sábado, 13 de outubro de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 25


O desentendimento terá tido lugar ainda antes de Maio de 1810, pois já no dia 23 desse mês, D. Antónia Madalena obtinha certidão da escritura do dote, sem dúvida para fazer valer os seus direitos. Abandonando Tavarede, D. Antónia Madalena entrou no Convento de Santos, a que a sua família estava há muito ligada. A partir dessa altura a história da relação entre D. Antónia Madalena e seus filhos, é um rol de ódios, de vinganças, de perseguições. Tudo indica que aquela e seu filho João de Almada nunca mais se viram, apesar de D. Antónia ainda ter vivido 25 anos (A Casa de Tavarede).

            Tudo isto levou à requisição de administração judicial da Casa de Tavarede e ao seu declínio. Foram muitas as questões judiciais levantadas tanto pela mãe como pelo filho. Chegou ao ponto de, em Maio de 1821, D. Antónia se queixar que logo em Julho do mesmo ano me foi novamente arrebatada das mãos a minha casa em virtude de requerimento de meu ingrato filho, que obteve do Revolucionário Governo de 1820, a bárbara medida de ser posta em curadoria a minha pessoa e bens, sem eu ser ouvida e nem, ao menos, de tal ter notícia, conseguindo o mesmo meu filho, por meio desta destruidora providência, confirmar a ruína de minha Casa e a opressão de minha pessoa. Julga-se, no entanto, que a iniciativa não terá sido só do filho mas, sim, também de sua filha Ana Felícia.

            O Barão de Tavarede, juntamente com seu sogro, aderiu à causa do rei D. Miguel. Foram muitos os processos que levantou contra sua mãe, a quem acusava de dissipadora e causadora da ruína da Casa, mas sempre viu as questões serem decididas a seu desfavor.

            Num documento existente, refere-se que quando o Barão de Tavarede e sua família decidiram mudar-se para Trancoso levaram consigo o bom e melhor que D. Antónia deixara em casa, nomeadamente todos os móveis. E ainda refere uma nota de D. Antónia. Que … estando eu em Tavarede e tendo casa arrendada na Rua Formosa (Lisboa), onde tinha os títulos, algumas pinturas e móveis, o Barão, vindo escondido a Lisboa, entrou na casa num dia da Semana Santa e, arrombando portas e armários, levou os títulos e tudo o que achou de precioso, com geral escândalo da vizinhança… (A Casa de Tavarede)
           
            Estes pequenos retalhos que transcrevo, servem perfeitamente para revelar como terão sido as relações entre mãe e filhos. De notar que D. Ana Felícia, talvez influenciada por seu marido, aliou-se a seu irmão, contra sua mãe, de tal forma que, em certos processos, ainda foi mais agressiva que o Barão de Tavarede. Mas só faço esta referência como simples comentário, pois a história que pretendo aqui deixar recordada é só a dos ‘Senhores de Tavarede’ e não seus familiares. No entanto, aqui e ali, não deixa de ser necessário incluir algumas notas, unicamente com o fim de procurar melhor esclarecer determinados casos ou situações.

            Com a sua ida para Trancoso, tornou-se o Barão de Tavarede pessoa muito influente naquela região, embora continuasse sob a influência de seu sogro. Foi contrariado que, em Janeiro de 1827, assinou a Carta Constitucional. Foi eleito procurador do concelho de Trancoso e em Junho de 1828 recebeu o comando da primeira companhia do terceiro Batalhão do Corpo de Voluntários Realistas.  Quando em Outubro seguinte, a Câmara de Trancoso resolveu formar um Corpo de Voluntários, foi o Barão de Tavarede nomeado seu comandante, com o posto de coronel. Combateu ao lado das forças miguelistas, tento tomado parte do cerco do Porto. Com a queda de D. Miguel abandonou a política.

            Acabou por jurar a Constituição em Outubro de 1836, tendo exercido o cargo de vereador da Câmara trancosense e fez parte do Conselho Municipal, exercendo, durante algum tempo, as funções de presidente da Câmara. Foi irmão da Santa Casa da Misericórdia daquela localidade e da Confraria do Santíssimo Sacramento.

            Com a instalação do regime liberal, a Casa de Tavarede perdeu muito dos seus privilégios, nomeadamento o dos fornos da poia, que passaram a ser livres, assim como as comendas de que era titular. Também já D. João de Almada não sucedeu no padroado da Capela mor do Convento de Santo António, na Figueira, que foi extinto.

            Teve diversas desinteligências com sua irmã, sobre as questões da herança, muito em especial as marinhas da Morraceira, que pertenciam ao vínculo do morgado. Julga-se que só terá vindo a Tavarede uma única vez, depois da morte de sua mãe. Entretanto, por decreto de 18 de Março de 1848, recebeu o título de Conde de Tavarede.

            Atendendo aos merecimentos do Barão de Tavarede, João de Almada Quadros Sousa e Lencastre, à sua qualidade, e a ser filho primogénito e sucessor de Francisco de Almada e Mendonça, do Conselho de El-Rei Meu Senhor e Avô, e seu Desembargador do Paço, Comendador da Ordem de Cristo, Alcaide Mor de Marialva e donatário da vila da Barca, segundogénito da mui nobre e antiga Casa titular de Vila Nova de Souto de El-Rei, da mesma origem que a dos Condes Mestres salas da Real Casa de Meus Augustos Avós, e de Dona Antónia Madalena de Quadros, representante de outra família muito qualificada por antiguidade de linhagem e gloriosos feitos militares, obrados em Ceuta na menoridade de El-Rei D. Afonso V, e na praça de Azamor em dias de El-Rei D. João III; tendo em particular consideração os distintos e relevantes serviços que, durante a sua longa carreira de Magistratura, foram prestados pelo pai do mencionado Barão, no exercício dos lugares que ocupou e no desempenho de muitas e diversas comissões de que fôra encarregado; assinalando-se especialmente assim pela edificação de muitos edifícios monumentais e de outras obras gloriosas e de manifesta utilidade pública, feitas na cidade do Porto, em Vila do Conde e Foz do Douro, como pelos gastos em hospedar, na sua casa em Setubal e Salvaterra a Meus Augustos Avós, havendo-se em tudo com grande inteligência, zelo e desinteresse, e correspondendo sempre às obrigações do seu nascimento, e à íntima confiança que dele faziam os Soberanos; e querendo Eu perpectuar a memória de tão valiosos serviços na pessoa do filho e sucessor de tão benemérito servidor do Estado, e completar a remuneração deles com uma mercê igual à sua importância: Hei por bem elevar o Barão de Tavarede João de Almada Quadros Sousa e Lencastre à Grandeza destes Reinos, com o título de Conde de Tavarede em sua vida

            Como se vê, foram necessários decorrerem quarenta e tal anos após a sua morte, para ser reconhecida a obra e o talento de D. Francisco de Almada e Mendonça, marido da 10ª. Senhora de Tavarede, D. Antónia Madalena Quadros e Sousa.

