, 1º. marido de Camila, João de Oliveira; Conde de Laranjeiro, Fernando Reis; Luisinho, filho de Camila e Vasco, Francisco Carvalho; Pitó, noivo da Becas, João José Silva; Negrão, proprietário da agência funerária, José Luís Nascimento; e Valadas, repórter, Antonino Santos.
                Foi o ponto final que se esperava, a preencher a 10ª. e derradeira sessão das jornadas teatrais deste ano, que as colectividades do concelho levaram, cada uma com os cabedais de que dispunha, ao palco do Casino Peninsular, por iniciativa, nunca assás louvada, do Lions Clube da Figueira da Foz, iniciativa que é de prosseguir para estímulo das actividades culturais, tão carecidas de positivo apoio.
                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, a que José Ribeiro imprime a sua dedada de mestre inconfundível e incontestado, era aguardado com singular expectativa. A representação da “Comédia da Morte e da Vida” constituiu vigorosa sessão de teatro, levada a um nível e homogeneidade difíceis de atingir.
                Novos e velhos brilharam a grande altura.
                Entre os novos, justo se torna enaltecer o excelente trabalho de Ana Paula Fadigas, Ana Maria Bernardes, Maria da Conceição Mota e Francisco Carvalho. Este último parece ter sido talhado para o papel.
                Dos antigos assinalem-se presenças inesquecíveis, tantas vezes reveladas no palco de Tavarede, escola de autênticos artistas que não destoariam nos palcos de teatro profissional. Citemos os seus nomes com a merecida admiração: Maria de Lurdes Lontro, Helena Carvalho, João Medina, João de Oliveira, Fernando Reis, José Luís do Nascimento.
                O público aplaudiu e, no fim, não se dispensou de fazer uma chamada a José Ribeiro, cuja cadeira na plateia não ocupou desta vez como espectador fiel, para dentro do proscénio estar atento ao desenrolar da representação – mais uma que o seu talento e inexcedível devoção ao teatro proporcionaram aos seus admiradores.
                Da peça nos apraz notar que é bem construída, com excelentes diálogos e vincada intenção crítica.
                Henrique Galvão – o antigo director da Emissora Nacional, mais tarde tresloucado chefe do assalto ao paquete “Santa Maria” – era um escritor bem dotado e em “Comédia da Morte e da Vida” mostrou que possuia garra de dramaturgo. Podia ter deixado obra mais extensa, se não fosse a vida aventurosa em que nos últimos anos se lançou.

1980.05.09     -     COMÉDIA DA MORTE E DA VIDA (BARCA NOVA)

                ... A encenação de Mestre José Ribeiro está dentro da linha e do nível a que nos habituou, apresentando uma leitura correcta e um bom equilíbrio entre todos os seus elementos: o estilo, o ritmo e o tempo, a distribuição, a implantação da cena e a marcação.  A representação é homogénea, havendo uma boa construção de todas as personagens, apesar de algumas falhas nas personagens do Cone do Laranjeiro, do Pitó e de Valadas. Pensamos que actores como João Medina e João de Oliveira além dessa grande senhora que se chama Violinda Medina e Silva, têm garantida a sua sucessão com Ana Paula Fadigas e Ana Maria Bernardes. Fazemos votos para que o mesmo possa suceder com Mestre José Ribeiro para glória da Sociedade de Instrução Tavaredense e do teatro de amadores da região.

1980.05.14     -     COMÉDIA DA MORTE E DA VIDA (MAR ALTO)

                Verdadeiramente excepcional o êxito alcançado pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense com a representação da notável peça de Henrique Galvão – Comédia da Morte e da Vida.
                Trata-se, na verdade, de uma autêntica obra-prima de teatro, forte, vigorosa, de primoroso diálogo e acção empolgante – uma peça actual, de ontem e de hoje. O grupo de Tavarede apresenta-a num conjunto de tal modo equilibrado que a representação constituiu um verdadeiro triunfo dos amadores tavaredenses.
                Comédia da Morte e da Vida pode ainda ser vista uma vez, no próximo sábado, dia 17, às 21,45 horas.

1980.05.16     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                Verdadeiramente excepcional o êxito alcançado pelo grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense com a representação da notável peça de Henrique Galvão, “Comédia da Morte e da Vida”.
                Trata-se, na verdade, de uma autêntica obra-prima de teatro, forte, vigorosa, de primoroso diálogo e acção empolgante – uma peça actual, de ontem e de hoje. O grupo de Tavarede apresenta- num conjunto de tal modo equilibrado que a representação constituiu um verdadeiro triunfo dos amdores tavaredense

1980.06.25     -     GRUPO DE TAVAREDE EM TOMAR (MAR ALTO)

                No passado dia 5 de Junho, deslocou-se a Tomar a grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, representando na cidade do Nabão a bela obra de Henrique Galvão Comédia da Morte e da Vida, em benefício da Filarmónica Gualdim Pais.
                Tomar foi uma cidade onde os amadores de Tavarede sempre se deslocaram com certa frequência, já que foram imensas as representações ali efectuadas. Muitas das vezes, com a chegada da embaixada de Tavarede, o comércio fechava, a cidade parava, as Filarmónicas e os carros dos Bombeiros vinham para a rua, e os humildes amadores da SIT eram disputados, pois todos os pretendiam fazer deslocar para os seus carros.
                Houve um grande interregno, e há já muitos anos que a SIT se não deslocava a Tonar. No passado dia 5 os jovens amadores – jovens de todas as idades, onde permanece firme mestre José Ribeiro – foram recebidos com as manifestações de carinho de sempre.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 20


António Leite de Quadros e Sousa

9º. Senhor de Tavarede – Morgado
  
            D. Brites Josefa da Silva e Castro faleceu em Tavarede a 16 de Janeiro de 1781, sendo sepultada no convento de Santo António, da Figueira da Foz. Foi então que seu segundo filho, António Leite de Quadros e Sousa herdou o senhorio de Tavarede e o morgado.

            Em 13 de Janeiro de 1753, por mercê régia, foi moço fidalgo da Casa Real, sendo dotado com 1 000 reis de moradia por mês e um alqueire de cevada por dia. Seguiu a carreira militar, assentando praça, voluntariamente, como cadete no regimento de Cavalaria de Dragões. Foi promovido a tenente em Junho de 1759. Serviu no regimento da guarnição da Corte, com cuja companhia marchou para o acantonamento do Ribatejo e esteve na campanha da guerra.

            Regressando à Corte, foi promovido a capitão, por patente de 1 de Junho de 1769. Esteve colocado em Lisboa até Janeiro de 1770, data em que passou a Capitão do Regimento de Cavalaria de Elvas.

            Em Elvas estava ainda colocado em 1779, mostrando porém as várias licenças que o puzeram inactivo durante quase todo esse ano, que as aproveitava para se deslocar a Tavarede. A expectativa de suceder na Casa de Tavarede, agora aumentada pela prisão do irmão, são sem dúvida a causa de ter requerido em Outubro de 1779, que os seus 21 anos de serviço sem remuneração fossem compensados pela mercê de um hábito da Ordem de Cristo, com a tença efectiva que lhe competia e a faculdade para renunciar. Não pretendia certamente abandonar o serviço militar, onde militara ‘sempre com distinta honra e louváveis procedimentos, sem nota ou baixa em seus assentos’, sem receber qualquer compensação, escreve-se em ‘A Casa de Tavarede’.

            No ano seguinte, 1780, esteve colocado em Lisboa como capitão de cavalos das tropas da Rainha, tendo regressado a Tavarede nos princípios de 1781.

            Havia constituído seu procurador o seu capelão, o reverendo José Vieira Pinto, residente em Tavarede, habilitando-o a celebrar escrituras de aforamento e para efectuar reconhecimentos e pedir a renovação dos prazos da Morraceira e de Lares, caso as vidas estivessem extintas.

