sábado, 14 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 40

       E no dia 30 de Junho, o Grupo Musical também foi à Figueira representar, no Parque Cine, a opereta Mãe Maria. Conforme o nosso jornal noticiou, tivemos no domingo passado, no teatro Parque-Cine, a representação da opereta em 3 actos A Mãe Maria, original de Raul Martins, com versos de Antonio Amargo e musica de Herculano Rocha.
         A acção é rasoavel, bem conduzida, e, para não fugir à tradição das peças do genero, é passada numa aldeia do verdejante Minho.
         O enrêdo não é de todo vasio de intuitos. Consegue conquistar desde o começo a atenção do publico, mantendo-se o diálogo animado, natural e sugestivo, especialmente quando entra a Mãe Maria e o Prior.
         Nota-se, contudo, uma sensivel falta de observação psicológica que embora não seja de gravidade, é deveras lamentavel.
         O prior não desempenha ali o papel que aos padres está confiado na terra.
         Anda na pandega, bebe rasoavelmente, e chega a sustentar conversas pouco correctas com uma caricata velhota, censurando-a ironicamente e troçando-a – o que não é, positivamente, o dever dum padre. E a mais rudimentar logica não permite aceitar como verosimil que o prior duma aldeia minhota ande a peitar este ou aquele para tirar um desforço violento do boticario e do sacristão, por estes terem tido o desplante de escreverem umas declarações d’amôr a uma sua irmã – como absurdo é alguns dos freguezes deste prior tratarem-no por tu, com uma familiaridade inadmissivel para quem conhece os usos e costumes das boas terras d’Entre-Douro-Minho.
         Em suma: O sr. Raul Martins creando d’est’arte o prior da sua peça, deu-nos claramente a perceber a falta total de informação religiosa que domina o seu, aliás, inteligente espirito.
         A missão do sacerdote não comporta, certamente, dentro dos fins da paz e amor que a orientam – o perfil moral do seu inverosimil prior que... apenas se sabe que o é por envergar em scena as vestes talares.
         Apesar disso é “A Mãe Maria” uma peça interessante, devendo, contudo, dizer que esperavamos melhor, mesmo muito melhor – dada a impressão que nos deixou a representação da opereta dos mesmos auctores “A noite de Santo António” que tem sobre esta evidente superioridade de urdidura e de tecnica.

         Não esperavamos, evidentemente, uma obra-prima, mas não previamos que, sobretudo, os versos de “A Mãe Maria”, - fossem duma tão manifesta inferioridade em relação aos da “Noite de Santo António”. Quasi que não parecem do mesmo auctor, poeta brilhante e de destra cultura.



Foto de Mãe Maria

         Quanto ao desempenho, destacamos em primeiro logar, Violinda Medina, no papel de Mãe Maria que desempenhou com um á-vontade e uma perfeita correcção, que vieram confirmar os seus anteriores triunfos scenicos. A sua voz é como que um veio de agua cristalina, murmurando suavemente por entre fraguedos, modulando o canto com um raro e precioso sentimento que muitas artistas profissionais, certamente, invejariam. É, sem duvida, uma muito distincta amadora que honra, sobremaneira, Tavarede.
         Adriano Silva no Bento Boticário satisfez-nos plenamente, como amador seguro, dizendo com graça e naturalidade. Egualmente Manuel Nogueira no Antonio Sacristão foi um comico impagavel, conquistando a simpatia do publico pela vida invulgar que imprimiu ao papel.
         É sem a menor duvida um dos melhores elementos do seu grupo scenico.
         Raul Martins, pela forma como se houve no Morgado, bastaria para, com Violinda Medina, salvarem a peça, se ela não tivesse outros méritos.
         Foi o correcto galan de sempre, vincando com certeza e consciencia o seu logar.
         Manuel Cordeiro, bem. É um novo nas lides de Talma, mas com marcada propensão para a scena e dotes muito apreciaveis.
         De Jorge Medina, sómente diremos que “filho de peixe sabe nadar”... Recordámos com saudade seu pae, o malogrado José Medina, cuja boa tradição ele já sabe honrar, registando nós com aprazimento os seus constantes progressos.
         Clarisse Cordeiro apesar das suas reaes aptidões para o teatro não poude brilhar no papel de Berta como poderia, pois a sua voz não lhe permitiu dar o relevo preciso. Tem, porem, uma boa dicção e pisa o palco com natural despreocupação.
         Os restantes, João Nogueira no Ricardo; Antonio Medina no Mordomo e Helena Gomes na D. Ana, encarnaram bem os seus papeis, não desmanchando o conjuncto.
         Os córos geralmente bons; homogeneos e com forte sonoridade tendo, por vezes, deslises sensiveis mas facilmente remediaveis para o futuro.
         A musica, ligeira, viva e alegre, dispondo bem o publico. Os scenarios agradaram.
         O que, porventura, não agradará é esta nossa critica aos distinctos amadores de Tavarede... Notámos deficiencias, aliás bem naturaes – mas se acharem o nosso juizo parcial ou incompetente – o melhor é recorrerem a qualquer critico amigo que lhes teça o panegirico na Pagina Teatral de “O Século”. Já agora! Visto que entrou em moda....

         Um breve comentário nosso. A crítica acima foi publicada no mesmo jornal que publicou as críticas ‘venenosas’ contra a Sociedade. Por outro lado, esta opereta só foi representada uma única vez e na Figueira. Encontrámos algures a informação de que o palco da sede do Grupo não tinha condições para a montagem da mesma. Não deixa de causar estranheza o facto de se ensaiar uma opereta, cuja montagem não deveria ser barata, para dar uma única representação! Mas, assim aconteceu.

         A imprensa figueirense, e curiosamente não eram unicamente os correspondentes locais, tomou partido pelas duas associações locais. Na ‘Voz da Justiça’ a Sociedade de Instrução, sempre no seguimento da linha anteriormente tomada, era defendida, com unhas e dentes das bicadas que lhe davam, tanto O Figueirense como o Jornal da Figueira, os quais, além destes ataques, louvavam generosamente o Grupo Musical. Mas não o faziam desinteressadamente, como veremos.

         A tuna do Grupo, que tão apreciada e requisitada havia sido, desorganizou-se, certamente em consequência dos graves problemas existentes na sua colectividade. Mas, tendo sido requerida a sua participação para abrilhantar umas festas na Martingança, conseguiu-se a sua reorganização, sob a direcção e regência do tavaredense José Francisco da Silva, o qual teve de recorrer à participação de diversos músicos afectos à Sociedade. A deslocação teve lugar nos primeiros dias de Outubro de 1929, embora com o nome de Tuna de Tavarede. Foi motivo de uma pequena polémica, pois enquanto uns jornais anunciavam a deslocação do Grupo, outros assumiam posição contrária. Foi o referido regente que veio a público, para afirmar que, embora fossem utilizados os bonés, levado o estandarte e tocado o hino do Grupo, todos os componentes tinham concordado em formar uma tuna da terra, apartidária das associações. Recordamos que foi no regresso desta deslocação, que os excursionistas passaram pelo Mosteiro da Batalha, onde deixaram uma placa evocativa da sua passagem. Ainda há relativamente pouco tempo, esta placa estava colocada numa parede junto ao sepulcro do ‘soldado desconhecido’.


