sábado, 30 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 16


Rivalidades...
  
         No capítulo anterior fizemos alusão ao facto das divergências surgidas com a implantação do regime republicano. Na verdade, na Sociedade de Instrução Tavaredense era bem notória a enorme maioria deste partido, o que, naturalmente, levou à saída da colectividade todos aqueles que advogavam o liberalismo e, mesmo, o conservadorismo.

         Mas, não nos metamos em política. Prossigamos, antes, com a recolha dos elementos referentes ao associativismo tavaredense, que, aliás, tiveram ampla divulgação na imprensa figueirense.

         O grupo cénico da SIT, desfalcado de grande número dos seus amadores, alguns deles de primeiro plano, continuou a sua actividade, assim como a sua escola nocturna, com enorme frequência de alunos. Já quanto às outras actividades, como música, desenho e ginástica, não dispômos de elementos que atestem a sua continuidade, pelo menos nos primeiros tempos da nova década.

         No dia 28 de Janeiro de 1911, foi levado à cena novo espectáculo, com a apresentação de comédias e uma cena dramática da autoria do então jovem José da Silva Ribeiro, na qual apontava as misérias da sociedade, como a taberna, apontando a escola “como um templo onde se vai buscar a melhor das riquezas: a Instrução”. E em Março foi representada “a engraçada revista de costumes locais, intitulada Por causa do badalo, que manteve os espectadores em constante hilaridade”. Não conseguimos encontrar quaisquer vestígios desta revista.

         Entretanto, em Março, a imprensa noticiava que dizem que vai fundar-se nesta localidade um centro democrático. Era uma nova associação, promovida pelos dissidentes da Sociedade de Instrução, que estava em embrião. Por ocasião da Páscoa foi representado o drama Jocelyn, o pescador de baleias. Registe-se que o ensaiador do grupo cénico era Vicente Ferreira, também amador dramático.

         E no dia 12 de Agosto de 1911, era publicada a seguinte nota: O Grupo Musical desta localidade reuniu num dos últimos dias na sua sede para tratar de vários assuntos. Quer dizer, a nova colectividade, fundada sob a égide dos irmãos José e António Medina, apesar de ter sido dada como fundada no dia 15 de Agosto, já reunia antes desta data, tendo começado, como primeira actividade, uma aula de música com a direcção de João Jorge da Silva.

         A sede da nova associação, que foi denominada Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, foi instalada na loja do prédio de Romana Cruz, junto ao Largo do Paço. E, enquanto ensinava música e ensaiava o seu primeiro grupo musical, era construído um pequeno teatro, pois desejavam iniciar as representações teatrais.

 



Largo do Paço.
A sede do Grupo foi instalada
 no segundo prédio, à esquerda

Enquanto realizavam estes preparativos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução continuava cheio de actividade. Depois do drama A tomada da Bastilha (o desempenho foi magnífico, sabendo os distintos amadores arrancar à plateia prolongadas salvas de palmas), outras peças se seguiram, obtendo sempre, segundo a imprensa, os melhores elogios.

Pelo Natal, e embora com as instalações em obras, a direcção do Grupo Musical realizou uma conferência de propaganda democrática, inaugurando a exposição dos retratos de Alfredo Keil (um dos autores do novo hino nacional) e do dr. Afonso Costa, um dos principais elementos do novo regíme.

Também a associação do Terreiro, nas festas comemorativas do seu 8º. aniversário,
em Janeiro de 1912, expõe na sua sede os retratos do dr. Manuel de Arriaga, presidente da República, e do benemérito João dos Santos, um dos fundadores da escola nocturna.

         Foi no dia 17 de Fevereiro que abriu as suas portas a nova colectividade. Em Tavarede inaugurou no último sábado um elegante teatrinho o Grupo Musical recentemente fundado n’aquella localidade. Pronunciou algumas palavras de saudação o sr. Aníbal Cruz, que no final foi aplaudido, sendo-lhe oferecido um bonito bouquet de flores naturaes, assim como outro ao regente do Grupo, sr. João Jorge da Silva. Representaram-se com agrado as magníficas comédias O Senhor, Hospedaria do Tio Anastácio e Amo, creado e creada, sendo todos os amadores, especialmente os srs. José e António Medina, bastante aplaudidos. Sobressaíam nas paredes do teatro, além dos retratos dos eminentes estadistas drs. Afonso Costa e Bernardino Machado, o do ilustre filho de Tavarede, sr. dr. Manuel Gomes Cruz, envolto na bandeira nacional. No domingo repetiu-se o espectáculo que foi, como no sábado, muito concorrido. Sábado representar-se-ão as mesmas comédias e As Influências eleitoraes. E como recordação, aqui citamos os amadores que participaram na primeira peça representada pelo novo grupo dramático, a comédia O Senhor: Clementina Proa, Clementina Fadigas, António Medina, Joaquim dos Reis, Faustino Ferreira e José Medina.

sábado, 23 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 15


Os corpos directivos da associação procuravam, sempre com as melhores intenções, alargar as funcionalidades da colectividade. Além da escola nocturna, inteiramente gratuita, procuravam ajudar as crianças mais desfavorecidas, às quais forneciam livros e utensílios escolares e, nalguns casos, ajuda financeira, também tentaram concretizar uma caixa de socorro mútuo, para auxílio em ocasiões de doença.

         Na assembleia geral convocada para este efeito, e depois de vários sócios terem procurado demonstrar a utilidade desta caixa, foi a proposta votada. Procedendo-se à votação sobre se deveria ou não crear-se a caixa de socorro mutuo, foi esta rejeitada por grande numero de votos. Respeitando o modo porque os outros vêem as coisas, temos comtudo a notar que os socios que reprovam a fundação da caixa foram justamente aqueles que mais careciam d’ela. Sustentaram a opinião a favor da creação da caixa de socorro, Manuel Cruz, Silvestre Monteiro e João dos Santos, isto é, os que só contribuiriam, como outros, com a sua quota, tendo apenas como recompensa a satisfação de impedir que os seus consocios, acometidos pela doença, tivessem de estender a mão à caridade.
         Nota triste: O dono d’um estabelecimento de vinhos reprovou a creação da caixa porque o sr. Silvestre Monteiro, falando àcerca do aumento de quotas, disse que esse aumento seria tão insignificante que representava apenas um copo de vinho que bebiam a menos, na taberna, aos domingos. Nem todas as verdades se podem dizer, sr. Silvestre. Por agora apanhou um reprovo rechonchudo; para outra vez arrisca-se a ser corrido à pedrada. Todavia, não tire o lápis da orelha, pronto a assinar as subscrições a favor d’individuos prostrados pela doença e na mais extrema pobreza.

         Foi pena, mas, na verdade, não acreditávamos que fosse possível fazer vingar a pretendida “socorros mútuos”. Bem sabemos que, sendo a terra pobríssima, poucos recursos se poderiam obter.

         Prosseguiram as récitas do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. A colectividade, graças à dedicação e ao esfôrço dos seus dirigentes e associados, estava definitivamente firmada. As principais actividades desenvolviam-se cada vez mais. Os objectivos que haviam levado à sua fundação tinham sido conseguidos.