            Durante os anos de 1780 a 1785 novos aforamentos foram feitos no Figueira. As escrituras relativas a estes aforamentos revelam que no tempo de António Leite de Quadros e Sousa se concediam para construção de casas terrenos de 40 palmos de frente para as ruas que iam sendo abertas

            Também continuou com a administração dos fornos de poia, mediante arrendamentos ou aforamentos. Em 1785 requereu à Câmara da Figueira licença para mudar o seu forno sito na Rua Bela para a Ladeira da Lomba, tendo o pedido sido deferido com a condição de reparar o caminho para o local da nova construção.

            Faleceu em Tavarede no dia 10 de Outubro de 1785, solteiro e sem deixar descendência. Parece que estava para casar. Foi o último da família a ser sepultado na capela mor do convento de Santo António, da Figueira.

            Antes de falecer fez testamento deixando como sua sucessora e herdeira a sua sobrinha D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.

sábado, 1 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 43


1976.06.04     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense estreia amanhã, no seu teatro, a peça em 3 actos “Monserrate”, original de Emmanuel Robles e tradução de Francisco Mata.
                “Monserrate” é uma peça de construção clássica, nela se reunindo as três unidades – de tempo, de lugar e de acção. Decorre toda ela na sala da guarda da Capitania General em Valência de Venezuela e sem interrupção. O ponto de partida desta acção refere-o a rubrica da peça:
                “Julho de 1812. O chefe venezuelano foi batido e capturado na grande batalha de 11 de junho pelo Capitão-General Monteverde. Simão Bolívar, lugar-tenente de Miranda, conseguiu pôr-se em fuga. Escondido pelos patriotas, escapa às buscas dos perseguidores. Os espanhóis ocupam três quartos do país. A repressão é terrível. Sucedem-se os massacres e pilhagens”.
                Bolívar, o “Libertador”, é a grande figura da obra, sempre presente, embora nunca apareça em cena. Duas personagens dominam os três actos, Monserrate e Izquierdo, travando-se espantoso e aliciante duelo, numa linguagem que o Autor dá rica de beleza, de vigor e de verdade, cheia de força dramática, em que se aliam a violência e a ironia, num realismo sem quebra.

1976.09.10     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                No último sábado o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve uma grande enchente: lotação esgotada, e muitos pedidos de lugar só poderão ser atendidos na próxima representação.
                “Monserrate” dominou a assistência, que no 3º acto se não conteve e interrompeu a representação com calorosa salva de palmas. Esses aplausos repetiram-se no final, mais demoradamente e com entusiasmo.
                Isto quer dizer que no próximo sábado, dia 11, terá nova enchente o Teatro de Tavarede.

1978.01.25     -     EM TAVAREDE MORA O TEATRO (MAR ALTO)

                Tal como “Mar Alto” noticiou no seu último número, estreou-se na Sociedade de Instrução Tavaredense, em récita de aniversário, a peça do conhecido dramaturgo inglês William Shakespeare – “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.
                Estivemos presentes a mais esta noite de teatro em Tavarede, e sem pretendermos ser crítico teatral – porque o não somos – mas porque gostamos de teatro, não podemos deixar de aqui expor as nossas opiniões sobre mais esta obra de um clássico, que o grupo cénico da SIT nos proporcionou.
                À hora pontual, como é hábito na Sociedade de Instrução Tavaredense, teve início a récita com uma exposição de mestre José da Silva Ribeiro, que a jeito de intróito nos situou dentro da obra que se iria representar, e que simultaneamente, numa intencional linguagem simples e compreensível, nos deu uma bela lição de teatro. Se mais não valesse, só para ouvir mestre José Ribeiro, valeu bem deslocarmo-nos à SIT, pois que de um agradável espectáculo de teatro se tratou.
                É evidente que não poderemos comparar esta peça de Shakespeare a um “Romeu e Julieta”, mas sem dúvida que se trata de uma bela peça. A mensagem trazida até nós, tem ainda actualidade, se atentarmos na frase colocada na boca do Rei de França – que aliás traduz o sentimento de toda a peça – em que ele, insurgindo-se contra um dos seus fidalgos, por não querer casar com a filha de um plebeu – “filha de um simples médico” – pergunta irritado se o sangue dela não será igual ao seu – dele Rei – se há diferença na cor, no peso ou no aspecto. – Quando se pretende criar uma sociedade igualitária entre os homens, ainda hoje se poderia citar esta frase a muito boa gente.
                Só quem, como nós, conhece o trabalho de bastidores, poderá compreender o esforço necessário para que, comodamente instalados nas nossas cadeiras, pudéssemos apreciar esta representação. – É todo um trabalho persistente de estudo, ensaios, o montar e desmontar das cenas – que não quebraram o ritmo do espectáculo – é enfim um mundo de ocupações.
                Foi com simpatia que vimos no palco da SIT alguns jovens – hoje que a juventude se espalha por diversas ocupações, nem sempre as mais recomendadas – que a par de alguns “velhos”, nos deram um belo exemplo e nos fazem confiar no futuro da nossa juventude. Lado a lado com os já consagrados – João Medina, Fernando Reis, José Medina, Manuel Lontro, vimos, entre outros, os jovens Ana Paula Fadigas e Francisco Carvalho – que julgamos serem estreantes – e que julgamos serem promissoras as suas aptidões para o teatro, – nunca a coragem e boa vontade vos falte. – Uma palavra ainda para Maria Conceição Mota, que para nós foi uma agradável revelação.
                Tratou-se de uma estreia, e estamos certos, ou não conhecessemos os métodos de trabalho da SIT, de que algumas arestas serão ainda limadas. Para todos os que gostam de teatro, aconselhamos a que em sessões futuras se desloquem a Tavarede e a par de um belo espectáculo, aceitem uma boa lição de teatro, pois que “TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM”.

1978.04.13     -     CORRIGINDO UM LAPSO DO PROF. PAULO QUINTELA (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A propósito da divulgação do teatro de Gil Vicente e uma entrevista dada pelo prof. Paulo Quintela ao jornal “Diário de Notícias”
                .........................
                Ora a verdade é que a velhinha Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada ali na vizinha e ridente povoação de Tavarede, a “Terra do Limonete”, em 1904 e desde então ininterruptamente dedicada, sem quebras nem desfalecimentos, a uma louvável obra de educação e cultura do povo, desfruta também de inteiro e inegável direito a figurar entre os agrupamentos cénicos que, de forma efectiva e permanente, têm dado notável contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente, fazendo-o com elevado nível artístico e invulgar persistência e dedicação.
                Há 62 anos sob a orientação do mesmo director artístico, José da Silva Ribeiro, um verdadeiro mestre de teatro e que o serve com uma devoção e uma competência inexcedíveis, bem pode afirmar-se, sem receio de contestação, que o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, se conta hoje entre os melhores do país.
                Mas este homem, dominado pela profunda convicção de que, perante os incapacitados para a leitura, a arte dramática deve ser, tem de ser, precioso elemento da grande obra de difusão da cultura, não podia deixar de dedicar particular atenção à escolha do respectivo reportório. E assim é que, para além de ter levado à cena, mais de uma dúzia de originais da sua autoria (só ou em colaboração) e mais de meia dúzia de traduções e adaptações por ele efectuadas, fez representar pelo menos quatro peças de Shakespeare, outras tantas de Molière e também dos Irmãos Quintero, além do teatro de Almeida Garrett, D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Pinheiro Chagas, Chagas Roquette e uma infinidade de outros mais, tanto portugueses como estrangeiros, mas sujeitos todos a criteriosa escolha e selecção. E toda essa vasta, vastíssima, galeria de obras, autores e personagens, encenada com rigorosa subordinação ao princípio de que, sobre as tábuas dum palco, os defeitos da representação atingem tal relevância, que chegam a perverter as próprias virtudes dos textos.
                Do que fica dito já será fácil de prever que um homem de teatro como José da Silva Ribeiro dificilmente poderia deixar de dar no seu teatro, a Gil Vicente, o lugar de relevo que ele merece e toda a dimensão que estivesse ao seu alcance.
                Assim, portanto, nenhuma admiração nos deve causar que ele tenha feito representar pelos seus amadores tavaredenses nada menos de onze originais vicentinos. A começar do “Auto da Mofina Mendes”, seguido do “Auto da Barca do Inferno”, de “Todo o Mundo e Ninguém” (do “Auto da Lusitânia”), do “Auto Pastoril Português”, da “Farsa do Velho da Horta”, do “Pranto da Maria Parda”, do “Dom Duardos”, de fragmentos do “Auto Pastoril Português”, “Romagem dos Agravados” e “Breve Sumário da História de Deus” e a acabar no “Auto da Feira”.
                Extraordinária sim, temos de considerar a divulgação desse repertório para além de Tavarede. Através de famosa “campanha vicentina” em redor do concelho e visando as suas aldeias rurais. De deslocação a Coimbra, ao Teatro Avenida, com “Noite de Teatro Português”. De comemoração do “Dia Mundial do Teatro”. E de comemoração do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”. Em qualquer dos casos em espectáculos realizados nesta cidade e promovidos pelos Serviços Culturais da Biblioteca Municipal da Figueira. Um repertório que havia também de dar lugar a uma admirável, inesquecível e verdadeira criação artística de Violinda Medina, no “Pranto da Maria Parda” e numa interpretação com a qual, sem o mínimo de exagero se pode dizer, poucas e destacadas profissionais seriam capazes de ombrear.
                Para além do que fica referido, quanto não poderia e deveria ainda escrever-se sobre o assunto. Se para tanto houvesse maior jeito e o espaço o permitisse.
                Cremos, no entanto, que mais não será preciso para comprovar que houve lapso do Prof. Doutor Paulo Quintela quando não incluiu os amadores tavaredenses, de José da Silva Ribeiro, entre os que muito se empenharam em dar o seu contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente.

