sábado, 21 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 41

         E o Grupo Musical levou a efeito mais uma garraiada. O tempo esteve agradável e a garraiada foi brilhante. Todos os rapazes desempenharam o melhor que puderam os papéis de que estavam encarregados, e salientamos os cavaleiros que se portaram galhardamente. Mas, como já sabemos, os resultados financeiros foram insuficientes. Também já referimos que o cinema foi outra tentativa de angariar fundos. Registemos, para a história, o programa da primeira sessão que teve lugar na sua sede. O VI Portugal – Espanha em futebol, Rin-Tin-Tin e os lobos e Charlot na Rua da Paz. E acrescente-se que, logo na primeira sessão, a máquina avariou, pelo que o programa teve que ser repetido no domingo seguinte.

         Chegados à data habitual, realizaram-se as habituais comemorações dos aniversários. Vamos recordar essas festas. Primeiro foi o Grupo Musical. Como noticiámos, o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, colectividade da visinha povoação de Tavarede, comemorou no passado sábado e domingo, o 18º aniversario da sua fundação.
         Sem dúvida, revestiram-se de brilho as suas festas, chamando ali uma concorrencia extraordinaria, o que mais imponentemente fez realçar os numeros que constituiram o programa, que foram cumpridos na integra.
         Bem mereceu o simpático Grupo Tavaredense, esta distinção, dado o valor em que exerce a sua acção, de tão úteis e beneficentes resultados para o povo daquela risonha terra.
         E renovando os nossos agradecimentos pelo seu amavel convite, que gentilmente enviaram ao nosso jornal, passamos a descrever resumidamente, o que foram as festas da simpatica colectividade.
         Sábado, 21 – ao 21 horas, hora marcada para o Espectaculo de Gala. O salão teatro oferecia um aspecto empolgante. Uma massa apinhada de povo, enchia por completo o elegante teatrinho, como alguem lhe chamou, vendo-se ainda de pé, muitas dezenas de pessoas que não tiveram logar. À volta, colgaduras damascadas num recorte de fino gosto, ornamentavam as paredes. Dum lado, pendiam os retratos do Grupo Scenico, de João Chagas e da srª D. Maria Aguas Ferreira. Do outro, o do saudoso maestro David de Sousa, maestro distincto, que no auge da sua brilhante carreira, tombou no leito da morte; de Antonio Medina, fundador e dedicado amigo desta colectividade, e em ultimo logar, senão o primeiro, a figura simpatica e inexquecivel de José Medina, do excelente amador tavaredense. Ao fundo pendia um largo galhardete do Grupo Musical, contendo as suas iniciais, e atravessada, uma facha com a palavra Amigos. Era a oferta e homenagem do “Grupo dos Amigos”.
         E no palco pendia o estandarte, como que sorrindo de contentamento pela ofegante atmosfera que ali se respirava e parecia querer abençoar aqueles que há 18 anos lhe vêm dispensando o seu carinho e auxilio desinteressados.

Maria Águas Ferreira

         A assistencia, de pé e religioso silencio, ouve o hino que irrompe executado pela orquestra, sob a direcção de Antonio Cordeiro.
         Segue-se a representação da comédia, Os dois Nénés, que agradou, sendo ainda Violinda Medina, o alvo dos aplausos. Terminada que foi a exibição do film Billy, carinha n’agua, teve logar a representação da chistosa opereta em 1 acto Herança do 103, que terminou a recita de gala.
         Calculamos que toda a existencia saíu satisfeita e bem disposta.
         Passamos agora ao Domingo, 22.
         De manhã. houve alvorada, anunciada por uma fanfarra, acompanhada de foguetes, que deram a Tavarede um ar festivo.
         Ao meio dia, teve logar o bôdo aos pobres, sem duvida o número mais simpatico dos que constituiam o programa das festas.
         Esperava-se a Sessão Solene.
         Eram 5 horas, quando apareceu no palco o sr. Antonio d’Oliveira Cordeiro, que convidou a presidir àquela sessão, o sr. Pedro dos Santos Moreira, dignissimo professor oficial naquela terra.
         Sua Exª que é recebido com palmas, convidou para o secretariarem os srs. Augusto d’Oliveira Santos, representante da Troupe Recreativa Brenhense, e Pedro Collet Meygret representante da Sociedade Columbofila da Figueira.
         Seguidamente, procedeu-se à leitura do expediente, que era longo, e do qual desejamos salientar as ultimas duas cartas, vindas de Sintra. A primeira era da pequenita Almira, filha do nosso amigo Antonio Medina Junior, e a segunda, deste mesmo senhor, que era escrita num estilo proprio daqueles que, embora longe, não se esquecem daquilo que há 18 anos lhe tem absorvido uma parte do seu sentir.
         E foi dada a palavra ao sr. Manuel d’Oliveira Cordeiro, que leu um discurso de sua auctoria em que fez referencia especial à Mocidade desta colectividade. Seguidamente falaram os srs. Antonio d’Oliveira Lopes, presidente da Direcção cessante que tambem leu um bem urdido discurso, e José Maria de Carvalho, que recordou, com saudade, a alma de José Medina e agradeceu em nome dos socios do Grupo Musical ao sr. Moreira, o carinho desinteressado que vem prestando ao povo Tavaredense, mantendo-lhe e admnistrando-lhe as suas aulas de instrução.
         E em ultimo lugar, usou da palavra o sr. Rui Fernandes Martins, professor oficial em Brenha, que demonstrou quaes os beneficios que das colectividades de Instrução, advem, e a necessidade de se manterem, integralmente unidos, para bem da Patria e da Republica. Terminou por afirmar que, se por ventura, a vida e a saude lhe permitirem, tomará parte na festa do proximo ano.
         Seguidamente, o sr. Presidente fez uma alocução ao acto que se estava passando, e, encerrou a Sessão.
         Depois teve logar no gabinete da Direcção, um copo d’agua, oferecido aos novos corpos gerentes, oradores e representantes de colectividades, tendo ainda brindado os srs. Rui Martins e Antonio Maria Lopes Anadio.
         Representavam colectividades os srs.: Augusto Santos, a Troupe Recreativa Brenhense; Pedro Collet Meygret, a Sociedade Columbófila da Figueira; José Lopes Custódio, a Associação dos Caixeiros; Antonio Correia, União Foot-ball de Buarcos; e Antonio M. Lopes Anadio, a Boa União Alhadense.
         À noite teve logar o Baile de Gala, que esteve muitissimo concorrido tendo terminado já bastante tarde.
         Felicitamos a briosa colectividade Tavaredense, e oxalá que à medida que os anos se vão sucedendo, a sua acção beneficente aumente na mesma proporção para o povo daquela risonha terra aproveitar tal beneficio.

