sábado, 25 de janeiro de 2014

O Associativismo na Terra do imonete - 60

Foi em Maio de 1944, com as peças O grande industrial e A nossa casa, com a receita a reverter em benefício da Casa dos Pobres de Tomar.

 O grupo cénico da SIT, em Tomar
  
         O Grupo Musical realizava, com frequência, animadas e concorridas festas dançantes, na sua sede, e o seu ‘Jazz’ privativo continuava com actuação em diversas localidades. Na Sociedade, iniciou-se os ensaios de uma nova peça, Horizonte. O seu autor, Manuel Frederico Pressler, veio assistir a uma representação, tendo tido palavras de muito elogio para a colectividade tavaredense. A propósito desta peça, a Direcção, no seu relatório anual, escreveu o seguinte apontamento: Reconhecimento - ..... uma especial referência ao exmo. sr. Manuel Frederico Pressler, cumprindo-nos o grato dever de levar ao conhecimento de todos os consócios que, além de lhe ficarmos a dever uma peça admirável como é o “Horizonte”, que mais veio enriquecer o nosso repertório, devemos-lhe, também, a cedência, em proveito do nosso fundo de obras, dos seus direitos de autor, que impôs como condição teríamos de receber mesmo nos espectáculos dados por nós em prol de instituições de assistência..... reconhecimento sincero que já uma vez tivemos o prazer de lhe testemunhar, convidando-o para assistir a um jantar que lhe dedicámos, na nossa sede, e a que nos deu a honra de assistir, tendo este decorrido num ambiente de franca cordialidade, de maneira a deixar todos satisfeitos”.

         O ilustre dramaturgo respondeu “... agradecer as palavras tão gentis exaradas no vosso relatório e a grande honra que me fizeram nomeando-me Sócio Honorário dessa prestimosa Colectividade. Mais uma vez quero afirmar o prazer que tive em que “Horizonte” fosse representado pelo vosso Grupo Dramático que, em todas as representações desta peça, actuou de maneira notável. Quanto à cedência dos direitos, nada há a agradecer-me. Servindo a Sociedade de Instrução Tavaredense, mesmo modestamente como fiz, prestei um serviço ao Teatro português; e, se o Teatro é a vossa causa, é também a minha causa.

         Setembro de 1945. O grupo da SIT tem mais uma deslocação, desta vez a Sintra, para repreesentar, em Colares, duas das peças do seu enorme reportório, Horizonte e A nossa casa. Como temos feito anteriormente, aqui vamos copiar uma das notícias relativas a esta visita, embora esta seja um pouco mais longa. Foi publicada no Jornal de Sintra. É sempre missão ingrata fazer a crítica desta ou daquela obra, desta ou daquela representação.
         Ingrata, não por se ir de encontro à justiça da crítica, mas porque ela não agrada, muitas vezes, aos próprios artistas.
         Quando se trata, então, da crítica de artistas amadores – Deus dos céus! – a tarefa não é só missão ingrata, como até perigosa… pois ela, se não agrada ao presumido artista, revolta e faz delirar os papás, as mamãs, a noiva ou o noivo, as titis, os primos, o companheiro de café e não sei mesmo se o angorá nos olha também desconfiado… só podendo o crítico desejar-lhes que a consciência os acalme. Outras vezes há – e agora é altura – em que o crítico se sente embaraçado, não porque os vá ferir, com justiça, mas sim por não encontrar palavras no seu vocabulário que sirvam para vincar bem quanto de boa arte são possuidores, como por exemplo alguns Artistas de Tavarede.
         No passado sábado, dia 29, descemos ao vale de Colares e no risonho teatrinho da Banda de Colares assistimos à representação da peça “Horizonte”, do dramaturgo Pressler.
         Assistimos, sim, à Representação, com R muito grande, de uma boa peça, em que o valor dos artistas a honra e não a desmerece.
         Violinda Medina, a Rita, é grande, é muito grande, mesmo, em qualquer palco do País.
         A sua arte de dizer e de representar chega, por vezes, a deixar-nos perplexos e na hesitação de se tratar de uma artista amadora ou de uma Ângela, de uma Rosa Damasceno, de uma Lucinda, de uma Adelina ou de uma Maria Matos.
         A sua genial vocação está muito além, para que a possamos admirar e apreciar apenas como uma boa amadora.
         Violinda Medina é uma artista que vive, sente, sofre, chora e ri, conforme os papéis que interpreta.
         Pode, afoitamente, afirmar-se que é uma grande artista na arte de representar.
         O outro personagem a quem nos queremos referir é João Cascão, o Manuel Firmino, cem por cento artista de grande mérito. No 2º. acto da peça teve, com a Rita, uma “tirada” que atingiu as culminâncias da Arte de representar, como ainda só nos foi dado ver aos maiores actores portugueses.
         O extraordinário vigor e sábia interpretação, fá-lo considerar um explêndido artista do teatro nacional.
         Nos outros personagens, Maria Tereza de Oliveira, Maria Aurélia Ribeiro, Fernando Severino dos Reis, António Jorge da Silva, todos, numa palavra, estiveram à altura dos papéis que representaram.
         Na encenação, estava tudo no seu lugar. Nada faltou, nem mesmo os pequeninos pormenores, aliás desculpáveis, mas que valem muito quando não são esquecidos.
         Para o ensaiador – e os últimos são, como agora, os primeiros – vão todos os elogios que merecidamente se lhe podem dar, sem sombra de favor, pois se não fosse o que já dele conhecemos, José Ribeiro, neste espectáculo, identificava-se.
         José  Ribeiro é a alma, a vida, é o génio de todo o Grupo Dramático de Tavarede. A ele se deve, como nos foi dado constatar, esta feliz noite na arte de Molière.