            Faleceu o primeiro Conde de Tavarede a 13 de Fevereiro de 1861, sendo sepultado do lado norte da  igreja de Nossa Senhora da Fresta, em Trancoso.

            De ‘A Casa de Tavarede’, permito-me transcrever a certidão de óbito deste nosso titular. Aos treze dias do mês de Fevereiro do ano de mil oitocentos e sessenta e um, pelas oito horas da manhã, no sítio da Rua Nova desta vila e freguesia, concelho e distrito eclesiástico de Trancoso, diocese de Pinhel, faleceu D. João de Almada Quadros Sousa de Lencastre, décimo terceiro Senhor de Tavarede, primeiro Conde e primeiro Barão de Tavarede, alcaide mor de Marialva, Senhor da vila da Barca, comendador de S. Martinho do Bispo, proprietário, de idade de sessenta e seis anos, casado com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque e Meneses, Condessa do mesmo título, filho legítimo de D. Francisco de Almada Sousa de Lencastre e de D. Antónia Madalena de Quadros, Senhora de Tavarede; neto paterno de D. João de Almada e de D. Ana de Lencastre; e materno do Doutor José Juzarte e de D. Joana de Quadros. Não fez testamento, não deixou filhos mas sim dois netos. Não recebeu sacramento algum porque morreu quase de repente. E para constar lavrei este assento, em duplicado, que assinei. Era ut supra. O presbítero, Brunulfo Teixeira de Azevedo.

           





sábado, 6 de outubro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 48


1988.02.05     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                “Horizonte”, de Manuel Frederico Pressler, volta de novo ao palco da Sociedade de Instrução Tavaredense no próximo sábado, dia 6 de Fevereiro, pelas 21,45 horas.
                Comédia rústica passada no Alentejo, foi representada pelos amadores desta colectividade há cerca de 40 anos pelos saudosos Violinda Medina, João Cascão, Fernando Reis, etc., e cujas personagens são hoje muito bem interpretadas por Ana Maria, João Medina e outros.
                O bom Teatro continua a existir em Tavarede e só o público o poderá julgar.

1988.03.10     -     TEATRO DE PRIMEIRA ÁGUA EM TAVAREDE (O DEVER)

                Para mim, ir a Tavarede é recordar idos tempos da década de 40 em que ali, dentro do perímetro da freguesia rural que já foi sede de concelho, situada bem nas abas desta buliçosa cidade da Figueira da Foz que, quatro décadas volvidas, perfurou por tudo quantia é sítio este remansoso ambiente. Iniciei todo um passado de doze frutuosos anos no ex-Colégio Liceu Figueirense, mais tarde transformado em Seminário Menor da Diocese de Coimbra...
                Para mim, ir a Tavarede é lembrar essa figura ímpar de José Ribeiro, a quem tive a felicidade de conhecer, e evocar todo o apoio, a vários níveis, dele recebido quando, já homem feito, na década de 60, eu me viria a ocupar, também, na encenação de umas “pècitas” de que saliento “Casa de Pais” e “Luz de Fátima”...
                Para mim, ir a Tavarede é encontrar a amizade franca e permanente de alguns amigos de infância e de outros de mais recente data, colegas de profissão, alguns deles enfronhados, ao que vejo, de alma e coração, nas actividades e iniciativas culturais do bom povo da terra que os viu nascer e a que tanto se orgulham de pertencer...
                Para mim, ir a Tavarede é... hoje, também e sobretudo, admirar o seu Teatro nas peças que com pendular regularidade ali vêm sendo postas em cena, com o carinho, o bairrismo e a competência em que a gente de Tavarede é exímia...
                De longe vem a tradição de fazer bom teatro em Tavarede e inúmeras foram as representações a que já assisti. Desta vez, se me descuidava, deixava, mesmo, de admirar todo o garbo e empenhamento que aquele núcleo de inimitáveis amadores, perdão... de artistas, colocou, mais uma vez, na encenação da bela peça rústica da autoria de Manuel Frederico Pressler, HORIZONTE, cuja primeira representação teve lugar no já recuado ano de 1945 e que, agora, foi a escolhida para as comemorações do 84º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro último.
                A acção decorre no Ribatejo e versa um tema do quotidiano de muitas famílias – o casamento da Rita, que acaba por ir com quem o seu coração muito bem escolhe e não com aquele que o pai queria que fosse -, tendo como personagens elementos das mais diversas ocupações. Licenciados e barbeiros, empregados de escritório, carpinteiros e electricistas, de tudo ali há sem quaisquer complexos ou discriminações e apenas com uma finalidade: “darem o melhor de si levando até ao público o BOM TEATRO num convívio de amizade e simpatia”...
                Perdeu, caro leitor. Perdeu, se acaso não viu esta representação em Tavarede. Acredite que só terá a lucrar se se deslocar ali sempre que haja TEATRO. Ele é de... primeira água, creia!
                ... E deixa de passar essas tardes (ou noites) de insípida rotina em que costuma mergulhar.
                É uma boa OPÇÂO! – Alfredo Amado

1989.12.29     -     TAVAREDE SOBE AO PALCO (O FIGUEIRENSE)

                “No último sábado de Janeiro será a estreia da peça “Os Velhos”, de D. João da Câmara. Com esta peça, que é uma reposição, conquistou-se já um 2º prémio em Lisboa, isto há uns bons 30 anos”, disse-nos a D. Ana Maria Caetano, presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                “É uma representação de enredo fácil, graciosa – prossegue Ana Maria Caetano -, no fundo um conflito de gerações, um caminhar para o futuro”.
Segundo apurámos vão estar em palco cerca de 10 pessoas, sob a direcção de João de Oliveira. É assim que a SIT vai assinalar mais um aniversário, reflectindo, com transparência, uma salutar forma de fazer cultura.
                Mas não são só “Os Velhos” que apagam as velas desta colectividade de Tavarede. Outras realizações vão ter lugar, nomeadamente uma tarde musical, com a actuação da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, de Tomar, e  representação da peça “O crime da Aldeia Velha”, de Bernardo Santareno, um espectáculo teatral proporcionado pelo Teatro Experimental de Mortágua.
                Ponto alto destas comemorações será a sessão solene, na qual homenagear-se-á “Mestre José Ribeiro. Vamos contar com o precioso apoio e colaboração do Rotary Clube da Figueira, que fará o lançamento de uma publicação que reflecte vários aspectos da vida e obra de José Ribeiro”, confidenciou-nos ainda D. Ana Maria Caetano.
                “O Figueirense” vai ficar à espreita do desenrolar dos acontecimentos.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 24


João de Almada Quadros de Sousa de Lencastre

1º. Barão e 1º. Conde de Tavarede


            João de Almada e Quadros de Sousa Lencastre, filho de D. Francisco de Almada e Mendonça e de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, nasceu na cidade do Porto no dia 28 de Fevereiro de 1794. Foi baptizado na Igreja de Santo Ildefonso, naquela cidade, tendo como padrinhos o Principe D. João (futuro rei D. João VI) e sua mulher D. Carlota Joaquina.