         Seguiu-se, pouco depois, a comemoração do 26º aniversário da Sociedade. A obra, verdadeiramente notável no capítulo da educação popular, que a Sociedade de Instrução Tavaredense realiza na vizinha povoação de Tavarede, é bem conhecida. Devemos filiar nesta circunstância a expressiva e calorosa simpatia que o público dedica a esta colectividade e que se não dispensa de lhe testemunhar por ocasião dos seus aniversários.
         Na verdade, a acção desenvolvida pela Sociedade de Instrução Tavaredense é admirável sob todos os pontos de vista. Mantém, há quási três dezenas de anos, uma escola nocturna onde se recebem alunos, menores e adultos, sócios ou não sócios, aos quais é fornecido gratuitamente todo o material escolar. Não se limita a isto a sua função. Vai mais longe: entra no capítulo da educação e da cultura artística, limitada, como se compreende, às condições do meio -, servindo-se para isso do livro, da palestra educativa e do teatro. A influência moral e educativa exercida por intermédio do teatro, tanto sôbre os que nêle representam como nos espectadores, é evidente. Para atingir êste objectivo, segue-se na escolha das peças – algumas das quais expressamente escritas para êste fim – o critério de que o teatro não deve servir apenas para proporcionar distracção, deve, principalmente, ser um veículo de educação moral e cívica e até, num meio como é o de aldeia, um instrumento de cultura.
         Foi-nos muito grato verificar, por isso mesmo, a demonstração vibrante de simpatia pela benemérita agremiação tavaredense, a que deu lugar a festa do seu 26º aniversário.
         O programa executou-se com brilho excepcional, havendo nêle alguns números de muito relêvo.
         No sábado, a récita de gala reuniu no teatro, artisticamente ornamentado e iluminado – colchas de damasco nas paredes, flores, enorme profusão de lâmpadas eléctricas e um formoso lustre, nas côres da Sociedade de Instrução -, uma assistência numerosíssima e distinta.
         Abriu a récita a alta-comédia em 1 acto O Caso de Consciência, de Octave Feuillet, em cujo desempenho Maria Tereza de Oliveira, António Broeiro e João Cascão souberam com justiça fazer-se aplaudir.
         Seguiu-se a peça em 1 acto Evocação, que deixou no público, mais pelo desempenho que propriamente pela peça, uma impressão agradabilíssima, diremos mesmo uma sensação de arte que bem se exteriorizou em aplausos calorosos. Emília Monteiro, Maria Tereza de Oliveira, António Broeiro e João Cascão representaram admiravelmente, mantendo uma perfeita harmonia de conjunto como não é fácil conseguir melhor em teatros de amadores duma pequena aldeia. Dignas de nota especial as primorosas caracterizações de António Esteves.
         E a récita fechou com chave de ouro – a opereta O 66, cuja dificílima e formosíssima partitura teve execução esplêndida pela orquestra dirigida pelo distinto amador sr. António Simões, que a assistência chamou ao palco para melhor o aplaudir, e foi muito bem cantada por Emília Monteiro, João Cascão e Francisco Carvalho. A representação teve o ritmo próprio, decorrendo com uma animação exuberante. Muito bem! Os aplausos foram entusiásticos e merecidos. A montagem era magnífica, figurando nela um fundo de belo efeito do distinto artista pintor sr. Henrique Tavares.
         No domingo, fez a alvorada um grupo musical, que percorreu as ruas de Tavarede executando o hino. Era constituído por sócios da Sociedade de Instrução, ensaiados pelo sr. José Medina, que é um hábil e competente amador de música.
         Pelas 11 horas foi servido a cêrca de 60 crianças da freguesia, o almôço oferecido pelo grupo dos “Fixes”. Foi um número simpático. O aspecto das mesas, muito bem dispostas no palco, era interessante.
         À tarde, a povoação apresentava o aspecto dos grandes dias de festa. Muita gente, centenas de pessoas da Figueira, Quiaios, Brenha, Alhadas, Buarcos, etc. A distinta banda “10 de Agôsto” entrou em Tavarede, pouco depois das 15 horas, executando o hino da Sociedade. E em seguida, no Largo do Terreiro, fez-se uma largada de dezenas de pombos correios. Êste número, gentilmente organizado pela Sociedade Columbófila, despertou curiosidade nas centenas de pessoas que assistiam.
         Tendo chegado a esplêndida tuna do Grupo Instrução e Recreio de Quiaios, deu-se comêço à sessão solene, que foi, sob todos os aspectos, brilhante. Teve carácter, teve imponência invulgar. A falta de espaço não nos permite fazer um relato mais desenvolvido.
         O sr. João Gaspar de Lemos, presidente da Assembleia Geral, convidou para secretariarem os srs. Raúl Dias Cachulo, pela “10 de Agôsto”, António Mariano, pelo Grupo Instrução e Recreio, Rui Martins, distinto professor em Brenha e Anselmo Cardoso Júnior, pelo Ateneu Alhadense. Abrindo a sessão o grupo musical da Sociedade de Instrução Tavaredense executou o seu hino, em seguida ao que a presidência foi entregue ao tavaredense ilustre sr. dr. José Cruz. Proferiram discursos os srs. dr. Manuel Cruz, António Anadio, que pediu a palavra em nome da União Alhadense, Rui Martins, dr. Manuel Lontro Mariano, dr. Júlio Gonçalves e José da Silva Ribeiro, discursos que a assistência, que enchia completamente a sala e transbordava para o átrio e corredores, aplaudiu calorosamente. O sr. dr. José Cruz proferiu algumas palavras de admiração pela obra da colectividade em festa, encerrando a sessão depois de transmitir um abraço aos seus representantes, agradecimentos ao Grupo Instrução e Recreio e Filarmónica “10 de Agôsto”, por entre aclamações e erguendo-se a assistência para escutar o hino da Sociedade de Instrução Tavaredense, executado pela Tuna de Quiaios e pela “10 de Agôsto”.
         À noite, de novo as salas voltaram a encher-se. O baile de gala foi brilhante e concorridíssimo, como ainda ali não houve melhor. As famílias dos sócios e convidados acorreram em grande número, enchendo completamente a sala de baile.
         E as festas comemorativas do 26º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense terminaram na madrugada de segunda-feira, deixando no espírito dos que a elas assistiram uma impressão que não esquecem.
         À benemerente colectividade tavaredense, que tão proficuamente tem sabido exercer a sua função, renovamos as nossas saudações.


sábado, 14 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 40

       E no dia 30 de Junho, o Grupo Musical também foi à Figueira representar, no Parque Cine, a opereta Mãe Maria. Conforme o nosso jornal noticiou, tivemos no domingo passado, no teatro Parque-Cine, a representação da opereta em 3 actos A Mãe Maria, original de Raul Martins, com versos de Antonio Amargo e musica de Herculano Rocha.
         A acção é rasoavel, bem conduzida, e, para não fugir à tradição das peças do genero, é passada numa aldeia do verdejante Minho.
         O enrêdo não é de todo vasio de intuitos. Consegue conquistar desde o começo a atenção do publico, mantendo-se o diálogo animado, natural e sugestivo, especialmente quando entra a Mãe Maria e o Prior.
         Nota-se, contudo, uma sensivel falta de observação psicológica que embora não seja de gravidade, é deveras lamentavel.
         O prior não desempenha ali o papel que aos padres está confiado na terra.
         Anda na pandega, bebe rasoavelmente, e chega a sustentar conversas pouco correctas com uma caricata velhota, censurando-a ironicamente e troçando-a – o que não é, positivamente, o dever dum padre. E a mais rudimentar logica não permite aceitar como verosimil que o prior duma aldeia minhota ande a peitar este ou aquele para tirar um desforço violento do boticario e do sacristão, por estes terem tido o desplante de escreverem umas declarações d’amôr a uma sua irmã – como absurdo é alguns dos freguezes deste prior tratarem-no por tu, com uma familiaridade inadmissivel para quem conhece os usos e costumes das boas terras d’Entre-Douro-Minho.
         Em suma: O sr. Raul Martins creando d’est’arte o prior da sua peça, deu-nos claramente a perceber a falta total de informação religiosa que domina o seu, aliás, inteligente espirito.
         A missão do sacerdote não comporta, certamente, dentro dos fins da paz e amor que a orientam – o perfil moral do seu inverosimil prior que... apenas se sabe que o é por envergar em scena as vestes talares.
         Apesar disso é “A Mãe Maria” uma peça interessante, devendo, contudo, dizer que esperavamos melhor, mesmo muito melhor – dada a impressão que nos deixou a representação da opereta dos mesmos auctores “A noite de Santo António” que tem sobre esta evidente superioridade de urdidura e de tecnica.

