sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Associativismo em Tavarede - 9


        A Estudantina Tavaredense igualmente continuava bastante activa, muito em especial a sua tuna. Várias são as notícias com saídas, não só para cumprimentos aos seus sócios e amigos beneméritos, principalmente em dias festivos, como para participar em festas populares para que era convidada. Foi por esta ocasião que se iniciaram as visitas às termas da Amieira ou ao Buçaco, no dia de quinta-feira da Ascenção, tradição que se manteve até ao ano de 1939. Era seu regente Gentil da Silva Ribeiro.

         Começou a ganhar fama a tuna tavaredense. Os convites para actuações surgiam com frequência. Sabemos que a Estudantina Tavaredense foi há dias convidada pelo digno presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários dessa cidade para ir tocar nalguns domingos à Mata da Misericórdia. Apraz-nos registar esta agradável notícia, porque vemos nela o subido merecimento em que é tido um humilde grupo musical composto de rapazes que na sua maioria não conhecem os rudimentos musicais e que tem sabido grangear os aplausos de quantos o ouvem, pela maneira correcta como se apresenta. No entanto, não devemos ocultar que, para se obterem resultados tão satisfatórios, tem contribuido muitissimo o nosso amigo Gentil Ribeiro, regente da Estudantina, e um dos rapazes que aqui mais se tem evidenciado pelo reconhecido gosto musical de que é dotado.

         Igualmente o teatro singrava cheio de entusiasmo. Diremos, como exemplo, que a opereta O Rei Ló-Ló subiu à cena diversas vezes, sempre com  muito agrado, bem como diversas comédias, especialmente na velha Sociedade do Terreiro. Também devemos aqui referir que um dos elementos mais valiosos no grupo dramático da Estudantina foi António de Almeida Cruz, que, poucos anos depois, ingressaria no teatro profissional onde se tornaria das primeiras figuras masculinas, em especial em operetas, pois era possuidor de uma voz extraordinária.     


António de Almeida Cruz

Entretanto o teatro Bijou Tavaredense, certamente por divergências internas, acabou a sua actividade. De notar que, pelo que conseguimos apurar, esta colectividade nunca se chegou a legalizar oficialmente, não conseguindo nós obter fotografia do seu estandarte. Um grupo dos seus colaboradores resolveu, então, formar uma nova associação. Por acordo, instalou-se na Casa do Terreiro, cedida por João dos Santos. Deram-lhe o nome de Grupo de Instrução Tavaredense.

O primeiro espectáculo da nova colectividade foi em Janeiro de 1900. “Em Tavarede realizou-se no pretérito sábado um espectáculo pelo grupo dramático-musical que está instalado no teatro do sr. João dos Santos. A sala achava-se vistosamente ornamentada com grandes palmas e festões de verdura. Abriu-se o espectáculo com o hino do Grupo, tocado no palco pelos sócios executantes. Receberam muitas palmas e a João Proa, seu regente, foram oferecidos dois bouquets de flores. Executaram depois mais uma valsa, que também lhes mereceu muitos aplausos.    Representou-se a Espadelada, bela comédia de costumes populares, de um entrecho simples, como simplesmente agradáveis nos são as cenas que nela se desenvolvem, e a que todos os amadores souberam dar um razoável desempenho.

         J. Santos Júnior disse a cena cómica Atribulações dum correio, e seguidamente o Grupo musical executou uma pequena sinfonia e o seu hino. Fechou a récita com a velha e engraçada comédia José Canaia. Durante a sua representação os assistentes conservaram-se quase sempre em hilaridade.No final dos diferentes actos todos os amadores eram alvo de muitos aplausos, demonstrados pelas grandes salvas de palmas que ecoavam pela animada plateia, aonde estavam bastantes pessoas desta cidade. Em resumo: o programa bem escolhido e o desempenho muito regular, notando-se simplesmente nos rapazes e raparigas um pouco de acanhamento, que depressa desaparecerá se continuarem a passar tão louvavelmente as suas horas de ócio, recreando-nos assim com espectáculos agradáveis como o do último sábado”.

A actividade das duas colectividades manteve-se entusiástica, tanto no teatro como na música. E em Março de 1900, foram eleitos os primeiros directores do Grupo de Instrução Tavaredense. Foram eleitos, para a Direcção: João dos Santos Júnior, presidente; Manuel Rodrigues Tondela, secretário; e José Maria Cordeiro Júnior, tesoureiro. A escola nocturna tinha tido notável desenvolvendo, registando 57 alunos, entre adultos e menores.

         Também a Estudantina, comemorando o 7º. Aniversário, realizou uma sessão em que foram eleitos os seus corpos gerentes. Para a Assembleia Geral foi eleito presidente José Maria de Almeida Cruz, para a Direcção, Luís João Rosa, presidente, César Cascão, tesoureiro e Gentil Ribeiro, vogal.

A Páscoa daquele ano, a data foi festejada. “Não pode dizer-se que a Páscoa deste ano aqui passasse desapercebida. Pelo menos, de sábado de Aleluia até ontem, temos assistido a algumas diversões com que se pretendeu marcar entre nós aquela data tão memorável e sublime para a cristandade. No sábado, como outro dia anunciámos, houve no teatro do Grupo Instrução o espectáculo particular promovido pela mesma sociedade, abrindo-o o grupo musical que, sob a regência do nosso amigo João da Silva Proa, executou o seu hino, uma valsa e um ordinário, músicas estas que foram aplaudidas com fervor pelos espectadores que enchiam a plateia.         Se foi imponente a ovação patenteada a estes briosos rapazes, não menor foi a que receberam os personagens das comédias – Por causa d’um algarismo e José Canaia. As peripécias e ditos engraçados que as revestem e o regular desempenho que os amadores souberam dar aos seus papéis, tudo isso fez com que de instante a instante resoassem por toda a sala estrepitosas gargalhadas.

