sábado, 12 de outubro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 44

        Um outro acontecimento digno de ser recordado nestas histórias, aconteceu no dia 22 de Julho de 1931. O grupo cénico da Sociedade de Instrução foi ao Parque Cine colaborar na festa anual do Jardim Escola figueirense. ... E seguiu-se a reprentação da fantasia A Cigarra e a Formiga, pelo modesto e simpático grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Todos foram calorosamente aplaudidos, como era de justiça. No 1º acto houve a nota de arte culminante daquela noite de festa: Ilda Stichini disse primorosamente, com o seu formoso talento, e as suas poderosas faculdades de interpretação, A Fantasia e O Riso, belos versos dum artista de pintura que é também um distinto poeta – Alberto de Lacerda. Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida do público figueirense. Os versos da Fantasia disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do Riso, que Alberto de Lacerda escrevera expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que o ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido. Parecia que as palmas não acabavam mais, num desejo irreprimível de ouvir de novo a música arrebatadora daquela voz.

         Com a mudança da sede, o Grupo Musical viu-se sem condições para continuar com o teatro e a sua tuna desorganizou-se. Foi numa reunião em Agosto, que os sócios da colectividade resolveram regorganizar a tuna, nomeando para seu regente José Francizco da Silva, conseguindo de imediato a inscrição de 35 elementos e já actuando nas habituais festas de verão, tocando num pavilhão montado no Largo do Paço.

         Em Agosto de 1931, encontrámos a seguinte nota, publicada num jornal figueirense: Como êste jornal já noticiou, foi grande a concorrência aos festejos populares aqui realizados. No Largo do Paço tocou a Tuna de Tavarede e no Largo do Forno a Tuna de Caceira.
         A nota mais curiosa dos festejos deu-a o padre da freguesia, que deve ter ficado definitivamente elucidado àcêrca do prestígio de que goza nesta localidade. Realizavam-se na mesma ocasião festas religiosas que, como é hábito desta população ordeira, ninguém perturbou. O padre, talvez porque não conhecia bem os tavaredenses, cometeu a leviandade de afirmar que não consentia que em Tavarede se realizassem os costumados ranchos na véspera da cerimónia religiosa. Os rapazes da tuna de Caceira submeteram-se, e anunciaram as suas danças só para domingo à tarde; em Tavarede, porém, ninguém quis saber do que dissera o padre, não ligando a menor importância às suas fanfarronadas e ameaças de excomunhão e parecidas coisas, e a tuna de Tavarede organizou o seu festival para sábado e domingo. O padre empregou todos os seus esforços para evitar isso, pedindo e ameaçando, mas nada conseguiu. De modo que... não teve outro remédio senão dizer aos rapazes de Caceira que fizessem também festival no sábado. Isto foi motivo de gargalhada, porque ninguém pôde perceber como é que as leis da Igreja não permitiam que a tuna de Caceira tocasse na véspera da festa religiosa, e, depois de se conhecer a deliberação da tuna de Tavarede, que se não importou para nada com as absurdas e abusivas determinações do padre, já o permitiam.
         Se o padre tratasse apenas do que vai pela igreja, sem querer emiscuir-se em assuntos a que não o chamaram, não se sujeitava a estes desastres.

         Continuavam, desta forma, as interferências da Igreja nas tradições da aldeia e, por consequência, do associativismo local. E, nesse mesmo jornal, também foi publicada esta nota:         Mais uma manobra do padre da freguesia, ajudado pelas duas ou três pessoas da terra que o acompanham, que falhou estrondosamente. Encaminhavam-se as coisas para que o padre, com 20 e tantos contos que para isso lhe entregavam – a Igreja é rica e dinheiro foi coisa que nunca faltou aos jesuítas – comprasse o edifício da sede do Grupo Musical, continuando êste ali a servir de instrumento nas mãos do clericalismo. Descoberta a manobra, a assembleia geral do Grupo que se não deixou conduzir como imbecilmente supunham que era fácil conseguir, repeliu altivamente a manobra e abandonou a casa, mantendo a sua independência e colocando a descoberto e no seu lugar o padre e os sacristães. A casa foi efectivamente comprada, e nele gastará o padre uns bons 30 contos – o que não é nada para quem de tanto dispõe – mas já não é possível qualquer equívoco porque tôda a gente sabe para que aquilo vem a ser.

         Analisando todos estes acontecimentos, uma interrogação nos surge: O Grupo Musical havia sido forçado a mudar de sede e, tendo o direito de opção, o edifício foi vendido à Diocese de Coimbra, aparentemente sem qualquer lucro, e os sócios da colecrtividade aceitaram passivamente a transacção? O que se pode concluir de tudo isto é que, como em breve veremos, o padre Cruz Dinis conseguiu o que desejava.


sábado, 5 de outubro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 43


Certamente estarão recordados que, no primeiro caderno, referimos a morte do padre Manuel Vicente, como tendo tido enorme influência no associativismo tavaredense. À frente da paróquia desde o princípio do século, aquele pároco, simples e popular, embora tivesse mostrado interesse pela vida e actividade das associações da terra, muito pouco participou nas mesmas. Talvez por esse motivo, aquando do movimento militar de 28 de Maio de 1926 e da restauração do conservadorismo, a sua missão sacerdotal prosseguiu normalmente e se teve alguns problemas com os seus paroquianos, esses foram ocasionados por algumas directrizes ordenadas pela Diocese.