            Aos 10 anos de idade, por decreto de 7 de Setembro de 1804, foi-lhe concedido o título de Barão de Tavarede, em reconhecimento dos serviços prestados por seu pai, poucos dias depois do falecimento deste. Anos mais tarde, como veremos, recebeu o título de Conde.

            Foi o 11º. Senhor de Tavarede, tendo, igualmente, os seguintes títulos: Senhor dos Prazos da Morraceira e de Valverde, Senhor dos morgadios dos Leites de Santarém, 2º. Senhor da vila de Ponte da Barca, alcaide mor de Marialva, comendador de S. Martinho do Bispo na Ordem de Cristo. Foi, também, moço fidalgo da Casa Real, Conselheiro do Estado, cavaleiro das Ordens da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Serviu, ainda criança, no Regimento Real, com o qual participou nas guerras peninsulares.

            Casou muito jovem, em 1810, com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araújo e Meneses, de 22 anos de idade, nascida em Pinhel mas residente em Trancoso, filha de Caetano Alexandre da Fonseca Pinto de Albuquerque, fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, e de D. Maria José Cardoso de Meneses, senhora de diversos morgadios.  Só tiveram um filho, Francisco de Almada e Quadros de Sousa Lencastre, nascido em 6 de Março de 1818.

            Tratou-se assim de um casamento estudado e planeado por parentes dos noivos… Da parte dos de Trancoso o casamento seria certamente bem visto: os de Tavarede eram sem dúvida de uma nobreza mais destacada e, apesar das dificuldades financeiras por que passavam, possuidores de bens de maior valia do que os seus… (A Casa de Tavarede).

            Não foi fácil o relacionamento familiar. Os noivos vieram residir com D. Antónia Madalena em Tavarede. Mas igualmente vieram para cá os pais da noiva. Admito que a morgada de Tavarede se incompatibilizasse, desde logo, com o seu compadre, Caetano Alexandre. É que este terá pretendido tornar-se o ‘dono’ da casa, passando ele a gerir e administrar a casa. A causa principal dessas desavenças parece ter sido o facto de retirar a mesada a que D. Antónia tinha direito, de acordo com o contrato feito por ocasião do casamento do filho.

            O desentendimento terá tido lugar ainda antes de Maio de 1810, pois já no dia 23 desse mês, D. Antónia Madalena obtinha certidão da escritura do dote, sem dúvida para fazer valer os seus direitos. Abandonando Tavarede, D. Antónia Madalena entrou no Convento de Santos, a que a sua família estava há muito ligada. A partir dessa altura a história da relação entre D. Antónia Madalena e seus filhos, é um rol de ódios, de vinganças, de perseguições. Tudo indica que aquela e seu filho João de Almada nunca mais se viram, apesar de D. Antónia ainda ter vivido 25 anos (A Casa de Tavarede).

            Tudo isto levou à requisição de administração judicial da Casa de Tavarede e ao seu declínio. Foram muitas as questões judiciais levantadas tanto pela mãe como pelo filho. Chegou ao ponto de, em Maio de 1821, D. Antónia se queixar que logo em Julho do mesmo ano me foi novamente arrebatada das mãos a minha casa em virtude de requerimento de meu ingrato filho, que obteve do Revolucionário Governo de 1820, a bárbara medida de ser posta em curadoria a minha pessoa e bens, sem eu ser ouvida e nem, ao menos, de tal ter notícia, conseguindo o mesmo meu filho, por meio desta destruidora providência, confirmar a ruína de minha Casa e a opressão de minha pessoa. Julga-se, no entanto, que a iniciativa não terá sido só do filho mas, sim, também de sua filha Ana Felícia.

            O Barão de Tavarede, juntamente com seu sogro, aderiu à causa do rei D. Miguel. Foram muitos os processos que levantou contra sua mãe, a quem acusava de dissipadora e causadora da ruína da Casa, mas sempre viu as questões serem decididas a seu desfavor.

            Num documento existente, refere-se que quando o Barão de Tavarede e sua família decidiram mudar-se para Trancoso levaram consigo o bom e melhor que D. Antónia deixara em casa, nomeadamente todos os móveis. E ainda refere uma nota de D. Antónia. Que … estando eu em Tavarede e tendo casa arrendada na Rua Formosa (Lisboa), onde tinha os títulos, algumas pinturas e móveis, o Barão, vindo escondido a Lisboa, entrou na casa num dia da Semana Santa e, arrombando portas e armários, levou os títulos e tudo o que achou de precioso, com geral escândalo da vizinhança… (A Casa de Tavarede)

sábado, 29 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 1984


1984.01.20     -     ANIVERSÁRIO DA SIT (O DEVER)

                Há muito que, em Tavarede, o Teatro anda associado a todas as manifestações das suas gentes. Não será exagerado afirmar-se, até, que a vida em Tavarede gira em torno do seu Teatro. E, se alguém tiver dúvidas a tal respeito, apenas terá de ali se deslocar numa dessas ocasiões para constatar.
                Agora, na comemoração do 80º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, o fenómeno repetiu-se: o momento mais alto das comemorações teve lugar no seu magnífico teatro onde foi levada à cena a peça “Na Feira de Gil Vicente”, com adaptação desse “homem grande de Teatro” que é José Ribeiro. Gil Vicente foi, assim, o “convidado” de honra de Tavarede, Gil Vicente que poderemos quase considerar famíliar ali (quem não se lembra da inesquecível “melhor Maria Parda” que foi, sem dúvida, a saudosa Violinda Medina?). Desta vez foram levadas à cena: “No Lar de Uma Família Judaica” (prólogo), “Auto da Barca do Inferno”, “O Pote da Mofina Mendes”, “Gil Vicente vem à Feira” e “Auto da Feira”.
                Mas não será ousado apresentar, em Tavarede, peças de tal nível cultural?
                É certo que a pergunta teria perfeito cabimento em relação à maioria dos centros portugueses. Mas a Tavarede não. É que ali há como que uma “representação colectiva” em que os que não sobem ao palco “representam” na plateia. Poder-se-á afirmar (passe o plágio) que quem não representa já representou e é esse facto que cria o tal ambiente em que se “respira teatro” e torna quase familiar a presença dos grandes vultos da cultura teatral. O teatro passou a fazer parte da vida desta gente, razão pela qual Gil Vicente é compreendido.
                E sobre o espectáculo?
                Julgamos ter dito o suficiente. Adiantaremos, no entanto, que vimos em palco quatro gerações. E que, se aquele Diabo (João de Oliveira) foi o melhor que já vimos, “o sapateiro” (José Luiz Nascimento) e “o parvo” (João Medina Junior), foram apenas duas excepcionais actuações num conjunto que surpreendia pela segurança com que todos dominavam a complicada linguagem de Gil Vicente, um autor que efectivamente, não está ao alcance de muitos grupos. Que nos perdoe o leitor a escassez de nota de reportagem aqui contida. Mas a verdade é que, para poder ter uma ideia exacta do que foi o espectáculo, só terá uma forma: deslocar-se lá na próxima representação (21 do corrente às 21,45) só assim poderá ficar com uma ideia de conjunto, desde a peça aos actores, da orquestra (dirigida por José Custódio Ramos) ao guarda-roupa (Anahory), dos cenários... a tudo.
                Vá, que não se arrepende.

