sexta-feira, 4 de abril de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 70

         Reparamos, agora, que tivemos uma enorme falha. Não se pode, nem deve, esquecer a magnífica campanha que a SIT levou a efeito, no ano de 1952, levando o seu teatro a diversas localidades do nosso concelho. O programa constava, além de uma pequena palestra pelo director cénico, da representação dos autos de Gil Vicente, Barca do Inferno e Mofina Mendes, da peça As três gerações. De notar que o produto líquido de cada representação reverteu a favor, integralmente, para a colectividade visitada, sendo de admitir que numa ou noutra localidade a visitar, dada a sua pequena população e a pobreza do meio, a receita não chegará para as despesas; mas nem mesmo esta circunstância impedirá a visita dos tavaredenses, pois o “déficit” que se verificar será coberto pela Sociedade de Instrução Tavaredense.

         Ainda no mesmo ano, comemorou-se o primeiro centenário da morte de Almeida Garrett. Estas comemorações, além da sede em Tavarede, também tiveram lugar na Figueira, Condeixa, Alhadas, Quiaios, Marinha Grande, Soure e Coimbra. Além do Frei Luís de Sousa, foi preparado um espectáculo com programa especial. Seria irrealizável se não contássemos com colaborações e dedicações valiosas. A tragédia “Catão” decorre em Útica, no ano 46 AC; “D. Filipa de Vilhena”, no século 17; “Um auto de Gil “Vicente”, no século 16 e “O Tio Simplício”, no século 19, em plena época do próprio Garrett. Veja a variedade e a riqueza do guarda-roupa, cenários e cabeleiras de cada época. O acto de Um auto de Gil Vicente passa-se a bordo da nau “Santa Catarina do Monte Sinai”, na antecâmara da que é já Duquesa de Sabóia, onde se encontra o rei D. Manuel, a infanta sua filha D. Beatriz e Bernardim Ribeiro, cujos amores lendários são o motivo da peça; o almirante da esquadra Conde de Vila-Nova; o Bispo de Targa; o velho Garcia de Rezende, que nos deixou descrição minuciosa daquele quadro da época manuelina; os embaixadores do Duque de Sabóia; Paula Vicente, a filha de Gil Vicente, apresentada por Garrett como grande intérprete na representação das obras vicentinas, etc. São quatro obras diferentes, com acção em quatro épocas diferentes, apresentadas num só programa, exigindo a presença de mais de 30 intérpretes, porque cada um deles não pode interferir em mais de uma peça. Isto bastará para se avaliar da complexidade 

Um auto de Gil Vicente

quantos problemas a resolver! – e da grandeza do empreendimento a que a Sociedade de Instrução Tavaredense se lançou, ensaiando um programa tão difícil e dispendiosa montagem. Alberto Anahory, que é uma autoridade em guarda-roupa histórico, está a tratar da indumentária com o seu belo gosto e sentido artístico; e o professor Manuel de Oliveira, artista consagrado na cenografia, estuda já os cenários a pintar, cujas “maquettes” em breve serão expostas. Estes dois artistas dão-nos colaboração preciosa, com uma simpatia que excede os limites de simples probidade profissional. Sem eles, e sem outras devoções carinhosas, não chegaríamos ao fim.