 

        
João dos Santos Júnior -Professor da aula de ginástica

         Antes de terminarmos a nossa digressão pela primeira década do século vinte, ainda vamos recordar um espectáculo realizado em fins de Março de 1910, do qual transcrevemos a notícia.         Abriu o espectaculo com a comedia-drama em um acto, Raros são... mas ainda os há, desempenhada por Eugenia Tondella, e por Antonio Graça, João d’Oliveira, Jayme Broeiro e Joaquim Terreiro. Todos se houveram muito bem não lhes faltando por isso os justos applausos da plateia.
         Seguiu-se o terceto As Tres Coquettes, em que os petizes Antonio Medina, José Cordeiro e Fernando Ribeiro, souberam arrancar aos espectadores muitas palmas. Antonio Augusto de Carvalho disse com muita graça a cançoneta Ai, tenho medo, e João d’Oliveira o monologo Zé Cardina, conservando sempre os espectadores em hilaridade. Tivémos depois a engraçada comédia em 1 acto, Ambos livres, desempenhada por Antonio Augusto de Carvalho, Armenio dos Santos e Antonio Cordeiro, que teve, como era de esperar, bom desempenho, tanto mais que se tratava da estreia d’estes dois ultimos amadores – Armenio e A. Cordeiro.
         Antonio Augusto tirou partido do seu papel, d’um experiente proprietario de hospedaria, que de vez em quando não desgostava de ferrar... a unha; Armenio, um bom Serapião que quis arranjar noiva á força, não pensando nas consequencias do casorio; soube manter a plateia em vivo interesse pelo desfecho da comedia que, na verdade, era algo interessante, e de tanta graça que até elle proprio se esqueceu de que estava no palco, ria ás escondidas pensando na situação critica em que ia ficar ante o primeiro marido de sua mulher; e A. Cordeiro, um Pantaleão Tenreiro que nada tinha nem em nada se parecia com Napoleão III, contente só depois de jogada a carta e dividida a fortuna, despertou risota aos espectadores.
         Terminou o espectaculo com a comedia em um acto O Tio Matheus, desempenhada por Eugenia Tondella, e por Antonio Medina, João d’Oliveira e Jayme Broeiro, sendo tambem novamente applaudidos. A orchestra, que estava excellente, tocou algumas lindas peças de musica, sob a direcção do habil amador sr. Gentil da Silva Ribeiro. Felicitamos os amadores, especialisando os debutantes, e a direcção da Sociedade d’Instrucção Tavaredense por levar a effeito tão agradavel récita.

         Chegou, entretanto, o dia 5 de Outubro e a implantação da República. Até então, todas as ideologias estavam esquecidas ou adormecidas. A única luta que a colectividade desenvolvia era contra o analfabetismo e pela cultura e educação dos tavaredenses. Mas, com a liberdade que o novo regime trouxe, foi inevitável o ressurgimento de tais ideologias e a propagação dos ideais de cada um. Relativamente ao Associativismo, atrevemo-nos a dizer que as convulsões provocadas na nossa terra, acabaram por ser benéficas, pois trouxeram um incremento notável nos campos sociais e culturais. Adiante procuraremos esclarecer esta nossa afirmação.

         Não queremos, contudo, deixar estes dez anos sem mais uma transcrição. É do jornal ‘Gazetas da Figueira’, do dia 12 de Novembro de 1910. -     O CAVADOR E A SIT -
         O trabalhador é o braço forte do rico proprietario, porque este sem elle não terá o celleiro e a adega a trasbordar. É do cavador que eu quero falar, d’esse operario que nenhuns direitos tem, o que menos instruido é, o que trabalha incansavelmente para garantir á familia o pão d’ámanhã. D’esse operario que cava a terra para fazer sahir d’ella loiras estrigas e que tem por lar uma casa infecta, onde vê morrer de fome os filhos.
         Por toda a parte o cavador é dos operários que mais vive nas trevas da ignorancia, sendo raro o que frequenta a escola e o que manda para ella os seus filhos. A escola d’elles é a taberna, esse covil de vicios e de crimes, onde todas as noites se juntam para jogar.
         Já o temos dito muitas vezes e hoje repetimol-o: a taberna é o grande mal das classes trabalhadoras, porque é n’ella que o operario vae gastar – jogando e embriagando-se – o que ganha durante uma semana para sustentar a sua familia, que, faminta, se vê morrer n’uma casa infecta, victimada pela terrivel tuberculose.
         Os meus patricios, esses escravos que de madrugada, descalços, de enxada ao hombro, encolhidos de frio, caminham para o seu trabalho, não comprehendem bem o que é a taberna, porque se o comprehendessem veriam n’ella todos os males da sociedade, todas as ruinas do operariado, e trabalhariam logo para a demolir.
         Quereis passar bem as aborrecidas noites de inverno? Ide para a associação, porque n’esta localidade há uma, que muitas terras mais civilisadas do que a nossa, não possuem. Terão n’ella uma escola para aprenderem a lêr, arrancando se assim da sombra da ignorancia em que se envolvem, e para então comprehenderem os vossos deveres; terão um bom theatro para passarem algumas noites com vossas familias em fraternal alegria, como tambem se instruem, porque o theatro é uma escola.
         É a Sociedade d’Instrucção Tavaredense a única associação que temos aqui, por isso todos os trabalhadores devem dar-lhe o seu apoio, reunindo-se n’ella todas as noites e fazendo os seus filhos frequentar a escola, affastando-os o mais possivel das casas dos vicios.
         Sabemos que esta benemerita aggremiação dará esta época uma série de récitas aos seus associados, sendo muito breve a primeira com o sensacional drama – A Filha do Saltimbanco, que será desempenhada por alguns moços d’esta localidade e da Figueira.
         A boa vontade da direcção da Sociedade d’Instrucção Tavaredense merece os applausos de todos aquelles que desejam vêl-a progredir. Para a Associação, pois, trabalhadores, porque é ella a nossa escola, onde devemos, primeiro de tudo, instruirmo-nos para que, n’uma patria nova, como a nossa, possamos ser cidadãos conscientes!

sábado, 16 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 14


No princípio de Fevereiro, ainda integrada no programa comemorativo do primeiro aniversário, foi levada a efeito uma nova festa dedicada à escola nocturna. Começou a festa pela distribuição de prémios a dez alumnos que mais se distinguiram pelo seu aproveitamento nas aulas nocturnas durante o anno findo. Os premios conferidos constavam de livros instructivos e aos alumnos extremamente pobres foram dados vestuarios. Não podemos descrever a impressão que este acto causou a todos os espectadores especialmente quando foram apresentadas as creanças orphãs e pobresitas. Vimos as lagrimas deslisarem pelas faces de muitas pessoas.
         Findo esta edificante ceremonia, subiu o panno para a exhibição da opereta n’um acto - Casamento da Grã Duqueza - seguindo-se-lhe o terceto - Dó-Ré-Mi -, a scena comica - Desabafos do Zé Leiteiro -, o monologo - O espinho -, e as comedias - Dois estudantes no prego, e Milagre de Santo António. Todas as peças estavam muito bem postas em scena e o desempenho, por parte de todos os amadores, foi magnifico. A musica, composição do sr. João Prôa, é lindissima, muito adequada, e a sua execução pela orchestra regida pelo mesmo senhor, foi magistral.