         Não esperavamos, evidentemente, uma obra-prima, mas não previamos que, sobretudo, os versos de “A Mãe Maria”, - fossem duma tão manifesta inferioridade em relação aos da “Noite de Santo António”. Quasi que não parecem do mesmo auctor, poeta brilhante e de destra cultura.



Foto de Mãe Maria

         Quanto ao desempenho, destacamos em primeiro logar, Violinda Medina, no papel de Mãe Maria que desempenhou com um á-vontade e uma perfeita correcção, que vieram confirmar os seus anteriores triunfos scenicos. A sua voz é como que um veio de agua cristalina, murmurando suavemente por entre fraguedos, modulando o canto com um raro e precioso sentimento que muitas artistas profissionais, certamente, invejariam. É, sem duvida, uma muito distincta amadora que honra, sobremaneira, Tavarede.
         Adriano Silva no Bento Boticário satisfez-nos plenamente, como amador seguro, dizendo com graça e naturalidade. Egualmente Manuel Nogueira no Antonio Sacristão foi um comico impagavel, conquistando a simpatia do publico pela vida invulgar que imprimiu ao papel.
         É sem a menor duvida um dos melhores elementos do seu grupo scenico.
         Raul Martins, pela forma como se houve no Morgado, bastaria para, com Violinda Medina, salvarem a peça, se ela não tivesse outros méritos.
         Foi o correcto galan de sempre, vincando com certeza e consciencia o seu logar.
         Manuel Cordeiro, bem. É um novo nas lides de Talma, mas com marcada propensão para a scena e dotes muito apreciaveis.
         De Jorge Medina, sómente diremos que “filho de peixe sabe nadar”... Recordámos com saudade seu pae, o malogrado José Medina, cuja boa tradição ele já sabe honrar, registando nós com aprazimento os seus constantes progressos.
         Clarisse Cordeiro apesar das suas reaes aptidões para o teatro não poude brilhar no papel de Berta como poderia, pois a sua voz não lhe permitiu dar o relevo preciso. Tem, porem, uma boa dicção e pisa o palco com natural despreocupação.
         Os restantes, João Nogueira no Ricardo; Antonio Medina no Mordomo e Helena Gomes na D. Ana, encarnaram bem os seus papeis, não desmanchando o conjuncto.
         Os córos geralmente bons; homogeneos e com forte sonoridade tendo, por vezes, deslises sensiveis mas facilmente remediaveis para o futuro.
         A musica, ligeira, viva e alegre, dispondo bem o publico. Os scenarios agradaram.
         O que, porventura, não agradará é esta nossa critica aos distinctos amadores de Tavarede... Notámos deficiencias, aliás bem naturaes – mas se acharem o nosso juizo parcial ou incompetente – o melhor é recorrerem a qualquer critico amigo que lhes teça o panegirico na Pagina Teatral de “O Século”. Já agora! Visto que entrou em moda....

         Um breve comentário nosso. A crítica acima foi publicada no mesmo jornal que publicou as críticas ‘venenosas’ contra a Sociedade. Por outro lado, esta opereta só foi representada uma única vez e na Figueira. Encontrámos algures a informação de que o palco da sede do Grupo não tinha condições para a montagem da mesma. Não deixa de causar estranheza o facto de se ensaiar uma opereta, cuja montagem não deveria ser barata, para dar uma única representação! Mas, assim aconteceu.

         A imprensa figueirense, e curiosamente não eram unicamente os correspondentes locais, tomou partido pelas duas associações locais. Na ‘Voz da Justiça’ a Sociedade de Instrução, sempre no seguimento da linha anteriormente tomada, era defendida, com unhas e dentes das bicadas que lhe davam, tanto O Figueirense como o Jornal da Figueira, os quais, além destes ataques, louvavam generosamente o Grupo Musical. Mas não o faziam desinteressadamente, como veremos.

         A tuna do Grupo, que tão apreciada e requisitada havia sido, desorganizou-se, certamente em consequência dos graves problemas existentes na sua colectividade. Mas, tendo sido requerida a sua participação para abrilhantar umas festas na Martingança, conseguiu-se a sua reorganização, sob a direcção e regência do tavaredense José Francisco da Silva, o qual teve de recorrer à participação de diversos músicos afectos à Sociedade. A deslocação teve lugar nos primeiros dias de Outubro de 1929, embora com o nome de Tuna de Tavarede. Foi motivo de uma pequena polémica, pois enquanto uns jornais anunciavam a deslocação do Grupo, outros assumiam posição contrária. Foi o referido regente que veio a público, para afirmar que, embora fossem utilizados os bonés, levado o estandarte e tocado o hino do Grupo, todos os componentes tinham concordado em formar uma tuna da terra, apartidária das associações. Recordamos que foi no regresso desta deslocação, que os excursionistas passaram pelo Mosteiro da Batalha, onde deixaram uma placa evocativa da sua passagem. Ainda há relativamente pouco tempo, esta placa estava colocada numa parede junto ao sepulcro do ‘soldado desconhecido’.


         O teatro continuava activo. A Sociedade, após uma série de espectáculos com A cigarra e a formiga, fez a reposição de O sonho do cavador. Mas já foi diferente da primeira versão. A censura começara a sua nefasta acção e grande parte dos números originais foram censurados. A peça, com os quadros riscados com o célebre lápis azul, encontra-se no antigo escritório de Mestre José Ribeiro. Embora mantendo o enredo inicial, novos números foram escritos e musicados para substituição dos eliminados. O êxito da peça, porém, manteve-se.