         Ainda pelo explêndido grupo de Tavarede, assistimos à representação da filosófica e boa peça de George Mitchel – A Nossa Casa, - cujo autor só a dedicaria a grandes actores e por isso não poderia melhor ter sido entregue, do que à interpretação feita por João da Silva Cascão, o Bonardon, e Violinda Medina, a Mariana, discípulos brilhantes de José Ribeiro.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete 59

      Depois de novas idas a Coimbra e a Tomar, coube à Sociedade Filarmónica Gualdim Pais atribuir à colectividade do Terreiro o diploma de sócio honorário. ....... atitudes como a vossa, deslumbram-nos; servindo de Exemplo do melhor e bem dignos de seguir, porquanto se nos depara surpreendente, pelo trabalho árduo e vivificador, cheio de beleza e sentimento de Arte Humana pela Vida, e de Vida pela Arte. Maravilhosa concepção esta, dum forte espírito disciplinado e criador, nas pessoas de todos os componentes do Grupo, e do eloquente e incontestados mérito e inteligência do nosso querido Amigo, José da Silva Ribeiro, que tão proficientemente sabe cimentar, mesmo no mais rude elemento, os melhores e salutares princípios de Solidariedade.

         Por ocasião das comemorações do 40º aniversário, um jornal de Coimbra, relatando os festejos, insere esta nota. A Sociedade de Instrução Tavaredense, com sede na vizinha freguesia de Tavarede, cuja acção beneficente é bem conhecida, acaba de solenizar festivamente o seu 40º aniversário de fundação, facto a que deu lugar a referir-nos, ainda que ligeiramente, a tão prestante colectividade, muito da nossa simpatia.
         Ao relatarmos o que foram as suas festas comemorativas, não podíamos deixar de focar nesta pequena e simples crónica um pouco da sua benemérita obra.
         Dos muitos serviços prestados durante a sua longa existência aos respectivos associados, justo se torna destacarmos a sua acção filantrópica espalhada com o seu bem organizado grupo cénico, - sem contestação, - um dos melhores da província, - arte que devotadamente vem cultivando, - e com a qual vem espalhando, de há anos a esta parte, por terras de norte e sul do país, uma vasta obra beneficente a favor de tantas instituições de caridade.
         Não falando nos anos anteriores, o ano que findou, não foi dos de maior actividade, isto por circunstâncias alheias à vontade do seu incansável ensaiador. Todavia, durante o ano de 1943, além das representações na Figueira e Buarcos, o seu grupo cénico conseguiu deslocar-se a Tomar, onde realizou duas récitas. A Pombal, tempo, deslocou-se por duas vezes, dando, de cada vez, duas récitas de beneficência.
         Assim, pois, de cada vez que batem à porta desta benemérita sociedade, solicitando a sua cooperação em actos de benemerência, a resposta do ensaiador do grupo cénico, desse teimoso e infatigável amigo dos desprotegidos da sorte – José Ribeiro – a sua resposta é sempre a mesma: - Podem contar connosco. Verdadeiro fanático pela sua colectividade e pela sua terra, nunca perde o ensejo de lutar e trabalhar pelo bom nome do seu grupo, pondo nisso o seu entusiasmo, todo o seu esforço e carinho, num labor pertinaz e constante, e de uma maneira que nada o desalenta ou esmorece; sempre pronto para todos os sacrifícios, José Ribeiro, tem sido um verdadeiro obreiro desinteressado e dedicado desta prestante Sociedade Tavaredense, que possui um conjunto artístico a todos os títulos valoroso - hoje bastante conhecido e considerado, pela colaboração desinteressada que vem prestando a obras de grande solidariedade humana, contando, por isso, na sua história, uma acção brilhantíssima.
         É grande a lista dos que têm sido socorridos, mas muito pequena ainda para o coração dos que teimam em continuar, com dedicação, na luta, trabalhando pelo bom nome da Sociedade de Instrução Tavaredense, orgulho de todos quantos por ela se esforçam no sentido de lhe dar ainda um maior desenvolvimento.
         Todos ali trabalham irmanados por um tocante espírito de solidariedade, resultando que, à custa de sacrifícios, a simpática colectividade constitua uma organização modelar no meio associativo.

         Quando o grupo cénico fez uma nova deslocação a Pombal, sofreram um enorme susto, pois no regresso e por interrupção de luz nos farois do veículo, este saíu fora do leitop da estrada, a pouca distância daquela vila, e tombou-se sobre uma das árvores das margens, a qual evitou uma queda de alguns metros de altura. Felizmente foi apenas o susto.

         Ao anunciar mais uma deslocação a Tomar, um jornal tomarense publicou uma notícia curiosa. Noutro dia ia eu na rua, preocupadíssimo com o facto de não me estampar nalguns dos numerosos montes de pedra ou nas covas que apresentam as ruas há uns tempos para cá, quando ouvi atrás de mim uma voz gritar:
         - Eh pá! Sabes quem vem cá?
         Eu voltei-me logo, na intensão ingénua de dizer que não sabia quem vinha cá. Mas logo ouvi outra voz que plagiava a minha resposta e, como sou um tipo esperto, deduzi como qualquer polícia amador que a conversa não era comigo.
         Disfarçadamente voltei-me para ver quem falava. Eram dois garotitos farrapões. Um estava a tirar rendimento dum banco da praça, cabeça tronco e membros a ocupar a apertada taboinha onde as pessoas sentam. O outro estava sentado ao pé do monumento do Gualdim e ocupava-se asseiadamente a limpar o nariz. Estava já disposto a seguir o meu caminho e teria sido bem bom para não estar agora a maçar os leitores, quando ouvi a mesma voz gritar:
         - São aqueles tipos, os de Tavarede. Eh pá, aquilo é que são actores. Vêm cá trabalhar para a gente. Quem me dera ir!
         O outro encolheu os ombros e começando a limpar com esmero o outro lado do nariz, berrou de cá, na linguagem de qualquer menina moderna:
         - Eu cá, não posso ir, estou teso. Ouvi dizer que são uns gajos bestiais. Lá a’nha avó diz que eles são muito bons, que vêm ganhar dinheiro para dar depois aos pobres. Aquilo é gente bem boa!
         Nesta altura da conversa, resolvi continuar o meu caminho. Mas as frases dos garotos  tinham-se-me metido na cabeça. Vêm cá trabalhar para a gente! Dissera o garoto. E realmente era verdade. Aquele grupo de artistas que à força de arte têm conquistado simpatia, admiração, por muita terra de Portugal, vêm cá de vez em quando a Tomar, salvar a crítica situação da Casa dos Pobres. E os pobres conhecem-nos, e estão-lhes agradecidos.
         Poderão dizer que “são uns tipos bestiais”, que a ideia da frase se eleva acima da rudeza da expressão.
         Bemvindos sejam por isso os tavaredenses.

