sábado, 22 de junho de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 28

Mas, e porque a história não é só feita de elogios, igualmente aqui inserimos uma crítica referente à representação da opereta Os amores de Mariana, na Figueira. O meu vizinho Roque Maleitas, que teve artes de arrancar-me por algumas horas ao meu pacato isolamento na noite de 13 do corrente para ir ao Parque ver Os Amores de Mariana, opereta desempenhada pelos amadores dramáticos da Sociedade de Instrução Tavaredense, surgiu há pouco à minha porta brandindo com indignação e cólera um número do Figueirense. Indagada a causa daquele insólito estado de alma, Roque Maleitas, sempre bufando e apontando com dedo sinistro a 5ª coluna da 2ª página da já citada luminácia, desabafou nestes termos:
         = Tome lá! Leia! Leia as pachonchadas dum tal A P. Veja o desplante do farçola! Parece mordido da tarântula ou que recebeu requerimento para dizer mal de tudo por conta alheia!
         = Oh! Homem de Deus, sossegue, aplaque essas iras e conversemos tranquilos como bons vizinhos e amigos. O homemzinho não há de ser tão mau que ache tudo péssimo. Ora vamos lá a ver isso.
         Após lida com a atenção que o caso requeria a crítica teatral do sr A P, eu, para julgar com imparcialidade e justiça, chamei em meu auxílio as minhas impressões do espectáculo, e, confrontando-as com as manifestadas no Figueirense, declarei ao amigo Roque que na verdade não concordava com aquelas opiniões, embora fôssem abalizadas, a julgar pelo tom catedrático e categórico, que é de morrer a rir como a Maria Rita. (Por tamanha ousadia peço, curvado e reverente, tôda a desculpa a êste conspícuo Sarcey, mas tenho por hábito pensar pela minha cabeça e pôr sempre de lado sentimentos que possam influir no meu ânimo. A minha acanhada capacidade não permite ir tão longe quanto eu desejaria, mas conservo sempre presentes as nobres e altivas palavras de Juvenal: Vitam impendera vero – consagrar a vida à verdade!).
         Vou pois, vizinho Roque, com a franqueza e lealdade que se devem a um amigo, dizer de minha justiça e fazer a contestação dos erróneos pontos de vista do crítico A P, que se me afiguram castelos de cartas, derrubáveis com um leve sôpro.
         Pela leitura inteira do relato salta logo aos olhos que o crítico A P mete o bedelho e aprecia duma assentada a parte literária da peça, a parte musical e orquestral e emfim a parte puramente scénica. Apre que é ter talento como o diabo! Outro que não A P, com tanta competência às costas por certo que largaria asneira nalgumas das ditas partes. Mas o perentório A P não esteve com meias medidas, largou a dislatar a torto e a direito.
         = Vizinho e amigo, observou Roque Maleitas, agora que estão em moda as designações por iniciais, as dêste figurão não poderiam traduzir-se por Asno Perfeito? Que lhe parece?
= Amigo Roque, tanto pode dar-se essa tradução como outra adequada. Eu, sem repelir a que lhe dá, que fica a matar, optaria pela de: - A P – a pedido – e cá tenho as minhas razões. Mas nada de divagar e deixe-me dizer-lhe o que penso.
         Em tôdas as operetas, ainda as mais cuidadas, como o Solar dos Barrigas, o Burro do Sr. Alcaide, a Noite e Dia, Os Sinos de Corneveille e outras, o entrecho, a efabulação, emfim a parte meramente literária resumem-se em fantasias quási sempre ilógicas, desenrolando-se e caminhando a acção com o fim evidente de exibir música, e para isso não se despreza o mais insignificante episódio. Os Amores de Mariana, produto dum artista sem mira a ostentar resplendor na cabeça, é uma peça modesta, sem pretensões e portanto imerecedora duma crítica ríspida, tão radical e exterminadora que a todos se afigura feita de encomenda. Para que evocar nêste caso o Barão de Antanholes, que não é uma peça inteiriça, nem vinca cousa alguma, como conselheiramente declara o A P? Ninguém leva a mal ao exigente crítico a familiaridade com as operetas do sr. Pereira Correia. Nesse ponto goza de tanta liberdade como certos animais importunos... Depois, amigo Maleitas, afirmar que Os Amores de Mariana têm passagens pouco decentes é mostrar desconhecimento da Giroflé – Giroflá, da Perichole, da Mascote e tantas, tantas. Cá por mim não lhe vi cousas próprias a provocar caretas a um pater – familias ou a fazer córar uma donzela beiroa. Com tão assanhadiço pudor não deve o austero Aristarco pôr os pés no teatro mas deve ficar em casa bebendo capilé de cavalinho e lendo a Imitação de Cristo. Referindo-se ao desempenho, repare o amigo Roque, o tremebundo crítico manobrou uma rêde varredura! Por magnânina complancência escaparam Helena de Figueiredo e António Coelho; mas não poupou da indispensável ferroada. Para mim, meu estimável vizinho, Helena tem mais do que jeito, tem compreensão, apresenta-se sem bisonho acanhamento, possui voz maleável, canta agradavelmente, e bem melhor que várias belfécias que às vezes nos impingem as secções dramáticas da Figueira, que em questões de recta pronúncia, metem num chinelo o Padre António Vieira.
         António Coelho pode desafrontadamente pedir meças aos esperançosos amadores em que A P descobre futuros Talmas. Tem intuição clara das situações e não merece na scena da embriaguês o reparo sandeu. Jaime Broeiro, que é um amador caracteristicamente cómico, apreciável; António Silva, que exibiu um morgado típico; Idalina Fernandes, que em scena não deixa surpreender a mais passageira gaucherie, e os demais rapazes só mereceram do peitado crítico o esmagador ditame: Nada mais se aproveitou!
         Este articulista de afirmações acácias, as quais não passam de lérias pacóvias, não compreende nem avalia o esfôrço pertinaz, o trabalho paciente e exaustivo, quási heróico, de preparar criaturas, umas insuficientemente cultas e outras mais ou menos rudes e pô-las em condições de se exibirem em público. Não compreende nem avalia esse trabalho colossal, e daí o artiguelho inábilmente acintoso, verdadeira cornucópia de baboseiras, despejadas com ares doutorais. Sentenceia êle que a marcação lhe parece deficiente. Vê-se que disso não percebe êle nada e nem sequer sabe o que seja marcação. Melões confunde com batatas. Desconfio, amigo Maleitas, que tôda em burundanga visa o José Ribeiro, que é o ensaiador. Suponho que errou o alvo e perdeu o seu tempo e feitio, porque êste belo rapaz tem como lema o conceituoso provérbio árabe: “Os cães ladram mas a caravana passa”.
         Asseguro-lhe meu prezado Maleitas, que não é hercúlea empresa desfazer o resto da meada de estultas frioleiras dêste Aristarco pataqueiro, mas a conversa já vai longa. Não quero todavia deixar sem reparos a preciosa observação, talvez um pouco ousada que reza da forma seguinte: “Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrôjo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior”.
         Apesar de residir neste velho Buarcos, você sabe, amigo Maleitas, que a tal cidade disfruta a justa fama de ser um imenso foco de civilização, um copioso alfôbre de sábios e de altas mentalidades, que em crítica de arte são bem mais exigentes que os dilettants do teatro Scala, e tanto assim que amadores ensaiadores (todos em primô-castello!) são criaturas que deram as suas provas passando em seguida à categoria de notabilidades consagradas. Os habitantes de Tavarede e do resto do concelho são todos bárbaros e selvagens. Como o vizinho leu, o crítico encapotado achou cediça a música coordenada à ligeira e interpretada deficientemente. Foi realmente um êrro de palmatória, é preciso confessar, porque a opereta, popular e despretenciosa como é, devia ser ornada com música dos Huguenotes ou do Barbeiro de Sevilha, e interpretada, está bem de ver, por artistas da envergadura da Patti, da Borghia Mamo e do Caruso.
         Terminando, amigo Maleitas, e sério, sério, acho muito mais decente e honesto, mais digno de elogios e incitamentos que o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense empregue em coisas teatrais o tempo que tira aos seus labores ainda com o risco de sofrer as zagunchadas de zoilos peitados e de língua corrosiva, em vez de seguir o exemplo da jeunesse doirée dos finitos de papo-sêco que desperdiça os seus ócios nos gineceus da R. da Cêrca e nos santuários recônditos da batotinha amena.
         De resto, vizinho e amigo Maleitas, que assistiu à representação da modesta opereta, abismado com o severo julgamento dêste crítico plugúrrio, aplicará ao mesmo a sublime quadra, que bem assenta em casos tais:
                                      Pilriteiro que dás pilritos
                                      Porque não dás coisa boa?
                                      Cada um dá o que tem
                                      Conforme a sua pessoa.

