sábado, 26 de janeiro de 2013

O Associativismo em Tavarede - 7


As primeiras associações - 3


Estes apontamentos ficariam incompletos se aqui não fossem incluidas a resposta destes jornais. A ‘Gazeta’ replicou desta forma: Acabamos de ler uma correspondencia d’esta povoação para o “Povo da Figueira”, datada de 24 do corrente, que nos surpreendeu... por sabermos que n’esta pequena terra ha um rival do tão festejado Caracoles da Folha do Povo, tal é o chiste da graça avaporada com que o tal correspondente critica o espectaculo dos Reis no theatro Bijou Feminino.
         Com certeza certa que os desempenhantes eram mal educados... para o theatro; mas isso não é razão para critica, porque tambem o sr. correspondente está mal educado... para escrevinhador de correspondencias, em que a nossa lingua é torpemente assassinada, sem haver uma alma caridosa que a livre de tal verdugo, mandando-o para a Cova da Serpe, onde, com o seu fino espirito, póde representar algum papel de grande effeito, na peça de sensação - Judas... no deserto; ou então s’achar batatas para os Carritos.
         Em todo o caso, não me lembra que nenhum desempenhante arrincase coisa alguma, pois que a peça era desempenhada por pessoas do sexo feminino, que, se disseram mortiféros, conseguiram tambem justos applausos, mas não avaporados (que não sabemos o que seja, a não ser alguma subida de vapores que fazem ver as coisas d’este mundo em duplicado ou reduplicado, conforme a quantidade).
         Assim o sr. Pum (que pseudonymo tão avaporado!) com a sua intelligencia, não contente em criticar, o que certamente não viu (temos a certeza d’isso) e o que não percebe, não satisfeito em escavacar a pobre grammatica, que não tem culpa alguma da pouca intelligencia de qualquer quidem, que se arvora em critico... de si mesmo, ainda (naturalmente por estar avaporado) confunda Lucifér ou Luciféro, com o executor das ordens de Herodes, que, em vez de mandar degollar os innocentes, devia mandar cortar o pescoço a certos criticos... que nós conhecemos. Diz elle (correspondente) que viu (pelo telephone?) um desempenhante (que por sinal não estava avaporado) arrincar os mais avaporados (?) applausos que reduplicaram (por causa da avaporação) quando elle, aliás ella, arrincou um dos innocentes dos braços do capitão da guarda de Herodes a quem o sr. Pum, certamente por ignorancia, chama Lucifer! Oh! homem de Deus, olhasse-lhe para a cabeça e para os pés... a ver se assim o não confundia!
         Ora... abobora, sr. Pum.; trate d’outro officio por que esse não lhe serve; metta-se com a sua vida e deixe divertir os outros, muito embora digam calinadas; olhe para si antes de criticar os outros; ponha a mão na consciência (caso não esteja avaporada) e... durma, que isso é somno, e olhe que de pobres de espirito está cheio o reino dos ceus... e tambem Tavarede. Fique-se em paz.

         E veio a tréplica: Por mero acaso, e não porque esperasse emproadas replicas à minha inocente carta de 24 do mês último, é que vi, depois de decorridos alguns dias, referências abespinhadas de um quidam que entende na sua, e lá isso entende muito bem, não merecer sequer uma simples designação, embora ela seja tão estapafúrdia como a sua figura picaresca do pingurrio que veio de reforço… ao mestre.
         De resto, cá na minha também opino porque o interessantíssimo anónimo, heróico defensor das prendas e mais partes que concorrem na pessoa das desempenhantes do Bijou, se alaparde o mais possível por detrás do mais bem vedado tapume. Quem me diz a mim que não poderia eu tomar a nuvem por Juno e o mestre António pelo mestre João? Nada mais fácil do que querer filar um farçola emproado e pimpão e, em vez disso, deitar os gatazios a um pândego que conheça a gramática… parda (?) tão bem como o Mandarim The-chin-pó sabia de cor as máximas do moralista Confúcio. Isso nunca! O mais prudente é uma pessoa não se arriscar da zona da certeza e não avaporar a imaginação pelas regiões mortiféras onde brilham sideralmente as pedras finas do decantado Bijou, parte das quais têm sido lavradas pela mão (?) do primeiro mestre – o que tem pouca gramática – e não pela do segundo, - que tem a gramática toda! – e que afinal, bem se vê, segundo afirmam testemunhas oculares e guturais, costuma escrever de um borco e com rara perfeição.
         Eu, se neste momento, ou em qualquer outro, me achasse com tendências para responder à carta-dueto do ninguém, ver-me-ia, declaro-o com toda a franquelidade, seriamente atrapalhado, porque por mais que se faça suar o topete, por mais agudeza que um cérebro possua, é verdadeiramente impossível ajudar o que haja de fino espírito no remelgueiro mistifório do púfio. Chega até uma pessoa a pensar que quem aponta à execração pública os crimes (isso é o que nós havemos de ver?) gramáticos dos outros, não deve declinar a obrigação de perpetrar correspondências com algum bom senso.
         Terminando por agora: Tavarede não está tão cheia de pobres de espírito que não comporte de vez em quando mais alguns, os quais em tardes amenas costumam, para refrescar a amizade, ir libar do divino licor… arranjando assim forças para bem desempenhar o papel de Cireneu nas estrambólicas epístolas fabricadas nesta aldeia e exportadas para a Gazeta.
         E adeusinho até breve. (Pum)