         Os pobres são gratos para quem os acarinha. E até me dá vontade de chegar ao pé deles e dizer também como o farrapão: Apertem esses ossos. Vocês são uns tipos bestiais!

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 3

      De igual modo era a ocasião das mascaradas, que algumas vezes chegaram a ter intervenção das autoridades citadinas. As cavalhadas, com o seu sempre enorme acompanhamento, ia primeiro dar as habituais volta à Igreja, com a filarmónica contratada a tocar animadamente, enquanto os sinos repenicavam na torre, descia depois até à praça da Reboleira, actualmente 8 de Maio, seguindo até Buarcos, regressando a Tavarede após um descanso para recuperar forças. Era longo o percurso.
         Depois só encontramos uma pequena nota, no ano de 1876, referindo que “houve numerosa concorrência, principalmente de pessoas desta vila”. Mas, no ano seguinte, as festas já tiveram maior brilho. “Tavarede offerecia então um espectaculo curioso. Pela comprida rua da terra, illuminada por vistosos balões venezianos suspensos de arcadas vestidas de buxo, acotovelava-se a multidão; nos largos a gente dos campos, a boa gente alegre e de consciencia tranquilla, entregava-se ao prazer da dança, atroando os ares com as canções poeticas do santo popular.
         No adro da egreja queimou-se o fogo de artificio. Era de bonito effeito e bastante variado. A philarmonica figueirense executou bastantes peças do seu reportorio. Da Figueira foi a Tavarede n’aquella noite quasi toda a gente.
         No dia seguinte a bandeira veiu em peregrinação á Figueira e a Buarcos. Era digna de ver-se aquella pittoresca caravana, que apresentava os mais extravagantes contrastes. Vinha alli de tudo. A sobrecasaca urbana e o chapeu fino dos padrinhos, os trajos domingueiros das frescas moçoilas de Tavarede, os vestidos de phantasia dos mascarados, e a sordidez plebêa dos aldeãos. E na frente de tudo aquillo a gaita de folles e o classico zabumbas.
         De tarde a Figueira despovoou-se, e encheu de novo a grande rua de Tavarede com  o seu hig-life e com o seu exercito de raparigas novas e alegres. Passou-se por lá uma tarde magnifica. Nem o sol nem a poeira prejudicaram a festa. O primeiro escondeu-se entre as nuvens; á segunda veiu cortar-lhe os voos incommodos uma chuva fresca e pouco massadora”.
         Recordemos, um pouco, as cavalhadas, também chamado cortejo da bandeira. Esta era um enorme pendão que seguia na frente, transportada por um cavaleiro, o qual tinha dois cordões que eram segurados por cavaleiros, um da cada lado.
  A bandeira grande


Havia, normalmente, duas bandeiras: a grande, que abria o cortejo, e a pequena, que seguia mais ou menos ao meio. As bandeiras de Tavarede, segundo se lê numa acta da Junta da Paróquia, tinham sido oferecidas por Tomás José Duarte, o edificador do palacete dos Condados e pai de Emília Duarte, que casou com João José da Costa, grande benemérito da nossa terra.
As duas bandeiras, e ainda segundo a mesma acta paroquial, deveriam ficar à guarda da Junta, mas, todavia, ficavam confiadas à Igreja, onde os festeiros as iam buscar para integração no cortejo. Mas, num ano... em 1889, sendo então pároco em Tavarede o reverendo Nobreza, natural de Quiaios, que resolveu recusar as bandeiras em depósito. Houve muitos protestos, mas o pior é que as cavalhadas não se podiam realizar sem as bandeiras, que estavam devidamente benzidas. Os festeiros, imaginativos, resolveram o assunto de uma forma bastante curiosa: arranjaram outras bandeiras e como elas tinham de ser benzidas, levaram-nas escondidas à missa dominical. Chegado o momento da benção sacerdotal, levantaram as bandeiras que, desta forma ardilosa, foram benzidas, podendo ser utilizadas no cortejo.



Ensaio para o cortejo (Ontem, hoje e amanhã - SIT 1979
  
Havia sempre uma filarmónica contratada para abrilhantar as festas. Depois de acompanhar, em parte do percurso, o cortejo das bandeiras, realizava um concerto, com as músicas mais populares, no Largo da Igreja, onde se apinhava o povo, aproveitando muitos pares para uns momentos de dança. Mais tarde, as danças passaram a ter lugar nos Largos do Forno e do Paço, onde eram armados vistosos pavilhões.
Algumas vezes houve problemas, como, por exemplo, no ano de 1891, em que o cortejo, ao passar em Buarcos, um dos burros atirou ao chão uma velhota que assistia ao desfile e que ficou gravemente ferida ao bater com a cabeça no chão. Outras vezes eram as desordens, pois as merendas eram “regadas copiosamente com goladas co licor divino”...

         E, ano após ano, as festas sanjoaninas continuaram a realizar-se na nossa terra. A Figueira despovoava-se nestes dias, aproveitando os passeantes para um descanso e uma merenda saborosa, nos pinhais vizinhos da aldeia. Ainda mais uma notícia recolhida, esta do ano de 1892. “Na noite de sabbado, a rua principal da terra (quasi que diriamos unica) achava-se lindamente illuminada a balões venezianos, desde o Paço até á egreja, o que produzia magnifico effeito, realçado pela belleza e serenidade do ceu. Fogo do ar, excellente. A cada passo formavam-se danças populares e no coreto, á entrada da aldeia, tocou durante algumas horas a nossa magnifica phylarmonica Dez de Agosto. Como era d’esperar, affluencia compacta.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Tavarede - Um pouco da sua história

     Ao dar uma volta por antigos apontamentos, gravados em antigas disquetes, tenho encontrado muita coisa sobre a minha antiga terra. Em 1997 fui, atendendo um pedido de pessoa amiga, conversar um pouco à escola do Senhor da Arieira. Como nunca fui capaz de falar de improviso, escrevi um bocado sobre o que sabia da história de Tavarede. Se não interessar, o que julgo mais provável, ignorem esta conversa...

