sábado, 10 de novembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 53


2000.06.02     -     SIT – UMA EXISTÊNCIA DEDICADA À CULTURA (O FIGUEIRENSE)

                Foi a 15 de Janeiro de 1904 que um grupo de homens, todos de humilde condição, assinou na Casa de Ourão, no Largo do Terreiro, a acta de fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT). Esta associção tinha como objectivo criar uma escola para ensino de sócios e seus filhos. Depois resolveram formar um grupo cénico com o fim de divertir e ao mesmo tempo obter receitas que permitissem manter a associação.
                O teatro foi desde logo tomado como actividade principal da SIT na continuação de uma tradição antiga dos tavaredenses. Já em 1896, na Gazeta da Figueira, Ernesto Fernandes Tomás nos fala de Tavarede e dos seus teatros; “as sociedades dramáticas vegetavam em Tavarede como tortulhos”.
                Logo após a formação da associação, começou a funcionar uma escola nocturna, gratuita, que manteve as suas portas abertas cerca de quarenta anos e que só desapareceu em 1942, por força da política vigente.
                Ao falar da história da SIT, ter-se-á de referir forçosamente o nome de João José Costa, pois foi ele que transformou o prédio onde os amadores de Tavarede representavam num excelente teatro. Mais tarde, João dos Santos, seu herdeiro, pôs à disposição da colectividade, sem receber qualquer renda, o prédio do Largo do Terreiro, a fim de nele ser instalada a sede da SIT. Em 26 de Dezembro de 1941, o edifício é vendido à colectividade por Arménio Santos, filho do anterior proprietário.
                Os anos foram passando e a SIT foi crescendo, sendo preciso ampliar e remodelar as suas instalações. Foi a ajuda da Fundação Gulbenkian e de muitos amigos da casa que permitiram que em 8 de Maio de 1965 se inaugurasse o edifício onde ainda hoje se encontra a sede da SIT.
                A actividade desta colectividade tem sido intensa. Grandes dramaturgos ali têm sido representados. O grande dinamizador do teatro foi, sem sombra de dúvida, José da Silva Ribeiro, que dedicou à SIT e ao teatro toda a sua vida. José Ribeiro foi o mestre do grupo desde 1915 até 1984, ano da sua morte. Seguiram-se-lhe na direcção cénica João Oliveira Cordeiro mas, infelizmente, pouco tempo esteve à frente do grupo, devido a um acidente trágico que o vitimou. Depois foi a vez de Ana Maria Caetano.
                De momento, Ilda Manuela Simões é quem dirige a secção teatral com a ajuda e o empenhamento de todos aqueles que fazem um espectáculo.
                Os amadores de Tavarede continuam a ser fiéis ao espírito e aos ensinamentos de mestre José Ribeiro. Continua a ser sua intenção transmitir ao público um certo saber, mas também proporcionar a esse mesmo público o prazer de assistir a uma forma de arte, divertindo-se.
                Escola de formação teatral... urgente – Professora do ensino secundário, Ilda Simões nutre grande paixão pela arte de Talma. Algumas vicissitudes por que passou o teatro da SIT, levam esta amadora a assumir a direcção cénica do grupo, para além da encenação. Representar e esquematizar a montagem das peças nas suas várias vertentes, é outra das suas funções.
                Foi precisamente com Ilda Simões que O Figueirense quis fazer a radiografia do teatro que se vai fazendo em Tavarede.
                Como vai o teatro em Tavarede?
                O teatro caminha. Temos encontrado algumas pedras que nos fazem tropeçar de vez em quando, mas ainda não caímos e julgo que, neste momento, dada a enorme vontade de prosseguir que todos temos, já não iremos parar.
                Essas pedras de que fala referem-se exactamente a quê?
                A vários factores. A falta de jovens amadores é um dos problema. Por vezes deparamos com situações complicadas, tendo de fazer até alterações às obras que queremos representar. A peça que temos em cena – O Pecado de João Agonia – constitui em desses exemplos. Eu precisava de um jovem de cerca de vinte anos e não o tinha, o que me levou a transformar esse jovem noutro de, digamos, quarenta anos.
                Mas também a inexistência de textos dramáticos actuais, a falta de formação em algumas áreas e a falta de dinheiro são outras tantas pedras.
                Qual a razão que a levou a encenar uma peça nunca antes vista nem representada em Tavarede?
                Uma das razões foi exactamente essa, nunca ter sido representada em Tavarede. Depois porque o tema é actual, interventivo. Embora a situação proposta por Santareno não fosse resolvida da mesma maneira, ainda há muita gente que afasta do seu convívio um homossexual.
                Como consegue conciliar a função de amadora (representar) e de encenadora?
                É bastante difícil. Contudo para dirigir este grupo de amadores, conto com a grande colaboração de João José Silva e de todos aqueles que querem dar a sua opinião. Ouço todos, mas não é um trabalho de que goste muito. Encenar é um desafio. Todo o processo criativo que se vai elaborando na minha mente à medida que leio e releio uma peça é algo que me fascina. Contudo, representar é aquilo que verdadeiramente eu gosto de fazer, estar em cima de um palco, vivendo outras vidas.
                Que projectos para o futuro?
                O Pecado de João Agonia continuará em cena até Setembro. Temos imensos pedidos para sair com esta peça, porém é impossível atender a todos. Não somos profissionais. Depois começaremos a ensaiar outra peça a estrear em Janeiro. À semelhança do que temos feito de há dois anos para cá, gostaríamos de ensaiar ainda outra peça em 2001, mas dado que em princípio iremos também fazer formação, não sabemos se será possível conciliar tudo.
                João Miguel Amorim: é necessário cativar os jovens – João Miguel, um jovem amador da SIT, é quase um veterano nestas andanças teatrais. Apesar dos seus 14 anos, pisou pela primeira vez o palco aos três anos de idade e nunca mais parou. Representa a quarta geração de amadores na família. Sua bisavó materna, Emília Monteiro, foi das primeiras amadoras da SIT; seus avós, João Pedro Amorim e Conceição Mota, ainda estão no activo e sua mãe também já pisou as tábuas do palco tavaredense.
                Frequenta o 8º ano de escolaridade. Os seus tempos livres divide-os entre o basquetebol e o teatro.
                João Miguel, apesar da sua juventude, tem ideias muito claras acerca do papel importante da cultura nos jovens: “Lamento que por vezes os jovens da minha idade não adiram às manifestações culturais, ou que venham para o teatro”.
                João Medina: o teatro na SIT está no bom caminho – João Medina é uma referência do teatro amador da SIT. Tem 68 anos de idade e representa desde os 16. Em 1999 foi alvo de várias homenagens que simbolizaram as suas bodas de ouro como amador teatral. Do seu currículo consta que já participou em mais de 60 peças.
                Sobre o que se vai representando tem ideias muito próprias: “Sem querer menosprezar o trabalho de ninguém, penso que a nível geral perdeu valor nos últimos 20 anos. Houve mudanças grandes na montagem das peças, nas adaptações dos originais, nos vários aspectos que envolve o teatro, contudo penso que antigamente existia mais representação e mais arte”.
                Como elemento mais antigo em actividade no grupo cénico da SIT, João Medina preconiza o futuro do teatro em Tavarede: “a SIT em minha opinião tem futuro assegurado. Talvez não tenha ainda atingido o valor que lhe foi imposto pelo saudoso mestre José Ribeiro, porém o que fazemos hoje em Tavarede não nos envergonha”.
                João Medina mostrou-se optimista: “é indispensável trazer a juventude ao teatro, assim como indispensável é a existência de escolas de formação, contudo não há melhor escola que o pisar das tábuas”.