         Enfim, a noite passou-se ali muito agradavelmente, e todos os assistentes se retiraram bem impressionados. Ouvimos que há a ideia de em breve se dar uma outra récita no mesmo teatro.

 = Com toda a solenidade celebrou-se a procissão da Ressurreição pelas 8 horas da manhã de domingo. Ia muito numerosa. Em seguida rezou se a missa, sendo ouvido durante este acto religioso o Grupo Instrução, que executou as peças que já aqui anunciámos aos nossos bons leitores (sinfonia ‘A Negra’ e a valsa ‘O Brinco’). Este grupo conta estrear no próximo domingo o seu estandarte, que nos dizem ser um rico primor de arte, e irá novamente tocar à missa conventual. Depois cumprimentará os seus associados.

         = Saíu efectivamente na tarde do último domingo a Estudantina Tavaredense. Depois de ter feito aqui vários cumprimentos, foram os sócios desta agremiação tomar parte no baile que se realizou em casa do sr. Luiz Rosa, cavalheiro que em Tavarede é muito estimado. Ali reinou sempre extraordinária animação, vendo-se a sala repleta de simpáticas raparigas e alegres rapazes. Ontem repetiu-se a mesma distração, dançando-se animadamente até às 10 horas da noite”.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Associativismo em Tavarede - 8


As primeiras associações - 4

           O Associativismo firmava-se na nossa freguesia. E num jornal de Maio de 1897, fomos surpreendidos com esta notícia: “No casal da Robala, pequena povoação nos aros da Figueira, inaugurou-se no domingo passado uma sociedade de recreio, constituida por alguns rapazes do sitio e desta cidade. A casa em que foi instalada a sociedade, achava-se lindamente ornamentada com verduras e flores. Dançou-se animadamente até à meia noite, reinando sempre a mais franca alegria entre os convidados e os organizadores da sociedade”. Tinha o nome de Sociedade de Recreio Robalense.

         Sabemos que em 1864 já se representava em Tavarede, pelo Natal, o ‘Presépio’. Era a peça favorita do velho Joaquim Águas. Julgamos oportuno, por isso, e até porque estes Autos foram representados primeiro em Tavarede do que na Figueira, transcrever uma nota descritiva, escrita pelo estudioso deste tema Armando Coimbra, que foi publicada na década trinta do século passado. Naqueles bons tempos em que nas velhas ruas da Figueira não cintilava ainda a luz eléctrica, em que se corria o risco de ser atropelado por algum transeunte noctívago mais apressado, nesses bons e recuados tempos da candeia de azeite e dos candeeiros de petróleo, a representação dos Autos Pastoris ou ‘Presépio’, como lhes chama o povo da Figueira, era ponto de reunião das veneráveis famílias figueirenses. Pobres e remediados, nobres e plebeus, todos esperavam com ansiedade o mês de Dezembro e a representação dos Autos, em que amadores populares punham à prova, exuberantemente, o seu talento cénico…
         … Ditosos tempos esses, em que as representações do Deus-Menino tinham um cunho de acentuada religiosidade e um vago perfume de crença que embalava a alma ingénua dos nossos avós. Perdeu-se a pouco e pouco essa característica religiosa que dominava as representações dos Autos, e até os armazéns em que elas se faziam, quási sempre ornamentados de venerandas teias de aranha, que, como fiéis espectadores ficavam esquecidas nos travejamentos duns anos para os outros, até esses cederam o lugar aos teatros, elegantes e modernos, profusamente iluminados a electricidade. O armazém, cardenho ou palheiro, iluminado a velas ou azeite, era o local cacterístico e preferido para as representações do Natal e Ano Bom. Escolhia-se sempre o mais vasto, para que pudesse conter o maior número de espectadores. Ornamentava-se todo com festões de plantas verdes (musgo, buxo, louro, azinho) e ao fundo improvisava-se o palco, também armado de buxo e louro com a competente gruta, onde se exibia a Virgem, o Menino Jesus, S. José, a vaquinha, etc., figuras do presépio, razão por que aos Autos Pastoris se lhes dá também aquele nome.
         Por detrás da lapinha, em segundo plano, um monte, pelo qual sobem e descem os zagais e zagalas e todo o cortejo de personagens que vêem em adoração ao Deus Menino a Belém entregar as suas oferendas de bolos, rosários de pinhões, cestinhas com queijos, cambos de cebolas e résteas de alhos, de mistura com apitos, chocalhos, etc., para o Menino brincar…
         … Na plateia, que em alguns armazéns não tinha a honra de ser assobradada, nos intervalos dos Autos saboreavam os nossos maiores os tradicionais filhós, acompanhados de bons nacos de torta doce, das Alhadas, e de uns copitos de vinho ou geropiga que cada um levava em garrafas e acomodava cuidadosamente junto de si…
         … O cenário dos Autos é o mais resumido que se possa imaginar e é único em toda a representação. Uma serra, ao fundo, de onde descem os romeiros, e no sopé, a meio da cena e entalhada na própria serra, a lapinha de Belém, onde jaz o Menino Jesus, cercado de figuras do presépio, perante o qual todos se prosternam em adoração. Esta lapinha está oculta por um taipal de madeira, que é corrido na altura própria por um cordel ou arame puxado dos bastidores.
         Passam romeiros, zagais e zagalas, devotos e todas as personagens dos autos de longada até Belém para verem o Messias recém-nascido, e o portal não revela a existência da lapinha ou gruta onde ele jaz. Depois de os figurantes terem passado e subido a encosta da serra até ao cume, à vista do público, é que o taipal é corrido, e a lapinha aparece à vista deslumbrada dos romeiros que, descida a encosta, entram de novo em cena…
         … O Sol, a Lua e a Noite tomam nos Autos forma humana, com indumentária própria e com os respectivos símbolos. Vem de amarelo o Sol, de branco a Lua, e a Noite traz vestido preto recamado de estrelas de papel prateado. Satanaz ou Lúcifer, tem indumentária especial. Fato vermelho inteiro, barbicha aguçada de bode, cabeleira ornada de vistosos chifres. Por sobre os ombros, envolvendo-o todo da cabeça aos pés, comprida capa negra, à espanhola. Todo ele é chama rubra e ardente, como cumpre ao Senhor Supremo dos Infernos.
         A sua entrada em cena tem qualquer coisa de patético e sobrenatural. Uma pancada seca e simultânea nos pratos e no bombo dentro da cena; uma chama vermelha que irrompe dos bastidores e envolve o ambiente de fumarada espessa; um alçapão que se abre a meio do palco, e eis sua excelência fazendo a sua aparição perante os espectadores assombrados e receosos dos seus malefícios infernais. Tudo isto se passa em segundos. O som cavo e surdo do bombo assemelha-se à trovoada longínqua… 