  Se fossem uns anitos mais novos, começaria a nossa conversa sobre Tavarede da seguinte maneira:
         “Era uma vez uma aldeia pequenina, muito linda e perfumada, que ficava situada perto da costa do mar e que em tempos muito antigos, ainda antes de haver reis em Portugal, já era uma terra muito importante...”
         E, na verdade, a história de Tavarede presta-se bastante a ser assemelhada a um daqueles contos de fadas de que tanto gostávamos de ouvir quando eramos pequeninos. Bastará dizer que até tem uma lenda, uma linda lenda, aliás, em que aparecem cavaleiros andantes e mouras encantadas, tendo uma delas, depois de quebrado o encantamento, sido levada para uma “terra aprazível, rica de plantas aromáticas, de cheiro rústico e agradável, persistente e suave...” Era, nada mais nada menos, do que a nossa terra do limonete. (Por várias vezes já referi que esta 'lenda' foi fantasiada por Mestre José Ribeiro na sua peça 'Terra do Limonete')
         Mas isso seria para os mais pequeninos. Para vocês, a verdade da história da nossa terra já terá de ser contada de uma forma realista, tal qual ela aconteceu e como, pelo menos até agora, se conseguiu apurar desde os tempos mais antigos.
         A primeira vez que, em documento oficial, aparece o nome de Tavarede, é numa doação feita, em 1092, a um poderoso fidalgo beirão, de nome João Gondezendis, do lugar de S. Martinho de Tavarede.
         Tem muita curiosidade o facto desta doação, feita por D. Elvira e seu marido, então governador da cidade de Coimbra, falar na nossa terra dizendo: “concedemos-te na mesma já mencionada vila de S. Martinho todos os que outrora ali recebeu Cidel Paiz do Conde D. Sesnando, que Deus tenha, e estão situados no território de Montemor para o lado da praia ocidental”.
         Recordando, um pouco, a nossa história, lembremos que a península Ibérica, no ano de 711, foi invadida pelos muçulmanos ou mouros. Os cristãos refugiaram-se nas serranias do norte e do noroeste da península donde, logo que reorganizados, iniciaram lentamente a reconquista do território invadido, a qual, como sabemos, só foi totalmente conseguida já no século XIV.
         A cidade de Coimbra, importantíssima pela vasta área que dominava e pela relativa proximidade do mar, foi reconquistada aos mouros por Fernando I, o Magno, rei de Leão e Castela, no ano de 1064.
         À medida que os mouros iam recuando no terreno, iam destruindo tudo quanto eram obrigados a deixar para trás. Não sendo cristãos, as igrejas e os templos eram os principais alvos da sua fúria destruídora.
         Assim aconteceu nesta nossa região, depois da tomada de Coimbra. Nomeado governador da cidade D. Sisnando, que passou, então, a usar o título de conde, terá de imediato este fidalgo iniciado o repovoamento e reconstrução dos lugares e vilas nos territórios entretanto reconquistados.
         Para Tavarede, ou melhor dizendo, para o lugar de S. Martinho da vila de Tavarede, nomeou Cidel Paiz, de quem pouco se sabe, mas que terá sido, com toda a certeza, o repovoador e reconstrutor da nossa terra.
         Após a morte do Conde D. Sisnando, toda esta região terá passado à posse de sua filha, a já referida D. Elvira que, como vimos, a doou a João Gondezendis.

         * * * * *

         Antes de continuarmos com a nossa história, vamos recuar um pouco no tempo.
         Sabemos que antes da conquista muçulmana Tavarede era habitado por um povo cristão, talvez lusitanos. Mas... e anteriormente?
         Ainda se não sabe qual o origem da nossa terra. Há três ou quatro séculos, foram encontrados no então edifício da Câmara de Tavarede, uns pergaminhos que se não conseguiram ler, pelos seus caracteres estranhos e bastante sumidos, e que se encontram na Torre do Tombo, em Lisboa. Talvez que, quando decifrados, se faça finalmente luz sobre as origens da povoação de Tavarede.
         Também do seu nome não há a certeza de que derive. Conhecem-se várias versões. Para nós, a mais convincente e que achamos mais lógica, é a seguinte:
         “... uma das características da região tavaredense são os numerosos outeiros que, nos tempos antigos, eram os limites naturais da posse dos terrenos, e que, em liguagem hebraica, se chamavam TAVAH. Por outro lado, sabe-se que toda estava vasta zona por onde agora se estendem as várzeas, eram regiões pantanosas e insalubres. Admitindo, como já se disse, que Tavarede tivesse sido dominada pelos lusitanos e, após a derrota destes, pelos romanos, é natural que para darem o nome a esta região tivessem conservado o radical semita TAVAH e lhe acrescentassem a desinência latina ETUM que, combinadas, teriam levado a TAVAREDE. Aquela desinência é um substantivo latino, comum, que designa grande porção de seres ou objectos idênticos, como arvoredo, vinhedo, mosquedo, etc.
         No nosso caso diremos que a palavra TAVAREDE é composta pelo radical TAVAH (outeiro ou limite) e pela desinência ETUM (mosquedo, absolutamente natural em terreno pantanoso).

*****

         Retomemos a nossa história.
         Os bens doados a João Gondezendis, voltariam, pela sua morte, a fazer parte integrante dos bens pertencentes ao entretanto fundado Condado Portucalense, passando, depois, para a coroa portuguesa, logo que o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, conquistou a independência.
         Seu filho e herdeiro, D. Sancho I, a quem a história deu o nome de “Povoador”, procurou continuar a obra já anteriormente começada pelo Conde D. Sisnando, repovoando e fixando as populações nos seus vastos domínios.
         A igreja teve um papel importantíssimo nesta tarefa. As várias ordens religiosas, a quem o rei fazia grandes concessões, instalavam-se em vastas zonas e, pelos seus conhecimentos, desenvolveram variadíssimas actividades próprias à fixação das populações.
         Toda esta enorme zona do baixo Mondego foi doada à Sé de Coimbra. No nosso caso, foi aquele rei D. Sancho I e sua mulher, a rainha D. Dulce, quem fez a doação do lugar de S. Martinho de Tavarede à igreja de Santa Maria de Coimbra, ao mesmo tempo que, coutando-a, lhe dava categoria para estabalecer as suas justiças.