         Sr. Director, pela publicação destas linhas, que pretendem simplesmente fazer um pouco de justiça a quem a merece e enfreiar filáucias mal intencionadas, ficar-lhe hei sumamente grato. Um leitor da “Voz”.


sábado, 15 de junho de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 27

Passemos, agora, à inauguração da nova sede com a transcrição de uma das reportagens relativas a este acto. É um pouco longa, é certo, mas julgamos que não poderíamos omitir este acontecimento do associativismo em Tavarede.

Embora tardiamente, pois já vão volvidos mais de oito dias, não queremos nem devemos deixar no olvido a noticia das festas que o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense levou a efeito nos dias 20, 21 e 22 do mez corrente.
É certo que pouco mais podemos adiantar que o digno redactor deste jornal que a eles assistiu. No entanto, e na qualidade de seu correspondente nesta encantadora aldeia - que nos foi berço e por quem nutrimos aquele inabalável amor de bairrista que se presa - no entanto sempre nos queremos ocupar de tão palpitante assunto - não passando, todavia, o nosso propósito, de noticia lacónica e despretenciosa.
Devemos principiar por dizer que o Grupo Musical e d’Instrução, organizando, para os seus festejos, um programa fora do vulgar, o cumpriu á risca, ou antes, ainda o ampliou para melhor. Assim, podemos afoitamente dizer - sem receio de desmentidos - que ainda se não fez em Tavarede uma festa associativa tão simpática e tão completa como a que o Grupo Musical agora levou a efeito. Sim, senhores, honra lhes seja!...
No dia 20, á noite, teve lugar um sarau musico-teatral, que constituiu um galhardo serão. Apresentou-se a tuna no palco que executou, sob a proficiente direcção do maestro sr. Pinto d’Almeida, nosso particular amigo, um repertório escolhido, que a numerosissima assistência se não cançou de aplaudir. Um grupo de gentis senhoras e de loiras criancinhas surgem no palco, com muitas fitas de seda, para serem colocadas no estandarte glorioso da colectividade em festa que tem estampado um soberbo e honroso trabalho a óleo do saudoso António Ramalho, maravilhoso pintor que tão bem soube enaltecer a sua e nossa Pátria, após o que António Augusto Esteves, bom e leal amigo, usando da palavra, improvisa um brilhante discurso, entrecortado, por vezes, com as aclamações da assistência.
Ao findar, a tuna toca o seu hino, confundindo-se os acordes com os entusiásticos "vivas" que a expontaneidade fez sair do peito de todos os amigos do Grupo Musical, dessa simpática colectividade para onde lançam ódios revoltantes certas nulidades que se esquecem propositadamente do bom nome da sua terra - das freguezias do concelho da Figueira aquela que ainda hoje caminha na vanguarda da instrução - para só pôr em prática covardes propósitos que se traduzem em reles bairrismo da parte de quem não tem a ombridade de se apresentar de fronte levantada, a fazer traficancias contra uma Associação que nasceu ha 13 anos e que portanto já tem raízes fecundas que dificilmente deixam tombar tão bemdita Arvore...
Porque, se para uns a capa do anonimato serve de pretexto para encobrir a figura meiga e pura da Caridade, para outros, então, é o melhor recurso para pôr em execução planos traiçoeiros que só prestigiam a covardia!
João d’Oliveira, brioso presidente da direcção, surge no palco, com outros directores, e oferece ao maestro um simpático brinde, que este agradece sensibilisado, abraçando-o cordealmente. Uma prolongada salva de palmas ressôa na plateia, confundido-se de novo as aclamações. A tuna executa a 2a. parte do seu escolhido programa, seguindo-se a representação duma comedia em 1 acto, que muito agradou.
A 3a. parte do espectáculo é composta de recitativos e guitarradas. Os maiores aplausos foram para o distinto guitarrista-amador Manuel da Cunha Paredes, de Coimbra, que a amizade do autor destas modestas linhas trouxe até Tavarede. Acompanhado a viola por Alberto d’Oliveira, da Figueira, faz um sucesso. Cantou alguns fados de Coimbra, daqueles fadinhos bem portugueses que enebriam a nossa alma e que o Paredes tão bem sabe cantar, sendo-lhe oferecido, como ao Alberto, um "bouquet" de flores naturais, por duas inocentes criancinhas.
Segue-se a opereta em 1 acto - "A Herança do 103" - ornada de 7 números de fina musica, que agrada. A orquestra muito concorreu para o feliz sucesso obtido, graças á sua boa organisação e á batuta proficiente de Pinto d’Almeida.
Para terminar - uma Apoteose. Não pôde a nossa pobre pena descrever o que foi o fim deste sarau. Uma Apoteose explendida, deslumbrante, mesmo. Tudo se deve ao fino gosto dos srs. Manuel Mesquita e Adelino Joaquim de Faria, da Figueira. Tudo! Num alto pedestal, uma coroa de loiros e uma lira, a oiro, ladeadas de lâmpadas de variadas cores, dispostas por Aníbal Caldas, electricista do Grupo. Violinda Medina, junto do pedestal, empunhando o estandarte do Grupo. Mais uns pedestais, sobre o que estavam pousadas uns tenros inocentes simbolisando a instrução das letras, da musica e do teatro. Mais criancinhas, muitas criancinhas, envoltas em festões de loiro e flores, empunham os gloriosos estandartes da Naval, do Ginásio, dos Caixeiros, da Cruz Vermelha, dos Caras Direitas, da Filantrópica, do Instrução e Sport, etc, etc. No proscénio, significando a "Fama", duas meninas, com trombetas. Catadupas de luz por todo o palco imprimem ao significativo áto o maior e mais completo brilhantismo, exalçando então a magnificência dos ricos fatos alegóricos, em seda, que as crianças vestiam.