sábado, 7 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete . 39

          Recordamos que, depois de ter ocorrido o acidente que vitimou o pároco Manuel Vicente, foi nomeado para esta paróquia o reverendo José Martins da Cruz Dinis, o qual acabou por ter enorme influência no nosso associativismo como veremos. Continuando na angariação de fundos tão precisos, o Grupo fez nova deslocação à Marinha Grande. Encontrámos a seguinte notícia: É com a maior satisfação que hoje noticiamos a ida da Secção Dramática do benemérito Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, acompanhado de muitos sócios, à laboriosa e hospitaleira Vila da Marinha Grande, assim como bem hão-de dizer todos aqueles que, mais de perto, sentiram, arfar-lhe no peito, uma jubilosa alegria, que só se sente quando estreitamos nos braços um povo amigo e bom como são os marinhenses.
         Já esperávamos o resultado obtido, pois que nem outra coisa era de esperar, dado as qualidades de que são dotados todos os filhos da Marinha Grande, e ás simpatias de que ali gosam os nossos conterrâneos. Ora, como motivos vários e imprevistos nos impediram que os acompanhássemos, e para melhor e mais minuciosamente ilucidarmos os nossos leitores, era-nos necessário, indispensável mesmo, que entre um nucleo tão compacto, como foi aquele que até à Marinha debandou no último sábado, escolhessemos uma pessoa que nos informasse do que mais notavel ali se tivesse passado.
         Escolhemos o nosso particular amigo sr. Raul Martins.
         - Chegados á estação - disse-nos - uma enorme multidão enchia completamente a gare, á nossa chegada, vendo-se entre ela o estandarte do Operario Club Marinhense e representantes dos Bombeiros Voluntários e Atlético Club Marinhense, d’aquela terra, que á chegada dos tavaredenses levantaram vivas ao Grupo Musical e Tavarede, que foram correspondidos por este.
         Trocados os cumprimentos, formou-se um cortejo imponente, que se dirigiu, visto o adeantado da hora, para o Teatro Stephens, propriedade dos Bombeiros Voluntários, e onde se realisaram os espectaculos.
         Momentos depois, a casa principiou a encher-se, notando-se, no entanto, algumas falhas na plateia, e representou-se a opereta Entre Duas Avé-Marias, que foi calorosamente aplaudida nas passagens mais notaveis, tendo sido feitas chamadas especiaes ao ensaiador, Violinda Medina, Manuel Nogueira e Herculano Rocha.
         - Passamos ao dia seguinte, domingo, 3.
         - Depois de percorridos varios pontos de paisagem verdadeiramente exuberantes e visitados alguns logares mais notaveis da Vila, fomos assistir a um match de foot-ball, que devia ter lugar entre um forte onze do Atletico Club Marinhense e um composto por elementos da Secção Dramatica.
         - Depois de uma renhida luta, sairam vencedores os nossos adversários pelo elevado score de 5-1; tendo, no entanto, merecido aplausos os jogadores nossos, Manuel Cordeiro, Manuel Nogueira e João Medina, que, sem exagero, foram os melhores homens da tarde.
         - Depois fomos assistir a uma festa que, por volta das 4 horas teve lugar na Associação Humanitaria dos Bombeiros Voluntarios d’aquela vila, onde foram trocados calorosos brindes.
         - E depois de satisfazer-mos as exigencias do estomago fomos novamente para o Teatro.
         - Qual o nosso espanto quando ouvimos dizer que jà não havia bilhetes para o espectaculo, que a seguir ia ter lugar.
         - Efectivamente, muito antes da hora marcada, a casa estava completamente á cunha. E representou-se a opereta Noite de Santo Antonio, tendo a completar um Acto Arrevistado, que foi muito aplaudida,  tendo sido feitas, novamente, chamadas especiaes aos amadores, ensaiador e maestro.
         - No final do espectaculo, foi, por um grupo de habitantes da Marinha, pedido para que fôsse executada novamente a marcha Figueira da Foz, que no final foi calorosamente aplaudida, tendo todos retirado com explendidas impressões.
         E depois de nos dizer o que aí fica, ia a retirar-se, quando o prendemos ainda com algumas palavras sobre o dia de segunda-feira, ao que nos respondeu:
         - Olhe, meu amigo. Já andavamos um pouco massados pelas noites perdidas, mas no entanto, ainda percorremos algumas fabricas de vidros e cristaes, que, com grande deferência ali fômos recebidos, e... mais nada.
         - Agora, para fechar, termino com estas palavras que, com a maior sinceridade as pronuncio: - A Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, póde orgulhar-se do êxito obtido nesta louvavel iniciativa, onde soube engrandecer, mais uma vez, o nome da colectividade e da terra que lhe dão o nome, colhendo loiros tão belos, grinaldas tão floridas, que se ostentam hoje, e sempre, triunfal e orgulhosamente na flâmula querida daquele estandarte... - e apontou-nos o estandarte do Grupo Musical.
         É pois, daqui, desta modesta tribuna, onde combatemos pelo desenvolvimento do Grupo Musical, como um valioso baluarte da Instrução, que póde orgulhar-se de ser, e sobretudo o nome de Tavarede, saudamos, franca e abertamente, a pleiade de rapazes e raparigas que constituem a aureolada Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, assim como á sua digna Direcção.

Padre Manuel Vicente

         A Sociedade preparou novo espectáculo com a nova fantasia A cigarra e a formiga, original de Alberto de Lacerda e música de António Simões. Por sua vez, os amadores do Grupo começaram a ensaiar uma nova opereta, de Raul Martins, com versos de António Amargo e música de Herculano Rocha. E quanto à fantasia A cigarra e a formiga, transcrevemos parte de uma reportagem escrita no jornal O Século. O jornal O Século, na sua página teatral de terça-feira, publicou um artigo crítico acêrca da interessante fantasia em 3 actos A Cigarra e a Formiga, com tanto agrado representada pelos modestos amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Vem assinado com as iniciais J.T. e por isso atribuímos o artigo ao distinto crítico e escritor teatral de Lisboa, sr. dr. José Tocha.
         Temos muito prazer em arquivar no nosso jornal esta apreciação, feita por pessoa de especial autoridade e competência, da peça A Cigarra e a Formiga, sobretudo pelas palavras de justiça que nela se dedicam aos humildes rapazes e raparigas que a interpretam e à acção, a todos os títulos notável, que a Sociedade de Instrução Tavaredense continua desenvolvendo em prol da educação do povo de Tavarede. Transcrevamos:
         “Em Tavarede, a dois passos da Figueira da Foz, há uma sociedade de instrução, a Sociedade de Instrução Tavaredense, que dispõe dum pequeno teatro, uma autêntica boite, como agora se diz, onde costuma realizar espectáculos curiosíssimos, récitas em que representa uma companhia de amadores absolutamente excepcional.
         Basta dizer que a constituem humildes trabalhadores do campo ou das oficinas, que trabalham de sol a sol e à noite aprendem, estudam, ensaiam com as dificuldades que se adivinham, sabendo-se que entre êles muitos há que nem sabem lêr.
         Há dias assistimos a um dêsses espectáculos, representando-se a fantasia em 3 actos “A Cigarra e a Formiga”.
         A peça é um trabalho de notável merecimento literário, bem construída, interessando de princípio ao fim e visando a produzir um efeito moral dos mais salutares, qual o duma lição clara que prende e diverte os que a recebem – todos os que assistem – e fica por certo nos espíritos de todos melhor que a mais profunda prédica.
         Subido o pano, à frente duma cortina, o Prólogo vem dizer de sua justiça. Vai contar-se uma história que, embora o pareça, não é velha. E o próprio Prólogo apresenta ao público as duas figuras simbólicas, a Cigarra e a Formiga, retirando-se em seguida.
         Em presença uma da outra, cada qual procura fazer valer os seus predicados e aponta os defeitos da outra, ante José Cigarra um rapaz leal e bom mas um tanto alegre e folgazão, um tanto cabeça de vento.
         Em casa da Cigarra, depois em casa da Formiga assiste José Cigarra a um desfiar de figuras simbólicas apresentadas com habilidade, metidas na carpintaria da peça com lógica e a propósito, como sejam a Alegria de Viver, o Riso, o Fatalismo, a Abundância, o Pão, o Vinho, o Oiro, etc. terminando o 1º. acto com uma apoteose ao trabalho que a Formiga apresenta como suprema aspiração das pessoas bem formadas.
         No segundo acto as figuras simbólicas transformam-se em figuras da vida real.
         António Moleiro, viúvo, vive com uma filha, Luísa, que namora José Cigarra com consentimento e agrado do pai. Este, porém, a certa altura, sabendo que João Viúvo, um ricaço boçal da aldeia, procura casar de novo porque, diz êle, a mulher que escôlha valerá bem por duas criadas, tocado pelo espírito da ganância, pela ambição de riqueza, ajuda a pretensão do velho quanto ao casamento com Luísa. Esta, como filha obediente e submissa acata tudo sem protestos embora, intimamente, se contrarie porque o seu desejo seria casar com José Cigarra. A atitude de Luísa deixa no espírito dêste uma dúvida sôbre o amor que ela dizia consagrar-lhe. E José Cigarra resolve, despeitado, rir e divertir-se na festa de S. João que a seguir se realiza. É êste um quadro cheio de realidade, felicíssimo sob todos os pontos de vista, que inclui uma desgarrada cantada pelos dois noivos, ela porque a isso a constrangeram, êle para lhe responder, que é um verdadeiro achado teatral e um primor de poesia no género.
         Segue-se o 3º. acto, em cujo primeiro quadro se assiste à passagem de figuras da vida moderna, agitada e fútil.
         Cabelos cortados, a toilette arrojada, o jazz, e charlston, etc., são assuntos para uma série de números cheios de vivacidade e de graça.
         Mas, José Cigarra farta-se da vida estouvada e procura em casa da Formiga encontrar o que deseja.
         Em casa da Formiga, enquanto espera que o recebam, adormece e sonha. No sonho aparecem-lhe, nas suas verdadeiras proporções, as figuras reais da peça. João Viúvo é a Formiga com todos os seus defeitos e sem nenhuma das suas qualidades. Êle próprio é a Cigarra estouvada de mais e com pouco amor ao trabalho. Pesando prós e contras êle mesmo tira as conclusões e é já abraçado a Luísa, que nunca deixou de lhe querer, que responde à Cigarra e à Formiga e às suas censuras, uma porque êle se inclina para as teorias da outra. Ambas têm qualidades e ambas têm defeitos. José Cigarra, aprendeu com ambas e concluíu que é preciso trabalhar, lutar, ser bom e honrado sem deixar de ser alegre em saber rir e divertir-se. De tudo isto sai a inevitável e eterna vitória do amor e acaba a peça com uma interessantíssima apoteose ao Amor da família, do trabalho, do semelhante, da Pátria, enquanto um hino solene se faz ouvir e o pano cai.
         Se é certo que a peça é, a todos os títulos, um trabalho notabilíssimo, digno mesmo dum ambiente mais amplo que um simples teatrinho de aldeia, o que principalmente interessou foi a companhia. É que não conhecemos nada que se compare. Temos visto muita vez grupos de furiosos, mais ou menos desastrados, mais ou menos aproveitáveis, mas nunca viramos um conjunto tão curiosamente organizado e tão excepcional pela circunstância de ser recrutado entre gente do campo e de profissões humildes.
         O Prólogo, António Graça, é cavador de enxada; José Cigarra, João Cascão, é ferreiro de ofício.
         São dois elementos de real valor, principalmente o segundo que, por ser um rapaz, estava muito a tempo de se fazer um óptimo actor, porque não lhe faltam qualidades para isso. Os mais, entre os rapazes e as raparigas, revelaram-se também bons intérpretes, com defeitos naturais, mas desculpáveis. Entre êles Emília Monteiro, Guilhermina de Oliveira, Maria Teresa de Oliveira, Maria José da Silva, Francisco Carvalho, os dois irmãos Broeiros, César de Figueiredo, etc.
         A música, de António Simões, acompanha com felicidade tôda a peça, nomeadamente no concertante do segundo acto, que é uma página de real merecimento, e no fim do 6º. quadro, onde motivos populares são habilmente aproveitados.
         Alberto de Lacerda, doublé de pintor e poeta, não se limitou a fazer os versos: pintou parte do scenário, sendo particularmente feliz na apoteóse final, que como idéa completa admiravelmente o sentido geral da peça e como execução é um bom trabalho.
         .......................
         Exemplos como os da Sociedade de Instrução Tavaredense devem ser seguidos por tôda a parte, deviam mesmo ser auxiliadas pelo Estado estas simpáticas iniciativas, que roubam à ociosidade e à taberna um punhado de bons trabalhadores e servem para recolher proventos destinados ao cofre duma escola.
         É possível que muitos leitores destas linhas tenham para o que fica dito o encolher de ombros desdenhoso, natural em quem não acredita sem ver.
         Pois é pena que Tavarede fique ainda assim tão longe. Vendo se convenceriam de quanto pode conseguir a boa vontade ao serviço duma idéa generosa e sob todos os aspectos simpática.