1986.02.28     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                “Chá de Limonete” é o grande sucesso que a Sociedade de Instrução tavaredense leva à cena pela última vez no próximo domingo, dia 2 de Março, pelas 16,30 horas.
                O público continua a aplaudir esta linda fantasia em dois actos da autoria de José da Silva Ribeiro.
                A acção cultural que a SIT de há longos anos vem desenvolvendo através dos seus distintos amadores, continua a demonstrar que o Teatro não morre na nossa terra.
                E para que esta obra continue, necessário é que o público incentive os que a estão realizando, não faltando aos espectáculos de bom Teatro que se lhes proporcionam.

1986.05.27     -     X JORNADAS DE TEATRO AMADOR (DIÁRIO DE COIMBRA)

                Com a realização da 12ª sessão, no Teatro Taborda, em Brenha, terminaram no passado dia 24, as X Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, organizadas pelo Lions Clube desta cidade. Nesta sessão a Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou a comedia “As Artimanhas de Scapino”, de Molière. Se a peça termina com Scapino a dizer: “A mim, que me levem para uma das cabeceiras da mesa, à espera que morra”, nós brindamos na grande mesa onde tiveram lugar doze sessões para que esta iniciativa se mantenha eternamente “à espera que não morra”.
                Dentro de uma linha a que já nos habituou, a Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou talvez o melhor texto dramático das X Jornadas sem nos esquecermos de “A Estalajadeira”, de Carlos Goldini, representado na 8ª sessão pelo Grupo Amador de Teatro de Taveiro.
                “As Artimanhas de Scapino” foram representadas pela primeira vez em 24 de Maio de 1671, quando Molière tinha 49 anos e partilhava com os comediantes italians, seus amigos, o Teatro do Palácio-Real. Daí, talvez, a razão por que o herói desta farsa, que tem o diabo no corpo, possua muitas características próprias da “commedia dell’arte”.
                Assistimos a um espectáculo de bom nível, bem estruturado (tendo em conta a opção feita para a encenação), com bom ritmo e um trabalho de actores muito equilibrado. Porém, consideramos correcto destacar a interpretação de “Geronte”, por João Medina.
                A encenação desta peça tem levantado desde sempre muita discussão, na qual participaram nomes como Stanislawski, Jacques Copeau, Jouvet, Chancerel e Jean-Louis Barrault, entre outros. Porém, já em 1913 Copeau recusava o realismo de Stanislawski, que mostrava em cena um barco com sacos de farinha para justificar o facto de “Geronte” se meter dentro de um na 2ª cena do III acto. Deixamos este ponto à reflexão do grupo, pois a actual estrutura do espectáculo pode ser melhorada se for vencida a rotina de práticas estabelecidas há muito tempo.
                Se pode haver duas concepções de encenação desta peça, também há duas formas de representar “Scapino”. Questão também muito discutida, mas que só mostra toda a riqueza deste personagem. José Luís Nascimento cria um”Scapino” que está de acordo com o tom geral do espectáculo, embora tenha dificuldades do ponto de vista físico. Pois é consenso que a representação de “Scapino” ultrapassa o texto para ser também uma prova física.

1987.05.01     -     ALGUÉM TERÁ DE MORRER (CORREIO DA FIGUEIRA)

                A Sociedade de Instrução Tavaredense levou à cena a peça em três actos de Luís Francisco Rebelo, “Alguém terá de morrer”, uma das mais notáveis obras do nosso teatro, já que nela é permitido ao actor evidenciar os seus recursos criativos.
                Já havíamos observado esta peça pelos amadores da Naval 1º de Maio, naquela Associação. Ficámos então com algumas dúvidas se não estaríamos de facto em presença de uma magnífica representação teatral. Daí a nossa segunda observação, agora em Tavarede, onde confirmámo o talento do autor e da sua profundidade imaginativa, construíndo diálogos, que são interrogativos e desesperados, com a morte. Realmente, e com actores que têm a sensibilidade das personagens na ponta da língua, não há limites para os diversos graus de emoção, onde a vida enfrentando a morte, paralelamente, resulta numa curiosa composição, de modo que o espectador compreende que são duras e complexas as realidades da nossa existência, quando assumida assim, controlada pelo Mensageiro, em horas e minutos que perspectivam o suspiro final.
                “Alguém terá de morer” não é propriamente uma cruel aventura para a plateia, antes insistiu o autor em demonstrar-nos o que seríamos nas nossas atitudes, se porventura tivessemos de enfrentar a subtil e macabra presença de um enviado da morte, que não dá alternativas a uma família em pânico, submetida que foi àquela certeza. Toda esta dilatada compreensão que os actores nos transmitem durante a sua dinâmica e segura representação, só é possível vivê-la na sua mensagem, porque os sete componentes são a perfeita integração do percurso autor-actor-plateia, de um jeito e arte belíssima, que estimula sempre o espectador atento e ávido de saber, donde vem toda aquela exaltação no dizer e no sentir.
                Francisco Rebelo sabia que ao escrever que a morte é o destino que se cumpre, que originava nos personagens a incerteza dos propósitos, perante o desconhecido que representa a morte, quando assustadoramente nos transformamos e ao mesmo tempo revelamos a medíocre fragilidade de nos sentirmos perdidos, num caminho que até então era desvario e arrogância. De todas estas situações, que são habilmente denunciads por excelentes actores e actrizes, não aceitamos a débil condição humana, tão ridícula perante um facto, que deveríamos assumir com  equilíbrio e condição necessários. Mas é seguramente impossível ao comum dos mortais, aceitar o percurso traçado pelo autor, porque existindo a incerteza e a angústia, também a esperança nos anima e diverte nas inúmeras insuficiências de reflexão.
                “Alguém terá de morrer” e um  alerta para nós, que ainda vivemos, quando actores extraordinários na sua comunicação com a lateia, e inconformados com aquela sentença final, descobrem entre si que a vida é um prodígio tão belo que todos o querem preservar. Distinguir este ou aquele actor seria indelicada análise, porque todos são a realidade do nosso contentamento, e elevada admiração pela arte que nos proporcionaram no dizer e na simulação fisionómica, face às diversas mutações dos textos, que lançados sobre a platea, a obriga a reconhecer-se em todas aquelas maquinações da nossa existência, sempre tão fútil, quando chamada a enfrentar-se com o nosso próprio encontro.
                Verdade se diga, que se os actores de Tavarede pisarem os exigentes palcos da capital, experimentarão, decerto, honrosas e sucessivas chamadas das plateias, onde por vezes – permitam-me o desabafo – já temos comido gato por lebre.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 23