         O teatro continuava activo. A Sociedade, após uma série de espectáculos com A cigarra e a formiga, fez a reposição de O sonho do cavador. Mas já foi diferente da primeira versão. A censura começara a sua nefasta acção e grande parte dos números originais foram censurados. A peça, com os quadros riscados com o célebre lápis azul, encontra-se no antigo escritório de Mestre José Ribeiro. Embora mantendo o enredo inicial, novos números foram escritos e musicados para substituição dos eliminados. O êxito da peça, porém, manteve-se.

sábado, 7 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete . 39

          Recordamos que, depois de ter ocorrido o acidente que vitimou o pároco Manuel Vicente, foi nomeado para esta paróquia o reverendo José Martins da Cruz Dinis, o qual acabou por ter enorme influência no nosso associativismo como veremos. Continuando na angariação de fundos tão precisos, o Grupo fez nova deslocação à Marinha Grande. Encontrámos a seguinte notícia: É com a maior satisfação que hoje noticiamos a ida da Secção Dramática do benemérito Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, acompanhado de muitos sócios, à laboriosa e hospitaleira Vila da Marinha Grande, assim como bem hão-de dizer todos aqueles que, mais de perto, sentiram, arfar-lhe no peito, uma jubilosa alegria, que só se sente quando estreitamos nos braços um povo amigo e bom como são os marinhenses.
         Já esperávamos o resultado obtido, pois que nem outra coisa era de esperar, dado as qualidades de que são dotados todos os filhos da Marinha Grande, e ás simpatias de que ali gosam os nossos conterrâneos. Ora, como motivos vários e imprevistos nos impediram que os acompanhássemos, e para melhor e mais minuciosamente ilucidarmos os nossos leitores, era-nos necessário, indispensável mesmo, que entre um nucleo tão compacto, como foi aquele que até à Marinha debandou no último sábado, escolhessemos uma pessoa que nos informasse do que mais notavel ali se tivesse passado.
         Escolhemos o nosso particular amigo sr. Raul Martins.
         - Chegados á estação - disse-nos - uma enorme multidão enchia completamente a gare, á nossa chegada, vendo-se entre ela o estandarte do Operario Club Marinhense e representantes dos Bombeiros Voluntários e Atlético Club Marinhense, d’aquela terra, que á chegada dos tavaredenses levantaram vivas ao Grupo Musical e Tavarede, que foram correspondidos por este.
         Trocados os cumprimentos, formou-se um cortejo imponente, que se dirigiu, visto o adeantado da hora, para o Teatro Stephens, propriedade dos Bombeiros Voluntários, e onde se realisaram os espectaculos.
         Momentos depois, a casa principiou a encher-se, notando-se, no entanto, algumas falhas na plateia, e representou-se a opereta Entre Duas Avé-Marias, que foi calorosamente aplaudida nas passagens mais notaveis, tendo sido feitas chamadas especiaes ao ensaiador, Violinda Medina, Manuel Nogueira e Herculano Rocha.
         - Passamos ao dia seguinte, domingo, 3.
         - Depois de percorridos varios pontos de paisagem verdadeiramente exuberantes e visitados alguns logares mais notaveis da Vila, fomos assistir a um match de foot-ball, que devia ter lugar entre um forte onze do Atletico Club Marinhense e um composto por elementos da Secção Dramatica.
         - Depois de uma renhida luta, sairam vencedores os nossos adversários pelo elevado score de 5-1; tendo, no entanto, merecido aplausos os jogadores nossos, Manuel Cordeiro, Manuel Nogueira e João Medina, que, sem exagero, foram os melhores homens da tarde.
         - Depois fomos assistir a uma festa que, por volta das 4 horas teve lugar na Associação Humanitaria dos Bombeiros Voluntarios d’aquela vila, onde foram trocados calorosos brindes.
         - E depois de satisfazer-mos as exigencias do estomago fomos novamente para o Teatro.
         - Qual o nosso espanto quando ouvimos dizer que jà não havia bilhetes para o espectaculo, que a seguir ia ter lugar.
         - Efectivamente, muito antes da hora marcada, a casa estava completamente á cunha. E representou-se a opereta Noite de Santo Antonio, tendo a completar um Acto Arrevistado, que foi muito aplaudida,  tendo sido feitas, novamente, chamadas especiaes aos amadores, ensaiador e maestro.
         - No final do espectaculo, foi, por um grupo de habitantes da Marinha, pedido para que fôsse executada novamente a marcha Figueira da Foz, que no final foi calorosamente aplaudida, tendo todos retirado com explendidas impressões.
         E depois de nos dizer o que aí fica, ia a retirar-se, quando o prendemos ainda com algumas palavras sobre o dia de segunda-feira, ao que nos respondeu:
         - Olhe, meu amigo. Já andavamos um pouco massados pelas noites perdidas, mas no entanto, ainda percorremos algumas fabricas de vidros e cristaes, que, com grande deferência ali fômos recebidos, e... mais nada.
         - Agora, para fechar, termino com estas palavras que, com a maior sinceridade as pronuncio: - A Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, póde orgulhar-se do êxito obtido nesta louvavel iniciativa, onde soube engrandecer, mais uma vez, o nome da colectividade e da terra que lhe dão o nome, colhendo loiros tão belos, grinaldas tão floridas, que se ostentam hoje, e sempre, triunfal e orgulhosamente na flâmula querida daquele estandarte... - e apontou-nos o estandarte do Grupo Musical.
         É pois, daqui, desta modesta tribuna, onde combatemos pelo desenvolvimento do Grupo Musical, como um valioso baluarte da Instrução, que póde orgulhar-se de ser, e sobretudo o nome de Tavarede, saudamos, franca e abertamente, a pleiade de rapazes e raparigas que constituem a aureolada Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, assim como á sua digna Direcção.