António Graça

         Não podia faltar a crítica conservadora. Das bandas de Tavarede, onde a seita dos três pontinhos ilumina a obtusidade de meia duzia de camponios ensinando-os a dar á perna num geito lôrpa e a proferir sandices de olhos em alvo, chegou ao teatro “Parque Cine” da Figueira um grupo dramático, apregoado pelos arautos da grande imprensa neste “Século” tartufo, como a expressão maxima – que fino!... – da arte de Talma.
         E, assim, tivemos nós um hilariante espectaculo com a representação sumida duma fantasia “A cigarra e a formiga” historia absolutamente inédita no dizer do infeliz “prólogo” – um homenzinho ridiculo, dum ridiculo inconsciente.
         A peça é uma amalgama de bocadinhos alheios onde não falta a piada porca, a forçar gargalhadas pela torpeza, sem teatro e sem arte, pretexto apenas para a apresentação da companhia. Uns bocados de aqui, uns versos de acolá, uma sugestão de alem, isto tudo muito mal cerzido, falho de unidade, distribuido por três actos e 10 quadros. Há um prólogo a apresentar em versos imbecis, sem gramática e sem metrica, os dois personagens principais – uma Formiga, lua cheia vestida de cinzento, de voz monocórdica e sem gestos, e a outra, um bicharôco verde que consegue atravessar o palco continuamente, de principio ao fim, com um risinho lôrpa engatilhado nos labios desmesuradamente abertos. Durante este primeiro acto, sem preparação teatral, recorre-se a um desenrolar monótono de fantoches manejados sabe Deus como e porquê.
         No segundo acto, por certo o menos peor da fantasia, assiste-se a um pandemónio amoroso em que a filha não quer casar, mas que diz que quer porque o pai quer, ficando o namoro desprezado sem saber o que quer, no meio duma confusão tam grande que não há forma de se perceber nada. O segundo quadro deste acto fornece-nos um arraial de S. João, sem movimento, sem côr e sem vida, mero pretexto para uma misera desgarrada.
         O terceiro acto continua a baboseira inicial, terminando por uma estupidificante apoteose ao amor, muito ridicula e pobrinha.
         Como se vê tudo isto é nojento em demasia, tanto mais que os vinte e sete numeros de musica anunciados se resumem, na sua concepção a uma monótona e bafienta repetição de motivos.
         Dos scenarios: o do primeiro quadro, especialmente, é um pastelão de cores com as perspectivas erradas; o do segundo sofre-se; o do terceiro apresenta-nos um cofre tam bem pintado de azul que é o melhor efeito comico da peça. De resto como muito bem diz a cigarra, tudo aquilo é fantasia.
         Do valor literário da obra, ainda que muito pese ao habilitado critico do Século, a nossa apreciação, nada pode encarecer. Quizeramos fazer algumas transcrições, mas o espaço falta-nos. Não resistimos contudo a esta edificante quadra:
                                      Ai minha mãe, minha mãe!
                                      Vivesses tu tinha eu pae!
                                      Assim se o pranto me cai,
                                      Não tenho pae nem ninguem!
         E basta!... que isto de se gritar pela mãe, quando se pretende chamar o pae que fugiu atravez da mãe por a menina chorar, é o que de melhor conhecemos no genero Rosalino Candido, Calino & Companhia.
         A interpretação, não supre as faltas atraz anotadas, antes continua a asneira. Iletrados, ou pouco menos, as silabas saiem-lhes da boca numa inconsciencia tal que comove.