Padre Manuel Vicente

A que terá tido maior importância, certamente que foi a ordem do bispo de Coimbra proibindo as célebres cavalhadas ao São João, considerando-as profanas e, como tal, incompatíveis com as celebrações religiosas. Mas as cavalhadas eram, com os potes floridos de Maio, das mais queridas tradições do nosso povo. E se na Figueira, Buarcos e restantes localidades que mantinham, havia tantos anos esta tradição, acataram a ordem, as gentes de Tavarede resolveram tomar posição diferente. Embora grande número dos componentes da comissão organizadora das tradicionais festas ao S. João fossem católicos praticantes, não acataram as ordens do bispo e mantiveram a tradição, agravando a decisão ao contratar, para abrilhantar as festas, a banda do Troviscal, que havia sido excomungada pela Diocese coimbrã. Mas, acrescente-se, foram as últimas grandes festas realizadas em Tavarede em honra do santo percursor.
         Meses depois da morte do padre Vicente, e após um período em que Tavarede foi paroquiada pelo reverendo Abrantes Couto, da vizinha freguesia de Buarcos, um novo pároco foi nomeado para a nossa terra. Calhou a nomeação no padre José Martins da Cruz Dinis, ordenado havia relativamente pouco tempo. Ao tomar posse do seu novo cargo, o padre Cruz Dinis não tardou em notar o pouco interesse dos tavaredenses na prática da religião, pois uma grande parte da população não tinha o costume de frequentar a Igreja com a frequência que ele desejava. Perante a esta situação, de imediato resolveu inverter a situação. Bastante inteligente, além da sua missão paroquial também passou a dar aulas no Colégio Figueirense, breve se apercebeu da grande paixão dos tavaredenses pelo associativismo, destacando-se o teatro e a música.
Uma das suas primeiras iniciativas, e seguindo o exemplo das colectividades, foi criar uma nova aula, não nocturna, mas diurna, e, sendo grande o número de crianças sem hipóteses de frequentar a escola primária oficial, não tardou em ter uma frequência de algumas dezenas de alunos e alunas. Contudo, o espaço que dispunha para esta actividade não era muito, pelo que começou a pensar como resolver a situação.
Apercebendo-se, como referimos, do interesse dos locais pelas associações, terá começado a idealizar a ideia de se servir das mesmas para chamar a si muitos dos tavaredenses. Mas, num meio tão pequeno e tão pobre como era Tavarede, não seria viável fundar uma outra associação. E porque não utilizar uma das já existentes? A Sociedade de Instrução foi hipótese impossível. Restava o Grupo Musical...
Todos sabemos que esta colectividade atravessava, naq       uela época, enormes dificuldades. Além disso, alguns dos seus dirigentes e mais sócios, eram reconhecidamente conservadores, praticantes e devotos da religião católica e, como tal, terá procurado o seu apoio. E a verdade, cumpre dizê-lo, é que o Grupo acabou por ter de vender o edifício da sua sede, procurando resolver a sua situação financeira e continuando como inquilino, com a renda mensal de 166$70. Isto aconteceu em Junho de 1930.
Em Setembro daquele ano, como não tivessem conseguido pagar a renda, o comprador do edifício António Lopes, anterior presidente da Direcção e um dos credores do Grupo, logo escreveu à colectividade, ameaçando com uma acção de despejo. Ainda conseguiram regularizar a situação, graças a um empréstimo de alguns sócios, mas, em Julho de 1931, cerca de um ano depois da compra, surge uma assembleia geral em que é proposta a saída da associação para outra casa, havendo, até, a hipótese de dissolução do Grupo, o que foi rejeitado pela maioria presente. Foi-lhes cedido parte do antigo palácio dos condes de Tavarede, onde tiveram a sua sede até à década de 1970.
A última notícia de 1930 sobre a actividade do Grupo Musical, refere ser levado à cena, pelo Natal, o velho Presépio. Registemos ainda a notícia de que, em Setembro daquele ano, a tuna se havia deslocado a Vizeu, tendo as despesas desta viagem, no total de 369$50, sido suportadas por uma subscrição feita entre os sócios.
Também não foi possível efectuar nova garraiada que, devido ao elevado custo previsto, acabaria por resultar em mais prejuízo. Quanto ao cinema, alguns directores foram a Lisboa para tentar trocar ou vender a velha máquina de projectar e adquirir uma nova, mas as condições apresentadas não eram suportáveis para o Grupo.
Aparentemente, esquecemos que em Tavarede não existia somente o Grupo Musical. Não é assim. Se nos debruçámos mais longamente sobre este, isso foi devido à triste situação em que se encontrou. A Sociedade de Instrução, sempre infantigável, prosseguia activamente com o teatro e com a escola nocturna. Por sua vez, o Grupo Musical Carritense comemorou, em Janeiro de 1931, mais um aniversário, tendo na sessão solene usado da palavra José Ribeiro, que falou dos benefícios que as colectividades como esta podem prestar às populações rurais dos lugares onde exercem a sua acção, pois são um admirável elemento de educação.
Nos dias 17 e 18 daquele mesmo mês, foi a Sociedade que, festivamente, comemorou o seu aniversário. A Sociedade de Instrução Tavaredense comemorou nos passados sábado e domingo os seus 27 anos de vida, o que equivale dizer: os seus 27 anos de luta.
         Não é demais, na notícia descritiva das festas da popular e prestimosa colectividade, dizer que a obra realizada durante estes 27 anos tem sido uma proveitosa obra de ensinamentos, uma patriótica obra de perfeição e educação.
         As suas aulas têm dado a muitos espíritos a luz radiosa das letras, tornando mais aptos e mais úteis à vida individual, e a bem da sociedade, que se abeira dos ensinamentos que naquele templo de luz são ministrados.
         E não poucas vezes a velha Sociedade tem vindo, mêsmo à Figueira, com o seu prestimoso grupo scénico, dar espectáculos em benefício dos doentes e dos pobres.
         Não está mal, pois, que na hora festiva em que uma tão útil colectividade engrinalda as suas salas para festejar um dia cheio das mais caras recordações, que aqui, em homenagem, lhe dirijamos as nossas saudações pelo dia festivo que passou e os nossos cumprimentos pela obra de elevação e benemerência que tem realizado.
         As festas comemorativas do 27º aniversário começaram no sábado. Engalanaram-se as salas, com flores e colgaduras de damasco, aliando-se a estas notas de beleza uma caprichosa iluminação eléctrica, a côres. No poste principal, subiu a bandeira glorioso símbolo da Sociedade, que era acompanhada por outras bandeiras que puzeram na frontaria uma nota de côr festiva. Ergueram-se ao ar os primeiros foguetes anunciando a festividade, emquanto a sala de espectáculos se ia enchendo de sócios e convidados.
         Dera-se, no palco, o sinal de comêço; cá fora, nem um lugar vago, A orquestra, sob a regência do sr. António Simões, executa o hino da Sociedade, ouvido de pé, tendo a assistência aplaudido com entusiasmo.
         E segue a ordem do programa, fielmente, como fôra traçada no programa-convite. Sobe à scena a linda opereta em 1 acto “Evocação” – seguindo-se a formosa opereta em 2 actos “Noite de Agoiro” – da autoria do sr. dr. Celestino Gomes, que teve, no final do 1º acto, uma chamada especial, sendo-lhe oferecido entre calorosas palmas um artístico ramo de flores pelo presidente da Direcção, sr. António Cordeiro.
         O espectáculo de gala terminou com a representação da encantadora opereta “66” – tendo os amadores recebido muitos aplausos e sendo, no final do espectáculo, novamente tocado o hino da Sociedade, levantando-se entusiásticos hurras.
         Entre o final da récita e a alvorada, houve um pequeno intervalo. E assim, muito antes de romper o dia já subiam ao ar girândolas a anunciar a alvorada. Um grupo musical de elementos da Sociedade, executando o hino e acompanhado por muitos sócios, saíu da sede, para pôr em alvorôço de alegria a povoação.
         Seriam 11 horas quando foi recebida solenemente pela Direcção da Sociedade todo o curso de ginástica infantil da Associação Naval 1º de Maio, que tinha ido levar os seus cumprimentos de felicitações à Sociedade tavaredense.
         Agradeceu a visita, em nome da Direcção, o sr. António Cordeiro, sendo oferecido abundantes doces às crianças, emquanto entre a Direcção e os representantes da Naval eram trocados brindes muito afectuosos, falando em nome dos visitantes o sr. Raúl Correia. Foram lançados vários vivas pelas crianças à Sociedade em festa.
         À tarde teve lugar a largada de centenas de pombos correios, gentilmente cedidos para esse fim pela Sociedade Columbófila Figueirense e pela nova agremiação Associação dos Columbófilos Figueirenses.
         Cêrca das 16 horas chegou a tuna do Grupo Instrução e Recreio, de Quiaios, que foi dar o seu generoso concurso às festas, as quais começaram pouco depois.
         A casa regorgitava. Tudo cheio. Entusiasmo, alegria. Sobe o pano. A orquestra executa o hino, ouvido em silêncio e aplaudido com grande entusiasmo.
         Está na mesa da presidência o presidente da assembleia geral, sr. João Gaspar de Lemos Amorim, que convida para presidir àquela sessão o sr. dr. Manuel Gomes Cruz. A assistência dispensa ao distinto advogado uma prolongada salva de palmas, que o sr. dr. Cruz agradeceu, convidando para secretariar os srs. Manuel Maria Santiago e Afonso Henriques.
         O sr. presidente lastima que não esteja presente, por falta de saúde, o prestimoso elemento da Sociedade, o impulsionador incansável dos seus triunfos artísticos, - José da Silva Ribeiro, coração generoso que tanto tem trabalhado por aquela obra de educação que é a Sociedade de Instrução Tavaredense, e comunica que vai ser prestada uma justa homenagem a um outro trabalhador – convidando a menina Lucília de Almeida a descerrar o retrato que está coberto pela velha bandeira da Sociedade. Fez-se silêncio, e aparece o retrato de Jaime da Silva Broeiro. Uma enorme salva de palmas remata o acto solene do descerramento.
         Jaime Broeiro, de lágrimas nos olhos, não esconde a sua surpresa e a sua comoção. E o sr. dr. Manuel Cruz dispensou, a seguir, palavras de carinho e de admiração ao homenageado.
         Lembra que aquele soldado defensor da Sociedade está no seu pôsto, sem um único ressentimento nem desfalecimento, desde a fundação da Sociedade. Fôra nomeado, na última assembleia geral, sócio honorário, descerra-se no momento festivo, o seu retrato. Era a consagração, o prémio ao trabalho, à devoção. Aquela homenagem tinha além dessa significação, o exemplo às gerações vindouras que veriam, sempre que houvesse motivo para isso, o preito de reconhecimento da colectividade.
         Nova salva de palmas coroou as palavras de justiça do sr. presidente, sendo o homenageado muito abraçado. Começando a ler o numeroso expediente de felicitações, e sendo dada posse aos novos corpos gerentes, usa da palavra a seguir o sr. dr. José Cruz.
         O paladino da educação e da instrução, orador que põe nos seus discursos um forte cunho de sinceridade, teceu um primoroso hino aos triunfos da Sociedade de Instrução Tavaredense. A mágua que tinha era de não estar nesta festa o grande pau de fileira que é José Ribeiro, a alma da Sociedade. Falou dos seus benefícios, apontando-os, como títulos de glória, aos seus patrícios e incitando à frequência da Associação, para melhor aperfeiçoamento dos caracteres. Admirou a acção, a união, e a disciplina, - base em que devem assentar os alicerces que tornam grandes as pequenas obras, que têm sido o guia orientador daquela prestimosa e benemérita agremiação. Terminando o seu primoroso discurso com palavras de fé nos destinos e triunfos da Sociedade.
         Uma quente ovação abafou as últimas palavras do distinto orador, usando a seguir da palavra o inteligente académico sr. dr. Manuel Lontro Mariano, que começou por associar o entusiasmo da sua mocidade à significativa festa em que eram comemorados 27 anos de vida, que bem podia dizer-se serem 27 anos de intensa luta. Referiu-se, com elevação, aos largos benefícios que trazem às povoações, colectividades que se impõem pela generosidade dos seus programas e pela elevação da sua obra de beleza, em cujo número, com justiça, tem de se contar com a simpática Sociedade de Instrução Tavaredense, rematando o seu fluente discurso com palavras de incitamento e continuidade por tão interessante e proveitosa obra. Nova salva de palmas reboa pela sala, a aplaudir êste discurso, usando, a seguir, da palavra, o distinto professor Rui Fernandes Martins.
         Começa o orador, já tão conhecido das festas da nossa colectividade, a falar daquela festa, a qual não pode deixar de impressionar o seu espírito sempre ávido por aqueles momentos festivos e solenes, que são quási sempre o prémio justíssimo às virtudes daqueles que se entregam a elas, corajosamente, patrioticamente. E redobra de entusiasmo, cresce de vigor, ao evocar a obra educativa da Sociedade, tecendo inteligentemente, sôbre o delicado e transcendente assunto, um formoso discurso.
         Nova e estrondosa ovação se faz ouvir, premiando a valiosa oração de Rui Martins.
         Novamente o sr. presidente usou da palavra, querendo, antes de encerrar a sessão, dirigir as suas saudações a todos quantos cooperaram em tão brilhante festa, tendo palavras de fé no futuro e engrandecimento da patriótica Sociedade.
         A orquestra tocou o hino; soaram mais palmas, vivas, hurras, - e encerrava-se a sessão.
         À noite realizou-se o baile de gala, que terminou na madrugada de segunda-feira, tendo-se notado sempre o mesmo entusiasmo.
         Ao fecharmos esta notícia não queremos fazê-lo sem mais uma vez felicitarmos calorosamente a Sociedade de Instrução Tavaredense, agradecendo a gentileza do convite para as suas brilhantes festas.
         Ao nosso amigo José da Silva Ribeiro, que não assistiu aos festejos por estar doente, foram dirigidas palavras de muita amizade e admiração por parte de todos os oradores.
         Foi nomeado sócio honorário da mesma colectividade, proposta que foi aprovada com uma grande manifestação de carinho e respeito, o grande benfeitor, sr. Joaquim Felisberto da Cunha Soto Maior.
         Como referimos o último espectáculo levado a efeito na sede do Grupo Musical, em 1930, foi na noite de Natal e a última notícia encontrada sobre a actividade desta colectividade, foi em 14 de Fevereiro de 1931 com as comédias A propósito, Casar para morrer e A hospedaria infernal. E em Abril seguinte, ainda houve uma saída a Maiorca, onde foi representado o programa Os dois nénés, Casar para morrer e A herança do 103