         E a nossa terra teve a honra de receber uma embaixada coimbrã, que aqui se deslocou propositadamente para homenagear a Sociedade de Instrução. Tavarede viveu no passado domingo, com a visita da embaixada que de Coimbra se deslocou para homenagear a Sociedade de Instrução Tavaredense, algumas horas de inefável alegria.
         Pouco antes das 4 horas, começou a juntar-se muito povo no Largo do Paço, para receber os visitantes, vendo-se ali os estandartes da Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, Grupo Musical de Instrução Tavaredense e da Sociedade de Instrução Tavaredense. Chegada a caravana, constituída por mais de 20 automóveis conduzindo cerca de 100 pessoas, organizou-se um cortejo em direcção da sede da S.I.T., levando na frente a Filarmónica 10 de Agosto que, com a sua presença, muito contribuiu para o êxito da brilhante recepção.
         Ao longo do percurso, pendiam das janelas vistosas colchas, e, à passagem do cortejo, caíam sobre os visitantes pétalas de flores que sopradas pelo vento, em torvelinho, sugeriam a ideia duma maravilhosa chuva multicor.
         Chegados à S.I..T., realizou-se uma sessão solene, que aberta pelo sr. Rui Fernandes Martins, Presidente da Assembleia Geral da Sociedade homenageada, constituiu a mesa, à qual convidou a presidir o sr. dr. Elísio de Moura, nela tomando parte os srs. dr. Fernandes Martins, dr. Manuel dos Santos Duarte, dr. Celestino Maia, dr. Armando Boaventura, do Teatro dos Estudantes; Abílio dos Santos Júnior, José Castilho, do “Diário de Coimbra”; e António de Sousa, do “Despertar”. Depois de saudar os visitantes, o sr. Prof. Rui Martins prestou homenagem ao sr. dr. Elísio de Moura, afirmando que a Sociedade de Instrução Tavaredense se sentia altamente honrada com a sua presença.
         Falou em seguida o sr. dr. Fernandes Martins que pronunciou um discurso cheio de lirismo, focando vários aspectos do problema da assistência, tendo no final do seu discurso convidado o sr. dr. Elísio de Moura a descerrar uma lápide de que a embaixada coimbrã era portadora e que é uma réplica daquela com que a S.I.T. foi homenageada em Coimbra e se encontra colocada no salão nobre do Teatro Avenida, contendo a inscrição:
         “À Sociedade de Instrução Tavaredense nas suas Bodas de Ouro. Homenagem de: Asilo da Infância Desvalida; O Enxoval do Recém-Nascido; Associação de Socorros Mútuos dos Artistas, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários; Delegação dos Inválidos do Comércio; Associação Protectora dos Diabéticos Pobres; Os empregados do Teatro Avenida”.
         Falou depois o advogado sr. dr. Roque Paim acerca do papel desempenhado pela S.I.T. em prole da beneficência e da cultura, sendo o seu discurso muito apreciado pela sua forma elegante e burilada.
         Seguiu-se no uso da palavra o sr. dr. Elísio de Moura, que se espraiou em considerações acerca da S.I.T. e da sua acção, dirigindo palavras de muito apreço ao sr. José Ribeiro, alma da Sociedade que se estava homenageando.
         Antes de encerrar a sessão o sr. Rui Fernandes Martins convidou o sr. José Ribeiro a dizer algumas palavras, tendo este traçado o perfil do sr. dr. Elísio de Moura e da sua obra, e afirmando a grande honra que constituía para Tavarede a presença de tão ilustre sábio na modesta sede da S.I.T.. E, assim, terminou esta brilhante e memorável sessão solene.
         Antes de se retirarem para Coimbra, foram os visitantes obsequiados com um “copo de água”, que serviu de pretexto para se trocarem amistosas saudações.