         A Sociedade de Instrução Tavaredense melhor faria, se ensinasse as boas regras do A B C aos seus associados em vez de os meter num palco a fazerem rir pelo ridiculo das suas pretensões artisticas.

sábado, 31 de agosto de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 38

Pouco depois do grupo cénico da Sociedade ter ido à Figueira dar um espectáculo com O sonho do cavador, surgiu, num novo jornal figueirense declaradamente assumido como conservador, uma crítica verdadeiramente ferocíssima. Esta colectividade, sempre defensora do regime republicano, foi apelidade de loja da maçonaria e, como tal, contrária ao novo regime político. Mas, vejamos a tal crítica. O Sonho do Cavador é uma revista-fantasia, em 3 actos e 10 quadros, da autoria de João José, com musica de Antonio Simões. Foi para assistir a esta peça levada à scena pelo grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense que quasi toda a Figueira acorreu no dia 26 passado, ao Peninsular. Não me permite esta secção, nem mesmo as normas estabelecidas em obediencia às velhas praxes jornalisticas para récitas de amadores, que façâmos a analise critica dessa revista-fantasia.

Grupo cénico da SAIT - 1928
         
       O Sonho do Cavador - Manuel da Fonte, Roda e Ti João da Quinta

            Limitamo-nos, apenas, a registar o entusiasmo, verdadeiramente bizantino, com que a “plateia” da Figueira recebeu esta peça, representada ab initio num modesto teatro do ridente povoado de Tavarede. Mas registando o facto, somos forçados a abordá-lo, ainda que simplesmente ao de leve, para que ele desça a ocupar a posição devida – uma bem velada meia sombra da maior parte das teatradas levadas à scena por amadores.
         Não vamos incidir as nossas considerações sobre certas confusões de linguagem; sobre a falsa colocação de pormenores que atraiçôam a unidade do enrêdo; nem tão pouco sobre várias scenas que se repetem, confundindo, entediando e monotizando a pouca acção que já por si se revela.
Não procuramos esclarecer o espirito critico dos leitores, referindo a falta de colocação de incidentes verdadeiramente inverosimeis que quebram o legitimo equilibrio dos detalhes; nem apresentamos o mau amanharamento deste ou daquele quadro; e a ilogica e pouca racional iniciação do cavador na cidade.
         Não salientamos sequer as scenas que, exageradamente romanticas, se apresentam sob a vida negra dessa ilusão perdida em face de amazonas mal engendradas que só existem na precoce imaginação do auctor.
         Não repetimos o que sobre a peça escreveu um colega local: “a peça não vale nada”...; nem mesmo revelamos o péssimo gosto de vários quadros, com manchas verdadeiramente insonsas de fraco tom e falhas de minima e mais prudente concepção.
         Nada disso fazemos, porque se a “plateia” da Figueira é, de facto, “plateia” – ela, de facto, tambem, já julgou definitivamente.
         Como explicar, então, este grande entusiasmo que de certo publico se apoderou, para apresentar o original de João José como a oitava maravilha do mundo; o verdadeiro formigueiro que de longada ia estrada além, até Tavarede, para assistir ás primeiras representações; a partida de tal grupo dramático de Tavarede em vento norte a Buarcos; e daqui, a este assalto ao Peninsular?!...
         Valor intrinseco da peça, positivamente que não, porque fazendo eco dessa local a que nos referimos – “a peça não vale nada”.
         Valor de partitura, tambem não pode ser, visto a plateia da Figueira estar habituada a ouvir o que há, de bom e de melhor.
         Nem mesmo sequer nos podemos integrar na forma como decorre a acção, ou pela maneira por que os factos se sucedem, sem qualquer particularidade que emocione verdadeiramente o publico.
         E no entanto, o O Sonho do Cavador que o espirito judaico-franco-maçon de Tavarede nos exportou, é uma revista-fantasia de bons costumes, com uma bem acentuada nota regionalista.
         Não se explica assim, a obra de arte feita para agradar a todos os corações cimplorios, do ir.’. João José que personalisa a nota regionalista da revista que se apresenta com certo ar de rejuvenescimento nacional.
         Sendo assim, como é de facto, não se explica duma forma plausivel a verdadeira corrida democrática que da peça se tem feito, fazendo dela uma verdadeira parada politica.
         É que, na verdade, o O Sonho do Cavador com uma nota acentuadamente regionalista, transbordando de amôr á terra e pela terra, é uma peça tudo quanto há de mais antidemocrática, promovendo a par e passo uma atmosfera nacional que a Democracia não pode perfilhar, por ser estructuralmente anti-nacional.
         E, se o publico a aplaudiu por méra questão politica, fazendo dela uma Grande Parada, não soube integrar-se nela, na coerencia dos seus proprios principios, visto ela ser a máxima negação de todos os máximos principios do Numero, para ser uma peça que representa a verdadeira arte nacional, na tése que pretende defender.
         Nem todos, porém, assim o compreenderam. E, desta forma, o tal publico fala, ouve e quere fazer falar e ouvir os outros – os indiferentes.
         E, assim, esse publico fazendo da peça uma Grande Parada, conseguiu arrastar a Tavarede, outro publico novo e incredulo, propagueando mil e uma coisas, e enaltecendo ao maximo um valor intrinseco desse O Sonho do Cavador que, de verdade, nada, ou pouco, vale em si.
         Não se satisfazendo ainda, arrasta-o, em pleno sucesso, até Buarcos, e daqui, ao Peninsular.
         E porquê?!... Simplesmente porque o auctor – tenho muito prazer em dize-lo – é um ir-‘- democrático que se encobre com o pseudonimo de João José e faz parte das hostes aguerridas que combatem a actual situação politica, vivendo aliás na sua dependencia, porque a serve como seu funcionário.
         Da peça, fizeram, pois, mais uma manifestação politica, aproveitando a boa-fé de certo publico que pretende divertir-se, criando de tal modo, um certo espirito de unidade politica que na realidade não existe e que sem grande elevação de pensamento pretende sustentar o fogo sagrado das trincheiras maçonicas da Figueira e seus arredores.
         E, no entanto, a Grande Parada, longe de ser da Metro Goldwyn Mayer Films, Lda. pois apenas é da Sociedade de Instrução Tavaredense, vai sentetisando o pensamento que representa e vive por intermédio desse ir.’. factotum maximus do orgão fariseu da sua terra.
         É que a politica não esquece deveres imaginarios, e sempre procura nas cada vez mais densas trevas que a apresentam, aquela politica de infiltração que pretende criar um espirito de unidade secreto que um trabalho de critica de arte pode prejudicar e aniquilar.
         É o nosso espirito de combatividade que ora chama a atenção da “plateia” da Figueira, para o que se passa com o O Sonho do Cavador, na certeza da incoerencia que nomeadamente designa essa Grande Parada... democrática.
         Da nossa emoção artistica, está tudo verdadeiramente dito.
         Basta que salientemos ainda que, pela analise da obra, o mecanismo de tal peça é tudo quanto há de menos democrático – apesar de escrita por um democrático e ao serviço de democráticos – porque a “Democracia significa desunião, partilha de sentimentos, oposição e luta de interesses.
         Por lei natural, da consciencia da Nação nasceu a Patria. Pela rebelião constante do preconceito do numero contra a inteligencia, a Democracia.
         A Democracia desconhece a natureza, escraviza as almas e mata a Nação”.
         E porque o O Sonho do Cavador é fundamentalmente anti-democrático, porque é nacional, - que demonio de simpatia, de aplauso ou entusiasmo lhes pode merecer o mesmo O Sonho do Cavador, com a sua tese regionalista?
         A não ser que essa “plateia”, esse publico democratico que constitue essa curiosa multidão ignara de incultos amadores, apenas tenha em mira individualizar o individuo auctor, num gesto de intriga politica, bem próprio daquelas assembleias cujo “caracter especifico da eleição é o Numero, e o Numero é a antimonia da Qualidade”.
         Mas se assim é, se tudo se congrega à volta do ir.’. auctor, que fica então?
         O depoimento insuspeito duma “plateia” que se deixou arrastar pela comédia democrática, “à mentira democrática, à fraude democrática – numa palavra à Democracia que é, por definição, mentira, fraude, comedia, e que se pode captar áqueles que não são incompativeis com os mentirosos, os comediantes e os burlões”.
         Foi essa a virtude d’ O Sonho do Cavador.
         Mas como na Democracia “à medida que o Numero aumenta, a competencia restringe-se” – o depoimento que os democráticos acabam de fazer com o O Sonho do Cavador, merece que o não deixemos em silencio.
         O Sonho do Cavador, por si, revela que o nosso Teatro ainda “poderá ser português de Portugal, e a nossa vida de espirito, fortalecida em independencia honrada e salvadora, cessará de ver-se humilhada em tal aspecto, na condição de colonia de presidiários da cultura francesa” não se integrando no que diz Ch. Grun – Les régionalistes, qui comprennent á merveille l’importance du théatre, refusent, tout naturellement, de se satisfaire des tournées parisiennes (dites, par les agences, tentatives de décentralisation théatrale) et, même des pieces incolores dues á un auteurs local e montées par um directeur en mal de réclame et de décentralisation, lui aussi – porque, “contra estas mistificações estão bem prevenidos o instincto e a consciencia dos regionalistas”.
         Pela Grande Parada... democrática de que foi alvo, revela o O Sonho do Cavador, em sua plenitude maxima, aquela tão nossa conhecida politica de – Oh! Escola, semeai!... traduzida pelos principios amorfos da L.’., E.’. e F.’., tristes simbolos da ordem revolucionária imperante do Poder anonimo que em 34 nos foi imposto pelas armas estrangeiras.
         Pois dessa ideologia revolucionária que ora serve de cobertura a todas essas lojas maçonicas que por ahi andam, ao serviço de politicos sem escrupulos que a Dictadura afastou da Nação – se mistificou o Sonho do Cavador.
         E a Figueira aceitou, indiferente, como indiferente Buarcos aceitou a mistificação. Somente para aqui, vem rotulada pela Santa Casa da Misericordia...
         Mas os fins são os mesmos.
         Eles ficaram exuberantemente demonstrados na noite de 26 de Janeiro, deste Santo Ano de Cristo.
         Eis o que teriamos escrito logo a seguir á representação d’ O Sonho do Cavador, no Peninsular se nos fosse dado apresentar o nosso protesto em publico!
         Ainda que tarde, porêm, ele aí fica, claramente definido nas colunas aguerridas desta trincheira de Bom Combate.