         E voltamos à Estudantina para contar o baile ali realizado pela Páscoa de 1896. Com a curiosidade aguçada pelo que se nos constava dos atractivos da risonha povoação de Tavarede, terra para nós estranha, lá fomos domingo de Páscoa à noite, incitados pela espectativa de um baile que aí se dava no velho solar dos condes de Tavarede, onde está instalada uma sociedade recreativa, graças à persistente boa vontade de alguns filhos do povo. Nós, que achamos encantos na arte de Terpsicore, envidámos diligências para conseguir o gozo daquela festa íntima, pois o baile era oferecido às famílias dos associados, e por isso intransmissíveis os bilhetes de admissão. Mas, enfim, devido à amabilidade do sr. José Maria dos Santos, daqui, e membro da mesma sociedade, podemos ter ingresso no recinto onde nos aguardavam umas horas de agradável passatempo.      A sala de baile achava-se caprichosamente ornamentada com flores, louro e buxo, vendo-se ao fundo uma espécie de estrado, onde uma orquestra composta da Tuna local, habilmente regida pelo sr. Gentil Ribeiro, espalhava umas notas harmónicas e alegres naquele espaço em que a mocidade doidejava no voltear das danças. Podia-se estar ali horas e horas esquecidas, enlevado.          Sucediam–se as danças populares, as valsas, polcas… o redemoinhar contínuo daquela mocidade folgazã e cheia de vida.      Entre as músicas executadas, uma houve que agradavelmente nos surpreendeu, e que nos disseram ser original do sr. Gentil Ribeiro.          Terminou o baile cerca da meia noite, sem que houvesse o mínimo dissabor entre tanta gente que ali estava, pela vez primeira, talvez, em um baile regular. Como nós, provavelmente, outros vieram satisfeitos acalentando o desejo de poderem  gozar outras noites iguais”.

         Em Abril daquele ano, encontrámos a notícia de que a Tuna Bijou Tavaredense, sob a regência de J. Teixeira Ferreira, ilustrado professor na Figueira da Foz, deu um concerto, na sua sede, dizendo a nota que “… apesar do pouco tempo que ainda têm de estudo, os executantes já tocam com alguma correcção…”. Podemos acrescentar que alguns elementos desta tuna também tocavam no célebre ‘Rancho do Vapor’, da Figueira. E referimos que ainda em 1896, as duas tunas tavaredenses foram tocar às festas da Senhora do Desterro, em Montemor-o-Velho. Não vamos, contudo, referir todas as deslocações destas tunas às diversas festas populares que todos os anos se realizavam por todo o concelho e lugares limítrofes, mas somente as notícias que nos parecerem mais interessantes.  

Um dos melhores amadores dramáticos daquela época, foi José Medina q       ue, além da Estudantina, era frequentemente convidado para participar em espectáculos realizados por diversas colectividades da Figueira, como, por exemplo, a ‘Sociedade Recreio Operário’, onde participou diversas vezes.


José Medina

         A Estudantina festejava diversas datas com a realização de bailes, abrilhantados pela sua orquestra, composta por elementos da tuna. Eis mais um recorte noticiando mais um baile da Páscoa, no ano de 1897.

Nem só nas grandes cidades a alma popular se expande no seu regozijo íntimo. Nas pequenas povoações, como Tavarede, o mesmo facto se dá. O dia 18 do corrente passou ali como um dia de festa. A Estudantina Tavaredense deu aos seus associados um dia de gozo, proporcionando-lhes, no Paço dos Condes de Tavarede, um baile campesino. Muitas raparigas e rapazes da povoação concorreram a ele, animadas de fraternal convívio, e essa noite passou-se vaporosamente como um sonho de amor. A dança, animada por dezenas de esbeltas raparigas, prolongou-se até às 11 horas da noite, ficando todos com saudade das horas que ali passaram. Um delicado copo de água, mandado distribuir pela direcção da Tuna, veio pôr termo àquela noite de regozijo, como poucas se encontram na vida.        À Estudantina Tavaredense, que nos proporcionou umas horas de tanto prazer, aqui deixamos inscritos os protestos de gratidão de que lhe ficamos devedores”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Asociativismo na Terra do Limonete - 6


As primeiras associações - 2

    No final do ano, na Estudantina, o grupo cénico apresentou o seu primeiro drama ‘Escravos e senhores’, em 3 actos, a comédia ‘Morrer por ter dinheiro’ e nova cena cómica ‘Um homem esperto’. Em Março seguinte e “Para solenizarem a data da instalação desta sociedade, que já conta dois anos de existência, reuniram-se no passado domingo no teatro Duque de Saldanha, bastantes sócios, presidindo à reunião o sr. João dos Santos. Além do presidente, que em breves palavras expôs os fins para que se tinham ali reunido, falou o sr. Gentil da Silva Ribeiro, que agradeceu, em nome da Sociedade, a comparência dos presentes e os serviços que alguns srs. têm prestado à Estudantina, entre eles os srs. Manuel e José Cruz. Foram recitadas a cançoneta – Assim assim e a cena cómica Zé Galo na cidade, sendo muito aplaudidos os srs. Eduardo Ferreira e José Medina, pela forma como interpretaram estas duas produções. A sessão decorreu muito animada, dissolvendo-se a reunião com o levantamento de vários vivas, aos indivíduos que mais se têm empenhado pela prosperidade da Estudantina”.

