sábado, 9 de novembro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 48

         O teatro da Sociedade, tendo alcançado enorme êxito com a peça Os fidalgos da Casa Mourisca, continuou com o teatro de características populares, apresentando As pupilas do Senhor Reitor, igualmente numa adaptação do romance homónimo de Júlio Diniz. O excelente grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense obteve no sábado um novo e grande triunfo, aliás já previsto; a opereta As Pupilas do Sr. Reitor, fica no seu reportório, depois dos Fidalgos da Casa Mourisca, como um belo êxito artístico.

         A interpretação foi sempre boa, das primeiras figuras às simples rábulas, num conjunto harmonioso e brilhante. Nas duas protagonistas vimos duas amadoras distintas: Emília Monteiro na triste Margarida, e Violinda Medina e Silva, na alegre Clara, a que deu a precisa vivacidade – ambas primorosamente. João Semana encontrou em António Graça o intérprete perfeito, o mesmo devendo dizer-se de Jaime Broeiro, no José das Dornas – dois tipos magistralmente desenhados, representação alegre, dando os efeitos cómicos com a maior naturalidade, sem um exagêro. António Broeiro compôs a primor a figura do bondoso Reitor, João Cascão e Manuel Nogueira, deram o carácter próprio ao rústico Pedro e ao volúvel Daniel. Maria Teresa fez com justo sabor as duas características – a mulher do tendeiro e a criada do João Semana; e F. Carvalho tem no João da Esquina um dos melhores papéis que lhe conhecemos. Uma rábula bem feita: a Francisca, por Guilhermina de Oliveira.

O grupo cénico da SIT em 1928
    
Guarda-roupa a rigor e cenários de belo efeito – três cenas diferentes pintadas pelo distinto artista sr. R. Reynaud (a cena do 4º quadro só no próximo espectáculo pode ser apresentada). A música é lindíssima, bem portuguesa, com a assinatura do grande e saudoso maestro Felipe Duarte, que valorizou extraordinariamente a adaptação do experimentado escritor teatral Penha Coutinho. Pena foi que o número de abertura – a linda canção das lavadeiras – saísse com desafinação nas vozes, o que foi devido ao nervosismo com que o espectáculo começou a hora tardíssima (passava das 23!) por virtude da demora na montagem do cenário. O dueto das duas pupilas no 1º acto, foi magistralmente cantado por Emília Monteiro e Violinda Medina, que ouviram uma grande ovação; depois o grande concertante – a chegada do novo médico – difícil e de belo efeito, também aplaudido sem favor, e o côro final. No 2º acto dominou a Canção da Cabreira, em que sobressaiu a esplêndida voz de Violinda acompanhada pelo côro – quatro vozes – que arrebatou a assistência. Poucas vezes se tem feito neste teatro tão demorada e calorosa ovação. Outros números ainda foram aplaudidos e todos os restantes coros foram cantados com perfeita afinação.
         Merecem referência as caracterizações de António Esteves, felicíssimas.
         Para o belo êxito das Pupilas contribuíram, além dos elementos citados, muitas dedicações desinteressadas e a competência e bom gôsto de dedicados amigos da SIT. É nosso dever registar os nomes de António Simões, que regeu a excelente orquestra – constituída por amadores mas formando um conjunto que se ouve com prazer – e dirigiu superiormente tôda a parte musical; José Medina, que ensaiou as vozes, dispendendo um esfôrço enorme em que foi ajudado por José Silva e Jerónimo Ferreira; e D. Belmira Pinto dos Santos e Pedro Campos Santos, que dirigiram a execução do guarda-roupa.
        
         Depois do espectáculo inaugural, o Grémio Educativo continuou com o teatro. Como estava anunciado, realizou-se no último domingo, na séde dêstre Grémio, um magnífico espectáculo, “reprise” das festejadas peças que constituiram a récita de gala da sua inauguração oficial, o qual marcou novamente pela novidade que representa em Tavarede.
         A casa estava repleta, verdadeiramente à cunha, como se diz em gíria teatral, e apezar de terem sido distribuidos muitos convites extra lotação, não foi possivel satisfazer numerosos pedidos feitos á última hora.
         Os jovens amadores, mais uma vez entusiásticamente ovacionados, foram muito além do que havia a esperar da sua inexperiência. Apezar de ser a segunda vez que pisam o palco, houveram-se com um brilho raro muitas vezes em pessoas experimentadas. Alguns dêles são mais do que uma prometedora esperança. São uma realidade palpável. Com as vocações reveladas, pode orgulhar-se o Grémio de ter resolvido a sua questão do teatro.
         No final do espectáculo, o público fez uma chamada especial ao ensaiador, sr. Raul Martins, em que lhe manifestou a sua admiração pela rara tenacidade e proficiência de que deu prova na encenação das referidas peças.