CARTA  A FOLHAS 87 – SUBSCRITO: ILMO.SR. JOÃO GREGÓRIO DE MELO, ETC…. DO SEU AMIGO THYPALOS - Meu Joaquinzinho e Francisquinho:
            Não tenho querido mandar aí mais cedo, para saber com exactidão tudo quanto se passou, por temer que a casa tenha estado vigiada. Escrevi ao (?), porém ele não me satisfez circunstanciadamente quanto desejava saber; fui porém instruído de quanto foi bastante para me magoar e afligir, sabendo ter sido presa a Fidalga e teu bom pai e os dois manos do dr.Quanto (?), a mim cada vez que considero a casual maneira porque escapei à tormenta, dão-me suores frios, pois na verdade o caso parece ser mais milagroso que natural!!
            A portadora desta é uma senhora capaz e digna de toda a confiança, por ela peço me digam tudo quanto tem havido relativamente aos presos, e em que figura estão as coisas; se eu não temesse alguém do bairro, tinha-me metido em uma sege e tinha já lá ido; digam-me se os da diligência perceberam a minha evasão pelos trastes que ficaram no quarto, enfim, instruam-me de tudo, pois estou impaciente por saber tudo. Sobretudo o que mais me admira é a prisão do padre e dos dois manos! Façam à mãe as minhas recomendações mostrando-lhe os aflitos sentimentos do meu coração, e o mesmo, havendo ocasião, aos presos todos.
            A caixa de prata que deixei em cima da mesa já sei que não apareceu; paciência, vão-se os anéis e fiquem os dedos. Estavam lá 3 lençois e umas pretas, dirão se apareceram. Adeus, escrevam e digam tudo. Do coração, amigo e obrigado. Thypalos.

OUTROS TESTEMUNHOS - Joaquim Pessoa de Amorim, 28 anos, natural de Castelo Branco, caixeiro do negociante francês, Monsieur Levit, solteiro, morador em casa de D. Antónia, ao Grilo.
            Padre José Viitorino de Sousa – capelão de D. Antónia, filho do dr. Luiz Manuel de Sousa, já falecido, e Mariana Inácio Domitília (?), natural de Formoselha, freguesia de Santo Varão, termo de Montemor-o-Velho. Baptizado e criado em Montemor-o-Velho. 63 anos. João de Melo, administrador da casa. Ele Padre acusado do crime de tumulto na relação do Porto, pela abadessa e mais religiosas do Convento de Santa Clara, de Coimbra.

TESTEMUNHAS CONTRA D. ANTÓNIA - Manuel Duarte, com loja de bebidas, na Rua Direita de Xabregas nº 15, comissário de polícia na mesma rua. 54 anos. Que foram presas mais pessoas das províncias que em casa de D. Antónia estavam refugiados, por consentimento da Senhora da casa, seu mordomo e capelão: Joaquim Pessoa da Silva Amorim (?) à procuradora da casa e nessa qualidade lhe tinha pedido 7.200, que depois lhe negara passados dois meses e ainda o ameaçou quando lhe pedira… “que passado um mês ele lhos pagaria…”
1)       Francisco Joaquim da Silva, com armazém de vinhos, na Rua Direita dos Anjos.
2)       Tomé da Maia, mestre alfaiate, morador no Pátio da Tavarede, na Rua Direita de Xabregas.
3)       Joaquim António Brandão, fazendeiro, com venda de vinho na Estrada de Chelas.
4)       Bartolomeu de Abreu Vieira, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no Beato.
5)       Pedro Abdon José da Costa, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no palácio do Exmo. Marquês, Monteiro mor, na Rua Direita de Xabregas.
6)       João Maria (?), idem soldado, etc.
7)       Henrique José Barreiros, guarda-roupa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
8)       José Roque, guarda-roupa do Exmo. Marquês de Olhão.
9)       Isabel Joaquim, casada com Joaquim Meireles, com casa de Povo, na Rua Direita de Xabregas.
10)   José Martins, com casa de mercearia no cunhal das Rolas, na Rua das Partilhas, e com armazém de vinhos no Pátio da Tavarede, ao Grilo.
11)   Francisco António Paredes, criado de farda do Exmo. Marquês de Olhão.
12)   Jácome Borrati, amanuense da secretaria de Estado dos Negócios de Guerra, morador no Beato.
13)   José Luiz Ferreira, com loja de bebidas no Largo do Beato.
14)   José Pais, criado do Exmo. General Vicente António.
15)   Manuel António Rosa, boticário, morador no Grilo.
16)   Manuel Pina Barbosa, guarda-roupa do Exmo. General Vicente António.
17)   Maria Perpétua, solteira, moradora em casa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
18)   Ana do Nascimento, casada com Francisco Parodi, criado do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
19)   Joaquina Rosa Tibúrcia, solteira, moradora no Beato, Largo do Forno.
               