*****

         Tudo correu bem durante muitos e muitos anos.
         O Cabido da Sé de Coimbra, como donatário de Tavarede, foi vendendo ou dando de arrendamento as várias parcelas de terreno dos seus domínios, para serem cultivados e explorados.
         A agricultura sempre foi a principal actividade em Tavarede. Amanhando as suas terras, compradas e de que pagavam um fôro anual, ou arrendadas, e a renda normal era o chamado dízimo (décima parte da colheita), os lavradores tiravam das mesmas o seu sustento e de suas famílias, vendendo o excedente, normalmente nas feiras que periodicamente se realizavam.
         É claro que Tavarede sempre teve outras actividades importantes, muitas ligadas à agricultura, como, por exemplo, a pastorícia, para produção e venda de leite. A saliência, no entanto, e naqueles tempos recuados, vai para uma outra: a extracção do sal. Havia, então, muitas marinhas de sal na nossa terra.
         Toda aquela zona da Várzea, que em tempos mais recuados foi pantanosa, era banhada por um braço do rio Mondego que, em dimensão bastante superior, tinha o curso que agora segue o nosso ribeiro, desde o largo da igreja até perto da actual estação do caminho de ferro.
         Nas suas margens, até perto da actual Vila do Robim, estavam instaladas marinhas de sal. Como centro principal, os barcos (os chamados batelões) vinham até Tavarede, pois era aqui que tinham que pagar as suas licenças e tributos.
         Nos finais do século passado ainda existiam, perto do largo de igreja, enormes argolas de ferro onde os barcos eram amarrados, para cargas e descargas.
         Também toda aquela baixa das encostas da Vergieira e do Casal da Robala até Caceira era sede de muitas marinhas para produção de sal.
         A propósito das marinhas em Tavarede, recordemos dois factos reais. Nos princípios do século XIV era dona de vastas propriedades na nossa terra, entre as quais algumas marinhas, uma fidalga de nome D. Maria Mendes Petite. Esta senhora era mãe de Pero Coelho, um dos assassinos da célebre D. Inês de Castro, ao qual, anos mais tarde, o rei D. Pedro mandou justiçar, sendo-lhe arrancado o coração pelas costas, como castigo pelo seu crime.
         Esta fidalga, talvez para fugir ao mundo, fez doação dos seus bens em Tavarede a uma instituição religiosa estabelecida em Vila Nova de Gaia, acabando por lá se recolher.
         O outro facto foi o de que, na primeira metade do século XVI, o fidalgo António Fernandes de Quadros, que havia estabelecido a sua casa em Tavarede, tomou de arrendamento a ilha da Morraceira, então denominada Insua da Oveirôa, e ali, e nas marinhas de Tavarede, activou enormemente a produção de sal, que se tornou a principal fonte de receita desta casa fidalga.
         Outra actividade que também deixou nomeada em Tavarede foi a produção e exportação de laranja, especialmente para Roma, onde esta fruta foi bastante apreciada conforme documentação existente.
         Naturalmente que outras actividades eram desempenhadas pelos tavaredenses para sua subsistência. De entre elas lembremos a pesca, nomeadamente no rio Mondego.
         Para regulamentar estas actividades teria que haver leis. E se primeiramente elas tinham sido elaboradas pela Sé de Coimbra, foram definitivamente fixadas no ano de 1516 pelo foral que el-rei D. Manuel I deu a Tavarede.

*****

         Referimos atrás que nos inícios do século XVI se estabeleceu em Tavarede o fidalgo António Fernandes de Quadros. Amigo e protegido do rei, possuidor de grande fortuna, casou com D. Genoveva da Fonseca, natural de Montemor e que em Tavarede era proprietária de diversas casas e terras.
         Deste casamento surgiu a chamada casa dos fidalgos de Tavarede, os Quadros. Começou, então, uma terrível luta. Este fidalgo e os seus descendentes iam adquirindo terras aos pequenos proprietários para aumentarem os seus domínios, mas, contra o estabelecido legalmente, não pagavam o respectivo tributo ao donatário, a Sé de Coimbra.
         Por sua vez, sentindo-se, e com razão, prejudicada pela perda destes valores, esta queixava-se continuamente à justiça real.
         A luta travada foi longa e dura. Chegaram a estar presos e condenados a multas e indemnizações, mas os fidalgos, considerando-se superiores a tudo, insistiam em nada pagarem.
         Acabou ingloriamente para a nossa terra esta luta. Cansado de tantas quezílias, e para acabar de vez com a situação, o poder real aproveitou a oportunidade. O célebre Marquês de Pombal, inimigo declarado do clero e da nobreza, resolveu, dum só golpe, eliminar os dois adversários. Elevou, em 1771, o lugar da Figueira da foz do Mondego a vila e para ali transferiu a câmara e justiças até então existentes em Tavarede. Perdeu a nossa terra, com esta transferência, todo o poder e grandeza que deteve durante séculos.
         Antes de concluirmos esta parte, digamos que os fidalgos de Tavarede, os Quadros, não foram todos uns tiranos ou maus para o povo da nossa terra. Alguns foram-no em demasia, é verdade. Mas, também, tiveram alguns membros ilustres, até, ironicamente, figuras motáveis na igreja que combatiam, notabilizando-se em obras e trabalhos religiosos.
         E também tiveram alguns que, na India, em África e nas nossas fronteiras da Beira, morreram em combate na defesa do nosso país. Como em tudo, tiveram o bom e o mau. O que é difícil é avaliar se a sua vida em Tavarede terá sido mais benéfica ou mais prejudicial para a nossa terra e suas gentes.
         Mas o que é muito importante é não esquecer que se a Figueira se desenvolveu e cresceu o fez à custa de Tavarede.

