sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 18


Naturalmente, o visado não podia deixar de responder. Temos procurado evitar pôr á luz do sol os animaesinhos que em pleno seculo XX – é verdade, no seculo das luzes – imitam o vestuario como os homens e que, quando nos apanham distrahidos no meio d’arena, nos levam bravamente d’encontro á trincheira... É pena ser acto deshumano, pois que, pela nossa salvação – se não tivéssemos medo de censura – lhes ferrariamos no lombo com vontade o bello aguilhão que por mais d’uma vez, os tem conduzido ao redondel, onde aprenderam a ser dignos e honestos.
         São animaesinhos, não merecem outra classificação, que ingratamente pagam com pontapés (é para não dizer coices) o único favor que lhe fizémos de perder um precioso tempo, e até a saude, domando-os para os apresentar com agrado duas vezes em publico!!
         A declaração - ignorancia - que pediram ao nosso amigo e sr. redactor da Gazeta, em nome do Grupo Musical Tavaredense, para publicar, é a prova sufficiente de tudo quanto aqui temos affirmado e que toda a gente que nos conhece poude avaliar a canalha que continúa envergonhando uma terra que tem filhos illustres e onde habitam pessoas honradas que desejam o socego e o respeito para se poder viver honestamente.
Os imbecis - tendo à frente os Medinas de Verride, nascidos e creados n’aquella terra como vagabundos - pediram a uma pessoa que devia, pela sua illustracção inhibir-se de escrever as coleras d’uma ignorancia rara, fugindo por completo ao assumpto de que se tratava, mas que nós vamos contar para quem nos lêr admirar os actos que vehementemente combatemos e que nos levou a pedir a demissão de sócio d’aquelle Grupo. Apreciem:
         Quando a Sociedade d’Instrucção Tavaredense abriu a matricula de alumnos para a escola nocturna que sustenta, foram dois rapazes, socios do Grupo Musical, matricularem-se, visto o poderem fazer gratuitamente. No dia seguinte foram, como de costume, passar algumas horas da noite no seu Grupo, quando o Antonio Medina, presidente da direcção, os chamou e lhes disse com uma auctoridade de mandão: “Quem pertencer aqui não póde ser lá de cima!”. Nós, que estavamos presentes, cumprimos o nosso dever: incitando a instruir-se quem d’isso necessite e censurando os ignorantes que não comprehendem o papel que querem desempenhar, pois deviam vêr que sós, sem consentimento d’assembleia geral, não podia expulsar associado algum. Os rapazes, um veiu anichar-se novamente no Grupo Musical e o outro seguiu o caminho da escola, porque pensou que d’esta receberia luz para o cerebro e d’aquelle colheria vicios que são prejudiciaes e vergonhosos a toda a gente.
         Bem, vendo estas coisas, frequentavamos poucas vezes o Grupo Musical, mas sempre que ali iamos admirava-se uma triste scena de taberna: o Medina chegando de casa, naturalmente de cear, pedia com um descaramento tão velhaco, para fazerem uma vaca, um vintem, outras vezes dez reis, etc., a todos os socios que ali se encontravam reunidos e mandava comprar vinho que elles bebiam e mais algumas creanças que se embriagavam de tal maneira que era necessario irem buscal-as para casa.
         Visto tal orientação, deixámos de frequentar o Grupo, mas sendo sempre sócio...
         Ha dias queixam-se-nos alguns moradores de Tavarede, porque todas as noites não os deixavam descançar alguns rapazes do Grupo Musical que faziam arruaças a certas e determinadas pessoas com as chamadas serenatas, dizendo-nos que para os outros estavamos logo promptos para os verdascar quando erravam, mas que para os nossos bons consocios havia a maior benevolencia. E nós, com bons modos para evitar que elles estendessem a perna, pedimos que tivéssem mais senso e vergonha. Mas, o que fômos dizer!... Os animaesinhos já não nos conheciam como domador. Olhavam-nos cynicamente...
         Passaram-se alguns dias, gritam-nos contra o Grupo que consentia sahir da sua séde a altas horas da noite uns malvados que arrombaram a porta da casa d’uma pobre mulhersinha, caso que mencionámos indignados na Gazeta da Figueira, pedindo ás auctoridades locaes ou administrativas sevéra lição a quem assim procede.
         Se elles já nos não olhavam com bons olhos, depois até chegaram a organisar um complot, do qual faziam parte elementos da gente do bunho, para nos darem uma tareia de esticar o pernil. Percebemos a marosca e eis nos immediatamente perante o casco do rijo craneo da alta personagem do sr. presidente da direcção do Grupo Musical, pedirmos que nos riscasse do numero dos seus socios.
         Decorridos meia duzia de dias apparecem nas paredes d’esta povoação o menú para um lauto jantar que lhes vamos offerecer pelos actos que nem, talvez, garotos o fizéssem e que promettemos, sem faltar a esta responsabilidade, de lhes encher a barriga até fartar. Ora, agora digam-nos as pessoas conscienciosas, se temos ou não razão? Se era ou não cabida a nossa declaração, publicada no dia 16 do corrente?
* * *
         Em vista das graves affirmativas que ali se fazem a nosso respeito, em vez de deixar ao arbitrio das pessoas de bem a nossa resolução em desprezar os grosseiros insultos de taes infames, vimos por este meio emprazar os animaesinhos d’aquelle Grupo a dizerem-mos:
         1º - Qual a calumnia que nós levantámos a um rapaz digno e que era a causa de nos expulsarem do Grupo?
         2º - Quaes as sociedades onde temos sido desconsiderados?
         3º - As provas em como nós frequentavamos na Figueira os sitios mais vergonhosos, praticando acções ridiculas, a ponto de usurpar ás infelizes algum dinheiro?
         4º - Qual a infamia praticada por nós no dia 10 do corrente?
         Nada mais queremos saber! O resto - prosa d’arrieiro - devolvo-lh’o escorrendo a fectida lama com que pretendiam sujar-nos... Felizmente, estamos bastante acima para que possamos livrar-nos mais uma vez d’esses machos de almocreves e sentimo-nos mais uma vez honrados pelo proceder digno da nossa familia - que os deixou entrar em sua casa, julgando-os qualquer coisa honesta - os mandou já arranjar as albardas para que no proximo dia 1 de Janeiro de 1913 irem em marcha aux flambeau... em procura de abrigo. Annibal Cruz
* * *
         P.S. - Como se annuncia para ahi á bocca cheia que, apenas se publique esta resposta, a nossa morte será fatal e, em vista de não termos meios de fortuna, appellamos para os corações generosos para nos enviarem qualquer quantia para o nosso caixão e para darmos uma pinga aos socios do Grupo Musical Tavaredense para solemnizar esse funesto dia. Desde já agradecemos, pedindo tambem ao Diabo - já se vê, porque creaturas da nossa força não podem ter lugar no Céu de Deus - que nos feche, para nunca mais de lá sahirmos as portas do Inferno, porque se nos deixam voltar a este miseravel mundo, onde ha tanta gente velhaca, teremos de usar esporas e um bom marmelleiro para passearmos na nossa terra sem receio.