O QUE DIZ A 6º. TESTEMUNHA (AS OUTRAS MUTATIS MUTANDIS) -  A 14 de Dezembro de 1832 intimida a ré D. Antónia, no Convento de Santa Joana em como ficava à disposição da Comissão-Crime, criada pelo real decreto de 15 de Agosto de 1828.
            Em Fevereiro de 1833, D. Antónia requereu para livrar-se (?) em apartado com as seguintes pessoas de sua família a saber: João de Melo Barreto d’Eça e seus filhos, José Anastácio, José Miguel e João – deferido em 16 de Fevereiro de 1833. Até 13 de Março de 1833, embora deferida a pretensão, não trataram de semelhante objecto e para conhecer os autos e nada mais consta do processo a respeito de D. Antónia Madalema.
            Disse a 6ª. Testemunha: “- que sabe, por ser público, que foi presa D. Antónia Madalena de Quadros, porque em sua casa existiam diferentes réus de lesa-majestade refugiados, tais como Joaquim Pessoa da Silva Amorim, António Manuel da Silva Vieira Broa, José Maria Rodrigues e um doutor Paula, dos quais os três primeiros ali foram presos, e que tanto ela, como o seu mordomo e filhos, e um padre José Vitorino, que se diz seu capelão, não gozam de boa opinião, nem são afectos ao governo monárquico, antes pelo contrário, inimigos decididos da Augusta Pessoa de El-Rei Nosso Senhor. E mais se declarou que ele, Mordomo, e seus colegas e sócios no fim do ano de 1829 e princípio de 1830 tocaram frequentes vezes o hino revolucionário francês, e só deixaram de o fazer depois que para isso foram advertidos, e que mais sabe, por ouvir dizer a uma criada do Exmo. Senhor Marquês, Monteiro-mor, Maria Perpétua, que os mencionados individuos se banquetearam frequentemente e que no meio destes banquetes davam vivas a D. Pedro IV, e que também sabe pelo presenciar que na ocasião em que entrou a esquadra francesa mostraram um grande prazer e regozijo. (cad. 25 – pag. 9)

            D. Antónia Madalena, a 10ª. Senhora de Tavarede, foi condenada ao pagamento de 300 000 reis, sendo duas partes para a Casa Pia e uma para os oficiais e soldados da diligência, por conservar de cama e mesa na sua casa os réus de Lesa Majestade. Esta sentença foi, porém, revogada.
               
            Presume-se que a Morgada de Tavarede ainda se encontraria no Convento de Santa Joana no dia 24 de Julho de 1833, quando Lisboa foi tomada pelos liberais. Com a abertura da prisão aos presos políticos, certamente que D. Antónia Madalena terá regressado ao Palácio do Grilo, onde, a 26 de Fevereiro de 1835, faleceu, sendo sepultada no cemitério do Alto de S. João.

            Numa das notas que encontrei e que referi no 1º. volume de ‘Tavarede – A Terra de Meus Avós’, diz-se que segundo a tradição, D. António Madalena foi enterrada ainda viva no convento de Santo António, mais referindo que se desconhece a origem desta tradição. A verdade, no entanto, é que o registo do óbito de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa se encontra nos registos paroquiais da freguesia do Beato, Lisboa, referentes ao período de 1821 a 1852.

            Terá, na verdade, a fidalga tavaredense sido trasladada para o convento de Santo António? Parece que esta hipótese será pouco crível, pelo que os restos mortais da 10ª. Senhora de Tavarede repousarão para sempre em Lisboa.

sábado, 22 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - nOTAS E cRÍTICAS - 46


1982.01.29     -     VIAGEM NA NOSSA TERRA (O DEVER)

                A Sociedade de Instrução Tavaredense aproveitou a celebração do seu 78º aniversário para apresentar a peça “Viagem na Nossa Terra”, original de José da Silva Ribeiro e musicada por António Simões, Anselmo Cardoso e João Silva Cascão, integrada nas Comemorações do 1º Centenário da cidade da Figueira da Foz. Acertadamente integrada, acrescentamos nós, uma vez que é nossa opinião ter-se vivido ali um dos pontos mais altos das Comemorações, a nível cultural. Se não o mais alto!
                Porquê?
                José Ribeiro soube aproveitar “Viagem na Nossa Terra” para renascer das cinzas e dos documentos históricos (de que é estudioso credenciado) uma história onde a verdade e a sua perspicácia tecem uma página de alto valor crítico/pedagógico e que será crime deixar limitada a Tavarede. Este espectáculo merece ser visto por todos os figueirenses. Têm a palavra o Presidente da Câmara e Executivo das Comemorações.
                Nas vamos à peça.
                Apenas poderemos dizer que, só no palco, estiveram cerca de 50 figurantes, todos eles com ricos trajes rigorosamente de acordo com as épocas e circunstâncias em cena.
                E que, como por encanto, as cenas se sucediam num ritmo impressionante e sem quebras que prendiam o numeroso público que apenas desviou o olhar quando o acender geral das luzes anunciou o intervalo.
                Os cenários – dezenas de cenários profusamente decorados a rigor – apareciam e desapareciam com uma naturalidade que não está ao alcance de amadores.
                Como de costume, a riquíssima indumentária utilizada pertencia à casa Alberto Anahory que, mais uma vez, primou pela perfeição.
                Sobre os figurantes, apenas se nos oferece dizer que a maior parte deles pisa o palco como muitos profissionais o não fazem e que é notória, até nos mínimos pormenores, a superior orientação desse “homem do teatro e para o teatro” que é, indubitavelmente, José Ribeiro.
                Não há dúvida que quem quiser ver bom teatro terá de ir a Tavarede. Que ninguém desperdice esta oportunidade.
                Após a apoteose final numeroso público exigiu a presença de José Ribeiro que foi calorosamente aplaudido.

1982.02.10     -    VIAGEM NA NOSSA TERRA (MAR ALTO)