         Em Março começou a funcionar ‘uma aula de rudimentos de música’ e, também ‘um curso de desenho’. Procurava-se, desta forma, diversificar as actividades da jovem associação, procurando atrair cada vez mais crianças e adultos, a quem ministrar a educação e a instrução.



 Fradique Baptista Loureiro 1º. Presidente da Direcção da SIT

A primeira opereta que o grupo cénico apresentou, em Abril daquele ano, foi muito apreciada. ‘Bom desempenho por parte de todos os amadores (Vida Airada), que conservou os espectadores em constante hilaridade. Orquestra magnífica. A ornamentação da sala produzia belo efeito’.

A actividade teatral iniciava-se em Outubro, quando as noites começavam a serem maiores, com os ensaios das peças que seriam representadas por ocasião do Natal. É curioso o facto de que, sendo os Autos Pastoris uma das tradições mais antigas da nossa terra e cuja apresentação era sempre tão ansiosamente esperada, nunca tenham sido levados à cena pela Sociedade de Instrução. A tradição seria retomada anos mais tarde, mas por outra colectividade, como depois veremos.

Chegados a 1906, foi comemorado em Janeiro o segundo aniversário da associação. Na respectiva assembleia geral, além da eleição dos corpos gerentes, foram aprovadas as contas apresentadas pela direcção. Foi tão rigorosa e honesta a sua administração, que apesar de subirem a mais de 100$000 réis as despesas que fez durante o ano com a instalação aperfeiçoada das aulas, iluminação, etc., apresenta um saldo favorável de 81$000 réis. Não conseguimos encontrar o registo do programa das festas, pelo que se desconhece quais as peças representadas nas récitos realizadas, embora as notícias referenciem ‘bom desempenho por parte de todos os amadores e aplausos em barda’.


     
 Manuel Jorge Cruz
Primeiro presidente da Assembleia Geral e
autor do Regulamento Interno da SIT

          Temos nota de que em Abril de 1906 terá sido representado o primeiro drama por este grupo cénico, com o título de Gaspar, o serralheiro. Por essa ocasião, também começaram a ser ministradas aulas de ginástica. Temos consciência que, nalgumas ocasiões, seremos maçadores. Mas, pelo menos nos primeiros tempos, julgamos conveniente dar a conhecer a actividade da escola nocturna e do grupo cénico, sabendo nós a importância que acabaram por ter no desenvolvimento cultural do povo tavaredense.

         Assim sendo, encontrámos publicada num jornal figueirense, em 9 de Maio de 1906, a notícia de mais uma festa escolar. Sucedeu o que previramos – a festa escolar d’hontem deixou-nos as mais agradaveis impressões. Por volta das cinco horas da tarde saiu da séde da benemerita Sociedade d’Instrução Tavaredense o numeroso cortejo d’alumnos das escolas locaes e levando à frente o seu carro de munições simulando um cabaz, formado de arbustos e flores e respeitosamente guardado por seis destemidos alabardeiros. Fechava o préstito a musica da terra executando um bonito ordinario.
         Chegando à quinta do sr. Luiz João Rosa, ali, na pitoresca mata, acampou o grande exercito de creanças d’ambos os sexos, sob o comando dos seus dignos professores. Foi-lhes servida pelos membros da comissão de beneficencia uma ligeira refeição a que a rapaziada, com grande apetite, soube fazer as honras, sempre em alegre convivio. Era imponente o efeito que produzia aquele irrequieto arraial, de que foi tirada uma fotografia. Anoitecendo, regressou o cortejo ao teatro aonde se ia realisar o sarau, que abriu pelo himno escolar cantado por todos os alumnos. Em seguida, usou da palavra o sr. Manuel Jorge Cruz. Incitou as creanças a dedicarem-se ao estudo, mostrando-lhes as vantagens que d’ahi advem e indicando-lhes o melhor caminho a seguir no futuro, sobretudo pelas responsabilidades que lhes cabem como futuros chefes de familia. Falando àcerca do desenvolvimento da instrução em Tavarede, referiu-se com muita justiça à benemerita Sociedade d’Instrução Tavaredense,  e à ilustre professora oficial a ex.ma srª. D. Amalia de Carvalho, que não só se notabilisa pelas suas belas qualidades de trabalhadora infatigavel em prol da instrução, mas tambem pela maneira carinhosa como trata sem distinções as creanças que frequentam as suas aulas. Terminou aconselhando os paes a mandarem os filhos às escolas. Lidos por alguns alumnos trechos clássicos e recitadas poesias alusivas à festa, foi de novo cantado o himno. Todas as creanças foram muito aplaudidas ao terminarem a leitura dos trechos que lhe couberam e que, àparte o acanhamento próprio de quem se apresenta em auditório tão numeroso, se desempenharam muito bem da sua missão, lendo corrétamente.
         Depois de pelo antigo aluno da aula nóturna e actualmente n’ela professor, sr. Antonio Graça, ser recitada a poesia Escola da Musa da Infancia, que disse muito bem e pelo que ouviu bastos aplausos, apresentaram-se no palco os alunos da escola nóturna que desempenharam com muita precisão alguns exercicios de ginastica suéca. O seu instrutor, sr. João dos Santos Junior, foi delirantemente aplaudido. José Medina representou com muita graça, como de costume, a sena comica – Joaquim Chainça. José Cordeiro Junior recitou com corréção a poesia – Lágrima, de Guerra Junqueiro, terminando o sarau pelo entre-áto comico – Cabo d’ordens, representado por José e Antonio Medina, sendo muito aplaudidos.
         Durante o dia a fachada do edificio do teatro esteve embandeirada. A sala, muito bem ornamentada com arbustos, flores e livros, produzia bonito efeito. O teatro achava-se repléto de espétadores contando-se entre eles as pessoas mais gradas da localidade e a colonia balnear. A orquestra, composta de muitos e bons musicos, satisfez os mais exigentes.

sábado, 9 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 13


Foi este pequeno recorte que encontrámos sobre o nascimento da nova colectividade à qual foi dado o nome de Sociedade de Instrução Tavaredense. “A iniciativa foi recebida com aplauso e secundada com entusiasmo. Logo as pessoas mais em destaque da localidade lhe prestaram apoio, e aos 14 sócios fundadores outros se juntaram”, escreveu Mestre José Ribeiro, no seu livro ’50 Anos ao Serviço do Povo’.