         Como dissemos, a questão passou para o tribunal, tendo a acção, posta pelo Grupo, sido julgada em 1914. Infelizmente não conseguimos saber qualquer coisa sobre a sentença.

Mas a Sociedade, a quem esta questão não dizia respeito, prosseguia a sua acção teatral com a apresentação de alguns dramas e diversas comédias, que sempre agradavam e dispunham bem. Por sua vez, a escola nocturna registava sempre mais alunos a frequentarem as suas aulas.

Segundo os elementos que  conseguimos reunir, foi em Janeiro de 1913, no programa comemorativo de mais um aniversário, que começaram a ter lugar as chamadas sessões solenes que, a partir daquele ano, passaram a fazer parte regular das festividades comemorativas dos aniversários, e que atraíam a Tavarede imensas pessoas da Figueira e de outras localidades.

Às 15 horas começou a plantação de árvores no largo pertencente ao edifício, formando-se seis grupos, por tantas serem as árvores.Cada um destes grupos de rapazes encarrega-se do tratamento da planta que lhe coube em sorte e no fim do ano serão premiados os que maior zelo manifestarem no cumprimento da sua missão.
         A este acto, a que assistiu uma multidão de povo, vimos, com prazer, alguns homens, velhos, lançarem mão das pás e enxadas, ajudando afanosamente os rapazes na sua árdua tarefa. Belo exemplo!
         Às 16 horas, achando-se a sala repleta de espectadores, procedeu-se à sessão solene para a distribuição de prémios aos alunos mais aplicados e posse ao novo corpo gerente.
         Proposto pelo sócio sr. João dos Santos, para presidir à sessão, o sr. Dr. Manuel Gomes Cruz, iniciador da primeira escola nocturna em Tavarede há mais de treze anos e que posteriormente ficou a cargo da Sociedade de Instrução, foi por uma unânime salva de palmas aprovada esta proposta.
         Tomando lugar, o sr. Dr. Cruz nomeou para secretários os cidadãos João dos Santos e Manuel Jorge Cruz e, aludindo à criação da primeira escola nocturna em Tavarede, pôs em relevo os generosos serviços que a ela prestou o sr. João dos Santos. Prosseguindo no seu pequeno mas brilhante discurso, louvou as direcções que têm trabalhado pelo progresso da Sociedade de Instrução, enalteceu o valor da festa da árvore e incitou os que o escutavam a cooperarem sempre em obras de instrução, educação e civismo como aquela que ali se celebrava e que muito honrava Tavarede. Uma salva de palmas cobriu as suas últimas palavras.
         Erguendo-se para falar o sr. Dr. José Gomes Cruz, produziu-se na sala um grande silêncio. Começou por dizer que, sendo convidado para tomar parte numa festa tão simpática, na sua terra, acedeu da melhor vontade, e limitando-se apenas a dar uma lição de botânica. Não podemos, por falta de tempo e espaço, acompanhar o ilustre conferente que, durante mais de uma hora, prendeu, com bastante interesse, todo o auditório, usando de uma linguagem de fácil compreensão para todos. Concluiu por um apelo patriótico aos seus conterrâneos para que trabalhassem sempre no sentido de serem úteis a si e à Pátria. Ao terminar o conferente foi calorosamente ovacionado.
         Tomando a palavra o sr. Manuel Jorge Cruz, congratulou-se por assistir a tão simpática festa e por ter ensejo de ver que não foi inutilmente que ali, em algumas sessões idênticas, a que presidiu, aconselhou aos seus consócios a trabalhar pelo desenvolvimento daquela colectividade, que continuava a sua marcha desassombradamente, derramando a instrução nas classes pobres. Terminou incitando as crianças no estudo e mostrando-lhes as vantagens que obtinham instruindo-se, e recomendando-lhes com instância a guarda e tratamento das árvores que acabavam de plantar. Palmas da assistência.
         Fazendo de novo uso da palavra o sr. Dr. Manuel Cruz, refere-se ao carinho com que em algumas nações se tratam as árvores e elogia a dedicação de José da Silva Ribeiro pelo seu trabalho em prol da Sociedade, acabando por erguer um viva ao povo de Tavarede, que foi entusiasticamente correspondido.
         Encerrada a sessão, os alunos entoaram o hino escolar, ouvindo-se depois muitos vivas aos srs. Drs. Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel e José Cruz, Sociedade de Instrução, República Portuguesa, etc.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Morreu o Jorge!...

A notícia correu célere. O Jorge Monteiro faleceu há poucas horas.

Embora fosse aguardada, não deixou de chocar todos quantos com ele conviveram.
Era um dos sete filhos do casal Benjamim Monteiro de Sousa e Isabel Cordeiro. Casado com a nossa conterrânea Maria da Piedade Lontro, tiveram dois filhos, dos quais tiveram a infelicidade de perder, muito jovem, o rapaz. Ficou a Luísa. A toda a sua Família as nossas condolências.

Foi um incansável trabalhador na Sociedade de Instrução Tavaredense. Trabalhava nos bastidores, colaborando com Mestre José Ribeiro na montagem nas cenas. E, além dos cenários, era sempre o Jorge que se encarregava da montagem do antigo estrado, por cima da plateia, para a realização de festas.