2000.06.15     -     O PECADO DE JOÃO AGONIA (O DEVER)

                Cumpridas que estavam algumas representações desta peça, uma das quais em Carvalhais de Lavos, no âmbito das Jornadas de Teatro Amador, “O Pecado de João Agonia”, obra de Bernardo Santareno com adaptação de Ilda Manuela Simões, voltou ao palco da Sociedade de Instrução Tavaredense, no passado dia 30 de Maio.
                Peça difícil pelo pesado enredo e envolvência da homossexualidade, “O Pecado de João Agonia” constituiu mais um desafio ao “profissionalismo” destes artistas dum palco com tradições.
                Com uma Rita Agonia, marcada pela praga duma velha (Conceição Mota), que  no canto da lareira recalca ódios e adivinha desgraças com grande dramatismo, e esmagada sob o mau agoiro dos olhos verdes que a martirizam desde o parto do seu João (Valdemar Cruz) o desgraçado que trouxe da tropa em Lisboa a vergonha da família Agonia desvendada por Manuel Lamas (João Pedro Amorim).
                Com um Fernando Agonia como animador da família a apoiar o irmão, incentivar a irmã Teresa Agonia (Teresa Lontro) para o idílio com o Toino Gesta (João Miguel) assediar a desenvolta e irreverente Maria Giesta (Paula Sofia) perante as ameaçadoras intenções de Guilhermina Giesta (Manuela Mendes) desdobrando-se naquela roda-viva só ao alcance dum predestinado (João José Silva) e atingido pelo “bicho do teatro” que se não está em cena na cenografia ou na direcção de cena, o enredo explode no terceiro acto onde a alma dos Agonia – pai Miguel (na gravidade da voz de João Medina a dar pose à responsabilidade), José e Carlos (a vir ao de cima a mestria de José Medina e a versatilidade de Rogério Neves) e os irmãos – assume a trágica decisão de lavar com a morte a desonra da família, que Rita Agonia assume (no talentoso desempenho de Ilda Manuela Simões), com um dramatismo final de pôr a sala de pé.
                Porque esta peça só ao alcance de experimentados actores, não admira que ela tenha merecido uma chuva de convites para fora do concelho, numa inequívoca prova de que Tavarede continua a ser um referencial no teatro amador, onde “os artistas pegam de estaca”.
                Palmas para todos, sem excepção, que sem os que actuam na sombra jamais seria possível tais êxitos.
                E parabéns pela honra que dão à escola de José Ribeiro.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 29


  


  
Notas finais

           ……..

            Do domínio serraceno nenhum testemunho restou, apesar de, em 717, haver notícia de a povoação (S. Julião da Foz Mondego) ter sido assolada e destruída. A reconquisra cristã, empreendida por Fernando Magno de Leão, é orientada, na zona coimbrã, pelo conde Sesnando, moçárabe natural de Tentúgal e homem de confiança do rei, mais tarde investido nos cargos de governador de Coimbra e no de toda a Terra de Santa Maria. Em 1064, conquista Coimbra aos mouros. As zonas vizinhas, em mãos destes, são abandonadas, não sem antes terem sido alvo de saques e outras atrocidades. S. Julião é exemplo desta política de terra queimada, como zona tampão de alguma eficácia, verdadeiro espaço estratégico negativo entre dois contendores. Este acontecimento encontra-se implícito num documento do século XI, que situava S. Julião como o centro do povoado que ali teria existido. Depois de normalizada a situação, o conde Sesnando incumbe, em 1080, o abade Pedro de Coimbra, de reconstruir o lugar e a Igreja.

            Em documento datado de 14 de Novembro de 1096, do Livro Preto da Sé de Coimbra, o mesmo abade doa estas suas propriedades àquela Sé, na pessoa do bispo D. Crescónio, por intenção da salvação da sua alma, como era então uso e costume, permitindo cronologicamente datar a reconstrução da igreja de S. Julião e do respectivo povoado entre os anos de 1080 e 1090. O abade Pedro viria a falecer, segundo o Obituário da Sé de Coimbra, em 1100.

            Estava este povoado da Figueira da Foz do Mondego ciente da sua importância económica (porto de mar) e geo-estratégica (acesso a Coimbra e à área económica circundante por via fluvial, bem como defesa da embocadura do rio), como se depreende de uma doação a Santa Eufémia, em 1092, onde é referida a existência de salinas na foz do Mondego, um dos principais produtos de exportação portugueses.

            O Mosteiro de Santa Cruz inicia, por esta altura, o seu domínio efectivo sobre esta região, beneficiando da acção que desenvolve junto dos monarcas e de várias doações reais. Em 1134 adquire metade da vila de Eimide. Quatro anos mais tarde compra uma herdade na Foz do Mondego a Susana Martinho. Em 1139 toma posse da carta de venda da pesqueira do porto de Eimide. D. Afonso Henriques, no seu testamento de 1143, doa-lhe a outra metade da terra de Eimide. Em 1158, nova doação real permite ampliar os coutos crúzios, com a entrega da Ínsua da Ouveiroa, ou da Morraceira, com as suas salinas. O castelo de Santa Olaia, perto de Montemor-o-Velho, é igualmente doado a Santa Cruz por Afonso Henriques, no ano de 1166, incluindo a foz do Mondego, “por onde entram os navios”. Todo o estuário, barra e baía da actual Figueira eram couto daquele mosteiro, incluindo os interesses económicos que deste domínio advinham.

            A partir desta última data, a Sé e Santa Cruz denominarão este povoado, nos seus documentos, de “Igreja de S. Julião” e “terras da Figueira”.

            A 8 de Novembro de 1191, o cabido da Sé, por vontade de D. Sancho I e de D. Dulce, recebeu o couto de Tavarede pro jure hereditário in perpetuum, isento de todo o tributo régio ou episcopal. Tavarede era o povoado mais importante daquela vasta área, nele se fixando a chefia administrativa e económica das herdades que o cabido possuía na região. Em documento de 1 de Maio de 1237, o cabido doa a Domingos Joanes o Gago, Martim Miguéis e Martim Gonçalves, povoadores do termo de S. Julião e lavradores humildes, as herdades “rotas como não rotas” do lugar da Figueira, na foz de Buarcos. Estas herdades estendiam-se até à Tamargueira e ao Paul, “incluindo as águas que para este corriam e de todo o mesmo supradito lugar por circuito como nos seus termos se cerra”, e identificavam-se, no respectivo documento, com o lugar da Figueira e demarcando a Tamargueira como limite geográfico da Figueira.

            A obrigatoriedade dos moradores de Redondos e da Póvoa da Torre em frequentar S. Julião espelha a antiguidade da Figueira.

            O papel desempenhado pela Coroa nesta área circunscrevia-se, maioritariamente, ao exercício de direitos sobre a vida económica da região. Em 1338, Afonso IV coloca a possibilidade de adquirir as penhoras de certas casas da Figueira, pelo não pagamento de dívidas entretanto contraídas pelos respectivos proprietários, que se efectiva no ano seguinte. Cinco anos depois, em 1344, o cabido doava a Tamargueira, que confrontava com Buarcos, ao homem-bom Afonso Peres. O movimento mercantil da foz de Buarcos (isenta do pagamento de direitos de portagem ou outros, bem como da dízima), através do qual se exportavam vinhos e outras mercadorias de Coimbra para outros portos portugueses, bem como para França, importando-se vasilhame e madeiras para construção naquela cidade, mostra, em 1361, a crescente importância do porto e da respectiva alfândega, que transitará para a Figueira da Foz, durante o século XVII, quando esta ultrapassa Buarcos no crescimento económico (indústrias da construção naval, do sal e da pesca) e no demográfico.

sábado, 3 de novembro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 52


1999.01.08     -     BI-CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALMEIDA GARRETT (O FIGUEIRENSE)

