sábado, 20 de outubro de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 26


Francisco de Almada e Quadros Sousa de Lencastre

2º. Barão e 2º. Conde de Tavarede

            Nasceu em Trancoso a 6 de Março de 1818, filho de João de Almada Quadros de Sousa Lencastre de D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque. Foi nomeado 2º. Barão de Tavarede por decreto de 23 de Setembro de 1846 e Conde de Tavarede, por decreto de 23 de Março de 1848.

            Foi conselheiro do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, moço fidalgo da Casa Real, par do Reino, comendador da Ordem de Cristo, governador civil do distrito de Lisboa, exercendo, ainda, outros cargos públicos. Casou, a 25 de Maio de 1848, com D. Eugénia de Saldanha de Oliveira e Daun, filha do primeiro Duque de Saldanha, João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun e de D. Maria Teresa de Horan Fitzgerald. A futura Baronesa e Condessa de Tavarede era dama de honor da rainha e pertencia às Ordens de Damas Nobres de Maria Luísa, de Espanha, e de S. Carlos, do México.

            Deste casamento nasceram dois filhos, um casal, João Carlos Emílio Vicente Francisco de Almada Quadros Sousa Lencastre de Saldanha e Albuquerque e D. Maria Teresa Emília de Almada Quadros Sousa Lencastre Fonseca de Saldanha e Albuquerque, mais tarde Condessa do Prado da Selva.

            Francisco de Almada e Quadros faleceu no dia 25 de Novembro de 1853, apenas com 35 anos de idade. Sua viúva, cerca de ano e meio após a sua morte, casou em segundas núpcias com o Conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela.

            Pouco saudável, passou toda a sua meninice em Trancoso. De carácter romântico dedicou o seu muito tempo livre a escrever poesia e aprendeu música, tocando rabeca. Tinha, contudo, posição privilegiada naquela terra, interessando-se, desde muito novo, pela política. Assumiu-se liberal e cartista. Foi vereador camarário, sendo escolhido para presidente da Câmara local em Janeiro de 1843. No ano de 1846 foi eleito procurador à Junta Geral dos Distritos, pelos concelhos de Trancoso e Aguiar da Beira. Também foi comandante do Batalhão Nacional de Caçadores da Rainha, na Guarda.

            Foi nomeado, ainda em vida de seu pai, o 2º. Barão de Tavarede, por decreto 1846. A propósito desta nomeação, o Dr. Pedro de Quadros e Saldanha, em ‘A Casa de Tavarede’, escreve … a história da concessão deste título é reveladora da prosápia e vaidade de D. Francisco. Assistindo em Lisboa no segundo andar do prédio com o número 71 da Rua do Arco da Bandeira, em 4 de Setembro de 1846, remeteu por carta ao Ministro dos Negócios do Reino, segundo se julga, um requerimento em que pedia a concessão do título de Visconde de Condeixa ou de Vale de Mouro. Naquela carta pedia o favor do ministro para que lhe fosse atendido o requerimento, dizendo porém que se julgava no direito de pedir o título. Para justificar esta falta de humildade dizia que vinha servindo a Rainha desde havia uns poucos de anos , ‘e nunca servi n’outro tempo’, e que lhe pertencia o titulo dos pais e tios, os Viscondes de Condeixa.

            Em Janeiro de 1848 tomou posse do mandato de deputado eleito pela Beira Baixa. No ano de 1852 tomou assento na Câmara dos Pares, depois de ter exercido o lugar de Governador Civil do Distrito da Guarda e no dia 1 de Setembro de 1852, foi empossado no cargo de Governador Civil do Distrito de Lisboa.

            Era reconhecido como sendo um cavalheiro que possuia bons princípios e dotado de muita tolerância. Como era pouco saudável, foi, em Abril de 1853 e a conselho dos seus médicos, algum tempo para a ilha da Madeira, na esperança de obter melhoras. Não o conseguiu, porém, e no dia 25 de Novembro de 1853, faleceu em casa de seu sogro, e foi sepultado no cemitério dos Prazeres em Lisboa.

            Como faleceu ainda em vida de seu pai, não foi considerado como Senhor de Tavarede. Não se sabe se chegou a visitar alguma vez a nossa terra. A propósito de sua mulher, D. Eugénia de Saldanha de Oliveira e Daun, Pinho Leal, no seu Dicionário de Portugal Antigo e Moderno, dá-lhe o dia 25 como azarento, escrevendo que nasceu a 25 de Maio, casou a 25, também de Maio, enviuvou a 25 de Novembro e faleceu, tuberculosa, no dia 25 de Março de 1876.
           
            D. Fernando, marido da rainha D. Maria II, mandou ao Duque de Saldanha a seguinte carta: Meu Duque: Agora mesmo acabo de saber da triste morte do Conde de Tavarede. Quando se tem o coração tão aflito e cheio de saudade como o meu, ainda se torna mais sincera parte na dor dos outros. Esteja o Duque certo que deveras lamento a morte de seu honrado genro e que partilho a sua mágoa e aquela da pobre Condessa de Tavarede tão digna de ser bem feliz