Padre Manuel Vicente

         A Sociedade preparou novo espectáculo com a nova fantasia A cigarra e a formiga, original de Alberto de Lacerda e música de António Simões. Por sua vez, os amadores do Grupo começaram a ensaiar uma nova opereta, de Raul Martins, com versos de António Amargo e música de Herculano Rocha. E quanto à fantasia A cigarra e a formiga, transcrevemos parte de uma reportagem escrita no jornal O Século. O jornal O Século, na sua página teatral de terça-feira, publicou um artigo crítico acêrca da interessante fantasia em 3 actos A Cigarra e a Formiga, com tanto agrado representada pelos modestos amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Vem assinado com as iniciais J.T. e por isso atribuímos o artigo ao distinto crítico e escritor teatral de Lisboa, sr. dr. José Tocha.
         Temos muito prazer em arquivar no nosso jornal esta apreciação, feita por pessoa de especial autoridade e competência, da peça A Cigarra e a Formiga, sobretudo pelas palavras de justiça que nela se dedicam aos humildes rapazes e raparigas que a interpretam e à acção, a todos os títulos notável, que a Sociedade de Instrução Tavaredense continua desenvolvendo em prol da educação do povo de Tavarede. Transcrevamos:
         “Em Tavarede, a dois passos da Figueira da Foz, há uma sociedade de instrução, a Sociedade de Instrução Tavaredense, que dispõe dum pequeno teatro, uma autêntica boite, como agora se diz, onde costuma realizar espectáculos curiosíssimos, récitas em que representa uma companhia de amadores absolutamente excepcional.
         Basta dizer que a constituem humildes trabalhadores do campo ou das oficinas, que trabalham de sol a sol e à noite aprendem, estudam, ensaiam com as dificuldades que se adivinham, sabendo-se que entre êles muitos há que nem sabem lêr.
         Há dias assistimos a um dêsses espectáculos, representando-se a fantasia em 3 actos “A Cigarra e a Formiga”.
         A peça é um trabalho de notável merecimento literário, bem construída, interessando de princípio ao fim e visando a produzir um efeito moral dos mais salutares, qual o duma lição clara que prende e diverte os que a recebem – todos os que assistem – e fica por certo nos espíritos de todos melhor que a mais profunda prédica.
         Subido o pano, à frente duma cortina, o Prólogo vem dizer de sua justiça. Vai contar-se uma história que, embora o pareça, não é velha. E o próprio Prólogo apresenta ao público as duas figuras simbólicas, a Cigarra e a Formiga, retirando-se em seguida.
         Em presença uma da outra, cada qual procura fazer valer os seus predicados e aponta os defeitos da outra, ante José Cigarra um rapaz leal e bom mas um tanto alegre e folgazão, um tanto cabeça de vento.
         Em casa da Cigarra, depois em casa da Formiga assiste José Cigarra a um desfiar de figuras simbólicas apresentadas com habilidade, metidas na carpintaria da peça com lógica e a propósito, como sejam a Alegria de Viver, o Riso, o Fatalismo, a Abundância, o Pão, o Vinho, o Oiro, etc. terminando o 1º. acto com uma apoteose ao trabalho que a Formiga apresenta como suprema aspiração das pessoas bem formadas.
         No segundo acto as figuras simbólicas transformam-se em figuras da vida real.
         António Moleiro, viúvo, vive com uma filha, Luísa, que namora José Cigarra com consentimento e agrado do pai. Este, porém, a certa altura, sabendo que João Viúvo, um ricaço boçal da aldeia, procura casar de novo porque, diz êle, a mulher que escôlha valerá bem por duas criadas, tocado pelo espírito da ganância, pela ambição de riqueza, ajuda a pretensão do velho quanto ao casamento com Luísa. Esta, como filha obediente e submissa acata tudo sem protestos embora, intimamente, se contrarie porque o seu desejo seria casar com José Cigarra. A atitude de Luísa deixa no espírito dêste uma dúvida sôbre o amor que ela dizia consagrar-lhe. E José Cigarra resolve, despeitado, rir e divertir-se na festa de S. João que a seguir se realiza. É êste um quadro cheio de realidade, felicíssimo sob todos os pontos de vista, que inclui uma desgarrada cantada pelos dois noivos, ela porque a isso a constrangeram, êle para lhe responder, que é um verdadeiro achado teatral e um primor de poesia no género.
         Segue-se o 3º. acto, em cujo primeiro quadro se assiste à passagem de figuras da vida moderna, agitada e fútil.
         Cabelos cortados, a toilette arrojada, o jazz, e charlston, etc., são assuntos para uma série de números cheios de vivacidade e de graça.
         Mas, José Cigarra farta-se da vida estouvada e procura em casa da Formiga encontrar o que deseja.
         Em casa da Formiga, enquanto espera que o recebam, adormece e sonha. No sonho aparecem-lhe, nas suas verdadeiras proporções, as figuras reais da peça. João Viúvo é a Formiga com todos os seus defeitos e sem nenhuma das suas qualidades. Êle próprio é a Cigarra estouvada de mais e com pouco amor ao trabalho. Pesando prós e contras êle mesmo tira as conclusões e é já abraçado a Luísa, que nunca deixou de lhe querer, que responde à Cigarra e à Formiga e às suas censuras, uma porque êle se inclina para as teorias da outra. Ambas têm qualidades e ambas têm defeitos. José Cigarra, aprendeu com ambas e concluíu que é preciso trabalhar, lutar, ser bom e honrado sem deixar de ser alegre em saber rir e divertir-se. De tudo isto sai a inevitável e eterna vitória do amor e acaba a peça com uma interessantíssima apoteose ao Amor da família, do trabalho, do semelhante, da Pátria, enquanto um hino solene se faz ouvir e o pano cai.
         Se é certo que a peça é, a todos os títulos, um trabalho notabilíssimo, digno mesmo dum ambiente mais amplo que um simples teatrinho de aldeia, o que principalmente interessou foi a companhia. É que não conhecemos nada que se compare. Temos visto muita vez grupos de furiosos, mais ou menos desastrados, mais ou menos aproveitáveis, mas nunca viramos um conjunto tão curiosamente organizado e tão excepcional pela circunstância de ser recrutado entre gente do campo e de profissões humildes.
         O Prólogo, António Graça, é cavador de enxada; José Cigarra, João Cascão, é ferreiro de ofício.
         São dois elementos de real valor, principalmente o segundo que, por ser um rapaz, estava muito a tempo de se fazer um óptimo actor, porque não lhe faltam qualidades para isso. Os mais, entre os rapazes e as raparigas, revelaram-se também bons intérpretes, com defeitos naturais, mas desculpáveis. Entre êles Emília Monteiro, Guilhermina de Oliveira, Maria Teresa de Oliveira, Maria José da Silva, Francisco Carvalho, os dois irmãos Broeiros, César de Figueiredo, etc.
         A música, de António Simões, acompanha com felicidade tôda a peça, nomeadamente no concertante do segundo acto, que é uma página de real merecimento, e no fim do 6º. quadro, onde motivos populares são habilmente aproveitados.
         Alberto de Lacerda, doublé de pintor e poeta, não se limitou a fazer os versos: pintou parte do scenário, sendo particularmente feliz na apoteóse final, que como idéa completa admiravelmente o sentido geral da peça e como execução é um bom trabalho.
         .......................
         Exemplos como os da Sociedade de Instrução Tavaredense devem ser seguidos por tôda a parte, deviam mesmo ser auxiliadas pelo Estado estas simpáticas iniciativas, que roubam à ociosidade e à taberna um punhado de bons trabalhadores e servem para recolher proventos destinados ao cofre duma escola.
         É possível que muitos leitores destas linhas tenham para o que fica dito o encolher de ombros desdenhoso, natural em quem não acredita sem ver.
         Pois é pena que Tavarede fique ainda assim tão longe. Vendo se convenceriam de quanto pode conseguir a boa vontade ao serviço duma idéa generosa e sob todos os aspectos simpática.

António Graça

         Não podia faltar a crítica conservadora. Das bandas de Tavarede, onde a seita dos três pontinhos ilumina a obtusidade de meia duzia de camponios ensinando-os a dar á perna num geito lôrpa e a proferir sandices de olhos em alvo, chegou ao teatro “Parque Cine” da Figueira um grupo dramático, apregoado pelos arautos da grande imprensa neste “Século” tartufo, como a expressão maxima – que fino!... – da arte de Talma.
         E, assim, tivemos nós um hilariante espectaculo com a representação sumida duma fantasia “A cigarra e a formiga” historia absolutamente inédita no dizer do infeliz “prólogo” – um homenzinho ridiculo, dum ridiculo inconsciente.
         A peça é uma amalgama de bocadinhos alheios onde não falta a piada porca, a forçar gargalhadas pela torpeza, sem teatro e sem arte, pretexto apenas para a apresentação da companhia. Uns bocados de aqui, uns versos de acolá, uma sugestão de alem, isto tudo muito mal cerzido, falho de unidade, distribuido por três actos e 10 quadros. Há um prólogo a apresentar em versos imbecis, sem gramática e sem metrica, os dois personagens principais – uma Formiga, lua cheia vestida de cinzento, de voz monocórdica e sem gestos, e a outra, um bicharôco verde que consegue atravessar o palco continuamente, de principio ao fim, com um risinho lôrpa engatilhado nos labios desmesuradamente abertos. Durante este primeiro acto, sem preparação teatral, recorre-se a um desenrolar monótono de fantoches manejados sabe Deus como e porquê.
         No segundo acto, por certo o menos peor da fantasia, assiste-se a um pandemónio amoroso em que a filha não quer casar, mas que diz que quer porque o pai quer, ficando o namoro desprezado sem saber o que quer, no meio duma confusão tam grande que não há forma de se perceber nada. O segundo quadro deste acto fornece-nos um arraial de S. João, sem movimento, sem côr e sem vida, mero pretexto para uma misera desgarrada.
         O terceiro acto continua a baboseira inicial, terminando por uma estupidificante apoteose ao amor, muito ridicula e pobrinha.
         Como se vê tudo isto é nojento em demasia, tanto mais que os vinte e sete numeros de musica anunciados se resumem, na sua concepção a uma monótona e bafienta repetição de motivos.
         Dos scenarios: o do primeiro quadro, especialmente, é um pastelão de cores com as perspectivas erradas; o do segundo sofre-se; o do terceiro apresenta-nos um cofre tam bem pintado de azul que é o melhor efeito comico da peça. De resto como muito bem diz a cigarra, tudo aquilo é fantasia.
         Do valor literário da obra, ainda que muito pese ao habilitado critico do Século, a nossa apreciação, nada pode encarecer. Quizeramos fazer algumas transcrições, mas o espaço falta-nos. Não resistimos contudo a esta edificante quadra:
                                      Ai minha mãe, minha mãe!
                                      Vivesses tu tinha eu pae!
                                      Assim se o pranto me cai,
                                      Não tenho pae nem ninguem!
         E basta!... que isto de se gritar pela mãe, quando se pretende chamar o pae que fugiu atravez da mãe por a menina chorar, é o que de melhor conhecemos no genero Rosalino Candido, Calino & Companhia.
         A interpretação, não supre as faltas atraz anotadas, antes continua a asneira. Iletrados, ou pouco menos, as silabas saiem-lhes da boca numa inconsciencia tal que comove.