         Mas, na verdade, achamos muito estranha a informação acima e referente aos 14 sócios fundadores. Vejamos as cópias que inserimos:


Ora, se atentarmos nestas reproduções, o documento é autêntico, tem a data de 1903 e encontra-se exposto na colectividade, houve uma movimentação entre os tavaredenses para recolha de assinaturas para a constituição de uma nova: “Os abaixo assinados combinaram em organizar uma sociedade que tenha por fim a instrução e convidam V.Sª. a assinar o seu nome, caso queira pertencer a essa sociedade”. E como igualmente se pode verificar a data é bastante anterior à da fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense.

         No entanto, a acta da fundação da nova associação, só é assinada pelos catorze primeiros e só eles foram considerados os fundadores. Terá havido algum motivo, legal ou não, que a isso obrigasse? Não sabemos, mas vejamos a acta da fundação:

 Extraída do livro ’50 Anos ao Serviço do Povo’

         Estava, assim, fundada a nova associação tavaredense. As anteriores experiências certamente que terão sido de muita utilidade, tendo-se ali agregado os mais entusiastas, tanto da Estudantina como do Grupo de Instrução e, até, do mais anterior Bijou. E, note-se, estava garantida a continuidade da escola nocturna, pois de imediato se procedeu à activação de um grupo cénico, cujos espectáculos teriam a principal finalidade de angariar fundos para a sua manutenção.

         Em Agosto de 1904, na imprensa figueirense, lê-se a seguinte nota:         A direcção da benemérita Sociedade d’Instrucção Tavaredense, que sustenta todo o anno uma escola nocturna que é frequentada por grande numero de adultos e creanças, tenciona, no proximo inverno, promover algumas recitas particulares no theatro aonde se acha installada a mesma aula.          N’estas recitas terão entrada apenas as familias dos associados. Ainda no início da sua actividade e já o correspondente local apelidava de ‘benemérita’ a jovem colectividade.

         Os ensaios teatrais iniciaram-se em Outubro. A estreia do novo grupo cénico, (4 de Dezembro) anunciada na imprensa a 1 de Dezembro, teve o seguinte programa:         É no próximo sabbado a festa promovida pela benemerita Sociedade d’Instrucção Tavaredense, no theatro onde se acha installada. Além de varias cançonetas, vão a scena as comedias – Os Medrosos, Paschoa e Quaresma, Livrem-se lá d’esta!... e o entreacto comico – Quarto com duas camas.        Fez-se a experiencia da illuminação a gaz acetylene tendo magnifico resultado. Dizem-nos que a orchestra se compõe de numerosos e bons executantes. Tudo nos faz prever uma festa brilhantissima e a que só é dado assistir os associados e suas familias.

         De registar que, segundo notícia de 8 de Dezembro, a comissão liquidatária da Estudantina Tavaredense tinha reunido “liquidando os seus haveres a contento de todos os associados”. O seu estandarte ficou em poder da Sociedade de Instrução, onde ainda se encontra.

         E no dia 15 de Janeiro de 1905 foi comemorado o 1º. aniversário da S.I.T. Para recordação da efeméride, aqui transcrevemos uma das reportagens publicadas.        Passou no domingo, 15, o 1º. anniversario da fundação da Sociedade d’Instrucção Tavaredense. Por este motivo conservou-se durante o dia embandeirada a fachada do edificio onde se acha installada tão benemerita collectividade, e à noite, reunida a Assembleia Geral, foram presentes as contas do anno findo. Por ellas se vê que a direcção, apesar das avultadas despezas que fez com a installação das aulas, gabinete de leitura, etc., administrou com tanta economia que ainda passa ao anno futuro um saldo de 35$080 reis.
         Procedeu-se em seguida à eleição dos corpos gerentes que ficaram assim constituidos: Assembleia Geral – Presidente, Manuel Jorge Cruz; vice-presidente, João Miguens Fadigas; 1º. Secretario, Manuel Lopes d’Oliveira; 2º. Dito, Antonio da Silva Coelho. Direcção – Presidente, Fradique Baptista Loureiro; vice-presidente, José Luiz Motta; 1º. Secretario, José Maria Cordeiro Junior; 2º. Dito, Cesar da Silva Cascão; thesoureiro, Antonio Luiz Motta; Vogaes, Manuel dos Santos Vargas e João Jorge da Silva; substitutos, Manuel Fernandes Junior, Antonio Jorge da Silva, José Fernandes Serra, João d’Oliveira e Antonio Medina. Conselho Fiscal – Manuel Nunes d’Oliveira, Joaquim Saraiva e Saul Gaspar de Figueiredo.
         Pelo sr. José Rodrigues da Fonseca foi proposto um voto de louvor à direcção cessante, sendo unanimemente approvado pela assembleia. De todas as agremiações que em Tavarede se teem fundado, é esta, incontestavelmente, a que conta com melhores elementos de vida. Pelo seu estado florescente, pelo augmento successivo d’associados e sobretudo pelo fim altruista para que foi creada, previmos um largo futuro a esta colectividade, sustentada por homens dotados dos melhores sentimentos e que desejam unicamente elevar a sua terra, não se poupando a fadigas e despezas para conseguirem – derramar a instrucção e afastar da taberna muitos d’aquelles que ali procurariam o seu passatempo em libações e jogatinas perigosas.
         Quem entra n’aquelle sanctuario, à noite, fica surprehendido pela bella disposição de todas as dependencias: n’uma sala a aula d’alumnos menores, em grande numero; n’outra a aula de maiores, infelizmente menos frequentada; n’outra, gabinete de leitura; n’outra, exercícios de musica, e no tablado cultiva-se a arte de Talma. Na melhor ordem, respeito e alegremente, todos trabalham. D’entre as trinta e cinco creanças que se encontram todas as noites postadas às suas carteiras, destacam-se duas vestidas de preto. São orphãos. O pae, um bom exemplo de trabalhador, morreu há pouco tempo na enxerga d’um hospital, deixando a sua numerosa prole na mais extrema pobreza. Faltou-lhes o pae, mas lá está a Santa Caridade abrigando-os sob o seu manto. Com o maior carinho e boa vontade, ali lhes ministram a instrucção que carecem.
         Muito haveria que dizer ácerca d’esta instituição, mas ficaremos hoje por aqui, fazendo votos para que a benemerita Sociedade d’Instrucção Tavaredense prossiga desassombradamente no honroso caminho que encetou, e não lhes faltará o apoio de todos os que amam o desenvolvimento da instrucção pelas classes desprotegidas.  

sábado, 2 de março de 2013

O Associativismo em Tavarede - 12


Também no vizinho Casal da Robala, e certamente levada a efeito pela colectividade local, se realizou uma festa em honra do S. João. Eis a notícia. Não conjecturámos mal, quando dissemos na ultima carta que as raparigas e rapazes do Casal da Roballa iam ter, de sabbado para domingo, uma noite de verdadeira folgança. Foi dançar até fartar, louvado Deus! Começaram pelas 10 e meia e acabaram lá pela madrugada, já cheias de pó, de cansaço e de somno! Mas como a mocidade d’este tempo não sente nem fadiga, e tudo é saúde e vigor, ellas, as cachopas, não poderam dispensar aos tocadores o seu concurso para outra dança, e eil-as novamente a dar á perna desde as 6 horas da tarde ás 9 e tal da noite de domingo!
Os rapazes da orchestra eram de Tavarede e parece terem empregado todos os esforços para desempenharem bem o seu papel, o que, na verdade, foi reconhecido pelas promotoras d’aquelles folguedos. O local estava ornamentado com pinheiros ramalhudos, bandeiras, festões de buxo e loiro, etc. Á noite illuminaram-o com uma fogueira grande, balões venezianos e lanternas, e, durante o tempo em que as danças estiveram em acção, muitos foguetes, estralejando nos ares, annunciaram-nos a alegria que reinava no pequeno Casal, que estava em festa, indo por isso ali muito boa gente passar alguns bocados.