1978.04.27     -     TEATRO AMADOR DA FIGUEIRA DA FOZ (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Não podia ter sido escolhido melhor título nem mais nivelado grupo de amadores (nivelamento por cima) para fecho das II Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, do que o grupo cénico de José Ribeiro, que nas I Jornadas, por motivos alheios à sua vontade, esteve ausente.
                A presença dele nas Jornadas deste ano enriqueceu-as. É que o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense pode chamar-se um grupo padrão.
                A peça escolhida – a comédia em 5 actos e 13 quadros, de Shakespeare, pode não cair no pleno agrado de todos os espectadores. Mas não deixa por isso de ser uma peça de difícil execução, o que para José Ribeiro nunca constituiu motivo de recusa. Ele até faz gala em transportar as dificulades que se lhe apresentam. E vence-as sempre, sejam elas de que natureza forem.
                “Tudo está bem quando acaba bem” foi montada com dignidade e representada ao nível do grupo cénico tavaredense, com muitos figurantes ainda noviços, mas já bem seguros e conscientes das suas responsabilidades.
                Dos velhos há que assinalar, nos principais papéis, a excelente presença de João Medina, José Medina, Fernando Reis, Manuel Lontro e José Luís do Nascimento, no naipe masculino. No feminino, Maria de Lourdes Lontro e outras.
                Ana Paula Fadigas, Ana Maria Bernardes e Maria Conceição Mota, as mais novas, vão muito bem nas figuras que compuseram.
                Parabéns a todos, porque todos deram, como dissemos, um contributo nivelado para a construção deste espectáculo.

1978.05.03     -     II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (O FIGUEIRENSE)

                “Tudo está bem quando acaba bem”. Assim diz o povo e assim se intitula a comédia que a Sociedade de Instrução Tavaredense trouxe no dia 25, ao palco do Teatro Peninsular, para encerramento das II Jornadas de Teatro Amador, em boa hora organizadas pelo benemérito Lions Clube da Figueira da Foz.
                Pode dizer-se que esta benéfica manifestação de actividade cultural em que participaram onze colectividades do nosso concelho, terminaram, também, como soi dizer-se, com “chave de ouro” e com dedo de mestre. José da Silva Ribeiro, considerado como um dos mestres do teatro português, ofereceu ao público que durante quase três meses semanalmente foi dar incitamento aos amadores figueirenses, uma excelente peça da autoria do imortal Shakespeare, com adaptação do ilustre tavaredense. E do espectáculo a que assistimos, não sabemos o que mais elogiar: se a representação em si admirável, pois todos os amadores, a maioria com craveira artística, foram contribuintes do êxito que ele alcançou, se da encenação em que tudo foi condigno, cenários e riquíssimo e variado guarda-roupa.
                Uma bela noite de teatro. Parabéns aos distintos amadores, ao mestre José Ribeiro, à SIT e ao Lions, que se propõe continuar, no próximo ano, esta bela iniciativa.

1978.05.05     -      II JORNADAS DE TEATRO AMADOR (BARCA NOVA)

                Com William Shakespeare e o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, terminaram no passado dia 25 de Abril as II Jornadas de Teatro Amador, uma organização do Lions Clube desta cidade, como temos vindo a referir.
                Tudo está bem quando acaba bem foi a peça à qual couberam as honras do encerramento das jornadas e com a qual, teatralmente, foi atingido o ponto mais elevado deste certame.
                Partindo de um texto menos conhecido de Shakespeare, os amadores tavaredenses souberam construir um espectáculo, sem dúvida belo, beleza essa que assenta principalmente na sumptuosidade do guarda-roupa e na diversificada cenografia. Sobre a peça, não vale a pena determo-nos na sua análise, pois ela foi escrita por um dos “grandes génios literários e dramáticos da literatura mundial de todos os tempos”, talvez por ter sabido captar, como poucos, o particular e o universal simultaneamente.
                É justo realçar a magnífica interpretação dos amadores tavaredenses, que bastante contribuiu para o elevado nível artístico do espectáculo apresentado. Sem desprimor para nenhum dos outros elementos do elenco tavaredense, registem-se as intervenções de João Medina, José Medina, Fernando Reis, José Luís do Nascimento e Ana Paula Fadigas.

1978.11.16     -     UMAS BODAS DE DIAMANTE NOTÁVEIS (A VOZ DA FIGUEIRA)