         A Sociedade de Instrução Tavaredense melhor faria, se ensinasse as boas regras do A B C aos seus associados em vez de os meter num palco a fazerem rir pelo ridiculo das suas pretensões artisticas.

sábado, 31 de agosto de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 38

Pouco depois do grupo cénico da Sociedade ter ido à Figueira dar um espectáculo com O sonho do cavador, surgiu, num novo jornal figueirense declaradamente assumido como conservador, uma crítica verdadeiramente ferocíssima. Esta colectividade, sempre defensora do regime republicano, foi apelidade de loja da maçonaria e, como tal, contrária ao novo regime político. Mas, vejamos a tal crítica. O Sonho do Cavador é uma revista-fantasia, em 3 actos e 10 quadros, da autoria de João José, com musica de Antonio Simões. Foi para assistir a esta peça levada à scena pelo grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense que quasi toda a Figueira acorreu no dia 26 passado, ao Peninsular. Não me permite esta secção, nem mesmo as normas estabelecidas em obediencia às velhas praxes jornalisticas para récitas de amadores, que façâmos a analise critica dessa revista-fantasia.

Grupo cénico da SAIT - 1928
         
       O Sonho do Cavador - Manuel da Fonte, Roda e Ti João da Quinta

            Limitamo-nos, apenas, a registar o entusiasmo, verdadeiramente bizantino, com que a “plateia” da Figueira recebeu esta peça, representada ab initio num modesto teatro do ridente povoado de Tavarede. Mas registando o facto, somos forçados a abordá-lo, ainda que simplesmente ao de leve, para que ele desça a ocupar a posição devida – uma bem velada meia sombra da maior parte das teatradas levadas à scena por amadores.
         Não vamos incidir as nossas considerações sobre certas confusões de linguagem; sobre a falsa colocação de pormenores que atraiçôam a unidade do enrêdo; nem tão pouco sobre várias scenas que se repetem, confundindo, entediando e monotizando a pouca acção que já por si se revela.
Não procuramos esclarecer o espirito critico dos leitores, referindo a falta de colocação de incidentes verdadeiramente inverosimeis que quebram o legitimo equilibrio dos detalhes; nem apresentamos o mau amanharamento deste ou daquele quadro; e a ilogica e pouca racional iniciação do cavador na cidade.
         Não salientamos sequer as scenas que, exageradamente romanticas, se apresentam sob a vida negra dessa ilusão perdida em face de amazonas mal engendradas que só existem na precoce imaginação do auctor.
         Não repetimos o que sobre a peça escreveu um colega local: “a peça não vale nada”...; nem mesmo revelamos o péssimo gosto de vários quadros, com manchas verdadeiramente insonsas de fraco tom e falhas de minima e mais prudente concepção.
         Nada disso fazemos, porque se a “plateia” da Figueira é, de facto, “plateia” – ela, de facto, tambem, já julgou definitivamente.
         Como explicar, então, este grande entusiasmo que de certo publico se apoderou, para apresentar o original de João José como a oitava maravilha do mundo; o verdadeiro formigueiro que de longada ia estrada além, até Tavarede, para assistir ás primeiras representações; a partida de tal grupo dramático de Tavarede em vento norte a Buarcos; e daqui, a este assalto ao Peninsular?!...
         Valor intrinseco da peça, positivamente que não, porque fazendo eco dessa local a que nos referimos – “a peça não vale nada”.
         Valor de partitura, tambem não pode ser, visto a plateia da Figueira estar habituada a ouvir o que há, de bom e de melhor.
         Nem mesmo sequer nos podemos integrar na forma como decorre a acção, ou pela maneira por que os factos se sucedem, sem qualquer particularidade que emocione verdadeiramente o publico.
         E no entanto, o O Sonho do Cavador que o espirito judaico-franco-maçon de Tavarede nos exportou, é uma revista-fantasia de bons costumes, com uma bem acentuada nota regionalista.
         Não se explica assim, a obra de arte feita para agradar a todos os corações cimplorios, do ir.’. João José que personalisa a nota regionalista da revista que se apresenta com certo ar de rejuvenescimento nacional.
         Sendo assim, como é de facto, não se explica duma forma plausivel a verdadeira corrida democrática que da peça se tem feito, fazendo dela uma verdadeira parada politica.
         É que, na verdade, o O Sonho do Cavador com uma nota acentuadamente regionalista, transbordando de amôr á terra e pela terra, é uma peça tudo quanto há de mais antidemocrática, promovendo a par e passo uma atmosfera nacional que a Democracia não pode perfilhar, por ser estructuralmente anti-nacional.
         E, se o publico a aplaudiu por méra questão politica, fazendo dela uma Grande Parada, não soube integrar-se nela, na coerencia dos seus proprios principios, visto ela ser a máxima negação de todos os máximos principios do Numero, para ser uma peça que representa a verdadeira arte nacional, na tése que pretende defender.
         Nem todos, porém, assim o compreenderam. E, desta forma, o tal publico fala, ouve e quere fazer falar e ouvir os outros – os indiferentes.
         E, assim, esse publico fazendo da peça uma Grande Parada, conseguiu arrastar a Tavarede, outro publico novo e incredulo, propagueando mil e uma coisas, e enaltecendo ao maximo um valor intrinseco desse O Sonho do Cavador que, de verdade, nada, ou pouco, vale em si.
         Não se satisfazendo ainda, arrasta-o, em pleno sucesso, até Buarcos, e daqui, ao Peninsular.
         E porquê?!... Simplesmente porque o auctor – tenho muito prazer em dize-lo – é um ir-‘- democrático que se encobre com o pseudonimo de João José e faz parte das hostes aguerridas que combatem a actual situação politica, vivendo aliás na sua dependencia, porque a serve como seu funcionário.
         Da peça, fizeram, pois, mais uma manifestação politica, aproveitando a boa-fé de certo publico que pretende divertir-se, criando de tal modo, um certo espirito de unidade politica que na realidade não existe e que sem grande elevação de pensamento pretende sustentar o fogo sagrado das trincheiras maçonicas da Figueira e seus arredores.
         E, no entanto, a Grande Parada, longe de ser da Metro Goldwyn Mayer Films, Lda. pois apenas é da Sociedade de Instrução Tavaredense, vai sentetisando o pensamento que representa e vive por intermédio desse ir.’. factotum maximus do orgão fariseu da sua terra.
         É que a politica não esquece deveres imaginarios, e sempre procura nas cada vez mais densas trevas que a apresentam, aquela politica de infiltração que pretende criar um espirito de unidade secreto que um trabalho de critica de arte pode prejudicar e aniquilar.
         É o nosso espirito de combatividade que ora chama a atenção da “plateia” da Figueira, para o que se passa com o O Sonho do Cavador, na certeza da incoerencia que nomeadamente designa essa Grande Parada... democrática.
         Da nossa emoção artistica, está tudo verdadeiramente dito.
         Basta que salientemos ainda que, pela analise da obra, o mecanismo de tal peça é tudo quanto há de menos democrático – apesar de escrita por um democrático e ao serviço de democráticos – porque a “Democracia significa desunião, partilha de sentimentos, oposição e luta de interesses.
         Por lei natural, da consciencia da Nação nasceu a Patria. Pela rebelião constante do preconceito do numero contra a inteligencia, a Democracia.
         A Democracia desconhece a natureza, escraviza as almas e mata a Nação”.
         E porque o O Sonho do Cavador é fundamentalmente anti-democrático, porque é nacional, - que demonio de simpatia, de aplauso ou entusiasmo lhes pode merecer o mesmo O Sonho do Cavador, com a sua tese regionalista?
         A não ser que essa “plateia”, esse publico democratico que constitue essa curiosa multidão ignara de incultos amadores, apenas tenha em mira individualizar o individuo auctor, num gesto de intriga politica, bem próprio daquelas assembleias cujo “caracter especifico da eleição é o Numero, e o Numero é a antimonia da Qualidade”.
         Mas se assim é, se tudo se congrega à volta do ir.’. auctor, que fica então?
         O depoimento insuspeito duma “plateia” que se deixou arrastar pela comédia democrática, “à mentira democrática, à fraude democrática – numa palavra à Democracia que é, por definição, mentira, fraude, comedia, e que se pode captar áqueles que não são incompativeis com os mentirosos, os comediantes e os burlões”.
         Foi essa a virtude d’ O Sonho do Cavador.
         Mas como na Democracia “à medida que o Numero aumenta, a competencia restringe-se” – o depoimento que os democráticos acabam de fazer com o O Sonho do Cavador, merece que o não deixemos em silencio.
         O Sonho do Cavador, por si, revela que o nosso Teatro ainda “poderá ser português de Portugal, e a nossa vida de espirito, fortalecida em independencia honrada e salvadora, cessará de ver-se humilhada em tal aspecto, na condição de colonia de presidiários da cultura francesa” não se integrando no que diz Ch. Grun – Les régionalistes, qui comprennent á merveille l’importance du théatre, refusent, tout naturellement, de se satisfaire des tournées parisiennes (dites, par les agences, tentatives de décentralisation théatrale) et, même des pieces incolores dues á un auteurs local e montées par um directeur en mal de réclame et de décentralisation, lui aussi – porque, “contra estas mistificações estão bem prevenidos o instincto e a consciencia dos regionalistas”.
         Pela Grande Parada... democrática de que foi alvo, revela o O Sonho do Cavador, em sua plenitude maxima, aquela tão nossa conhecida politica de – Oh! Escola, semeai!... traduzida pelos principios amorfos da L.’., E.’. e F.’., tristes simbolos da ordem revolucionária imperante do Poder anonimo que em 34 nos foi imposto pelas armas estrangeiras.
         Pois dessa ideologia revolucionária que ora serve de cobertura a todas essas lojas maçonicas que por ahi andam, ao serviço de politicos sem escrupulos que a Dictadura afastou da Nação – se mistificou o Sonho do Cavador.
         E a Figueira aceitou, indiferente, como indiferente Buarcos aceitou a mistificação. Somente para aqui, vem rotulada pela Santa Casa da Misericordia...
         Mas os fins são os mesmos.
         Eles ficaram exuberantemente demonstrados na noite de 26 de Janeiro, deste Santo Ano de Cristo.
         Eis o que teriamos escrito logo a seguir á representação d’ O Sonho do Cavador, no Peninsular se nos fosse dado apresentar o nosso protesto em publico!
         Ainda que tarde, porêm, ele aí fica, claramente definido nas colunas aguerridas desta trincheira de Bom Combate.