                Integrado nas comemorações do 78º. aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, mais uma peça, original de Mestre José Ribeiro, ali está em representação. Estivémos presentes na estreia, e não resistimos à tentação de escrever uma breve crónica do que nos foi dado apreciar.
                Sabemos, porque temos consciência disso, e porque nos vamos referir a esta peça em termos elogiosos, sendo natural de Tavarede e porque honrosamente tivemos o prazer de fazer parte daquele grupo amador de teatro durante largos anos, sabemos, dizíamos, de que a nossa crónica possa ser interpretada como escrita com um certo sentido “piegas” e de alguma saudade. – É um facto, que não nos podemos alhear dos sentimentos do coração, pois quem alguém que um dia teve a ventura de pertencer ao grupo dramático da SIT, a ele fica eternamente ligado. No entanto, e intencionalmente, deixámos passar alguns dias antes de escrever estas breves palavras, e é com a voz da razão, no nosso entender isento, que transcrevemos a nossa opinião.
                Mas... vamos à “Viagem na Nossa Terra”!
                Esta peça, a que chamamos “Fantasia Histórica”, é mais um original de Mestre José da Silva Ribeiro, que, com os seus oitenta e muitos anos, continua a transportar para o palco toda a juventude do seu enorme talento. Esta peça de teatro é mais um documento histórico da nossa terra, e Mestre José Ribeiro a escreveu em louvor do I Centenário da cidade da Figueira da Foz, pois que alguns quadros o expressam na sua maior clareza. Cavando mais um pouco da história longínqua da sua terra, que tanto ama, - Tavarede -, José Ribeiro não deixou de fazer a sua crítica a momentos actuais e de abraçar a Figueira da Foz neste momento alto da sua existência, que é a comemoração do I Centenário da elevação a cidade.
                Pensamos, temos a certeza, de que este é, até ao momento, o mais alto contributo para as Comemorações. Julgamos mesmo, que seria imperioso a Comissão Executiva das Comemorações do Centenário, fazer todas as demarches para que esta relíquia e rica peça de teatro fizesse uma digressão por todas as freguesias, e povoações onde fosse possível, para que a população do nosso concelho aprendesse um pouco da história da nossa cidade. – De Afonso Henriques até aos nossos dias, à mistura com quadros de fantasia, é mostrada a história de um povo.
                A peça foi escrita pelo sempre jovem Mestre José Ribeiro, mas como é evidente, não é só a ele que devemos estar gratos pelo belo serão que nos foi proporcionado: - Há também todo um lote de “jovens” – dos mais variados escalões etários -, que conseguem transportar para o palco as ideias de José Ribeiro. São eles os amadores da velha SIT. – Lá vimos os veteranos, mas sempre jovens, João Medina, João de Oliveira, o José Luiz do Nascimento, o José Medina, Manuel Lontro, Antonino Santos, João José da Silva, a Maria da Conceição, a Ana Maria Bernardes (que maravilhosa faz), a Lourdes Lontro, e tantos tantos outros ao lado daquela enorme massa de juventude que ali, no palco da SIT, encontram na ocupação dos seus tempos livres uma forma elevada de cultura.
                Quanto à música também não temos palavras, pois que é agradável e melodiosa. Os seus autores, infelizmente dois já desaparecidos, - (António Simões e Anselmo Cardoso) – e João Silva Cascão.
                Uma última palavra para o guarda-roupa de Alberto Anahory: - “Maravilhoso”.
                Não nos queremos alongar em mais considerações, embora de bom grado o fizéssemos.
                Uma última questão: - “Quem não acredita no que dizemos só terá uma solução, que é ir assistir ao espectáculo”. – Se não gosta de teatro, temos a certeza de que ficará a gostar. Se já gosta, ficaria ainda a gostar mais.

1982.03.18     -     JORNADAS DE TEATRO AMADOR (A VOZ DA FIGUEIRA)

                Com a récita da revista “Viagem na Nossa Terra” iniciaram-se em Tavarede, as VI Jornadas de Teatro Amador do Concelho da Figueira, patrocinadas pelo Lions Clube.
                Não nos foi possível assistir à representação do dia 8, por nos termos deslocado a terras do norte, em viagem particular. Porém, já haviamos assistido anteriormente a este espectáculo do grupo de Tavarede – o último trabalho conjunto dos amadores daquela Sociedade de Instrução.
                A história que nos contam pretende ser uma reconstituição de factos ligados à cidade Foz do Mondego. E se por um lado temos de louvar o trabalho de pesquiza efectuado por José da Silva Ribeiro, bem como a intenção que presidiu à difícil montagem das cenas históricas e de “vaudeville”, por outro temos de reconhecer que não foi muito feliz o resultado final.
                O primeiro dos vinte quadros – uma alegoria representando a rainha das praias e os seus quatro elementos de maior interesse (o mar, o sol, o rio e a serra) teve boa representação e mau guarda-roupa.
                A seguir, pensávamos ir assistir a uma sucessão de quadros mais ou menos históricos ligados entre si por uma narração a propósito, o que não aconteceu! Terminaram - isso sim – com a feérie dos quadros de revista, todos eles muito bons. Bons em guarda-roupa, em representação, em música, porém muito mal acompanhados por uma orquestra desafinada, desencontrada e pobre de orquestração.
                Gostámos particularmente do quadro dos tanoeiros, pela homonegeidade dos grupo. E do das filarmónicas pelo conteúdo-ligação política dos diálogos.
                É possível que se tornasse mais fastidioso o espectáculo dividido em duas partes: a histórica e a revisteira, mas talvez ganhasse o conjunto com a clareza de narração que se conseguiria.
                À parte isso, é preciso uma vez mais salientar a justeza dos papéis distribuídos, da representação de todos os elementos e das montagens cénicas, algumas de muito bom efeito.
                Com elementos como José Medina, Avelino Fileno, João Medina, Manuel Lontro, José Luís do Nascimento, Manuel Silva, Lurdes Lontro, Olinda Rodrigues, Luísa Lontro, e as vistosas raparigas do coro, não é difícil fazer uma peça que agrade à maioria.
                Parabéns aos actores e aos técnicos.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 22


Foram muitos os requerimentos que João de Almada fez na tentativa de retirar da posse de sua mãe os seus bens. Temia, diz ele, que ela dissipasse os bens que herdara da Viscondessa de Condeixa, da mesma forma que dissipara os bens da Casa de Tavarede. Foram ouvidas muitas testemunhas, de ambas as partes, mas a verdade é que foi dada razão a D. Antónia Madalena, como refere o despacho do corregedor que julgou o caso … seria muito violento privar de modo tão sumário D. Antónia Madalena de uma Casa que era sua por direito próprio… E por decisão do Desembargo do Paço, de 16 de Março de 1829, o assunto ficou encerrado para sempre.

            Parecia, agora, que D. Antónia Madalena, então com 55 anos de idade, iria passar a ter uma velhice tranquila na sua casa de Lisboa. Mas não foi isso que sucedeu. A Morgada de Tavarede era uma liberal. Tinha sofrido enorme desgosto por seu filho ter assumido o absolutismo. Não sei, na verdade, se o liberalismo da nossa fidalga era uma verdade indiscutível ou se seria levada a isso por oposição a seu filho. Na verdade muitas foras as vezes em que ela invocou seus títulos e os de seu marido, defendendo a sua posição.

            Mas sabe-se que o seu mordomo, João Anselmo, e o padre capelão José Vitorino de Sousa, natural de Formoselha, que tomara a seu serviço aquando passara a residir em Lisboa, eram liberais e convictos. E tambem se sabe que, no dia 4 de Julho de 1832, pelas 2 horas da noite, o Corregedor do Crime de Alfama, com o escrivão e acompanhados por tropas da Guarda Real da Polícia e dos Voluntários Realistas de Castro Daire, entraram no seu palácio, sito no ‘pátio da Tavarede’, na Rua do Grilo, levando presos todos quantos ali se encontravam.
           
                A 7 de Julho de 1832, requer D. Antónia, por seus priivilégios e por ser presa por uma denúncia vaga de crime político, por suas doenças perigosas, como há quatro dias se acha sem socorros médicos, incomunicável no segredo da Corte, para Sua Majestade a mandar para onde lhe aprouver, mas onde a suplicante possa evitar a morte. E no dia 10 de mesmo mês, foi emitido um régio aviso,  mandando-a ser transferida do segredo da cadeia da Corte para o Mosteiro de Santa Joana. Alegava-se, então, que havia papéis subversivos apreendidos em sua casa. E no dia 21 de Julho seguinte, foi entregue no referido Convento Real de Santa Joana, para julgar os crimes cometidos contra a Augusta Pessoa de Sua Majestade El-Rei Nosso Senhor e segurança do Estado.