         A actividade teatral e musical prosseguiu com entusiasmo. Não esqueceram, na ocasião própria, ‘o enterro do bacalhau’.  No próximo sábado, a Estudantina Tavaredense realiza pomposamente, como o fez o ano passado, o enterro do fiel amigo, festejando assim a terminação do tempo de jejum e abstinência de comezainas de carne... Haverá sermão prégado por... Não sejamos indiscretos!   A título de curiosidade informo que o primeiro rancho que se organizou na nossa terra, foi pelas festas ao S. João, tendo-lhe sido dado o nome de ‘Rancho do Limoeiro’, e era formado por rapazes e raparigas de Tavarede e de Buarcos.

         Depois do ‘Enterro do bacalhau’, a Estudantina deu dois novos espectáculos. No primeiro, com as comédias ‘O marido vítima das modas’ e ‘O ressonar sem dormir’, 1 acto cada, os entreactos ‘Sardinhas à Rochefort’       e ‘Dois curiosos’ e a cançoneta ‘Sol lá si dó’.
No outro programa acrescentaram mais uma cançoneta ‘Assim, assim’. A notícia refere a seguir: o desempenho foi, quanto podia, muito regular, devendo contudo ser especialisado o de Gentil, Ferreira, Medinas e Maria Augusta. Os amadores foram por isso muito aplaudidos pelos espectadores.

         Nas festas a S. João desse ano recolhemos este pequeno recorte: Havia este anno grande rivalidade entre dois ranchos (as historicas e já agora inevitáveis questões de dansas...): o Alegria, composto exclusivamente de gente de Tavarede e arredores, e em que tocava a Estudantina Tavaredense, dansava n’um largo junto à egreja, e o Limoeiro, de que faziam parte muitos rapazes e raparigas da Figueira, e que dansava n’um quintal à entrada da povoação. De madrugada os ranchos encontraram-se, e, como era natural, houve troca de ditos que em breve degenerou n’alguns bofetões applicados de parte a parte, mas sem consequencias de maior.

         Nesse mesmo ano, pelo Natal, foram levados à cena dois ‘Presépios’. Embora não esclareça em quais associações, temos a quase certeza que terá sido na Estudantina e no Bijou Tavaredense.

         É a propósito desta última associação que, em Janeiro de 1896, novas notícias surgem na imprensa. Terão sido o ‘Presépio’ e o ‘Auto dos Reis Magos’ as primeiras
peças representadas nesta então jovem colectividade, pois, e ainda segundo Ernesto Tomás referiu na sua visita a Tavarede por essa ocasião. 
            As críticas ao espectáculo apresentado no Bijou, foram algo polémicas. Recordemos um pouco: Assistimos, no sabbado ultimo, no pequeno theatro “Bijou Feminino”, á representação dos Reis.     O desempenho, feito por pessoas que não teem a educação própria para o theatro, não nos pareceu mau, ainda que houvesse varias incorrecções e exageros, devidos certamente á maneira como a peça se acha escripta. Distinguiu-se entre todas, no papel de Rachel, mãe d’um dos innocentes mandados immolar por Herodes, a esposa do nosso amigo Proa. Tanto os fatos como as caracterizações, feitas pos Abel dos Santos, não deixaram nada a desejar. Cremos que foi o melhor dos presepios que este anno se representou na Figueira e arredores.

A nota acima foi publicada no jornal ‘Gazeta da Figueira’. Mas, pouco depois, o ‘Povo da Figueira’ escrevia assim: Temos gosado os differentes espectáculos que ultimamente se têm representado no theatro “Bijou Feminino”, cujo desempenho tem sido na verdade surprehendente…           O desempenho d’alguns papeis na representação dos Reis, por pessoas mal educadas… queremos dizer, por pessoas que não têm educação própria para o theatro, não nos pareceu… nem bom nem mau – antes pelo contrario, ainda que houve varias incorrecções exaggeradas, devidas com certeza à maneira como a peça s’acha escripta.
         Em todo o caso estas incorrecções foram resalvadas, devido à intelligencia dos desempenhantes, sobresahindo especialmente o papel de Rachel que foi distribuído a um desempenhante que conseguiu arrincar da plateia os mais avaporados applausos que reduplicaram com muito mais enthusiasmo quando arrincou um dos innocentes dos braços mortiféros de Luciféro que… ficou atrapalhado ao fazer d’aquella… Foi o melhor espectáculo de Reis que este anno se representou na Figueira, Carritos e Cova da Serpe.




Pano de boca do teatro de João José da Costa




















sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Peço desculpa

Ana Maria

Que me desculpes, bem como todos quantos tiverem a bondade de ler esta minha pequena nota, mas não posso calar esta minha frustração.

Sou sócio honorário da Sociedade de Instrução Tavaredense. Com mérito ou sem ele, entendo que te devo pedir desculpa da tremenda falta cometida. Não sei, nem isso pode interessar, quais os motivos, mas ignorar a tua dedicação, o teu trabalho e o teu amor à colectividade me parece uma falta grave. Grande lição de verdadeiro associativismo deu o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, que, apesar de não seres sua sócia, te pediu licença e colocou o seu estandarte no velório de tua Mãe.

Eu, que desde criança sempre vivi o associativismo, e tu, Ana Maria, que durante tantos anos foste uma verdadeira dedicação e devoção àquela Casa, bem sabemos que a SIT é alheia a tal acontecimento. Os cento e tal anos vividos até hoje dizem tudo.