         Alongámo-nos um pouco nesta transcrição, mas não nos podemos esquecer que o ‘Presépio’ terá sido uma das peças mais representadas de sempre e que, como atrás se refere, era esperada com ansiedade pelos nossos antepassados.      Continuemos…


João dos Santos

Após o falecimento de João José da Costa, foi João dos Santos    , administrador da casa dos Condados e posteriormente seu herdeiro, conforme já referimos, quem tomou a direcção do grupo dramático instalado na Casa do Terreiro, que, pela herança, passou a pertencer-lhe. Em Novembro de 1898 deu o primeiro espectáculo. “Realizou-se no sábado à noite como noticiámos, no elegante teatro daquela povoação, o espectáculo por amadores promovido e ensaiado pelo sr. João dos Santos, subindo à scena o Rei-Ló-Ló, a engraçada opereta do nosso amigo Carlos de Almeida, a cançoneta U-lá-lá, e as velhas e aplaudidas comédias Para as eleições e Juiz eleito. Os rapazes amadores desempenharam a contento dos espectadores os papéis de que se encarregaram, no que foram secundados por algumas raparigas que, pisando pela primeira vez o palco, mostraram boas disposições, apesar do natural acanhamento que resulta a falta de prática. Das comédias a que mais agradou foi o Juiz eleito, onde nalgumas cenas os seus personagens souberam arrancar aos espectadores estrepitosas gargalhadas. No fim da cada acto houve chamadas especiais a alguns dos amadores, especialmente a José Medina. Ao espectáculo assistiram muitas famílias tanto de Tavarede como da Figueira. Que os modestos amadores não desanimem e progridam, são os nossos desejos, e felicitamos o sr. João dos Santos por ver coroados de bom êxito os esforços que empregou para a realização deste espectáculo”.

 
          Podemos dizer que, naqueles recuados tempos, não existia rivalidade entre as colectividades tavaredenses. Tanto dirigentes como amadores, actuavam e exerciam actividade em todas elas. Talvez por melhor apetrechado para o teatro, a Casa do Terreiro era onde se apresentavam mais espectáculos. Vejamos mais este apontamento de Fevereiro de 1899. “Como estava anunciado, realizou-se no sábado, no elegante teatro daquela povoação, o espectáculo pelo grupo de operários que ali funciona, com as aplaudidas comédias em 1 acto “Descasca milho”, “Perdão d’acto” e “Ceia amargurada”.

         Num dos intervalos, foi dita pelo sr. Medina, com a verve que lhe é peculiar, a cena cómica “Casar por uma burra”, escrita por um operário daquela terra. O assunto, apesar de já bastante “escorrido”, não deixou de agradar, devido sem dúvida ao desempenho correcto, que teve. Contudo, o autor não pôde dar mais e já fizera o que muitos não fariam. O “Descasca milho” foi desempenhado graciosamente por parte dos seus intérpretes. A engraçadíssima comédia “Perdão de acto”, ensaiada pelo ilustre advogado sr. dr. Cruz, atingiu o auge de naturalidade. Imagine-se uma casa de estudantes, boémios, onde não há livros, mas em compensação onde todos, os  cinco, desejam dinheiro, mulheres e vinho, e onde no final acabam por possuir essa trindade tão dificil de englobar, principalmente se o primeiro apêndice não aparece! Bastava só este, porque champanhe e viscondessas tão faltariam!

         A música, de que a comédia era ornada, duma suavidade graciosa, sem pretenções e cheia de um colorido pouco vulgar – conforme as situações – produziu um efeito magnífico quando cantada por aquele punhado de rapazes que tão bem compreenderam o seu autor, sr. J. Proa, filho do conhecido e hábil escultor do mesmo apelido. Na “Ceia amargurada” distinguiram-se duma maneira assáz brilhante, Medina, na cena de escárneo com Libório, o guarda nocturno. Este portou-se bem e conservou-se firme, até final, no seu difícil papel de gago, arrancando estridentes gargalhadas.  Santos e o criado concorreram para o agrado da comédia.

         Emfim, todos bem e isto sem dúvida devido à grande vontade e paciência dos ensaiadores srs. dr. Cruz e João dos Santos. Bem hajam! Num dos intervalos foi chamado ao palco o regente da orquestra, sendo-lhe nessa ocasião oferecido pelo autor destas linhas um lindo bouquet de flores naturais, em nome de alguns oficiais inferiores das baterias aqui aquartelladas e do sargento do 23 sr. Cardoso.
                                