Foi nosso companheiro na equipa de basquetebol da SIT. 

Mais um 'Tavaredense com história' que desaparece! Paz à sua alma e que descanse em paz.

Casamento do Jorge e da Maria

sábado, 6 de abril de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 17


        Na SIT, num espectáculo realizado no dia 6 de Abril de 1912, foi representada, além de uma comédia, uma revista sobre os usos e costumes da terra. Como dissémos, a Sociedade de Instrução realizou no sábado uma récita com a revista intitulada Na Terra do Limonete e a comédia Birras do Papá. Fazer uma revista de costumes de Tavarede, terra pequena, em que escasseia o assunto e há sobretudo o receio de melindrar as personalidades atingidas, não é tarefa muito fácil. Daremos, porém, em poucas palavras, a nossa humilde opinião: - os artistas compreenderam bem os seus papeis, imprimindo-lhes muita graça e naturalidade. A revista foi admiravelmente ensaiada por Vicente Ferreira. O cenário, obra de Jean Batout produz magnífico efeito. A música, composição de Gentil Ribeiro, tem números lindíssimos e boa execução e, já que falamos em música, não esqueceremos Eugénia Tondela e António Graça, que cantaram corretamente as canções que lhe foram destinadas. Houve aplausos em barda, especialmente na parte final (apoteose), em que D. Limonete estabelece o confronto entre o convívio deletério da taberna e a paz e a fraternidade que predomina no seio da Sociedade d’Instrução. No próximo sábado repete-se a revista.

          Apesar de terem começado a surgir diversos atritos entre as duas associações, ambos os grupos dramáticos continuaram a desenvolver intensa actividade. Enquanto a Sociedade prosseguia com a apresentação do programa acima, o Grupo fez representar o drama Crime e Honra e duas comédias A mala do sr. Bexiga e O cometa e o fim do mundo.

         Uma das questiúculas referidas, foi publicitada em Junho daquele ano. Algumas pessoas que haviam subscrito para a aquisição d’um relogio para a torre, tendo conhecimento da infame cilada de que foi vitima a benemerita Sociedade d’Instrução Tavaredense, aplicando-lhe uma multa por suposta transgressão da lei do selo, ofereceram generosamente essas quantias à diréção da referida colétividade para não onerar o cofre com que esta sustenta há anos as suas aulas nóturnas para as classes trabalhadoras.
         Com a generosidade das pessoas de bem, está satisfeita a ganancia dos beleguins fiscaes, única protéção oficial que a Sociedade tem recebido para prosseguir na sua missão d’instruir os pobres.

         Um agrupamento musical, que veio a dar origem à tuna do jovem Grupo Musical, foi actuar a vários locais, obtendo bastantes elogios. E, reatando uma velha tradição, organizou uma festa para comemorar o S. João, com um arraial, no Largo do Forno, que estava lindamente ornamentado e iluminado a acetilene e à veneziana.

         Em Agosto foi comemorado o primeiro aniversário do Grupo, de que recordamos esta nota: Foi dada posse á nova Direcção, e Annibal Cruz, n’um breve discurso, apoiou a florescente collectividade local, incitando a nova Direcção a trabalhar com o mesmo afinco como o fez a transacta, para seu engrandecimento e da nossa terra. Dirige algumas palavras de felicitação ao regente do Grupo, pela maneira incansavel como tem leccionado aos seus socios a sublime arte de Mozart e entrega-lhe um objecto de prata offerecido pela sympathica sociedade, que João da Simôa agradece commovido. Levantaram-se no final enthusiasticos vivas ao Grupo Musical de Tavarede, que foram unanimemente correspondidos.
          Executa-se em seguida uma valsa e sóbe o pano para Mario José recitar a excellente poesia patriotica Vinga pae!, que foi bastante applaudida. Com graça recita depois o monologo Eu cá não me ralo... o sr. Antonio Dias Cardoso, de Quiaios, e o sr. Americo Alvitro d’Abreu, habil amador portuense, cantou a engraçada cançoneta Rebenta a bexiga, que foi bisada. Não me amava, hilariante monologo que Izidoro Ladeiro disse com agrado.
         O nosso patricio e jovem amador Antonio Medina Junior recitou tambem uma poesia dedicada ás damas de Tavarede, que a assistencia applaudiu bastante.   Fechou o sarau dramatico a comedia em um acto O cometa e o fim do mundo, desempenhada por dois socios do Grupo. Ás 24 horas e meia principia o baile que terminou ás 7 horas de domingo.
        
         Ao lermos os jornais daq       ueles tempos, fomos surpreendidos com uma declaração, inserta num jornal em Novembro, três meses depois daquela sessão, da autoria de Aníbal Cruz, correspondente local de um periódico figueirense e que fazia parte dos corpos sociais do Grupo. Annibal Cruz declara, para os devidos effeitos, que pediu a demissão de secretario d’assembleia geral, como tambem de socio, do Grupo Musical Tavaredense, que lhe acaba de pagar com coices tremendos – não é de estranhar, porque já d’isso se queixavam pessoas illustradas e estimadissimas – os favores que lhe fez e mesmo por não querer estar onde predominam absolutos e ignorantes, que combatem a instrucção e apoiam o vicio da taberna!!!


         Faz esta declaração para que não o julguem elemento da cambada que incommóda a população da sua terra.