                A história dos primeiros 50 anos de vida dessa prestigiosíssima colectividade que é a Sociedade de Instrução Tavaredense, está fielmente retratada num livro comemorativo das respectivas “Bodas de Ouro”, da autoria do distinto jornalista, nosso conterrâneo, José da Silva Ribeiro, que propositadamente a escreveu em linguagem escorreita e cuidada, mas num estilo singelo, que revela clara intenção de pretender interessar pessoas de todos os graus de cultura e ser perfeitamente entendido mesmo pelos mais humildes dos seus leitores. Ela apenas pecará por uma sobriedade da apreciação de excepcional e admirável Obra levada a cabo, que bem se compreende e aceita, por o autor ser desde longa data o grande, esclarecido e proficiente mentor, guia e esteio dessa mesma Obra. O que a nós, estranhos a ela, mas seus incondicionais admiradores, nos cumpre suprir.
                Foi a 15 de Janeiro de 1904, que em Tavarede, ridente povoação dos arredores da Figueira, mas modesto aglomerado rural de menos de mil habitantes, catorze homens, todos de humílima condição social, parcos meios e modestíssimas profissões, resolveram fundar a Sociedade de Instrução Tavaredense. Finalidade: servir de suporte a uma escola para ensino dos sócios e seus filhos. Mas porque na terra havia largas tradições teatrais, logo elas foram reatadas com a criação de brioso grupo dramático, que ainda nesse ano deu o seu primeiro espectáculo.
                Os benefícios prestados à instrução pela escola nocturna desta prestimosa colectividade, no meio em que actuava e durante um período de 38 anos, em que funcionou, ininterruptamente, foram incalculáveis. Infelizmente, porém, em 1942, exigências de legislação totalitária do “santa combismo” forçaram a pôr termo a essa verdadeira campanha de combate ao analfabetismo.
                Apesar das dificuldades e encargos que, em lugar de estímulos e auxílios, lhe foram, num crescente, sendo impostos, o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense é que, longe de perder vitalidade ou mesmo soçobrar, cada vez em ritmo mais acelerado prosseguiu, tão resoluta como triunfantemente, e sob todos os aspectos, a sua brilhante carreira ascencional. Cresceu de maneira notável o seu nível artístico, tanto de reportório como de interpretação. Alargou-se a sua esfera de acção, ultrapassando a própria sede e área do concelho, com várias deslocações a terras como o Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Pombal, Soure, Marinha Grande, Pampilhosa, Colares, etc., sendo de registar, neste capítulo, que todas essas deslocações foram sempre para fins de beneficência e atingiram o número de 20 pelo que se refere a Coimbra e de 16 pelo que diz respeito à cidade de Tomar. Chegou-se mesmo ao ponto de levar a cabo uma campanha vicentina que, com o maior êxito e todo o mérito, se tornou extensiva às freguesias rurais do concelho.
                Ao fazer a resenha dos primeiros cinquenta anos de actividade do grupo cénico, que dirigia há já 38 anos, José da Silva Ribeiro interrogar-se-ia: “Como irá ser o futuro?”.
                Mas ele em nada desmereceu do passado. Muito pelo contrário.
                O seu famoso agrupamento manteve o mesmo ritmo de intenso labor. Requintou em primores de interpretação e montagem. Levou à cena cada vez reportório de mais alto nível, categoria e responsabilidade. Representou, entre muitos outros, Almeida Garrett, Luís de Camões, Marcelino Mesquita e D. João da Câmara, novas e várias peças de Gil Vicente, “Romeu e Julieta”, “Dente por Dente”, “Conto de Inverno”, “Tudo Está Bem Quando Acaba Bem”, de Shakespeare, “As Artimanhas de Scapino”, “Médico à Força”, “O Avarento” e “Tartufo”, de Molière. Além de umas tantas peças de José da Silva Ribeiro, que com elas totalizou 19 originais, adaptações e traduções destinadas ao seu grupo cénico.
                Não devendo esquecer-se as suas intervenções valiosas em comemorações como as do: “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”; “Dia Mundial do Teatro”; “IV Centenário de Shakespeare”; “5º. Centenário do nascimento de Gil Vicente”; e “4º. Centenário da publicação dos Lusíadas”.
                Quem ousará, portanto, pôr em dúvida que são na verdade notáveis as “Bodas de Diamante” da Sociedade de Instrução Tavaredense? Ou negar que elas constituem a concludente e irrefutável prova do invulgar amor ao teatro, do bairrismo e da perseverança no esforço colectivo, mesmo dirigido apenas às coisas do espírito, da gente da terra do limonete?
                Entre a qual, neste caso ocupa o primeiro lugar por direito próprio, que ninguém jamais tentou negar-lhe, José da Silva Ribeiro, nobre figura de indefectível democrata, com carácter espartano, que o emérito professor Joaquim de Carvalho considerava seu “companheiro de sentimentos e propósitos”.
                Um homem de invulgar inteligência e craveira intelectual, associadas a perfeita noção da perenidade dos autênticos valores espirituais e sociais, que há 62 anos, com notável estoicismo, é o grande arquitecto de tão admirável Obra, que no presente caso põe em jogo e acção todas as faculdades do espírito tanto de intérpretes como de espectadores. Facto que naturalmente leva a concluir que o teatro, como a música, deveriam fazer parte integrante da cultura geral dos indivíduos.
                Por tudo o que fica dito e o muito mais que ficou por referir, nos parece serem as próximas “Bodas de Diamante”, da Sociedade de Instrução Tavaredense, o ocasião mais oportuna para que a Figueira preste à referida colectividade e ao seu devotado director cénico as homenagens a que ambos têm inteiro jus.
                Com o que, por múltiplas razões, se cumprirá apenas um dever.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 19


Seguem-se as assinaturas de mais de trinta pessoas, residentes em Tavarede, Buarcos, Figueira e Maiorca. Não deixa de ser curioso que um destes assinantes terá sido João Adolfo de Crato, Juiz da Alfândega da Figueira, amigo e ‘banqueiro’ do morgado de Tavarede, talvez a maior fortuna local e que veio a adquirir grande parte dos bens da família Quadros.

            Segundo o Dr. Rocha Madahil, a primeira redação deste extraordinário e quase inacreditável libelo… … foi, depois retocada: cortaram-se alguns períodos e o articulado relativo ao desacato feito a Bento da Cunha Terrão e a Bernardo da Cunha; substituiu-se o termo vergalho, com receio, talvez que soasse mal… … toda a palavra vergalho trocada por chicote. Mas, de qualquer forma, chega a impressionar a opressão, crimes e maldades cometidas sobre o pobre e indefeso povo.

            E não se julgue que a posição assumida pelo Cabido era total a favor do povo. Estavam crentes de que, passando a Câmara e Justiças para a Figueira, se acabaria com o despótico poder dos fidalgos. Isso era verdade, mas o Cabido desejava para si continuar a ser o donatário do Couto de Tavarede, continuando a ter direito aos seus privilégios. Falharam os seus cálculos, mas a história de Tavarede, uma história de mais de sete séculos, deixou de ter qualquer significado, ficando dependente da nova vila da Figueira da Foz.

            Apesar da defesa que, a mando de El-Rei, a nobreza e o povo (?) de Tavarede deram, quanto ao pedido do Cabido para a mudança da Câmara e Justiças, não resultou…. É a Justiça inexpugnável fortaleza que não teme os rebates falsos; é Vossa Majestade o sagrado da mesma Justiça, como fonte e manancial dela; esta certeza, e a de que é próprio da real protecção de Vossa Majestade defender os oprimidos das violências, nos constitue na esperança de sair escusado o requerimento do reverendíssimo suplicado que só se induz de circunstâncias inatendíveis e não verdadeiras, e se o foram não podia competir com o direito adquirido e radicado na imemorial posse em que estamos da conservação da casa da Câmara neste Couto, desde a sua fundação, por cuja razão e pelo mais que com pura verdade expomos na presente resposta, deve ser desprezada a suplica, denegando-se ao reverendíssimo suplicado a provisão que intenta e assim o esperamos da equidade com que é distribuida a mesma Justiça pela real mão de Vossa Majestade não obstante a resposta da Câmara, cujos oficiais são este ano as daquele lugar

            Além da mudança da Câmara, as tropelias e crimes do fidalgo morgado de Tavarede não podiam ficar impunes. Acabou por ser levado a julgamento e condenado, tendo acabado os seus dias na cadeia da portagem em Coimbra.
  

 Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa
 8º. Senhor de Tavarede - Morgado
  
            Fernão Gomes de Quadros e Sousa faleceu, como atrás foi referido, na cadeia da portagem em Coimbra, no dia 15 de Março de 1767, tendo o seu corpo sido trasladado para ser sepultado na capela do Convento de Santo António, na Figueira da Foz. Já não assistiu, portanto, à concretização da mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira da foz do Mondego, em 1771.

            Seu filho primogénito, Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, que, como herdeiro, deveria tomar posse do morgado e da Casa de Tavarede quando seu pai morreu, não o podia fazer, pois estava preso.

            Como seu pai, havia sido uma pessoa de péssimos instintos. Já na exposição feita pelo Cabido a El-Rei D. José I, são denunciados diversos crimes praticados por ele. O mais grave, todavia, terá sido a morte de seu tio, Frei Aires de Santa Ana, religioso no convento de S. Francisco, em Lisboa. Consta que … morreu, infelizmente, de um tiro de pistola que lhe deu seu sobrinho Pedro Joaquim, estando rezando a uma varanda, por ter sido repreendido de uma desobediência a seu pai… Esta repreensão devia-se aos seus maus procedimentos que vinha de fazer no lugar da Figueira… andando pelas tabernas emborrachando-se. Aliás, diversos autores referem que Pedro Joaquim terá cometido o assassínio num excesso de vinho.

            Creio, porém, que Pedro Joaquim de Quadros foi de facto, pouco tempo após a morte que praticou, remetido preso para a Berlenga Maior, em cujo espaço, que não ultrapassa alguns poucos quilómetros quadrados, viveu do final da sua juventude até ao final da idade madura, escreveu o Dr. Pedro Quadros Saldanha em ‘A Casa de Tavarede’.