         Em Junho de 1932, o grupo cénico da Sociedade de Instrução realizou segunda visita a Tomar. A visita da Sociedade de Instrução Tavaredense constituiu por assim dizer o maior acontecimento que ultimamente aqui se tem registado.
         Já o fim altruísta que trazia a Tomar tão simpática Sociedade, já porque ainda não tinham sido esquecidas as magníficas impressões deixadas há dois anos, tudo contribuiu para o bom acolhimento que aos tavaredenses foi dispensado e para o entusiasmo que durante dois dias se observou pela estada entre nós de tão amáveis visitantes.
         Conforme fôra anunciado, a Sociedade de Instrução Tavaredense chegou a Tomar pelas 15 horas de sábado. O grupo era constituído por mais de 80 pessoas.
         Na estação do caminho de ferro, além de muitos amigos, correspondentes dos jornais e povo, aguardava os visitantes a Comissão da Sopa dos Pobres, presidida pelo sr. capitão Jesus.
         Depois de feitas as apresentações e dadas as boas-vindas, dirigiram-se para os hotéis que lhes estavam reservados.
         Ao fim da tarde chegaram vários automóveis e uma camioneta com muitas pessoas e famílias que aproveitavam esta oportunidade para visitar a nossa terra. Entre outras pessoas vimos os srs.: dr. José Cruz, dr. Manuel Lontro Mariano, Manuel Jorge Cruz, Firmino Cunha, Fernando Reis, Francisco Freitas Lopes, Eduardo Soares Catita, Araújo, Carlos Traveira, etc. etc.
         Refeitos da viagem, espalharam-se pouco depois pela cidade, visitando o que temos digno de mensão.
         Pelas 20 horas foram cumprimentados pela Sociedade Filarmónica Gualdim Pais no Hotel Nabão e pelas direcções das nossas sociedades de recreio.
         À noite representou-se no teatro a linda opereta As Pupilas do Sr. Reitor, que agradou bastante. Aos principais intérpretes da peça foram oferecidos ramos de flores e a assistência aplaudiu calorosamente e fez chamadas especiais.
         No domingo, a-pesar-da chuva que caíu quási tôda a manhã, continuaram as visitas aos nossos monumentos.
         Às 14 horas houve no Grémio Artístico uma matinée e um “Pôrto-de-Honra” oferecidos à Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Foi uma festa cheia de alegria e entusiasmo, de perfeita confraternização entre tomarenses e visitantes.
         Dançou-se animadamente, até às 20 horas. Enquanto no salão de baile se servia um chá às senhoras, num outro salão era servido o “Pôrto-de-Honra”. Usaram da palavra os srs. dr. José Cruz, dr. Lontro Mariano, Manuel Jorge Cruz, dr. Manuel Gomes Cruz, António Medina Júnior e os tomarenses António Duarte Faustino e Domingos Vístulo, que puseram em relêvo o significado desta visita e as consequências que dela resultam para a Figueira e Tomar com tão amistosas relações. Trocaram-se muitos e entusiásticos brindes, ouvindo-se, por vezes, aclamações calorosíssimas.
         À noite realizou-se o segundo espectáculo, com Os Fidalgos da Casa Mourisca.
         Se a impressão deixada pelas Pupilas do Sr. Reitor tinha sido boa, a dos Fidalgos da Casa Mourisca ultrapassou tudo que se possa imaginar. À medida que a peça ia decorrendo, ia também por sua vez subindo a admiração do público pelo que estava observando. O cuidado da montagem das cenas, a forma de dizer dos distintos amadores, a perfeita interpretação de A Broeiro (D. Luís), de D. Violinda Medina e Silva (Baronesa), D. Emília Monteiro (Berta), D. Maria Teresa (Ana do Vedor), António Graça (Frei Januário), Nogueira e Cascão nos filhos do velho fidalgo, etc., formando um conjunto primoroso, que dava motivo a que a assistência, como que electrizada pelo que estava vendo, aplaudisse com entusiasmo e dissesse com justiça: parecem artistas e não amadores!
         Num intervalo alguns amadores de S. Martinho do Pôrto, com o seu ensaiador, também um distinto amador de teatro o professor de ensino secundário naquela vila, foi ao palco saudar o grupo tavaredense e oferecer flores às amadoras. O discurso proferido pelo ensaiador do grupo de S. Martinho do Pôrto, no qual se afirmava muita admiração pela forma invulgarmente brilhante como se estava representando a peça e se elogiava a Sociedade de Instrução Tavaredense pela sua formidável obra educativa, arrancou à assistência, que enchia completamente o teatro, novas e prolongadas ovações.
         Em seguida, a Comissão da Sopa dos Pobres, à frente da qual estava o sr. capitão Jesus, veio ao palco agradecer a todos os tavaredenses o seu cativante desinterêsse e a sua amabilidade em virem até nós cooperar na grande obra de assistência em que se encontravam empenhados. Estas palavras foram cobertas de ovações calorosíssimas. Tôda a sala, repleta, vibrava de entusiasmo. As ovações repetiram-se quando o director do grupo cénico tavaredense, nosso amigo sr. José Ribeiro, agradeceu.
         Muitas flores, muitos aplausos e sobretudo muito entusiasmo e carinho, tudo dá motivo a que possamos afirmar terem deixado nos tomarenses as melhores impressões os dois brilhantes espectáculos que, numa hora feliz, a Sociedade de Instrução Tavaredense veio dar à nossa cidade.
         Na primeira noite, a bem constituída orquestra que o distinto amador figueirense sr. António Simões nos apresentou, e que tão apreciada foi, executou, a abrir, numa simpática homenagem à nossa terra, o hino de Tomar.
         Terminado o espectáculo de domingo realizou-se um baile no Grémio Artístico, que se prolongou até às 4 e meia de segunda-feira.
         Os nossos simpáticos visitantes retiraram na segunda-feira, bem impressionados com o acolhimento que tiveram em Tomar, e os tomarenses viram-nos partir com saudade.
         Daqui felicitamos a simpática Sociedade de Instrução Tavaredense.
         =À vinda para Tomar, uma surprêsa aguardava os nossos visitantes em Caxarias: na gare da estação estavam as crianças da escola daquele lugar, tôdas levando flores e acompanhadas da nossa patrícia srª D. Iria da Fonseca Baptista e da srª  D. Maria Cristina Trezentos, a cuja inteligente acção e belo espírito se deve a realização da récita infantil realizada em Caxarias e de que então demos notícia. Acompanhavam-nas ainda outras pessoas. À chegada do combóio, a srª D. Iria Baptista fez as apresentações e dirigiu saudações ao simpático grupo tavaredense, saudações que o director do grupo agradeceu com palavras de admiração pela obra daquelas senhoras e dos seus cooperadores. Às intérpretes das duas Pupilas foram oferecidos lindos ramos de cravos, bem como ao director do grupo, que por todos agradeceu, sensibilizado. No momento do combóio prosseguir a marcha, ergueram-se vivas calorosos aos tavaredenses e ao povo de Caxarias.


         = Alguns rapazes tomarenses foram de automóvel, na segunda-feira, à estação de Chão das Maçãs, e ali esperaram o combóio que conduzia à Figueira os nossos visitantes, levando-lhes ramos de flores, o que deu origem a novas manifestações de carinhosa simpatia.