         E é chegada uma nova deslocação do grupo cénico. Há muitíssimo tempo que a Marinha Grande não recebia uma lição de bom teatro, e, caso curioso mas não único, essa lição foi-lhe dada magistralmente pelo nosso já conhecido, simpático e valoroso grupo cénico de Tavarede!
         No mais curto espaço que nos é possível, resumiremos:
         Festejou-se na noite de 30 de Outubro último, no Teatro Stephens, o centenário da morte de Almeida Garrett com a representação do seu drama imortal “Frei Luís de Sousa”, e, desse empreendimento difícil e assustador para muitos profissionais, encarregou-se corajosamente o “Grupo Cénico de Instrução Tavaredense”. Ele tomou conta do teatro, da peça Garrettiana e... do público!
         Abriu o espectáculo o exmo. sr. dr. Acácio de Calazans Duarte, Director do Teatro Stephens, que em breves palavras apresentou o grupo, fazendo a sua história desde a fundação até nossos dias. Depois o exmo. sr. José da Silva Ribeiro, Director do Grupo Cénico de Tavarede, numa brilhantíssima alocução, quase uma oração de sapiência, fez o elogio de Almeida Garrett, como homem, como político e como escritor, terminando por se referir à peça que se iria representar e ao modesto grupo disso encarregado, que, quanto a nós, será modesto nas suas figuras, mas grande na sua arte, disciplina e força de vontade! As suas palavras prenderam a assistência que as ouviu gostosamente e nós, que com prazer o ouviríamos largo tempo, gostaríamos até de saborear uma conferência sua sobre qualquer tema histórico e instrutivo. Depois, pelo nosso conterrâneo dr. José Henriques Vareda foi-lhe oferecido um artístico jarrão em vidro e pela menina Maria Madalena Monteiro Medina um lindo ramo de flores.
         Seguiu-se a representação de “Frei Luís de Sousa”.
         Sobre a peça não nos atrevemos tocar, pois é sobejamente conhecida e já nos foi apresentada em cinema. Só podemos acrescentar que é um mimo de literatura e construção.
         É puro Garrett e avisadamente andou a Direcção do SOM em trazer até nós esta agrupamento e esta deliciosa peça, e se alguém não foi vê-los não podendo ou não querendo, perdeu uma boa oportunidade para a vista e para o espírito, pois o saber não ocupa lugar...

 
                                       Frei Luís de Sousa – 1º acto

          A peça está rica e luxuosamente posta em cena, rigorosamente à época, tanto nos cenários belíssimos do mestre cenógrafo do Teatro D. Maria II, Manuel de Oliveira, como a indumentária de Alberto Anahory, rica e vistosa. Os vestidos de D. Madalena de Vilhena são alguma coisa de belo e de raro em teatro de amadores. O desempenho atingiu uma alta craveira artística, principalmente por parte da exma. srª D. Violinda Medina e Silva. Esta senhora que já conhecíamos de outras vezes que nos visitou, bem como seu marido(?) o sr. António Jorge da Silva, é uma artista na verdadeira acepção da palavra e que representa, sem exagero, como uma Amélia Rei Colaço ou como uma Palmira Bastos! É preciso vê-la para acreditar! A sua D. Madalena de Vilhena arrebatou o público, fazendo-o chorar e sofrer, nos lances mais dramáticos e trágicos da peça, e não sabemos se qualquer das artistas que mencionámos, o fariam melhor!
         No final do 2º acto e todos os 3º e 4º, até o pano descer, arrancou-nos os nervos, torceu-os, obrigou-nos a chorar e a viver consigo toda a imensa tragédia que Garrett escreveu! Parabéns, minha senhora!
         O sr. António Jorge da Silva em “Telmo Pais” deu-lhe réplica condigna e foi também um “grande actor”. Tudo nele esteve certo, venceu e convenceu. O sr. João Cascão em “Frei Luis de Sousa”, com um timbre de voz mais grave e mais cheia, seria um impecável Manuel de Sousa, mas, mesmo assim, foi subindo gradualmente até ao fim da peça em que nos deu o dramatismo requerido que nos comoveu e também convenceu! Óptimo!
         A jovem Maria Isabel Reis “Dona Maria de Noronha” evidenciou bastantes qualidades e poderá, de futuro, vir a ser uma bela “artista”. Um pouco indecisa a princípio, talvez uma questão de nervos, foi também subindo até ao trágido desfecho da peça, sendo na cena da morte uma digna discípula de seus mestres, imprimindo a essa cena lancinante a patética dor do desabar estrondoso de quatro vidas despedaçadas pela força do Destino! Muito bem, Maria Isabel! O “romeiro”, sr. Fernando Reis, também bastante bem. A sua frase “Ninguém!” a clássica frase que amedronta os artistas, foi bem pronunciada. A sua voz é a requerida. Só o achámos por vezes, ainda muito vigoroso, após tantas vicissitudes e trabalhos. Frei Jorge Coutinho – sr. João de Oliveira Júnior, foi um frade que atravessou a peça como se fosse um frade autêntico e nisso está o nosso melhor elogio e todo o mérito que poderia ter. Os restantes intérpretes srs. José Maria Cordeiro – Prior de Benfica -, António Paula Santos – um irmão converso -, António da Silva Coelho – Miranda -, José Vigário – Arcebispo de Lisboa -, Maria Teresa de Oliveira – Doroteia -, todos acertadamente nos seus papéis secundários, concorrendo muito para o bom êxito de “Frei Luís de Sousa”.
         Todas as cenas foram admiravelmente planeadas e executadas. Até aquelas em que seria fácil cair no ridículo, pela diferença da época em que vivemos, foram de forma a passar com naturalidade. O incêndio do 1º acto, muito bem, e principalmente a cena final da tragédia, passada no altar do Convento de S. Domingos, é uma chave de ouro no fim do espectáculo!
         Teve a grandiosidade religiosa requerida, a que não faltou o coro dos frades, acompanhado a orgão pela nossa conterrânea e também distinta amadora srª D. Maria Hermínia Roldão.
         O público marinhense, este nosso público por vezes tão frio e reservado, aplaudiu de pé e quando um público aplaude de pé é porque está salva a reputação dos intérpretes, das peças e a honra e o prestígio do Teatro Português!