Emquanto a orquestra executa o hino do Grupo, a assistência irrompe em delirantes aclamações á associação em festa, a Tavarede, ao Progresso, á Instrução, etc, etc, havendo lagrimas de satisfação, das lagrimas que do coração acodem aos olhos, a embaciar orbitas de pessoas que experimentaram naquela ocasião um dos momentos mais felizes, mais alegres, mais sublimes que na vida se é dado gosar! E assim terminou aquele serão de belo e invulgar passa tempo espiritual, que marcou bem claramente mais um passo agigantado no caminho do Progresso e da Instrução - por onde a nossa terra, que estremecemos, tão digna e caprichosamente tem sabido trilhar.
No domingo, 21, ás 7 horas, uma salva de 21 morteiros põe em sobressalto toda a povoação. Uma fanfarra percorre as ruas da terra, soltando ao ar as notas estridentes do hino do Grupo. Foguetorio rijo corta vertiginosamente o espaço em direcção ao ceu azul que com um sol claro e quente quiz também associar-se á nossa festa.
São 10 horas. A Filarmónica "10 de Agosto" entra em Tavarede, tocando o hino do Grupo. É recebida de braços abertos. Após o "copo-d'agua" retirou para essa cidade, na altura em que a jovem mas esperançosa tuna do Grémio Recreativo União Caceirense dava entrada na aldeia. Ha os cumprimentos do estilo e os caceirenses ingressam no Grupo, onde se demoram até á noite.
O Grupo Musical também quiz dar um Bodo aos pobres, numero sempre simpático em todas as festas - e deu-o. Havia destinado a distribuição de 2$50 a 25 pobres. Porém, apareceram 30, mais 5 portanto, que também levaram esmola. Saíram satisfeitos, balbuciando palavras de agradecimento e pedindo a Deus muitas felicidades para o Grupo Musical. Sentiam-se alegres, os pobresinhos, como alegres se sentiam todos aqueles que estavam a ver coroado do mais feliz resultado a boa organização de tão simpáticos festejos, que tanto prestigiam a nossa terra.
            Ás 4 horas da tarde foi ainda dada recepção á benemerita Filarmonica Figueirense que vinha assistir á sessão solene. Esta foi das melhores que se teem realisado em Tavarede não só pelas figuras que n’ela falaram como tambem pelas afirmações que lá se fizeram. Presidiu o exmo. sr. Francisco Martins Cardoso, grande amigo d’esta colectividade, e secretariaram os srs. Pedro Collet-Meygret e João Maria Pereira de Sousa representantes, respectivamente, do Gymnasio Club Figueirense e da Associação Humanitaria dos Bombeiros Voluntarios d’essa cidade. Lido o expediente, no qual se via um eloquente discurso do exmo. Sr. Antonio Argel de Mello encitando os socios do Grupo a que não desanimem e que continuem sempre na obra verdadeiramente filantropica que se impuzeram porque só assim se pode erguer bem alto o nome da nossa querida Patria, e um oficio da Troupe Recreativa Brenhense, usando da palavra alem dos srs. presidente da assembleia e Eduardo Soares Catita os socios srs. Antonio Victor Guerra, que fez o panegirico da socia há pouco falecida e da qual foi descerrada a fotografia por ter sido uma dos fundadores e grande benemerita do Grupo, srª D. Maria Aguas Ferreira; Joaquim Gomes de Almeida, que representava o jornal O Figueirense de que é director e proprietario; Antonio Medina Junior e Antonio Lopes. Todos os oradores se referiram ao significado moral d’esta festa enaltecendo com palavras bastante elogiosas a obra realisada pela actual direcção. A seguir foi servido a todos os convidados um excelente copo d’agua.
         À noite nos intervalos do baile que, como dissémos, foi servido e bastante concorrido, o nosso presado amigo Candido José de Ferreira, da Anadia, que é um verdadeiro excentrico, e que tambem a convite do nosso amigo Antonio Medina Junior nos quis obsequiar com o seu valioso concurso, cantou e assobiou com muita mestria, algumas peças de musica, tributando-lhe a assistencia, por tal motivo, uma grande manifestação de aplauso, fazendo-o bizar alguns numeros. Tambem cantaram e tocaram alguns fados os nossos dedicados amigos Carlos Pinto da Silva e José Esteves Martins.
         Na segunda-feira teve logar o almoço de confraternização o qual decorreu sempre dentro do maior enthusiasmo, tendo-se levantado diversos brindes. É merecedor dos maiores encomios o socio e grande amigo do Grupo sr. Adelino Joaquim de Faria pela fórma artistica como apresentou a séde ornamentada.
         Estamos certos de que a Direcção se há de sentir satisfeita pela maneira como tudo decorreu e orgulhosa por ter proporcionado aos seus consocios 3 dias de autentica festa associativa. Nós, como socios do Grupo Musical e d’Instrucção Tavaredense, d’aqui lhe enviamos sinceros parabens em signal de regosijo pela victoria alcançada, fazendo votos sinceros para que continue a trabalhar com a mesma vontade e a mesma fé que hoje o anima.