         E... sic transit gloria mundi. (a) José João.

sábado, 24 de agosto de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 37

Em espectáculo com a receita a reverter para a Santa Casa da Misericórdia, a Sociedade foi ao Casino Peninsular com a fantasia O sonho do cavador. A lotação esgotou, ficando mesmo muitas pessoas sem ver a peça por não conseguirem bilhetes. E no Grupo foi prestada homenagem a sua amadora Violinda Medina. Confórme aqui noticiámos, teve lugar no ultimo domingo, perante uma numerosissima e distincta assistencia, a récita de homenagem à consagrada amadora deste Grupo, D. Violinda Medina e Silva, e em que subiu à scena, a interessante opereta em 3 actos, Entre Duas Avé-Marias, da qual é auctor o sr. Ernesto Donato.
         Pode bem gabar-se a brilhante Secção Dramática desta colectividade, que conseguiu neste dia, mais um triunfo para o seu nome. 

  
                                                 Na peça Mãe Maria
  
         Violinda Medina, a distincta amadora do Grupo Musical e d’Instrução, bem mereceu esta homenagem com que a Direcção desta colectividade a quis galardoar, pois o seu esforço e dedicação, são o mais evidente incentivo para os novos, para aqueles que principiam a desabrochar para a vida, e que teem o dever de seguir-lhe os passos, porque não fazem nem mais nem menos, do que cumprir um dever que se lhes impõe.
         O seu amôr pelo Grupo Musical é grande, muito grande mesmo, e é com essa grandiosidade, que tem colhido loiros que honram e glorificam não só o nome da Secção Dramática a que pertence, - mas ainda, e muito especialmente, o seu nome de distincta amadora.
         Raul Martins tambem merece duas palavras de enaltecimento pelas qualidades brilhantes que o caracterisam e que tem dispensado a este baluarte do desenvolvimento da instrução na nossa terra, o melhor do seu apoio tanto moral como material, pelo que, em nome da sua direcção, aqui lhe consignamos os nossos melhores e mais sinceros agradecimentos.
         Voltamos a falar da “Festa Artistica”, que aqui teve lugar no passado dia 27.
         Uma distincta assistência enchia completamente a elegante sala, vendo-se na sua grande maioria, pessoas da Figueira, que saudaram com uma grande salva de palmas a entrada da homenageada em scena, assim como a todos os amadores, sendo bisados alguns numeros.
         No final do segundo acto, apareceu no palco um dos directores que, em nome da Direcção da sua colectividade, ofereceu a Violinda Medina um artistico objecto d’oiro, o que a assistência aplaudiu.
         Severo Biscaia associa-se tambem a esta homenagem tendo elogiado a homenageada em seu nome pessoal, e em nome da Secção Dramática do Ginásio Club Figueirense, que representava.
         E para terminar, tambem cabem duas palavras a Herculano Rocha, que foi tambem um dos grandes elementos que concorreu para o brilhantismo da representação das Avé-Marias. A seguir, teve lugar o baile, que esteve concorridissimo e que terminou perto das 3 horas de segunda-feira.

         Diversificando a sua actividade, a Sociedade resolveu promover um certame agrícola – pomícola, com as seguintes secções: 1ª Secção – Raíses e tubérculos – Batatas, batata-doce, topinambo, nabos, rábanos, rabanetes, beterrabas, cenouras, cebolas, cebolinho, alhos, etc. 2ª Secção – Caule e fôlhas – Couves, acelgas, alfaces, cardos, espargos, ruibarbo, azêdas, espinafres, chicórias, salsas, aipo, agriões, mostarda, etc. 3ª Secção – Flôres e frutos – Abóboras, melões, melancias, pepinos, favas, ervilhas, lentilhas, feijões, tomates, alcachofras, beringelas, pimentos, morangos, groselhas, framboesas, pêras, maçãs, pêssegos, uvas, figos, ameixas, alperces, nêsperas, flores de ornamento para venda, etc. 4ª Secção – Cultura – Arranjo das culturas – canteiros, irrigações, sementeiras, plantações, aproveitamento de estrumes, etc.
         Prémios – Haverá para secção, e em cada sessão, um prémio, um “acessit” e uma menção honrosa com respectivos diplomas e uma pequena remuneração pecuniária correspondente, que ulteriormente será fixada.
         Júri – O Júri será nomeado oportunamente e deverá visitar os campos de cultura, não só para fazer a classificação da 4ª secção, mas também para verificar, em relação às 1ª, 2ª e 3ª secções, se os produtos apresentados são na verdade de produção corrente e não excepcional para êste certame, o que não deve ser considerado. O Júri terá em consideração, na classificação dos concorrentes, não só a qualidade mas também o número de produtos apresentados.
         Inscrição – Torna-se necessário que os agricultores que pretendam concorrer se inscrevam até ao dia 30 de Maio em relação à primeira sessão e até 3l de Agosto em relação à segunda.
         Notas – Podem concorrer todos os agricultores do concelho que o desejarem fazer, mas só os da freguesia de Tavarede poderão ser classificados nêste certame.