O grupo cénico da SIT - 1ª. deslocação a Tomar

sábado, 2 de novembro de 2013

O Associativismo da Terra do Limonete - 47

         A tuna do Grupo, que havia sido reorganizada, voltou a sair no domingo de Páscoa de 1932, em visita de cumprimentos a congéneres, entidades, imprensa e amigos. E ainda em Abril, teve lugar a inauguração oficial do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense. Aqui deixamos a reportagem. Espectaculo – Conforme anunciámos realizou-se em Tavarede nos dias 10 e 11 a inauguração da nova colectividade que dá pelo nome de “Grémio Educativo e Instrução Tavaredense” e que, como o seu nome o indica, visa a educação e instrução principalmente da juventude.
         Acedendo ao amavel convite dos seus dirigentes, lá fômos assistir no sábado às representações constantes do programa dêsse dia, e não podemos calar os justos e merecidos louvores a que têm jus todos os que tomaram parte nas cenas.
         O espectáculo anunciado para as 9,30 da noite começou cêrca de hora e meia mais tarde, o que não admira por tratar-se de amadores que pela primeira vez entraram em cena e portanto pouco práticos nos preparativos.
         A esplêndida sala de recreio estava repleta.
         A orquestra composta de distintos músicos do regimento e regida pelo hábil violinista António Cordeiro executou o hino do Grémio, artística composição do consagrado músico sr. Herculano Rocha, ao mesmo tempo que um grupo coral escolhido entre os alunos da escola vocalizava a letra, expressiva produção do sr. Padre Abílio Costa, professor do Seminário, alma de artista sempre pronto a coadjuvar tôdas as boas iniciativas.
         Seguidamenrte, surge no palco o sr. Belarmino Pedro anunciando à assistência que um grupo de gentis senhoras desta cidade tendo à frente a Ex.ma Srª. D. Carmo Santos, confecionára um estandarte para oferecer ao Grémio, cuja Direcção por sua vez o entregou aos alunos da escola.
         Então, um petiz de palmo e meio, o maior aluno da escola, avança, toma a haste do estandarte, emquanto uma menina lhe coloca duas lindas fitas oferecidas pelos alunos.
         De novo é entoado o hino pelos pequenos com o acompanhamento da orquestra e, após um pequeno intervalo, começa “Uma recepção elegante”, farsa cómica em 1 acto, desempenhada por cinco meninas.
         Uma delas é a dona da casa e faz de senhora; outra desempenha o cargo de creada e que à porta recebe as visitas. Entram sucessivamente três visitas que são anunciadas pela creada, pouco satisfeita com a brincadeira porque também quer ser Senhora como as outras. Trocam impressões sôbre o tempo, falam dos seus haveres, das suas reuniões elegantes, das suas preocupações, tudo isto com uma graça extraordinária, e põe termo à cena a pequenita vestida de creada que, não podendo resignar-se mais com o papel que as companheiras lhe distribuiram, apresenta-se à patroa a pedir... o seu ordenado, pois quer ir para a terra.
         Foi uma cena desempenhada com bastante graça, o melhor que é lícito esperar-se de creanças, e que arrancou fartos aplausos à assistência.
         Sucedeu-se-lhe um drama muito interessante, “Amor de Pai”, em que tomaram parte cinco rapazes.
         Heitor da Silveira, interpretado por António d’Oliveira Cordeiro, é um rapaz boémio de vida talvez duvidosa, jogador de profissão, sem escrúpulos de consciência, alma de fé perdida que procura arrastar para o torvelinho das loucuras humanas e da vida desregrada a Lucio, filho do General Castro, interpretado por Constantino Migueis Fadigas.
         Trava-se entre os dois vivo diálogo sôbre a existência da alma e de Deus. Lucio tem fé, porque seu pai é crente e lh’a incutiu, e porque tem fé teme a Deus, receia ofendê-lo e sente repugnância pela vida a que quer arrastá-lo o seu companheiro.
         Entram depois no palco o General Castro (José Maria de Carvalho), figura de militar da velha guarda de el-rei, acompanhado do Brigadeiro (António Simões Baltazar), que falam das gloriosas façanhas do passado. Vem depois o creado (Constantino Souto da Silva) com os jornais que trazem as últimas notícias e a narrativa dum crime cometido na estrada de Cintra. Mais tarde volta com uma carta que lhe notifica a prisão de Lucio, filho do General, por comprometido no atentado. Depois entra em cena o filho, que pede perdão ao velho General, cujos primeiros movimentos foram de repulsa pelo filho que envergonhou a sua farda e o seu nome honrado. Mas o filho, que a princípio se deixára levar pelas más companhias, não ajudára à prática do crime, arripiando o caminho a tempo e horas, e o Brigadeiro, velho amigo do General, averigua e justifica a inocencia de Lúcio e dela informa o General Castro, que abraça a ambos.
         Todos desempenharam bem.
         José Maria de Carvalho com muita naturalidade representou e traduziu irrepreensivelmente na fisionomia, nos gestos, no olhar expressivo, na voz languida e triste o General Castro, revelando muita habilidade para êste género de teatro.
         António Cordeiro, parece que estava talhado para o seu papel; era duma comprovada naturalidade.
         Constantino Souto da Silva, no papel de creado, assentavam-lhe bem as suiças e desempenhou bem.
         O mesmo dizemos de António Simões de Baltazar, Brigadeiro, que se houve melhor na comédia “Valentes e medrosos”.
         Constantino Migueis Fadigas representou a mêdo; entretanto foi bom para comêço.
         Todos foram muito aplaudidos.
         Após um pequeno intervalo, aparece “Um chaufeur desastrado”. É um pequeno que se aproveita do sôno do pai para dar um passeio de automovel. Para isso convida um companheiro que não aceita o convite, mas não desiste do seu temerário intento e lá vai estrada fóra, aos zig-zags, atropelando aqui um apregoador de flores, ali um vendedor de pasteis e mais adiante um limpa-chaminés. Os dois primeiros nada sofreram; apenas perderam pela rua as flores e os pasteis e vieram pedir indemnisação, que lhe foram pagas. O último é que sofreu forte contusão num quadril e, cheio de dores, com a cara enfarruscada, vem pedir dinheiro para comprar essencia de terebentina para umas fricções. O chaufeur desastrado recusa dar dinheiro a prontifica-se a fazer umas massagens. Começou a operação auxiliado pelo seu companheiro, e dentro em pouco estavam ambos enfarruscados, protestanto nunca mais quererem nada com gente que traz o corpo sujo. Todos disseram com muita piada.
         Por fim veio a comédia “Valentes e medrosos”, que fez rir a bandeiras despregadas.
         Pantaleão (António Simões Baltazar) é um provinciano barrigudo que vive só para comer e beber. Como é rico vai à cidade e assiste a uma tourada. Ele, que não percebe nada destas coisas, discute com Ramalho (José Maria de Carvalho) uma péga; travam-se de razões, armam zaragata, batem-se e acabam por combinar um duelo, trocando entre si as moradas. Entretanto cada qual procura mudar de casa o mais depressa possivel.
         Clemente (António Cordeiro) consegue alugar casa na cidade, onde fixa residencia e onde tem o seu emprêgo. Por sua vez subloca e aluga quartos.
         Pantaleão dirige-se-lhe e aluga-lhe um quarto cuja renda paga adeantadamente, e põe-no ao facto do que se passa. Do mesmo modo Ramalho vai também alugar uma dependência da mesma casa, e eis que os dois inimigos irredutiveis vivem paredes-meias. Ambos se deitam. De noite Pantaleão levanta-se excitado pela questão que tivera na véspera, atravessa o compartimento do seu rival, ouve ressonar, e às apalpadelas encontra o seu inimigo Ramalho que, deitado num canapé, sofre um pezadelo. Há barulho e o dono da casa traz um candieiro para ver de que se trata. Nesta altura reconhecem-se, engalfinham-se um no outro e jogam o sopápo. Pantaleão barrigudo cai sôbre Ramalho deixando-o quási esborrachado. Intervem Clemente, que dá a cada um uma espada para se baterem em duelo e, retirando-lhes a luz, deixa-os completamente às escuras. Começam então a procurar-se, enfiando as espadas pelos moveis que caem com estrondo.