         Ao “Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense” um abraço de parabéns do público marinhense e o sincero desejo de em breve o podermos aplaudir novamente, porque serão sempre benvindos a esta laboriosa terra!

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 69

         Não vamos descrever todo o programa levado a efeito. Teve a colaboração, por exemplo, do Orfeão de Leiria, do Grupo de Teatro Miguel Leitão, do Teatro dos Estudantes de Coimbra, com teatro e com a tradicional serenata. O espectáculo de gala foi com a representação, pelo nosso grupo, da peça Serão homens amanhã.  Na véspera, foi apresentado e posto à venda o livro ’50 Anos ao Serviço do Povo’, da autoria de Mestre José Ribeiro.

         A sessão solene foi um acto brilhante, que teve a presidi-la o Professor Doutor Joaquim de Carvalho,  um dos maiores vultos culturais de sempre da Figueira.



                                         Sessão solene das Bodas de Ouro                                                                                         
          E não se pode esquecer um dos actos comemorativos que mais emocionou. Um espectáculo preparado pelo director cénico, levou à cena a primeira peça que o grupo da Sociedade representou, a comédia Os medrosos, a que se seguiu Revivendo o passado. Nos passados dias 23 e 24, a SIT viveu mais duas noites de inesquecível alegria, com a apresentação do anunciado espectáculo de Evocação.
Tivemos o ensejo e o prazer de ver representar, com um à vontade de causar inveja a muitos novos, antigos amadores desempenhando papeis que criaram, alguns há mais de 40 anos.
         Foi com verdadeira emoção e ternura que o público viu aparecer no palco as figuras remoçadas de Helena Figueiredo, Idalina Fernandes, Emília Fadigas, Maria José Figueiredo, António Coelho, António Graça, Francisco Carvalho e outros, a quem dispensou calorosas salvas de palmas, à medida que iam entrando em cena. Nos finais de acto caíam sobre o tablado verdadeiras chuvas de flores, lançadas por algumas senhoras da assistência.
 Serviu de comentador ao espectáculo o sr. José da Silva Ribeiro, que antes de iniciar-se a representação de cada acto falou das peças a que pertenciam, fazendo a apresentação dos antigos, a quem saudou comovidamente, e dos novos amadores que iriam representá-los. Evocou também velhas figuras da cena tavaredense, como os irmãos Broeiros e tantos outros que, certamente, se pertencessem ainda ao número dos vivos, não deixariam, de estar presentes nessas duas inolvidáveis noites de saudade. Foram revividas cenas de Os amores de Mariana, O sonho do cavador e A cigarra e a formiga.