                A Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), à semelhança do que tem feito com outras figuras de relevo cultural, vai assinalar o bi-centenário do nascimento de Almeida Garrett, um dos grandes vultos da literatura portuguesa, numa data que será festejada pela SIT, e que se inicia com as festividades alusivas do 95º aniversário da colectividade, prolongando-se até ao 25 de Abril. Assim, são três comemorações culturais numa festa só.
                “Estas comemorações são para todo o concelho, nomeadamente para as camadas jovens”, explicava aos jornalistas Rosa Paz, presidente da direcção da SIT, quando apresentava a iniciativa que vai ter o apoio do município figueirense e que visa, entre outras coisas, promover um espectáculo cultural que inclua diversas facetas do escritor como dramaturgo, pois Garrett é um escritor estudado nas nossas escolas e “devorado com apetite”, dizia Ilda Simões.
                Integrado nas festividades do aniversário da SIT, nos dias 23 e 30 do corrente, vai ser apresentada a comédia “O Festim do Baltazar”, que terá na segunda parte “História Cantada de Tavarede”, uma peça que envolve cerca de 50 pessoas, ficando depois para Abril o grande espectáculo cultural alusivo a Almeida Garrett que, como disse Ilda Simões, é preciso “incentivar o gosto pelo teatro”. Mas os objectivos da iniciativa passam também por desenvolver atitudes de preservação e animação da cultura portuguesa; dar a conhecer a cultura teatral do concelho; desenvolver o espírito crítico e conhecer alguns modos de vida, pensamento e história do século XIX, contrapondo-os com os da actualidade.
                Mas ainda segundo Ilda Simões, para actuar nestes domínios, propõem-se realizar um espectáculo cultural que contemple diferentes facetas do grande escritor, porque “não é inédito em Tavarede comemorar-se datas marcantes da História da Cultura”, e por isso não vão deixar de o fazer agora no bi-centenário do nascimento de Garrett até porque, frisava a directora do grupo cénico da SIT, “Garrett é um grande vulto da nossa literatura; porque somos uma população rica em actividade teatral; porque há muitas crianças, jovens e até gente adulta que não conhece a obra de Garrett” e porque, como dizia o próprio Garrett, “o teatro é um grande meio de civilização, mas não próspero onde não o há”.
                O grande espectáculo cultural vai incluir excertos de algumas obras do homenageado, nomeadamente, “Folhas Caídas”, “Romanceiro”, “Viagem à Minha Terra”, “O Arco de Sant’Ana” e “Frei Luís de Sousa”, excertos da “Terra do Limonete”, de José da Silva Ribeiro, e textos de Maria Clementina Reis Jorge da Silva e Ilda Manuela Simões.
                Dado o interesse cultural do evento, o grupo promotor da SIT vai ser recebido pela Câmara Municipal para acertar as formas de apoio, nomeadamente levar o espectáculo às freguesias do concelho e trazer as crianças das escolas à Sociedade de Instrução Tavaredense para verem o teatro.

1999.02.11     -     O FESTIM DE BALTHAZAR (A LINHA DO OESTE)

                No passado domingo, a SIT levou à cena “O Festim de Balthazar”, um texto reeditado por esta secção cénica, da autoria de Gervásio Lobato.
                Trata-se de uma comédia num só acto que procura castigar os costumes dos que vivem à custa dos bens e da bondade dos outros. Balthazar (João Medina) refugia-se na província por forma a manter-se distante de um grupo de “amigos da onça” que frequentam a sua casa, apenas com o intuito de bem comerem e beberem. Como deste grupo faz parte uma jornalista (Ilda Simões) logo todos ficam a saber onde se encontra o infeliz. O seu aparecimento e a forma com vão perturbar a paz de Balthazar constituem o cerne dos trocadilhos de que a peça vive.
                Toda a peça vive da feliz interpretação de João Medina sendo de notar que, não obstante o facto de os mais novos mostrarem ainda algumas reticências, próprias de quem dá os primeiros passos, (sobretudo a nível da dicção) o conjunto é de uma enorme entrega e dedicação. Boas interpretações também da mulher de Balthazar (Lurdes ontro) e do caçador pitosga (Rogério Neves).
                O público responde bem à entrega dos actores e as gargalhadas são uma constante ao longo de toda a representação, o que prova que não há, neste teatro, qualquer divórcio com o público. O cenário e os adereços, naturalistas, enquadram-se na peça (vai sendo tempo de tirar os vasos de plantas da ribalta) pois, mais não parece ser de exigir. A iluminação poderia ter um uso mais adequado se usada de forma criativa.
                A SIT proporciona um rápido, mas bom momento de teatro, a provar que este também pode ser divertido sem cair no exagero das interpretações e na trapalhada das imitações revisteiras.

1999.05.20     -     GARRETT EM TAVAREDE (A LINHA DO OESTE)

                A secção cénica da SIT levou à cena, no passado sábado, em estreia e perante uma sala repleta, a peça “Na Presença de Garrett”.
                Num cenário a improvisar um estúdio de televisão, onde não faltava sequer uma câmara da TVT – Televisão de Tavarede – uma jornalista entrevista Almeida Garrett, o qual vai desfiando o passar da sua história de escritor, dramaturgo, político e combatente da liberdade.
                As referências às peças ou às obras, durante a entrevista, são motivo de representação de pequenos quadros a elas respeitantes.
                O carácter pedagógico da peça, que visava apresentar o homem e a sua obra, são patentes ao longo do espectáculo e nos textos cuidados que servem as falas das personagens, às vezes demasiado eruditos, diga-se, como as opiniões sobre as obras e as citações de mestres, de que é exemplo Vitorino Nemésio.
                Ainda pouco seguros nos seus papéis e com os movimentos a revelar algum nervosismo, os amadores da SIT conseguiram manter um ritmo no que constitui um espectáculo difícil e arrojado. De facto, querer mostrar tanto em tão pouco tempo, faz sempre correr o risco de mostrar pouco ou nada.
                As representações dos excertos de peças ou romances de Garrett pecaram justamente por aparecerem desgarrados e descarnados do seu contexto. É exemplo disto, o episódio do “Falar verdade a mentir”, um quadro humorístico mas que, isolado, não surtiu efeito. Um episódio do “Arco de Sant’Ana”, bem representado, perdeu-se por falta de seguimento.
                Julgamos que a homenagem a Garrett teria sido mais proveitosa com a representação de uma única peça do autor.
                Uma nota para o cenário e para as luzes. O primeiro, de uma inacreditável vulgaridade e mau gosto, onde ficaria melhor um pano negro, ao passo que as segundas mereceriam melhor aproveitamento.
                Para que não conhecer o teatro de Garrett vale a pena ir ver.

1999.05.27     -     “NA PRESENÇA DE GARRETT” (O DEVER)

                No Teatro Taborda de Brenha, uma sala de grandes tradições, teve lugar, em 21 de Maio, no âmbito das XXII Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, a representação da peça “Na Presença de Garrett” pela Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Com a casa à cunha para poder apreciar essa arte reconhecida saída da escola de Mestre José Ribeiro, há que dizer que a expectativa não saiu defraudada, escrevendo-se naquele palco uma das páginas mais brilhantes das jornadas com a apresentação da peça com que Tavarede havia assinalado o bicentenário de Almeida Garrett, esse vulto do teatro português.
                E a primeira palavra, de muito apreço, vai para a sensibilidade artística que presidiu à escolha dos fragmentos das obras de Garrett – Viagens na minha terra; Fala verdade a mentir; O Arco de Sant’Ana; Folhas Caídas; Romanceiro e Frei Luís de Sousa – bem como na metodologia que serviu de fio condutor à sequência dos “quadros” que deram corpo à peça e deixaram na assistência uma visão da vida e obra de Almeida Garrett, trabalho meritório da responsabilidade de Ilda Manuela Simões a quem ficou a dever-se, igualmente, o enquadramento oportuno daquele desfiar de referências e no papel, determinante, de apresentadora/entrevistadora de Garrett.
                Outra distinção, igualmente, para o trabalho de direcção de palco pela forma profissional como se operaram as  mudanças de cena sem baixar o pano, aspecto de grande reflexo no êxito do espectáculo e que, só por si, define o alto nível do grupo.
                Na presença de Garrett (a que João José Silva emprestou aprumo e diálogo com a naturalidade e arte trazidas de muitos papéis) se passaram muitas situações a que deram vida artistas de créditos firmados, casos de Joaninha e da avó – uma cega cuidada ao pormenor do gesto -, o duplo de Garrett – José Medina, outra relíquia da escola de Tavarede – entre outros que com tanta arte completaram o ramo, naquela lição, ao vivo, de história onde o liberalismo de que Garrett foi percursor e por onde passaram José da Silva Ribeiro como referencial de Tavarede nesse movimento de esperança tão bem expresso naquele “E quem choramos nós” bem marcante na estátua de Manuel Fernandes Tomás com que a Figueira assinalou a sua vocação liberal ainda hoje actuante
                Escolhida para remate do espectáculo a obra mais representativa de Garrett, “Frei Luis de Sousa” foi devolvida à cena trinta e tal anos depois de em Tavarede ter obtido assinalável êxito; “exigida” por um espectador muito especial – oura relíquia da SIT, João Medina – que voltou a assumir o dramatismo de Telmo Pais naquela carga pesadíssima de emoção em que José Medina desempenhou com um realismo admirável o papel-chave de Manuel de Sousa Coutinho a que Maria Clementina (uma Madalena de nervos de aço) emprestou comoção entre uma Maria (Ana Filipa Paz Mendes) dimensionada à medida da tragédia, e a que Rogério Neves (um Frei Jorge à altura das circunstâncias) se juntou o dramatismo do Romeiro (José Luís do Nascimento) e a benção do Prior (José Silva).
                E porque a SIT é uma escola, lá estiveram alguns jovens a provar que o teatro tem... futuro.
                Para as jornadas ficou essa lição de bem representar e a certeza de que Tavarede continua a ter cátedra no Teatro Amador do Concelho e um exemplo a nível nacional.
                E, também, que esta feliz iniciativa do Lions Clube da Figueira não pode acabar!