         Foi o início de violenta polémica que envolveu a jovem associação e seus directores, a qual acabou no Tribunal Judicial da Figueira. Porque está inteiramente relacionada com a colectividade, não podemos deixar de aqui inaserir algo da mesma.          Sr. redactor da Gazeta da Figueira – O Grupo Musical Tavaredense pede-lhe a fineza de publicar no seu muito lido jornal uma declaração justa e verdadeira, e não como uma egual que sahiu no seu jornal de 16 do corrente, feita pelo sr. Annibal Cruz, que mal empregado é este nome de Cruz em tal pessoa, por pertencer a uma familia tão digna com o mesmo nome. O nome mais acertado para este cavalheiro era de vadio. É pena que a policia o não tenha apanhado na rêde e leval-o para o canil, porque estão lá outros com mais raciocinio.
         Querem os leitores saber os sacrificios que este cavalheiro tem feito pelo Grupo, de que elle diz pedira a demissão, o que mente descadaramente? A demissão que elle diz ter pedido, queriamos nós dar-lh’a, talvez accompanhada com alguns P. na primeira occasião que elle entrasse á porta d’esta associação, devido a uma calumnia que elle levantou contra um rapaz digno, e compromettendo-nos a todos. Mas o garoto parece que adivinhou o que lhe succedia. O sacrificio foi este:
         Na fundação d’este Grupo, que tem apenas 15 mezes de vida, este cavalheiro foi pessoalmente offerecer-se para socio, o que muitos recusaram, outros acceitaram, apontando-lhe o seu prestimo, que era para ponto, mas que ponto este ponto sahiu! A fazer o que tem feito n’outras sociedades que tem sido desconsiderado. A pesar de tudo foi acceite, prestando em principio o seu serviço, depreciando, tratando pessimamente mal e a ridiculo, nas suas cartas de Tavarede, certos cavalheiros que para não sujarem as mãos o desprezaram como deviam, e agora, a estes mais escandalisados, anda elle como um cão submisso, ajoelhar-se aos pés, para lhe engraixar as botas. Pois do Grupo, desde a classe trabalhadora até ao mais elevado, lhe dão o desprezo que elle merece.
         Pois como iamos dizendo, devido ao seu trabalho, o que esse cavalheiro diz lhe pagarem com coices tremendos, foi unicamente apontar dois espectaculos, e depois voltou á mesma do costume e desprezando o seu cargo a que se tinha responsabilisado, tendo nós escolhido outro para exercer o seu logar.
         Decorreu algum tempo, approximou-se o anniversario do Grupo, e este cavalheiro encarregou-se de se fazer secretario da assembleia geral, o que acceitámos a custo, julgando que elle se regenerava, mas não aconteceu isso. Desde esse dia nunca mais frequentou este Grupo, porque a sua pousada era na Figueira, nos sitios mais vergonhosos, praticando acções ridiculas, a ponto de uzurpar ás infelizes algum dinheiro. Se quizer provas dão-se-lhe.
         O pouco tempo que está em Tavarede é para calcar a pés a sua doutrina do costume contra os taberneiros, e ainda no domingo, 10, pela ultima vez, em casa d’um dos taberneiros, estando elle com o vinho, praticou uma infamia, como filho nenhum de Tavarede, infamia esta que temos pejo de publicar por ser vergonha praticar-se na nossa terra.
         E chama-nos o garoto absolutos! O contrario. O absolutismo creou-se só para este cavalheiro. Faz e diz o que quer e ninguem lhe pede contas, porque não merece importancia. Merece só, como dizemos, de todos o desprezo como se dá a um cão vadio.
         Desde já, sr. redactor, lhe agradece muito penhorado o Grupo Musical Tavaredense.

sábado, 30 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 16


Rivalidades...
  
         No capítulo anterior fizemos alusão ao facto das divergências surgidas com a implantação do regime republicano. Na verdade, na Sociedade de Instrução Tavaredense era bem notória a enorme maioria deste partido, o que, naturalmente, levou à saída da colectividade todos aqueles que advogavam o liberalismo e, mesmo, o conservadorismo.

         Mas, não nos metamos em política. Prossigamos, antes, com a recolha dos elementos referentes ao associativismo tavaredense, que, aliás, tiveram ampla divulgação na imprensa figueirense.

         O grupo cénico da SIT, desfalcado de grande número dos seus amadores, alguns deles de primeiro plano, continuou a sua actividade, assim como a sua escola nocturna, com enorme frequência de alunos. Já quanto às outras actividades, como música, desenho e ginástica, não dispômos de elementos que atestem a sua continuidade, pelo menos nos primeiros tempos da nova década.

         No dia 28 de Janeiro de 1911, foi levado à cena novo espectáculo, com a apresentação de comédias e uma cena dramática da autoria do então jovem José da Silva Ribeiro, na qual apontava as misérias da sociedade, como a taberna, apontando a escola “como um templo onde se vai buscar a melhor das riquezas: a Instrução”. E em Março foi representada “a engraçada revista de costumes locais, intitulada Por causa do badalo, que manteve os espectadores em constante hilaridade”. Não conseguimos encontrar quaisquer vestígios desta revista.

         Entretanto, em Março, a imprensa noticiava que dizem que vai fundar-se nesta localidade um centro democrático. Era uma nova associação, promovida pelos dissidentes da Sociedade de Instrução, que estava em embrião. Por ocasião da Páscoa foi representado o drama Jocelyn, o pescador de baleias. Registe-se que o ensaiador do grupo cénico era Vicente Ferreira, também amador dramático.

         E no dia 12 de Agosto de 1911, era publicada a seguinte nota: O Grupo Musical desta localidade reuniu num dos últimos dias na sua sede para tratar de vários assuntos. Quer dizer, a nova colectividade, fundada sob a égide dos irmãos José e António Medina, apesar de ter sido dada como fundada no dia 15 de Agosto, já reunia antes desta data, tendo começado, como primeira actividade, uma aula de música com a direcção de João Jorge da Silva.

         A sede da nova associação, que foi denominada Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, foi instalada na loja do prédio de Romana Cruz, junto ao Largo do Paço. E, enquanto ensinava música e ensaiava o seu primeiro grupo musical, era construído um pequeno teatro, pois desejavam iniciar as representações teatrais.

 



Largo do Paço.
A sede do Grupo foi instalada
 no segundo prédio, à esquerda

Enquanto realizavam estes preparativos, o grupo cénico da Sociedade de Instrução continuava cheio de actividade. Depois do drama A tomada da Bastilha (o desempenho foi magnífico, sabendo os distintos amadores arrancar à plateia prolongadas salvas de palmas), outras peças se seguiram, obtendo sempre, segundo a imprensa, os melhores elogios.