            Com a morte de seu pai e com a sua prisão, perpétua, nas Berlengas, foi sua mão que assumiu o governo do morgadio, ajudada pelo seu segundo filho, António Leite. Este, devido às circunstâncias verificadas, estaria crente que seria declarado o herdeiro da casa de Tavarede, certo que seu irmão não viveria muitos anos nas Berlengas.

            Terá sido enorme a sua surpresa, bem como a de sua mãe, D. Brites Josefa da Silva e Castro, quando, já reinando a rainha D. Maria I, apareceu em Tavarede Pedro Joaquim Lopes de Quadros e Sousa, então com 46 anos de idade, e liberto graças a um perdão real que lhe fôra concedido.

            Pouco foi o tempo em que Pedro Joaquim esteve de posse do seu morgado. Nos cadernos do Dr. Mesquita de Figueiredo refere-se que … fez tais loucuras que foi mandado de vez para ela (prisão das Berlengas), onde morreu. A verdade é outra. Ele foi, na realidade, preso, mas foi encarcerado em Coimbra, na mesma prisão onde seu pai morrera.

            Tentou a sua defesa, como é natural. As acusações, no entanto, foram fortes. Como exemplo disso, transcrevo a informação que foi prestada pelo então Corregedor de Coimbra. O suplicante matou um tio seu religioso com um tiro por cuja causa se mandou para a Fortaleza das Berlengas, em que esteve muitos anos e dela saíu na ocasião do indulto geral do Fidelíssimo Senhor Rei D. José I. Veio para a sua casa de Tavarede e companhia de sua mãe, e se entregou a vícios, andando publicamente e escandalosamente amancebado e frequentemente ébrio. Costuma trazer consigo armas de fogo e em uma noite estando umas criadas de sua mãe à janela e desconfiando que elas o estavam espreitando e a uma concubina lhe atirou um tiro, mas não as ofendeu. E por estes factos é temido não só dos estranhos como também dos domésticos. Apareceu nesta cidade continuando a sua irregular vida, e imprópria do seu nascimento, causando escândalo e temor que rompesse nos seus costumados excessos e para se evadirem achando-me eu na comerca em correição e o juiz do crime doente, se deliberou o juiz de fora do cível mandá-lo prender e dar conta a Vossa Majestade pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, que me veio a informar, e remeti a informação em 14 de Dezembro próximo passado de 1778. Já anteriormente o juiz de fora da vila da Figueira representou a Vossa Majestade as desordens do suplicante e o temor daquele povo, que vindo-me também a informar expedi em 19 de Outubro do dito ano sem que de uma ou da outra tenha havido resolução. Não consta que o suplicante tenha culpas judicialmente formadas nem é razão esteja perpetuamente preso em uma cadeia pública; porém para se evadir a própria injúria e a de seus parentes, e eminente perigo da sua liberdade, me pareceu ser justo se tornasse a mandar para as Berlengas ou para outra alguma fortaleza deste reino onde se lhe administrasse o necessário para a conservação da vida, como já informei a Vossa Majestade ou dar alguma outra providência e sobre tudo mandará Vossa Majestade o que for servido.

            Pode depreender-se de tudo isto, que a própria família o desejava preso. E apesar do recurso apresentado e do testemunho favorável de pessoas influentes, a rainha não concedeu perdão. Mas, talvez até por simples curiosidade, transcrevo uma pequena parte dos testemunhos de sua defesa. 1 . O suplicante é quieto e pacífico e não costuma nem descompuzera pessoa alguma, antes acomoda as desuniões e rixas que sucede haver no dito couto e nesta vila e suas circunvizinhanças, sem que para este fim use de despotismos e tenha espancado pessoa alguma que não queira obedecer-lhe nos seus petitórios. Com bons modos pede que se acomodem algumas desuniões pois ‘o seu génio é de acomodar várias rixas que há entre algumas pessoas’. 2 . O couto de Tavarede é lugar triste e esta vila muito alegre por ser porto de mar, aonde entram várias embarcações com gentes civilizadas com quem o suplicante trata, sem que haja notícia tenha ofendido pessoa alguma. Tavarede era lugar pequeno e o suplicante tem algumas vezes vindo passear a pé e de cavalo à Figueira, sem que nela tenha ofendido pessoa alguma, antes tratando todos com muita cortesia. 3 . O suplicante é morgado e senhor da sua casa e por ser muito obediente a sua mãe, D. Brites Joséfa da Silva e Castro, lhe tem largado a administração de toda sua casa, sem que em nada encontre as determinações da referida sua mãe. Tem desistido da administração da casa, que entrega à mãe.

            Alguma coisa não está certa. Mentia o Corregedor de Coimbra ou mentiam as testemunhas de defesa? 

sábado, 25 de agosto de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 18


            Este morgado de Tavarede, Fernão Gomes de Quadros e Sousa, terá sido aquele que pior administração teve na Casa de Tavarede, levando uma vida de dissipação, criando enormes dívidas que, posteriormente, quase levaram à ruína…

            Entretanto, a sua violência sobre o povo, os vexames com que constantemente feria alguns e, sobretudo, as agressões de carácter sexual, de que foram vítimas muitas mulheres, levaram a que o Cabido da Sé de Coimbra deliberasse tomar a iniciativa de mudar a câmara, as justiças e a cadeia para a Figueira, convicto de que, com esta mudança, se acabaria com o ‘poder feudal’ que o morgado usava constante e abusivamente sobre os pobres povos de Tavarede e outros lugares vizinhos.

            Para este fim, e tendo obtido o acordo da câmara de Tavarede, formalizou uma queixa ao rei D. José I. A história desta questão foi minuciosamente estudada pelo ilustre investigador Dr. Rocha Madahil que, no ‘Album Figueirense’, publicou um extenso e bem elaborado estudo que intitulou ‘A mudança da câmara de Tavarede para a Figueira’, e no qual transcreve entre muitos outros documentos, a queixa apresentada e a resposta que a nobreza e o povo (obrigado a isso pelo seu senhor) deram, mas que, ao fim e ao cabo, resultaram na mudança efectiva das autoridades de Tavarede para a Figueira da Foz do Mondego.