Das centenas de pessoas que visitaram o Grupo Musical, engalanado a capricho pelo sócio Adelino Joaquim de Faria, cremos não haver uma só que dele não se refira em abonatórios termos.

sábado, 8 de junho de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 26

Finalmente, as obras de remodelação do Grupo Musical e de Instrução foram concluidas. A propósito, e antes de nos debruçarmos sobre a inauguração, encontrámos uma interessante notícia relativa a esta associação e a instalação eléctrica que, pelos vistos, teve alguns problemas. Esta excelente colectividade local, incontestavelmente uma das mais prosperas do concelho da Figueira da Foz, acaba de passar por importantes melhoramentos. Ou antes, a sua sede acaba de sofrer uma remodelação absolutamente radical e amodernisada.
Aquela casa modesta em que durante tantos anos viveram muitas esperanças, muitas boas-vontades e aspirações, está emfim, transformada no idealisado meio duma plêiade de criaturas que tem por louvável divisa as prosperidades e engrandecimentos da sua terra, pois já ali se pôde expandir mais comodamente e com maior carinho na instrução das letras, da musica e do teatro. Graças a um punhado de sócios mais encorajados que ora constituem o corpo dirigente do Grupo Musical, e ainda ao caprichoso e benemérito sócio sr. Manuel da Silva Jordão - que se não deixou iludir por certos fraldiqueiros que não desejam vida ao Grupo Musical... - graças a esse honrado cavalheiro, de quem era pertença a sede do mesmo, está emfim comprada por alguns milhares de escudos a casa desta florescente colectividade da minha terra.
Um forte amor associativo, aliado a uma inabalável fé nos melhores destinos da associação de que tenho o subido orgulho de ser sócio fundador, imperam neste momento nos corações de todos os seus verdadeiros amigos. E se até hoje ela se tem sabido impor com prestigio e honra - apanágio dos modestos - d'ora avante melhor lhe ha-de acontecer, disso estou absolutamente certo. E quem isto afirma, algumas razões lhe assistem...
* * *
De todos, um dos melhores passos da minha colectividade, foi, indubitavelmente, o da compra da sua sede. Outro, e depois das suas belas obras, o da instalação da luz eléctrica, que é aliás digna de ser apreciada, já pelo que diz respeito a gosto técnico, como pela força numérica de lâmpadas por que é iluminada, numa totalidade de mais de três mil velas. Há, no entanto, que constatar que da requintada má-vontade de uns, e da mesquinha politiquice de outros, a luz eléctrica há mais tempo não está no Grupo Musical. Só foi inaugurada - com todas as formalidades... - do dia 29 do mez de novembro ultimo.
Para assim suceder, porém, houve mosquitos por cordas. Representou-se uma alta comedia, de que foi principal interprete o capricho do gerente da Companhia Eléctrica Figueirense, sr. Manuel Tomás Harrisson, que não teve em consideração os interesses da mesma Companhia e muito menos os do Grupo Musical, para só pôr em prática os seus ódios sectários e os de uma massa anónima de inferiores hipócritas, alguns dos quais, sendo da minha terra, não merecem todavia o epíteto de bons tavaredenses. Explicar o que se ha passado, desde setembro até 29 de dezembro, entre o Grupo Musical e a Companhia Eléctrica, ou antes, entre o Grupo e o sr. Harrisson, seria coisa por demais complicada, senão vergonhosa para tudo e para todos, que nunca para o Grupo Musical.
Trazer a publico os descabidos propósitos do sr. Harrisson, em tudo quanto a isto respeita, é coisa em que me não quero meter, por com a minha pessoa nada se passar, motivo porque dou a palavra a um consócio meu que com aquele senhor tratou de perto o palpitante caso, e que aos leitores deste jornal virá expor os factos, talqualmente foram passados, se a tanto chegar a benevolência do meu amigo sr. Gomes d'Almeida, que também é sócio do Grupo Musical.
No entanto, e como sendo uma das susceptibilidades feridas pelo diploma que menos digna e reflectidamente o sr. Harrisson passou ao Grupo Musical, sempre lhe quero vir dizer que nem sempre se concretisa o tal adagio de que "quem cala consente". O que posso afirmar ao sr. Harrisson é que S.Exª. não andou bem, pois se revelou pessoa pouco tratavel, quando é certo que S. Exª  ocupa uma posição em que se deve impor á consideração do povo da Figueira, de onde é hóspede recente, e principalmente á daquele que o procura para consigo transaccionar.
S.Exa. passando um labéu ofensivo aos sócios do Grupo Musical, talvez nem se lembrasse que ia ferir gravemente o prestigio de muitas dezenas de chefes de família, todos tão dignos que nem sequer lhe quizeram dar a importância de o chamar á responsabilidade, ou a faze-lo engulir, junto da justiça, tão viperinas expressões. Acredite, sr. Harrisson, que V.Exª. deu com isso mais um passo agigantado no caminho da antipatia que vem trilhando na Figueira, caminho esse que facilmente o conduz ao desagrado geral deste povo pacato e trabalhador.
Testemunhando ao sr. director-geral da Companhia Eléctrica os desgostos que a isto me obrigaram, sou a dizer-lhe que Tavarêde, como meio educado, ultrapassou os limites d'aldeia de Paio Pires, onde habitam tanços que se deixam espésinhar por coligidas de companhias eléctricas figueirenses que não são figueirenses nem figueirenses sabem ser...
Nada, Tavarêde vê mais. Muito mais. Tem uma escola onde em pequenino se aprende a ser educado e a respeitar o próximo. E possue, para quando se é homem, duas excelentes associações de recreio e instrução, ambas com bons teatros e com gente sem inércia, gente com vida e aspirações a tudo quanto seja levantar o bom nome deste encantador torrão que pela Natureza foi fadado com ricos e invejáveis predicados...
Já vê, sr. Harrisson, que Tavarêde, e nomeadamente o Grupo Musical e d'Instruçào Tavaredense, é constituído por gente muito menos educada e ilustrada que V.Exª., é certo, mas que nunca seria capaz de cometer o petulante atrevimento de ofender fosse quem fosse, demais nos casos de V.Exª. Tem, pois, a palavra o meu prezado amigo António Victor Guerra, membro da direcção do Grupo Musical Tavaredense, que com o sr. Harrisson tratou o caso que deu motivo a este reparo. A ele cumpre o dever de explicar ao publico figueirense o que é de inteira justiça não ficar no olvido, para estimulo a uma melhor e mais agradável maneira de o sr. gerente da Companhia Eléctrica Figueirense receber os seus clientes.
* **
Nos próximos sábado, domingo e segunda-feira, terá lugar a inauguração da sede do Grupo, ao mesmo tempo que se comemora o 13°. aniversario, que se não levou a efeito em 17 d'agosto, em virtude de já se haverem encetado as importantes obras a que me referi. No próximo numero publicarei o respectivo programa dos festejos - e que é aliás um programa explendido. Um dos seus melhores números é o de Variedades musico-teatrais, em que brilharão vários guitarristas distinctos, entre os quais se conta o meu amigo Manuel da Cunha Paredes, de Coimbra, que também deliciará os nossos ouvidos com aqueles fadinhos que se cantam em pálidas noites de luar junto aos salgueiraes do poético Mondego.