1999.05.28     -     GARRETT REINCARNA EM TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                No ano em que se comemora o duplo centenário do nascimento do grande dramaturgo não podia a “Capital do teatro” do nosso concelho deixar passar em claro tal efeméride.
                Fê-lo de modo bem vincado e digno partindo de um texto adrede escrito, permitindo-se ilustrar a representação com diversas incursões por algumas obras do polígrafo, com especial realce para o Frei Luís de Sousa, de que nos apresentou o terceiro acto, completo. Teve esta encenação a particularidade de, em simultâneo, manter quase sempre em cena o próprio Garrett, o qual ia respondendo a curioso e bem elaborado questionário de uma arguta jornalista e, ao mesmo tempo, revendo-se, emocionado e feliz, na sua própria obra, a dois séculos de distância.
                Confirmando o que alguém disse, muito justamente, ser Garrett “de entre todos os escritores do século XIX o mais lido, o mais estudado e o mais amado pelas novas gerações”, as autores do texto, dras. Ilda Manuela Simões e Maria Clementina Reis Jorge Silva, tiveram a feliz ideia – como esclarecidas pedagogas que se orgulham de ser – de pôr em palco vários alunos das nossas escolas, os quais, além de breve troca de impressões com o presencial autor, declamaram alguns dos seus mais significativos poemas.
                Também a História de Portugal, no que concerne à ligação ideológica do liberalismo defendido e vivido por Garrett no segundo quartel do século XIX, com a implantação da República em 1910, e, mais perto de nós, com a eclosão do 25 deAbril de 1974, foi feita uma abordagem oportuna e proficientemente pedagógica e digna de registo.
                Finalmente: ante os tão demorados agradecimentos expressos pela responsável a todo um ror de gente que contribuira para tal realização, fica a todos a certeza de que o teatro mexe, verdadeiramente, em Tavarede. Parabéns!

1999.06.04     -     PARABÉNS, TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                Sou apreciador de teatro já há muitos anos. Talvez mais de 50, e também há já muitos anos comecei a ser admirador do teatro de Tavarede, mais precisamente da SIT, aquela que é a grande escola de teatro do nosso concelho, e que teve como professor o grande mestre José da Silva Ribeiro, meu grande e estremecido amigo.
                Assim, decidi ir a Brenha ver o teatro. Fui porque era a SIT que subia ao palco, e por outro lado porque tinha lido um artigo num jornal da nossa cidade, que me havia deixado intrigado. Não podia ser verdade o que o artigo dizia. Para acreditar teria de ir ver.
                O teatro começou, e não foram precisos muitos minutos para começar a pensar que afinal o que tinha lido não passava de uma brincadeira de mau gosto. Os amadores de Tavarede portaram-se condignamente. Foi uma apresentadora muito boa que conduziu a entrevista a Garrett (parabéns João José Silva!). Os quadros e textos muito bem escolhidos (ainda que alguns necessitassem de um pouco mais de texto para um melhor enquadramento) e as interpretações foram de alto nível. Parabéns àquela criada do “Falar Verdade a Mentir” que. com um à vontade fora de série, fazia inveja a muitos profissionais. As meninas do “Arco de Sant’Ana” também com grandes interpretações.
                Seguiram-se outras cenas, mas vou apenas referir-me a mais uma obra: “o “Frei Luís de Sousa”. Foi um interpretação majestosa por parte de todos os amadores. Garrett teria concerteza gostado!Assim, palavras para quê?
                Ah! já me esquecia de dizer que fui a Lisboa, ainda há poucos meses, ver o “Falar Verdade a Mentir” e o “Frei Luís de Sousa”, e só posso dizer que Tavarede está de parabéns, e que não se envergonharia se representasse ao lado dos profissionais do teatro nacional.
                Força e continuem, pois a “palavras loucas, orelhas moucas”.

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 28


Não foi muito duradoira a estadia do Conde na nossa terra. Regressou novamente a Trancoso, onde faleceu no dia 9 de Julho de 1903. Do segundo casamento nasceram 6 filhos: D. Maria Teresa (1876), D. Maria Joana (1878), Francisco (1879), D. Maria Emília (1879), João (1881) e D. Maria Antónia (1883). A Condessa de Tavarede faleceu em Trancoso a 1 de Março de 1900.

            Quando do falecimento do Conde de Tavarede, havia muitas dívidas para pagar, certamente provenientes, em grande parte, das obras mandadas fazer em Tavarede. Só ao Crédito Predial havia uma dívida de 10 contos de reis. No património da herança do Conde D. João incluiam-se os foros da Figueira da Foz, no valor de 4 254 770 reis. Estes representavam o último elo de uma ligação há muito condenada com Tavarede. Viriam a ser partilhados com o restante da herança. Quando isto aconteceu, em 1905, extinguiu-se aquela relação, após ter durado mais de trezentos e sessenta anos. Pode-se assim dizer que, com o falecimento do terceiro Conde, desapareceu a Casa de Tavarede, fundada em 1540 por António Fernandes de Quadros. (A Casa de Tavarede)

            … E rememorando o passado, transformando numa saudade mista de sorrisos e de lágrimas, a lembrança grata da figura do Conde de Tavarede, a gente encontra logo a explicação do motivo porque Trancoso se civilizava e aristocratizava noutro tempo e ainda hoje nos atrai e prende à sua sociabilidade e convivência. É que na terra onde vivesse o ilustre neto do Marquês de Pombal não podia deixar de ser influenciada pela sua individualidade. Fidalgo no sangue, no aprumo, na ilustração, no carácter, no sentimento e invariável nas acções, o grande amigo imprimia feição a Trancoso, dava-lhe a sua vida, do seu tom, dos seus nervos, da sua qualificação social, anímica e mental: alma de luz, propagava luz. (A Folha de Trancoso – 1 de Novembro de 1914)

            Resta escrever alguma coisa da passagem do Conde de Tavarede pela nossa terra. As qualidades referidas no jornal trancosense acima reproduzidas, também estiveram bem patentes durante a sua curta estadia na terra do limonete. Entre as suas várias actividades, não posso deixar de referir que foi o primeiro presidente da direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz.

            Criou grandes amizades em Tavarede e na Figueira. A sua morte foi deveras lamentada nestas localidades. A sua casa, em Tavarede, o solar onde mandou fazer obras bastante criticadas pelo seu estilo, já então não pertencia à família Quadros.