            Senhor
            Representa a Vossa Majestade o Cabido da Santa Sé de Coimbra, só para o fim de livremente usar dos seus direitos no Couto de Tavarede em que é donatário da Coroa e para desagravar as Justiças, que naquele Couto o dito exponente confirma, e manter as pessoas e famílias dele livres de injúrias e opressões de Régulos, poderosos e mal inclinados, e com o preciso protesto de que da averiguação da exposição infra não resulte imposição de penas de sangue e mutilação de membro.
            Que no dito Couto de Tavarede vive dissoluta e despoticamente Fernando Gomes de Quadros, com o foro de fidalgo da Casa de Vossa Majestade e comendador nas Alhadas, com tão absoluto e independente poder com vexação das Justiças e povo.
            Que tráz as Justiças daquele Couto debaixo do pé e nada se faz pelo Juiz e vereadores que se lhe não dê a saber. Não se faz Juiz, Vereadores e Procurador do Couto que não sejam as pessoas que ele quer ou não quer que sejam, porque quando se faz a Justiça chama a casa os que hão-de votar, e quando eles não vão os procura e os faz votar nas pessoas que ele muito quer, e fazendo o contrário os ameaça com um vergalho, como fez ao capitão Isidoro dos Reis, homem do hábito de Cristo, que sendo Juiz ele o foi esperar para lhe dar com o dito instrumento, o qual, tendo aviso, se retirou, quando não certamente o descompunha.
            Que quando a Justiça faz eleição de recebedor das cisas de Vossa Majestade, ou quatro e meio por cento e outras fintas, se lho não dão a saber, quer que livrem a todos quantos fazem e por este respeito sucede as mais das vezes, vir Caminheiro pelos quartéis, por não haver Recebedor por causa dele. E o povo paga muitas custas, que se houvera Recebedor que tivesse cobrado o pedido a tempo, escusava o mesmo povo de pagar ao Caminheiro e de experimentar tão grande vexação pela dita causa.
            Que toda a pessoa que intenta por alguma demanda justa ou quer cobrar alguma dívida, se a tal pessoa não vai primeiro pedir licença e dar conta do que intenta fazer, faz que as Justiças dêem a sentença contra a tal pessoa, ainda que tenha razão e justiça, pondo-se pela contrária, com todo o seu absoluto poder chamando as testemunhas para que jurem o que ele quer e descompondo as que juram a favor da tal pessoa. E não só as trata desta sorte mas aos Juízes, mandando-lhes com império e ameaços, que façam o que ele lhes insinua, aliás, pau e vergalho. Porém ainda aqui não param as vexações que o dito povo padece com a vizinhança deste homem.
            Que naquela terra há muitos criminosos, por roubos que fazem em casas e fazendas, por dívidas que devem, pancadas e facadas que dão, os quais logo se vão recolher a casa dele como couto mais privilegiado que algum que haja no Reino, e ele os recebe e é padrinho de todos. Porque só o é dos maus e deste valhacouto entram a continuar nos seus roubos, e dando descomposturas e ferindo à sombra e capa do seu patrono. Como também o é dos ciganos quando vêm àquelas terras, sendo capa e dando hospedagem a todo o ladrão e pessoa de má consciência.
            Que sendo o Couto de Tavarede muito pequeno, tráz nele um grande rebanho de cabras, destruindo todas as vinhas e mais novidades dos pobres, e se acaso lhas deitam fora os donos das fazendas, os criados se levantam contra eles e os ameaçam com seu amo, cujo respeito os intimida a não defenderem o que é seu. E o mesmo sucede com os gados das pessoas que são da sua casa, por serem muitos os compadres e afilhados que logrão da isenção e privilégios da mesma, e estes, ainda que os seus gados sejam daninhos, não são coimados e se algum, por esquecimento da Justiça o foi, logo o faz riscar do livro e fica isento da coima.
            Que para maior esplendor da sua nobreza e respeito da sua casa, quer que tudo o que pede se lhe faça, ou seja torto ou direito, para o que intimida as Justiças deste Couto com a sua crueldade, que como são homens de menos esfera, qualquer coisa os intimida, e por este causa lhe disfarçam as suas insolências, e a toda a pessoa que não faz o que ele pede lhe costuma levantar labéus e formar crimes falsos, e como tem muitas pessoas de seu séquito e igual condição, faz as provas que quer. E a outras as induz a que jurem o que ele quer, e se o não fazem os castiga com pau e vergalho, e assim se vinga de quem lhe ultrajou o respeito faltando-lhe ao seu empenho, sendo máxima deste sujeito, como praticou a certa pessoa, que para a sua casa ser respeitada, hão-de andar os vizinhos sempre debaixo de um pau, sendo palavra muito sua: eles não querem, pois há-de sair o castanho, que é um bordão daquela madeira, com que tem dado muitas pancadas em muitos e da mesma sorte.
            Que traz os pobres trabalhadores destas terras arrastados, porque todas as vezes que quer algum serviço feito, os manda rogar e se não vão logo, por terem prometido para outro serviço, os descompõe a pau e vergalho, e muitas vezes os costuma ir tirar do serviço de outras pessoas aonde andam, ou do seu próprio serviço, dizendo que está primeiro que ninguém, e como não lhes paga, ninguém o quer servir e se o servem é com o temor da outra paga que ele costuma dar.
            Que só as pessoas que vivem mal e são mal procedidas favorece e os ajuda para o mal e faz com que as Justiças os não persigam, só para os ter na sua mão, para com a ajuda destes fazer tudo quanto quer e ser respeitado e temido, pois o ajudam nas pendências como pessoas próprias, e nas ocasiões de alguma prova de alguma causa com os juramentos falsos, que por seu respeito dão.
            Que também tomou umas casas de sobrado e quintal a Teotónio dos Santos Pinheiro, da Figueira, as quais tinha no Couto de Tavarede, sem que até ao presente as queira restituir a seus herdeiros.
            Que querendo o Cabido exponente arrendar a renda de Tavarede, este contrato para o que mandou pôr editais para se saber o dia em que o dita renda se havia de arrematar, o dito, para sua vingança, mandou pôr outros editais e vários papéis com letra desconhecida, que diziam: que qualquer pessoa que tomasse aquela renda visse como a tomava, porque lhe haviam de roubar os frutos e perseguir a quem a tomasse, e por esta razão persegue ao presente rendeiro, causando-lher mil vexações e ao mesmo Cabido, induzindo o povo a que lhe não pague os foros que lhe são devidos, assim pelo foral do mesmo Couto, como por sentenças que contra eles tem alcançado. Porém, esta inimizade que o suplicado tem ao Cabido, não só é por ser malévolo, soberbo e de desordenados costumes, mas porque lhe vem por herança dos seus antepassados, contra os quais alcançou o Cabido exponente muitas sentenças, não só em favor do mesmo Cabido, mas também daqueles povos que, oprimidos das injustiças que aqueles perversos homens lhe faziam, recorriam ao Cabido, como donatário daquele Couto, por mercê do senhor rei D. Sancho, de gloriosa memória, e não só o dito senhor rei os defendeu daqueles cruéis vizinhos, mas os senhores reis seus sucessores, de que se acham sentenças e  cartas aos corregedores de Coimbra, para que acudam às vexações que os ditos sucessivamente lhe iam fazendo, que este ódio vem sucedendo de pais em filhos, de filhos em netos, até chegar a este. E assim como este ódio se estabeleceu por geração, assim tambem é malinidade e perversidade de génios e soberba se foi seguindo de uns para outros.
            Que fazendo algumas pessoas fornos para cozerem o seu pão em suas casas, lhes tem o suplicado entrado pelas portas dentro, acompanhado de seus criados e valentes, e lhos derrubam e desfazem, como fizeram a Luís de Faria, da Figueira, Teotónio dos Santos Pinheiro e António Osório, todos homens de bem naquela terra, o que obra com o pretexto de ter provisão e sentenças possesórias para ter forno de poia. Na Figueira tudo obtido em tempo em que aquela terra e povoações não chegaria a ter cem vizinhos, sendo que hoje tem mais de seiscentos, sendo impossível que este aumento de povo seja bem servido só com o dito forno e fornalha, que o predito pretende conservar, apesar de toda a povoação em notória perda da mesma e de seu pão, dano que sofrem para não serem espancados e descompostos pelo predito e seu filho Pedro José (Joaquim).
            Que o predito suplicado acutilou nas lojas do Padre Cura Manuel Tomás, ao feitor de Fernando Maria, morador na cidade de Coimbra, que habitava no lugar da Figueira por nome Manuel Ribeiro Bravo, que no dito lugar tinha loja de comércio, correndo atrás deste com a espada nua, desde o armazém em que estava quantidade de peixe, até às ditas lojas, por o predito feitor lhe não dar fiadas umas arrobas de pescadas secas que lhe pedia.