sábado, 13 de outubro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 49


1991.04.05     -     TAVAREDE EVOCOU TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                Tavarede, santuário de muito teatro, não esqueceu (como podia?) de assinalar o Dia Mundil do Teatro, que ocorreu na passada semana, no dia 27.
                Não sabemos de outras iniciativas que tenham decorrido no nosso concelho, mas, se eles acaso não se desenvolveram, Tavarede salvou, como se diz, a honra do convento, ao promover, na sua sede, uma noite em que o Teatro e José da Silva Ribeiro voltaram a dar mãos, encheram a Sociedade de Instrução Tavaredense e reconfortaram o espírito de todos que participaram nesta comemoração.
                Presidiu à sessão o Dr. Luís de Melo Biscaia, vereador do pelouro da Cultura, o qual, em mesa de honra, estava rodeado pelo presidente da Junta de Tavarede, António Baltazar, e pelas drªs. Ilda Manuela e Ana Maria Caetano, bem como pelo presidente da SIT, Manuel Lontro.
                E seriam de Manuel Lontro as primeiras palavras explicativas da razão desta sessão, na qual a comissão promotora da homenagem a José Ribeiro resolveu aproveitar o Dia Mundial do Teatro não só para evocar o Mestre, mas também para do Teatro falar, como se os dois, adiantamos nós, se pudessem separar.
A Drª Ilda Manuela leu depois a mensagem do Director Geral da Unesco, Frederico Mayor, relativa à data que se assinalava e na qual aquele responsável distinguiu o instinto criador de todas as mulheres e de todos os homens, enunciando seguidamente alguns dos grandes desafios do nosso tempo, recordando também o valor da comunidade teatral internacional, incitando às manifestações desta arte ímpar, na contribuição do advento de um mundo mais criador e mais fraterno.
                A intervenção de fundo coube à Drª Ana Maria, actual ensaiadora da SIT, discípula de Mestre José Ribeiro, a qual, corajosa, mas conscientemente, pegou nas rédeas da colectividade após o falecimento de João de Oliveira, outro homem grande do Teatro tavaredense.
                E a palestrante traçou um cuidadoso retrato destes dois grandes e indissolúveis triunfos culturais de Tavarede, isto é, historiou a fecunda actividade teatral e evocou José da Silva Ribeiro.
                Recordou os tempos da fundação da SIT, lembrando as sociedades dramáticas que se representavam de casa a casa, a acção de João José da Costa e a contribuição que este ex-presidente da Câmara deu à actividade teatral transformando a Casa do Terreiro em Teatro do Terreiro, a escola nocturna que o antigo regime encerrou em 1942, as representações, as dificuldades...
                Mas 1916 é marco histórico-cultural de Tavarede, pois é nesse ano que José da Silva Ribeiro, com apenas 18 (?) anos, se assume como ensaiador da SIT, estreando-se com a opereta “Entre duas Avé-Marias”.
                E pelo palco de Tavarede passou uma população que se cultivou, educou, progrediu, tomando características próprias que se haviam de reflectir no dia a dia da vida real.
                E neste Dia Mundial do Teatro foi bom aprender e recordar muito do que o Teatro deve a Tavarede, muito do que Tavarede deve a Mestre José da Silva Ribeiro, viajando ciceroniado pela Drª Ana Maria, num agradável passeio cultural que nos conduziu dos primórdios teatrais tavaredenses até aos nossos dias, havendo ainda tempo para saudar Violinda Medina, João Cascão, os irmãos Broeiros, Manuel Nogueira, Francisco Carvalho e tantos outros pilares humanos da SIT.
                E a palestrante concluiria as suas palavras com a certeza de que “em Tavarede deixou bem colocada a semente do Teatro”, finalizando com um viva ao Teatro.
                O Dr. Luís de Melo Biscaia encerraria a primeira parte desta sessão evocativa do Dia Mundial do Teatro, declarando “que hoje sabe bem revivermos José da Silva Ribeiro neste Dia Mundial do Teatro”, realçando posteriormente quer a sua acção, quer a de todos os amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, felicitando, por fim, a oradora pelo seu brilhante trabalho.
                A derradeira parte desta reunião foi toda ela ocupada pela passagem de um vídeo, no qual nos foi apresentada uma completa entrevista realizada ainda com o Mestre José Ribeiro, ora situada em sua casa, ora localizada na sua segunda casa, a SIT.
                E se soube bem reviver Mestre José Ribeiro nas palavras da Drª Ana Maria, como afirmou Luís Biscaia, não menos emotivo foi revê-lo nas imagens, sentir toda a sua determinação, vontade, todo o seu “amor ao Teatro e às suas gentes de Tavarede”.
                Tavarede não esqueceu o Dia Mundial do Teatro. Bastou que do Mestre José Ribeiro se falasse...

1992.01.24     -     SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE (O FIGUEIRENSE)

                Como temos vindo  divulgar, a Sociedade de Instrução Tavaredense está a festejar o seu 88º aniversário.
                Colectividade de características muito particulares, a SIT tem sido, o longo dos anos, como que o santuário do teatro de amadores do nosso concelho, não apenas (o que já seria muito) pelo facto de tradicionalmente possuir um conjunto de intérpretes de elevado nível, mas também pela influência positiva e apoio que sempre transmitiu a outras associações mais carenciadas.
                É hoje inviável falar-se da Sociedade de Instrução Tavaredense sem que vários nomes dos brilhantes tavaredenses nos ocorram ao pensamento. Mas temendo não relembrar  totalidade, o que seria injusto, evocamos colectivamente a sua memória, recordando Mestre José Ribeiro, um Homem que cultivou as gentes de Tavarede através do Teatro, Arte que levaria o nome da SIT, de Tavarede e da Figueira da Foz a ultrapassarem barreiras culturais que, “na época”, constituíam grave obstáculo ao natural desenvolvimento de arte de representar.
                E por falar em Teatro, lembramos que amanhã sobe ao palco da SIT a peça de Molière “O Avarento”, comédia em 5 actos, numa tradução do Prof. Paulo Quintela, e numa representação dos amadores da colectividade em festa.
                Recordamos ainda que no domingo, com início às 17 horas, decorrerá a sessão solene, que contará com a presença de diversas entidades oficiais e convidados.
                Na impossibilidade de estarmos presentes, desde já felicitamos a Sociedade de Instrução Tavaredense.

1992.02.07     -     TAVAREDE, ONDE O TEATRO É TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                Considerada como o santuário do teatro de amadores, a Sociedade de Instrução Tabvaredense acaba de encerrar um ciclo de actividades que marcaram a passagem do seu 88º aniversário, porquanto, ao correr dos anos, como uma das agremiações que maior acção educativa terá exercido na sua comunidade, particularmente pela via do teatro.
                E a sessão solene, que decorreu na sua acolhedora sede, mais não foi que o culminar de variadas iniciativas, das quais é justo destacar a Estafeta do Teatro, durante a qual gentes de Tavarede ligaram o palco do Teatro de Mestre Gil Vicente, em Coimbra, com o de Mestre José Ribeiro, em Tavarede, num percurso tão rico de significado, pois entre a meta e a chegada, os sócios da SIT recordaram o distinto tavaredense que foi João de Oliveira Júnior, falecido, na rua, bem perto do local da partida. Mas ainda se saudou o Grupo de Teatro Amador de Taveiro na passagem por aquela povoação e, mais adiante, tendo como testemunha o vetusto castelo, os caminheiros prestaram honras ao Centro de Iniciação Teatral Ester de Carvalho, em Montemor-o-Velho.
                Finalmente, ao aproximar-se Maiorca, as palavras de admiração encaminharam-se para o Actor Dias, símbolo cultural daquela vila.
                Ainda no programa de aniversário constava uma representação de “O Avarento” de Molière, a cargo dos amadores da sociedade em festa. Mas tal não foi possível, pois razões de saúde, ao que nos afirmaram, impediram dois amadores de subirem ao palco, ainda que em palco, numa oportuna substituição, tivessemos igualmente Molière, mas agora no “Médico á Força”, trazido pelos briosos amadores do Grupo Instrução e Recreio Quiaiense, uma associação onde também o teatro é... Teatro.
                Falemos da sessão solene, que teve a presidi-la o vereador do pelouro das colectividades, Carlos Alberto Gonçalves, representando a Câmara Municipal.
                Perante um público demasiadamente pouco numeroso para os pergaminhos (e necessidades) da Sociedade de Instrução Tavaredense, iniciou a parte dos discursos o presidente da Junta de Freguesia, António Simões Baltazar que, em nome da entidade que representava, cumprimentou a SIT, tendo igualmente tecido alguns justos comentários relativos ao associativismo vivido em Tavarede, que anseia mais dinamismo, declarando que gostava que a SIT fosse conhecida não somente pelo seu Passado (brilhante), mas igualmente pelo seu Presente. Lembrou a existência do pavilhão desportivo não suficientemente aproveitado, exprimiu o desejo que o grupo cénico se mantenha unido como outrora, para prestígio de Tavarede.
                A Drª Ana Maria Caetano, um dos actuais pilares da casa, para além de muito frontalmente ter lamentado a ausência do público na plateia, justificou, sem que do problema fizesse um drama, a não representação de “O Avarento”.
                Nestas sessões solenes de Tavarede desde há longos anos que um dos clássicos oradores é Carlos Cardoso, desta vez impedido, por motivos de saúde (falta de) em estar presente. Contudo, a Drª Ana Maria não o esqueceu, tendo-lhe dedicado uma saudação muito especial.
                Como orador oficial os tavaredenses contaram com um nome grande do teatro, a nível concelhio, isto é, Alfredo Cardoso, um homem que em Brenha tem desenvolvido uma dinâmica teatral digna dos maiores encómios. Pois Mestre Alfredo Cardoso brindou aqueles que tiveram a sorte de o escutar com uma notável intervenção, cujo tema geral, claro, era o Teatro, tendo focado particularmente o teatro da SIT, evocando muito das suas vivências que, desde há longos anos, com ele manteve, muito particularmente com José da Silva Ribeiro.
                A sessão terminaria com palavras do vereador Carlos Gonçalves que apelou para um associativismo mais forte, destacando a sua função dentro de uma comunidade como Tavarede.