            Um jornal figueirense noticiava, em Abril de 1898, que ‘segundo nos informaram, o solar e a quinta adjunta que o sr. Conde possuia na povoação donde tomaram o nome’ havia sido vendida. Foi seu comprador Luís João Rosa, que adquiriu os ditos imóveis pela importância de cinco contos de reis.    

            Antes de terminar, quero aqui recordar um episódio ocorrido naquela ocasião. “…….. Quando o conde de Tavarede resolveu vender a casa que aqui tinha (o Paço), e onde havia mobília valiosa, o nosso Papa-jantares (alcunha atribuída ao padre Costa e Silva, não sei a que propósito), dirigiu-se logo a Trancoso a falar com ele, afim de lhe pedir um guarda-roupa para uma aplicação religiosa………..”. O conde, que era uma pessoa religiosa e bastante generosa, vendo o fim a que se destinava essa peça de mobília, não hesitou e de imediato escreveu um pequeno bilhete, dirigido ao seu feitor, que tinha mandado a Tavarede precisamente para embalar todas as mobílias existentes no palácio, e no qual ordenava para “…. lhe dar o que fosse preciso para a igreja”.

…Realizada, entretanto, a venda do palácio e da quinta, o conde veio à Figueira para ultimar tudo. Depois de tudo tratado com a venda, foi o conde a Tavarede para concluir as providências que havia ordenado ao seu feitor, quanto à embalagem da mobília, que tencionava enviar, pelo caminho de ferro, para a sua casa de Trancoso. Calcule-se, agora, o seu espanto quando o seu empregado lhe disse que a mobília havia-a levado o padre Joaquim da Costa e Silva, a quem a havia entregado em obediência às ordens do sr. conde, conforme o bilhete que lhe mandou e no qual dizia para “entregar o que fosse preciso para a igreja”.                                                                

Após dar umas voltas pelas salas, então já praticamente vazias, o conde, vendo que o padre, que lhe tinha pedido unicamente um guarda-roupa, lhe levara as principais peças de mobília que ainda cá tinha, teve o seguinte desabafo: “se a casa tivesse rodas também era capaz de a levar para casa dele”!...

            Acredito, sinceramente, que haverá demasiado exagêro. Bastará recordar que, quando da deslocação para Trancoso, o primeiro Conde de Tavarede, com a colaboração de seu sogro, levaram tudo o que de valioso existia no solar, incluindo determinadas mobílias. É certo que não terão deixado a casa completamente vazia, pois recorde-se que, depois daquela mudança, ainda D. Antónia Madalena para aqui veio residir algum tempo.

            Nem o primeiro, nem o segundo Conde aqui habitaram com suas famílias. Mesmo o terceiro, e último, que mandou remodelar o solar, aqui residiu muito tempo. Mas nesse pouco tempo, e durante os períodos de férias aqui passadas, com toda a certeza que teriam as suas comodidades que, embora mínimas, incluiriam algumas mobílias. Mas não tantas como o solícito correspondente nos faz crer… Os tavaredenses sempre pecaram um pouco pelo exagêro…

sábado, 27 de outubro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 51


1996.02.02     -     O DIA SEGUINTE (A LINHA DO OESTE)

                O SIT – Sociedade de Instrução Tavaredense levou à cena no passado dia 27 de Janeiro a peça “O dia seguinte” de Luís Francisco Rebelo.
                Nesta peça, que constitui um hino de incitamento à vida, um jovem casal flagelado pelas agruras da vida – o desemprego, o abandono, as dificuldades económicas – sucumbe e opta pelo suicidio. Tendo escolhido pelo “Direito à Morte” o casal é julgado por ter desistido da vida. Convencidos de que o seu futuro poderia ser diferente daquele que então vislumbravam, querem voltar à vida. O Juiz dita então a sua sentença: impossível, só se vive uma vez.
                Embora a sustentação da idea que a peça defende seja frágil, o texto é de inegável qualidade literária. Com um elenco razoável para amadores destacam-se as interpretações de João José Silva e José Lopes Medina; seguros, sabem enfatizar no tom e nos gestos o seu papel. Rosa Paz exagerou no pendor declamativo com que diz o papel e interioriza de forma mecânica os sentimentos da sua personagem.
                A luz e o som, sóbrios, bastam ao desenrolar da cena. A cenografia extravasa o essencial criando referências no espaço cénico que não têm qualquer uso – um banco de jardim, uma árvore, dois candeeiros.
                O SIT continua a ser uma referência para o teatro no concelho, quanto mais não seja pela frequência com que encena e monta espectáculos. O público tavaredense é generoso para com o seu grupo, que bem merece o carinho que lhe dispensam.

1996.09.20     -     JOSÉ DA SILVA RIBEIRO (O FIGUEIRENSE)

                E José da Silva Ribeiro regressou a Tavarede na noite do passado sábado, tendo conseguido o milagre, cada vez mais inviável de concretizar, de esgotar a lotação possível da SIT, de tal forma que o nosso jornal (que se esquecera de marcar bilhete) passou a noite sentado (e bem) numa cadeira solta que, por simpatia da casa, conseguiu encostar a uma das paredes laterais da sala de espectáculos.
                Que bom seria que da próxima ida a Tavarede nos sucedesse o mesmo!
                Como referimos da última edição de “O Figueirense”, no passado dia 13, sexta-feira, completavam-se dez anos sobre o falecimento de Mestre José da Silva Ribeiro, tavaredense que acreditamos ser o mais ilustre que a terra, dita do limonete, viu nascer.
                Dele não iremos ora traçar o bilhete de identidade de nobre cidadão, até porque, também no último jornal, o fez já – e com brilho – o dr. Pires de Azevedo.
                Apenas recordamos hoje que José da Silva Ribeiro tinha na Sociedade de Instrução Tavaredense o seu segundo lar, e que  sua gente (palavra para ele tão querida) era toda aquela que com ele criava e irradiava cultura através do Teatro, no palco e na plateia.
                Pois bem, a sua gente, mesmo alguma que nunca viu o Mestre, marcou de forma extraordináriamente digna a saudade de 10 anos.
                E como o fez?
                Criando e divulgando cultura através do Teatro – tal como desde 1916 o fez Mestre José Ribeiro -.
                Pelas tábuas da SIT, num fim de semana super cultural, passaram os amadores de teatro da Chã. de Carritos e de Tavarede, prova provada que as sementes lançadas pelo homenageado, ao largo de uma vida, continuam  frutificar em agradável crescendo de vitalidade.
                Assistiu o O Figueirense ao sarau inaugural deste ciclo de teatro e algumas notas, retiradas com certa emoção, terão certamente mais peso neste despretencioso apontamento de reportagem.
                E a primeira radica-se, desde logo, no facto da SIT não ter deixado passar em claro em evento que seria criminoso esquecer. Assinalou-o agregando à festa da gratidão mais duas colectividades teatrais da freguesia, numa divisão de honras que enobrece a SIT e, particularmente, a figura do evocado.
                Depois, já o escrevemos, não nos recordamos, mesmo olhando anos para trás, de encontrar na SIT uma casa tão repleta e tão participativa, verdadeiro oásis na desertificação que consome os campos da cultura.
                Depois ainda, - reconfortante e esperançosa realidade – as nossas palmas ecoaram mais forte quando olhavamos para a quantidade de gente jovem – e talentosa – que os responsáveis da SIT tiveram a magia de apresentar em palco.
                Como Zé Ribeiro se sentiria feliz se pudesse (será que não pôde?!) aplaudir esta sua “nova gente”!
                Sem juventude não há futuro e de tal se aperceberam, até pedagogicamente, os continuadores do Mestre.
                Uma palavra mais para os minutos “sofridos” pela plateia na primeira parte desta noite de evocação, quando em ecrã gigante se projectou parte de um filme no qual a personagem é o próprio José Ribeiro, falando de si, do Teatro, d SIT e “da minha gente”.
                O silêncio na sala durante a projecção da películo e a bombástica ovação final... para bom entendedor.
                Mas, e o espectáculo?
                Lembranças, de seu nome, ele é corporizado por um conjunto de curtas e variadas representações a que o Mestre em vida deu vida e que agora em palco (re)vivem com “gente velha e gente nova”, gente discípula directa do Mestre e gente (repetimos intencionalmente o termo) que José Rinbeiro gostaria de ensinar.
                Também intencionalmente não falamos em nomes, pois tal não desejariam os amadores envolvidos nesta homenagem.
                Pensamos, finalmente, que este magnífico espectáculo, mesmo desatempadamente inserido na data que lhe deu razão de existir, necessitava de ser aplaudido uma outra vez, até porque certamente na SIT não esteve toda a “minha gente” de Zé Ribeiro.