Pelo Natal, e embora com as instalações em obras, a direcção do Grupo Musical realizou uma conferência de propaganda democrática, inaugurando a exposição dos retratos de Alfredo Keil (um dos autores do novo hino nacional) e do dr. Afonso Costa, um dos principais elementos do novo regíme.

Também a associação do Terreiro, nas festas comemorativas do seu 8º. aniversário,
em Janeiro de 1912, expõe na sua sede os retratos do dr. Manuel de Arriaga, presidente da República, e do benemérito João dos Santos, um dos fundadores da escola nocturna.

         Foi no dia 17 de Fevereiro que abriu as suas portas a nova colectividade. Em Tavarede inaugurou no último sábado um elegante teatrinho o Grupo Musical recentemente fundado n’aquella localidade. Pronunciou algumas palavras de saudação o sr. Aníbal Cruz, que no final foi aplaudido, sendo-lhe oferecido um bonito bouquet de flores naturaes, assim como outro ao regente do Grupo, sr. João Jorge da Silva. Representaram-se com agrado as magníficas comédias O Senhor, Hospedaria do Tio Anastácio e Amo, creado e creada, sendo todos os amadores, especialmente os srs. José e António Medina, bastante aplaudidos. Sobressaíam nas paredes do teatro, além dos retratos dos eminentes estadistas drs. Afonso Costa e Bernardino Machado, o do ilustre filho de Tavarede, sr. dr. Manuel Gomes Cruz, envolto na bandeira nacional. No domingo repetiu-se o espectáculo que foi, como no sábado, muito concorrido. Sábado representar-se-ão as mesmas comédias e As Influências eleitoraes. E como recordação, aqui citamos os amadores que participaram na primeira peça representada pelo novo grupo dramático, a comédia O Senhor: Clementina Proa, Clementina Fadigas, António Medina, Joaquim dos Reis, Faustino Ferreira e José Medina.

sábado, 23 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 15


Os corpos directivos da associação procuravam, sempre com as melhores intenções, alargar as funcionalidades da colectividade. Além da escola nocturna, inteiramente gratuita, procuravam ajudar as crianças mais desfavorecidas, às quais forneciam livros e utensílios escolares e, nalguns casos, ajuda financeira, também tentaram concretizar uma caixa de socorro mútuo, para auxílio em ocasiões de doença.

         Na assembleia geral convocada para este efeito, e depois de vários sócios terem procurado demonstrar a utilidade desta caixa, foi a proposta votada. Procedendo-se à votação sobre se deveria ou não crear-se a caixa de socorro mutuo, foi esta rejeitada por grande numero de votos. Respeitando o modo porque os outros vêem as coisas, temos comtudo a notar que os socios que reprovam a fundação da caixa foram justamente aqueles que mais careciam d’ela. Sustentaram a opinião a favor da creação da caixa de socorro, Manuel Cruz, Silvestre Monteiro e João dos Santos, isto é, os que só contribuiriam, como outros, com a sua quota, tendo apenas como recompensa a satisfação de impedir que os seus consocios, acometidos pela doença, tivessem de estender a mão à caridade.
         Nota triste: O dono d’um estabelecimento de vinhos reprovou a creação da caixa porque o sr. Silvestre Monteiro, falando àcerca do aumento de quotas, disse que esse aumento seria tão insignificante que representava apenas um copo de vinho que bebiam a menos, na taberna, aos domingos. Nem todas as verdades se podem dizer, sr. Silvestre. Por agora apanhou um reprovo rechonchudo; para outra vez arrisca-se a ser corrido à pedrada. Todavia, não tire o lápis da orelha, pronto a assinar as subscrições a favor d’individuos prostrados pela doença e na mais extrema pobreza.

         Foi pena, mas, na verdade, não acreditávamos que fosse possível fazer vingar a pretendida “socorros mútuos”. Bem sabemos que, sendo a terra pobríssima, poucos recursos se poderiam obter.

         Prosseguiram as récitas do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. A colectividade, graças à dedicação e ao esfôrço dos seus dirigentes e associados, estava definitivamente firmada. As principais actividades desenvolviam-se cada vez mais. Os objectivos que haviam levado à sua fundação tinham sido conseguidos.

 

        
João dos Santos Júnior -Professor da aula de ginástica

         Antes de terminarmos a nossa digressão pela primeira década do século vinte, ainda vamos recordar um espectáculo realizado em fins de Março de 1910, do qual transcrevemos a notícia.         Abriu o espectaculo com a comedia-drama em um acto, Raros são... mas ainda os há, desempenhada por Eugenia Tondella, e por Antonio Graça, João d’Oliveira, Jayme Broeiro e Joaquim Terreiro. Todos se houveram muito bem não lhes faltando por isso os justos applausos da plateia.
         Seguiu-se o terceto As Tres Coquettes, em que os petizes Antonio Medina, José Cordeiro e Fernando Ribeiro, souberam arrancar aos espectadores muitas palmas. Antonio Augusto de Carvalho disse com muita graça a cançoneta Ai, tenho medo, e João d’Oliveira o monologo Zé Cardina, conservando sempre os espectadores em hilaridade. Tivémos depois a engraçada comédia em 1 acto, Ambos livres, desempenhada por Antonio Augusto de Carvalho, Armenio dos Santos e Antonio Cordeiro, que teve, como era de esperar, bom desempenho, tanto mais que se tratava da estreia d’estes dois ultimos amadores – Armenio e A. Cordeiro.
         Antonio Augusto tirou partido do seu papel, d’um experiente proprietario de hospedaria, que de vez em quando não desgostava de ferrar... a unha; Armenio, um bom Serapião que quis arranjar noiva á força, não pensando nas consequencias do casorio; soube manter a plateia em vivo interesse pelo desfecho da comedia que, na verdade, era algo interessante, e de tanta graça que até elle proprio se esqueceu de que estava no palco, ria ás escondidas pensando na situação critica em que ia ficar ante o primeiro marido de sua mulher; e A. Cordeiro, um Pantaleão Tenreiro que nada tinha nem em nada se parecia com Napoleão III, contente só depois de jogada a carta e dividida a fortuna, despertou risota aos espectadores.
         Terminou o espectaculo com a comedia em um acto O Tio Matheus, desempenhada por Eugenia Tondella, e por Antonio Medina, João d’Oliveira e Jayme Broeiro, sendo tambem novamente applaudidos. A orchestra, que estava excellente, tocou algumas lindas peças de musica, sob a direcção do habil amador sr. Gentil da Silva Ribeiro. Felicitamos os amadores, especialisando os debutantes, e a direcção da Sociedade d’Instrucção Tavaredense por levar a effeito tão agradavel récita.