Creio poder na quinta-feira noticiar também a vinda de um amigo que tenho em Anadia. Cândido José Ferreira é o seu nome e toca violão. Ou por outra, é o que se chama um verdadeiro concertista em violão. Se ele me quizer dar o grande prazer da sua visita, posso afoitamente dizer que o Grupo Musical terá ensejo de apresentar aos seus associados um grande artista português que desprezou uma vocação que consigo nasceu - a sublime Arte de David de Sousa - para exercer a industria de barbeiro em Anadia. Inteligências dispersas. 

sábado, 1 de junho de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 25

E também nos parece oportuno recordar que as primeiras festas de arraial com iluminação eléctrica, tiveram lugar nos dias 13, 14 e 15 de Setembro de 1924, no antigo Largo do Forno. Parte da tuna do Grupo Musical executou, num vistoso pavilhão, iluminado a electricidade, um magnífico programa, ao som do qual numerosíssima massa de forasteiros rodopiou alegremente toda a noite de sábado e no domingo, das 19 horas à meia noite.

As obras do Grupo demoraram para além do previsto, pelo que a inauguração teve de ser adiada. Entretanto, a Sociedade de Instrução repõe em cena a opereta Os amores de Mariana, em Outubro daquele mesmo ano.
OIas amores de Mariana - Grupo feminino

Foi uma noite esplêndidamente passada a de anteontem. O teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve uma enchente colossal, e a linda opereta Os Amores de Mariana foi mais uma vez ouvida com o maior agrado. Os aplausos foram entusiasticos em todos os finais de acto e nalguns números de música, que tiveram de ser bisados.
         O desempenho bom, mantendo os créditos do nosso festejado grupo de amadores. Helena Figueiredo, a distinta amadora que agora reapareceu no seu antigo papel e que foi acolhida com uma quente ovação e muitas flores, cantou admiravelmente a dificil parte de Mariana. Idalina de Oliveira soube, como sempre, fazer-se aplaudir na Morgada, que interpretou com grande naturalidade e muita graça. António Coelho, o apaixonado Zé Piteira; António Silva, no seu caricatural e tão expressivo Morgado do Freixo; Jaime Broeiro, no sacrista sabichão de latinório; António Graça, insubstituivel no brasileiro Barnabé; António Santos, que fez o janota conquistador; e Francisco Carvalho, com muita naturalidade no Manuel d’Abalada – souberam manter a alegria da peça através dos três actos, devendo dizer-se que os amadores que se incumbiram de papéis secundários ajudaram bem, dando um agradável conjunto. Os coros estiveram afinados e certos, o que poderosamente contribuiu para a boa impressão geral.
         Entre a assistência estavam muitas pessoas da Figueira e Buarcos. No próximo domingo vão os nossos amadores representar esta opereta a Quiaios, no teatro do Grupo Instrução e Recreio onde, estamos certos, Os Amores de Mariana agradarão plenamente.

No espectáculo realizado em Quiaios, o grupo cénico foi alvo de justos aplausos, não só pelo mérito da peça, como pelo desempenho, que foi óptimo. Por sua vez e no dia 1 de Novembro, coube aos amadores do Grupo irem à sede da Filarmónica Figueirense representarem as peças Um erro judicial e a comédia Medicomania. Foi o princípio de uma campanha de angariação de fundos destinados a fazer face ao custo do edifício da sede e das obras ali feitas. Seguiram-se deslocações a Quiaios, Brenha e Maiorca. Os esforços feitos pelo pessoal do teatro e pelos componentes da tuna foram inexcedíveis, mas as receitas obtidas, apesar de terem sempre as lotações esgotadas, não eram grandes, mostrando-se mesmo insuficientes para fazer face aos compromissos assumidos. Por este tempo, a tuna era dirigida pelo professor de música Eduardo Pinto de Almeida.

Entretanto, na Sociedade foi levada à cena uma nova opereta, Noite de S. João, peça de grande responsabilidade, tanto pelo que diz respeito à encenação e à interpretação de alguns papéis, como pelas dificuldades da partitura, que é uma belíssima obra musical, de inspiração felicíssima.
Os amores de Mariana - Grupo dos homens
  
         Igualmente para angariar fundos para o seu cofre, o teatro da Sociedade foi representar à Figueira, ao Parque, a opereta Os amores de Mariana. Aqui reproduzimos a notícia sobre esta deslocação. Um grupo de amadores dramáticos de Tavarêde veio no sábado ultimo ao Parque-Cine dar um espectáculo com uma opereta regional, cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, segundo rezam os programas, e por tanto paredes meias com a nossa terra.
Fui assistir com um certo interesse, porque sempre gostei do teatro musicado, principalmente quando a acção se passa em qualquer das nossas províncias, algumas delas tão ricas em motivos para uma boa partitura. Os bons auctores é que vão escasseando. As operetas do Pereira Correia são-me familiares, porque nunca deixei de assistir às suas representações, e apezar de bastante vista, ainda gosto do Barão de Antanholes, que tem musica bonita e bastante movimento de personagens. É uma opereta que vinca sempre em todos os que assistem às suas representações. O que não se dá com Os Amores de Mariana, que é uma opereta inferior e com passagens até pouco decentes, diga-se a verdade.
Do desempenho pouco há a dizer, porque se tirarmos António Coelho, que se mecheu à vontade, e Helena de Figueiredo, que tem geito, nada mais se aproveitou. Pena foi que o primeiro se não tivesse mantido na scena da embriaguez, porque teria sido perfeito e que a segunda tivesse pronunciado um tromento que a meu ver devia ter dito tormento. De resto, tem boa voz e canta com certo gosto. A marcação pareceu-me deficiente. Não percebi que o André, charlatão, surgisse no palco com a massa coral, em lugar de ali aparecer casualmente, o que deu a impressão de que entre ele e os camponios havia o melhor entendimento. Ou não?
Também não compreendi a situação de Ernesto de Melo (António Santos) depois de Mariana (Helena de Figueiredo) lhe ter dado com a tampa ter-se mantido no palco, assistindo à alegria que reinou à volta do Zé Piteira (António Coelho), quando este teve a certeza do amor de Mariana. Julgo que ele devia ter desaparecido, porque havia sido preterido pelo rival. E para terminar com os meus reparos devo dizer que não achei próprio que no coro Brazileiro di água doce, os comparsas, todos dos arrabaldes de Coimbra, quebrassem tão harmonicamente a modinha brazileira. Lá que o Pancracio a exibisse e a massa coral se manifestasse de qualquer maneira própria do seu temperamento e educação, compreendia-se, agora que a secundassem com tanta geiteira é que se tornou reparavel.

Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrojo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior. A musica, além de cediça, está coordenada muito à ligeira e foi interpretada muito deficientemente. Pena foi que assim sucedesse, porque a orquestra estava bem organisada e apta a executar uma partitura de mais vulto. Mas o fim principal dos amadores tavaredenses foi arranjar dinheiro para o seu cofre, e esse atingiram-no, porque a casa estava quasi cheia, o que devia ter produzido uma boa receita. Felicito-os por tal motivo.

sábado, 25 de maio de 2013

O Associativimo na Terra do Limonet - 24

Embora não dependentes das nossas colectividades, estavam organizados, na nossa terra, dois ranchos, que animavam as tradicionais festas a S. João de Tavarede. Eram o Rancho da Alegria e o Rancho Flores da Mocidade, qualquer deles tendo as suas orquestras formadas por músicos pertencentes às duas associações. E, entre estes ranchos, havia grande rivalidade. Habitualmente o primeiro actuava num pavilhão instalado no Largo do Forno, enquanto o segundo se exibia no Largo do Paço. E, na verdade, essa rivalidade chegou a levar à confrontação física...

Também novas actividades surgiram, especialmente no Grupo Musical e de Instrução, entre as quais o desporto. Um tavaredense, que veio a desempenhar o cargo de responsável pelas práticas desportivas nesta associação, bem como outros de que mais adiante daremos nota, sagrou-se campeão distrital na corrida da légua disputada em Coimbra, mas em representação do Ginásio Figueirense. Foi ele António de Oliveira Lopes.


António Oliveira Lopes, na homenagem à primeira professora primária em Tavarede, D. Maria Amália de Carvalho

         O Associativismo progredia na nossa terra. Devemos registar, igualmente, as boas relações que continuavam entre as nossas colectividades, bem como com as mais diversas colectividades do concelho. Como exemplo, referimos uma nota publicada na imprensa concelhia e que relata uma visita de retribuição feita pela tuna de Vila Verde. Embora tardiamente, não quero olvidar o facto de a simpática e bem organisada tuna do G.R.M.V, num dever que se lhe impunha cumprir, ter vindo no passado dia 11 do corrente cumprimentar a sua congénere d'aqui - Grupo Musical Tavaredense -, que há mezes havia visitado aquela colectividade irmã, de passagem propositada por Vila Verde.
Deviam ser aproximadamente 13 horas e meia quando ao ar subiam alguns foguetes anunciadores da vinda dos nossos vizitantes, os quaes fizeram a sua entrada pelo lado da Chã, onde a Direção do Grupo Musical os foi receber. O bandeireiro da tuna Vilaverdense aceita troca dos estandartes representativos das colectividades amigas, depois do que a tuna começou de executar uma primorosa marcha até à sede do Grupo Musical.
Convidados os vilaverdenses a entrar, o auctor destas linhas deu-lhes as cordeais boas-vindas, seguindo-se António Victor Guerra, que improvisando um brilhante discurso, terminou por enaltecer, de uma forma aliás bem digna e justa, as excelentes qualidades do homem que competentemente dirige a tuna de Vila Verde - a figura simpática e respeitável do sr. Abinadab Nunes da Silva, a quem em parte aquele povo deve o inesquecível favor de, em tão curto espaço de tempo, o fazer acordar de vez da imperdoável letargia e indolência em que se debatia há tantissimos anos...
Termina o amigo Guerra por levantar, de uma forma franca e sincera, um viva ao Grémio Recreativo Musical Vilaverdense, que foi secundado por todos os tavaredenses que o ouviram. O sr. Abinadab Nunes da Silva agradece reconhecido, de uma forma fácil e fluente, aos rapazes que em palavras tão imerecidas, o estão a colocar assim a uma culminância tamanha. Diz que o convidaram para aquela Obra, portanto, já que faz parte dela, tem por dever envidar todos os esforços por que ela saia sã e forte, ou pelo menos a não o deixar mal colocado, pois que, se os seus rapazes continuarem a compreendel-o e a obedecer-lhe, como presume que sim, tem a quasi certeza que atingirá com eles a maior das distancias que seja possivel à sua modesta competência na sublime Arte de David de Sousa.
Ao terminar, uma estridente e prolongada salva de palmas cobre as suas palavras, ao mesmo tempo que as notas do Hino Vilaverdense imprimiam ao acto, modesto mas solene, uma certa nota apoteótica. Foram convidados a um copo d'agua, o qual decorreu debaixo da maior animação e da mais franca alegria e bem-estar. Quer dizer: este feliz momento veiu contribuir para uma maior aproximação e uma mais cordeal e intensa amizade entre os grupos congéneres, senão para um laço mais vinculado das duas aldeiasinhas, tão fortemente unidas pela inquebrantável corda da tradição...
Também o mesmo grupo vizitou a Sociedade d'Instrução Tavaredense, onde foi bem recebida. Os meus sinceros e veementes votos são para que a simpática colétividade que nos vizitou continue a progredir à medida dos seus desejos, pois que, com a boa vontade que lhe é peculiar, e com a competência do sr. Abinadab à sua frente, ela tem a obrigação restricta de vencer qualquer dificuldade que porventura se lhe possa atolhar.

Apesar de começar a ser muito criticado, como espectáculo teatral, o Grupo Musical e de Instrução, chegada a época natalícia, repunha em cena O Presépio, conquanto já fosse aborrecido tanto Presepe, é certo que, chegada esta ocasião, ele sempre lembra. Por outro lado, dá muito dinheiro, muito, e é dele que precisam todas as colectividades que, como o Grupo Musical, só vivem da quotização e do esforço que por elas envidem os seus sócios mais apaixonados. Vamos, pois, prepararmo-nos para a monumental ‘injecção’.

Entretanto, a Sociedade de Instrução, sempre que tinha possibilidades de o fazer, apelava aos tavaredenses para o associativismo. A sede da S.I.T. abre todas as noites, e ali se reunem alguns associados, que passam umas horas de bom convívio. Porque não deixam as tabernas aqueles que nesta se reunem à noite, envenenando a saúde e contraindo vícios perniciosos a si próprios e à sociedade?

Em Abril de 1924, o Grupo Musical e de Instrução resolveu, em assembleia realizada no dia 21, comprar o edifício  onde se encontrava instalado havia dez anos, e que lhes havia sido cedido, gratuitamente, pelo seu sócio benemérito Manuel da Silva Jordão. Como sabemos, era a casa que, muito anteriormente, havia servido a Joaquim Águas para ali dar alguns espectáculos, nomeadamente o Presépio, de que era um fervoroso entusiasta, e, anos mais tarde, sede do Bijou Tavaredense.