            Que o dito suplicado foi a casa de Caetano dos Santos, do dito lugar da Figueira, para lhe dar, o qual com medo e para se livrar, saltou duma janela abaixo, do que ficou manco de ambos os pés e assim vive.
            Que não querendo um preto do Padre José dos Reis consentir que o gado do suplicado andasse em uma fazenda do referido senhor do preto, o dito suplicado, com um seu filho, entraram na dita fazenda para maltratarem o dito preto, que por fugir escapou de ser espancado com armas que levavam.
            Que as Justiças daquele Couto de Tavarede todas temem e tremem do suplicado e de seus criados, por estes não só castigarem por obra e palavra, não só ao que lhe fazem coimas a seus companheiros ou caseiros ou outros seus protegidos, mas a quaisquer que lhe não obedeçam em quaisquer matreiras de seu empenho, porque contra o supradito e sua família se não administra Justiça naquele Couto em tanto.
            Que dando o suplicado uns capítulos contra o rendeiro do Cabido exponente, e do juiz executor do mesmo Cabido, no suposto nome do povo e Câmara, sendo Vossa Majestade servido mandar que o Corregedor de Coimbra o informasse, mandou o referido Corregedor chamar os oficiais da dita Câmara de Tavarede, para que assinassem os ditos capítulos, os quais sendo vistos pelos ditos oficiais da referida Câmara disseram que tais capítulos se não fizeram nem mandaram fazer, e que o denominarem serem feitos em seu nome era com falsidade, como o era a narrativa dos mesmos e que por este motivo os não assinavam, do que sendo sabedor o suplicado mandou chamar os ditos oficiais a sua casa, e os descompôs e ameaçou, que se não assinassem os ditos capítulos, os havia de moer com um pau, e os preditos oficiais, para se verem livres das vexações que o dito suplicado costuma executar, com medo os assinaram, sem embargo do que Vossa Majestade informado da verdade pelo dito Corregedor foi servido escusar o requerimento.
            Que é o suplicado de tão depravado ânimo que até aos religiosos franciscanos de Santo António do lugar da Figueira chega a ferir a tirania daquele, porque querendo, fundamentado na sua fidalguia, se lhe faça tudo o que pede e sucedendo lançar fora do serviço daquela comunidade, o padre Guardião dela ao barbeiro da mesma, por faltas que tinha feito, recorreu o dito barbeiro ao patrocínio do suplicado e pedindo a este a dita graça, logo o suplicado o ameaçou que lhe havia de tirar quantas esmolas pudesse, como com efeito pratica pelos meios que pode excugitar os sermões daquelas freguesias vizinhas e outras mais esmolas que se costumam dar.
            Que o suplicado é costumado a proteger facínoras e a injuriar os honrados, porque andando um Francisco de Oliveira, do dito lugar da Figueira, homiziado por crime de traição e aleivosia, se refugiou na casa do dito suplicado (com exemplo deste proteger a outros mais delinquentes) e o dito suplicado o acompanhou com uma espada debaixo do braço até ao dito lugar da Figueira, e chegando ambos à porta do padre Libório (que era o ofendido com a dita traição e aleivosia) estiveram quietos muito tempo olhando para as janelas e casas do dito padre, observando se saía para o descomporem, segundo se entendeu.
            Que o suplicado nunca pagou a pessoa alguma que o servisse, assim com coisa fiada como emprestada, e se acaso alguns credores lhe pedem o que lhe emprestaram ou fiaram, os descompõe espancando-os com pau ou vergalho, e ao pouco de palavra e se manda pedir alguma coisa fiada e se não lhe fia faz o mesmo, com o que vivem aqueles povos tão oprimidos que ninguém é senhor de coisa alguma ao pé do suplicado, porque tudo o que lhe faz conta faz seu, tomando por força de pancadas o alheio se lho não dão, não pagando também aos trabalhadores que o servem.
            Que mandando a predito suplicado pedir a um inglês, chamado Daniel, umas pipas emprestadas, porque este lhas não emprestou, em razão de lhe serem necessárias para a condução dos seus vinhos, para o que já as tinha postas na praia para se embarcarem para a dita condução, o dito suplicado mandou conduzir para sua casa as de que necessitava, contra a vontade do dito Daniel, seu dono, sem sua licença. Como também mandou conduzir para sua casa uma pouca de madeira de um homem de Lisboa , de que estava entregue por comissão Luis da Costa, do dito lugar da Figueira. E haverá dois anos, com pouca diferença, mandou o dito suplicado pedir uma carrada de canas a um homem de Buarcos, e não condescendendo este com a petição porque as queria para as suas vinhas, o dito suplicado, com absoluto poder, mandou os seus criados à fazenda do dito homem e que dela trouxessem as canas, como com efeito violentamente trouxerão para as vinhas do referido suplicado.
            Que tendo António José de Saldanha, de Aveiro, uma quinta chamada da Fonte, com uma morada de casas de sobrado, no Couto de Tavarede, que são de uma capela, lhas demoliu violentamente o suplicado, e se aproveitou de toda a pedra, telha e madeiras, e fez das casas e da sua área picadeiro de cavalos, danificando os bens da capela que lhe não pertencem, e andando os bens desta arrendados por três moios de milho anualmente, o dito suplicado, pelo ódio que tinha ao referido António José, fez com que ninguem arrendasse a dita quinta por mais de setenta alqueires de milho, e alguns anos a fez ficar com menos renda por falta das ditas casas, que eram nobres e tinham acomodação para os frutos, que agora não tem.
            Que ao marchante João Lopes, de Maiorca, deve o suplicado quantidade de dinheiro de vaca que lhe fiou e quando aquele lhe pede a dívida o ameaça e descompõe com um vergalho, chamando-lhe nomes injuriosos. E todo o marchante que vai com vaca ao lugar da Figueira, ou há-de dar vaca para casa do suplicado e de suas amigas, sem osso, que nunca lhe paga, ou se algum o não faz é descomposto com pau e vergalho pelo suplicado ou sua família.
            Que o dito é tão costumado a obrar mal e de ânimo tão malévolo e falto de justiça, que vindo de Lisboa a Buarcos Bento da Cunha Terrão, a certo negócio de gosto, que tinha na dita vila, e convidando alguns parentes e amigos para o tal festejo o obséquio, o dito foi com os da sua facção, carregados de armas defesas, só a fim de deslustrarem o dito e seus convidados, chamando-lhe muitos nomes injuriosos, glosando-lhe várias poesias em que o descompunham e outros desaforos semelhantes, sem mais conveniência que a de fazer mal e de dar a conhecer a braveza de seu ânimo e a leveza do seu juizo. E o mesmo fez em Maiorca, aonde de noite foi ver uma comédia que se fazia em uma casa de Bernardo da Cunha, saindo com o seu capelão e mais pessoas da sua comitiva, segundo o uso e costume, com armas defesas, quis meter o festejo à bulha e descompôr o dito Bernardo da Cunha, que se não usara da sua prudência certamente o matariam, pois já iam com ânimo disso. Estas façanhas, parece, são estribadas na soberba e temerário juizo de que só a ele são devidos semelhantes obséquios, e por esta razão quer ser singular, desprezando desta forma ainda aos melhores daquelas terras, como é o dito Bernardo da Cunha.
            Que anda  o suplicado actualmente amancebado com uma filha sua, bastarda, chamada Antónia, filha de Isabel Gomes, mulher de Manuel Gomes Raposo, há mais de dez anos, e tem parido dele várias vezes, e chegou a ir a casa de sua mãe furtá-la, e deu muita pancada no dito Manuel Gomes Raposo, porque entendia ser sua filha e como tal a defendia para dele não ser roubada nem ofendida na sua honra, das quais pancadas esteve à morte e se queixou a Vossa Majestade, e veio decreto para ser preso. Porém, como é muito poderoso, fez com o Corregedor que era naquele tempo, que não desse a devida execução a tal decreto.