1992.04.03     -     DIA MUNDIAL DO TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                Tavarede, capital do nosso teatro amador concelhio, não poderia, como sucedeu em tantas localidades, deixar de assinalar o Dia Mundial do Teatro, que se comemorou no passado dia 27 de Março.
                É que se Tavarede tem tradições teatrais como ninguém, a verdade é que todo um Passado glorioso e um Presente não menos digno aumentou as responsabilidades da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Assim o entenderam, e muito bem, os seus actuais dirigentes, fazendo subir ao palco, na passada sexta-feira, um senhor chamado Molière, um homem que a todos deu o privilégio da alegria, traduzida e provocada pela magia da arte teatral.
                E não resistimos a transcrever afirmações de Mestre José Ribeiro, em carta a um amigo, a respeito deste autor universal: “Pois o Molière é um bom anigo. A graça com que ele se ri! A ironia com que ele critica! A profundidade do seu estudo da sociedade do seu tempo! Tenho rido com ele. E tenho pensado”.
                E estamos certos que com Molière riram os muitos assistentes que na sede da SIT quase, quase enchiam o salão de espectáculos, numa noite em que o ingresso era livre, tal como o riso que os amadores de Tavarede souberam extrair de um texto, a que somaram a postura natural própria, ou só própria, daqueles que sentem Molière.
                Mas Molière não faz apenas rir (o que já era suficientemente saudável), mas também provoca a reflexão. A reflexão sobre o acto de viver, nas suas mais contrastantes situações, o repensar de atitudes no diálogo quotidiano que o Homem trava com o Homem.
                E “O Avarento”, peça em 5 actos, é (pode ser) o espelhar do que antes afirmámos, e embora ela decorra no século XVII, nem por isso o dia a dia... dos nossos dias evita o encontrar de posições similares. É tudo uma questão imaginativa.
                Antes de representação subiu ao palco o Dr. Pedrosa Russo, presidente do Lions, um clube de serviço que tanto tem feito, com as suas Jornadas de Teatro Amador, para o agarrar do Teatro. Com ele a Drª Ana Maria Caetano, ilustre e dedicada continuadora da linha teatral da SIT.
                Ambos falaram de Teatro, Teatro que é esperança, que é sonho, que é mentira, que é necessidade; Teatro que desperta a solidariedade, que confere dignidade  e combate o racismo.
                Teatro que também é um modo de estar na vida.
                Teatro de que Coimbra vai ser capital, mas que bom seria, foi afirmado, não esquecer o restante distrito, não esquecer, acrescentamos nós. Tavarede.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 25


O desentendimento terá tido lugar ainda antes de Maio de 1810, pois já no dia 23 desse mês, D. Antónia Madalena obtinha certidão da escritura do dote, sem dúvida para fazer valer os seus direitos. Abandonando Tavarede, D. Antónia Madalena entrou no Convento de Santos, a que a sua família estava há muito ligada. A partir dessa altura a história da relação entre D. Antónia Madalena e seus filhos, é um rol de ódios, de vinganças, de perseguições. Tudo indica que aquela e seu filho João de Almada nunca mais se viram, apesar de D. Antónia ainda ter vivido 25 anos (A Casa de Tavarede).

            Tudo isto levou à requisição de administração judicial da Casa de Tavarede e ao seu declínio. Foram muitas as questões judiciais levantadas tanto pela mãe como pelo filho. Chegou ao ponto de, em Maio de 1821, D. Antónia se queixar que logo em Julho do mesmo ano me foi novamente arrebatada das mãos a minha casa em virtude de requerimento de meu ingrato filho, que obteve do Revolucionário Governo de 1820, a bárbara medida de ser posta em curadoria a minha pessoa e bens, sem eu ser ouvida e nem, ao menos, de tal ter notícia, conseguindo o mesmo meu filho, por meio desta destruidora providência, confirmar a ruína de minha Casa e a opressão de minha pessoa. Julga-se, no entanto, que a iniciativa não terá sido só do filho mas, sim, também de sua filha Ana Felícia.

            O Barão de Tavarede, juntamente com seu sogro, aderiu à causa do rei D. Miguel. Foram muitos os processos que levantou contra sua mãe, a quem acusava de dissipadora e causadora da ruína da Casa, mas sempre viu as questões serem decididas a seu desfavor.

            Num documento existente, refere-se que quando o Barão de Tavarede e sua família decidiram mudar-se para Trancoso levaram consigo o bom e melhor que D. Antónia deixara em casa, nomeadamente todos os móveis. E ainda refere uma nota de D. Antónia. Que … estando eu em Tavarede e tendo casa arrendada na Rua Formosa (Lisboa), onde tinha os títulos, algumas pinturas e móveis, o Barão, vindo escondido a Lisboa, entrou na casa num dia da Semana Santa e, arrombando portas e armários, levou os títulos e tudo o que achou de precioso, com geral escândalo da vizinhança… (A Casa de Tavarede)
           
            Estes pequenos retalhos que transcrevo, servem perfeitamente para revelar como terão sido as relações entre mãe e filhos. De notar que D. Ana Felícia, talvez influenciada por seu marido, aliou-se a seu irmão, contra sua mãe, de tal forma que, em certos processos, ainda foi mais agressiva que o Barão de Tavarede. Mas só faço esta referência como simples comentário, pois a história que pretendo aqui deixar recordada é só a dos ‘Senhores de Tavarede’ e não seus familiares. No entanto, aqui e ali, não deixa de ser necessário incluir algumas notas, unicamente com o fim de procurar melhor esclarecer determinados casos ou situações.