         Certamente todos se recordarão que, aquando procurámos contar o associativismo em Tavarede na década de 1920, e ao referirmo-nos ao Grupo Musical, considerámos aqueles anos como dourados, para esta associação. Na verdade, com o seu grupo cénico recheado de talentosos amadores e com a sua afamada tuna, considerada uma das melhores e mais bem organizadas tunas desta região, foram anos triunfais, que só acabaram pelas circunstâncias que então narrámos.

         A Sociedade de Instrução, no entanto, e graças ao grupo dramático e, acima de tudo, devido à competência e saber do seu director cénico, igualmente teve os seus períodos triunfantes, ou, como costumamos dizer, também teve os seus tempos dourados. Com as suas operetas e fantasias, com o teatro popular e tão do agrado das gentes tavaredenses, recordamos o teatro extraído da obra de Júlio Diniz, e com a escolha de tantas peças, que acabaram por ter êxitos retumbantes, o teatro de Tavarede, então só representado pelo grupo da Sociedade, alcançou uma projecção extraordinária. E, não é de mais referir, sempre com a missão admirável da beneficência.

         Mas a verdade é que o referido director cénico soube rodear-se de um grupo de amadoras e amadores, fervorosos entusiastas do palco, que, com o seu talento e experiência, originaram um conjunto cénico de categoria acima do normal e que foram verdadeira referência no teatro amador nacional. E disso daremos provas lá mais adiante. Lógico é, portanto, que nos debrucemos mais sobre esta colectividade, sobretudo neste período, sem deixarmos de elogiar as congéneres da freguesia, que prosseguiam, com os seus recursos, na sua missão educativa e recreativa. Vejamos, agora, uma nota referente a mais uma ida a Coimbra. Depois de um largo interregno teatral as luzes da ribalta da nossa única sala de espectáculos voltaram a acender-se.
         Sobre as tábuas actuaram os dois mais representativos grupos de amadores de Teatro do nosso distrito: O Teatro dos Estudantes e o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         A primeiro, pela boca do seu presidente, estudante Anselmo Ventura, afirmou a sua presença ali como dupla homenagem: à obra do Dr. Elísio de Moura e aos cinquenta anos de intenso e honrado labor do conjunto tavaredenses.
         Representaram os estudantes a “Suplica de Cananeia”. Interpretou o belo quadro vicentino a estudante Cândida Clavel do Carmo que soube comunicar todo o dramatismo da Cananeia através duma linguagem cheia de emoção interior e duma gesticulação simples mas expressiva.
         A extensão do papel, dominado sem auxilio de ponto, fê-la por vezes distrair do crescendo de potencial dramático que o papel impõe, mas não há dúvida que a interpretação em bloco, constitui óptima revelação de aptidões, atendendo às dificuldades extraordinárias que envolvem o texto vicentino e principalmente a imobilidade da figura.
         A voz de Cristo, clara e penetrante, fez-se ouvir num ambiente que não era, positivamente, de silêncio.
         Disse com mestria mas parece não ser aconselhável dispensar o microfone dado o tamanho da sala, o barulho constante dos retardatários e, até por virtude duma maior diferenciação entre o humano e o sobrenatural.
         A Sociedade de Instrução Tavaredense, depois dum largo intervalo, apresentou a peça argentina de Dartes & Damiel: “Serão Homens Amanhã”; a tradução foi feita pelos conhecidos escritores revisteiros Fernando Santos e Almeida Amaral.
         Temos a impressão nítida, que Dartes & Damiel foram imensamente prejudicados na versão portuguesa e que a principal vítima no espectáculo foi João Cascão.
         Efectivamente o desenvolvimento da acção passa-se normalmente em relação a todos os personagens com excepção daquela que é o fulcro, à roda da qual tudo gira; simplesmente da normalidade de todos e da anormalidade de um, resulta um choque que soa profundamente a falso.