Violinda Medina e Severo Biscaia em 'O Rei da Lã' 


          Após a realização de uma matinée dançante, no dia 7 de Fevereiro, abrilhantada por uma magnífica orquestra Jazz-Band, e daquela ida a Maiorca, todas as notícias encontradas passam a referir-se à nova sede, no Paço de Tavarede. E registamos que a amadora Violinda Medina, aceitando um convite formulado pelo Ginásio Figueirense, de que seu marido era grande adepto, foi colaborar com o seu grupo dramático, protagonizando ali duas operetas, O segredo da Aurora e O Rei da Lã.

sábado, 28 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 42

         Igualmente referimos o sexto aniversário do Grupo Musical Carritense. Pela forma como vem servindo a causa que abraçou – educação do povo -, merece que lhe rendamos as nossas homenagens, fazendo votos sinceros para que a tão útil instituição nunca faltem forças para seguir no caminho do progresso, isto é, no engrandecimento de Tavarede.

         Encontrámos o registo da programação de mais duas saídas. Uma do Grupo Musical, que estava a organizar uma excursão a Leiria, com as operetas Noite de Santo António e Entre duas Avé-Marias. Outra, a Sociedade, que em Março de 1930 chegou a ter combinada uma ida a Vizeu com as fantasias O sonho do cavador e A cigarra e a formiga.
Pensamos que nenhuma destas deslocações se concretizou. Da última verificou-se a indisponibilidade da sala na data prevista e quanto à primeira não se encontrou mais qualquer informação na imprensa nem nos registos da associação.

         Este ano de 1930 foi dificil, mesmo dramática para o Grupo, como já referimos. Mas, para finalizar este caderno, iremos agora registar a primeira saída do grupo cénico da Sociedade de Instrução para fora do concelho. Teve lugar em Julho daquele ano, com as fantasias A cigarra e a formiga e O sonho do cavador.