Peço-te desculpa. Não merecias tão grande esquecimento e perdoa o eu desabafo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 5


As primeiras associações (1)

         Com o andar dos anos e com o benefício das novas salas de espectáculos, estou a referir-me ao Teatro do Terreiro, ao Teatro Duque da Saldanha e ao teatrinho Bijou Tavaredense, o Associativismo melhorou, e muito, na terra do limonete. Os tavaredenses compreenderam que beneficiariam imenso unindo esforços e, assim, não tardou a surgirem as associações devidamente organizadas e legalizadas.

         Os amadores das velhas ‘associações dramáticas, uniram-se, como referi, nas novas associações, conforme estas iam surgindo. Entretanto, e no dia 28 de Março de 1893, faleceu, na sua Quinta dos Condados, João José da Costa, grande impulsionador do associativismo em Tavarede. A sua obra, porém, prosseguiu, pois João dos Santos, que era seu procurador e foi, depois do falecimento de D. Emília Duarte da Costa, o herdeiro daquele benemérito tavaredense, adoptivo.


 Estandarte da Estudantina Tavaredense
        
         E no dia 22 de Março de 1893 foi fundada a ‘Estudantina Tavaredense 22 de Março’, a primeira que surgiu na nossa terra, estruturada para desenvolver a actividade associativa. Instalou-se numa das antigas sociedades dramáticas, mas não sabemos em qual. A primeira nota que se encontrou referente a esta associação, em 23 de Abril daquele ano, refere o seguinte: ”O progresso, na sua marcha constante, vai invadindo tudo. Da cidade à vila e desta à mais remota aldeia vão-se observando vestígios da sua passagem. Vêm a pelo estas palavras porque, em Tavarede, pequena povoação perto desta cidade, se está organizando uma estudantina de operários que, nas horas vagas, se entreteem na música, inocentemente, e muito melhor do que gastando o seu tempo em diversões perniciosas. Caminhai, caminhai. Adiante! Assim é que é andar.     Escrevendo assim parece-nos divisar umas caretas de taberneiros ofendidos… que sentem a concorrência dos cobres à gaveta. É assim; tenham paciência”.

         E logo no mês seguinte, 28 de Maio, a tuna teve a sua primeira deslocação. Foi a Montemor-o-Velho, abrilhantar as festas em honra da Senhora do Desterro. “… Atrás deles vinham  também alguns de Tavarede, sendo logo seguidos pela Estudantina Tavaredense 22 de Março, que na melhor ordem e tocando muito harmoniosamente, entrou na dita praça. Parando um bocado neste local ali executou distintamente uma linda valsa e tão afinadinha que conquistou gerais aplausos de todos os circunstantes, que até hoje não têm cessado de admirar como na pequena povoação de Tavarede se organizou uma sociedade assim e que esta, durante o curto prazo de dois mezes, avançasse tanto, pelo que damos ao digno regente as nossas cordeais felicitações. Seguiu depois rua Direita acima na mesma ordem, debandando no largo da igreja dos Anjos, onde se realizou a festa, retirando para a estrada real, defronte do pátio do convento do mesmo nome, onde estiveram em alegre pic-nic à sombra de umas árvores”.

           Também nós, na verdade, nos admiramos do progresso verificado na nossa terra no campo musical. Não esqueçamos que, menos de vinte anos antes, a orquestra dos teatros era composta por uma flauta, um violão e uma viola, e que noutros espectáculos vinham rapazes da Figueira tocar. E logo a seguir foram à Figueira tocar às festas ao Santo António: “O que podem violas e guitarras mostrou-nol-o a Tuna Tavaredense, que nessa noite veio visitar-nos, tocando harmoniosamente aqueles instrumentos e alcançando um verdadeiro successo. Muito bem! E viva a rapaziada de Tavarede!!”.

         Para melhor prosseguir na sua actividade artística, a ‘Estudantina Tavaredense’ resolveu alugar o Teatro Duque de Saldanha, no Palácio dos Condes de Tavarede, onde se estreou em Julho de 1894, com um espectáculo teatral, apresentando as comédias ‘Por um triz’, ‘Creado distraído’, ‘Dois curiosos como há poucos’ e a cena cómica ‘José Galo na cidade’.

         Não podiam deixar de abrilhantar as festas populares na nossa terra. Nem sempre eram totalmente pacíficas mas… “… As moçoilas da aldeia, vermelhas, tisnadas, contentes, acasaladas ou não, lá dançavam espertamente, como se uma noite de estopantes bailações não fosse mais que suficiente para alquebrar o mais vigoroso organismo. Houve também música, p’ra cá e p’ra lá, na rua Direita (por signal que é bem torta, como todas as ruas Direitas), foguetes, e algumas tiranas que eram de se lhe tirar o chapéu. Bordoada, pouca; apenas algumas bolachas e biscoitos ministrados com a maior convicção por um rapazelho cá da freguesia, por sinal que é pedreiro, nas lustrosas bochechas de um pimpão campesino. Resultado: Avaria na cara dum, e fatiota rasgada no corpo do outro. A polícia interveio, prudentemente, prendendo o avariador das bolachas do próximo, mas outro pedreiro interveio também, e duma forma tão habilidosa e louvável que o rapaz filado pelos gatázios do mantenedor da ordem conseguiu esgueirar-se, dirigindo-se a penates, por causa das dúvidas”.