Antes, porém, de findarmos esta mais que modesta notícia, não podemos deixar de louvar o sr. dr. Cruz, pelo facto deste mesmo cavalheiro abrir, para analfabetos, um curso nocturno pelo método do imortal poeta João de Deus, e, pela cedência da casa, o sr. João dos Santos. Ouvimos que só serão admitidos os associados do teatro. Parabéns a todos, desejando que estas festas, que tanto têm de simpáticas como de instrutivas, se repitam amiudadas vezes”. A escola nocturna, que se manteve em actividade ininterrupta até ao ano de 1942, teve um papel muito importante, quer na instrução dos tavaredenses quer no associativismo, como teremos oportunidade de referir alguns factos.


Dr. Manuel Gomes Cruz



sábado, 26 de janeiro de 2013

O Associativismo em Tavarede - 7


As primeiras associações - 3


Estes apontamentos ficariam incompletos se aqui não fossem incluidas a resposta destes jornais. A ‘Gazeta’ replicou desta forma: Acabamos de ler uma correspondencia d’esta povoação para o “Povo da Figueira”, datada de 24 do corrente, que nos surpreendeu... por sabermos que n’esta pequena terra ha um rival do tão festejado Caracoles da Folha do Povo, tal é o chiste da graça avaporada com que o tal correspondente critica o espectaculo dos Reis no theatro Bijou Feminino.
         Com certeza certa que os desempenhantes eram mal educados... para o theatro; mas isso não é razão para critica, porque tambem o sr. correspondente está mal educado... para escrevinhador de correspondencias, em que a nossa lingua é torpemente assassinada, sem haver uma alma caridosa que a livre de tal verdugo, mandando-o para a Cova da Serpe, onde, com o seu fino espirito, póde representar algum papel de grande effeito, na peça de sensação - Judas... no deserto; ou então s’achar batatas para os Carritos.
         Em todo o caso, não me lembra que nenhum desempenhante arrincase coisa alguma, pois que a peça era desempenhada por pessoas do sexo feminino, que, se disseram mortiféros, conseguiram tambem justos applausos, mas não avaporados (que não sabemos o que seja, a não ser alguma subida de vapores que fazem ver as coisas d’este mundo em duplicado ou reduplicado, conforme a quantidade).
         Assim o sr. Pum (que pseudonymo tão avaporado!) com a sua intelligencia, não contente em criticar, o que certamente não viu (temos a certeza d’isso) e o que não percebe, não satisfeito em escavacar a pobre grammatica, que não tem culpa alguma da pouca intelligencia de qualquer quidem, que se arvora em critico... de si mesmo, ainda (naturalmente por estar avaporado) confunda Lucifér ou Luciféro, com o executor das ordens de Herodes, que, em vez de mandar degollar os innocentes, devia mandar cortar o pescoço a certos criticos... que nós conhecemos. Diz elle (correspondente) que viu (pelo telephone?) um desempenhante (que por sinal não estava avaporado) arrincar os mais avaporados (?) applausos que reduplicaram (por causa da avaporação) quando elle, aliás ella, arrincou um dos innocentes dos braços do capitão da guarda de Herodes a quem o sr. Pum, certamente por ignorancia, chama Lucifer! Oh! homem de Deus, olhasse-lhe para a cabeça e para os pés... a ver se assim o não confundia!
         Ora... abobora, sr. Pum.; trate d’outro officio por que esse não lhe serve; metta-se com a sua vida e deixe divertir os outros, muito embora digam calinadas; olhe para si antes de criticar os outros; ponha a mão na consciência (caso não esteja avaporada) e... durma, que isso é somno, e olhe que de pobres de espirito está cheio o reino dos ceus... e tambem Tavarede. Fique-se em paz.

         E veio a tréplica: Por mero acaso, e não porque esperasse emproadas replicas à minha inocente carta de 24 do mês último, é que vi, depois de decorridos alguns dias, referências abespinhadas de um quidam que entende na sua, e lá isso entende muito bem, não merecer sequer uma simples designação, embora ela seja tão estapafúrdia como a sua figura picaresca do pingurrio que veio de reforço… ao mestre.
         De resto, cá na minha também opino porque o interessantíssimo anónimo, heróico defensor das prendas e mais partes que concorrem na pessoa das desempenhantes do Bijou, se alaparde o mais possível por detrás do mais bem vedado tapume. Quem me diz a mim que não poderia eu tomar a nuvem por Juno e o mestre António pelo mestre João? Nada mais fácil do que querer filar um farçola emproado e pimpão e, em vez disso, deitar os gatazios a um pândego que conheça a gramática… parda (?) tão bem como o Mandarim The-chin-pó sabia de cor as máximas do moralista Confúcio. Isso nunca! O mais prudente é uma pessoa não se arriscar da zona da certeza e não avaporar a imaginação pelas regiões mortiféras onde brilham sideralmente as pedras finas do decantado Bijou, parte das quais têm sido lavradas pela mão (?) do primeiro mestre – o que tem pouca gramática – e não pela do segundo, - que tem a gramática toda! – e que afinal, bem se vê, segundo afirmam testemunhas oculares e guturais, costuma escrever de um borco e com rara perfeição.
         Eu, se neste momento, ou em qualquer outro, me achasse com tendências para responder à carta-dueto do ninguém, ver-me-ia, declaro-o com toda a franquelidade, seriamente atrapalhado, porque por mais que se faça suar o topete, por mais agudeza que um cérebro possua, é verdadeiramente impossível ajudar o que haja de fino espírito no remelgueiro mistifório do púfio. Chega até uma pessoa a pensar que quem aponta à execração pública os crimes (isso é o que nós havemos de ver?) gramáticos dos outros, não deve declinar a obrigação de perpetrar correspondências com algum bom senso.
         Terminando por agora: Tavarede não está tão cheia de pobres de espírito que não comporte de vez em quando mais alguns, os quais em tardes amenas costumam, para refrescar a amizade, ir libar do divino licor… arranjando assim forças para bem desempenhar o papel de Cireneu nas estrambólicas epístolas fabricadas nesta aldeia e exportadas para a Gazeta.
         E adeusinho até breve. (Pum)