            Com a sua ida para Trancoso, tornou-se o Barão de Tavarede pessoa muito influente naquela região, embora continuasse sob a influência de seu sogro. Foi contrariado que, em Janeiro de 1827, assinou a Carta Constitucional. Foi eleito procurador do concelho de Trancoso e em Junho de 1828 recebeu o comando da primeira companhia do terceiro Batalhão do Corpo de Voluntários Realistas.  Quando em Outubro seguinte, a Câmara de Trancoso resolveu formar um Corpo de Voluntários, foi o Barão de Tavarede nomeado seu comandante, com o posto de coronel. Combateu ao lado das forças miguelistas, tento tomado parte do cerco do Porto. Com a queda de D. Miguel abandonou a política.

            Acabou por jurar a Constituição em Outubro de 1836, tendo exercido o cargo de vereador da Câmara trancosense e fez parte do Conselho Municipal, exercendo, durante algum tempo, as funções de presidente da Câmara. Foi irmão da Santa Casa da Misericórdia daquela localidade e da Confraria do Santíssimo Sacramento.

            Com a instalação do regime liberal, a Casa de Tavarede perdeu muito dos seus privilégios, nomeadamento o dos fornos da poia, que passaram a ser livres, assim como as comendas de que era titular. Também já D. João de Almada não sucedeu no padroado da Capela mor do Convento de Santo António, na Figueira, que foi extinto.

            Teve diversas desinteligências com sua irmã, sobre as questões da herança, muito em especial as marinhas da Morraceira, que pertenciam ao vínculo do morgado. Julga-se que só terá vindo a Tavarede uma única vez, depois da morte de sua mãe. Entretanto, por decreto de 18 de Março de 1848, recebeu o título de Conde de Tavarede.

            Atendendo aos merecimentos do Barão de Tavarede, João de Almada Quadros Sousa e Lencastre, à sua qualidade, e a ser filho primogénito e sucessor de Francisco de Almada e Mendonça, do Conselho de El-Rei Meu Senhor e Avô, e seu Desembargador do Paço, Comendador da Ordem de Cristo, Alcaide Mor de Marialva e donatário da vila da Barca, segundogénito da mui nobre e antiga Casa titular de Vila Nova de Souto de El-Rei, da mesma origem que a dos Condes Mestres salas da Real Casa de Meus Augustos Avós, e de Dona Antónia Madalena de Quadros, representante de outra família muito qualificada por antiguidade de linhagem e gloriosos feitos militares, obrados em Ceuta na menoridade de El-Rei D. Afonso V, e na praça de Azamor em dias de El-Rei D. João III; tendo em particular consideração os distintos e relevantes serviços que, durante a sua longa carreira de Magistratura, foram prestados pelo pai do mencionado Barão, no exercício dos lugares que ocupou e no desempenho de muitas e diversas comissões de que fôra encarregado; assinalando-se especialmente assim pela edificação de muitos edifícios monumentais e de outras obras gloriosas e de manifesta utilidade pública, feitas na cidade do Porto, em Vila do Conde e Foz do Douro, como pelos gastos em hospedar, na sua casa em Setubal e Salvaterra a Meus Augustos Avós, havendo-se em tudo com grande inteligência, zelo e desinteresse, e correspondendo sempre às obrigações do seu nascimento, e à íntima confiança que dele faziam os Soberanos; e querendo Eu perpectuar a memória de tão valiosos serviços na pessoa do filho e sucessor de tão benemérito servidor do Estado, e completar a remuneração deles com uma mercê igual à sua importância: Hei por bem elevar o Barão de Tavarede João de Almada Quadros Sousa e Lencastre à Grandeza destes Reinos, com o título de Conde de Tavarede em sua vida

            Como se vê, foram necessários decorrerem quarenta e tal anos após a sua morte, para ser reconhecida a obra e o talento de D. Francisco de Almada e Mendonça, marido da 10ª. Senhora de Tavarede, D. Antónia Madalena Quadros e Sousa.

            Faleceu o primeiro Conde de Tavarede a 13 de Fevereiro de 1861, sendo sepultado do lado norte da  igreja de Nossa Senhora da Fresta, em Trancoso.

            De ‘A Casa de Tavarede’, permito-me transcrever a certidão de óbito deste nosso titular. Aos treze dias do mês de Fevereiro do ano de mil oitocentos e sessenta e um, pelas oito horas da manhã, no sítio da Rua Nova desta vila e freguesia, concelho e distrito eclesiástico de Trancoso, diocese de Pinhel, faleceu D. João de Almada Quadros Sousa de Lencastre, décimo terceiro Senhor de Tavarede, primeiro Conde e primeiro Barão de Tavarede, alcaide mor de Marialva, Senhor da vila da Barca, comendador de S. Martinho do Bispo, proprietário, de idade de sessenta e seis anos, casado com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque e Meneses, Condessa do mesmo título, filho legítimo de D. Francisco de Almada Sousa de Lencastre e de D. Antónia Madalena de Quadros, Senhora de Tavarede; neto paterno de D. João de Almada e de D. Ana de Lencastre; e materno do Doutor José Juzarte e de D. Joana de Quadros. Não fez testamento, não deixou filhos mas sim dois netos. Não recebeu sacramento algum porque morreu quase de repente. E para constar lavrei este assento, em duplicado, que assinei. Era ut supra. O presbítero, Brunulfo Teixeira de Azevedo.

           





sábado, 6 de outubro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 48


1988.02.05     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                “Horizonte”, de Manuel Frederico Pressler, volta de novo ao palco da Sociedade de Instrução Tavaredense no próximo sábado, dia 6 de Fevereiro, pelas 21,45 horas.
                Comédia rústica passada no Alentejo, foi representada pelos amadores desta colectividade há cerca de 40 anos pelos saudosos Violinda Medina, João Cascão, Fernando Reis, etc., e cujas personagens são hoje muito bem interpretadas por Ana Maria, João Medina e outros.
                O bom Teatro continua a existir em Tavarede e só o público o poderá julgar.