         Parece que Fernando Santos e Almeida Amaral não perderam oportunidades para colocar na boca de Carlos (João Cascão) certos ditos mais ou menos de revista que não só perturbaram o desenrolar da peça como tornaram falso, totalmente falso, o final.
         Não se nota no “clima” do segundo acto nenhuma preparação emocional para o desenrolar, inevitável, da trama porque João Cascão se viu sempre entre Syla e Caríbedes na interpretação do seu papel.
         À ânsia de Carlos por uma vida de família que nunca tivera, opõe-se quase sempre um outro Carlos inateravelmente lançado às feras por um dito de espírito (?) barato bem longe duma insinuação “chaplinesca” que conviria à situação.
         Assim a peça na sua construção ruiu, pois o final surge sem sentido, abruptamente, como que dando a impressão de que o autor não sabendo como sair dum labirinto, resolve destruir este num abrir e fechar de olhos e colocar-se como por magia fora dele.
         Da interpretação é justo que se destaque em primeiro lugar o belo apontamento de Vitalina Lontro, que faz uma criada, segura, perfeita, dominando as situações com à vontade. Violinda Medina num papel cheio de dificuldades, a maior parte delas reflexo da actuação de (Carlos). João Cascão representou com naturalidade, disse bem, e caminhou no palco com uma desenvoltura que é característica apenas dos que sabem representar.
         João Cascão teve um grande papel onde não brilhou tanto como poderia. Que pena a sua forma de falar sem relevos e quase sempre mocórdica! Pela maneira como evolui no palco poder-se-ia dizer que João Cascão seria um grande actor se tirasse partido do texto através duma intenção que está na base da interpretação; Fernando Reis foi pouco convincente e a sua dicção cheia de preciosidade concorre para o prejudicar; António Jorge da Silva, o avô, é hoje dentro do grupo um dos esteios: cheio de qualidades, sabe dizer e conhece já razoavelmente o palco; dos outros, uma referência a Maria Tereza de Oliveira cuja voz não a ajuda e que falou sempre – talvez por isto – com demasiada vivacidade para uma velha; as crianças… são crianças mas não esquecemos os rapazes que se mostraram mais desenvoltos do que a menina.
         O cenário… francamente esperávamos mais de Manuel de Oliveira ou antes… esperava-nos outra coisa.
         Já é tempo de deixarmos a cenografia clássica – mais cara e pesada – para enveredarmos por processos mais simples.
         Boa a sugestão de gabinete de clube dada no 1º quadro do I acto com a faixa escura na parte anterior do palco; os actores é que se não devem esquecer que essa zona escura existe…
         Também a mesa, neste mesmo quadro, era grande demais eclipsando, totalmente, João Cascão.
         Deixamos para o fim propositadamente a principal figura que anima as representações da Sociedade de Instrução Tavaredense: José Ribeiro.
         Não é possível dentro do comodismo da hora em que vivemos entender como é possível existir um José Ribeiro que sacrifica uma vida inteira à cultura e protecção das gentes da sua Tavarede. Dos cinquenta anos de labor dessa Sociedade de Instrução pode dizer-se que os mais belos e de maior projecção cultural se devem ao lutador e estudioso que tem construído uma obra que as nossas principais cidades não desdenhariam de apadrinhar.
         Na representação que ocorreu sobre as tábuas do Avenida, na evolução das figuras vimos constantemente José Ribeiro; pena foi que o não ouvíssemos falar também…

         À crítica cumpre a análise fria dos acontecimentos mas feita dentro dum campo de justiça. Pois baseado nesta mesma justiça deixemos aqui ficar a nossa melhor saudação a José Ribeiro e aos cinquenta anos da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Usos e Costumes na Terra do Limonete -13