Não deixou de nos causar certa perplexidade uma notícia inserta num jornal figueirense, em Fevereiro de 1903, que diz: Um novo grupo musical acaba de organizar-se em Tavarede, sob a denominação de Grupo Instrução Tavaredense. Dirige-o o meu patricio João Proa e a ele pertencem, segundo me informam, alguns rapazes daqui que já têm feito parte de sociedades congéneres.

         Sinceramente aplaudimos a sua louvável iniciativa. É sempre pouco todo o movimento que se estabeleça para a união e harmonia comum, e a existência de qualquer colectividade - desde que a sua criação obedeça a bons fins e os seus agremiados trabalhem com dedicação para o seu engrandecimento - é sempre um dos fautores primordiais para a educação de tantos espertos que vivem alheados das coisas mais simples e rudimentares dos principios sociais. É por isso que eu elogio os rapazes que acabam de fundar este grupo musical, e o meu desejo é que eles por muito tempo se mantenham solidários e cheios de boa vontade para a sua prosperidade. Desde que os seus deveres profissionais lhes deixem livres algumas horas, bom é que as passem em convívio fraternal e instrutivo.

         Ora, se bem nos recordamos, o Grupo de Instrução Tavaredense já existia há uns três anos, instalado na casa do Terreiro, tendo o seu estandarte sido inaugurado solenemente. Certamente que seria a organização de uma nova tuna, porque a anterior se teria desfeito. Não podemos avançar muito sobre este assunto, mas a verdade é que, muito pouco tempo após esta notícia, tanto o Grupo de Instrução Tavaredense como a Estudantina acabaram. Em Dezembro, o correspondente de um jornal figueirense lamentava-se assim: Houve tempos – e não vão eles muito longe! – em que aqui, nesta minha terra querida, se representava o presépio na noite de Natal e noutras da época que, de geração em geração, nos tem vindo a relembrar a Natividade de Cristo. Era uma distração simples, mas reunia ela muitas famílias num convívio fraternal, alegre, que nos proporcionava uma horas de satisfação íntima.

         Ia-se ao presépio, revia-se a gente na garbosidade das moças tavaredenses, vestidas a capricho no traje de pastoras, e admiravamos-lhes também as habilidades cénicas, porque elas quase sempre debutavam nesses espectáculos... E daí, os felizes da sorte, regressavam ao lar, e lá iam rodear a certã onde fervia o azeite com os tradicionais filhós, ou onde o forno trasbordava com doces tortas!          Era assim que se passava por aqui esta feliz quadra do Natal. E hoje, se é certo que ao estômago dos afortunados não faltam as abundantes consoadas com que se celebra a data natalícia, há no entanto – triste é dizel-o – a falta de qualquer espectáculo que nos recreie o espírito e que venha quebrar um tanto a insípida monotonia destas longas noites de dezembroParece que a gente moça bem depressa adormeceu sobre os triumphos colhidos!
         Isto escrevo eu, porque é a nitida expressão da verdade; porém, moralmente, sinto muito dizel-o. Comprehendo eu bem que tudo cança, e sei que algumas pessoas há que, por justos motivos, se teem affastado do meio em que tanto se accentoava o desenvolvimento da educação dos meus patricios. Essa circumstancia, porém, não obsta a que muitos rapazes deixem de trabalhar no intuito de se instruirem; e, para isso, umas das primeiras coisas de que deviam tratar, era da creação d’um grupo dramatico. No theatro aprende-se muito, todos o sabem; é uma escola que educa e recreia o espirito sem enfado, e d’ella se auferem resultados proficuos, desde que cada um comprehenda quaes os deveres que tem a cumprir.
         Era n’este caminho que eu desejava ver varios conterraneos meus, que bem precisam de o trilhar, e que, tendo horas de descanço, mal as desperdiçam. Trabalhem, por isso, para se instruir, e, fazendo-o, hão-de colher depois os fructos d’esse esforço.

         As duas colectividades haviam fechado as suas portas. Não nos é possível esclarecer os motivos que a isso as levaram. Mas Tavarede já não podia dispensar o Associativismo. O teatro e a música haviam criado raízes profundas em todos os tavaredenses. Mais, a escola nocturna, que já havia arrancado muitos conterrâneos do analfabetismo, precisava de continuar e, para tal, tinha absoluta necessidade de um apoio colectivo. Não faltaram boas vontades. Os tavaredenses uniram-se e decidiram tomar o encargo de fundar uma nova colectividade que, baseados na prática já adquirida, desenvolvesse a Instrução e o associativismo na nossa terra. Os seus projectos concretizaram-se…

         Não deixa de ser curioso o facto de no teatro do Terreiro se ter realizado, durante os meses de Maio e Junho de 1903,  uma série de espectáculos, mas com a participação de um grupo dramático da Figueira, denominado ‘Companhia Esperança’, sempre muito aplaudidos e a que abrilhantava um grupo musical dirigido pelo anterior regente da tuna do Grupo Musical, João Proa, enquanto que o regente da tuna da Estudantina, Gentil Ribeiro, foi dirigir e reger a ‘Estudantina de Vila Verde’.

                                                                  Gentil Ribeiro

         E em 31 de Janeiro de 1904 surge, no jornal figueirense ‘A Voz da Justiça’, a seguinte nota do seu    correspondente em Tavarede: “Alguns rapazes daqui acabam de organizar uma associação que tem por fim derramar a instrução pelos seus associados e filhos destes. Como já conta grande número de sócios e bastantes elementos, tencionam fundar brevemente uma caixa económica. Os fundadores de tão prestável associação estão animados da melhor vontade. Por certo não faltará quem os auxilie, jamais numa obra tão digna de apoio. Não desanimem, pois que ainda podem recuperar o tempo perdido em coisas sem resultado para o seu desenvolvimento intelectual, que é do que todos os homens devem tratar nas suas horas de ócio”.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Associativismo em Tavarede -


Novo Século...
Novo Associativismo...

 Paço de Tavarede - Sede da Estudantina Tavaredense
  
Nos inícios do século vinte, tudo aparentava que o associativismo estava definitivamente estabelecido em Tavarede. Com as duas associações em plena actividade, a Estudantina dedicada ao teatro e à música, e o Grupo de Instrução, com a seu grupo cénico e o seu grupo musical, que tinham como principal missão a angariação de fundos, através dos espectáculos que realizava, para o financiamento da sua escola nocturna, que funcionava com as suas duas aulas, principiantes e mais adiantados, completamente lotadas, cumpriam a preceito a missão para que tinham sido fundadas.