1988.03.10     -     TEATRO DE PRIMEIRA ÁGUA EM TAVAREDE (O DEVER)

                Para mim, ir a Tavarede é recordar idos tempos da década de 40 em que ali, dentro do perímetro da freguesia rural que já foi sede de concelho, situada bem nas abas desta buliçosa cidade da Figueira da Foz que, quatro décadas volvidas, perfurou por tudo quantia é sítio este remansoso ambiente. Iniciei todo um passado de doze frutuosos anos no ex-Colégio Liceu Figueirense, mais tarde transformado em Seminário Menor da Diocese de Coimbra...
                Para mim, ir a Tavarede é lembrar essa figura ímpar de José Ribeiro, a quem tive a felicidade de conhecer, e evocar todo o apoio, a vários níveis, dele recebido quando, já homem feito, na década de 60, eu me viria a ocupar, também, na encenação de umas “pècitas” de que saliento “Casa de Pais” e “Luz de Fátima”...
                Para mim, ir a Tavarede é encontrar a amizade franca e permanente de alguns amigos de infância e de outros de mais recente data, colegas de profissão, alguns deles enfronhados, ao que vejo, de alma e coração, nas actividades e iniciativas culturais do bom povo da terra que os viu nascer e a que tanto se orgulham de pertencer...
                Para mim, ir a Tavarede é... hoje, também e sobretudo, admirar o seu Teatro nas peças que com pendular regularidade ali vêm sendo postas em cena, com o carinho, o bairrismo e a competência em que a gente de Tavarede é exímia...
                De longe vem a tradição de fazer bom teatro em Tavarede e inúmeras foram as representações a que já assisti. Desta vez, se me descuidava, deixava, mesmo, de admirar todo o garbo e empenhamento que aquele núcleo de inimitáveis amadores, perdão... de artistas, colocou, mais uma vez, na encenação da bela peça rústica da autoria de Manuel Frederico Pressler, HORIZONTE, cuja primeira representação teve lugar no já recuado ano de 1945 e que, agora, foi a escolhida para as comemorações do 84º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro último.
                A acção decorre no Ribatejo e versa um tema do quotidiano de muitas famílias – o casamento da Rita, que acaba por ir com quem o seu coração muito bem escolhe e não com aquele que o pai queria que fosse -, tendo como personagens elementos das mais diversas ocupações. Licenciados e barbeiros, empregados de escritório, carpinteiros e electricistas, de tudo ali há sem quaisquer complexos ou discriminações e apenas com uma finalidade: “darem o melhor de si levando até ao público o BOM TEATRO num convívio de amizade e simpatia”...
                Perdeu, caro leitor. Perdeu, se acaso não viu esta representação em Tavarede. Acredite que só terá a lucrar se se deslocar ali sempre que haja TEATRO. Ele é de... primeira água, creia!
                ... E deixa de passar essas tardes (ou noites) de insípida rotina em que costuma mergulhar.
                É uma boa OPÇÂO! – Alfredo Amado

1989.12.29     -     TAVAREDE SOBE AO PALCO (O FIGUEIRENSE)

                “No último sábado de Janeiro será a estreia da peça “Os Velhos”, de D. João da Câmara. Com esta peça, que é uma reposição, conquistou-se já um 2º prémio em Lisboa, isto há uns bons 30 anos”, disse-nos a D. Ana Maria Caetano, presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense.
                “É uma representação de enredo fácil, graciosa – prossegue Ana Maria Caetano -, no fundo um conflito de gerações, um caminhar para o futuro”.
Segundo apurámos vão estar em palco cerca de 10 pessoas, sob a direcção de João de Oliveira. É assim que a SIT vai assinalar mais um aniversário, reflectindo, com transparência, uma salutar forma de fazer cultura.
                Mas não são só “Os Velhos” que apagam as velas desta colectividade de Tavarede. Outras realizações vão ter lugar, nomeadamente uma tarde musical, com a actuação da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, de Tomar, e  representação da peça “O crime da Aldeia Velha”, de Bernardo Santareno, um espectáculo teatral proporcionado pelo Teatro Experimental de Mortágua.
                Ponto alto destas comemorações será a sessão solene, na qual homenagear-se-á “Mestre José Ribeiro. Vamos contar com o precioso apoio e colaboração do Rotary Clube da Figueira, que fará o lançamento de uma publicação que reflecte vários aspectos da vida e obra de José Ribeiro”, confidenciou-nos ainda D. Ana Maria Caetano.
                “O Figueirense” vai ficar à espreita do desenrolar dos acontecimentos.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 24


João de Almada Quadros de Sousa de Lencastre

1º. Barão e 1º. Conde de Tavarede


            João de Almada e Quadros de Sousa Lencastre, filho de D. Francisco de Almada e Mendonça e de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, nasceu na cidade do Porto no dia 28 de Fevereiro de 1794. Foi baptizado na Igreja de Santo Ildefonso, naquela cidade, tendo como padrinhos o Principe D. João (futuro rei D. João VI) e sua mulher D. Carlota Joaquina.

            Aos 10 anos de idade, por decreto de 7 de Setembro de 1804, foi-lhe concedido o título de Barão de Tavarede, em reconhecimento dos serviços prestados por seu pai, poucos dias depois do falecimento deste. Anos mais tarde, como veremos, recebeu o título de Conde.

            Foi o 11º. Senhor de Tavarede, tendo, igualmente, os seguintes títulos: Senhor dos Prazos da Morraceira e de Valverde, Senhor dos morgadios dos Leites de Santarém, 2º. Senhor da vila de Ponte da Barca, alcaide mor de Marialva, comendador de S. Martinho do Bispo na Ordem de Cristo. Foi, também, moço fidalgo da Casa Real, Conselheiro do Estado, cavaleiro das Ordens da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Serviu, ainda criança, no Regimento Real, com o qual participou nas guerras peninsulares.

            Casou muito jovem, em 1810, com D. Maria Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araújo e Meneses, de 22 anos de idade, nascida em Pinhel mas residente em Trancoso, filha de Caetano Alexandre da Fonseca Pinto de Albuquerque, fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, e de D. Maria José Cardoso de Meneses, senhora de diversos morgadios.  Só tiveram um filho, Francisco de Almada e Quadros de Sousa Lencastre, nascido em 6 de Março de 1818.

            Tratou-se assim de um casamento estudado e planeado por parentes dos noivos… Da parte dos de Trancoso o casamento seria certamente bem visto: os de Tavarede eram sem dúvida de uma nobreza mais destacada e, apesar das dificuldades financeiras por que passavam, possuidores de bens de maior valia do que os seus… (A Casa de Tavarede).

            Não foi fácil o relacionamento familiar. Os noivos vieram residir com D. Antónia Madalena em Tavarede. Mas igualmente vieram para cá os pais da noiva. Admito que a morgada de Tavarede se incompatibilizasse, desde logo, com o seu compadre, Caetano Alexandre. É que este terá pretendido tornar-se o ‘dono’ da casa, passando ele a gerir e administrar a casa. A causa principal dessas desavenças parece ter sido o facto de retirar a mesada a que D. Antónia tinha direito, de acordo com o contrato feito por ocasião do casamento do filho.