         O creado (Constantino Silva) supõe tratar-se duma invasão de ladrões e munido duma vassoura vem às escuras distribuir vassouradas a êsmo. Ambos apanham. Nisto chega Clemente de vela na mão e consegue que aqueles desavindos façam as pazes. Continúam a viver na mesma casa, mas para isso o creado, de vassoura em punho, previne que é preciso ter juizo!
         Foi uma cena muito engraçada. Saíu-se muito bem o Baltazar que revelou habilidade para representações cómicas. José Maria é um rapaz sério de mais para cenas desta natureza. Cordeiro teve naturalidade mas foi pouco original. Constantino Silva houve-se sempre com muita naturalidade no seu papel de creado. Todos muito bem.
         O espectáculo terminou como principiára – pelo hino, entoado pelos pequenos da escola.
         Resta-nos uma referencia especial para uma figura que não entrou em cena mas orientou os entrechos.
         O sr. Raul Martins, sargento do 20 desta cidade, foi quem desinteressadamente ensaiou as várias peças e serviu de ponto nêste divertido espectáculo, cabendo-lhe por isso tôdos os encómios, e sendo bem merecidos os aplausos que a plateia lhe rendeu quando o obrigou a vir ao palco. Teve decerto muito trabalho com o ensaio de todos, sobretudo dos miudos, mas os seus esforços foram coroados de bom êxito. Felicitamo-lo.
         Os cenários eram da auctoria do nosso amigo Reitor de Montemor, sr. Padre Nunes Pereira, outra alma de artista que se tem dedicado ao desenho à pena. Já publicámos trabalhos seus no número especial de Verride.
         A impressão que colhemos e que nos ficou esta parte do programa da inauguração do Grémio, foi a melhor possível.
         Fazemos votos para que o “Grémio” progrida, levando à cena sòmente peças moralisadoras, que visem a recrear o espírito sem ofender a Deus e perverter as almas.
         Sessão solene – Como é natural, a parte das festas do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense que mais entusiásmo despertou, foi a sessão solene.
         Não é porque o espectáculo não agradasse ou fôsse pouco concorrido. Das linhas que acima ficam, claramente se deduz o contrário, isto é, que o espectáculo oferecido por esta colectividade aos seus numerosos convidados, resultou deveras interessante e concorridissimo por pessoas de Tavarede e da Figueira.
         Mas a sessão solene, pela categoria dos oradores inscritos, pelo dia e hora a que ia realizar-se, estava reservada para fechar com chave de ouro as festas do Grémio.
         Assim aconteceu.
         Pouco depois da hora aprazada, começaram a chegar automoveis da Figueira que conduziam algumas das pessoas mais distintas e representativas desta cidade, muitas pessoas que daqui foram a pé e os sócios do Grémio com suas familias.
         Dentro de pouco tempo, o salão, que é bastante grande e que foi muito embelezado, estava repleto, aguardando-se apenas a chegada da orquestra.
         Entretanto, nós iamos aproveitando o tempo a tomar nota, ao acaso, dalgumas das pessoas mais distintas que se encontravam entre a assistência.
         Senhoras: D. Rita Juzarte Santos, D. Caetana Laidley Costa, D. Clotilde C. de Sousa, D. Maria Manuelna Camolino de Sousa, D. Alice Camolino de Sousa, D. Celeste Maria de Melo Mendes, D. Celeste Mendes, D. Gloria Soares d’Oliveira, D. Maria de Lourdes Mendes Deniz da Fonseca, D. Greta Scheibe, D. Alda Ferreira d’Almeida, D. Maria da Conceição Loureiro, D. Maria do Carmo Juzarte Santos, D. Maria da Cruz e Costa, D. Josefina da Cruz e Costa, D. Ofélia da Cruz e Costa, D. Guilhermina Rodrigues Cordeiro d’Oliveira, D. Hercilia Melo da Costa Ramos, D. Maria da Conceição Palrinhas, D. Ricarda Moniz, etc. etc.
         Cavalheiros: Srs. Dr. António Sotero, Dr. Canavarro de Valadares, Fernando Mendes, Capitão Manuel Nunes d’Oliveira, Dr. Mendes Pinheiro, Tenente Coronel Bemfeito, António Ramos Pinto, Mosenhor José Duarte Dias d’Andrade, Dr. Cesar Freire Falcão, Capitão Aguiar de Loureiro, P.e Augusto Nunes Loureiro, P.e Abilio Costa, P.e José Lourenço dos Santos Palrinhas, P.e Alfredo de Melo Abrantes Couto, P.e José Martins da Cruz Deniz, Ezequiel Leite Coelho Forte, António Simões, António Victor Guerra, Raul Martins, Capitão Mourinha, Joaquim Gomes d’Almeida, Francisco Martins Cardoso, Carlos Aguiar de Loureiro, Manuel Figueiredo Maia, etc., etc.
         Assim que chegou, a orquestra tocou o hino do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense, que foi ouvido de pé e com o maior respeito, por toda a numerosa e selecta assistencia, e o sr. Dr. Cesar Freire Falcão, já no palco, lê, na qualidade de presidente da Assembleia Geral desta colectividade, alguns artigos dos estatutos do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense, que expressam os seus fins.
         Lê em seguida os nomes dos seus actuais corpos gerentes, que vão tomando lugar no palco, e convida a presidir àquela sessão solene, Monsenhor José Duarte Dias d’Andrade, antigo senador católico, Director do Colégio Liceu Figueirense e um dos membros mais categorizados do clero português.
         Uma prolongada salva de palmas aplaude o convite do sr. Dr. Falcão, e Monsenhor Andrade, depois de ocupar o seu lugar, convida para junto de si os srs. Dr. Mendes Pinheiro, Dr. António Sotero, Capitão Manuel Nunes d’Oliveira, Tenente Coronel Bemfeito e Dr. Canavarro de Valadares.
         Constituida a mesa, o sr. Capitão Manuel Nunes de Oliveira procedeu à leitura do expediente.
         Agradeceram os convites que haviam recebido e felicitaram o Grémio Educativo e Instrução Tavaredense, as seguintes entidades e colectividades:
         Bombeiros Voluntários da Figueira, Rui Fernandes Martins, António Augusto Esteves, Sociedade Boa União Alhadense, Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, Filarmónica Figueirense, Grémio Instrução União Caceirense, Troupe Recreativa Brenhense, Sporting Clube Figueirense, Grupo Instrução e Sport, Grupo Musical Tavaredense, Sociedade de Instrução Tavaredense, Associação Naval 1º de Maio, Camara Municipal da Figueira, Administração do Concelho, Ateneu Alhadense, Associação de Classe dos Empregados no Comercio e Industria Figueirense e Associação dos Carpinteiros Figueirenses.
         Discursos – Foi dada a palavra ao orador inscrito, sr. Dr. Cesar Freire Falcão.
         O sr. Dr. Falcão, não obstante o seu curso tirado com brilho e distinção numa Universidade de Roma e a sua já longa vida de professor dos mais distintos e trabalhadores, é um espírito requintadamente modesto que vive na Figueira há doze anos, quási só para o estudo e para o ensino, motivo porque, certamente, por muitos dos nossos leitores não será ainda conhecido. Isso não impede que, neste momento em que a vaidade parece ser o degrau escolhido para tantos subirem na vida, lhe rendamos as homenagens sinceras da nossa particular estima e apreço pela sua nobreza de caracter, pelo seu talento e pela sua modéstia.
         O sr. Dr. Falcão começa por dizer que é na qualidade de presidente provisorio da Assembleia Geral que lhe cabe a honra de, em primeiro lugar, cumprimentar, em nome do Grémio, as autoridades religiosas e civis de Portugal e nomeadamente as deste concelho; saudar jubilosamente todas as colectividades daquela freguesia e pela ordem da sua antiguidade: Sociedade de Instrução Tavaredense, Grupo Musical e Instrução Tavaredense, Grupo Musical Carritense e Gremio de Instrução Caceirense, às quais, afirma, a nova associação, agora fundada, garante a melhor camaradagem e absoluta lealdade.