*****

         Mas não nos esqueçamos de, embora resumidamente, falar da tal lenda da moura encantada.
         O castelo de Montemor, importante praça forte em toda a zona centro, foi conquistado aos mouros no ano de 848, pelas forças do rei de Leão, Ramiro I, que depois entregou o seu governo ao abade D. João de Montemor.
         Os mouros, no entanto, não se conformaram com a perda desta praça de guerra e puzeram novo cêrco ao castelo. Quando julgavam que a vitória seria certa, obrigando os sitiados a renderem-se vencidos pela fome, eis que aquele abade, juntando as suas forças e pedindo-lhes um último esforço, saiu do castelo, rompeu o cêrco e travando batalha, derrotou os sitiantes, perseguindo-os até Seiça. Este feito é histórico, mas deu ocasião a uma outra lenda que tamb~em estamos certos de que irão gostar.
         Os cristãos de Montemor estavam absolutamente convencidos de que iriam ser derrotados pelos mouros. Não querendo deixar refens nas mãos de tais inimigos, resolveram sacrificar todas as crianças e mulheres que viviam no castelo e mataram-nas, degolando-as.
         Qual não foi o seu espanto quando, após a vitória e regressando ao castelo chorando as vítimas inocentes que haviam imolado, viram vir ao seu encontro todas aquelas mulheres e criamças não mortas mas cheias de vida.
         Um dos chefes mouros tinha consigo as suas oito filhas. Antes da batalha, com receio de que o matassem e elas caissem nas mãos do inimigo, os cristãos, lançou-lhes um feitiço.
         A uma delas, Katija, que seria a sua preferida, disse que o seu encanto somente seria quebrado quando um cavaleiro cristão se aproximasse dela e lhe dissesse, por três vezes, “sois bela como o sol”. Mais lhe disse, que quando fosse libertada, seria levada para a tal terra perfumada por uma planta rústica e delicada.
         Já sabemos que o conde D. Sisnando enviou Cidel Pais para repovoar e reconstruir Tavarede. Um dos cavaleiros que resolveu acompanhar Cidel Pais, ao passar perto de Montemor, viu á entrada duma gruta, no monte de Santa Olaia, um grupo de mouras que fugiram quando o viram aproximar-se. Ficou uma para trás, Katija. Chegado junto dela, o cavaleiro, maravilhado com sua beleza, não se conteve e disse; “sois bela como o sol”, não uma nem três, mas sete vezes. Assim se desfez o encanto e a moura encantada seguiu o seu cavaleiro andante para a nossa terra, perfumada com o cheiroso limonete.
         Sabe-se que esta planta é originária da América do Sul ou da Ásia. Certamente terá sido trazida por qualquer navegante ou soldado de uma das viagens áquelas paragens e que gostou do seu perfume.
         Numa peça de teatro, representada em Tavarede nos primeiros anos deste século, e que foi escrita pelo poeta e jornalista João Gaspar de Lemos, que aqui viver grande parte da sua vida, na sua Quinta da Mentana, agora em urbanização sob o nome de Vale do Pereiro, e a que deu o nome de “Em busca da lúcia-lima”, diz que o limonete foi trazido do Malabar, nas costas da Ásia, no ano de 1502, pelo capitão-mor D. Sancho Fagundes de Encerrabodes, que residiu em Tavarede na primeira metade do século XVI e que era aparentado com os Quadros.
         A grande verdade é que, vinda da América ou de qualquer outro ponto de mundo, o limonete, ou lúcia-lima, bela-luísa, doce-lima, verbena, etc., conquistou o coração dos tavaredenses, pois, desde sempre, em quasi todos os quintais ou terrenos ajardinados, há um ou mais pés de limonete, que, além do seu delicado perfume, também é utilizado para fazer um chá que, se não faz bem também não faz mal.

*****

         Vamos agora fazer um pequenino comentário à família Quadros, que já referimos e que dominou em Tavarede durante três séculos.
         O primeiro foi António Fernandes de Quadros. Foi ele que mandou construir a casa do paço, embora não lhe tivesse dado aquele aspecto gracioso dos torriões que, apesar das ruínas, se apercebem ainda. Tinha, então, uma torre de ameias, o que denota a importância desta família, pois que só era autorizada a fidalgos muito poderosos.
         Foi ele quem estabeleceu o morgadio de Tavarede. Morgadio é o conjunto de bens vinculados que se não podiam dividir nem alienar, e que por morte do titular passariam ao filho primogénito que, com os bens, também herdava o título de morgado.
         Como era preciso autorização real para o estabelecimento dos morgadios, pediu ela concessão a el-rei, D. João III. No entanto, quando a autorização chegou já tinha falecido aquele fidalgo, pelo que, em nossa opinião, a primeiro morgado de Tavarede terá sido o seu filho primogénito e herdeiro.
         O morgadio existiu até ao ano de 1804, data em que foi nomeado barão de Tavarede João d’Almada Quadros Sousa de Lencastre que, no ano de 1848, viu o seu baronato elevado a condado.
         O último conde de Tavarede faleceu em 1903 e, com ele, extinguiu-se o título, embora tenha deixado descendentes directos.
         Como curiosidade, lembremos apenas um, dos imensos privilégios de que a casa de Tavarede foi senhora. Este, além de bastante gravoso, era mesmo vexatório para o povo de Tavarede e da Figueira, pois continuou durante bastante tempo depois da elevação a vila. Era o chamado “forno da poia”.
         Em que consistia: Simplesmente nisto. Ninguém podia ter em casa um forno. Para coser pão ou broa, assar galinhas, coelhos ou qualquer carne, até para assar fruta, teriam de ir fazê-lo ao forno da poia, onde teriam que pagar o tributo estabelecido.