         E voltamos à Estudantina para contar o baile ali realizado pela Páscoa de 1896. Com a curiosidade aguçada pelo que se nos constava dos atractivos da risonha povoação de Tavarede, terra para nós estranha, lá fomos domingo de Páscoa à noite, incitados pela espectativa de um baile que aí se dava no velho solar dos condes de Tavarede, onde está instalada uma sociedade recreativa, graças à persistente boa vontade de alguns filhos do povo. Nós, que achamos encantos na arte de Terpsicore, envidámos diligências para conseguir o gozo daquela festa íntima, pois o baile era oferecido às famílias dos associados, e por isso intransmissíveis os bilhetes de admissão. Mas, enfim, devido à amabilidade do sr. José Maria dos Santos, daqui, e membro da mesma sociedade, podemos ter ingresso no recinto onde nos aguardavam umas horas de agradável passatempo.      A sala de baile achava-se caprichosamente ornamentada com flores, louro e buxo, vendo-se ao fundo uma espécie de estrado, onde uma orquestra composta da Tuna local, habilmente regida pelo sr. Gentil Ribeiro, espalhava umas notas harmónicas e alegres naquele espaço em que a mocidade doidejava no voltear das danças. Podia-se estar ali horas e horas esquecidas, enlevado.          Sucediam–se as danças populares, as valsas, polcas… o redemoinhar contínuo daquela mocidade folgazã e cheia de vida.      Entre as músicas executadas, uma houve que agradavelmente nos surpreendeu, e que nos disseram ser original do sr. Gentil Ribeiro.          Terminou o baile cerca da meia noite, sem que houvesse o mínimo dissabor entre tanta gente que ali estava, pela vez primeira, talvez, em um baile regular. Como nós, provavelmente, outros vieram satisfeitos acalentando o desejo de poderem  gozar outras noites iguais”.

         Em Abril daquele ano, encontrámos a notícia de que a Tuna Bijou Tavaredense, sob a regência de J. Teixeira Ferreira, ilustrado professor na Figueira da Foz, deu um concerto, na sua sede, dizendo a nota que “… apesar do pouco tempo que ainda têm de estudo, os executantes já tocam com alguma correcção…”. Podemos acrescentar que alguns elementos desta tuna também tocavam no célebre ‘Rancho do Vapor’, da Figueira. E referimos que ainda em 1896, as duas tunas tavaredenses foram tocar às festas da Senhora do Desterro, em Montemor-o-Velho. Não vamos, contudo, referir todas as deslocações destas tunas às diversas festas populares que todos os anos se realizavam por todo o concelho e lugares limítrofes, mas somente as notícias que nos parecerem mais interessantes.  

Um dos melhores amadores dramáticos daquela época, foi José Medina q       ue, além da Estudantina, era frequentemente convidado para participar em espectáculos realizados por diversas colectividades da Figueira, como, por exemplo, a ‘Sociedade Recreio Operário’, onde participou diversas vezes.


José Medina

         A Estudantina festejava diversas datas com a realização de bailes, abrilhantados pela sua orquestra, composta por elementos da tuna. Eis mais um recorte noticiando mais um baile da Páscoa, no ano de 1897.

Nem só nas grandes cidades a alma popular se expande no seu regozijo íntimo. Nas pequenas povoações, como Tavarede, o mesmo facto se dá. O dia 18 do corrente passou ali como um dia de festa. A Estudantina Tavaredense deu aos seus associados um dia de gozo, proporcionando-lhes, no Paço dos Condes de Tavarede, um baile campesino. Muitas raparigas e rapazes da povoação concorreram a ele, animadas de fraternal convívio, e essa noite passou-se vaporosamente como um sonho de amor. A dança, animada por dezenas de esbeltas raparigas, prolongou-se até às 11 horas da noite, ficando todos com saudade das horas que ali passaram. Um delicado copo de água, mandado distribuir pela direcção da Tuna, veio pôr termo àquela noite de regozijo, como poucas se encontram na vida.        À Estudantina Tavaredense, que nos proporcionou umas horas de tanto prazer, aqui deixamos inscritos os protestos de gratidão de que lhe ficamos devedores”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Asociativismo na Terra do Limonete - 6


As primeiras associações - 2

    No final do ano, na Estudantina, o grupo cénico apresentou o seu primeiro drama ‘Escravos e senhores’, em 3 actos, a comédia ‘Morrer por ter dinheiro’ e nova cena cómica ‘Um homem esperto’. Em Março seguinte e “Para solenizarem a data da instalação desta sociedade, que já conta dois anos de existência, reuniram-se no passado domingo no teatro Duque de Saldanha, bastantes sócios, presidindo à reunião o sr. João dos Santos. Além do presidente, que em breves palavras expôs os fins para que se tinham ali reunido, falou o sr. Gentil da Silva Ribeiro, que agradeceu, em nome da Sociedade, a comparência dos presentes e os serviços que alguns srs. têm prestado à Estudantina, entre eles os srs. Manuel e José Cruz. Foram recitadas a cançoneta – Assim assim e a cena cómica Zé Galo na cidade, sendo muito aplaudidos os srs. Eduardo Ferreira e José Medina, pela forma como interpretaram estas duas produções. A sessão decorreu muito animada, dissolvendo-se a reunião com o levantamento de vários vivas, aos indivíduos que mais se têm empenhado pela prosperidade da Estudantina”.