            D. Antónia já havia sido interrogada. Aqui fica a nota deste interrogatório. Ano de 1832. Aos 6 de Julho do dito ano, nesta cidade de Lisboa e cadeira da Corte, onde veio o dr. Jerónimo Moreira Vaz, Corregedor do crime do Bairro de Alfama, comigo escrivão do seu cargo e o assistente no fim assinado, aí mandou chamar à sua presença a D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, presa na dita cadeia, e depois de lhe deferir juramento dos Santos Evangelhos quanto a terceiro, lhe fez as seguintes perguntas. E eu, José Joaquim Galvão, o escrevi.
            E perguntado pelo nome, filiação, naturalidade, morada, estado e idade, respondeu chamar-se D. Antónia Madalena de Quadros, filha de José Juzarte de Quadros e Dona Joana Madalena Leite, natural de Tavarede, moradora da Estrada do Grilo, em Lisboa, é viúva de Francisco de Almada e Mendonça, e tem de idade 58 anos, incompletos.
            E perguntada quando, aonde, por que ordem e por que motivo foi presa, respondeu que fôra presa na noite de 3 para 4 do corrente, em sua casa, por ordem do Ministro e que ignora o motivo.
            E perguntada há quanto tempo viviam em casa dela, interrogada, Joaquim Pessoa da Silva Amorim, natural de Castelo Branco, António Manuel da Silva Broa, natural do Sardoal, e que foi alferes do novo regimento de infantaria de Lisboa, e José Maria Rodrigues, natural da freguesia de Santa Cruz, do cartel desta cidade de Lisboa, e o Padre José Vitorino de Sousa, natural de Formoselha, e que mais pessoas eram frequentes em sua casa, ou por visita ou em efectiva residência.
            Respondeu que Joaquim Pessoa da Silva Amorim, há 5 ou 6 meses na casa dela interrogada, e António Manuel da Silva Vieira Broa, que reside na casa dela, interrogada, há 3 meses, e José Maria Rodrigues residia em casa dela, interrogada, haveria um mês, pouco mais ou menos, e que o seu padre capelão José Vitorino de Sousa, reside na casa dela, interrogada, há 5 anos, e que não tinha visitas.
            E perguntada se antes de admitir na sua casa, e na sua companhia, os referidos Joaquim Pessoa da Silva Amorim, António Manuel da Silva Vieira Broa, José Maria Rodrigues, examinara ela, interrogada, como devia examinar, a conduta religiosa, moral e política destes indivíduos, e os títulos por que eles puderam legalizar a sua residência na Corte, principalmente aqueles que dela não serão naturais.
            Respondeu que há 3 anos, pouco mais ou menos, que Joaquim Pessoa da Silva Amorim frequentou a casa dela, interrogada, visitanto o seu administrador João de Melo Barreto de Eça, com o qual tomou conhecimento numa hospedaria e contraíram tal amizade que o referido Joaquim Amorim, frequentando por este motivo a casa dela, interrogada, lhe pediu o deixasse residir nela, ao que  anuiu ela, interrogada, não lhe investigando a sua conduta, não lhe importando o que ele fazia, e quando o via era a reunião do almoço, jantar e ceia; e que António Manuel da Silva Vieira Broa era conhecido dela, interrogada, há muito tempo, bem como a família dele, e por isso o admitiu em sua casa e lhe permitiu que nela vivesse, ignorando o seu emprego militar, no que reconhece o seu pouco cuidado e sua culpa; e que José Maria Rodrigues foi conduzido a casa dela, interrogada, por um seu tio, chamado Fortuna, caserneiro, por ocasião de visita e jogo de voltarete, e tomando depois conhecimento, o dito José Maria Rodrigues, com os filhos do administrador dela interrogada João José de Melo Barreto de Eça, lhe pediram aqueles que o deixasse persistir em sua casa, ao que ela interrogada anuiu, ignorando que ele tivesse culpas.
            E por ora ele Ministro não fez mais perguntas à respondente, que sendo-lhe lidas disse estarem conformes e que as respostas as ratifica, e assinou com a respondente e nós escrivães, em fé de verdade. E eu José Joaquim Galvão o escrevi e assinei.

            Para recordação, e porque talvez venha a interessar a alguém, a seguir transcrevo algumas passagens do processo: TESTEMUNHAS               João Gregório de Melo Barreto d’Eça, filho de João de Melo Barreto d’Eça e de D. Maria do Carmo Teles de Melo, natural da Figueira, morador na Calçada de Santo André, 68 – 2º andar, não tem emprego… “… é certo que na dita casa de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa existia um outro réu de lesa-majestade, o doutor Paula, da Figueira, amigo dele interrogado, seus pais e irmãos, a quem davam ali por brincadeira o nome de Thypalos, e que este fôra o que se evadira à justiça na noite de 4 do corrente, em que ali o pai e irmãos dele interrogado, a dona da casa e outras pessoas foram presas…”. (Negou)

            Perguntas a Joaquim Pereira da Silva Amorim – 3ªs perguntas – 23 de Julho de 1832:
            “E perguntado quem era  um outro réu e culpado que se achava em casa de D. Antónia Madalena de Qiadros e Sousa, na noite em que ele interrogado, e outros ali foram presos, escapando-se aquele réu à prisão.
            Respondeu que àquela casa costumava ir de visita, e algumas vezes pernoitava, um outro chamado Paula, da vila da Figueira, e que reside em Lisboa, mas que não tinha dito, a ele interrogado, onde era a sua morada e que ignorava se ali estava.
            E perguntado se ele conhece a letra daquele doutor Paula, respondeu que o viu escrever algumas vezes e que apresentado-se-lhe a letra pode dizer se sim ou não a conhece.
            E perguntado se àquele Paula davam na referida casa o nome de Thypalos, respondeu que um francês, chamado Messidor, que estava em casa de D. Maria de Noronha, vizinha da casa onde estava ele interrogado, e ia este doutor Paula, lhe chamavam muitas vezes Thypalos.
            E perguntado se conhece a letra do bilhete de folhas 86 dos autos e da carta  de folhas 87 dos mesmos, que lhe foi mostrada: que tanto aquele como este estão assinados com o nome de Thypalos. Respondeu que não conhece bem a dita letra e que nunca vira que aquele doutor Paula se assinasse Thypalos. E perguntado onde reside este doutor em Lisboa: reaspondeu que não sabia.