1997.01.24     -     LEMBRANÇAS (A LINHA DO OESTE)

                A peça “Lembranças”, encenada por Ana Maria Caetano, foi primeiro representada por altura do décimo aniversário sobre a morte de José Ribeiro.
Pressionada pela população, o grupo cénico da SIT (Sociedade de Instrução Tavaredense) decidiu repetir esta peça, que teve imenso sucesso em Setembro, nesta altura em que a SIT celebra mais um aniversário.
A peça “Lembranças” é apenas e simplesmente uma compilação de textos escritos por José Ribeiro, encenador desde 1916. Um homem que marcou profundamente a mentalidade das pessoas e que foi o “professor” da actual encenadora do grupo de teatro, Ana Maria Caetano.

1998.01.28     -     A FORJA (A LINHA DO OESTE)

                A SIT estreou no passado dia 24 uma reposição de uma peça já levada à cena em 1971. Trata-se de “A forja” de Alves Redol que naquele ano foi encenada por Mestre José Ribeiro, tendo como personagem principal a também conhecida Violinda Medina.
                Vinte e sete anos depois o papel masculino foi novamente interpretado pelo mesmo actor, João Medina, que cumpre agora 50 anos de palco. O papel que então pertenceu a Violinda foi desta feita defendido por Ilda Simões.
                Fazendo jus ao nome da peça, ficou bem patente, pelo trabalho apresentado, que a forja da SIT continua em boa actividade. Assim assistimos a três estreias absolutas: Ilda Simões na encenação e os jovens actores Miguel Louro e Pedro Louro, este último com apenas 11 anos e já integrante do teatro infantil da SIT, que se mostraram seguros e bem dirigidos. Dos outros actores vimos interpretações equilibradas, à imagem da tradição da colectividade.
                Este trabalho revestiu-se de várias dificuldades tendo sido a encenação prejudicada pela falta de meios que obrigou os responsáveis da SIT a utilizar o mesmo dispositivo cénico de há 27 anos atrás, suavizada embora pela utilização de outras técnicas, na altura inexistentes: a luz e o som.
                Na interpretação, João Medina esteve bem a altura dos seus 50 anos de palco e Ilda Simões também com uma boa interpretação, ensombrada a espaços com momentos menos seguros, irregularidade essa que poderá ter explicação no facto de também acumular a responsabilidade da encenação.
                Ressalvando esta reposição, que não deixa de ser interessante por isso mesmo, teme-se que a SIT venha a perder o ensejo de alguma inovação e “ar fresco”, na escolha de textos mais actualizados e interventivos.
                De qualquer maneira um trabalho “limpo”, na linha da colectividade de José Ribeiro. Valeu pelos novos actores e por uma oportunidade de revermos o talentoso João Medina.

1998.02.05     -     A FORJA (O DEVER)

                Com a peça de Alves Redol reposta em cena vinte e seis anos depois da sua estreia em Tavarede, encerrou com chave de ouro a Sociedade de Instrução Tavaredense as comemorações do seu 94º aniversário.
                Fazendo jus à celebrada escola de Mestre José Ribeiro que fez de Tavarede a capital do Teatro Amador, a representação de A Forja constituiu mais um êxito, saudado com rasgados aplausos dos muitos assistentes.
                Certamente que Alves Redol, o escritor que tirava da “tragédia de vida” o enredo para as suas obras, se reveria na representação memorável de João Medina, o Pai que, tiranizado pela revolta duma prepotência cometida sobre os bens familiares, transportou para a sua nova família o estigma dessa afronta onde a esposa (outro excepcional desempenho de Ilda Simões e os filhos não passavam de simples peças daquele xadrez de sobrevivência que nem a iminência de mortes fazia vergar.
                Com João José Silva e António Silva a incarnarem os papéis de filhos na oposição à visão doentia de pseudo-dignidade do pai, activamente, o primeiro, ao optar pelo “salto” à forja e mais passivamente, o segundo, ao resignar-se ao jugo da dureza do trabalho e do tratamento que já matara o irmão Miguel (representado com segurança por Miguel Lontro), também a Mãe soube mostrar  quanto vale a razão e o direito ao defender o filho mais novo (promissora estreia de Pedro Louro) das garras daquela “forja assassina” para onde o pai o empurrava em detrimento da Escola.
                Com Manuela Mendes (vizinha) a mostrar naturalidade e a Morte (Rosa Paz) a desempenhar “condignamente” o papel de diabo, não há dúvida que merece o maior realce o trabalho de encenação (Ilda Simões) sem esquecer a quota-parte que tiveram no brilho do espectáculo José Maltez e Jorge Monteiro Sousa (montagem de cenários), Nuno Pinto e José Miguel Lontro (luz e som), Otília Cordeiro (ponto), João Pedro Monteiro (contra-regra e o coro (Alice Mendes, Susana Neves, Cristina Almeida e Vanda Oliveira).
                “Cátedra” de tão grande lição, aquele “palco da vida” passou a mensagem esperançosa de Alves Redol na medida em que, ao exaltar com tanta realidade o dom da vida, não deixou de realçar o peso dum ambiente familiar onde  diálogo aberto constitui obstáculo à prepotência doentia de “forjas” humanas, mensagem que humedeceu os olhos e contraíu corações.
                Fazer calar tantas vocações seria um atentado ao nome prestigiado daquela casa, uma afronta à memória de José da Silva Ribeiro, um crime de lesa Cultura.
                Que ninguém deixe fechar “aquela forja” do nosso Teatro Amador!

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 27






João Carlos Emílio Vicente Francisco de Almada Quadros de Sousa Lencastre Fonseca Saldanha e Albuquerque

3º. Conde de Tavarede


            Querendo perpetuar a memória dos bons serviços prestados ao país pelo Conde de Tavarede, Francisco de Almada Quadros Sousa e Lencastre, Par do Reino e Governador Civil do Distrito da Lisboa, que acaba de falecer, e daqueles com que seus maiores já se haviam assinalado e distinguido com proveito do Estado, e atendendo a que João Carlos Emílio Vicente Francisco de Almada Quadros Sousa Lencastre Fonseca Saldanha e Albuquerque é o filho primogénito do referido Conde e neto do Duque de Saldanha, presidente do Conselho de Ministros e marechal em chefe do Exército; por estes respeitos e por esperar que, imitando os exemplos de honra e lealdade de quem descende, procurará tornar-se benemérito da Pátria, hei por bem, em nome de El-Rei, fazer-lhe mercê de o elevar a Grandeza destes reinos com o mesmo título de Conde de Tavarede em sua vida.

            Tem este decreto a data de 26 de Novembro de 1853, dia imediato à morte de seu pai. João Carlos Emílio nascera no dia 15 de Abril de 1849, em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel, onde seus pais residiam. Fez os seus primeiros estudos no Colégio Francês de S. Luís e, depois de ter prosseguido os estudos no Funchal, para onde fôra sua mãe com o seu padrasto, e em Lisboa, no Liceu Nacional, matriculou-se no Curso Superior de Letras, no qual se licenciou.

            Fidalgo da Casa Real, foi igualmente comendador das Ordens de Nossa Senhora de Vila Viçosa e de Carlos III, de Espanha. Nos anos 60 do século XIX, foi secretário particular de seu avô, o Duque de Saldanha, e foi nomeado governador civil do distrito da Guarda em 1870, cargo que exerceu até Fevereiro do ano seguinte.