         A actividade teatral e musical prosseguiu com entusiasmo. Não esqueceram, na ocasião própria, ‘o enterro do bacalhau’.  No próximo sábado, a Estudantina Tavaredense realiza pomposamente, como o fez o ano passado, o enterro do fiel amigo, festejando assim a terminação do tempo de jejum e abstinência de comezainas de carne... Haverá sermão prégado por... Não sejamos indiscretos!   A título de curiosidade informo que o primeiro rancho que se organizou na nossa terra, foi pelas festas ao S. João, tendo-lhe sido dado o nome de ‘Rancho do Limoeiro’, e era formado por rapazes e raparigas de Tavarede e de Buarcos.

         Depois do ‘Enterro do bacalhau’, a Estudantina deu dois novos espectáculos. No primeiro, com as comédias ‘O marido vítima das modas’ e ‘O ressonar sem dormir’, 1 acto cada, os entreactos ‘Sardinhas à Rochefort’       e ‘Dois curiosos’ e a cançoneta ‘Sol lá si dó’.
No outro programa acrescentaram mais uma cançoneta ‘Assim, assim’. A notícia refere a seguir: o desempenho foi, quanto podia, muito regular, devendo contudo ser especialisado o de Gentil, Ferreira, Medinas e Maria Augusta. Os amadores foram por isso muito aplaudidos pelos espectadores.

         Nas festas a S. João desse ano recolhemos este pequeno recorte: Havia este anno grande rivalidade entre dois ranchos (as historicas e já agora inevitáveis questões de dansas...): o Alegria, composto exclusivamente de gente de Tavarede e arredores, e em que tocava a Estudantina Tavaredense, dansava n’um largo junto à egreja, e o Limoeiro, de que faziam parte muitos rapazes e raparigas da Figueira, e que dansava n’um quintal à entrada da povoação. De madrugada os ranchos encontraram-se, e, como era natural, houve troca de ditos que em breve degenerou n’alguns bofetões applicados de parte a parte, mas sem consequencias de maior.

         Nesse mesmo ano, pelo Natal, foram levados à cena dois ‘Presépios’. Embora não esclareça em quais associações, temos a quase certeza que terá sido na Estudantina e no Bijou Tavaredense.

         É a propósito desta última associação que, em Janeiro de 1896, novas notícias surgem na imprensa. Terão sido o ‘Presépio’ e o ‘Auto dos Reis Magos’ as primeiras
peças representadas nesta então jovem colectividade, pois, e ainda segundo Ernesto Tomás referiu na sua visita a Tavarede por essa ocasião. 
            As críticas ao espectáculo apresentado no Bijou, foram algo polémicas. Recordemos um pouco: Assistimos, no sabbado ultimo, no pequeno theatro “Bijou Feminino”, á representação dos Reis.     O desempenho, feito por pessoas que não teem a educação própria para o theatro, não nos pareceu mau, ainda que houvesse varias incorrecções e exageros, devidos certamente á maneira como a peça se acha escripta. Distinguiu-se entre todas, no papel de Rachel, mãe d’um dos innocentes mandados immolar por Herodes, a esposa do nosso amigo Proa. Tanto os fatos como as caracterizações, feitas pos Abel dos Santos, não deixaram nada a desejar. Cremos que foi o melhor dos presepios que este anno se representou na Figueira e arredores.

A nota acima foi publicada no jornal ‘Gazeta da Figueira’. Mas, pouco depois, o ‘Povo da Figueira’ escrevia assim: Temos gosado os differentes espectáculos que ultimamente se têm representado no theatro “Bijou Feminino”, cujo desempenho tem sido na verdade surprehendente…           O desempenho d’alguns papeis na representação dos Reis, por pessoas mal educadas… queremos dizer, por pessoas que não têm educação própria para o theatro, não nos pareceu… nem bom nem mau – antes pelo contrario, ainda que houve varias incorrecções exaggeradas, devidas com certeza à maneira como a peça s’acha escripta.
         Em todo o caso estas incorrecções foram resalvadas, devido à intelligencia dos desempenhantes, sobresahindo especialmente o papel de Rachel que foi distribuído a um desempenhante que conseguiu arrincar da plateia os mais avaporados applausos que reduplicaram com muito mais enthusiasmo quando arrincou um dos innocentes dos braços mortiféros de Luciféro que… ficou atrapalhado ao fazer d’aquella… Foi o melhor espectáculo de Reis que este anno se representou na Figueira, Carritos e Cova da Serpe.




Pano de boca do teatro de João José da Costa




















sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Peço desculpa

Ana Maria

Que me desculpes, bem como todos quantos tiverem a bondade de ler esta minha pequena nota, mas não posso calar esta minha frustração.

Sou sócio honorário da Sociedade de Instrução Tavaredense. Com mérito ou sem ele, entendo que te devo pedir desculpa da tremenda falta cometida. Não sei, nem isso pode interessar, quais os motivos, mas ignorar a tua dedicação, o teu trabalho e o teu amor à colectividade me parece uma falta grave. Grande lição de verdadeiro associativismo deu o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, que, apesar de não seres sua sócia, te pediu licença e colocou o seu estandarte no velório de tua Mãe.

Eu, que desde criança sempre vivi o associativismo, e tu, Ana Maria, que durante tantos anos foste uma verdadeira dedicação e devoção àquela Casa, bem sabemos que a SIT é alheia a tal acontecimento. Os cento e tal anos vividos até hoje dizem tudo.

Peço-te desculpa. Não merecias tão grande esquecimento e perdoa o eu desabafo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 5


As primeiras associações (1)

         Com o andar dos anos e com o benefício das novas salas de espectáculos, estou a referir-me ao Teatro do Terreiro, ao Teatro Duque da Saldanha e ao teatrinho Bijou Tavaredense, o Associativismo melhorou, e muito, na terra do limonete. Os tavaredenses compreenderam que beneficiariam imenso unindo esforços e, assim, não tardou a surgirem as associações devidamente organizadas e legalizadas.