Em Fevereiro de 1901, e no seu teatro Duque de Saldanha, a Estudantina apresentou um programa carnavalesco com as comédias Valentes e Medrosos, Um noivo d’Alcanhões, a cena cómica Um alho júnior e o entreacto A questão musical.  Segundo a mesma notícia, na terça-feira de entrudo haveria baile na mesma sala, com os convidados a irem com trajos de costumes.

No mês seguinte, pela Serra-a-Velha, a Estudantina apresentou as mais uma vez o mesmo programa do carnaval. E pela Páscoa repetiram este espectáculo apresentando mais uma comédia, Um capitão de lanceiros. Também a tuna cumpriu uma tradição: saíu no domingo a cumprimentar diversas entidades, sócios e amigos. Entretanto, e comemorando o seu oitavo aniversário, esta colectividade realizou uma assembleia geral para aprovação das contas, tendo sido eleitos os novos corpos gerentes, ficando a nova direcção composta por Luiz João Rosa, presidente, José Maria Cordeiro Júnior, secretário, César da Silva Cascão, tesoureiro, e Gentil da Silva Ribeiro, vogal. Integrada no programa das comemorações, no domingo de Páscoa, teve lugar uma dança, que teve uma concorrência como poucas vezes ali temos visto, e à qual os rostos mais bonitos de muitas meninas deram sempre alegria e animação.

Também não queremos deixar de aqui recordar que o nosso conterrâneo António de Almeida Cruz foi, neste ano, para Lisboa, integrando-se na companhia de teatro do Trindade, onde teve a sua primeira actuação em Setembro, desempenhando o papel de Nicolau, na ópera-cómica Os sinos de Corneville, obtendo enorme êxito, que foi o princípio de uma carreira verdadeiramente extraordinária, como actor-cantor e empresário teatral.

É claro que, durante o verão, as colectividades saíam à rua, para o que organizavam festas ao ar livre, em pavilhões que instalavam nos principais largos da aldeia. No ano de 1901 foi escolhido o Largo do Paço. Eis uma pequena nota sobre esta festa. A noite de sabbado e a tarde de domingo últimos, foram de verdadeira folia para os rapazes e raparigas, que durante longas horas se fartaram de dar á perna no Largo do Paço.
Isto de fixar horas em divertimentos d’aquella natureza, é sempre querer ser-se mais papista que o papa. Falamos assim porque, dizendo nós que a dança começaria ás 10 horas da noite, ella só principiou a funccionar perto da meia-noite, hora a que abrandou mais a furiosa nortada que tinha soprado até ali, e que impedira que se fizesse a illuminação á hora annunciada. Dansou-se até perto das 4 horas da manhã, quando o dia rompia com os seus primeiros clarões auroriaes.
Na tarde de domingo vieram aqui algumas pessoas d’essa cidade, que, gosando não só o agradável passeio, manducaram bellas merendas e famosos petiscos, viram (aquellas que chegaram pelas 5 horas) as corridas de prémios, e, além d’isto, tiveram occasião de admirar depois, ás 6, o rancho de bonitas raparigas e sympathicos rapazes que até ás 9 horas da noite deu folgas á mocidade. E sabe Deus quantas palavrinhas doces sahiram de muitos lábios apaixonados que la havia, quanto prazer não sentiriam tantos pares que se estreitavam com ternura n’aquella massa de seres cheios de amor e de vida!...
É que n’aquella edade e n’aquelles momentos nada se sente. Todas as almas trasbordam de felicidade e toda a existência sorri repleta das venturosas esperanças! E assim é que para os corpos moços d’hoje, a dansa é a única distracção que os satisfaz para gosar e que lhes deixa sempre mais ou menos recordações saudosas. Por isso, com os louvores que rapazes e raparigas teceram aos promotores d’aquella festa, vão também misturados os nossos, porque, com a sua realisação, quebraram por algumas horas a monotonia que aqui se nota continuamente.

Foi, com certa surpresa,  que não encontrámos qualquer notícia sobre os tradicionais espectáculos natalícios, pois o Presépio e Os Reis Magos foram substituídos pelas comédias Cada doido…, Uma experiência, O cornetim do meu vizinho e O capitão de lanceiros. Isto na Estudantina.

Por sua vez, o Grupo de Instrução não comemorou o carnaval com qualquer espectáculo, pois os alunos da sua escola nocturna andavam a preparar a festa comemorativa do terceiro aniversário daquela escola. Este teve lugar no dia 23 de Fevereiro de 1902. “Como tem noticiado o nosso correspondente daquela localidade, realiza-se efectivamente amanhã o sarau comemorativo do 3o aniversário da Escola Nocturna dali, e cujo programa constará do seguinte: Hino da Escola Nocturna - composição de G. Ribeiro; República das Letras, comédia em 1 acto, de F. Palha; Surpresa, valsa característica de Simões Barbas; O casamento do Alto Vareta, comédia de costumes em 1 acto, de P. de Alcântara Chaves; Tavarede, mazurka de G. Ribeiro; Ça mord, intervalo para duas crianças; Uma gavotte; Bohemios, passo ordinário, de F. Lopes de Macedo; Luctas Civis, comédia em 1 acto, de Cesar de Sá; Hino da Escola Nocturna. O desempenho da parte dramática será exibido pelos alunos da escola referida, e a parte musical executada por um grupo de rapazes também de Tavarede. De tarde servir-se-á um jantar a todos os alunos daquela aula, para o qual têm sido generosamente oferecidos donativos por vários cavalheiros”.

Foi bastante apreciado este espectáculo. Temos uma reportagem muito grande sobre o mesmo, mas vamos apenas transcrever este pequeno recorte: “… Á noite, o espectáculo em que se executou o programa já conhecido dos leitores da Gazeta, teve uma concorrência extraordinária, não havendo disponível um único canto do teatro. É suspeita a minha apreciação sobre o desempenho das duas partes do reportório: dramática e musical. Mas tenho a fazer-lhes justiça e a falarem por mim as calorosas e entusiásticas ovações feitas aos pequenos debutantes da arte de Talma, e as salvas de palmas que coroavam o final de qualquer das peças musicais tocadas por um escolhido grupo de rapazes também de Tavarede.

Por aqui se vê o agrado da récita, e o que eu posso asseverar é que nunca nesta localidade houve festa teatral que mais sensação causasse, pela novidade dos actores e pela maneira correcta como se houveram. As salas, tanto a dos espectáculos como a da escola, estavam ornamentadas com festões de verdura, palmas, bandeiras, livros, escritas, etc. Na aula liam-se alguns trechos dos Lusíadas, copiados pelos alunos mais adiantados, e viam-se também distribuídos pelas paredes os nomes de vários cavalheiros que generosamente têm contribuido com donativos para aquela casa de instrução…”.