         E... sic transit gloria mundi. (a) José João.

sábado, 24 de agosto de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 37

Em espectáculo com a receita a reverter para a Santa Casa da Misericórdia, a Sociedade foi ao Casino Peninsular com a fantasia O sonho do cavador. A lotação esgotou, ficando mesmo muitas pessoas sem ver a peça por não conseguirem bilhetes. E no Grupo foi prestada homenagem a sua amadora Violinda Medina. Confórme aqui noticiámos, teve lugar no ultimo domingo, perante uma numerosissima e distincta assistencia, a récita de homenagem à consagrada amadora deste Grupo, D. Violinda Medina e Silva, e em que subiu à scena, a interessante opereta em 3 actos, Entre Duas Avé-Marias, da qual é auctor o sr. Ernesto Donato.
         Pode bem gabar-se a brilhante Secção Dramática desta colectividade, que conseguiu neste dia, mais um triunfo para o seu nome. 

  
                                                 Na peça Mãe Maria
  
         Violinda Medina, a distincta amadora do Grupo Musical e d’Instrução, bem mereceu esta homenagem com que a Direcção desta colectividade a quis galardoar, pois o seu esforço e dedicação, são o mais evidente incentivo para os novos, para aqueles que principiam a desabrochar para a vida, e que teem o dever de seguir-lhe os passos, porque não fazem nem mais nem menos, do que cumprir um dever que se lhes impõe.
         O seu amôr pelo Grupo Musical é grande, muito grande mesmo, e é com essa grandiosidade, que tem colhido loiros que honram e glorificam não só o nome da Secção Dramática a que pertence, - mas ainda, e muito especialmente, o seu nome de distincta amadora.
         Raul Martins tambem merece duas palavras de enaltecimento pelas qualidades brilhantes que o caracterisam e que tem dispensado a este baluarte do desenvolvimento da instrução na nossa terra, o melhor do seu apoio tanto moral como material, pelo que, em nome da sua direcção, aqui lhe consignamos os nossos melhores e mais sinceros agradecimentos.
         Voltamos a falar da “Festa Artistica”, que aqui teve lugar no passado dia 27.
         Uma distincta assistência enchia completamente a elegante sala, vendo-se na sua grande maioria, pessoas da Figueira, que saudaram com uma grande salva de palmas a entrada da homenageada em scena, assim como a todos os amadores, sendo bisados alguns numeros.
         No final do segundo acto, apareceu no palco um dos directores que, em nome da Direcção da sua colectividade, ofereceu a Violinda Medina um artistico objecto d’oiro, o que a assistência aplaudiu.
         Severo Biscaia associa-se tambem a esta homenagem tendo elogiado a homenageada em seu nome pessoal, e em nome da Secção Dramática do Ginásio Club Figueirense, que representava.
         E para terminar, tambem cabem duas palavras a Herculano Rocha, que foi tambem um dos grandes elementos que concorreu para o brilhantismo da representação das Avé-Marias. A seguir, teve lugar o baile, que esteve concorridissimo e que terminou perto das 3 horas de segunda-feira.

         Diversificando a sua actividade, a Sociedade resolveu promover um certame agrícola – pomícola, com as seguintes secções: 1ª Secção – Raíses e tubérculos – Batatas, batata-doce, topinambo, nabos, rábanos, rabanetes, beterrabas, cenouras, cebolas, cebolinho, alhos, etc. 2ª Secção – Caule e fôlhas – Couves, acelgas, alfaces, cardos, espargos, ruibarbo, azêdas, espinafres, chicórias, salsas, aipo, agriões, mostarda, etc. 3ª Secção – Flôres e frutos – Abóboras, melões, melancias, pepinos, favas, ervilhas, lentilhas, feijões, tomates, alcachofras, beringelas, pimentos, morangos, groselhas, framboesas, pêras, maçãs, pêssegos, uvas, figos, ameixas, alperces, nêsperas, flores de ornamento para venda, etc. 4ª Secção – Cultura – Arranjo das culturas – canteiros, irrigações, sementeiras, plantações, aproveitamento de estrumes, etc.
         Prémios – Haverá para secção, e em cada sessão, um prémio, um “acessit” e uma menção honrosa com respectivos diplomas e uma pequena remuneração pecuniária correspondente, que ulteriormente será fixada.
         Júri – O Júri será nomeado oportunamente e deverá visitar os campos de cultura, não só para fazer a classificação da 4ª secção, mas também para verificar, em relação às 1ª, 2ª e 3ª secções, se os produtos apresentados são na verdade de produção corrente e não excepcional para êste certame, o que não deve ser considerado. O Júri terá em consideração, na classificação dos concorrentes, não só a qualidade mas também o número de produtos apresentados.
         Inscrição – Torna-se necessário que os agricultores que pretendam concorrer se inscrevam até ao dia 30 de Maio em relação à primeira sessão e até 3l de Agosto em relação à segunda.
         Notas – Podem concorrer todos os agricultores do concelho que o desejarem fazer, mas só os da freguesia de Tavarede poderão ser classificados nêste certame.