           Em Outubro de 1894 subiram à cena as peças ‘Choro ou rio?’, ‘O creado distraído’, ‘Um filho para três pais’ e novamente a cena cómica ‘José Galo na cidade’. Uma nota diz-nos que “os rapazes foram habilmente ensaiados pelo sr. Manuel Gomes Cruz, estudante da Universidade, e natural daquela povoação, onde tem passado as férias, e a orquestra foi dirigida pelo seu irmão o sr. José Gomes Cruz, também estudante da Universidade, tocando este sr. nos intervalos alguns trechos musicais no bandolim, acompanhado ao violão pelo sr. Gentil Ribeiro, e que lhes mereceram justos aplausos pela correcção com que foram executados”.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 4


As primeiras notas do Associativismo - 2
        
 Em Janeiro de 1880, em “O Comércio da Figueira” escreve-se que “A Sociedade Recreativa que este ano já tem dado algumas representações em Tavarede, leva no próximo sábado, dia 10, à cena o “Auto dos Reis Magos” e termina o espectáculo com o desempenho de algumas comédias”. Esta Sociedade Recreativa pensamos que estivesse instalada na Casa do Terreiro, de João José da Costa, o grande benemérito da nossa terra. “… vendo as péssimas condições em que os amadores de Tavarede davam as suas récitas na desmantelada casa do Terreiro (sociedade antiga?), e convencido das vantagens do teatro como meio de cultura e educação do povo, transformou o prédio num, para o tempo, excelente teatro“.

         E continuemos com Mestre José Ribeiro em “50 Anos ao Serviço do Povo”: “… Por certo não haveria melhor em terras pequenas como a nossa. Todos os lugares para os espectadores eram numerados, distribuídos pela plateia, um balcão em volta desta e, por cima, um outro balcão que ainda existe. O palco era dividido em planos e construído em corpos. Apetrechado com varanda e urdimento com suas carreiras equipadas de girelas e cordas para bambolinas e panos. Quanto a cenários, ainda ali conhecemos 3 salas pintadas em pano, primorosamente montadas em boa madeira, e bastidores de campo aplicáveis a tangões que giravam em calhas; dispunha-se ainda duma rotunda, o que bem revela o desejo de que nada ali faltasse. A iluminação era a petróleo, para o que foram mandados fazer candeeiros próprios aplicáveis às gambiarras e ribaltas. O pano de boca, tendo pintada uma vista do palacete dos Condados, onde João José da Costa residia com sua esposa, é o mesmo que ainda hoje está a servir nos espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense (1954)”. Que diferença para a antiga sala de espectáculos da “Casa do Ferreira”!!! Este teatro terá sido construído entre os anos de 1882/1884.

         Alguns anos mais tarde foi o 3º. Conde de Tavarede que, quando mandou fazer as obras de remodelação no Palácio, ali instalou uma nova sala de teatro a que deu o nome de “Teatro Duque de Saldanha”. Como se pode observar, as velhas associações dramáticas foram-se dissolvendo, agrupando-se os amadores nos novos teatros, que lhes ofereciam melhores condições para a sua actividade amadora.

         Mas aquelas velhas associações não acabaram de todo. Em Dezembro de 1884, “… na noite de quinta para sexta-feira (25) houve presépio em Tavarede, porém, no meio do espectáculo, abateu parte do soalho da casa, indo parar à loja alguns dos espectadores! Houve ferimentos, mas de pequena importância. Assim foi bom”. Publicou esta notícia o jornal Comércio da Figueira. Também não conseguimos localizar a associação onde houve este pequeno acidente.

         Como se verifica, são muito reduzidas as notícias publicadas sobre o associativismo na nossa terra. Há a certeza, no entanto, de que tanto o teatro como a música estiveram sempre em actividade, em diversos locais dos já mencionados. E não eram somente os tavaredenses que aqui apresentavam os seus espectáculos. Em Fevereiro de 1885, “… num teatro em Tavarede, dá o seu espectáculo uma troupe de artistas dramáticos que ultimamente trabalharam em Montemor. Levam à cena as engraçadas comédias em um acto “Não há fumo sem fogo”, “Criada impagável”, “Triste fado” e “Descasca milho” e, dias depois, a mesma companhia aqui representará as comédias “A cerração do mar”, “Uma experiência”, “União ibérica”, sendo também recitada uma poesia dramática.

         Uma outra notícia, também de Fevereiro de 1885, diz que “no próximo sábado, 28, vai à cena pela primeira vez no novo teatro de Tavarede, o drama em 3 actos “O Coração dum bandido”. Deduzimos que o referido novo teatro seria o que João José da Costa mandou construir na sua casa do Terreiro. Este espectáculo repetiu-se no domingo seguinte, 1 de Março, e, além do referido drama, o programa era completado com “O meu nariz”, cena cómica e ainda uma farsa. Acrescenta a notícia que “tomam parte nos espectáculos alguns curiosos da localidade”.