A primeira deslocação a Tomar

         A direcção da simpática Sociedade de Instrução Tavaredense tem fortes razões para sentir-se inteiramente satisfeita com o brilho invulgar, com o êxito verdadeiramente notável da sua última iniciativa: a visita a Tomar.
         Promovendo esta visita, a Sociedade de Instrução não proporcionou somente um passeio magnífico, tanto sob o ponto de vista de beleza como educativo, aos 80 elementos da sua secção teatro: realizou um acto digno de ser considerado pelo que êle representa de valioso no estreitamento de relações entre Figueira e Tomar, na propaganda recíproca das duas cidades.
         Tomar conhece mais a Figueira do que a Figueira conhece Tomar. Ali o número de pessoas que vêm à nossa praia passar o verão é relativamente elevado, constituindo uma colónia em que predominam a admiração e a simpatia pela nossa terra. Com a visita de agora, se esta simpatia naturalmente alastra e se avigora, também é verdade que Tomar conquistou lugar no espírito dos figueirenses, que para a Figueira vieram verdadeiramente encantados. E tanto e de tal maneira, que muitos se dispõem a repetir o passeio e fazem, aliás com verdade, a mais convincente propaganda de Tomar.
         E compreende-se que assim seja!
         Tomar é uma terra privilegiada de beleza. A cidade não é grande. Quem subiu lá acima ao castelo – que panorama de deslumbramento! – vê-a muito aconchegada, as casas encostadas umas às outras, comprimindo-se, afastando-se dum e outro lado das ruas perpendiculares que vão dar ao sopé do monte, partindo da praça em frente da Câmara, até que a vista encontra, lá ao fundo, a corrente verde-azulada do rio, ensombrado de esguios choupos e langorosos chorões. Mas as suas belezas naturais e o valor artístico dos seus monumentos dão-lhe grande e justo renome como verdadeira cidade de turismo que é.
         A paisagem é deslumbradora. Em redor, perdendo-se nos longes, alastra na planície e trepa às encostas a mancha acizentada dos olivedos, sôbre os quais o oiro do sol parece transformar-se em prata.
         Mais perto de nós, nos jardins e nos quintais que ficam dentro da cidade, a vegetação é exuberante, o verde é o fundo sôbre que se projecta e brinca e se transforma a luz.
         Há frescura saudável – Tomar bebe-a constantemente no seu rio pródigo e lindo, fonte de riqueza e de poesia: são as águas nabantinas que alimentam as noras pitorescas que regam hortas e jardins, e cantam nos açudes a canção da energia que movimenta os maquinismos das fábricas, e dão a graça e a ternura ao arvoredo e às sebes das margens acolhedoras que chamam pelo Amor...
         O convento de Cristo é uma jóia que por si só justifica uma visita a Tomar. O espírito sente-se preso no rendilhado daquelas pedras que falam da nossa história – e as horas passam sem que sintamos aproximar o desejo de nos apartarmos de tanta maravilha.
         E o povo de Tomar? A sua franqueza, a sua comunicativa sinceridade, o carinho que não esconde aos seus visitantes, o espírito acolhedor que faz a sua tradição de povo hospitaleiro como nenhum outro o é mais!
         Tomar vivia há cêrca de um mês no pensamento dos promotores dêste passeio. Até que o dia próprio chegou.
         A excursão partiu da Figueira no combóio das 9,50 de domingo, seguindo nela, além dos elementos do grupo teatral da Sociedade de Instrução Tavaredense, muitas outras pessoas da Figueira. Eram cêrca de duas centenas os excursionistas. E muitas mais teriam sido se a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses tivesse concedido facilidades para o transporte. Além das que seguiram pelo combóio muitas pessoas foram da Figueira em automóveis.
         Após uma longa demora na Lamarosa, chega o combóio que conduz a excursão pelo ramal de Tomar.
         Os figueirenses sabiam, contavam que seriam recebidos com simpatia. Mas não podiam esperar a grandiosidade das manifestações que lhes reservavam os tomarenses.
         Finalmente o combóio parou, e uma grande girândola de foguetes estraleja no espaço. Cá dentro, na gare, trocam-se os primeiros cumprimentos estão a comissão de recepção, representantes da Câmara Municipal, das diversas agremiações locais, imprensa, etc.; está também a comissão de gentis senhoras, a quem o presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense oferece, em nome dos excursionistas, um lindíssimo ramo de cravos.
         Lá fora, uma multidão enorme aguardava os visitantes. A manifestação é calorosa, ouvindo-se palmas e vivas incessantemente. O estandarte da Sociedade de Instrução cruza com os das associações que ali esperavam. A Tuna Comercial e Industrial de Tomar, a Banda Republicana Marcial Nabantina e a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais executam os seus hinos. E, em meio de grande entusiasmo, forma-se um cortejo imponente em que estão representados, além da comissão de recepção, a Câmara Municipal, Associação Comercial e Industrial, Centro Democrático Tomarense, Clube Tomarense, Grémio Artístico Tomarense, Tuna Comercial e Industrial de Tomar, Banda Republicana Marcial Nabantina, Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, Sporting Clube de Tomar, União Foot-ball Comércio e Indústria, Associação de Classe dos Caixeiros de Tomar, Orfeão Tomarense, jornal “De Tomar”, jornal “Acção”, Liga dos Combatentes da Grande Guerra, os excursionistas e muito povo.
         O cortejo atravessou as ruas da cidade por entre aclamações e vivas. Das janelas pendiam ricas e lindas colchas e as senhoras atiravam flores. Os da Figueira, entusiasmados e reconhecidos, gritavam: - “Viva Tomar! Vivam as senhoras de Tomar! Viva o povo tomarense!” – e logo a multidão correspondia e as muitas centenas de vozes diziam: “Viva a Figueira! Viva a Sociedade de Instrução Tavaredense!”.
         O cortejo, enorme, imponente, as bandas de música e a tuna tocando alternadamente, sobe a Rua de Serpa Pinto, cujo aspecto era deslumbrante. As aclamações sucedem-se e as flores não deixam de caír das janelas engalanadas. Ao desembocar na praça, em frente ao edifício da Câmara Municipal, uma grande girândola de foguetes sobe e estraleja no ar.
         Os excursionistas são recebidos na escada pela comissão administrativa e sobem ao andar nobre. A sala das sessões enche-se rapidamente, ficando a multidão pela escadaria e no largo fronteiro.
         O sr. tenente José da Rocha Mendes, vogal da comissão administrativa que estava servindo de presidente, apresenta saudações de boas-vindas aos visitantes.
         No seu discurso fala das belezas de Tomar, dos seus atractivos como cidade de turismo, dos seus monumentos gloriosos. Afirma a sua simpatia pelos visitantes e faz um elogio rasgado e caloroso da acção educativa da Sociedade de Instrução Tavaredense, promotora desta excursão, lamentando que associações como estas não estejam espalhadas por todo o país. Ao terminar, afirmando o seu desejo de que os visitantes levem de Tomar as mesmas agradáveis impressões que de si hão de deixar, ouviu-se uma entusiástica e prolongada ovação.
         Respondeu José Ribeiro em nome dos excursionistas. Num discurso breve agradeceu as saudações e afirmou o seu reconhecimento perdurável pelo acolhimento mais do que amável, mais do que gentil, porque era sinceramente carinhoso, que lhes dispensava o povo de Tomar e que ali, na Câmara Municipal, tão eloquentemente se ratificava. E, tendo palavras de admiração pela cidade de Tomar, e pelas qualidades afectivas e virtudes cívicas do seu povo, terminou erguendo um viva a Tomar, que foi secundado e aplaudido delirantemente.
         Terminada a sessão de boas-vindas, que foi entusiástica e amistosíssima, o cortejo dispersou.
         Depois de a Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense ter apresentado cumprimentos no Quartel General, foi recebida, com mais figueirenses que a acompanhavam, no Grémio Artístico, onde lhe foi oferecido um “Pôrto de Honra” pela comissão de recepção, constituída pelos senhores..........
         Trocaram-se entusiásticos brindes por Tomar, pela Figueira, por Tavarede, pelas agremiações de Tomar e pela Sociedade promotora da excursão.
         Esta gentileza da comissão de recepção – que não seria a última! – deixou os visitantes reconhecidíssimos.
         Muitos excursionistas aproveitaram o resto da tarde para visitar os lugares pitorescos da cidade.
         À noite realizava-se no teatro a récita anunciada, na qual o grupo da Sociedade de Instrução Tavaredense representava a fantasia A Cigarra e a Formiga.