         E, uma vez mais, vamos ter de recuar um pouco. Os encargos financeiros assumidos com as obras, apesar de todos os esforços encetados, não haviam consentido que o Grupo amortizasse qualquer importância à letra de 10 contos, referente à metade do custo do edifício. A outra metade havia sido paga em dinheiro conseguido com a subscrição dos sócios de obrigações do valor de 50$00 cada. Nem espectáculos teatrais, nem festas e bailes, garraiadas, peditórios nas festas populares de Tavarede, etc., haviam produzido verbas que permitissem fazê-lo. A própria experiência feita com a projecção de filmes, ao princípio com resultados tão promissores, acabou por ainda complicar mais a situação, uma vez que os encargos assumidos com a aquisição da respectiva máquina e acessórios, não foram cumpridos, ainda mais se agravando quando a máquina avariou e não conseguiram a troca por outra, por falta de financiamento.

         Tudo se complicou muito mais, quando a Direcção recebeu uma carta do seu sócio protector e benemérito Manuel da Silva Jordão, vendedor do edifício da sede, avisando que a letra entregue aquando da compra, se vencia no dia 10 de Novembro de 1928 e que desejava a sua liquidação. Antes de responderem tentaram fazer uma hipoteca do prédio e trataram de fazer um pormenorizado estudo para apuramento da total situação devedora. E como se impunha a liquidação da letra, foi conseguido o desconto de uma letra de 12 contos, no Banco Nacional Ultramarino, sendo saque de António Medina, aceite de António de Oliveira Lopes e avalisada por João de Oliveira e José Maria Costa.

         O estudo efectuado, indicou que os débitos totais somavam cerca de 33 000$00. Em Assembleia Geral extraordinária, o então presidente da Direcção, aceitante daquela letra, propôs a efectivação de um empréstimo a fazer junto dos sócios. Mas, depois de debatido o assunto, acabou por ser deliberado e aprovado o seguinte: A Assembleia Geral reunida extraordinariamente, a pedido da Direcção para tratar do contraimento de um empréstimo único, cujo fim é destinado a solver todos os outros débitos, resolve dar plenos poderes à Direcção, na pessoa do seu presidente, para obter, nas melhores condições para este Grupo, um empréstimo de 30 contos, sobre hipoteca do prédio que é propriedade e sede do Grupo, juntando-se a esta garantia, caso seja necessária, a responsabilidade dos nossos dedicados sócios srs. José Maria Costa, João de Oliveira, António Medina e António Oliveira Lopes.

         Em reunião da Direcção, em Março de 1929, o presidente informou que a letra e respectivos juros, no montante total de 11 319$30, já havia sido liquidada, mas, ao mesmo apresentou uma proposta para que o sócio Manuel da Silva Jordão fosse suspenso de sócio até à primeira Assembleia Geral, pela qual deverá ser demitido, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da Direcção, acrescentado ainda que de imediato fosse retirada, da sala de espectáculos, a sua fotografia.

         Faltam-nos elementos para ajuizar devidamente todos estes factos. Não se sabe o que se terá passado, mas a verdade é que o referido sr. Jordão cedeu, gratuitamente, a casa de 1914 a 1923, vendeu-a depois recebendo apenas, em dinheiro, metade do valor acordado e a outra metade em letra, que acabaria por nunca sofrer qualquer amortização até 1928, data em que, imprevistamente, exigiu a sua liquidação total, resultando de tudo isto que, de sócio benemérito, passou a difamador da associação, acabando por ser demitido. Registemos, todavia, que tal demissão nunca chegou a ser concretizada.

         No entanto, a história é ainda mais complexa. Para nos baralhar mais, o relatório já mencionado, indica uma hipoteca de 31 130$00, proveniente de um empréstimo conseguido no Crédito Predial, garantido pelos já referidos sócios, e vencendo um juro de cerca de 15% ao ano. Incomportável para o Grupo, houve necessidade imediata de tentar contrair um outro empréstimo em melhores condições. Tal não foi conseguido, pelo que em nova Assembleia Geral extraordinária, em Junho de 1930, foi resolvido aceitar uma proposta do sócio António Oliveira Lopes para a compra do edifício por 25 contos, ficando assente que o Grupo ficaria como inquilino mediante uma renda mensal de 166$70, ficando ainda com o direito de opção em caso de venda. Os mesmos já referidos sócios, assumiram o encargo de regularizar os restantes débitos do Grupo.

         Fiquemos, por agora, em Junho de 1930, com o Grupo na sua nova condição de inquilino, e regressemos às suas actividades culturais e recreativas. A opereta Entre duas Avé-Marias foi um novo êxito, artístico e não financeiro. Em primeiro logar, é dever nosso citar o nome de Herculano Rocha, êsse verdadeiro artista de génio que, como regente da orquestra, foi um dos elementos que mais contribuiu para o explendido exito que mais uma vez obtiveram os distinctos amadores do G.M.I.T.
         A seu lado colocamos Rosa, a aldeã, papel interpretado por D. Violinda Medina e Silva, para mim, a melhor, a mais completa amadora do nosso concelho. Quando é preciso chorar, fá-lo com tal sentimento, que nos comove; e quando é preciso rir, tambem o faz com aquela graça com que só artistas de nome o sabem fazer. E a tudo isto alia um timbre de voz unico, perfeito, que encanta e seduz uma plateia inteira. Para ela, para essa excelente amadora, vão os nossos mais sinceros parabens.
         André, desempenhado por José Silva, foi admirável em todas as scenas. Boa voz, optimo gesto e com um á vontade proprio dum homem d’aldeia que tem caixa do correio e Retiro dos pacatos. Zé Cochicho, por Jorge Medina, muito bom, o que não admira porque é filho de peixe... e está tudo dito. Narcizo, por Manuel Cordeiro, bem; é um dos amadores novos, mas de recursos para o palco. Mordomo, gostámos. É um personagem que requere um certo esfôrço para dele se tirar partido, e António Medina conseguiu-o sem dificuldades.
         O Carteiro, muito bem por João Nogueira; pena é que a sua voz não possa elevar-se mais, de resto andou em tudo admiravelmente. Jorge, por Manuel Nogueira, foi correcto; mas devemos confessar que o encontramos um pouco deslocado do seu temperamento. Este, é um dos bons amadores tavaredenses, mas... como dizemos, o papel que desempenhou agora, não lhe está muito a caracter. O Morgado, foi interpretado com aquele rigor absoluto, único, que só nos grandes amadores, como Raul Martins, se pode encontrar.
         Propositadamente, deixamos para o fim o Aniceto Boticario, papel desempenhado por Adriano Silva, de quem não gostamos muito. Para que muda este cavalheiro de voz? Porque não fala naturalmente? Se assim fizesse, teria brilhado muito mais, visto ter explendidas qualidades para a arte de Talma.

         Nos finaes de acto, houve chamadas especiaes ao Ensaiador, e Herculano Rocha, e a D. Violinda Medina, tendo a Direcção no final do 2º. acto oferecido a estes elementos bouquets de flores naturaes. E eis, caros leitores, a opinião que formulei acerca da opereta Entre duas Avé-Marias, levada á scena por um dos mais completos grupos dramaticos do concelho desta linda cidade.

sábado, 17 de agosto de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 36

         E, mantendo a tradição, a tuna saíu no domingo de Páscoa, em visita aos seus sócios e amigos, deslocando-se à Figueira, Buarcos e Carritos. Ainda nesse mês, foi levada à cena, na Sociedade de Instrução, aquela peça que seria uma das mais famosas representadas por esta colectividade. Foi no dia 28 de Abril a estreia da célebre fantasia O sonho do cavador. O Sonho do Cavador agradou extraordinariamente. A peça é mais opereta que revista. Tem acção que caminha do 1º. ao último acto, surgindo de longe em longe, nalguns dos quadros, uma ou outra scena arrevistada, de acentuado sabor local; e tem, a dar-lhe unidade, uma intenção ideológica e de moralidade que, graças ao desempenho, foi sentida mesmo pelos espectadores que não puderam compreendê-la em todo o seu simbolismo.