            O desentendimento terá tido lugar ainda antes de Maio de 1810, pois já no dia 23 desse mês, D. Antónia Madalena obtinha certidão da escritura do dote, sem dúvida para fazer valer os seus direitos. Abandonando Tavarede, D. Antónia Madalena entrou no Convento de Santos, a que a sua família estava há muito ligada. A partir dessa altura a história da relação entre D. Antónia Madalena e seus filhos, é um rol de ódios, de vinganças, de perseguições. Tudo indica que aquela e seu filho João de Almada nunca mais se viram, apesar de D. Antónia ainda ter vivido 25 anos (A Casa de Tavarede).

            Tudo isto levou à requisição de administração judicial da Casa de Tavarede e ao seu declínio. Foram muitas as questões judiciais levantadas tanto pela mãe como pelo filho. Chegou ao ponto de, em Maio de 1821, D. Antónia se queixar que logo em Julho do mesmo ano me foi novamente arrebatada das mãos a minha casa em virtude de requerimento de meu ingrato filho, que obteve do Revolucionário Governo de 1820, a bárbara medida de ser posta em curadoria a minha pessoa e bens, sem eu ser ouvida e nem, ao menos, de tal ter notícia, conseguindo o mesmo meu filho, por meio desta destruidora providência, confirmar a ruína de minha Casa e a opressão de minha pessoa. Julga-se, no entanto, que a iniciativa não terá sido só do filho mas, sim, também de sua filha Ana Felícia.

            O Barão de Tavarede, juntamente com seu sogro, aderiu à causa do rei D. Miguel. Foram muitos os processos que levantou contra sua mãe, a quem acusava de dissipadora e causadora da ruína da Casa, mas sempre viu as questões serem decididas a seu desfavor.

            Num documento existente, refere-se que quando o Barão de Tavarede e sua família decidiram mudar-se para Trancoso levaram consigo o bom e melhor que D. Antónia deixara em casa, nomeadamente todos os móveis. E ainda refere uma nota de D. Antónia. Que … estando eu em Tavarede e tendo casa arrendada na Rua Formosa (Lisboa), onde tinha os títulos, algumas pinturas e móveis, o Barão, vindo escondido a Lisboa, entrou na casa num dia da Semana Santa e, arrombando portas e armários, levou os títulos e tudo o que achou de precioso, com geral escândalo da vizinhança… (A Casa de Tavarede)

sábado, 29 de setembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 1984


1984.01.20     -     ANIVERSÁRIO DA SIT (O DEVER)

                Há muito que, em Tavarede, o Teatro anda associado a todas as manifestações das suas gentes. Não será exagerado afirmar-se, até, que a vida em Tavarede gira em torno do seu Teatro. E, se alguém tiver dúvidas a tal respeito, apenas terá de ali se deslocar numa dessas ocasiões para constatar.
                Agora, na comemoração do 80º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, o fenómeno repetiu-se: o momento mais alto das comemorações teve lugar no seu magnífico teatro onde foi levada à cena a peça “Na Feira de Gil Vicente”, com adaptação desse “homem grande de Teatro” que é José Ribeiro. Gil Vicente foi, assim, o “convidado” de honra de Tavarede, Gil Vicente que poderemos quase considerar famíliar ali (quem não se lembra da inesquecível “melhor Maria Parda” que foi, sem dúvida, a saudosa Violinda Medina?). Desta vez foram levadas à cena: “No Lar de Uma Família Judaica” (prólogo), “Auto da Barca do Inferno”, “O Pote da Mofina Mendes”, “Gil Vicente vem à Feira” e “Auto da Feira”.
                Mas não será ousado apresentar, em Tavarede, peças de tal nível cultural?
                É certo que a pergunta teria perfeito cabimento em relação à maioria dos centros portugueses. Mas a Tavarede não. É que ali há como que uma “representação colectiva” em que os que não sobem ao palco “representam” na plateia. Poder-se-á afirmar (passe o plágio) que quem não representa já representou e é esse facto que cria o tal ambiente em que se “respira teatro” e torna quase familiar a presença dos grandes vultos da cultura teatral. O teatro passou a fazer parte da vida desta gente, razão pela qual Gil Vicente é compreendido.
                E sobre o espectáculo?
                Julgamos ter dito o suficiente. Adiantaremos, no entanto, que vimos em palco quatro gerações. E que, se aquele Diabo (João de Oliveira) foi o melhor que já vimos, “o sapateiro” (José Luiz Nascimento) e “o parvo” (João Medina Junior), foram apenas duas excepcionais actuações num conjunto que surpreendia pela segurança com que todos dominavam a complicada linguagem de Gil Vicente, um autor que efectivamente, não está ao alcance de muitos grupos. Que nos perdoe o leitor a escassez de nota de reportagem aqui contida. Mas a verdade é que, para poder ter uma ideia exacta do que foi o espectáculo, só terá uma forma: deslocar-se lá na próxima representação (21 do corrente às 21,45) só assim poderá ficar com uma ideia de conjunto, desde a peça aos actores, da orquestra (dirigida por José Custódio Ramos) ao guarda-roupa (Anahory), dos cenários... a tudo.
                Vá, que não se arrepende.

1986.02.28     -     TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                “Chá de Limonete” é o grande sucesso que a Sociedade de Instrução tavaredense leva à cena pela última vez no próximo domingo, dia 2 de Março, pelas 16,30 horas.
                O público continua a aplaudir esta linda fantasia em dois actos da autoria de José da Silva Ribeiro.
                A acção cultural que a SIT de há longos anos vem desenvolvendo através dos seus distintos amadores, continua a demonstrar que o Teatro não morre na nossa terra.
                E para que esta obra continue, necessário é que o público incentive os que a estão realizando, não faltando aos espectáculos de bom Teatro que se lhes proporcionam.