         Os visitantes, ao entrarem no teatro, não puderam esconder a sua surprêsa. A sala estava ricamente ornamentada. Mas não era apenas a riqueza da ornamentação que deslumbrava: eram, sobretudo, o seu bom-gôsto e a sua requintada feição artística. No proscénio, suspensas no alto, uma enorme cigarra e uma formiga de igual tamanho eram como que o título da peça que ia representar-se ali no palco. Magistralmente construídas, são um trabalho que honra quem o fez, o sr. Augusto Alves Henriques. E tôda a restante ornamentação, que recebeu a influência e foi dirigida pelo sentimento artístico do sr. Francisco António Ainado, era alusiva à peça. Na ribalta, sôbre a verdura das ervas, viam-se dois carreiros de formigas – curiosíssima estilização – carregando caixas e sacos; a um e outro lado do palco, duas grandes cigarras tocando guitarra, com efeitos de luz eléctrica. No primeiro balcão, em tôda a volta, em quadros encimados por uma cigarra, descrevia-se a fábula de La Fontaine; aqui e ali, sôbre as colchas riquíssimas artisticamente dispostas, mais cigarras; e ainda em tôda a volta – um friso de formigas; e muitas flores artificiais, feitas por mãos delicadas de senhoras, agrupavam-se em lindos desenhos. Tudo isto formava um conjunto raro de beleza, produzindo um efeito deslumbrante.
         Quando subiu o pano, estavam no palco a comissão de gentis senhoras de Tomar – srªs DD.........., alguns elementos da comissão de recepção e os representantes da Sociedade de Instrução Tavaredense, com o estandarte. A orquestra executou o hino desta colectividade, que a assistência saúda com uma carinhosa salva de palmas.
         O sr. dr. Amilcar Tavares Casquilho faz, num discurso brilhante, a apresentação do grupo de amadores tavaredenses e do sr. dr. José Gomes Cruz, que com perfeito conhecimento poderá falar à assistência da acção dêste simpático núcleo. Regosija-se com esta visita, salientando as vantagens que podem resultar dum maior estreitamento de relações entre a Figueira e Tomar, e termina com um viva à Sociedade de Instrução Tavaredense. A assistência aplaudiu demoradamente o sr. dr. Casquilho.
         Respondeu-lhe o sr. dr. José Cruz, que agradeceu as referências feitas e explicou a constituição dêste grupo de amadores da sua terra, falando também sôbre a obra educativa da Sociedade de Instrução. Terminou exprimindo a gratidão que ia no espírito de todos os que vieram a Tomar e aqui tiveram o penhorante e inesquecível acolhimento que lhes foi dispensado. Uma salva de palmas, entusiásticas, demorada se ouviu sôbre as últimas palavras do ilustre tavaredense, palmas que de novo se reacendem quando da comissão de senhoras se destaca a figura gentilíssima da sua presidente e coloca na bandeira da Sociedade de Instrução Tavaredense uma fita comemorativa desta visita. É uma riquíssima fita de sêda preta e vermelha – as côres da cidade de Tomar – primoroso trabalho de pintura do sr. Joaquim Tamagnini Barbosa, figura de prestígio moral pelas suas qualidades e virtudes cívicas e que desta forma se associou às homenagens prestadas pelos tomarenses.
         Seguiu-se a representação da fantasia A Cigarra e a Formiga, cujo agrado foi enorme. Logo no 1º acto, quando terminou o número de apresentação de José Cigarra, a assistência irrompeu na ovação mais calorosa que pode imaginar-se. Os bravos e as palmas demoraram-se com um entusiasmo indescritivel. Muitos números foram bisados e nos finais de acto as ovações atingiram o rubro.
         A assistência, tendo sabido que estava num camarote o distinto artista e poeta Alberto de Lacerda, obrigou-o a vir ao palco. António Simões teve várias chamadas especiais, sendo aplaudidíssimo com admiração e simpatia.
         O teatro estava cheio e os espectadores retiraram com uma impressão de agrado que a ninguém escondiam.
         Tomar tem a sua Misericórdia. É uma instituição benemérita, cujo estabelecimento hospitalar é digno de ver-se. Faz honra à cidade. Não será fácil encontrar melhor, nem sequer igual, em terras como Tomar. Quem o visita traz de lá uma impressão que não esquece. A amplidão dos seus corredores, o asseio irrepreensível, o confôrto que se prodigaliza aos doentes, o bem-estar possível, as enfermarias bem arejadas e cheias de luz, a esplêndida e moderna sala de cirurgia – como a da Misericórdia da Figueira -, tôdas as dependências e instalações bem situadas, conforme o plano geral previamente estudado por arquitecto competente, tudo isto e o mais impressiona bem. E êste notabilíssimo desenvolvimento do hospital de Tomar é obra de relativamente poucos anos. Fez-se com um auxílio dum donativo de 240 contos do benemérito sr. João de Oliveira Casquilho, honrado e bemquisto cidadão felizmente ainda vivo, com mais de 90 anos, e cuja actividade e espírito empreendedor estão bem patentes na sua fábrica de papel da Matrena. Mas esta obra benemérita do hospital deve-se também à sua Mesa administrativa, que tem como provedor o respeitado tomarense sr. João Tôrres Pereira, figura de prestígio cujos cabelos brancos falam dos seus muitos anos dedicação à sua terra; e principalmente, ao distinto médico sr. dr. Cândido Madureira, alma talhada para o bem, dedicando-se inteiramente ao sofrimento alheio. Trabalha no hospital há quási trinta anos, com uma devoção, uma pertinácia e, sobretudo, uma inteligência notáveis. Quando se encontram exemplos como êste do dr. Madureira – que a população tomarense justamente admira com simpatia – não se pode deixar de acreditar na solidariedade e na bondade da alma.
         Pois a Sociedade de Instrução Tavaredense ofereceu à Misericórdia a récita de segunda-feira.
         O teatro encheu-se de novo. O mesmo entusiasmo. A mesma vibração. O mesmo sentimento de carinho a manifestar-se em tudo e em todos. Se na véspera intérpretes, autores e maestro foram aplaudidos e chamados, não o foram com menos entusiasmo no Sonho do Cavador. A excelente orquestra contribuiu poderosamente para o brilho do espectáculo. Justamente foi de novo chamado ao palco António Simões, a quem os espectadores significaram o seu muito agrado pela formosa partitura. E a récita terminou – tendo José Ribeiro proferido algumas palavras de despedida e agradecimento – em meio dum entusiasmo delirante.
         O provedor da Misericórdia e o médico sr. dr. Madureira foram ao palco cunprimentar o grupo.
         O regresso fêz-se na têrça-feira, no combóio que sai de Tomar às 12,35.
         À estação do caminho e ferro foram apresentar despedidas representantes da comissão de recepção e de várias organizações locais. Também ali estiveram os srs. Tôrres Pereira e dr. Cândido Madureira, representando a Misericórdia. À partida do combóio ergueram-se vivas e trocaram-se despedidas que exprimiam a alegria e a saudade, tanto nos que partiam como nos que ficavam.
         Uma outra demonstração de simpatia estava ainda reservada aos excursionistas: um grupo de tomarenses veio de automóvel a Chão de Maçãs, ao encontro do combóio em que a excursão regressava à Figueira, fazendo entrega dum ramo de flores.
         = Os excursionistas, dividindo-se em grupos, visitaram os pontos mais agradáveis da cidade, monumentos, fábricas, etc. Demoraram-se no aprazível parque do Monchão, gozando a sua amenidade; subiram ao castelo dos templários, percorreram o famoso e formoso Convento de Cristo; viram funcionar as fábricas de tecidos de algodão, assistiram ao fabrico de papel no Prado e na Matrena, etc. etc. De tôda a parte trouxeram as impressões mais gratas pelas facilidades que lhes dispensaram.
         = Assistiu aos dois espectáculos o sr. brigadeiro Lacerda Machado, comandante da região, a quem a comissão de recepção apresentou a direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         = Muitas foram as amabilidades recebidas. A firma Joaquim José Soeiro, ofereceu às amadoras do grupo dramático uma caixa de finíssimos rebuçados da sua fábrica “A Preferida”.
         = A direcção do Grémio Artístico foi duma cativante gentileza para com os visitantes, pondo as suas salas inteiramente à sua disposição. No fim dos espectáculos foram ali oferecidos bailes aos componentes do grupo dramático e pessoas que o acompanhavam, dançando-se animadamente, nas duas noites, até cêrca das 5 horas da madrugada.
         = Os excursionistas, que se distribuiram pelo Hotel União Comercial, Pensão Moderna e Hotel Nabão, fazem as melhores referências à maneira como foram tratados.
         = A Sociedade promotora desta visita está reconhecidíssima à comissão de recepção, que foi incansável. A gratidão da Sociedade de Instrução Tavaredense é profunda, e não pode exprimir-se em palavras.
         Merece também os maiores elogios o Sporting Clube de Tomar, que propositadamente não deu espectáculo no domingo.
         Foi ainda importantíssima a colaboração dos briosos rapazes do União Foot-ball Comércio e Indústria, na ornamentação do teatro. Durante noites consecutivas trabalhou-se activamente nas salas dêste clube.
         = O jornal “De Tomar” publicou um número especial que foi distribuído pelos visitantes. A primeira página era-lhes dedicada e trazia uma gravura da praia da Figueira.
         = Regosijamo-nos com o êxito brilhantíssimo desta iniciativa da Sociedade de Instrução Tavaredense. Felicitamo-la.
         E, saudando a hospitaleira cidade de Tomar, formulamos sinceros votos pelo seu progresso.