         Os espectáculos sucediam-se. Poucos dias depois foi levado à cena, no mesmo “novo teatro de Tavarede”, o drama em 3 actos “Justiça de Deus” e a comédia em 1 acto “O cego avarento”. Digno de nota o facto de João José da Costa, depois de ter exercido os mais altos cargos administrativos na Figueira da Foz, ter aceitado e exercido o lugar de presidente da Junta da Paróquia de Tavarede, durante a primeira metade de década de 1880/1890. Mas a actividade de João Costa na nossa terra foi mais longe. Além de ter mandado construir o teatro, também foi ensaiador do seu grupo cénico. Vejamos uma notícia inserida no jornal “Comércio da Figueira”, em Abril de 1885:

         “Hoje à noite dá uma troupe de curiosos uma récita particular no teatro de Tavarede, levando à cena o drama em 3 actos “A associação na família” e a comédia num acto “Malifício na família”. É de crer que o desempenho seja correcto, devido aos esforços do nosso respeitável amigo, o exmo. Sr. João José da Costa, que da melhor vontade acedeu ao pedido que lhe fizeram para tomar a direcção dos ensaios. Folgamos em ver a dedicação daqueles filhos do trabalho, que tão bem empregam as horas que lhes restam, no seu labor associativo, colhendo assim bastante instrução”.

         Os elementos escasseiam. Continuava a haver teatro e, certamente, a música já era uma realidade. Mas, como adiante veremos, foi na década seguinte (1890/1900) que o associativismo se firmou, com sólidas raízes em Tavarede. Já sabemos que, além do Teatro do Terreiro e do Teatro do Palácio, ainda resistiam algumas das velhinhas “associações dramáticas”, que funcionavam nas lojas de algumas casas particulares. Ainda seriam associações de familiares, mas com toda a certeza já abertas a amigos e vizinhos. Prossigamos com as nossas notas.



sábado, 29 de dezembro de 2012

O Associativismo na Terra do Limonete - 4


As primeiras notas do Associativismo


 Terceiro Conde de Tavarede, fundador do Teatro Duque de Saldanha
  
         O ano de 1865 é aquele que, posteriormente, Ernesto Tomás nos descreve a visita que fez a Tavarede. É mais ou menos a data em que se iniciaram, na Figueira da Foz, publicações de jornais locais, em que começam a surgir notícias dos seus correspondentes nas diversas freguesias. Nota-se, ao longo dos anos, que, relativamente à nossa terra, ocasiões há em que abundam as notas enviadas pelos correspondentes locais, alternando com outros períodos em que escasseiam ou não há mesmo quaisquer novidades da nossa terra. Mesmo a maioria das locais publicadas, embora tenham algum interesse para a história próximo passada, pouco se referem ao assunto que estamos a tratar.

         Mas, escasseando-nos as notícias da imprensa, vamos ainda recorrer a Ernesto Tomás para mais umas notas sobre o teatro na nossa aldeia que, no período entre 1865/1868, trazia à nossa terra “uma troupe de rapazes d’aqui (Figueira), que até nas mais caliginosas noutes de inverno, tinha a coragem de ir a Tavarede, a um teatro ou a um presépio”. E aproveitemos para ler a descrição que nos deixou de um espectáculo a que assistiu:

         Estava vae não vae a levantar o panno. Os rapazes da Figueira, tendo invadido o palco, graças á bonhomia da companhia dramatica, deixem lhe chamar assim, trataram de collocar-se á primeira voz nos papeis de contra-regra, carpinteiros de urdimento, etc., etc.,. Os que haviam de entrar em scena estavam a estas horas reunidos em um telheiro que a casa do theatro tinha ligado pelo lado de traz. Estavam á beira do supplicio, de umas rugas feitas a ferro quente no rosto, que, depois, era afogueado mediante a despeza d’uma forte pintura a tinta nova. Rompia o espectaculo com uma comedia que se bem nos recorda se intitulava - Os dois rivaes - que nos dava em exhibição no principio um velho vegete, enamorado d’uma creada, fresca e rosada, que tentava a carne mais aphatica.

         O papel de velho havia sido distribuido a Jozé do Ignacio, de quem fallámos ha pouco, e que, appareceu em scena risonho a mostrar-se á rapaziada da Figueira. Ainda o panno não havia subido e na plateia o fóra, fóra, fóra, ribombava atroador soltado por dezenas de gargantas tonificadas pelo bom sol e bom ar dos campos. De subito ouviu-se uma voz: - Panno acima! A rapaziada da Figueira pespegou com o Jozé do Ignacio dentro de um caixão (cousa da peça) o qual, depois iria subindo, puxado pela creada namorada, que assim o subtrahia ás vistas dos amos que eram peticegos.

         Mettido no esconderijo e sem mais preambulos, panno acima, elle ia subindo, subindo, e o caixão dando balanços desencontrados, fazia com que o Ignacio pensasse mais do que uma vez que a comedia descambaria em tragedia. Gargalhadas e mais gargalhadas da plateia, ditos, assobios - um inferno; - e lá dentro clamava voz em grito: - panno abaixo! panno abaixo! panno abaixo! Caiu o panno. Sabidas as contas, todo este desastre scenico não foi mais do que uma partida que antes havia sido combinada entre a troupe da Figueira.

         Efectivamente, em todos os jornais figueirenses publicados e a que tivemos acesso, a primeira notícia sobre associativismo encontrada, tem a data de 21 de Outubro de 1877, no jornal “Correspondência da Figueira”, e refere que “Em Tavarede houve ontem à noite uma récita dada por alguns curiosos da localidade. Subiu à cena o “Último Acto”, do sr. Camilo Castelo Branco, e uma comédia”. Nada mais, nem sequer o local ou a associação que promoveu o espectáculo.