1986.05.27     -     X JORNADAS DE TEATRO AMADOR (DIÁRIO DE COIMBRA)

                Com a realização da 12ª sessão, no Teatro Taborda, em Brenha, terminaram no passado dia 24, as X Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, organizadas pelo Lions Clube desta cidade. Nesta sessão a Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou a comedia “As Artimanhas de Scapino”, de Molière. Se a peça termina com Scapino a dizer: “A mim, que me levem para uma das cabeceiras da mesa, à espera que morra”, nós brindamos na grande mesa onde tiveram lugar doze sessões para que esta iniciativa se mantenha eternamente “à espera que não morra”.
                Dentro de uma linha a que já nos habituou, a Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou talvez o melhor texto dramático das X Jornadas sem nos esquecermos de “A Estalajadeira”, de Carlos Goldini, representado na 8ª sessão pelo Grupo Amador de Teatro de Taveiro.
                “As Artimanhas de Scapino” foram representadas pela primeira vez em 24 de Maio de 1671, quando Molière tinha 49 anos e partilhava com os comediantes italians, seus amigos, o Teatro do Palácio-Real. Daí, talvez, a razão por que o herói desta farsa, que tem o diabo no corpo, possua muitas características próprias da “commedia dell’arte”.
                Assistimos a um espectáculo de bom nível, bem estruturado (tendo em conta a opção feita para a encenação), com bom ritmo e um trabalho de actores muito equilibrado. Porém, consideramos correcto destacar a interpretação de “Geronte”, por João Medina.
                A encenação desta peça tem levantado desde sempre muita discussão, na qual participaram nomes como Stanislawski, Jacques Copeau, Jouvet, Chancerel e Jean-Louis Barrault, entre outros. Porém, já em 1913 Copeau recusava o realismo de Stanislawski, que mostrava em cena um barco com sacos de farinha para justificar o facto de “Geronte” se meter dentro de um na 2ª cena do III acto. Deixamos este ponto à reflexão do grupo, pois a actual estrutura do espectáculo pode ser melhorada se for vencida a rotina de práticas estabelecidas há muito tempo.
                Se pode haver duas concepções de encenação desta peça, também há duas formas de representar “Scapino”. Questão também muito discutida, mas que só mostra toda a riqueza deste personagem. José Luís Nascimento cria um”Scapino” que está de acordo com o tom geral do espectáculo, embora tenha dificuldades do ponto de vista físico. Pois é consenso que a representação de “Scapino” ultrapassa o texto para ser também uma prova física.

1987.05.01     -     ALGUÉM TERÁ DE MORRER (CORREIO DA FIGUEIRA)

                A Sociedade de Instrução Tavaredense levou à cena a peça em três actos de Luís Francisco Rebelo, “Alguém terá de morrer”, uma das mais notáveis obras do nosso teatro, já que nela é permitido ao actor evidenciar os seus recursos criativos.
                Já havíamos observado esta peça pelos amadores da Naval 1º de Maio, naquela Associação. Ficámos então com algumas dúvidas se não estaríamos de facto em presença de uma magnífica representação teatral. Daí a nossa segunda observação, agora em Tavarede, onde confirmámo o talento do autor e da sua profundidade imaginativa, construíndo diálogos, que são interrogativos e desesperados, com a morte. Realmente, e com actores que têm a sensibilidade das personagens na ponta da língua, não há limites para os diversos graus de emoção, onde a vida enfrentando a morte, paralelamente, resulta numa curiosa composição, de modo que o espectador compreende que são duras e complexas as realidades da nossa existência, quando assumida assim, controlada pelo Mensageiro, em horas e minutos que perspectivam o suspiro final.
                “Alguém terá de morer” não é propriamente uma cruel aventura para a plateia, antes insistiu o autor em demonstrar-nos o que seríamos nas nossas atitudes, se porventura tivessemos de enfrentar a subtil e macabra presença de um enviado da morte, que não dá alternativas a uma família em pânico, submetida que foi àquela certeza. Toda esta dilatada compreensão que os actores nos transmitem durante a sua dinâmica e segura representação, só é possível vivê-la na sua mensagem, porque os sete componentes são a perfeita integração do percurso autor-actor-plateia, de um jeito e arte belíssima, que estimula sempre o espectador atento e ávido de saber, donde vem toda aquela exaltação no dizer e no sentir.
                Francisco Rebelo sabia que ao escrever que a morte é o destino que se cumpre, que originava nos personagens a incerteza dos propósitos, perante o desconhecido que representa a morte, quando assustadoramente nos transformamos e ao mesmo tempo revelamos a medíocre fragilidade de nos sentirmos perdidos, num caminho que até então era desvario e arrogância. De todas estas situações, que são habilmente denunciads por excelentes actores e actrizes, não aceitamos a débil condição humana, tão ridícula perante um facto, que deveríamos assumir com  equilíbrio e condição necessários. Mas é seguramente impossível ao comum dos mortais, aceitar o percurso traçado pelo autor, porque existindo a incerteza e a angústia, também a esperança nos anima e diverte nas inúmeras insuficiências de reflexão.
                “Alguém terá de morrer” e um  alerta para nós, que ainda vivemos, quando actores extraordinários na sua comunicação com a lateia, e inconformados com aquela sentença final, descobrem entre si que a vida é um prodígio tão belo que todos o querem preservar. Distinguir este ou aquele actor seria indelicada análise, porque todos são a realidade do nosso contentamento, e elevada admiração pela arte que nos proporcionaram no dizer e na simulação fisionómica, face às diversas mutações dos textos, que lançados sobre a platea, a obriga a reconhecer-se em todas aquelas maquinações da nossa existência, sempre tão fútil, quando chamada a enfrentar-se com o nosso próprio encontro.
                Verdade se diga, que se os actores de Tavarede pisarem os exigentes palcos da capital, experimentarão, decerto, honrosas e sucessivas chamadas das plateias, onde por vezes – permitam-me o desabafo – já temos comido gato por lebre.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 23


CARTA  A FOLHAS 87 – SUBSCRITO: ILMO.SR. JOÃO GREGÓRIO DE MELO, ETC…. DO SEU AMIGO THYPALOS - Meu Joaquinzinho e Francisquinho:
            Não tenho querido mandar aí mais cedo, para saber com exactidão tudo quanto se passou, por temer que a casa tenha estado vigiada. Escrevi ao (?), porém ele não me satisfez circunstanciadamente quanto desejava saber; fui porém instruído de quanto foi bastante para me magoar e afligir, sabendo ter sido presa a Fidalga e teu bom pai e os dois manos do dr.Quanto (?), a mim cada vez que considero a casual maneira porque escapei à tormenta, dão-me suores frios, pois na verdade o caso parece ser mais milagroso que natural!!
            A portadora desta é uma senhora capaz e digna de toda a confiança, por ela peço me digam tudo quanto tem havido relativamente aos presos, e em que figura estão as coisas; se eu não temesse alguém do bairro, tinha-me metido em uma sege e tinha já lá ido; digam-me se os da diligência perceberam a minha evasão pelos trastes que ficaram no quarto, enfim, instruam-me de tudo, pois estou impaciente por saber tudo. Sobretudo o que mais me admira é a prisão do padre e dos dois manos! Façam à mãe as minhas recomendações mostrando-lhe os aflitos sentimentos do meu coração, e o mesmo, havendo ocasião, aos presos todos.
            A caixa de prata que deixei em cima da mesa já sei que não apareceu; paciência, vão-se os anéis e fiquem os dedos. Estavam lá 3 lençois e umas pretas, dirão se apareceram. Adeus, escrevam e digam tudo. Do coração, amigo e obrigado. Thypalos.