         Iremos continuar estas recordações num segundo caderno. Ainda nos debruçaremos aos finais da década de 1920 – 1930. Não sabemos se conseguiremos narrar o que de mais marcante se passou na terra do limonete relativamente ao Associativismo. As desavenças foram muitas. E, como sabemos, se a Sociedade de Instrução soube ultrapassar as adversidades, o Grupo Musical foi a grande vítima, vendo-se na necessidade de vender a sua sede e ali continuar como inquilino. Pouco tempo, digamos desde já!


Uma cena de Mãe Maria - Grupo

sábado, 21 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 41

         E o Grupo Musical levou a efeito mais uma garraiada. O tempo esteve agradável e a garraiada foi brilhante. Todos os rapazes desempenharam o melhor que puderam os papéis de que estavam encarregados, e salientamos os cavaleiros que se portaram galhardamente. Mas, como já sabemos, os resultados financeiros foram insuficientes. Também já referimos que o cinema foi outra tentativa de angariar fundos. Registemos, para a história, o programa da primeira sessão que teve lugar na sua sede. O VI Portugal – Espanha em futebol, Rin-Tin-Tin e os lobos e Charlot na Rua da Paz. E acrescente-se que, logo na primeira sessão, a máquina avariou, pelo que o programa teve que ser repetido no domingo seguinte.

         Chegados à data habitual, realizaram-se as habituais comemorações dos aniversários. Vamos recordar essas festas. Primeiro foi o Grupo Musical. Como noticiámos, o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, colectividade da visinha povoação de Tavarede, comemorou no passado sábado e domingo, o 18º aniversario da sua fundação.
         Sem dúvida, revestiram-se de brilho as suas festas, chamando ali uma concorrencia extraordinaria, o que mais imponentemente fez realçar os numeros que constituiram o programa, que foram cumpridos na integra.
         Bem mereceu o simpático Grupo Tavaredense, esta distinção, dado o valor em que exerce a sua acção, de tão úteis e beneficentes resultados para o povo daquela risonha terra.
         E renovando os nossos agradecimentos pelo seu amavel convite, que gentilmente enviaram ao nosso jornal, passamos a descrever resumidamente, o que foram as festas da simpatica colectividade.
         Sábado, 21 – ao 21 horas, hora marcada para o Espectaculo de Gala. O salão teatro oferecia um aspecto empolgante. Uma massa apinhada de povo, enchia por completo o elegante teatrinho, como alguem lhe chamou, vendo-se ainda de pé, muitas dezenas de pessoas que não tiveram logar. À volta, colgaduras damascadas num recorte de fino gosto, ornamentavam as paredes. Dum lado, pendiam os retratos do Grupo Scenico, de João Chagas e da srª D. Maria Aguas Ferreira. Do outro, o do saudoso maestro David de Sousa, maestro distincto, que no auge da sua brilhante carreira, tombou no leito da morte; de Antonio Medina, fundador e dedicado amigo desta colectividade, e em ultimo logar, senão o primeiro, a figura simpatica e inexquecivel de José Medina, do excelente amador tavaredense. Ao fundo pendia um largo galhardete do Grupo Musical, contendo as suas iniciais, e atravessada, uma facha com a palavra Amigos. Era a oferta e homenagem do “Grupo dos Amigos”.
         E no palco pendia o estandarte, como que sorrindo de contentamento pela ofegante atmosfera que ali se respirava e parecia querer abençoar aqueles que há 18 anos lhe vêm dispensando o seu carinho e auxilio desinteressados.

Maria Águas Ferreira

         A assistencia, de pé e religioso silencio, ouve o hino que irrompe executado pela orquestra, sob a direcção de Antonio Cordeiro.
         Segue-se a representação da comédia, Os dois Nénés, que agradou, sendo ainda Violinda Medina, o alvo dos aplausos. Terminada que foi a exibição do film Billy, carinha n’agua, teve logar a representação da chistosa opereta em 1 acto Herança do 103, que terminou a recita de gala.
         Calculamos que toda a existencia saíu satisfeita e bem disposta.
         Passamos agora ao Domingo, 22.
         De manhã. houve alvorada, anunciada por uma fanfarra, acompanhada de foguetes, que deram a Tavarede um ar festivo.
         Ao meio dia, teve logar o bôdo aos pobres, sem duvida o número mais simpatico dos que constituiam o programa das festas.
         Esperava-se a Sessão Solene.
         Eram 5 horas, quando apareceu no palco o sr. Antonio d’Oliveira Cordeiro, que convidou a presidir àquela sessão, o sr. Pedro dos Santos Moreira, dignissimo professor oficial naquela terra.
         Sua Exª que é recebido com palmas, convidou para o secretariarem os srs. Augusto d’Oliveira Santos, representante da Troupe Recreativa Brenhense, e Pedro Collet Meygret representante da Sociedade Columbofila da Figueira.
         Seguidamente, procedeu-se à leitura do expediente, que era longo, e do qual desejamos salientar as ultimas duas cartas, vindas de Sintra. A primeira era da pequenita Almira, filha do nosso amigo Antonio Medina Junior, e a segunda, deste mesmo senhor, que era escrita num estilo proprio daqueles que, embora longe, não se esquecem daquilo que há 18 anos lhe tem absorvido uma parte do seu sentir.
         E foi dada a palavra ao sr. Manuel d’Oliveira Cordeiro, que leu um discurso de sua auctoria em que fez referencia especial à Mocidade desta colectividade. Seguidamente falaram os srs. Antonio d’Oliveira Lopes, presidente da Direcção cessante que tambem leu um bem urdido discurso, e José Maria de Carvalho, que recordou, com saudade, a alma de José Medina e agradeceu em nome dos socios do Grupo Musical ao sr. Moreira, o carinho desinteressado que vem prestando ao povo Tavaredense, mantendo-lhe e admnistrando-lhe as suas aulas de instrução.
         E em ultimo lugar, usou da palavra o sr. Rui Fernandes Martins, professor oficial em Brenha, que demonstrou quaes os beneficios que das colectividades de Instrução, advem, e a necessidade de se manterem, integralmente unidos, para bem da Patria e da Republica. Terminou por afirmar que, se por ventura, a vida e a saude lhe permitirem, tomará parte na festa do proximo ano.
         Seguidamente, o sr. Presidente fez uma alocução ao acto que se estava passando, e, encerrou a Sessão.
         Depois teve logar no gabinete da Direcção, um copo d’agua, oferecido aos novos corpos gerentes, oradores e representantes de colectividades, tendo ainda brindado os srs. Rui Martins e Antonio Maria Lopes Anadio.
         Representavam colectividades os srs.: Augusto Santos, a Troupe Recreativa Brenhense; Pedro Collet Meygret, a Sociedade Columbófila da Figueira; José Lopes Custódio, a Associação dos Caixeiros; Antonio Correia, União Foot-ball de Buarcos; e Antonio M. Lopes Anadio, a Boa União Alhadense.
         À noite teve logar o Baile de Gala, que esteve muitissimo concorrido tendo terminado já bastante tarde.
         Felicitamos a briosa colectividade Tavaredense, e oxalá que à medida que os anos se vão sucedendo, a sua acção beneficente aumente na mesma proporção para o povo daquela risonha terra aproveitar tal beneficio.