            Por morte de seu avô, o 1º. Conde de Tavarede, no ano de 1861, sucedeu-lhe no senhorio da Casa de Tavarede. Em 1872, depois de abolídos todos os vínculos, os bens pertencentes à Casa de Tavarede foram avaliados em 6 400 000 reis, tendo também recebido de herança os seguintes bens: Palácio e quinta do Grilo, quinta da Ameixoeira e foro da quinta do Castelo Picão, no concelho dos Olivais; um prazo, em Santarém; um prazo, em Lisboa; um prazo, em Arruda dos Vinhos; um prazo, no Cartaxo; foros em Santarém, Torres Vedras e Mafra; um maninho chamado Malheiros, em Alcácer do Sal; foros diversos no morgado de Moura, Serpa e Beja; herdade do Monte do Gato, em Évora; e diversos foros em Serpa (caderno IX, do Dr. Mesquita de Figueiredo).

            O Conde de Tavarede viveu em Lisboa até finais do ano de 1869, passando, depois, a residir em Trancoso, embora fizesse vários períodos em Tavarede e na capital.

            No dia 26 de Novembro de 1869 casou com D. Maria da Piedade Lodi, nascida em Lisboa a 27 de Fevereiro de 1847, que era filha do Anselmo Lodi e de D. Senhorinha Leite Lodi. Enviuvou de D. Maria da Piedade em 22 de Outubro de 1870, menos de um ano após o casamento. Foi sepultada em Trancoso, por sua vontade em campa rasa, ficando ali conhecida como Santa Condessinha, pela sua misericórdia e que por muitos anos ficou na memória dos trancosenses.

            A 7 de Janeiro de 1875, o Conde de Tavarede casou novamente, com D. Maria Justina Ribeiro de Melo, filha de João Ribeiro Álvares de Melo, comendador da Ordem de Cristo e escrivão do Direito, em Trancoso, e de D. Maria Joana Augusta de Almeida e Sousa. O casamento teve lugar na capela do seu solar em Trancoso.

            Foi membro de uma comissão promotora do ensino primário e presidente da Escola Popular. Também foi membro do Conselho Municipal e presidente da Câmara de Trancoso. No ano de 1883, o Conde de Tavarede resolveu ausentar-se, com a família, de Trancoso, vindo residir para a nossa terra, para o seu solar, onde mandou fazer grandes alterações. O estilo das obras realizadas é o mesmo que se encontra em finais do século XIX, por exemplo em Sintra. Trata-se de um estilo sem grandes regras, essencialmente imitador do manuelino mas sem a grandeza e carácter deste.

sábado, 20 de outubro de 2012

Teatro da S.I.T. - Notas e Críticas - 50


1993.04.02     -     DIA MUNDIAL DO TEATRO (O FIGUEIRENSE)

                E Tavarede não esqueceu que 27 de Março é o Dia Mundial do Teatro, efeméride que no nosso concelho, e ao que até neste momento sabemos, apenas foi assinalada, com uma representação, na catedral do Teatro Amador, vulgo Sociedade de Instrução Tavaredense.
                Mas a primeira nota agradável desta noite de Teatro talvez se possa situar na feliz circunstância da sala da SIT haver esgotado a sua capacidade de acolhimento, com alguns dos espectadores, de pé, nos corredores laterais da plateia, numa demonstração de que o Teatro tavaredense continua bem vivo, de que José Ribeiro também foi mestre na arte de cultivar continuadores, como confirmado ficou pela qualidade de encenação e representação da peça apresentada.
                Mas antes que o pano subisse, a presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense, drª Ilda Manuela Simões, surgiu em palco para explicar a razão daquela noite de Teatro, dedicada acima de tudo aos amadores dos diversos grupos cénicos do concelho, que haviam aceite o convite para estarem presentes.
                A drª Ilda Manuela relembrou também João José da Costa, um presidente da Câmara (1862/1863 e 1864/65) que havia procedido à remodelação da Casa do Terreiro (local onde nos encontramos, disse), fazendo dela uma sala pra Teatro.
                Mas hoje a SIT, embora lutando com dificuldades naturalmente económicas (e daí o seu apelo à Câmara e à Secretaria de Estado da Cultura) continua a representar, pois tem gente, quer “não visível”, que para além da cena tudo executa para que aconteça Teatro, quer gente que no palco “dá a cara”, para posteriormente chamar Jorge Monteiro de Sousa, um homem que faz mexer os cenários desde há longos anos, e João Medina, um amador que há 45 anos serve o Teatro.
                Ambos foram homenageados, tanto pela SIT, como pela assistência que lhes rendeu fortes aplausos. Eles simbolizam bem o espírito do Teatro Amador Tavaredense.
                Contudo os momentos altos deste serão cultural na Sociedade de Instrução Tavaredense não se quedaram por aqui, antes que “Támar” pisasse as tábuas.
                A drª Ana Maria, responsável pelas actividades cénicas da SIT, leu a mensagem, momentos antes recebida via fax (?!), referente ao Dia Mundial do Teatro.
                E ao proscénio seri ainda chamado o dr. António Gomes Marques, da Secretaria de Estado da Cultura, um homem a Tavarede ligado por elos afectivos e familiares, e de Teatro desde há muito amador.
                Com arte no gesto e com dom no lançar da palavra, o orador ofereceu à atenta plateia uma ponderada e pedagógica motivação para que sobre o próprio Teatro se reflectisse, advogando com alma e com razão um movimento que leve a que o Teatro seja uma realidade na Escola.
                E se, como transcreveu, “para fazer Teatro basta a matéria humana”, à Sociedade de Instrução Tavaredense nada falta para continuar a pontuar como santuário concelhio (só concelhio?) do Teatro, dado que “a matéria humana”, muita dela novata nestas andanças, se definiu, na peça de Alfredo Cortez, como de primeira água, digna continuadora da escola de José Ribeiro-
                “Tamar” é a representação que a SIT vai levar às Jornadas de Teatro Amador; “Támar” é a peça que o público concelhio amador do Teatro não pode deixar de aplaudir, caso não queira cometer um pecado cultural.

1994.01.14     -     SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE (O FIGUEIRENSE)

                Considerada por muitos como a catedral do teatro amador do nosso concelho, a Sociedade de Instrução Tavaredense está a comemorar noventa anos de existência brilhante, sendo unanimemente realçada a sua acção dentro do movimento associativo, a influência pedagógica que, ao longo dos anos, tem positivamente exercido dentro da sua comunidade e, a sua faceta culturalmente mais válida, o trabalho que desde sempre desenvolveu em prol do Teatro.
                E hoje a SIT, neste seu ciclo “post José Ribeiro”, soube continuar a lição do Mestre, para nos voltar a surgir com uma pujança e validade que certos “velhos do Restelo” talvez ousassem arquivar na descrença.
                Bastaria atentar no programa comemorativo deste aniversário para se ter a certeza de que o concelho da Figueira pode continuar a orgulhar-se deste colectividade, que, numa renovada leitura e interpretação dos desejos dos tavaredenses, não busca apenas no Teatro corresponder às solicitações dos seus associados.
                Amanhã, vai assinalar-se a Grande Noite do Teatro, com a estreia da peça de Sigfredo Gordon “Omara”, numa tradução de José Ribeiro.
                Em Omara, peça de premente realismo, o autor oferece-nos o drama de uma mãe que ama o seu filho com tão excessivo e doentio ardor, que não se resigna ao perdê-lo quando descobre que ele tem uma noiva.
                O Figueirense assistiu a um dos ensaios e atreve-se, pelo que constatou, a recomendar uma ida até à SIT, onde “Omara” vos espera.
                No domingo, para além da clássica alvorada e visita aos sócios, a cargo da Tuna de Tavarede, outro momento alto se regista: a sessão solene, às 16,00 horas, na qual o Professor Oliveira Barata, um estudioso do Teatro, será o orador oficial.
                E “Omara” voltará ao palco nos dias 22 e 29 deste mês, enquanto que na tarde do dia 23, domingo, decorrerá um espectáculo a cargo do Grupo Típico do Sport Clube de Lavos e da sua Escola de Música.
                Ainda a destacar, na tal renovada leitura solicitações dos tavaredenses, a inauguração, pelas 15,30 horas do dia 30, do Pavilhão Gimnodesportivo, um espaço de que Tavarede – em particular a sua juventude – necessitava.
                Parabéns, pois, Sociedade de Instrução Tavaredense, na pessoa da sua Presidente, já reconduzida – e bem, para mais um mandato.