         Agradece em seguida a comparência das pessoas presentes, convencido de que vieram não tanto por mera curiosidade ou simples passa-tempo, mas antes pelo desejo de manifestar interesse, apoiando com carinho uma obra que aos católicos se afigura duma extraordinária utilidade social.
         O orador aborda, em seguida, para explicar os fins daquela colectividade, o movimento e o assunto da instrução e educação.
         Analisa rapidamente o estado actual da sociedade e diz que o Gremio tem nos seus estatutos um programa bem claro e uma atitude perfeitamente definida: pretende educar e pretende instruir.
         Refere-se às vantagens da instrução de que ninguem já hoje deixa de reconhecer e prossegue na defesa da educação sempre aliada à instrução, em termos como êstes: mas longe vai o tempo em que se julgava que a instrução era tudo e o resto quási nada; aquele tempo em que se tomava como axiomática a célebre frase de Vitor Hugo: “abrir uma escola é encerrar uma prisão”. Têm, na verdade, sido abertas, nos últimos dois séculos, milhares, talvez milhões de escolas em todo o mundo, mas infelizmente, ao lado delas continuam abertas as prisões.
         E parece até observar-se um fenómeno, á primeira vista, paradoxal.
         Á medida que o progresso avança, que quási toda a população se instrue, que a ciência constantemente nos assombra e deslumbra com as maravilhas das suas portentosas descobertas, nós constatamos que o bem-estar da humanidade, a tranquilidade das nações, a paz entre os homens são um sonho cada vez mais distante.
         Porquê? – pergunta o ilustre orador, e continua logo fazendo a apologia da educação e do ensino religioso.
         Com a autoridade que lhe conferem quási vinte anos de professorado, afirma que a escola neutra é impossivel e aconselha os católicos a cumprirem o dever de auxiliar as suas escolas, no numero das quais está o Grémio Educativo e Instrução Tavaredense.
         Termina exortando os católicos a unirem fileiras em volta do pároco daquela freguesia e a lutarem por meios pacíficos, que foram os preferidos pelo Divino Mestre, pela recristianização dos povos.
         O sr. Dr. Falcão foi muito ovacionado e cumprimentado no fim do seu brilhante discurso.
         Seguiu-se-lhe no uso da palavra o segundo orador inscrito e anunciado, sr. Carlos Aguiar de Loureiro, professor e estudante do 5º ano de Direito. Alma aberta e franca a tudo que possa contribuir para a felicidade, rejuvenescimento e recristianização da sociedade, não esquecendo que o pior mal da nossa época é o egoismo e a falta duma solida educação, Carlos Loureiro é um jovem que tem sabido aproveitar para si e para distribuir pelos outros, as muitas lições e exemplos que o mundo oferece constantemente aos espíritos observadores e sequiosos da verdade.
         Moço talentoso e artista, para quem a vida não corre certamente como um mar de rosas, Carlos Loureiro vive intensamente a sua Fé e cultiva a virtude, não sem sacrificio e desinteresse.
         Apesar de não ser de todo desconhecido para os nossos leitores, pois varias vezes nos tem mimoseado com a sua colaboração, não podiamos deixar de o apresentar àqueles que porventura ainda o não conheçam, ao menos com as palavras simples e merecidas que acima lhe dedicamos. E porque o discurso que leu no preterito domingo, em Tavarede, é muito interessante sob todos os aspectos, não nos limitaremos a dar umas notas ou resumo dele, mas antes começaremos noutro lugar, a sua publicação na integra, com a certexa antecipada de que ninguem dará por mal empregado o tempo e o espaço.
         Depois do sr. Carlos Loureiro, que viu o seu trabalho coroado com uma prolongada salva de palmas, usou da palavra o sr. P.e José Martins da Cruz Deniz, dignissimo Paroco de Tavarede e, como afirmou o sr. Dr. Falcão, alma mater do Grémio Educativo e Instrução Tavaredense.
         O sr. P.e Cruz Deniz desenvolveu largamente diante da numerosa e selecta assistência, que o escutava com vivo interesse, um assunto de magna importância e de flagrante actualidade, que cuidadosamente tinha preparado e estudado – O Perigo Bolchevista.
         O ilustre orador e distinto professor de Historia dividiu o seu trabalho em capítulos de documentação e apreciação dos acontecimentos na Russia sovietica, da sua politica interna e externa e da infiltração do bolchevismo em varios paises europeus.
         Afirma categoricamente que o bolchevismo russo é obra do judaísmo e que na Russia há, como no tempo dos Czares, duas classes distintas, correspondendo às antigas classes privilegiadas os judeus que têm colonizado a Russia, e ás classes oprimidas e escravizadas, todo o povo russo.
         O bolchevismo é o meio adoptado pelo judaísmo para destruir tudo o que possa recordar a civilização cristã, e para estabelecer em todo o mundo o sonhado imperialismo judaico.
         Analisando conscienciosa e detalhadamente a infiltração do bolchevismo em varios paises, citando factos e documentos, o sr. P.e Cruz Deniz combate a maçonaria que classifica de microbio do bolchevismo judaico e, referindo-se a Portugal, observa que as campanhas desencadeadas nos ultimos anos contra os padres e contra a Igreja, visam os mesmos fins já alcançados na Russia. Afirma que a Igreja, em Portugal, não é mais do que um capítulo da vida nacional, pelo que atacar a Igreja é atacar a Nação.
         No final do seu brilhante discurso, o sr. P.e Deniz foi muito cumprimentado e ovacionado.
         Levantou-se em seguida, para falar, o sr. Dr. Canavarro de Valadares, que, como já dissemos, fazia parte da mesa.
         Uma ansiosa espectativa invade então todas as pessoas presentes que reconhecem em S. Exª um advogado de vastos recursos e dotes oratórios.
         O ilustre causídico não esconde o entusiasmo que lhe despertaram na alma os discursos precedentes e irrompe em calorosos elogios e agradecimentos pelos momentos de prazer que lhe porporcionaram.
         Fala com eloquencia e arrebata, por vezes, entrando a breve trecho na historia de Tavarede, que, segundo afirma e demonstra, é tradicionalmente piedosa.
         Congratula-se, pois, por assistir à inauguração duma associação que muito contribuirá para que Tavarede, sobre que têm pairado as nuvens da descrença, volte à tradição e reviva o seu passado religioso.
         Dirige especiais cumprimentos a Monsenhor Andrade, a quem considera muito, não só por, como afirmou o sr. Dr. Falcão, ser um dos mais distintos ornamentos do clero português, mas tambem porque foi seu professor de Literatura, tendo-lhe dado a honra de o classificar como o melhor aluno do seu curso.
         Termina fazendo votos pelas prosperidades do Gremio Educativo e Instrução Tavaredense e pedindo a Deus que abençoe esta colectividade.
         Uma ruidosa salva de palmas traduziu o agrado da assistência.
         Como a hora já ia adiantada, Mosenhor Andrade fecha com chave de ouro a série de discursos daquela sessão tão solene.
         Agradece penhorado a honra que lhe dispensaram dando-lhe a presidencia da sessão, e espraia-se, em considerações sôbre a gravidade do momento que passa.
         Evoca o passado glorioso dos portugueses, para vincar como a historia da Igreja é em grande parte a historia de Portugal.
         Exprime tambem os seus votos pelas prosperidades da colectividade que acabava de ser inaugurada, e encerra a sessão por entre vibrantes aplausos e vivas ao Papa, a Portugal, ao Gremio, ao Prelado da Diocese, etc.
         Pela Direcção do Gremio foi enviado um telegrama de saudação ao senhor Bispo Conde.
         A Direcção da jovem colectividade Grémio Educativo e Instrução Tavaredense, ficou assim constituida:


João de Oliveira – Presidente da Direcção

         Direcção: - Presidente, João de Oliveira; vice-presidente, Manuel Borges de Miranda; 1º secretário, João Pereira; 2º secretário, José Maria de Carvalho; tesoureiro, Jacinto Pedro.
         Vogais efectivos: - Joaquim Rodrigues, António Luiz Mota e Manuel Clemente dos Santos.
         Vogais substitutos: - João Migueis Fadigas, Joaquim Saraiva e Joaquim Jorge da Silva.
         Conselho Fiscal: - Dr. Carlos Aguiar de Loureiro, Manuel da Silva Jordão e António Lopes.
         Conselho Fiscal substituto: - Capitão António Jacinto A. de Loureiro, José Rodrigues e José Vicente.

         Assembleia Geral: - Presidente, Dr. Cezar Freire Falcão; vice-presidente, Dr. José Luiz Mendes Pinheiro; 1º secretário, António de Oliveira Cordeiro; 2º secretário, Manuel Nogueira e Silva.

sábado, 26 de outubro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 46

Reconhecemos, à distância, que tal polémica não teve qualquer razão de existir. Foi o amor ao teatro que venceu. Não se sentindo bem na nova associação, talvez mesmo augurando-lhe um futuro muito efémero, escolheram o teatro do Terreiro onde todos tinham a consciência de que, com a sua colaboração, ganhava o teatro tavaredense. Ali iriam encontrar o tal ensaiador de ‘largos conhecimentos’, que muito influiu na sua actividade, triunfante durante tantas décadas. Esqueçamos, pois, tais polémicas e continuemos com o associativismo tavaredense.
         Em Novembro de 1931, o grupo teatral da Sociedade representou Os fidalgos da Casa Mourisca, uma adaptação do conhecido e popular romance de Júlio Dinis. Obteve um êxito fora do vulgar a representação da peça extraída do belo romance de Júlio Deniz, Os Fidalgos da Casa Mourisca. A escolha foi acertada, pois a peça está perfeitamente dentro do critério seguido pela Sociedade de Instrução Tavaredense, que só faz representar no seu teatro obras que contenham lição moral e educativa. É o caso dos Fidalgos: todos os seus actos são límpidos, sem a mancha dum só duplo sentido; nêles se exaltam as mais belas qualidades da alma, de faz a apologia do teatro como título de verdadeira nobreza, se combatem os privilégios de casta e defendem os principios liberais, com desgosto do egresso Frei Januário que em tôdas as manifestações de progresso moral e material vê a mão da Maçonaria. Magnífica lição que a Sociedade de
Instrução proporciona aos seus associados através dum divertimento espiritual de pouco mais de três horas!


            Os fidalgos da Casa Mourisca – Manuel Nogueira, António Graça e Violinda Medina

O desempenho, considerado como de amadores, é excelente, primoroso nalguns passos. Os papéis femininos foram entregues a três distintas amadoras: Violinda Medina e Silva, Emília Monteiro e Maria Teresa de Oliveira, que se houveram brilhantemente. Violinda fez a Baronesa de Souto Real com a vivacidade própria, sendo admiráveis a forma e as expressões irónicas nos diálogos com o padre. Muito bem! Emília Monteiro foi uma Berta delicada como no-la mostrou Júlio Deniz; algumas cenas com o orgulhoso D. Luís foram cheias de comoção, dominando o espectador. Maria Teresa interpretou a rude e bondosa Ana do Vedor de maneira que confirmou as suas qualidades já reveladas noutros papéis: é uma excelente característica. Nos papéis masculinos merece referência especial António Graça que fez o Frei Januário brilhantemente, entusiasmando as pessoas que conhecem e sabem apreciar teatro; foi sóbrio, correcto, sem caír em exagêros e ao mesmo tempo sem deixar perder um efeito, sabendo falar e sabendo ouvir admiravelmente. É um bom trabalho, do melhor que lhe temos visto fazer. António e Jaime Broeiro imterpretaram respectivamente o D. Luís – orgulhoso dos seus pergaminhos, fechado no seu espírito reaccionário e a final vencido pela ternura e dedicação dos corações que o cercam – e o Tomé da Póvoa, o homem do povo sempre leal, símbolo do trabalho e da honra. Fizeram-nos pondo à prova em papéis de tanta responsabilidade os seus recursos de bons amadores. Nos filhos do velho fidalgo vimos João Cascão (Maurício), exuberante onde era preciso, irreflectido, uma criança grande em quem a bondade faz esquecer os disparates que pratica, e Manuel Nogueira (Jorge), sereno e grave, reflectido na sua pouca idade e sabendo sacrificar as aspirações do coração ao que êle considera o seu dever de filho. Cascão é um amador seguro, articulando primorosamente, sem deixar perder uma palavra mesmo quando a situação exige uma dição precipitada. Manuel Nogueira merece um elogio especial pelo muito que conseguiu fazer, entrando e vencendo quási sempre as dificuldades do papel. Interpretava pela primeira vez uma personagem daquele género, e nunca lhe coubera outro de tanta responsabilidade. Vimo-lo com prazer aproveitando o máximo e correspondendo a quanto dêle era legítimo exigir. Figura simpática e distinta sem afectação, voz bem timbrada, deu-nos um Jorge como o viram quantos leram o romance. Nos fidalgos do Cruzeiro, A Santos e F Carvalho; João Nogueira no filho de Ana do Vedor; J Vigário e J Gaspar, em papéis de menor responsabilidade, todos ocuparam o devido lugar e fizeram um bom conjunto.
         Claro que houve hesitações, já atenuadas na segunda representação, e há ainda falhas; mas seria difícil que as não houvesse em amadores numa peça desta envergadura.
         A Sociedade de Instrução não poupou esforços e despesas para apresentar convenientemente esta formosa peça, e consegui-o, embora dispendendo importante quantia em guarda-roupa, cenários, etc.
         Felicitamo-la pelo êxito artístico alcançado e felicitamos o excelente grupo de amadores que tão brilhantemente se houve.

         E foi com esta peça que deram, tempo depois, um espectáculo em benefício dos cofres do Grupo Musical que, em Assembleia Geral de Outubro de 1932, exarou, na respectiva acta, um voto de reconhecimento pelo auxílio prestado. Foi, aliás, esta última a acta encontrada até 1936, não se encontrando também as actas da Direcção, em igual período.

         Para comemorar o 28º aniversário da sua fundação, a Sociedade, entre outros actos solenes, realizou um espectáculo de gala. Abriu a récita com a encantadora peça em 1 acto As Três Gerações, original do ilustre dramaturgo dr. Ramada Curto, que gentilmente autorizara a Sociedade de Instrução a representar esta sua obra. A peça tem três papéis – A Avó (Maria Teresa de Oliveira), A Filha (Violinda Medina e Silva) e A Neta (Guilhermina de Oliveira) – todos de grande responsabilidade. Carolina de Oliveira marcou bem a criada. O desempenho deixou a assistência admiravelmente impressionada. As palmas foram vibrantes e sucessivas ovações fizeram subiu o pano repetidas vezes. Foram notados os primores da montagem e o rigor das toilettes. Um acto de verdadeira arte, emfim.
         A 2ª parte foi constituída por um acto de recitativos, no qual tomaram parte os amadores: António Broeiro, Manuel Nogueira, Maria Teresa de Oliveira, António Santos, Emília Monteiro, João Cascão, Guilhermina Oliveira, Jaime Broeiro e António Graça, que disseram versos de autores portugueses e brasileiros, sendo todos justamente aplaudidos.