         Os amadores das velhas ‘associações dramáticas, uniram-se, como referi, nas novas associações, conforme estas iam surgindo. Entretanto, e no dia 28 de Março de 1893, faleceu, na sua Quinta dos Condados, João José da Costa, grande impulsionador do associativismo em Tavarede. A sua obra, porém, prosseguiu, pois João dos Santos, que era seu procurador e foi, depois do falecimento de D. Emília Duarte da Costa, o herdeiro daquele benemérito tavaredense, adoptivo.


 Estandarte da Estudantina Tavaredense
        
         E no dia 22 de Março de 1893 foi fundada a ‘Estudantina Tavaredense 22 de Março’, a primeira que surgiu na nossa terra, estruturada para desenvolver a actividade associativa. Instalou-se numa das antigas sociedades dramáticas, mas não sabemos em qual. A primeira nota que se encontrou referente a esta associação, em 23 de Abril daquele ano, refere o seguinte: ”O progresso, na sua marcha constante, vai invadindo tudo. Da cidade à vila e desta à mais remota aldeia vão-se observando vestígios da sua passagem. Vêm a pelo estas palavras porque, em Tavarede, pequena povoação perto desta cidade, se está organizando uma estudantina de operários que, nas horas vagas, se entreteem na música, inocentemente, e muito melhor do que gastando o seu tempo em diversões perniciosas. Caminhai, caminhai. Adiante! Assim é que é andar.     Escrevendo assim parece-nos divisar umas caretas de taberneiros ofendidos… que sentem a concorrência dos cobres à gaveta. É assim; tenham paciência”.

         E logo no mês seguinte, 28 de Maio, a tuna teve a sua primeira deslocação. Foi a Montemor-o-Velho, abrilhantar as festas em honra da Senhora do Desterro. “… Atrás deles vinham  também alguns de Tavarede, sendo logo seguidos pela Estudantina Tavaredense 22 de Março, que na melhor ordem e tocando muito harmoniosamente, entrou na dita praça. Parando um bocado neste local ali executou distintamente uma linda valsa e tão afinadinha que conquistou gerais aplausos de todos os circunstantes, que até hoje não têm cessado de admirar como na pequena povoação de Tavarede se organizou uma sociedade assim e que esta, durante o curto prazo de dois mezes, avançasse tanto, pelo que damos ao digno regente as nossas cordeais felicitações. Seguiu depois rua Direita acima na mesma ordem, debandando no largo da igreja dos Anjos, onde se realizou a festa, retirando para a estrada real, defronte do pátio do convento do mesmo nome, onde estiveram em alegre pic-nic à sombra de umas árvores”.

           Também nós, na verdade, nos admiramos do progresso verificado na nossa terra no campo musical. Não esqueçamos que, menos de vinte anos antes, a orquestra dos teatros era composta por uma flauta, um violão e uma viola, e que noutros espectáculos vinham rapazes da Figueira tocar. E logo a seguir foram à Figueira tocar às festas ao Santo António: “O que podem violas e guitarras mostrou-nol-o a Tuna Tavaredense, que nessa noite veio visitar-nos, tocando harmoniosamente aqueles instrumentos e alcançando um verdadeiro successo. Muito bem! E viva a rapaziada de Tavarede!!”.

         Para melhor prosseguir na sua actividade artística, a ‘Estudantina Tavaredense’ resolveu alugar o Teatro Duque de Saldanha, no Palácio dos Condes de Tavarede, onde se estreou em Julho de 1894, com um espectáculo teatral, apresentando as comédias ‘Por um triz’, ‘Creado distraído’, ‘Dois curiosos como há poucos’ e a cena cómica ‘José Galo na cidade’.

         Não podiam deixar de abrilhantar as festas populares na nossa terra. Nem sempre eram totalmente pacíficas mas… “… As moçoilas da aldeia, vermelhas, tisnadas, contentes, acasaladas ou não, lá dançavam espertamente, como se uma noite de estopantes bailações não fosse mais que suficiente para alquebrar o mais vigoroso organismo. Houve também música, p’ra cá e p’ra lá, na rua Direita (por signal que é bem torta, como todas as ruas Direitas), foguetes, e algumas tiranas que eram de se lhe tirar o chapéu. Bordoada, pouca; apenas algumas bolachas e biscoitos ministrados com a maior convicção por um rapazelho cá da freguesia, por sinal que é pedreiro, nas lustrosas bochechas de um pimpão campesino. Resultado: Avaria na cara dum, e fatiota rasgada no corpo do outro. A polícia interveio, prudentemente, prendendo o avariador das bolachas do próximo, mas outro pedreiro interveio também, e duma forma tão habilidosa e louvável que o rapaz filado pelos gatázios do mantenedor da ordem conseguiu esgueirar-se, dirigindo-se a penates, por causa das dúvidas”.

           Em Outubro de 1894 subiram à cena as peças ‘Choro ou rio?’, ‘O creado distraído’, ‘Um filho para três pais’ e novamente a cena cómica ‘José Galo na cidade’. Uma nota diz-nos que “os rapazes foram habilmente ensaiados pelo sr. Manuel Gomes Cruz, estudante da Universidade, e natural daquela povoação, onde tem passado as férias, e a orquestra foi dirigida pelo seu irmão o sr. José Gomes Cruz, também estudante da Universidade, tocando este sr. nos intervalos alguns trechos musicais no bandolim, acompanhado ao violão pelo sr. Gentil Ribeiro, e que lhes mereceram justos aplausos pela correcção com que foram executados”.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 4


As primeiras notas do Associativismo - 2
        
 Em Janeiro de 1880, em “O Comércio da Figueira” escreve-se que “A Sociedade Recreativa que este ano já tem dado algumas representações em Tavarede, leva no próximo sábado, dia 10, à cena o “Auto dos Reis Magos” e termina o espectáculo com o desempenho de algumas comédias”. Esta Sociedade Recreativa pensamos que estivesse instalada na Casa do Terreiro, de João José da Costa, o grande benemérito da nossa terra. “… vendo as péssimas condições em que os amadores de Tavarede davam as suas récitas na desmantelada casa do Terreiro (sociedade antiga?), e convencido das vantagens do teatro como meio de cultura e educação do povo, transformou o prédio num, para o tempo, excelente teatro“.