1994.01.2     -      O TEATRO EM TAVAREDE (O FIGUEIRENSE)

                Há trinta anos vivia eu a cerca de seis léguas da Figueira, mas chegavam ali ecos da actividade teatral em Tavarede...
                Amado, de nome, e amador de uns tantos ofícios em minha vida, houve uma altura em que me deu, também, para ensaiar uns “teatros”. Preparação específica não tinha, pelo que tive de estudar umas coisitas, aproximar-me de entendidos nestas áreas e... avançar!
                Sei que um dos primeiros passos que foi na direcção da terra do limonete. E aí vinha eu, com os homens do clube lá da terra (os quais pouco mais tinham em seus horizontes que uns bailes de vez em quando...), até à capital do Teatro, que era, na altura, muito justamente, e continua hoje a ser, a freguesia de Tavarede.
                Figura emblemática de todas estas andanças era a pessoa de José da Silva Ribeiro com quem tive o privilégio de contactar por diversas vezes; em algumas delas recebi preciosos ensinamentos e prestimosa colaboração na cedência de adereços e cenários diversos.
                Os anos iam passando, a minha situação sócio-profissional haveria de ser também alterada, até que... não sei por que bula, vim a cair, de novo, por onde havia começado a minha vida prática – a Figueira da Foz.
                Uma vez aqui, e desde há uma dezena de anos, mais e mais venho admirando Tavarede, quero dizer, todo o interesse e carinho que as suas gentes vêm manifestando pela arte de Talma. Faleceu, entretanto, o grande mestre, mas a escola por ele criada continua, em ritmo apreciável e agora mais adulta, porque liberta, também, de um certo trauma de orfandade por que, naturalmente, passou.
                A peça presentemente ali em cena não desmerece, em nada, quantas ali já tive oportunidade de presenciar. Da autoria de um notável escritor mexicano, numa tradução de José Ribeiro, o seu desempenho foi confiado a verdadeiros artistas na arte de pisar o palco. Curioso que nela figuram elementos que entraram na primeira representação, já lá vão 28 anos, ainda que, agora, vestindo outras peles (caso de João Medina, ora o dr. Ayala, e, na altura, o jardineiro Tobias).
                Como figura central, desta vez, a drª Ilda Manuela Simões, com a gana que se lhe conhece, em substituição da imortal Violinda Medina. Arrogante e altiva no seu orgulho solitário, sempre pronta a enfrentar as lutas, “Omara” foi muito bem interpretada(?) por Ilda Manuela. Despeitada e roída de ciúmes, deixa-se, no entanto, vencer, no final, ao “entregar-se” no caso que a atormentava devido ao patológico e possessivo sentimento que nutria pelo filho, quando este pretendeu amar uma mulher, à qual “Omara” apenas vaticinava pureza, candura, virgindade...
                Teatro de primeira água, também desta vez, em Tavarede.

1994.11.25     -     PARABÉNS, JOSÉ RIBEIRO (O FIGUEIRENSE)

                E Tavarede cantou os parabéns a José da Silva Ribeiro no dia em que o Mestre atingiu, no coração e na memória dos seus inúmeros amigos, os cem anos de vida.
                Pouco a pouco, no findar da tarde do passado dia 18, a sede da Sociedade de Instrução Tavaredense foi-se tornando pequena para acolher as pessoas que, vindas de tantos sítios, juntaram sentimentos, de saudade, é verdade, mas também de um certo orgulho por puderem testemunhar ao Amigo, apenas fisicamente ausente, algo do muito que dele haviam recebido, e que agora tinham sentida ocasião em retribuir.
                E a todos não passou ao lado a significativa presença da Tuna de Tavarede, também ela uma página patrimonial da vila, que com os seus acordes de outrora, nos conduziu ao salão de Teatro, local privilegiado para se viver José Ribeiro.
                Em palco, em sessão solene presidida pelo engº Aguiar de Carvalho, tomaram lugar um sem número de entidades, e também mais uma dezena de estandartes oriundos de colectividades do concelho.
                Caberiam à drª Ilda Manuela as palavras iniciais, e desde logo o lamento por as comemorações ficarem aquém do desejado, mas, como disse “a Cultura custa dinheiro e a SIT não o possui”, acrescentando, como exemplo, que a aluguer do guarda-roupa da representação teatral dessa noite custara duzentos contos!
                Mesmo assim,  presidente da SIT agradeceu as várias boas vontades os apoios recebidos, dos quais destacou o da Secretaria de Estado da Cultura.
                Lidas as cartas recebidas relacionadas com esta comemoração, escutou-se uma composição poética de Isaura Morais, para de imediato a drª Ana Maria, hoje responsável pela continuidade do Teatro em Tavarede, dissertar, emocionada, sobre a sua vivência com José Ribeiro, que  acompanhou “do Jardim Escola à Universidade”.
                Depoimento quase sempre transmitido de lágrimas nos olhos, e no qual agradeceria ao homenageado tudo o que por ela havia feito.
                De realçar a mensagem recebida e lida, que o Grande Oriente Lusitano remeteu, enaltecendo o “irmão republicano”, o seu empenhamento na Maçonaria, a luta pelos valores em que acreditava, o ilustre maçon continuador dos ideais de Manuel Fernandes Tomás, João de Barros, Joaquim de Carvalho e Manuel Gaspar de Lemos, também eles membros da Maçonaria Figueirense.
                António Simões Baltazar trouxe a mensagem da Junta de Freguesia de Tavarede, a expressão do reconhecimento “oficial” de Tavarede a Mestre José Ribeiro, realçando ainda o trabalho dos Lions e dos Rotários na exaltação do homenageado.
                E justo é assinalar a publicação que o Lions Clube da Figueira da Foz executou biografando José Ribeiro, num texto de Jorge Traqueia Bracourt, sendo a mesma distribuida durante a sessão solene.
                Ainda, como oradores, registamos a exposição do dr. Deolindo Pessoa, dele destacando a sugestão, como melhor forma de homenagear José Ribeiro, da criação de um Instituto de Teatro com o seu nome.
                Da Secretaria de Estado da Cultura, pela voz do Dr. Pedro Abreu, chegou a pública homenagem “a esse grande vulto da cultura figueirense” e igualmente “à agremiação que durante sete décadas teve o privilégio de o contar como o seu maior”.
                A sessão terminaria com a intervenção do presidente da Câmara, no preito do concelho ao grande tavaredense.
                Após a sessão solene, fechada com o hino da colectividade executado pela Tuna, foi descerrada, por D. Guilhermina Ribeiro, irmã de José Ribeiro, uma placa assinaladora da efeméride.
                Ainda na SIT procedeu-se à inauguração de uma valiosa exposição de cenários de teatro, algo de importante a merecer uma visita.
                Com uma lotação esgotada, a SIT assistiu, na noite do dia 18, ao regresso, às tábuas do seu palco, de Mestre José Ribeiro, sempre presente mercê de uma feliz encenação, que transportou para o palco objectos do Mestre, como a sua secretária, a sua cadeira, o seu candeeiro... o seu lugar de trabalho. Depois, bastaria um pouco de imaginação.
                E essa não faltou aos que conceberam esta represeentação, estas “Palavras de Uma Vida”, baseada em textos retirados do diário do homenageado, de passagens de algumas cartas, de peças que o Mestre levou à cema.
                Depois de tudo o que vivemos no dia 18,... Tavarede cantou os parabéns a José da Silva Ribeiro.