Embora tivessem sido feitos alguns melhoramentos aquando da mudança, entenderam os directores da colectividade que havia necessidade de novas obras, para que pudessem desenvolver a sua acção educacional, cultural e recreativa. Para tal, e aceitando uma proposta que lhes foi feita pelo proprietário do imóvel, resolveram adquirir o mesmo.

... Comquanto seja um pesado encargo para a Direcção, ela está vencendo as peores dificuldades que se lhe teem antolhado, vendo que os seus desejos ora correm de forma bem lisongeira. A compra é feita por acções de 50 escudos, vendo-se já inscritos no respectivo livro grande numero de sócios mais devotados daquela colectividade.
Para aqueles dos sócios que não possam comprar já acções, foi criada uma caixa económica, para a qual eles são obrigados a pagar 1 escudo, ou mais, todas as semanas, sob pena de serem considerados demissionários. A iniciativa é boa, porquanto é um ensejo para se conhecerem os bons e leais amigos do Grupo Musical Tavaredense... Oxalá os directores desta sociedade local consigam levar a cabo os seus louváveis propósitos, para o bom nome da sua associação e engrandecimento desta tão encantadora aldeia.

         Foi o início de um projecto muito importante para esta associação tavaredense. Coincidiu com a instalação da rede eléctrica em Tavarede, o que, aliás, foi de imediato utilizado por ambas as colectividades. Ao mesmo tempo que as obras, ainda que a escritura da compra não estivesse feita, estas prosseguiam em bom ritmo, começaram a preparar o espectáculo a realizar para a inauguração dos melhoramentos efectuados, apontando os festejos para a data do     13º. aniversário da sua fundação.

Como curiosidade, aqui inserimos uma nota publicada na imprensa figueirense e relativa à inauguração da luz eléctrica. Temos, finalmente, luz eléctrica em Tavarede. Está montada a rêde e há feitas já algumas instalações em casas particulares. A primeira instalação a fazer-se foi a da Sociedade Instrução Tavaredense, que é completa e perfeita, ficando o teatro com todos os recursos de iluminação que podem exigir-se em casas desta natureza.
         A luz ficou ligada no último sábado, despertando o facto um interêsse extraordinário nesta localidade. Muitas pessoas foram à sede da Sociedade de Instrução ver o efeito da nova iluminação, que é deslumbrante. Alguns associados até se reuniram, não ocultando o seu regosijo. A inauguração da luz eléctrica far-se há no dia 13 do corrente, com uma récita dedicada aos sócios. No domingo, 14, haverá baile. Tem a população de Tavarede motivos para estar grata à Sociedade de Instrução Tavaredense, pois, sem o esforço desinteressado de um grupo de sócios desta agremiação, não disfrutaria ainda hoje êste grande melhoramento. A Companhia Eléctrica, trazendo a energia a Tavarede muito antes do prazo a que era obrigada pelo contrato, deu provas duma grande boa vontade, sendo valiosamente auxiliada por aquele grupo de sócios da S.I.T. a que nos referimos, que conseguiu, com donativos vários – entre os quais avulta o de 500$00 da Cerâmica e Exportadora, do Senhor da Arieira – adquirir todos os postes necessários para a montagem da rêde, podendo avaliar-se êste auxilio em 1.500$00.

         Está claro que há mariolas que, não contribuindo com o mais insignificante esfôrço para melhoramentos desta natureza, são depois os primeiros a quererem tirar dêles todo o proveito. Foi sempre assim, e por isso mesmo não estranhamos. A Companhia está prosseguindo activamente na montagem das instalações particulares e na ligação destas à rêde.  

sábado, 18 de maio de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 23


 
Alegrias e... tristezas!


         Não hesitamos em considerar como uma década dourada a que decorreu entre os anos de 1921 a 1930. Além do nascer de uma nova colectividade na freguesia e do declínio, depois de dez anos triunfais, de uma outra, veremos uma carreira extraordinária, ainda de uma terceira associação tavaredense, por sinal a mais antiga.

         Certamente que será uma década em que nos teremos de debruçar, talvez mais longamente, mas, sem nenhuma dúvida, o Associativismo viveu, durante este período, anos brilhantes e, também temos que o confessar, anos verdadeiramente dramáticos. Encontraremos de tudo. Êxitos triunfais, novas actividades, jornadas memoráveis e declínios bastante tristes e lamentáveis.

         Mas, prossigamos a nossa viagem. Mais uma vez o ano se iniciou com a representação, pelo Grupo Musical, do drama sacro Auto dos Reis Magos. A Sociedade, entretanto, havia preparado, e apresentou, um excelente programa comemorativo de mais um aniversário da sua fundação, o 17º. Deste programa, fez parte a apresentação de uma nova opereta, A Espadelada, que teve a particularidade de ser representada por crianças.
 




Grupo de crianças
que interpretou
A Espadelada





     Segundo o programa, segue-se a operetta em 1 acto, de costumes regionaes, A Espadelada, interpretada por um grupo de creanças. Assim foi, pois que após um breve intervallo o panno sóbe e a petizada começa de representar a alludida operetta.
         De principio a fim eu admirei todos, absolutamente, desde o protagonista ao simples comparsa. Com franqueza: tenho pena de infelizmente não ter competencia para poder relatar com minuciosidade o que vi. Sei que me custa a crêr que um grupo de amadores com mais annos de pratica na arte de theatro do que os que teem de vida aquelles pequenos actores fosse capazes de representar A Espadelada com tanto escrupulo e d’uma fórma tão correcta como o grupo dos 20 e tantos petizes dos dois sexos que Zé Ribeiro com a sua proverbial paciencia pôz em scena lá em cima na Sociedade de Instrucção.
         O filho mais velho do Jayme Broeiro, o Antonio, faz com tanta naturalidade o papel de Thomaz, que me dá a impressão d’um velho amador, batido. É um galã bom. A irmãsita do Zé Ribeiro, a Maria, marca authenticamente o papel de Tereza. É uma velha que eu estou a vêr e não uma creança dos seus 10 ou 11 annos. O Zé Borrasca cahiu bem no filho do Manél Loureiro, que faz sem dificuldades um velho marinheiro. O Antonio Cordeiro dá muita vida ao Ernesto. É um janota magnifico, como a Maria José, da Helena, uma camponeza authentica. Faz a Joaquina muitissimo bem, revelando para o futuro aptidões aproveitaveis. Está um outro, um piriquito, de ferrinhos em punho, que sem dizer uma palavra faz como sóe de dizer-se um papelão. Não há um só espectador, o mais sizudo, que se não ria a bandeiras despregadas com o rapaz, que ostentando ao canto da bocca um cigarro brégeiro quasi tão grande como elle, acompanha lindamente com a cabeça, com o corpo e com o batuque dos ferrinhos, todos os numeros de musica que se tocam durante o tempo que está em scena! É d’uma graça extraordinaria!
         Emfim, todos os pequenitos, desde o mais taludo ao Gentilito, indubitavelmente o mais liliputiano dos engraçados amadores, houveram se d’uma fórma tão brilhante que não devo cohibir-me de os estreitar n’um cordeal abraço de felicitações, bem como ao seu ensaiador, o amigo Zé Ribeiro, por vêr coroado de bom exito todo o seu esforço, toda a sua muita paciencia, revelados no successo obtido com a representação da Espadelada, por um grupo de gentis creanças, n’um dos theatros da minha aldeia.
        