         E a récita fechou com a opereta A Herança do 103, desempenhada por Violinda Medina e Silva, José Silva, Manuel Nogueira e Pedro Medina. O desempenho fez rir os espectadores, que aplaudiram calorosamente os intérpretes. Foi especialmente notada a excelente voz de Violinda, que cantou primorosamente a sua parte, e em especial o dueto em que brilhou com Manuel Nogueira e que foi aplaudido com raro entusiasmo. Para o brilho do espectáculo contribuiu a excelente orquestra, sob a direcção do distinto amador sr. António Simões. Transcrevemos este retalho porque contém uma informação bastante curiosa: a opereta A herança do 103 foi representada precisamente pelos mesmos amadores que a haviam representado anteriormente no Grupo Musical.

sábado, 19 de outubro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 45

        Também nos merece uma referência, ainda que simples, mas estreitamente ligada ao nosso associativismo, para dizermos que, ensaiada pela actriz Ilda Stichini e em espectáculo em benefício à Misericórdia figueirense, foi levada à cena, no Parque, a peça O amigo Fritz, que teve a particularidade de ser representada, além daquela actriz, por amadores figueirenses, entre os quais José Ribeiro, que foi o protagonista. Ainda uma breve nota para uma nova associação desportiva, Sport Clube Tavaredense, realizadora de algumas provas ciclistas, mas que acabou por ter curta existência.
        
         Aproveitando a data da comemoração do seu 20º aniversário, o Grupo Musical inaugurou as suas novas instalações. Foram brilhantes as festas comemorativas do 20º. aniversário da fundação desta colectividade, que coincidiram com a inauguração das suas novas instalações na casa do Paço.
         Um entusiasmo grande animou todos os números do programa, cuja execução, pode dizer-se, pôs Tavarede em festa, festa a que jubilosamente se associou tôda a população tavaredense, com insignificantissimas excepções.
         O Grupo Musical entrou numa fase de desenvolvimento consciente, mostrando-se agora decidido a caminhar desembaraçadamente e com firmeza, escolhendo com decisão o caminho que quer seguir. Com um esfôrço enorme, admirável - e quando alguém poderia supor que o Grupo ia morrer ingloriamente e sem o confôrto dos sacramentos da Igreja - os rapazes do Grupo Musical conseguiram já reorganizar a sua tuna, agora constituida com muitos e valiosos elementos, e instalar-se na nova sede.
         Começaram as festas comemorativas no sábado à noite, com um baile. Uma enorme concorrência afluíu à sede do Grupo Musical, que tinha sido engalanada e apresentava um aspecto festivo. O baile realizou-se no salão, que se encheu de pares que dançaram animadamente até de madrugada ao som duma excelente orquestra.
         No domingo de madrugada a tuna fez a alvorada, percorrendo as ruas da povoação, enquanto estralejavam foguetes.
         Às 10 horas realizou-se o almôço de confraternização.
         A tuna saíu de novo à tarde, a cumprimentar os corpos gerentes, e pelas 17 horas realizou-se a sessão solene. Foi brilhante, sob todos os pontos de vista. Foram duas horas de alegria, de comoção e entusiasmo em que vibrou a população tavaredense, que enchia o salão. Havia também muitos convidados de fora, muitas pessoas da Figueira e representantes das associações do concelho. Uma assistência numerosa, que as salas não podiam comportar.
         Presidiu o sr. dr. José Cruz, secretariado pelos srs. Adalberto Simões de Carvalho, da Associação Naval e António Cordeiro, da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Após a leitura do numeroso expediente, foi dada posse aos corpos gerentes, assim constituidos:
         Assembleia Geral : Presidente, José da Silva Lopes; vice-presidente, José da Silva Cordeiro; 1º. secretário, Adriano Augusto da Silva; 2º. secretário, António Pedro de Carvalho.
         Direcção: Presidente, Fernando da Silva Ribeiro; vice-presidente, Faustino Ferreira; 1º. secretário, António Marques Lontro; 2º. secretário, João Renato Gaspar de Lemos; tesoureiro, José Nunes Medina. Vogais substitutos: Armando Amorim, José Maria Matias, César Figueiredo, José Severino dos Reis e Flaviano Pinto de Sousa.
         Conselho Fiscal: Efectivos: António Ferreira Jerónimo, António Migueis Fadigas e José Maria Gomes. Substitutos: Manuel Vigário, Manuel de Oliveira e Joaquim Severino dos Reis.
         A assistência saudou-os com muitas palmas, enquanto a tuna executava o seu hino.
         Logo a seguir propôs o sr. presidente um minuto de silêncio em homenagem à memória de José Medina, fundador do Grupo Musical Tavaredense. Tôda a assistência, se manteve de pé, em silêncio.
         E a sessão prosseguiu depois, com um entusiasmo que era bem visivel em todos os assistentes. Não nos é possível, por o jornal não dispôr de espaço para isso, dar um relato desenvolvido desta imponente sessão solene, em que proferiram discursos os srs. dr. Manuel Cruz, sargento-ajudante de artelharia Sanches, dr. Manuel Lontro Mariano, professor Rui Martins, José Ribeiro e dr. José Cruz, que encerrou a sessão entre ovações calorosas e repetidos vivas ao povo de Tavarede e ao Grupo Musical.
         Às 21 horas e meia deu-se início ao baile de gala, animadissimo como o da véspera. A meio do baile foram distribuidos os prémios aos vencedores das provas ciclistas organizadas pelo Sport Clube Tavaredense, que foram os srs. Ricardo Nunes Medina, do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, 1º. prémio - taça e medalha oferecidas pelo Sport Tavaredense e uma medalha oferecida pelo G.M.I.T., Abel Ladeiro, do União Alhadense, 2º. premio - medalha; e João Marques Cardoso, do Sport Clube Tavaredense, 3º. prémio - medalha. Foram saudados com muitas palmas.
         E as festas comemorativas do 20º. aniversário do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, terminaram de madrugada de segunda feira, deixando a todos as mais agradaveis impressões.

         E uma nova colectividade em Tavarede foi anunciada. Já não é nossa a novidade, bem o sabemos, que acaba de fundar-se uma nova colectividade, com o nome de Grémio Educativo de Instrução Tavaredense. Tavarede, desta maneira, avançou mais um pouco no progresso associativo.
         Há muito que se fazia sentir a falta duma escola nocturna, que funcionasse, regularmente, dirigida por gente competente e de sã moral, visto o número de rapazes novos ser elevadissimo, pois que sendo uma população pobre, na sua maioria operariado, não seria possível a frequência a outra escola que não seja a nocturna. Precisamente por isso é que afirmamos que a falta do Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, há muito se fazia sentir.
         E para complemento e prova cabal, temos o resultado dessa mesma escola, que, com uma frequência de 60 alunos, lá vai singrando, apta a honrar sobremaneira o nome dos seus méstres, P.e Cruz Diniz e Belarmino Pedro, e em especial o da nova colectividade.
        Para ocasião mais oportuna guardamos as nossas impressões, visto esta já ir longa.