O sonho do cavador – protagonistas: Jaime Broeiro (Ti João da Quinta), Emília Monteiro (Rosa) e João Cascão (Manuel da Fonte)

         A peça encerra a história, que é apresentada com fantasia dentro da qual a verdade tem lugar, dum cavador que a ambição da riqueza leva a abandonar a aldeia, depois de atirar fora a enxada e amaldiçoar o trabalho. Como trabalha desde pequeno, julga ter conquistado o direito à felicidade – e para êle – a felicidade não se encontra fora da riqueza e esta não se alcança cavando a terra. Na própria ambição encontra o castigo do seu êrro; vê-se mais pobre do que era, e as figuras simbólicas dos três Homens Felizes mostram-lhe como os pobres, os humildes, também podem gozar a felicidade; o cavador regressa à aldeia, onde o esperam ainda a enxada leal e a noiva fiel – e a peça fecha com o elogio da vida simples e humilde do campo, na qual a saúde do corpo anda sempre junta à alegria da alma.
         O Sonho do Cavador tem música lindíssima. É uma partitura em que António Simões foi muito feliz. As adaptações são perfeitamente ajustadas às personagens e às situações, como os números originais afirmam as qualidades brilhantes dêste distinto amador musical. Completam admiravelmente a beleza do conjunto alguns lindos versos do sr. João Gaspar de Lemos: esplêndido como inspiração os do final do 2º. acto, e maravilhosos de técnica, de ritmo e de singeleza aqueles em que o Pagem Amor-Perfeito conta à Rainha das Flores a história ingénua da andorinha que morreu apaixonada pela canção do rouxinol; As Uvas, e o terceto do Milho são versos graciosos e dum belo descritivo.
         Valorizando a representação, há os scenários e um vistoso guarda-roupa, no qual se admiram cêrca de 40 interessantes e muito sugestivas fantasias.
         Em resumo: O Sonho do Cavador marca em Tavarede, que é uma pequena e bem pobre aldeia, um acontecimento de certo relêvo artístico. Não admira que no próximo sábado se repita outra enchente, tanto mais que sabemos ser elevado o número de lugares que já no sábado ficaram marcados para pessoas desta cidade que nesse dia irão aplaudir os modestos e simpáticos amadores tavaredenses.

         O dia 12 de Maio de 1928 foi trágico para a nossa terra, acabando por influenciar, da forma mais negativa, o associativismo tavaredense. Numa peregrinação a Fátima, uma excursão de tavaredenses e figueirenses sofreu um acidente de viação, do qual resultaram duas vítimas mortais, uma das quais foi o padre Manuel Vicente, que paroquiava Tavarede desde o início do século. Adiante veremos como influiu no associativismo, sendo a principal vítima o Grupo Musical Tavaredense.

         Entretanto prosseguiam activamente as nossas associações. Após uma série de espectáculos com O sonho do cavador, sempre com lotações esgotadas, e depois da costumada interrupção do verão, regressou ao palco, ali se mantendo até fins de Outubro. E após dar 16 espectáculos na sua sede, realizaram a primeira saída, com esta peça, a Buarcos, onde obtiveram novo triunfo.

         O Grupo, e em benefício do seu cofre, realizou nova garraiada no Coliseu Figueirense. Aqui deixamos uma breve nota, especialmente para recordar os intervenientes. Nesta diversão, que promete ser ruidosa e fazer rir o espectador mais sisudo, tomam parte os melhores artistas da terra do limonete, todos com vontade de dar o corpo ao manifesto, para o que já fizeram o seguro das costelas.
         A cavalo, toureiam o menino Antonio Vieira, de Aveiro, que conta apenas 9 anos e que é uma esperança do toureio portuguez, e o sr. Francisco Pereira da Silva que, segundo nos disse, está preparado para enfrentar o bicho mais corpulento do curro que é fornecido pelos irmãos Plácido, de Santo Varão.
         Além destes elementos, haverá numeros cómicos, como o Barco Misterioso, As barricas encantadas e os Homens da pastagem, O Restaurante modelo, Estatuetas de jaspe, etc. Muitos outros artistas destemidos, tomam parte nesta garraiada, todos eles com vontade de desempenhar bem os papeis que lhes foram distribuidos, mas que nos é impossivel enumerar.
         O que podemos garantir, é que não é facil apresentar um cartel tão completo e variado de toureiros em bolandas, dispostos a deixarem de si fama imorredoira. O curro é composto de dois toiros e seis garraios e abrilhantam a diversão, algumas filarmonicas do concelho.

         Infelizmente a receita não foi a prevista, pois não conseguiram encher a casa, mas conseguiram ainda levar ao Coliseu muitas centenas de aficionados.

         Registemos que, como habitualmente, as escolas nocturnas continuavam a sua missão instrutiva, sempre com elevada frequência de alunos, adultos e crianças. E queremos prevenir que os últimos anos desta década, nos obrigam a um muito grande desenvolvimento, pois, e disso não temos dúvidas, foi durante este período que se registaram acontecimentos indeléveis nas associações tavaredenses. Teremos de pôr de lado a nossa intenção inicial de um ‘pequeno caderno’, mas parece-nos que para se contar a história do associativismo na terra do limonete, é indispensável debruçarmo-nos mais longamente sobre os acontecimentos nestes anos.

         Raul Martins desenvolveu, de forma notável, o teatro no Grupo. Vejamos esta nota respeitante a mais uma representação na sede. E visto que os grupos dramáticos dos clubes figueirenses adormeceram num criminoso far-niente, não ha remedio senão o amador de espectaculos teatrais - que não estão dispostos a comer sempre o indigesto acepipe cinematográfico - ir até fóra do burgo aos domingos divertir-se um pouco nos teatrinhos de aldeia.
         E foi por isso que, no passado domingo, fomos ao teatrinho da Rua Direita, em Tavarede, assistir á reprise, dada em matinée, da opereta em 2 actos de Raul Martins, a Noite de Santo Antonio, adubada com versos de Antonio Amargo e enriquecida com explendida musica de Herculano Rocha - que desta vez ensaiou e foi reger a orquestra com a sua extraordinaria maestria de artista invulgar.
         Nada queremos dizer da peça, que por varios palcos do concelho tem sido exibida com geral agrado - como o demonstram as suas multiplas representações - que a critica local tem sabido merecidamente elogiar pela pêna imparcial dos seus jornalistas-criticos. Tão sómente desejamos referir-nos ao desempenho.
         Incontestavelmente, o Grupo Musical e de Instrucção Tavaredense possui a dentro da sua secção dramatica alguns dos melhores amadores do concelho. Desfalcada embora a secção com a ausência de Antonio Medina Junior e com a perda irreparavel do grande cómico que foi o saudoso José Medina - apesar de tudo mantem o seu logar de previlégio com os antigos elementos e com a preciosa aquisição de outros nomes.
         A reprise da Noite de Santo Antonio constituiu mais um triunfo para o grupo, que caprichou em apresentar-se galhardamente, tanto pela correcção dos amadores como pelo rigor do guarda roupa, como ainda pelo meticuloso apuro da mise-en-scéne, para não falarmos tambem da perfeita execução da orquestra.
         Violinda Medina foi a explendida artista de sempre, pelo seu á-vontade em scena, pela sua impecavel dicção, pelo seu maravilhoso timbre de voz, que a tornam - sem favor e sem exagêro - a melhor e a mais completa amadora de todo o concelho.
         Raul Martins - encarnou bem o papel de galã, embora por vezes nos parecesse um pouco frio, talvez por temperamento próprio, talvez pela sua preocupação constante de ensaiador e de alma de todo o trabalho.
         Clarisse de Oliveira tem voz tem gesto, mas... teve mêdo, que a levou a fraquejar em certa altura. Deve perder êsse mêdo; quando se possuem qualidades reaes e verdadeiras, como ela possui, não há de que temer e deve-se fazer realçar todos os recursos.
         Manoel Nogueira e Manoel Cordeiro são dois excelentes cómicos, principalmente o primeiro. São êles a graça e o riso da opereta, nas suas passagens de gargalhada, que muitas tem e bem interessantes.
         Não nos deteremos na apreciação das personagens uma por uma, o que alongaria demasiado esta simples noticia sem pretenções a critica que para tanto nos falta competência. E estamos certos de que os correctos amadores não nos levarão isso a mal. Bastará a nossa afirmação de que o conjunto - salvas pequenas falhas, pois nada existe perfeito - foi absolutamente harmónico no geral como no particular: pode o Grupo Musical orgulhar-se do seu magnifico nucleo teatral, tão homogeneo, tão estreitamente ligado na mesma amisade pela arte e no mesmo amor pela sua Associação, que dificilmente encontrará entre nós outro que se lhe avantage.
         Ao Grupo Musical e Instrução Tavaredense, aos seus belos amadores teatraes, a Raul Martins e a Herculano Rocha - os nossos sinceros parabéns pelo êxito da matinée de domingo.