            Que sendo denunciado pela dita amncebia, diante da Justiça Eclesiástica da cidade e bispado de Coimbra, e sendo preso pela denúncia (por ser tão poderoso não foi ao Aljube, ficando sob fiança em casa de seu cunhado, o Correio Mor de Coimbra), e estando assim preso, numa noite saíu à rua e deu também muitas cutiladas numas pessoas, que, ao que parece, alteravam a rua. E também por ser tão poderoso ficou com menos castigo do que merecia, e depois que se viu livre da Justiça e foi para sua casa, tratou de se vingar nas testemunhas, que, com medo dele, não tinham dito a metade da verdade. E o primeiro foi o soldado José Mendes Ribeiro, de Tavarede, que esteve tão mal das ditas pancadas, que recebeu os Sacramentos. As mais se ausentaram da terra, tendo por melhor o degredo voluntário que se porem no perigo de cair nas suas mãos, menos certo soldado que se pôs na resolução de o matar no caso que o dito se resolvesse a quer ofendê-lo. E como assim o publicassem o dito se absteve do projecto com que andava. Também deu muita pancada na mulher de Rafael Lopes, da Figueira, Maria da Costa, e não só por suas mãos fez estes e outros distúrbios semelhantes, mas também pelos seus criados, como foi à mulher de Tomé de Carvalho, mandando-lhe dar muita pancada, de que esteve à morte, chamada Teresa Simões, de Tavarede, por um seu criado valente, chamado José Gomes. E não é necessário que os criados sejam muito valentes, porque a atrocidade do amo os faz ser cruéis e destemidos, fiados no respeito do mesmo.
            Que naqueles países de Tavarede, Figueira e lugares circunvizinhos, tem desflorado muitas donzelas e orfãs, como foram Teresa, do Couto de Quiaios, Maria Neta e Maria da Silva, da Figueira, e com esta andou muito tempo amancebado. Caetana Gonçalves e Maria de S. José, filhas de Manuel Francisco Matulo, de Tavarede, e mais duas filhas da dita Caetana Gonçalves, uma chamada Teodósia, outra Josefa Teixeira, coabitando com mães e filhas tudo a um tempo. Não falando em mulheres que lhe vão a casa, que dessas nenhuma escapa, e ainda as próprias criadas e escravas. E se alguma das ditas donzelas ou orfãs resistem e não consentem, no seu depravado ânimo lhes impõe testemunhos, dizendo que são mal procedidas e que o têm sido com ele muitas vezes, não se livrando as pobres da desonra da fama por se livrarem da da obra. Mas muitas vezes as pobres sem assistindo ao seu apetite escapam de que ele não diga logo o mal que lhes tinha causado, e assim têm sido muitas desonradas de obra e palavra, porque logo o publica pelo seu depravado ânimo e pouco temor de Deus.
            Que até a própria concubina, estribada no seu valimento, faz desacatos sem conta, porque a muitas mulheres honradas tem descomposto com nomes injuriosos, e a uma Josefa Vieira, mulher de Paulo da Cunha, quis-lhe dar com uma faca de ponta, andando ela em seu quintal. E a pobre mulher, com medo da faca, caíu com um acidente.
            Que o dito suplicado anda sempre armado com pistolas, facas, bacamartes, e foi a Buarcos arrombar a porta a uma mulher honrada, chamada Teresa Rocha, e a quis forçar pondo-lhe uma faca de ponta nos peitos, ao que a mulher resistiu e se livrou como pôde desta insolência. E não só destas usa, mas também seu filho mais velho, com o bom ensino do pai, que também foi uma noite com as mesmas armas à vila de Redondos, que fica pegada com a de Buarcos, e abriu a porta de uma estrebaria do padre Cura da dita vila e lhe furtou uma égua, e foi nela para as partes de Peniche, aonde a vendeu, e até ao presente a não restituiu. E entregando-lhe o alferes Manuel Bernardes, do Moinho da Mata, ao pé de Montemor-o-Velho, quarenta e tantos mil reis e um cavalo, para ele os entregar em Montemor ao licenciado Manuel Pereira da Silva, procurador do Cabido exponente, a quem o dito alferesera devedor, e por quem era executado, e lhos entregou na confiança de que pelo respeito do portador lhe fizessem algum rebate, ele o fez tanto pelo contrário, que fugiu com o dinheiro e cavalo, e enquanto tudo durou não tornou mais a casa, ficando o alferes sem o seu dinheiro e cavalo, que até agora se lhe não repôs. E o dito alferes foi preso pela dita dívida e morreu na cadeia. E o outro filho mais novo, chamado António Leite, vai seguindo as pisadas de seu pai e irmão, e já tem dado várias facadas, cometendo mulheres casadas e donzelas, e não só os ditos executam estes insultos mas também seus criados e familiares.
            Que tinha um capelão em casa, chamado padre Manuel Gonçalves, que, abusando das Ordens e do seu hábito sacerdotal, é contratador de cal e de bestas, e é rendeiro da Morraceira e companheiro na dita renda do Parada, de Coimbra. E também usa de armas defesas, como são pistolas, facas de ponta, e também tem descomposto muitas pessoas de bem a pau, como foi a Manuel Jorge Tega, de Tavarede, por este lhe não querer ir com o seu carro buscar uns poucos de paus e mato para o forno da cal, e o pôs à Santa Unção defronte das casas de seu amo, e tem feito o mesmo a muitas outras pessoas. E também anda amancebado, com mulheres de todo o estado, enfronhado no respeito de seu amo e fazendo como ele faz. E da mesma sorte são os mais criados, acompanhando a seu amo em vários distúrbios e com a capa dele,fazendo outros, usando das mesmas armas que ele usa, não só nas ocasiões em que ele os manda mas nas que eles tomam por sua conta pelo seu mau exemplo.
            Que o dito suplicado tem feito muitas mortes, porque matou a António Pedro, cunhado do Juiz da Alfândega da Figueira, de noite, com dois tiros de pistola, E deu tanta pancada em Manuel Ribeiro Bravo que este das mesmas pancadas morreu; como também matou um galego, no lugar do Pombalinho e da mesma sorte deu muita pancada em António Gil, marido de Nazaré Gonçalves, em forme que logo no outro dia morreu delas. E também deu tanta pancada em Manuel Ferreira Castanheira, da Figueira, que o deixou por morto, por este lhe pedir certa quantia de dinheiro que lhe devia de vaca, que lhe fiou do seu açougue em tempo, quando o dito Manuel Ferreira era marchante, sem embaraço de que até ao presente lhe não satisfez.
            Que também o mesmo suplicado deu muitas bofetadas na cara e pancadas no corpo de um seu tio, por nome de João de Quadros e Sousa, irmão de seu pai Pedro Lopes de Quadros, por o dito João de Quadros chamar sua mulher para sua casa, ao qual o dito suplicado ainda hoje traz muito atropelado por lhe não pagar uma tença de oitenta mil reis que seu pai lhe deixou, motivo porque se acha muito necessitado. Como também deu muita pancada em André Pessoa, da Várzea, e deu também tantas em Manuel da Silva, do lugar do Lírio da Alhada, que se lho não tirassem das mãos certamente o matava. Como também deu o suplicado com uma espada, de noite, em Bernardo Migueis, de Tavarede, e lhe lançou as tripas fora, e sem dúvida o mataria se não sucedesse topar-lhe a espada em um osso que a fez resvalar, excesso que obrou sem causa alguma justificada. E da mesma sorte deu muita pancada na mulher de Paixão Rodrigues, de Tavarede, por respeito de uma concubina que o suplicado tem há muitos anos, por causa da qual tem espancado a várias pessoas, que as testemunhas dirão.
            Que o suplicado se porta com tão pouca emenda daqueles excessos, que pouco tempo há que despedindo D. Isabel Senhorinha, mulher do médico de Leiria, Fernando Miguel, a um moleiro de um seu moinho, por este se não querer dar por despedido sem aquela lhe ajustar contas, pagando-lhe o que lhe restava, se valeu a dita D. Isabel do suplicado, para que este espancasse, ou mandasse espancar, ao dito moleiro, e com efeito o suplicado aceitando a deprecação o mandou espancar, por dois criados, um chamado José Borges, seu caçador, e outro Domingos de Carvalho, ambos de Tavarede, o qual Domingos Carvalho anda sempre soicado de armas a consentimento do dito suplicado.
            Que tanto é vício natural no suplicado e seus predecessores o viver com excessos e absolutos, que já aquela prática passou ao filho mais velho do suplicado, quando, próximo dos meses de Novembro ou Dezembro do ano de mil setecentos e cinquenta e quatro, tiranamente matou seu tio, o padre Frei Aires, religioso de S. Francisco, dando-lhe um tiro com uma espingarda, por este o repreender de alguns distúrbios que vinha de fazer no lugar da Figueira, além de outros que expostos ficam.
            Pede a Vossa Majestade se digne mandar que sobre o exposto informe o Corregedor da Comarca de Coimbra por direitos de testemunhas fidedignas e que para estas jurarem sem medo ou suborno, o suplicado seja exterminado na distância de trinta léguas e seus filhos, até se concluir  a diligência e pelo que constar administrar inteira justiça, para que o exponente e moradores do dito Couto e seu termo, de que é donatário, vivam sem a opressão do suplicado e sua família, tudo debaixo do protesto, no princípio desta representação expresso que o Cabido exponente aqui há por repetido. Espera receber mercê.