         Chegou, entretanto, o dia 5 de Outubro e a implantação da República. Até então, todas as ideologias estavam esquecidas ou adormecidas. A única luta que a colectividade desenvolvia era contra o analfabetismo e pela cultura e educação dos tavaredenses. Mas, com a liberdade que o novo regime trouxe, foi inevitável o ressurgimento de tais ideologias e a propagação dos ideais de cada um. Relativamente ao Associativismo, atrevemo-nos a dizer que as convulsões provocadas na nossa terra, acabaram por ser benéficas, pois trouxeram um incremento notável nos campos sociais e culturais. Adiante procuraremos esclarecer esta nossa afirmação.

         Não queremos, contudo, deixar estes dez anos sem mais uma transcrição. É do jornal ‘Gazetas da Figueira’, do dia 12 de Novembro de 1910. -     O CAVADOR E A SIT -
         O trabalhador é o braço forte do rico proprietario, porque este sem elle não terá o celleiro e a adega a trasbordar. É do cavador que eu quero falar, d’esse operario que nenhuns direitos tem, o que menos instruido é, o que trabalha incansavelmente para garantir á familia o pão d’ámanhã. D’esse operario que cava a terra para fazer sahir d’ella loiras estrigas e que tem por lar uma casa infecta, onde vê morrer de fome os filhos.
         Por toda a parte o cavador é dos operários que mais vive nas trevas da ignorancia, sendo raro o que frequenta a escola e o que manda para ella os seus filhos. A escola d’elles é a taberna, esse covil de vicios e de crimes, onde todas as noites se juntam para jogar.
         Já o temos dito muitas vezes e hoje repetimol-o: a taberna é o grande mal das classes trabalhadoras, porque é n’ella que o operario vae gastar – jogando e embriagando-se – o que ganha durante uma semana para sustentar a sua familia, que, faminta, se vê morrer n’uma casa infecta, victimada pela terrivel tuberculose.
         Os meus patricios, esses escravos que de madrugada, descalços, de enxada ao hombro, encolhidos de frio, caminham para o seu trabalho, não comprehendem bem o que é a taberna, porque se o comprehendessem veriam n’ella todos os males da sociedade, todas as ruinas do operariado, e trabalhariam logo para a demolir.
         Quereis passar bem as aborrecidas noites de inverno? Ide para a associação, porque n’esta localidade há uma, que muitas terras mais civilisadas do que a nossa, não possuem. Terão n’ella uma escola para aprenderem a lêr, arrancando se assim da sombra da ignorancia em que se envolvem, e para então comprehenderem os vossos deveres; terão um bom theatro para passarem algumas noites com vossas familias em fraternal alegria, como tambem se instruem, porque o theatro é uma escola.
         É a Sociedade d’Instrucção Tavaredense a única associação que temos aqui, por isso todos os trabalhadores devem dar-lhe o seu apoio, reunindo-se n’ella todas as noites e fazendo os seus filhos frequentar a escola, affastando-os o mais possivel das casas dos vicios.
         Sabemos que esta benemerita aggremiação dará esta época uma série de récitas aos seus associados, sendo muito breve a primeira com o sensacional drama – A Filha do Saltimbanco, que será desempenhada por alguns moços d’esta localidade e da Figueira.
         A boa vontade da direcção da Sociedade d’Instrucção Tavaredense merece os applausos de todos aquelles que desejam vêl-a progredir. Para a Associação, pois, trabalhadores, porque é ella a nossa escola, onde devemos, primeiro de tudo, instruirmo-nos para que, n’uma patria nova, como a nossa, possamos ser cidadãos conscientes!

sábado, 16 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 14


No princípio de Fevereiro, ainda integrada no programa comemorativo do primeiro aniversário, foi levada a efeito uma nova festa dedicada à escola nocturna. Começou a festa pela distribuição de prémios a dez alumnos que mais se distinguiram pelo seu aproveitamento nas aulas nocturnas durante o anno findo. Os premios conferidos constavam de livros instructivos e aos alumnos extremamente pobres foram dados vestuarios. Não podemos descrever a impressão que este acto causou a todos os espectadores especialmente quando foram apresentadas as creanças orphãs e pobresitas. Vimos as lagrimas deslisarem pelas faces de muitas pessoas.
         Findo esta edificante ceremonia, subiu o panno para a exhibição da opereta n’um acto - Casamento da Grã Duqueza - seguindo-se-lhe o terceto - Dó-Ré-Mi -, a scena comica - Desabafos do Zé Leiteiro -, o monologo - O espinho -, e as comedias - Dois estudantes no prego, e Milagre de Santo António. Todas as peças estavam muito bem postas em scena e o desempenho, por parte de todos os amadores, foi magnifico. A musica, composição do sr. João Prôa, é lindissima, muito adequada, e a sua execução pela orchestra regida pelo mesmo senhor, foi magistral.

         Em Março começou a funcionar ‘uma aula de rudimentos de música’ e, também ‘um curso de desenho’. Procurava-se, desta forma, diversificar as actividades da jovem associação, procurando atrair cada vez mais crianças e adultos, a quem ministrar a educação e a instrução.



 Fradique Baptista Loureiro 1º. Presidente da Direcção da SIT

A primeira opereta que o grupo cénico apresentou, em Abril daquele ano, foi muito apreciada. ‘Bom desempenho por parte de todos os amadores (Vida Airada), que conservou os espectadores em constante hilaridade. Orquestra magnífica. A ornamentação da sala produzia belo efeito’.