OUTROS TESTEMUNHOS - Joaquim Pessoa de Amorim, 28 anos, natural de Castelo Branco, caixeiro do negociante francês, Monsieur Levit, solteiro, morador em casa de D. Antónia, ao Grilo.
            Padre José Viitorino de Sousa – capelão de D. Antónia, filho do dr. Luiz Manuel de Sousa, já falecido, e Mariana Inácio Domitília (?), natural de Formoselha, freguesia de Santo Varão, termo de Montemor-o-Velho. Baptizado e criado em Montemor-o-Velho. 63 anos. João de Melo, administrador da casa. Ele Padre acusado do crime de tumulto na relação do Porto, pela abadessa e mais religiosas do Convento de Santa Clara, de Coimbra.

TESTEMUNHAS CONTRA D. ANTÓNIA - Manuel Duarte, com loja de bebidas, na Rua Direita de Xabregas nº 15, comissário de polícia na mesma rua. 54 anos. Que foram presas mais pessoas das províncias que em casa de D. Antónia estavam refugiados, por consentimento da Senhora da casa, seu mordomo e capelão: Joaquim Pessoa da Silva Amorim (?) à procuradora da casa e nessa qualidade lhe tinha pedido 7.200, que depois lhe negara passados dois meses e ainda o ameaçou quando lhe pedira… “que passado um mês ele lhos pagaria…”
1)       Francisco Joaquim da Silva, com armazém de vinhos, na Rua Direita dos Anjos.
2)       Tomé da Maia, mestre alfaiate, morador no Pátio da Tavarede, na Rua Direita de Xabregas.
3)       Joaquim António Brandão, fazendeiro, com venda de vinho na Estrada de Chelas.
4)       Bartolomeu de Abreu Vieira, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no Beato.
5)       Pedro Abdon José da Costa, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no palácio do Exmo. Marquês, Monteiro mor, na Rua Direita de Xabregas.
6)       João Maria (?), idem soldado, etc.
7)       Henrique José Barreiros, guarda-roupa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
8)       José Roque, guarda-roupa do Exmo. Marquês de Olhão.
9)       Isabel Joaquim, casada com Joaquim Meireles, com casa de Povo, na Rua Direita de Xabregas.
10)   José Martins, com casa de mercearia no cunhal das Rolas, na Rua das Partilhas, e com armazém de vinhos no Pátio da Tavarede, ao Grilo.
11)   Francisco António Paredes, criado de farda do Exmo. Marquês de Olhão.
12)   Jácome Borrati, amanuense da secretaria de Estado dos Negócios de Guerra, morador no Beato.
13)   José Luiz Ferreira, com loja de bebidas no Largo do Beato.
14)   José Pais, criado do Exmo. General Vicente António.
15)   Manuel António Rosa, boticário, morador no Grilo.
16)   Manuel Pina Barbosa, guarda-roupa do Exmo. General Vicente António.
17)   Maria Perpétua, solteira, moradora em casa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
18)   Ana do Nascimento, casada com Francisco Parodi, criado do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
19)   Joaquina Rosa Tibúrcia, solteira, moradora no Beato, Largo do Forno.
               
O QUE DIZ A 6º. TESTEMUNHA (AS OUTRAS MUTATIS MUTANDIS) -  A 14 de Dezembro de 1832 intimida a ré D. Antónia, no Convento de Santa Joana em como ficava à disposição da Comissão-Crime, criada pelo real decreto de 15 de Agosto de 1828.
            Em Fevereiro de 1833, D. Antónia requereu para livrar-se (?) em apartado com as seguintes pessoas de sua família a saber: João de Melo Barreto d’Eça e seus filhos, José Anastácio, José Miguel e João – deferido em 16 de Fevereiro de 1833. Até 13 de Março de 1833, embora deferida a pretensão, não trataram de semelhante objecto e para conhecer os autos e nada mais consta do processo a respeito de D. Antónia Madalema.
            Disse a 6ª. Testemunha: “- que sabe, por ser público, que foi presa D. Antónia Madalena de Quadros, porque em sua casa existiam diferentes réus de lesa-majestade refugiados, tais como Joaquim Pessoa da Silva Amorim, António Manuel da Silva Vieira Broa, José Maria Rodrigues e um doutor Paula, dos quais os três primeiros ali foram presos, e que tanto ela, como o seu mordomo e filhos, e um padre José Vitorino, que se diz seu capelão, não gozam de boa opinião, nem são afectos ao governo monárquico, antes pelo contrário, inimigos decididos da Augusta Pessoa de El-Rei Nosso Senhor. E mais se declarou que ele, Mordomo, e seus colegas e sócios no fim do ano de 1829 e princípio de 1830 tocaram frequentes vezes o hino revolucionário francês, e só deixaram de o fazer depois que para isso foram advertidos, e que mais sabe, por ouvir dizer a uma criada do Exmo. Senhor Marquês, Monteiro-mor, Maria Perpétua, que os mencionados individuos se banquetearam frequentemente e que no meio destes banquetes davam vivas a D. Pedro IV, e que também sabe pelo presenciar que na ocasião em que entrou a esquadra francesa mostraram um grande prazer e regozijo. (cad. 25 – pag. 9)

            D. Antónia Madalena, a 10ª. Senhora de Tavarede, foi condenada ao pagamento de 300 000 reis, sendo duas partes para a Casa Pia e uma para os oficiais e soldados da diligência, por conservar de cama e mesa na sua casa os réus de Lesa Majestade. Esta sentença foi, porém, revogada.
               
            Presume-se que a Morgada de Tavarede ainda se encontraria no Convento de Santa Joana no dia 24 de Julho de 1833, quando Lisboa foi tomada pelos liberais. Com a abertura da prisão aos presos políticos, certamente que D. Antónia Madalena terá regressado ao Palácio do Grilo, onde, a 26 de Fevereiro de 1835, faleceu, sendo sepultada no cemitério do Alto de S. João.

            Numa das notas que encontrei e que referi no 1º. volume de ‘Tavarede – A Terra de Meus Avós’, diz-se que segundo a tradição, D. António Madalena foi enterrada ainda viva no convento de Santo António, mais referindo que se desconhece a origem desta tradição. A verdade, no entanto, é que o registo do óbito de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa se encontra nos registos paroquiais da freguesia do Beato, Lisboa, referentes ao período de 1821 a 1852.

            Terá, na verdade, a fidalga tavaredense sido trasladada para o convento de Santo António? Parece que esta hipótese será pouco crível, pelo que os restos mortais da 10ª. Senhora de Tavarede repousarão para sempre em Lisboa.