         Seguiu-se, pouco depois, a comemoração do 26º aniversário da Sociedade. A obra, verdadeiramente notável no capítulo da educação popular, que a Sociedade de Instrução Tavaredense realiza na vizinha povoação de Tavarede, é bem conhecida. Devemos filiar nesta circunstância a expressiva e calorosa simpatia que o público dedica a esta colectividade e que se não dispensa de lhe testemunhar por ocasião dos seus aniversários.
         Na verdade, a acção desenvolvida pela Sociedade de Instrução Tavaredense é admirável sob todos os pontos de vista. Mantém, há quási três dezenas de anos, uma escola nocturna onde se recebem alunos, menores e adultos, sócios ou não sócios, aos quais é fornecido gratuitamente todo o material escolar. Não se limita a isto a sua função. Vai mais longe: entra no capítulo da educação e da cultura artística, limitada, como se compreende, às condições do meio -, servindo-se para isso do livro, da palestra educativa e do teatro. A influência moral e educativa exercida por intermédio do teatro, tanto sôbre os que nêle representam como nos espectadores, é evidente. Para atingir êste objectivo, segue-se na escolha das peças – algumas das quais expressamente escritas para êste fim – o critério de que o teatro não deve servir apenas para proporcionar distracção, deve, principalmente, ser um veículo de educação moral e cívica e até, num meio como é o de aldeia, um instrumento de cultura.
         Foi-nos muito grato verificar, por isso mesmo, a demonstração vibrante de simpatia pela benemérita agremiação tavaredense, a que deu lugar a festa do seu 26º aniversário.
         O programa executou-se com brilho excepcional, havendo nêle alguns números de muito relêvo.
         No sábado, a récita de gala reuniu no teatro, artisticamente ornamentado e iluminado – colchas de damasco nas paredes, flores, enorme profusão de lâmpadas eléctricas e um formoso lustre, nas côres da Sociedade de Instrução -, uma assistência numerosíssima e distinta.
         Abriu a récita a alta-comédia em 1 acto O Caso de Consciência, de Octave Feuillet, em cujo desempenho Maria Tereza de Oliveira, António Broeiro e João Cascão souberam com justiça fazer-se aplaudir.
         Seguiu-se a peça em 1 acto Evocação, que deixou no público, mais pelo desempenho que propriamente pela peça, uma impressão agradabilíssima, diremos mesmo uma sensação de arte que bem se exteriorizou em aplausos calorosos. Emília Monteiro, Maria Tereza de Oliveira, António Broeiro e João Cascão representaram admiravelmente, mantendo uma perfeita harmonia de conjunto como não é fácil conseguir melhor em teatros de amadores duma pequena aldeia. Dignas de nota especial as primorosas caracterizações de António Esteves.
         E a récita fechou com chave de ouro – a opereta O 66, cuja dificílima e formosíssima partitura teve execução esplêndida pela orquestra dirigida pelo distinto amador sr. António Simões, que a assistência chamou ao palco para melhor o aplaudir, e foi muito bem cantada por Emília Monteiro, João Cascão e Francisco Carvalho. A representação teve o ritmo próprio, decorrendo com uma animação exuberante. Muito bem! Os aplausos foram entusiásticos e merecidos. A montagem era magnífica, figurando nela um fundo de belo efeito do distinto artista pintor sr. Henrique Tavares.
         No domingo, fez a alvorada um grupo musical, que percorreu as ruas de Tavarede executando o hino. Era constituído por sócios da Sociedade de Instrução, ensaiados pelo sr. José Medina, que é um hábil e competente amador de música.
         Pelas 11 horas foi servido a cêrca de 60 crianças da freguesia, o almôço oferecido pelo grupo dos “Fixes”. Foi um número simpático. O aspecto das mesas, muito bem dispostas no palco, era interessante.
         À tarde, a povoação apresentava o aspecto dos grandes dias de festa. Muita gente, centenas de pessoas da Figueira, Quiaios, Brenha, Alhadas, Buarcos, etc. A distinta banda “10 de Agôsto” entrou em Tavarede, pouco depois das 15 horas, executando o hino da Sociedade. E em seguida, no Largo do Terreiro, fez-se uma largada de dezenas de pombos correios. Êste número, gentilmente organizado pela Sociedade Columbófila, despertou curiosidade nas centenas de pessoas que assistiam.
         Tendo chegado a esplêndida tuna do Grupo Instrução e Recreio de Quiaios, deu-se comêço à sessão solene, que foi, sob todos os aspectos, brilhante. Teve carácter, teve imponência invulgar. A falta de espaço não nos permite fazer um relato mais desenvolvido.
         O sr. João Gaspar de Lemos, presidente da Assembleia Geral, convidou para secretariarem os srs. Raúl Dias Cachulo, pela “10 de Agôsto”, António Mariano, pelo Grupo Instrução e Recreio, Rui Martins, distinto professor em Brenha e Anselmo Cardoso Júnior, pelo Ateneu Alhadense. Abrindo a sessão o grupo musical da Sociedade de Instrução Tavaredense executou o seu hino, em seguida ao que a presidência foi entregue ao tavaredense ilustre sr. dr. José Cruz. Proferiram discursos os srs. dr. Manuel Cruz, António Anadio, que pediu a palavra em nome da União Alhadense, Rui Martins, dr. Manuel Lontro Mariano, dr. Júlio Gonçalves e José da Silva Ribeiro, discursos que a assistência, que enchia completamente a sala e transbordava para o átrio e corredores, aplaudiu calorosamente. O sr. dr. José Cruz proferiu algumas palavras de admiração pela obra da colectividade em festa, encerrando a sessão depois de transmitir um abraço aos seus representantes, agradecimentos ao Grupo Instrução e Recreio e Filarmónica “10 de Agôsto”, por entre aclamações e erguendo-se a assistência para escutar o hino da Sociedade de Instrução Tavaredense, executado pela Tuna de Quiaios e pela “10 de Agôsto”.
         À noite, de novo as salas voltaram a encher-se. O baile de gala foi brilhante e concorridíssimo, como ainda ali não houve melhor. As famílias dos sócios e convidados acorreram em grande número, enchendo completamente a sala de baile.
         E as festas comemorativas do 26º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense terminaram na madrugada de segunda-feira, deixando no espírito dos que a elas assistiram uma impressão que não esquecem.
         À benemerente colectividade tavaredense, que tão proficuamente tem sabido exercer a sua função, renovamos as nossas saudações.