A actividade teatral iniciava-se em Outubro, quando as noites começavam a serem maiores, com os ensaios das peças que seriam representadas por ocasião do Natal. É curioso o facto de que, sendo os Autos Pastoris uma das tradições mais antigas da nossa terra e cuja apresentação era sempre tão ansiosamente esperada, nunca tenham sido levados à cena pela Sociedade de Instrução. A tradição seria retomada anos mais tarde, mas por outra colectividade, como depois veremos.

Chegados a 1906, foi comemorado em Janeiro o segundo aniversário da associação. Na respectiva assembleia geral, além da eleição dos corpos gerentes, foram aprovadas as contas apresentadas pela direcção. Foi tão rigorosa e honesta a sua administração, que apesar de subirem a mais de 100$000 réis as despesas que fez durante o ano com a instalação aperfeiçoada das aulas, iluminação, etc., apresenta um saldo favorável de 81$000 réis. Não conseguimos encontrar o registo do programa das festas, pelo que se desconhece quais as peças representadas nas récitos realizadas, embora as notícias referenciem ‘bom desempenho por parte de todos os amadores e aplausos em barda’.


     
 Manuel Jorge Cruz
Primeiro presidente da Assembleia Geral e
autor do Regulamento Interno da SIT

          Temos nota de que em Abril de 1906 terá sido representado o primeiro drama por este grupo cénico, com o título de Gaspar, o serralheiro. Por essa ocasião, também começaram a ser ministradas aulas de ginástica. Temos consciência que, nalgumas ocasiões, seremos maçadores. Mas, pelo menos nos primeiros tempos, julgamos conveniente dar a conhecer a actividade da escola nocturna e do grupo cénico, sabendo nós a importância que acabaram por ter no desenvolvimento cultural do povo tavaredense.

         Assim sendo, encontrámos publicada num jornal figueirense, em 9 de Maio de 1906, a notícia de mais uma festa escolar. Sucedeu o que previramos – a festa escolar d’hontem deixou-nos as mais agradaveis impressões. Por volta das cinco horas da tarde saiu da séde da benemerita Sociedade d’Instrução Tavaredense o numeroso cortejo d’alumnos das escolas locaes e levando à frente o seu carro de munições simulando um cabaz, formado de arbustos e flores e respeitosamente guardado por seis destemidos alabardeiros. Fechava o préstito a musica da terra executando um bonito ordinario.
         Chegando à quinta do sr. Luiz João Rosa, ali, na pitoresca mata, acampou o grande exercito de creanças d’ambos os sexos, sob o comando dos seus dignos professores. Foi-lhes servida pelos membros da comissão de beneficencia uma ligeira refeição a que a rapaziada, com grande apetite, soube fazer as honras, sempre em alegre convivio. Era imponente o efeito que produzia aquele irrequieto arraial, de que foi tirada uma fotografia. Anoitecendo, regressou o cortejo ao teatro aonde se ia realisar o sarau, que abriu pelo himno escolar cantado por todos os alumnos. Em seguida, usou da palavra o sr. Manuel Jorge Cruz. Incitou as creanças a dedicarem-se ao estudo, mostrando-lhes as vantagens que d’ahi advem e indicando-lhes o melhor caminho a seguir no futuro, sobretudo pelas responsabilidades que lhes cabem como futuros chefes de familia. Falando àcerca do desenvolvimento da instrução em Tavarede, referiu-se com muita justiça à benemerita Sociedade d’Instrução Tavaredense,  e à ilustre professora oficial a ex.ma srª. D. Amalia de Carvalho, que não só se notabilisa pelas suas belas qualidades de trabalhadora infatigavel em prol da instrução, mas tambem pela maneira carinhosa como trata sem distinções as creanças que frequentam as suas aulas. Terminou aconselhando os paes a mandarem os filhos às escolas. Lidos por alguns alumnos trechos clássicos e recitadas poesias alusivas à festa, foi de novo cantado o himno. Todas as creanças foram muito aplaudidas ao terminarem a leitura dos trechos que lhe couberam e que, àparte o acanhamento próprio de quem se apresenta em auditório tão numeroso, se desempenharam muito bem da sua missão, lendo corrétamente.
         Depois de pelo antigo aluno da aula nóturna e actualmente n’ela professor, sr. Antonio Graça, ser recitada a poesia Escola da Musa da Infancia, que disse muito bem e pelo que ouviu bastos aplausos, apresentaram-se no palco os alunos da escola nóturna que desempenharam com muita precisão alguns exercicios de ginastica suéca. O seu instrutor, sr. João dos Santos Junior, foi delirantemente aplaudido. José Medina representou com muita graça, como de costume, a sena comica – Joaquim Chainça. José Cordeiro Junior recitou com corréção a poesia – Lágrima, de Guerra Junqueiro, terminando o sarau pelo entre-áto comico – Cabo d’ordens, representado por José e Antonio Medina, sendo muito aplaudidos.
         Durante o dia a fachada do edificio do teatro esteve embandeirada. A sala, muito bem ornamentada com arbustos, flores e livros, produzia bonito efeito. O teatro achava-se repléto de espétadores contando-se entre eles as pessoas mais gradas da localidade e a colonia balnear. A orquestra, composta de muitos e bons musicos, satisfez os mais exigentes.

sábado, 9 de março de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 13


Foi este pequeno recorte que encontrámos sobre o nascimento da nova colectividade à qual foi dado o nome de Sociedade de Instrução Tavaredense. “A iniciativa foi recebida com aplauso e secundada com entusiasmo. Logo as pessoas mais em destaque da localidade lhe prestaram apoio, e aos 14 sócios fundadores outros se juntaram”, escreveu Mestre José Ribeiro, no seu livro ’50 Anos ao Serviço do Povo’.

         Mas, na verdade, achamos muito estranha a informação acima e referente aos 14 sócios fundadores. Vejamos as cópias que inserimos:


Ora, se atentarmos nestas reproduções, o documento é autêntico, tem a data de 1903 e encontra-se exposto na colectividade, houve uma movimentação entre os tavaredenses para recolha de assinaturas para a constituição de uma nova: “Os abaixo assinados combinaram em organizar uma sociedade que tenha por fim a instrução e convidam V.Sª. a assinar o seu nome, caso queira pertencer a essa sociedade”. E como igualmente se pode verificar a data é bastante anterior à da fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense.