*****

         É claro que a história de Tavarede não é só isto. Mas não é ocasião de ser demasiado minucioso. Tentamos fazer um resumo e dar uma ideia do que foi e aconteceu de mais significativo na nossa terra, ao longo dos seus dez séculos conhecidos.
         Antes de descrever alguns dos principais costumes e tradições de Tavarede, vamos contar-lhes uma breve história de cada um dos três mais conhecidos santos venerados na nossa terra: S. Martinho, Santo Aleixo e S. Paio.
         Todos nós sabemos que o S. Martinho está ligado ao vinho. Diz-se: em dia de S. Martinho vai á adega e prova o vinho. Porquê? É esta a história: um dia apareceu ao santo um mendigo, cheio de fome e andrajoso, pedindo-lhe esmola. S. Martinho que nada mais tinha que a sua capa, rasgou-a ao meio e deu metade ao mendigo.
         Este entrou numa taberna e pediu de comer dando como paga a metade da capa. O taberneiro, tavez com pena do mendigo, deu-lhe de comer e agarrando na capa, atirou-a desdenhosamente para cima duma pipa. Passado tempo verificou que o vinho daquela pipa nunca acabava. Tirou-lhe de cima a capa e imediatamente o vinho parou de correr. Recolocando-a em cima, novamente op vinho voltou a jorrar pela torneira.
         Há outras histórias sobre este santo, mas esta é a que o deixou ligado ao vinho.
         O santo Aleixo terá vivido em Roma, como pedinte e com grande santidade. A sua capela, edifício bastante antigo, terá servido de hospício e acolhimento aos peregrinos.
         O terceiro santo também tem uma história curiosa na nossa terra.
         A sua pequena capela, lá em cima no prazo, na encosta da serra, foi mandada construir pelos frades de Santa Cruz, os crúzios. Com o correr do tempo caíu em ruínas. Quando, no século passado, a Igreja de Santa Cruz vendeu toda aquela propriedade impôs como condição a reconstrução da capela. Assim aconteceu. Quanto á imagem do santo ela foi encontrada na adega da casa ali existente, onde algumas vezes servia para calçar as pipas. Foi mandada restaurar e lá está na capela. Como facto intrigante, pelo menos para mim, é que S. Paio era um menino quando foi sacrificado pelos mouros e a imagem existente na capela é a figura de um homem com uma barba bem cerrada, nada condizente com os doze anos de S. Paio.
         Outras histórias sobre outros santos de que veneraram em Tavarede também seriam interessantes de contar. Ficará para outra oportunidade.

*****

         No século passado e princípios deste, Tavarede festejava com grandiosidade o S. João. Não deixa de ser interessante que sendo S. Martinho o orago da terra e havendo outras capelas, as únicas festas profanas e religiosas eram as de S. João.
         Nunca se realizavam no dia deste Santo, a 24 de Junho. Normalmente, tinham lugar no segundo fim de semana de Julho. Eram grandiosas, com ruas ornamentadas, ranchos, muita música e a missa religiosa. Não havia procissão. Mas faziam as chamadas cavalhadas. Arranjavam um enorme número de cavalos e burros e, com a bandeira de S. João á frente, acompanhados de muita gente a pé, iam em cortejo até á Figueira da Foz com regresso por Buarcos. Como nota curiosa diremos que nestas cavalhadas se juntavam bastantes máscaras, pois na altura, o carnaval não era festejado nas ruas.
         As ruas eram vistosamente engalanadas e cheias de balões que à noite se acendiam. Sabemos que havia danças nos largos da Paço, do Forno (actual jardim) e da Igreja.
         Mas a festa popular que mais saudades deixou a todos os tavaredenses foi a da manhã do primeiro de Maio.
         Diz a tradição que a fonte da Várzea era um local verdadeiramente aprazível, onde a água fresca e pura corria das suas bicas. A fonte agora já não existe e o local está coberto de silvas e ervas.
         Manhã muito cedo, os músicos formavam a tuna e os pares, levando as raparigas à cabeça os potes cobertos de flores, que na véspera haviam cuidadosamente enfeitado, dirigiam-se a cantar até àquela fonte. Ali, o rancho de Tavarede juntava-se a outros: da Chã, da Vila do Robim, do Casal da Robala. Dançavam, bebiam a fresca água, descançavam e prosseguiam a viagem até à Figueira onde percorriam as ruas, sempre cantando e dançando.
         Esta última parte seria, mais ou menos, como agora, em que se tenta reatar a tradição do rancho do primeiro de Maio e dos potes floridos de Tavarede.
         Não vamos ser mais maçadores. Queremos, no entanto, ainda lembrar que, verdadeiramente, havia e ainda há duas grandes tradições em Tavarede: o teatro e a música.
         Para lhes contar a história do teatro e da música em Tavarede seria preciso outro tanto tempo. Bastará dizer-vos que há notícia de teatro na nossa terra desde há cerca de duzentos anos. Antes dos colectividades agora existentes outras houveram. E, dedicando-se a estas duas artes, muito fizeram pela divulgação da cultura na terra do limonete. A título de exemplo, sempre diremos que, muitos anos antes de haver escola primária em Tavarede, já as colectividades de então mantinham escolas nocturnas, para crianças e adultos, e que foi nelas que muitos tavaredenses aprenderam a ler e a escrever.
         Muito, mas mesmo muito, haveria a contar sobre a história de Tavarede.Uma grande parte dessa história encontra-se contada nas peças de teatro , escritas pelo sr. José da Silva Ribeiro, e que foram representadas na Sociedade. Aos que quizerem saber um pouco mais sobre a nossa terra podem ler os livros “Chá de Limonete” e “Terra do Limonete” que encontram na biblioteca daquela colevctividade. Também o livro que em Março passado foi editado pela Junta e a que dei o título de “Tavarede - a terra de meus avós” se encontra bastante desenvolvida a história que resumidamente agora lhes contei.

         Se quizerem, e não estiveram muito saturados, podemos conversar um pouco mais sobre qualquer assunto. Ou guardar para outra ocasião. Se a isso estiveram dispostos digo-lhes que, pela minha parte, gosto imenso de conversar sobre a história da minha e da vossa terra.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 2