         Em Dezembro o Grupo comemorou o seu 17º aniversário com teatro, música, sessão solene e bodo aos pobres. E no mês seguinte, a Sociedade de Instrução comemorou as suas ‘Bodas de Prata’. Não podemos deixar de transcrever uma nota publicada. As previsões que aqui fizemos sobre as festas comemorativas do 25º. aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense foram inteiramente confirmadas. Mais ainda: foram excedidas. Na verdade, dificilmente poderá realizar-se com maior simplicidade, mais alto significado e maior brilhantismo a comemoração do aniversário duma colectividade cujo programa se subordina a êste tema geral - Instrução e Educação.
         A benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense teve mais uma vez ocasião de verificar como é admirada e considerada e a sua acção, de tão benéficos efeitos na população de Tavarede. O primeiro número do programa foi a récita de gala: - brilhante, com um acentuado cunho de distinção.
         As salas estavam artisticamente engalanadas, com muitas e ricas colchas de damasco nas paredes. A iluminação eléctrica, tanto na sala como no exterior, produzia um belissimo efeito. Na sala de espetáculos, êste belo efeito era ainda realçado por uma lindissima e monumental corbelha, em que as flores e as luzes de muitas e pequeninas lâmpadas formavam um conjunto artistico verdadeiramente primoroso.
         Abriu a récita com o hino da Sociedade, executado pela orquestra e cantado pelo orfeão, e para o qual a distinta poetisa srª. D. Maria de Jesus escreveu a letra. Seguidamente o orfeão da Sociedade cantou os três números do programa, que agradaram muito e foram motivo de elogio para o seu regente sr. António Simões, amador distinto, temperamento de artista, que teve na trabalhosa e delicada missão de ensaiar a colaboração valiosa do sr. José Nunes Medina.
         Na 2ª. parte disseram versos, que a assistência ouviu com agrado, os amadores do grupo dramático António Broeiro e Maria Teresa de Oliveira, e a srª. D. Maria de Jesus, que deu à festa uma colaboração gentil, disse os seus belos versos que hoje publicamos na secção literária. Houve também música: um solo de viola pela srª. D. Maria de Jesus e dois números de guitarra, que esta senhora acompanhou, pelo nosso amigo e colaborador sr. José Maria de Jesus. A assistência aplaudiu calorosamente.
         A récita terminou com a opereta em 2 actos As Duas Mantas do Diabo, em cuja partitura, da autoria do sr. José Lopes Pessoa, há números de efeito e boa expressão, nomeadamente o côro de abertura do 1º. acto, alegre e pitoresco, o dueto do 1º. acto de Joana e José, que é lindo e o côro final. O desempenho agradou inteiramente, não obstante os poucos ensaios, brilhando e confirmando as suas qualidades de bons amadores, em papéis principais, Jaime Broeiro, João Cascão, António Broeiro, Maria Teresa de Oliveira, Emília Monteiro, Idalina de Oliveira e Maria José da Silva. Todos os outros formaram um conjunto agradável que bem mereceu os aplausos da assistência.
         Tocou uma excelente orquestra, sob a regência de António Simões. Num dos intervalos executou a dificil sinfonia da ópera Fra Diavolo que arrancou palmas às pessoas que a escutaram.
         No domingo de madrugada, uma grande fanfarra percorreu as ruas de Tavarede executando o hino da Sociedade de Instrução, estralejando os foguetes.
         A sessão solene realizou-se pelas 15 e meia horas, com um brilhantismo invulgar. Assistência numerosissima, enchendo a sala e o palco e comprimindo-se no átrio e corredores.
         A distinta banda 10 de Agôsto e a excelente tuna do Grupo Instrução e Recreio Quiaiense dão uma nota especial de alegria naquele ambiente de festa.
         Na mesa estavam os srs. dr. Manuel Gomes Cruz, tavaredense ilustre e respeitado e sócio dedicado da Sociedade de Instrução, que presidia; Pedro dos Santos Moreira, professor oficial de Tavarede; Rui Fernandes Martins, professor oficial de Brenha; David Monteiro de Sousa, pela Filarmónica 10 de Agôsto e Manuel Lontro Mariano, pelo Grupo Instrução e Recreio de Quiaios. No palco, além dos corpos gerentes, estavam muitas pessoas da Figueira e localidades do concelho entre outras os srs. dr. Manuel Gaspar de Lemos, dr. José Cruz, António Felizardo, Manuel J. Cruz, engenheiro Rebêlo da Silva, José Amora, Manuel Santos, Eugénio Gomes Luiz, Oliveira Santos, etc. O aspecto da sala é imponente, dando-lhe uma nota de beleza e frescura a presença de muitas senhoras.
         Ao ser aberta a sessão a 10 de Agôsto executa o hino da Sociedade. E segue-se a leitura de numeroso expediente.
         O sr. presidente dá a posse aos novos corpos gerentes, que são recebidos com palmas, e a seguir faz a entrega de diplomas às pessoas que na última assembleia geral foram nomeadas sócios honorários, acto que foi coroado com muitas palmas.
         O sr. dr. José Cruz pronunciou um discurso em que pôs em relêvo os serviços prestados ao povo da sua terra pela Sociedade de Instrução Tavaredense e dirigiu homenagens ao grupo dramático, ao qual a Sociedade fica devendo o maior quinhão das suas prosperidades.
         Extintos os aplausos que coroaram o discurso do sr. dr. José Cruz, é dada a palavra ao nosso amigo Manuel Lontro Mariano, inteligente e distinto aluno de Direito, que falou com brilho e entusiásmo, apresentando à Sociedade de Instrução Tavaredense as saudações calorosas do Grupo Instrução e Recreio de Quiaios, que na sua terra natal procura exercer a mesma acção educativa que há 25 anos a Sociedade de Instrução desenvolve em Tavarede. O belo discurso de Manuel Mariano foi aplaudido com uma ovação calorosa e prolongada.
         E, após algumas palavras de José Ribeiro, nas quais especialmente aludiu à iniciativa tomada pela Sociedade de Instrução Tavaredense de promover um certame horticola-pomícola, o sr. dr. Manuel Gomes Cruz encerrou a sessão com um discurso interessante, cheio de vivacidade e de conceitos morais, focando nos seus vários aspectos a obra de educação e de instrução daquela agremiação a que muito se orgulhava de pertencer, e termina com vivas à Sociedade de Instrução e ao povo de Tavarede, que foram entusiasticamente correspondidos. A 10 de Agôsto e a tuna de Quiaios executaram alternadamente o hino, e a assistência começa dispersando, levando no espírito as melhores impressões daquela imponente e brilhante sessão solene.

         À noite, o baile de gala, no qual tocou um excelente jazz. Uma animação enorme, uma alegria intensa que só se apagou quando se calou a orquestra, depois das duas da madrugada.