Integrado no Grupo Instrução Tavaredense, formou-se um novo grupo musical, sob a direcção de João Nunes da Silva Proa, que tinha a finalidade de abrilhantar diversas festas. A tuna do Bijou Tavaredense, a que pertenciam muitos elementos da Figueira, já tinha acabado, pelo que a maioria dos seus componentes aderiram à nova tuna. E a sua apresentação foi feita na missa conventual do domingo de Páscoa, realizando, à noite, um baile na sede da colectividade.

Pela Páscoa de 1902, como era costume, houve novo espectáculo no Grupo de Instrução, com a participação dos alunos da sua escola. Deve ter sido um espectáculo muito interessante e não resistimos a copiar uma notícia publicada sobre o mesmo. E aqui está uma pessoa há um pedaço a olhar os linguados do papel, a hesitar, sem saber com que os há-de encher. Procuro notícias, não vejo nada de merecimento que possa aproveitar-se; tudo uma pasmaceira insípida, comparada ao silêncio que a estas horas, 10 da noite, se nota lá fora, onde se não sente viva alma; tudo se enlaçou nos lânguidos braços de Morfeu, que nas aldeias os estende logo à noitinha para reparar as fadigas que cansam tantos corpos entregues pelo dia adiante à execução dos trabalhos agrícolas, umas vezes sob esse sol tórrido que nos abrasa e sufoca, outras expostos aos rigores do inverno que com as suas neves e frios ventos nos rasga as carnes sem dó nem compaixão.

O único assunto que se nos oferece para dele podermos dizer alguma coisa, é o relato do espectáculo dado no domingo de Páscoa pelos alunos da escola nocturna. Casa a trasbordar, com concorrência superior á da primeira récita efectuada outro dia pelos mesmos amadores. Às 9 horas da noite a orquestra executa o hino na escola, que é ouvido de pé, e em seguida sobe o pano; o palco oferece-nos uma vista agradável, similhando o pátio das casas do Izidoro Vaqueiro e de seu filho Gregório, que naquele dia deve receber à face do altar a Margarida, uma das cachopas mais guapas do lugar, e para cuja festa os aldeãos preparam grande regalório. Abre-nos a comédia (Casamento do filho do Vaqueiro) com um coro de rapazes e raparigas da aldeia, e dali em diante temos por vezes em cena o pai Izidoro, a mãe Rosa, os padrinhos do casamento, e o noivo, que por sinal está pouco resolvido a ir à igreja, isto porque umas intrigas urdidas pelo tutor de Margarida lhe vêem pôr em dúvida o bom comportamento desta sua escolhida. Afinal, tudo se desvenda, averigua-se que são falsas as injúrias imputadas à pobre rapariga, e que lhe eram lançadas por conveniência do interesseiro tutor. E os noivos lá casam, cheios de prazer e satisfação. A comédia é do velho reportório e bastante conhecida, sendo já em tempos aqui representada. Mas o desempenho dado agora aos diferentes papéis por António Graça (Izidoro), Fernando Pereira (Rosa), Joaquim Terreiro (Gregório), Augusto Bertão (Margarida), António Broeiro (Fonseca), António Miguens e Jaime Broeiro nos padrinhos do casório, João da Graça (Zé das Bordoeiras) e ainda por outros tipos, foi muito mais correcto, segundo nos dizem, e isso lhes valeu os unânimes aplausos da plateia. As músicas, apesar dos poucos ensaios e de terem sido cantadas a medo, sairam muito regularmente. E acabou-se o 1o acto.

No segundo representa-se a comédia Republica das Letras, em que toda a petizada trabalha, e que pela segunda vez se pôs em cena. Os nóveis actores fizeram o que puderam, e os espectadores aplaudiram-nos com entusiasmo. Neste intervalo, o sr. Luiz Pinto, um simpático amador dessa cidade, recitou com certa correcção o monólogo dramático O Piloto, e a poesia Quando eu morrer. Luiz Pinto colheu bastas palmas da plateia Seguiram-se as comédias Casamento do Alto Vareta e Lutas civis, cujo desempenho não desmereceu em nada a boa interpretação que os diferentes personagens deram aos seus papéis no espectáculo em que debutaram. Na primeira destas comédias temos a sobressair Joaquim Terreiro no seu papel de Maria das Dores, João de Oliveíra no Alto Vareta, Fernando Pereira na pretenciosa Joana, António Broeiro no João (cabo de esquadra) e Jaime no surdo mestre Joaquim; os outros rapazes não desmancham o conjunto, dando por isso lugar que às situações mais engraçadas da peça se imprimisse bastante relevo.

Nas Lutas Civis, comédia drama cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, dá-nos Fernando Pereira um tipo original de criado de moinho, a quem só dá prazer o pouco trabalho, e que tem por lema fazer no outro dia aquilo que não se fizer em dia de Santa Maria... Joaquim Terreiro, um dos pequenos que mais aptidões cénicas revela, disse muito bem o seu papel de Maria, filha do pobre veterano Jácome, a que João de Oliveira dá certa naturalidade, conquanto o género deste papel não seja o que mais lhe está a carácter. Os outros personagens também se sairam muito regularmente.

Eis, em massadoras linhas, a nossa opinião sobre a parte dramática do espectáculo. A parte musical, executada por um grupo de rapazes daqui, foi ouvida com agrado geral, sendo feliz a escolha das músicas que formavam o programa, e que alcançaram dos assistentes várias salvas de palmas, especialmente Una broma, jota lindíssima de Simões Barbas, e a mazurka Succés, de Backman, que foram tocadas com mimo e gosto pouco vulgares nos grupos musicais desta minha terra. Eram festas teatrais assim que desejariamos ver realizar frequentes vezes, mas é certo que a boa vontade que as leva a efeito também é gasta por muitos dissabores que se recebem durante a luta... Isto, infelizmente, é uma triste verdade... E ponto neste assunto.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Associativismo em Tavarede - 10




Estandarte do Grupo de Instrução Tavaredense

          O estandarte do Grupo de Instrução foi inaugurado no domingo de Pascoela, tendo sido benzido à missa solene. “É nos dificil fazer uma apreciação exacta do valor que possui aquela rica obra de arte, a que a exma. srª. D. Rita Jardim, sua bordadora, e o sr. Francisco Gil, seu desenhador, souberam imprimir um cunho altamente artístico, de magnífico trabalho e de inexcidivel beleza. A bandeira, de fina seda, de um lado cor de grenat e do outro verde-mar, tem ao centro daquela face um lindo emblema simbolizando a instrução, bordado a ouro, prata e matiz, e ao centro desta uma elegante lira toda bordada a prata, ao cimo da qual brilha a figura do sol, expandindo aurifulgentes raios de oiro. A franja é toda de prata, as fitas de seda e moirée, e a haste é uma pinha toda dourada. (não foi possível, devido ao seu estado, fotografar o verso do estandarte)

         Em suma, aquele estandarte é um distinto trabalho que demonstra ser feito por artistas de verdadeiro mérito, há muito evidenciado por tantos outros justamente apreciados por quem melhor do que nós sabe avaliar o merecimento de tão delicados serviços. Se o sr. Francisco Gil se esmerou em traçar um desenho simples mas muito significativo, a exma. srª. D. Rita Jardim ainda mais se esmerou interpretando belamente a ideia daquele ilustre professor, e produzindo assim uma bordadura primorosa que realça excelentemente no meio das lindíssimas cores da seda da bandeira. Honra lhes seja”. Acrescentemos, desde já, que este estandarte acabou por servir à Sociedade de Instrução Tavaredense até ao ano de 1927.