A primeira notícia encontrada referente às festas ao São João de Tavarede foi no periódico O Figueirense, na edição de 10 de Julho de 1864. “Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupede de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo.
Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira, Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permitia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.
Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Figueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir”.
         Esta nota refere dados interessantes. É certo que não tem qualquer alusão a actos religiosos, no entanto, pelo menos era celebrada missa sanjoanina. Também se depreende da notícia, e o segundo período da mesma é elucidativa, estas festas já se realizariam haveria anos. Mas, desde quando?
         Pois a verdade é que não conseguimos encontrar quaisquer indicações do início de tais festejos, bem como o motivo da nossa terra, e outras do concelho, festejarem tão exuberantemente tais festejos.
         Na Figueira, como se sabe, ainda actualmente se realizam festas em honra do Santo, aliás, um dos três patronos venerados na cidade: o S. Julião, padroeiro da terra, o Santo António, e recordemos a figura de António Fernandes de Quadros, o fundador da Casa de Tavarede, e a quem se deve a construção do convento, e o S. João, com o tradicional ‘banho santo’, sempre atraíndo muito gente, velhos e novos, para se banharem nas águas frias da nossa praia.
         A Figueira sempre festejou no dia próprio, a 24 de Junho. Na primeira semana de Julho cabia a Buarcos realizar os festejos, que, na semana seguinte, acabavam em Tavarede.
         Tinham muita fama as festas ao S. João de Tavarede. Certamente que a sua realização não seria anterior à mudança da câmara da nossa terra para a Figueira, o que aconteceu no ano de 1771. Até então, ‘reinando’ despoticamente em Tavarede o morgado Fernando Gomes de Quadros, que tão triste memória deixou, não é crível que o povo tivesse qualquer vontade ou, até, autorização para tais festejos.
         Também é verdade que não interessa grandemente saber a data rigorosa do surgimento destas celebrações. Admitimos, sem qualquer segurança, que tenham começado nos inícios do século dezanove, talvez na segunda ou terceira décadas.
         Se as danças atraíam especialmente a gente nova, já os menos jovens teriam o ponto alto das festas nos costumados jogos tradicionais, especialmente a rosquilhada, que proporcionava momentos de boa disposição. Eram as cavalhadas, porém, que constituiam o pico dos festejos. Naqueles tempos, sendo a agricultura a principal actividade das gentes locais, a terra seria fértil em animais, indispensáveis ao cortejo. Burros e cavalos, além de montadas para muitos participantes, eram necessários para atrelar às carroças e trens, vistosamente ornamentados a preceito.
  


As cavalhadas na Figueira, no largo da Câmara

O Associativismo na Terra do Limonete - 58

     Uma nota curiosa surgiu-nos publicada num jornal figueirense em Outubro de 1942 e que diz: O êxito continua... “O Sonho do Cavador” – a peça das lotações esgotadas e que há quinze dias festejou brilhantemente as suas bodas de ouro, volta à cena no próximo domingo, 25, em 52ª. representação e última desta época, no teatro da Associação Naval, dessa cidade. O teatro da popular colectividade vai registar, disso estamos certos, outra grande enchente. Esta festejadíssima fantasia também será representada no próximo sábado, no teatrinho da SIT, em récita dedicada aos seus associados.

         A Sociedade havia feito nova reposição de O sonho do cavador. Não podemos confirmar, no entanto, o número de espectáculos indicado. Pela listagem de todas as representações dadas pelo grupo de Tavarede, cuidadosamente feita com recurso aos livros e outros documentos da colectividade, programas e imprensa, esta seria a 42ª representação da peça. Admitimos, contudo, a possibilidade de haver falha, mas nunca além de mais dois ou três espectáculos.

         Ainda com esta peça, e atendendo a uma solicitação da Junta de Freguesia local, foi dada, na sede, uma representação para angariar fundos, para um bodo configno a distribuir pelos seus pobres no próximo Natal. O resultado verificado foi de 1.334$10.

         Um outro espectáculo, que teve lugar no Casino da Figueira, em Novembro daquele ano e a favor do Natal do Expedicionário, mereceu esta interessante nota. Pela segunda vez assisti a uma representação do Grupo de Tavarede: “Entre Giestas”, de Carlos Selvagem, peça bem portuguesa, característica.
         Como equilibrio é do melhor que conheço.
         Convencionado que a amadores não se pode pedir a “presença” que se exigira a profissionais, são desculpáveis – e justificáveis – certas deficiências, cuja supressão contribuiria para valorizar, ainda mais, o simpático agrupamento.
         Admirador fervoroso do trabalho, da persistência e da dedicação – é um manancial inesgotável de dedicação o “quadro” de Tavarede – citarei, ao acaso, o que se me afigura merecer acolhimento atencioso...
         Não se “põem” em cena, com facilidade, dezenas de figuras. Quantas horas perdidas, paciência atormentada, sistema nervoso alterado!...
         Porém, porque nem sempre há a franqueza para se apontar com lealdade – e vá, permita-se-nos... – com conhecimento de causa, alguns pormenores que contribuem para anular o brilho da representação, tem-se persistido em manter o que se deveria eliminar.
         Comecemos pelo princípio.
         É de louvar, e daqui aplaudimos a iniciativa, digamo-lo assim, de iniciar o espectáculo a hora prefixa, com o aviso prévio de a autoridade poder impedir o acesso de espectadores.
         De acôrdo e mais aplausos, com os desejos, sinceros, de que a medida faça escola.
         Mas é de admitir aquela enormidade de intervalos? A categoria do grupo carecia já de carpinteiros aperfeiçoados, embora amadores, que demonstrassem, praticamente, a maior presteza.
         Por outro lado – estou a escrever de um modo geral – os intérpretes dão a nítida impressão, o que se deveria evitar, do pêso das responsabilidades que lhes assenta sôbre os ombros; “o grupo é de categoria, é imprescindivel continuar prestigiante”, e febrilmente aguarda-se a “deixa” para se despachar, velozmente, o diálogo.
         Engeita-se a responsabilidade para se salvar a honra, pessoal, do convento... E nasce assim o mastigar de frases, a repetição de palavras, que nunca foi de bom efeito teatral.
         Falemos agora, duas linhas, apenas, de Violinda Medina, que possui, reconheço, admirável intuição. “Sente e sofre” em cena. É admirável, por vezes, em algumas arrancadas. Já a vi “estarola” e em “mulher de sentimentos”. Vibra, chora e ri com facilidade. Um pequeno-grande senão: utilisa sempre a mesma tonalidade de voz, perdendo, assim, lindos efeitos dramáticos.
         Um pequeno esfôrço, treino, facultar-lhe-á, em pouco tempo, dispôr de excelentes recursos que permitirá afirmar-se, sem favor, que Violinda Medina é uma amadora que não haveria desdouro se pisasse os melhores palcos nacionais.



      






  Entre Giestas




Dos homens, o mastigar. Há “características” interessantes, aos quais se solicita, sòmente, serenidade. A tal presença de espírito... Das mulheres, há muitas que agradam.
         É a minha admiração pelo simpático agrupamento que motivou estas considerações.  Não é de estranhar que se encontre o espírito de dizer mal. De boas intenções está o inferno cheio... Informaram-nos que o grupo já apresentou na mesma peça, melhor actuação. Talvez... Há horas felizes...


Entre Giestas