sábado, 14 de setembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 40

       E no dia 30 de Junho, o Grupo Musical também foi à Figueira representar, no Parque Cine, a opereta Mãe Maria. Conforme o nosso jornal noticiou, tivemos no domingo passado, no teatro Parque-Cine, a representação da opereta em 3 actos A Mãe Maria, original de Raul Martins, com versos de Antonio Amargo e musica de Herculano Rocha.
         A acção é rasoavel, bem conduzida, e, para não fugir à tradição das peças do genero, é passada numa aldeia do verdejante Minho.
         O enrêdo não é de todo vasio de intuitos. Consegue conquistar desde o começo a atenção do publico, mantendo-se o diálogo animado, natural e sugestivo, especialmente quando entra a Mãe Maria e o Prior.
         Nota-se, contudo, uma sensivel falta de observação psicológica que embora não seja de gravidade, é deveras lamentavel.
         O prior não desempenha ali o papel que aos padres está confiado na terra.
         Anda na pandega, bebe rasoavelmente, e chega a sustentar conversas pouco correctas com uma caricata velhota, censurando-a ironicamente e troçando-a – o que não é, positivamente, o dever dum padre. E a mais rudimentar logica não permite aceitar como verosimil que o prior duma aldeia minhota ande a peitar este ou aquele para tirar um desforço violento do boticario e do sacristão, por estes terem tido o desplante de escreverem umas declarações d’amôr a uma sua irmã – como absurdo é alguns dos freguezes deste prior tratarem-no por tu, com uma familiaridade inadmissivel para quem conhece os usos e costumes das boas terras d’Entre-Douro-Minho.
         Em suma: O sr. Raul Martins creando d’est’arte o prior da sua peça, deu-nos claramente a perceber a falta total de informação religiosa que domina o seu, aliás, inteligente espirito.
         A missão do sacerdote não comporta, certamente, dentro dos fins da paz e amor que a orientam – o perfil moral do seu inverosimil prior que... apenas se sabe que o é por envergar em scena as vestes talares.
         Apesar disso é “A Mãe Maria” uma peça interessante, devendo, contudo, dizer que esperavamos melhor, mesmo muito melhor – dada a impressão que nos deixou a representação da opereta dos mesmos auctores “A noite de Santo António” que tem sobre esta evidente superioridade de urdidura e de tecnica.

         Não esperavamos, evidentemente, uma obra-prima, mas não previamos que, sobretudo, os versos de “A Mãe Maria”, - fossem duma tão manifesta inferioridade em relação aos da “Noite de Santo António”. Quasi que não parecem do mesmo auctor, poeta brilhante e de destra cultura.



Foto de Mãe Maria

         Quanto ao desempenho, destacamos em primeiro logar, Violinda Medina, no papel de Mãe Maria que desempenhou com um á-vontade e uma perfeita correcção, que vieram confirmar os seus anteriores triunfos scenicos. A sua voz é como que um veio de agua cristalina, murmurando suavemente por entre fraguedos, modulando o canto com um raro e precioso sentimento que muitas artistas profissionais, certamente, invejariam. É, sem duvida, uma muito distincta amadora que honra, sobremaneira, Tavarede.
         Adriano Silva no Bento Boticário satisfez-nos plenamente, como amador seguro, dizendo com graça e naturalidade. Egualmente Manuel Nogueira no Antonio Sacristão foi um comico impagavel, conquistando a simpatia do publico pela vida invulgar que imprimiu ao papel.
         É sem a menor duvida um dos melhores elementos do seu grupo scenico.
         Raul Martins, pela forma como se houve no Morgado, bastaria para, com Violinda Medina, salvarem a peça, se ela não tivesse outros méritos.
         Foi o correcto galan de sempre, vincando com certeza e consciencia o seu logar.
         Manuel Cordeiro, bem. É um novo nas lides de Talma, mas com marcada propensão para a scena e dotes muito apreciaveis.
         De Jorge Medina, sómente diremos que “filho de peixe sabe nadar”... Recordámos com saudade seu pae, o malogrado José Medina, cuja boa tradição ele já sabe honrar, registando nós com aprazimento os seus constantes progressos.
         Clarisse Cordeiro apesar das suas reaes aptidões para o teatro não poude brilhar no papel de Berta como poderia, pois a sua voz não lhe permitiu dar o relevo preciso. Tem, porem, uma boa dicção e pisa o palco com natural despreocupação.
         Os restantes, João Nogueira no Ricardo; Antonio Medina no Mordomo e Helena Gomes na D. Ana, encarnaram bem os seus papeis, não desmanchando o conjuncto.
         Os córos geralmente bons; homogeneos e com forte sonoridade tendo, por vezes, deslises sensiveis mas facilmente remediaveis para o futuro.
         A musica, ligeira, viva e alegre, dispondo bem o publico. Os scenarios agradaram.
         O que, porventura, não agradará é esta nossa critica aos distinctos amadores de Tavarede... Notámos deficiencias, aliás bem naturaes – mas se acharem o nosso juizo parcial ou incompetente – o melhor é recorrerem a qualquer critico amigo que lhes teça o panegirico na Pagina Teatral de “O Século”. Já agora! Visto que entrou em moda....

         Um breve comentário nosso. A crítica acima foi publicada no mesmo jornal que publicou as críticas ‘venenosas’ contra a Sociedade. Por outro lado, esta opereta só foi representada uma única vez e na Figueira. Encontrámos algures a informação de que o palco da sede do Grupo não tinha condições para a montagem da mesma. Não deixa de causar estranheza o facto de se ensaiar uma opereta, cuja montagem não deveria ser barata, para dar uma única representação! Mas, assim aconteceu.

         A imprensa figueirense, e curiosamente não eram unicamente os correspondentes locais, tomou partido pelas duas associações locais. Na ‘Voz da Justiça’ a Sociedade de Instrução, sempre no seguimento da linha anteriormente tomada, era defendida, com unhas e dentes das bicadas que lhe davam, tanto O Figueirense como o Jornal da Figueira, os quais, além destes ataques, louvavam generosamente o Grupo Musical. Mas não o faziam desinteressadamente, como veremos.

         A tuna do Grupo, que tão apreciada e requisitada havia sido, desorganizou-se, certamente em consequência dos graves problemas existentes na sua colectividade. Mas, tendo sido requerida a sua participação para abrilhantar umas festas na Martingança, conseguiu-se a sua reorganização, sob a direcção e regência do tavaredense José Francisco da Silva, o qual teve de recorrer à participação de diversos músicos afectos à Sociedade. A deslocação teve lugar nos primeiros dias de Outubro de 1929, embora com o nome de Tuna de Tavarede. Foi motivo de uma pequena polémica, pois enquanto uns jornais anunciavam a deslocação do Grupo, outros assumiam posição contrária. Foi o referido regente que veio a público, para afirmar que, embora fossem utilizados os bonés, levado o estandarte e tocado o hino do Grupo, todos os componentes tinham concordado em formar uma tuna da terra, apartidária das associações. Recordamos que foi no regresso desta deslocação, que os excursionistas passaram pelo Mosteiro da Batalha, onde deixaram uma placa evocativa da sua passagem. Ainda há relativamente pouco tempo, esta placa estava colocada numa parede junto ao sepulcro do ‘soldado desconhecido’.


         O teatro continuava activo. A Sociedade, após uma série de espectáculos com A cigarra e a formiga, fez a reposição de O sonho do cavador. Mas já foi diferente da primeira versão. A censura começara a sua nefasta acção e grande parte dos números originais foram censurados. A peça, com os quadros riscados com o célebre lápis azul, encontra-se no antigo escritório de Mestre José Ribeiro. Embora mantendo o enredo inicial, novos números foram escritos e musicados para substituição dos eliminados. O êxito da peça, porém, manteve-se.