Naquele tempo, e isto aconteceu durante décadas, os amadores dramáticos tinham actividade praticamente contínua. Não havia férias e logo que uma peça era posta em cena, de imediato se iniciavam os ensaios da seguinte. Só desta forma se pode compreender o enorme número de espectáculos levados a efeito e a diversidade de peças representadas. Mas não era só o teatro, pois, além do ensino nocturno das primeiras letras, também a música tinha aulas constantes, bem como diversas saídas e, naturalmente, muitos ensaios. Quem verificar, por exemplo, a listagem dos espectáculos realizados pela Sociedade de Instrução (cadernos 100 Anos de Teatro), pode constatar a verdade destas nossas palavras. Havia como que uma sede de instruir e de educar. Disso muito beneficiaram os tavaredenses de então. No jornal ‘A Voz da Justiça’, de 5 de Agosto de 1921, encontrámos a seguinte nota: Grupo Musical Carritense – com esta denominação organizou-se no lugar dos Carritos um grupo musical que, a avaliar pela boa vontade dos seus associados, muito poderá prosperar. É o que lhe desejamos. Estava, pois, constituida a terceira associação da freguesia. E dizemos terceira porque não encontrámos mais quaisquer indicações sobre aquela que havia sido fundada no Casal da Robala, pelo que admitimos tenha cessado o seu funcionamento. Registamos o conselho directivo eleito neste jovem Grupo Musical Carritense: presidente, António Jesus; vice-presidente, César Gaspar; secretários, José Joaquim Lemos e António Esteves; tesoureiro, Mário da Silva Jordão. O seu agrupamento musical apresentou-se ao público carritense, pela primeira vez, pelo Natal de 1921.

Como habitualmente, a tuna do Grupo Tavaredense saíu no domingo de Páscoa, em visita de cumprimentos às congéneres, entidades oficiais e sócios. Era seu regente Manuel Martins. Estavamos nós em confraternização quando ouvimos o magnífico som dos violinos, tocados por unhas bem melhores que as nossas. Viemos à porta e ali deparámos com a tuna de Tavarede que também ali ia cumprimentar o Grupo dos Carritos, lê-se numa notícia da Fontela, onde também se tinha deslocado, a cumprimentar a colectividade local, o novel grupo carritense.

Devemos recordar que o grupo cénico da Sociedade de Instrução, depois de ter reposto em cena a opereta Os amores de Mariana, com a qual deu várias representações, deu um espectáculo na sua sede, com esta opereta, em benefício da Santa Casa da Misericórdia da Figueira. Oxalá esta iniciativa fosse seguida pelos grupos dramáticos das outras freguesias do nosso concelho, visto que os infelizes de todo o concelho acodem nos momentos difíceis da doença ao hospital da Misericórdia desta cidade.

A actividade associativa proseguiu sem desfalecimentos. E damos um pequeno salto até à Páscoa de 1923, para informar que a tuna do Grupo Musical Tavaredense que é incontestavelmente uma das mais bem organizadas do nosso concelho, fez as habituais visitas de cumprimentos, sendo então seu regente o tavaredense José Nunes Medina.







Tuna do G. M.I. T. Nos anos 20 do século XX

Em Junho daquele ano as duas colectividades de Tavarede tiveram saídas. A tuna do Grupo foi ao Alqueidão e o grupo cénico da Sociedade foi representar Os amores de Mariana à sede da Filarmónica Figueirense, em espectáculo de benefício para os cofres desta filarmónica. Ambas as saídas foram muito aplaudidas.

sábado, 11 de maio de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 22


       E enquanto no Grupo Musical os espectáculos se sucediam, os amadores da Sociedade, com o regresso do seu ensaiador, retomaram a actividade normal. Os ensaios da opereta Entre duas Avé-Marias decorrem com grande entusiasmo, estando a direcção da parte musical confiada ao sr. Manuel Martins, hábil regente da filarmónica Figueirense, dessa cidade, que se esforça por conseguir o melhor efeito dos variados números de música e especialmente dos lindissimos coros, que lhe estão merecendo especial cuidado. A abertura da época teatral da Sociedade de Instrução vai constituir um verdadeiro sucesso.
         Sabemos estar já definitivamente assente que, logo em seguida à representação desta opereta, entrará em ensaios a linda comédia em 3 actos Nono: não desejarás..., que será representada em récita de gala por ocasião das festas comemorativas do 16º aniversário da Sociedade, a que se procura dar grande brilhantismo. O desempenho desta comédia está confiado aos nossos melhores amadores, pelo que podemos garantir que vamos ter em Tavarede bom teatro, daquele bom teatro que há algum tempo parece ter-se divorciado da nossa terra.
         Muito louváveis são os esforços tenazes dos rapazes que na Sociedade de Instrução procuram agora continuar a sua já importante obra de educação, arrancando ao vicio da taberna os nossos trabalhadores e proporcionando-lhes na associação, por intermedio da escola e do teatro, uma atmosfera sã de educação e de recreio.

         E a década terminou com o teatro em pleno. A Sociedade levou à cena a comédia O grande hotel de sarilhos e o Grupo o drama Gaspar, o serralheiro. Foi muita gente da Figueira assistir aos espectáculos que se realizaram em Tavarede, no sábado na S.I.T. e no domingo no G.M.I.T., lê-se numa notícia de Dezembro de 1920.

         Mas os Autos Pastoris não podiam faltar. Para o Natal teremos ali (Grupo) os Autos Pastoris, que pela certa levarão a este teatro muita concorrência. Infelizmente, trata-se de mais uma representação do Presepe, ensinando os amadores a falar a cantar, tornando-os incapazes de depois declamarem com correcção a mais simples comédia. Era uma opinião, que em nada correspondia à realidade e ao gosto dos tavaredenses.


Os pastores brutos - Presépio no GMIT - antiga sede