         Referimos atrás que não existia rivalidade entre as colectividades tavaredenses. Eis uma notícia que o confirma. “Na tarde do último domingo assistimos a uma das festas mais simpáticas que aqui temos presenciado.O novel Grupo Instrução Tavaredense foi cumprimentar a Estudantina, sociedade sua congénere, e a recepção afectuosa e cativante feita àquele grupo foi de todo o ponto muito honrosa para as duas corporações musicais. Agradeceu a amavel visita o director e regente da Estudantina, Gentil Ribeiro.

         O Grupo Instrução executou com muito agrado dos ouvintes uma sinfonia e algumas valsas muito bonitas, pelo que grangeou gerais aplausos.     Seguiu-se-lhe um abundante copo de água e, entre a alegria e prazer que enchia todos os corações, eram lançados calorosos vivas ao Grupo Instrução, á Estudantina, a Tavarede, etc.   O grupo visitante tocou ainda o seu hino, e durante esse tempo foram cruzados os estandartes das duas sociedades. Devemos confessar que, de toda a festa, foi este quadro o mais tocante e o que mais nos impressionou, por encerrar em si um mito de tudo quanto é admirável, sublime e honroso para uma população pequenina como é a nossa: a união fraternal de ambas as sociedades, mais uma vez assim evidenciada, e a demonstração da amizade que, com os seus sagrados laços, une todos os rapazes.    

E é assim que deve ser. Isto é um grande exemplo para outras terras em que os espíritos se não congregam para seguir o caminho da paz e união. Por isso os nossos patrícios compreendem bem o quanto é mais digno reinar entre si a franca amizade, desprezando os caprichos e questiúnculas fomentadas por cérebros rudes e pequeninos, que só provam o seu atraso moral e intelectual.       Nestes termos falou na ocasião o sócio da Estudantina, António de Almeida Cruz, o qual, depois de proferir o seu belo improviso, recebeu uma veemente salva de palmas. E nós, appoiando-o também daqui, apoiamos com mais ardor as suas últimas e vibrantes frases, que incitavam os sócios dos dois grupos ali reunidos a continuarem a estudar e a avançar no seu caminho, que é o da civilisação, do progresso e da fraternidade!

         Oxalá ele fosse imitado pelos rapazes doutras terras mais populosas e mais importantes do concelho da Figueira. Orgulhamo-nos de dizer isto, creiam-no. O Grupo Instrução retirou depois, sendo acompanhado até à sua aula pelos sócios da Estudantina. Ali foi também servido a estes um delicado copo de água, com o qual, e entre alguns vivas, terminou a simpática festa de domingo”.

         Prosseguiam os espectáculos. Não interessa registar todas as notícias, mas não resistimos a transcrever mais esta, especialmente para deixar registo de alguns amadores. “Apesar das fortes e persistentes bátegas de água com que a noite de sábado passado se dignou mimosear-nos, o teatro do nosso bom amigo sr. João dos Santos bem depressa se encheu de espectadores, que ali iam assistir à récita anunciada para aquele dia e promovida pelo Grupo Instrução Tavaredense. A primeira parte do espectáculo foi preenchida pelo grupo musical, que executou o seu hino, um bonito ordinário e a valsa Riso e Assobio. Esta música, como originalidade pouco conhecida aqui, despertou da plateia muitas gargalhadas. Nesta ocasião a exma. srª D. Maria Águas Ferreira ofereceu ao Grupo uma linda e valiosa fita de seda, colocando-a no estandarte da mesma colectividade.


         Seguiu-se a representação da comédia Aflicções d’um perdigoto, cujo desempenho foi confiado ás meninas Felismina e Leontina, e a Santos Júnior e José Augusto. Os espectadores manifestaram o seu agrado, palmeando-os com frenesi. Do entre-acto Mano João sairam-se sofrivelmente Santos Júnior e José Augusto. Fechou o espectáculo a velha e aplaudida comédia Por causa d’um algarismo. Nela tomaram parte, além de todos os amadores já acima mencionados, J. M. de Almeida Cruz, Manuel Tondela e J. Cordeiro Júnior. Os dois primeiros estavam bem nos seus papéis de Ambrósio, sacristão e de Colaço, confeiteiro. Felismina, Leontina, J. Augusto e J. Cordeiro, ainda que formassem sempre um razoável conjunto, são ainda novatos na dificil arte de Talma e necessitam de mais um pouco de prática e estudo, para poderem pisar o palco com uma certa confiança em si próprios. Ainda assim, são dignos de todos os elogios, e muito os felicitamos por verem que as suas canseiras têm sido sempre coroadas dos mais expontâneos aplausos. Ao terminar esta comédia foram atirados para o proscénio alguns bouquets, havendo também chamadas especiais de envolta com ardentes salvas de palmas. E assim se passou a noite de sábado”.

Achámos alguma piada ao acontecido à tuna do Grupo Instrução Tavaredense que, tal como a tuna da Estudantina, se deslocou a Montemor-o-Velho para abrilhantar os festejos em honra da Senhora do Desterro. “…O melhor, porém, de tudo e o que mais agradou de toda a festa pela graça que todos lhe acharam, foi que, quando à tarde, as raparigas do "Beira Alta" se achavam na praça divertindo-nos com as suas danças cheias de vivacidade, ao som das suaves harmonias do "Grupo Instrução Tavaredense", eis que de repente são surpreendidas por uma fanfarra da Ereira, regida pelo nosso amigo o sr. Henrique Fernandes Duarte, a qual, rompendo por ali dentro, seguida por um rancho do mesmo lugar, em breve ficou senhora de todo o campo. Cheguei, vi e venci. Foi a sorte que coube ao sr. Fernandes Duarte, que assim que chegou, logo derrotou e pôs tudo a um canto, devido ao mimo e grande gosto com que os seus músicos tocavam. Com efeito! Por mais esforços que os tunos de Tavarede fizessem por se ouvir, nunca o conseguiram nem conseguiriam ainda mesmo que rebentassem as cordas dos instrumentos”. Realmente teve piada e acrescentamos que, nesse ano, também a Estudantina ali foi tocar no mesmo dia.

E o século dezanove terminou com a representação do ‘Presépio’ pelo grupo da Estudantina. Mantinha-se uma tradição de muitas décadas. E, tudo o indicava, o Associativismo estava definitivamente enraizado na terra do limonete. As duas associações encontravam-se em plena actividade. Eram frequentes os espectáculos teatrais e as suas tunas desejadas em muitas festas em diversas terras.


Presépio no Grupo M.I. Tavaredense