         Só cerca de ano e meio depois encontramos nova notícia sobre o tema. É no mesmo jornal, em Fevereiro de 1879 e diz: “No próximo sábado, dia 15, duas sociedades de curiosos da localidade tencionam dar, cada uma em seu respectivo soi-disant teatro, duas récitas. Uma das sociedades, a sociedade antiga, leva à cena o drama em 3 actos “A escravatura branca”; a outra, a sociedade nova, representa o drama em dois actos intitulado “Cravos e Rosas”, a comédia em um acto “Mulher por duas horas” e a comédia “Mulher que perde as ligas” também num acto.

         Nós aplaudimos sinceramente esta ideia dalguns rapazes daquela localidade. Sempre é melhor ouvir a declamação de uma peça de teatro por um actor gauché e o desempenho comprometido de uma actriz de aldeia, de que dizer bisbilhotices por casas alheias e a gastar a dignidade por tabernas imundas. Honra pois àquela gente de Tavarede que, apesar de não conhecerem as doces caturras da bisca-sueca e as impressões melancólicas da leitura de um romance reles, nem por isso tentam passar menos sensaboronamente estas longas e tristes noites de Inverno.

         Em todo o caso, sempre rogamos ao digníssimo administrador deste concelho para que dê as providências necessárias para se não dar, durante as representações, algum conflito desagradável entre os curiosos da plateia dos referidos teatros”.

         Esta nota sugere-nos dois comentários. Primeiro, não sabemos qual era a sociedade antiga ou a sociedade nova.  Inclinamo-nos, embora sem qualquer confirmação, para que a sociedade antiga fosse na Casa do Terreiro e a sociedade nova, no Palácio dos Condes de Tavarede. No entanto, também não excluímos a hipótese de uma delas estar instalada no velho teatrinho que Joaquim Águas construiu na sua casa na Rua Direita. Segundo, a notícia dá a entender a possibilidade de desacatos entre os assistentes. Seriam rivalidades artísticas ou associativas? Não nos podemos esquecer que, poucos anos depois, o Governador Civil do distrito mandou fechar uma “associação” em Tavarede, devido às constantes desordens que nela se verificavam.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Associativismo em Tavarede - 3


As Sociedades Dramáticas

 Joaquim Alves Fernandes Águas

         Estamos situados no ano de 1865. É interessante recordar que, naquela época, o Associativismo era oficialmente regulado pelo Código Penal de 1852, no qual o artigo 282º. estabelecia: “Toda a associação de mais de 20 pessoas, ainda mesmo divididas em secções de menor número, que, sem preceder autorização do governo com as condições que ele julgar convenientes, se reunir para tratar de assuntos religiosos, políticos, literários ou de qualquer outra natureza, será dissolvida; e os que a dirigirem ou administrarem serão punidos com prisão de um mês a seis meses. Os outros membros serão punidos com prisão até um mês”.

         Ora, com tais disposições em vigor, seria possível existirem, em Tavarede, “sociedades dramáticas”, legalmente constituídas e que aqui “vegetavam como tortulhos? A resposta só poderá ser negativa. Tratar-se-ia, isso sim, de pequenas “sociedades familiares”, que se reuniam nalgumas casas, especialmente nas de famílias mais abastadas, para passarem os seus serões, principalmente nas grandes noites do Outono e do Inverno e que, tendo adquirido o gosto pelo teatro e pela música, aproveitavam os seus tempos de descanso para conviverem nos ensaios, procurando, ao mesmo tempo, instruírem-se e divertirem-se, instruindo e divertindo os seus conterrâneos que assistiam aos espectáculos que apresentavam.

         Mestre José Ribeiro, no seu livro “50 Anos ao Serviço do Povo”, publicado aquando as “Bodas de Ouro” da Sociedade de Instrução Tavaredense, a páginas 22, escreve: “Pudemos apurar que funcionaram teatros, onde se representaram peças que fizeram correr rios de lágrimas e provocaram indigestões de gargalhadas, nos seguintes locais: “na Casa do Paço, do lado do caminho para a Figueira; depois, na mesma casa, no teatro ali mandado construir pelo último Conde de Tavarede; na casa que foi de Romana Cruz, na Rua Direita, à entrada da povoação; na casa onde hoje vivem, a meio da Rua Direita, os herdeiros de Martinho Correia; na casa chamada do Ferreira, logo adiante mas do lado oposto (casa que pertenceu a António Cordeiro); na de Joaquim Águas, pai do velho capitão José Joaquim Alves Fernandes Águas, em frente do anterior, prédio em que mais tarde esteve o Grupo Musical Tavaredense; na casa, também na Rua Direita, que foi de João da Silva Cascão; e na então chamada Casa de Ourão, no Largo do Terreiro, o mesmo edifício que João José da Costa mandou transformar no teatro hoje propriedade e sede da Sociedade de Instrução Tavaredense”.

         É credível que mais algumas houvessem. Recordemos que Aníbal Cruz, tavaredense estudioso da história da sua terra e jornalista, deixou escrita a informação de que sua avó lhe contava que, no tempo dela, chegaram a representar-se em Tavarede, em simultâneo e sempre com casa cheia, seis Presépios!

         Agora, é a ocasião de explicar o que eram essas associações e as salas de teatro. Vamos dar a palavra, mais uma vez, a Ernesto Tomás:
        
“… A plateia, que para aproveitamento de maior número de espectadores havia sido construída em forma de palanque, era engendrada por umas tábuas manhosamente pregadas nuns cunhos de madeira e estes, por sua vez, da mesma forma ligados a uns postes de madeira inclinados contra a parede.