         No entanto, a acta da fundação da nova associação, só é assinada pelos catorze primeiros e só eles foram considerados os fundadores. Terá havido algum motivo, legal ou não, que a isso obrigasse? Não sabemos, mas vejamos a acta da fundação:

 Extraída do livro ’50 Anos ao Serviço do Povo’

         Estava, assim, fundada a nova associação tavaredense. As anteriores experiências certamente que terão sido de muita utilidade, tendo-se ali agregado os mais entusiastas, tanto da Estudantina como do Grupo de Instrução e, até, do mais anterior Bijou. E, note-se, estava garantida a continuidade da escola nocturna, pois de imediato se procedeu à activação de um grupo cénico, cujos espectáculos teriam a principal finalidade de angariar fundos para a sua manutenção.

         Em Agosto de 1904, na imprensa figueirense, lê-se a seguinte nota:         A direcção da benemérita Sociedade d’Instrucção Tavaredense, que sustenta todo o anno uma escola nocturna que é frequentada por grande numero de adultos e creanças, tenciona, no proximo inverno, promover algumas recitas particulares no theatro aonde se acha installada a mesma aula.          N’estas recitas terão entrada apenas as familias dos associados. Ainda no início da sua actividade e já o correspondente local apelidava de ‘benemérita’ a jovem colectividade.

         Os ensaios teatrais iniciaram-se em Outubro. A estreia do novo grupo cénico, (4 de Dezembro) anunciada na imprensa a 1 de Dezembro, teve o seguinte programa:         É no próximo sabbado a festa promovida pela benemerita Sociedade d’Instrucção Tavaredense, no theatro onde se acha installada. Além de varias cançonetas, vão a scena as comedias – Os Medrosos, Paschoa e Quaresma, Livrem-se lá d’esta!... e o entreacto comico – Quarto com duas camas.        Fez-se a experiencia da illuminação a gaz acetylene tendo magnifico resultado. Dizem-nos que a orchestra se compõe de numerosos e bons executantes. Tudo nos faz prever uma festa brilhantissima e a que só é dado assistir os associados e suas familias.

         De registar que, segundo notícia de 8 de Dezembro, a comissão liquidatária da Estudantina Tavaredense tinha reunido “liquidando os seus haveres a contento de todos os associados”. O seu estandarte ficou em poder da Sociedade de Instrução, onde ainda se encontra.

         E no dia 15 de Janeiro de 1905 foi comemorado o 1º. aniversário da S.I.T. Para recordação da efeméride, aqui transcrevemos uma das reportagens publicadas.        Passou no domingo, 15, o 1º. anniversario da fundação da Sociedade d’Instrucção Tavaredense. Por este motivo conservou-se durante o dia embandeirada a fachada do edificio onde se acha installada tão benemerita collectividade, e à noite, reunida a Assembleia Geral, foram presentes as contas do anno findo. Por ellas se vê que a direcção, apesar das avultadas despezas que fez com a installação das aulas, gabinete de leitura, etc., administrou com tanta economia que ainda passa ao anno futuro um saldo de 35$080 reis.
         Procedeu-se em seguida à eleição dos corpos gerentes que ficaram assim constituidos: Assembleia Geral – Presidente, Manuel Jorge Cruz; vice-presidente, João Miguens Fadigas; 1º. Secretario, Manuel Lopes d’Oliveira; 2º. Dito, Antonio da Silva Coelho. Direcção – Presidente, Fradique Baptista Loureiro; vice-presidente, José Luiz Motta; 1º. Secretario, José Maria Cordeiro Junior; 2º. Dito, Cesar da Silva Cascão; thesoureiro, Antonio Luiz Motta; Vogaes, Manuel dos Santos Vargas e João Jorge da Silva; substitutos, Manuel Fernandes Junior, Antonio Jorge da Silva, José Fernandes Serra, João d’Oliveira e Antonio Medina. Conselho Fiscal – Manuel Nunes d’Oliveira, Joaquim Saraiva e Saul Gaspar de Figueiredo.
         Pelo sr. José Rodrigues da Fonseca foi proposto um voto de louvor à direcção cessante, sendo unanimemente approvado pela assembleia. De todas as agremiações que em Tavarede se teem fundado, é esta, incontestavelmente, a que conta com melhores elementos de vida. Pelo seu estado florescente, pelo augmento successivo d’associados e sobretudo pelo fim altruista para que foi creada, previmos um largo futuro a esta colectividade, sustentada por homens dotados dos melhores sentimentos e que desejam unicamente elevar a sua terra, não se poupando a fadigas e despezas para conseguirem – derramar a instrucção e afastar da taberna muitos d’aquelles que ali procurariam o seu passatempo em libações e jogatinas perigosas.
         Quem entra n’aquelle sanctuario, à noite, fica surprehendido pela bella disposição de todas as dependencias: n’uma sala a aula d’alumnos menores, em grande numero; n’outra a aula de maiores, infelizmente menos frequentada; n’outra, gabinete de leitura; n’outra, exercícios de musica, e no tablado cultiva-se a arte de Talma. Na melhor ordem, respeito e alegremente, todos trabalham. D’entre as trinta e cinco creanças que se encontram todas as noites postadas às suas carteiras, destacam-se duas vestidas de preto. São orphãos. O pae, um bom exemplo de trabalhador, morreu há pouco tempo na enxerga d’um hospital, deixando a sua numerosa prole na mais extrema pobreza. Faltou-lhes o pae, mas lá está a Santa Caridade abrigando-os sob o seu manto. Com o maior carinho e boa vontade, ali lhes ministram a instrucção que carecem.
         Muito haveria que dizer ácerca d’esta instituição, mas ficaremos hoje por aqui, fazendo votos para que a benemerita Sociedade d’Instrucção Tavaredense prossiga desassombradamente no honroso caminho que encetou, e não lhes faltará o apoio de todos os que amam o desenvolvimento da instrucção pelas classes desprotegidas.