         Não conseguimos encontrar qualquer cópia do estandarte, que sabemos ter sido desenhado pelo pintor António da Piedade ... aquela cruz de Cristo sustentando um livro – símbolo da instrução – é simplesmente um modelo de arte e bom gosto, nem do emblema do Grémio Educativo.  Mas, de imediato, um outro problema surgiu. A nova colectividade continuou com a actividade teatral, ali se mantendo alguns amadores e o ensaiador. Enquanto alguns amadores da antiga secção dramática do Grupo tomaram a decisão de abandonar o palco, outros resolveram ingressar no teatro da Sociedade. Tem sido bastante censurado o facto de vários amadores do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, se prestarem a fazer parte do Grupo Cénico da Sociedade de Cima.
         É deveras lamentavel tal atitude, que só revela o pouco amor associativo e a pouca consideração pelas lutas antagónicas de há 19 anos! E viva a fraternidade! Pois se Zé Medina revivesse seria o primeiro a apertar-lhe as... mãos e certamente a dizer-lhe muito obrigado...
         Tambem não foi levado, em boa conta um celebérrimo telegrama inserto nas colunas do orgão maçónico. A ser verdade o que me informam é caso para perguntar: O que quererá dizer aquilo? Pois que naquelas colunas não havia guarida, para uma só linha do seu signatário, visto que as combateu durante bastantes anos, não só neste jornal mas principalmente da extinta Gazeta da Figueira?! E viva o liberalismo...

         Iniciou-se uma polémica lamentável, travada a propósito desta mudança. Vamos dar um pequeno exemplo, transcrevendo um pedaço de uma carta enviada para um jornal figueirense, por um amador do Grupo quem havia pouco tempo, se mudara para a capital. Foi, com o maior prazer, que vi assumir novamente o nome de Tavarede - minha terra natal - nas colunas do Figueirense” - baluarte digno dêste nome, - cujas correspondências são assinadas pelo sr. “Tóni”, para mim desconhecido, é certo, mas o que não impede de o felicitar pelas acertadas palavras que na sua correspondência de 23-10-931, dirigiu ao brio de certos cavalheiros que, esquecendo-se do amôr que durante longo tempo existiu - ou parecia existir - pelo Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, se deixaram agora arrastar pelo canto da sereia que ha muito os cubiçava.
         E porque não existe ainda êsse amôr e respeito pelos princípios daquela Associação que tanto levantou o nome de Tavarede? Não serão os mesmos homens de outrora? Decerto que são. O que talvez não existe, é o carácter de uns e a vergonha de outros. Ou será efeito dos desejos da S.D.N. para a realização da Paz entre os homens? Que falta de pundonor! Como todos se devem rir na sua ausência.

         Sr Tóni, não há melhor testemunha que o jornal para tempos futuros. Por tal motivo, sou de parecer que os nomes dêsses cavalheiros, que se diziam “Grupistas”, e que a Sociedade era uma sombra má... e muito mais, que se lhes deparava a todo o momento, sejam publicados numa das suas correspondências, assim que êles aderirem à Sociedade, para que os tavaredenses que mourejam o pão nosso de cada dia, longe da sua terra, façam um juizo dêsses “Grupistas ferrenhos”.

sábado, 12 de outubro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 44

        Um outro acontecimento digno de ser recordado nestas histórias, aconteceu no dia 22 de Julho de 1931. O grupo cénico da Sociedade de Instrução foi ao Parque Cine colaborar na festa anual do Jardim Escola figueirense. ... E seguiu-se a reprentação da fantasia A Cigarra e a Formiga, pelo modesto e simpático grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Todos foram calorosamente aplaudidos, como era de justiça. No 1º acto houve a nota de arte culminante daquela noite de festa: Ilda Stichini disse primorosamente, com o seu formoso talento, e as suas poderosas faculdades de interpretação, A Fantasia e O Riso, belos versos dum artista de pintura que é também um distinto poeta – Alberto de Lacerda. Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida do público figueirense. Os versos da Fantasia disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do Riso, que Alberto de Lacerda escrevera expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que o ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido. Parecia que as palmas não acabavam mais, num desejo irreprimível de ouvir de novo a música arrebatadora daquela voz.

         Com a mudança da sede, o Grupo Musical viu-se sem condições para continuar com o teatro e a sua tuna desorganizou-se. Foi numa reunião em Agosto, que os sócios da colectividade resolveram regorganizar a tuna, nomeando para seu regente José Francizco da Silva, conseguindo de imediato a inscrição de 35 elementos e já actuando nas habituais festas de verão, tocando num pavilhão montado no Largo do Paço.

         Em Agosto de 1931, encontrámos a seguinte nota, publicada num jornal figueirense: Como êste jornal já noticiou, foi grande a concorrência aos festejos populares aqui realizados. No Largo do Paço tocou a Tuna de Tavarede e no Largo do Forno a Tuna de Caceira.
         A nota mais curiosa dos festejos deu-a o padre da freguesia, que deve ter ficado definitivamente elucidado àcêrca do prestígio de que goza nesta localidade. Realizavam-se na mesma ocasião festas religiosas que, como é hábito desta população ordeira, ninguém perturbou. O padre, talvez porque não conhecia bem os tavaredenses, cometeu a leviandade de afirmar que não consentia que em Tavarede se realizassem os costumados ranchos na véspera da cerimónia religiosa. Os rapazes da tuna de Caceira submeteram-se, e anunciaram as suas danças só para domingo à tarde; em Tavarede, porém, ninguém quis saber do que dissera o padre, não ligando a menor importância às suas fanfarronadas e ameaças de excomunhão e parecidas coisas, e a tuna de Tavarede organizou o seu festival para sábado e domingo. O padre empregou todos os seus esforços para evitar isso, pedindo e ameaçando, mas nada conseguiu. De modo que... não teve outro remédio senão dizer aos rapazes de Caceira que fizessem também festival no sábado. Isto foi motivo de gargalhada, porque ninguém pôde perceber como é que as leis da Igreja não permitiam que a tuna de Caceira tocasse na véspera da festa religiosa, e, depois de se conhecer a deliberação da tuna de Tavarede, que se não importou para nada com as absurdas e abusivas determinações do padre, já o permitiam.
         Se o padre tratasse apenas do que vai pela igreja, sem querer emiscuir-se em assuntos a que não o chamaram, não se sujeitava a estes desastres.

         Continuavam, desta forma, as interferências da Igreja nas tradições da aldeia e, por consequência, do associativismo local. E, nesse mesmo jornal, também foi publicada esta nota:         Mais uma manobra do padre da freguesia, ajudado pelas duas ou três pessoas da terra que o acompanham, que falhou estrondosamente. Encaminhavam-se as coisas para que o padre, com 20 e tantos contos que para isso lhe entregavam – a Igreja é rica e dinheiro foi coisa que nunca faltou aos jesuítas – comprasse o edifício da sede do Grupo Musical, continuando êste ali a servir de instrumento nas mãos do clericalismo. Descoberta a manobra, a assembleia geral do Grupo que se não deixou conduzir como imbecilmente supunham que era fácil conseguir, repeliu altivamente a manobra e abandonou a casa, mantendo a sua independência e colocando a descoberto e no seu lugar o padre e os sacristães. A casa foi efectivamente comprada, e nele gastará o padre uns bons 30 contos – o que não é nada para quem de tanto dispõe – mas já não é possível qualquer equívoco porque tôda a gente sabe para que aquilo vem a ser.

         Analisando todos estes acontecimentos, uma interrogação nos surge: O Grupo Musical havia sido forçado a mudar de sede e, tendo o direito de opção, o edifício foi vendido à Diocese de Coimbra, aparentemente sem qualquer lucro, e os sócios da colecrtividade aceitaram passivamente a transacção? O que se pode concluir de tudo isto é que, como em breve veremos, o padre Cruz Dinis conseguiu o que desejava.