         O pano de boca, qualquer colcha, de chita, de padrão em labirinto vermelho. A iluminação fazia-se por meio das clássicas velas de sebo espetadas em palmatórias de pau. Ria-se, vozeava-se e fumava-se na plateia, com a sem-cerimónia de ajuntamento numa feira.          De vez em quando, um dito picaresco, saído de alguns dos espectadores, ia provocar a hilaridade ruidosa dos mais sérios, e tudo ria desalmadamente, sem respeito pelo cabo d’ordes, o António José, que assistia àquela inferneira aprumando desmesuradamente a sua autoridade tão sobranceira como a sua figura, de pouco menos de três côvados de alto.

         Lá dentro, no palco, desenvolvia-se um vai e vem, entretido pela família dos actores, das actrizes e pelos intrusos, bem capaz de causar vertigens às constituições menos dadas à sensibilidade. Uma flauta que nos produzia nos nervos arranhos de gato, conjuntamente com um violão despertando dobre a finados, e uma viola, gemendo sob uma unha afeita à enxada, constituía por inteiro o que então se apelidava de a Roquestra…”.

         Esta casa de teatro estava instalada na acima descrita “Casa do Ferreira”, actualmente propriedade do nosso amigo Manuel Lontro, e a descrição refere-se a um espectáculo no ano de 1865. A sala de teatro, ou associação dramática, já era, no entanto, mais antiga.

         Mas nós temos também mais informações sobre aqueles anos. Por exemplo, no ano anterior, ou seja em 1864, Joaquim Alves Fernandes Águas, fundador da conhecida Casa Águas, na Figueira da Foz, ainda residia com sua família em Tavarede, pois só se mudaram da nossa terra para a Figueira dois ou três anos depois. Exerceu vários cargos administrativos e era muito respeitado por todos os seus conterrâneos. Amigo de divertir-se, um “Presépio” (costume velho em Tavarede) era o cúmulo de seus divertimentos. “Em uma das casas que já apontámos, lá instalou um teatrinho seu, cerca do ano de 1864, em que ele, filhos e filhas entravam, representando, e o que é melhor é que mulheres representavam de homens e vice-versa”. Isto confirma a nossa opinião de que as tais sociedades dramáticas eram reuniões familiares. Como curiosidade, recordemos uma nota escrita sobre um dos espectáculos ali dados naquela época.
   
“… A costumada troupe de rapazes da Figueira estava no seu posto de espectador. Alguns rapazes dela ocupavam-se em ajudar, tocando numa orquestra adrede arranjada para satisfazer às exigências do espectáculo.    Na casa velha, vestiam-se as figuras e preparava-se o mise-en-scéne; na casa nova, havia o palco e a plateia, e a comunicação duma para outra era feita por uma porta que dava para o fundo do palco. Havia-se esgotado o reportório do presepe e ia entrar em cena a comédia “O marido vítima das modas”.

A propósito do “Presépio”, tradição tão antiga em Tavarede e na Figueira, encontrámos uma notícia, sobre esta peça, no jornal ‘O Conimbricence’, de Janeiro de 1867, a propósito de representações na Figueira, referindo-se a nota especialmente a uma representação num teatro sito ao Pinhal das Águas: … Nesta época do Natal nota-se sempre nesta vila um certo bulício e entusiasmo com os presépios, que ordinariamente aqui é costume fazerem-se em número de um, dois, três ou mais, conforme os rapazes e raparigas, que para tal fim se agrupam em maior ou menos número, tendo sempre em todas as noites em que se representam as variadas cenas pastoris, alegóricas ao nascimento de Cristo, grande concorrência de espectadores; pena é que os diferentes papéis escritos em verso já completamente estropiado, sem metrificação, e com alguns até em linguagem chocarreira, e pouco decentes, não sejam substituidos por outros correctos, ou mesmo por uma prosa bem escrita, pois que o acto histórico-religioso exigia e devia tornar-se mais decente e respeitoso; tempo virá e breve, talvez, em que isso se consiga

         Os rapazes da Figueira encarregaram-se da mudança do cenário, mas, para fazerem uma partida ao velho Águas e rirem-se no fim, colocaram os bastidores em sentido inverso, isto é, de pernas para o ar.      Tudo pronto… Pano acima…

         Ninguém havia reparado no desarranjo do cenário, mas o velho Águas, que, sentado na plateia, acompanhava passo a passo as fases do espectáculo, tendo reparado gritou: - Vá o pano abaixo!... pano abaixo!... E foi.

         Dirigiu-se lá dentro à casa velha, zangado, fulo de raiva, e fez-nos uma apeporação tão apimentada que não era para rir, faltando pouco para que todos os rapazes da Figueira fossem postos no meio da rua. Mantivemo-nos, contudo, um pouco mais sérios, rectificando no nosso espírito a ideia que formávamos do nosso velho Águas: de que ele estava sempre pronto a aturar-nos rapaziadas e a rir-se delas.       Daí por diante teríamos de pensar que, dentro do seu teatrinho, nos deveríamos portar com o aprumo da seriedade, com toda a correcção de espectador gommé, aliás… rua!”.
        
Já temos, portanto, conhecimento do que eram as associações dramáticas em Tavarede, apercebendo-nos que era o teatro que tinha maior preferência da população, embora a música também tivesse o início da sua prática, com a participação de figueirenses, embora ainda muito rudimentar.

         Acompanhemos agora a evolução do associativismo em Tavarede a partir daquelas datas.