         E, uma vez mais, vamos ter de recuar um pouco. Os encargos financeiros assumidos com as obras, apesar de todos os esforços encetados, não haviam consentido que o Grupo amortizasse qualquer importância à letra de 10 contos, referente à metade do custo do edifício. A outra metade havia sido paga em dinheiro conseguido com a subscrição dos sócios de obrigações do valor de 50$00 cada. Nem espectáculos teatrais, nem festas e bailes, garraiadas, peditórios nas festas populares de Tavarede, etc., haviam produzido verbas que permitissem fazê-lo. A própria experiência feita com a projecção de filmes, ao princípio com resultados tão promissores, acabou por ainda complicar mais a situação, uma vez que os encargos assumidos com a aquisição da respectiva máquina e acessórios, não foram cumpridos, ainda mais se agravando quando a máquina avariou e não conseguiram a troca por outra, por falta de financiamento.

         Tudo se complicou muito mais, quando a Direcção recebeu uma carta do seu sócio protector e benemérito Manuel da Silva Jordão, vendedor do edifício da sede, avisando que a letra entregue aquando da compra, se vencia no dia 10 de Novembro de 1928 e que desejava a sua liquidação. Antes de responderem tentaram fazer uma hipoteca do prédio e trataram de fazer um pormenorizado estudo para apuramento da total situação devedora. E como se impunha a liquidação da letra, foi conseguido o desconto de uma letra de 12 contos, no Banco Nacional Ultramarino, sendo saque de António Medina, aceite de António de Oliveira Lopes e avalisada por João de Oliveira e José Maria Costa.

         O estudo efectuado, indicou que os débitos totais somavam cerca de 33 000$00. Em Assembleia Geral extraordinária, o então presidente da Direcção, aceitante daquela letra, propôs a efectivação de um empréstimo a fazer junto dos sócios. Mas, depois de debatido o assunto, acabou por ser deliberado e aprovado o seguinte: A Assembleia Geral reunida extraordinariamente, a pedido da Direcção para tratar do contraimento de um empréstimo único, cujo fim é destinado a solver todos os outros débitos, resolve dar plenos poderes à Direcção, na pessoa do seu presidente, para obter, nas melhores condições para este Grupo, um empréstimo de 30 contos, sobre hipoteca do prédio que é propriedade e sede do Grupo, juntando-se a esta garantia, caso seja necessária, a responsabilidade dos nossos dedicados sócios srs. José Maria Costa, João de Oliveira, António Medina e António Oliveira Lopes.

         Em reunião da Direcção, em Março de 1929, o presidente informou que a letra e respectivos juros, no montante total de 11 319$30, já havia sido liquidada, mas, ao mesmo apresentou uma proposta para que o sócio Manuel da Silva Jordão fosse suspenso de sócio até à primeira Assembleia Geral, pela qual deverá ser demitido, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da Direcção, acrescentado ainda que de imediato fosse retirada, da sala de espectáculos, a sua fotografia.

         Faltam-nos elementos para ajuizar devidamente todos estes factos. Não se sabe o que se terá passado, mas a verdade é que o referido sr. Jordão cedeu, gratuitamente, a casa de 1914 a 1923, vendeu-a depois recebendo apenas, em dinheiro, metade do valor acordado e a outra metade em letra, que acabaria por nunca sofrer qualquer amortização até 1928, data em que, imprevistamente, exigiu a sua liquidação total, resultando de tudo isto que, de sócio benemérito, passou a difamador da associação, acabando por ser demitido. Registemos, todavia, que tal demissão nunca chegou a ser concretizada.

         No entanto, a história é ainda mais complexa. Para nos baralhar mais, o relatório já mencionado, indica uma hipoteca de 31 130$00, proveniente de um empréstimo conseguido no Crédito Predial, garantido pelos já referidos sócios, e vencendo um juro de cerca de 15% ao ano. Incomportável para o Grupo, houve necessidade imediata de tentar contrair um outro empréstimo em melhores condições. Tal não foi conseguido, pelo que em nova Assembleia Geral extraordinária, em Junho de 1930, foi resolvido aceitar uma proposta do sócio António Oliveira Lopes para a compra do edifício por 25 contos, ficando assente que o Grupo ficaria como inquilino mediante uma renda mensal de 166$70, ficando ainda com o direito de opção em caso de venda. Os mesmos já referidos sócios, assumiram o encargo de regularizar os restantes débitos do Grupo.

         Fiquemos, por agora, em Junho de 1930, com o Grupo na sua nova condição de inquilino, e regressemos às suas actividades culturais e recreativas. A opereta Entre duas Avé-Marias foi um novo êxito, artístico e não financeiro. Em primeiro logar, é dever nosso citar o nome de Herculano Rocha, êsse verdadeiro artista de génio que, como regente da orquestra, foi um dos elementos que mais contribuiu para o explendido exito que mais uma vez obtiveram os distinctos amadores do G.M.I.T.
         A seu lado colocamos Rosa, a aldeã, papel interpretado por D. Violinda Medina e Silva, para mim, a melhor, a mais completa amadora do nosso concelho. Quando é preciso chorar, fá-lo com tal sentimento, que nos comove; e quando é preciso rir, tambem o faz com aquela graça com que só artistas de nome o sabem fazer. E a tudo isto alia um timbre de voz unico, perfeito, que encanta e seduz uma plateia inteira. Para ela, para essa excelente amadora, vão os nossos mais sinceros parabens.
         André, desempenhado por José Silva, foi admirável em todas as scenas. Boa voz, optimo gesto e com um á vontade proprio dum homem d’aldeia que tem caixa do correio e Retiro dos pacatos. Zé Cochicho, por Jorge Medina, muito bom, o que não admira porque é filho de peixe... e está tudo dito. Narcizo, por Manuel Cordeiro, bem; é um dos amadores novos, mas de recursos para o palco. Mordomo, gostámos. É um personagem que requere um certo esfôrço para dele se tirar partido, e António Medina conseguiu-o sem dificuldades.
         O Carteiro, muito bem por João Nogueira; pena é que a sua voz não possa elevar-se mais, de resto andou em tudo admiravelmente. Jorge, por Manuel Nogueira, foi correcto; mas devemos confessar que o encontramos um pouco deslocado do seu temperamento. Este, é um dos bons amadores tavaredenses, mas... como dizemos, o papel que desempenhou agora, não lhe está muito a caracter. O Morgado, foi interpretado com aquele rigor absoluto, único, que só nos grandes amadores, como Raul Martins, se pode encontrar.
         Propositadamente, deixamos para o fim o Aniceto Boticario, papel desempenhado por Adriano Silva, de quem não gostamos muito. Para que muda este cavalheiro de voz? Porque não fala naturalmente? Se assim fizesse, teria brilhado muito mais, visto ter explendidas qualidades para a arte de Talma.

         Nos finaes de acto, houve chamadas especiaes ao Ensaiador, e Herculano Rocha, e a D. Violinda Medina, tendo a Direcção no final do 2º. acto oferecido a estes elementos bouquets de flores naturaes. E eis, caros leitores, a opinião que formulei acerca da opereta Entre duas Avé-Marias, levada á scena por um dos mais completos grupos dramaticos do concelho desta linda cidade.