         E continuemos com Mestre José Ribeiro em “50 Anos ao Serviço do Povo”: “… Por certo não haveria melhor em terras pequenas como a nossa. Todos os lugares para os espectadores eram numerados, distribuídos pela plateia, um balcão em volta desta e, por cima, um outro balcão que ainda existe. O palco era dividido em planos e construído em corpos. Apetrechado com varanda e urdimento com suas carreiras equipadas de girelas e cordas para bambolinas e panos. Quanto a cenários, ainda ali conhecemos 3 salas pintadas em pano, primorosamente montadas em boa madeira, e bastidores de campo aplicáveis a tangões que giravam em calhas; dispunha-se ainda duma rotunda, o que bem revela o desejo de que nada ali faltasse. A iluminação era a petróleo, para o que foram mandados fazer candeeiros próprios aplicáveis às gambiarras e ribaltas. O pano de boca, tendo pintada uma vista do palacete dos Condados, onde João José da Costa residia com sua esposa, é o mesmo que ainda hoje está a servir nos espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense (1954)”. Que diferença para a antiga sala de espectáculos da “Casa do Ferreira”!!! Este teatro terá sido construído entre os anos de 1882/1884.

         Alguns anos mais tarde foi o 3º. Conde de Tavarede que, quando mandou fazer as obras de remodelação no Palácio, ali instalou uma nova sala de teatro a que deu o nome de “Teatro Duque de Saldanha”. Como se pode observar, as velhas associações dramáticas foram-se dissolvendo, agrupando-se os amadores nos novos teatros, que lhes ofereciam melhores condições para a sua actividade amadora.

         Mas aquelas velhas associações não acabaram de todo. Em Dezembro de 1884, “… na noite de quinta para sexta-feira (25) houve presépio em Tavarede, porém, no meio do espectáculo, abateu parte do soalho da casa, indo parar à loja alguns dos espectadores! Houve ferimentos, mas de pequena importância. Assim foi bom”. Publicou esta notícia o jornal Comércio da Figueira. Também não conseguimos localizar a associação onde houve este pequeno acidente.

         Como se verifica, são muito reduzidas as notícias publicadas sobre o associativismo na nossa terra. Há a certeza, no entanto, de que tanto o teatro como a música estiveram sempre em actividade, em diversos locais dos já mencionados. E não eram somente os tavaredenses que aqui apresentavam os seus espectáculos. Em Fevereiro de 1885, “… num teatro em Tavarede, dá o seu espectáculo uma troupe de artistas dramáticos que ultimamente trabalharam em Montemor. Levam à cena as engraçadas comédias em um acto “Não há fumo sem fogo”, “Criada impagável”, “Triste fado” e “Descasca milho” e, dias depois, a mesma companhia aqui representará as comédias “A cerração do mar”, “Uma experiência”, “União ibérica”, sendo também recitada uma poesia dramática.

         Uma outra notícia, também de Fevereiro de 1885, diz que “no próximo sábado, 28, vai à cena pela primeira vez no novo teatro de Tavarede, o drama em 3 actos “O Coração dum bandido”. Deduzimos que o referido novo teatro seria o que João José da Costa mandou construir na sua casa do Terreiro. Este espectáculo repetiu-se no domingo seguinte, 1 de Março, e, além do referido drama, o programa era completado com “O meu nariz”, cena cómica e ainda uma farsa. Acrescenta a notícia que “tomam parte nos espectáculos alguns curiosos da localidade”.

         Os espectáculos sucediam-se. Poucos dias depois foi levado à cena, no mesmo “novo teatro de Tavarede”, o drama em 3 actos “Justiça de Deus” e a comédia em 1 acto “O cego avarento”. Digno de nota o facto de João José da Costa, depois de ter exercido os mais altos cargos administrativos na Figueira da Foz, ter aceitado e exercido o lugar de presidente da Junta da Paróquia de Tavarede, durante a primeira metade de década de 1880/1890. Mas a actividade de João Costa na nossa terra foi mais longe. Além de ter mandado construir o teatro, também foi ensaiador do seu grupo cénico. Vejamos uma notícia inserida no jornal “Comércio da Figueira”, em Abril de 1885:

         “Hoje à noite dá uma troupe de curiosos uma récita particular no teatro de Tavarede, levando à cena o drama em 3 actos “A associação na família” e a comédia num acto “Malifício na família”. É de crer que o desempenho seja correcto, devido aos esforços do nosso respeitável amigo, o exmo. Sr. João José da Costa, que da melhor vontade acedeu ao pedido que lhe fizeram para tomar a direcção dos ensaios. Folgamos em ver a dedicação daqueles filhos do trabalho, que tão bem empregam as horas que lhes restam, no seu labor associativo, colhendo assim bastante instrução”.

         Os elementos escasseiam. Continuava a haver teatro e, certamente, a música já era uma realidade. Mas, como adiante veremos, foi na década seguinte (1890/1900) que o associativismo se firmou, com sólidas raízes em Tavarede. Já sabemos que, além do Teatro do Terreiro e do Teatro do Palácio, ainda resistiam algumas das velhinhas “associações dramáticas”, que funcionavam nas lojas de algumas casas particulares. Ainda seriam associações de familiares, mas com toda a certeza já abertas a amigos e vizinhos. Prossigamos com as nossas notas.