         Muitas vezes temos referido o facto de Tavarede, em tempos que já lá vão, ser uma pequena aldeia cujos habitantes viviam e trabalhavam, na sua maioria, na agricultura. Por conta própria, nas suas terras, ou por conta alheia, eram muitos os cavadores que tiravam, do seu trabalho agrícola, o sustento de sua família.
         Era uma vida bastante dura, muitas vezes trabalhando sob um sol abrasador, enquanto noutras tinham que suportar um frio que enregelava. Além disso, e isto ainda durante a primeira metade do século vinte, não tinham horário, trabalhando de sol a sol, cujo relógio era o sino da torre da igreja, tocando as trindades para o início do trabalho ainda o sol estava a despertar, bem como para anunciar o fim do trabalho, quando o sol já desaparecia no poente.
         No mês de Abril os dias começavam a ser maiores, pelo que foi necessário estabelecer um período de descanso a meio da tarde, para recuperarem um pouco das forças dispendidas. Terá sido esta a necessidade de estabelecer este costume e, assim, surgiu o uso de festejar a tarde estabelecida para a chamada ‘merenda grande’. A nossa terra, seguindo o exemplo geral, também celebrava esta tarde.
         Foi um costume que perdurou durante muitos anos, pois ainda nos recorda, e com saudade, confessamos, quando íamos em ‘ranchada’ merendar fora, normalmente no pinhal sito aos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro, bem perto da velha escola primária.
         A primeira nota que encontrámos respeitante a esta celebração, foi em Abril de 1899. “A srª D. Maria Amália de Carvalho, digna professora da povoação de Tavarede, offereceu na passada segunda feira – dia da merenda grande – uma soirée familiar, que decorreu animadíssima entre despretencioso convívio, até perto da uma hora da madrugada.
         O sr. A. Rodrigues recitou o monologo em verso “O Terrível”, entre francas gargalhadas, sendo também bastante palmeado o sr. A. Proa nas suas cartas de magia. Durante o baile esteve tocando, sob a direcção do sr. João Proa, um quintetto que muito agradou.
         De tarde estivera alli executando algumas musicas a “Troupe Gounod”, sendo-lhe offerecido um abundante copo d’agua. Muito mais tínhamos que dizer, mas o espaço de que dispomos n’este jornal não nos deixa alongar mais”.
         O costume já seria antigo pois, no ano seguinte, mereceu uma nota um pouco maior, num periódico figueirense. “Hontem, ao inicio da tarde, quiz-nos parecer que os nossos visinhos figueirenses tinham julgado ser dia de S. João cá na parvonia. Por essas estradas além viam-se ranchos e ranchos de pessoas, e aqui na povoação passavam igualmente muitos outros com cestos enfeitados de verdura e flôres e recheiados de saborosos petiscos, que iam manducar á sombra d’árvores dispersas por ahi fóra.
         Não era porém dia de S. João, mas sim o da festejada merenda grande, tão suspirado por todos os operarios que até Setembro gosam 2 horas de sesta. Tavarede offerecia-nos mais um tom de quem estava em festa, do que a sua apparencia habitual de monotona pacatez.
         Um grande cortejo de meninas e meninos, alumnos da nossa escola elementar, conduzindo cestos caprichosamente engrinaldados de flôres, percorreram muitas ruas da localidade. Á noite a exma. srª. D. Maria Amalia de Carvalho, sua intelligente professora, reuniu em sua casa muitas meninas suas discipulas e outras das suas relações, e ali estiveram em animado convivio até perto da meia noite. Festas e mais festas”.
         Um outro periódico refere “... houve a costumada romaria, dando a Figueira o seu ‘contigente’ avantajado. Muita alegria; muita festa”. Os figueirenses, como se depreende, aproveitavam aquela tarde para recuperarem forças e procuravam os sítios mais aprazíveis da nossa terra, para saborearem as fartas merendas à sombra das árvores ramalhudas. “Foi grande a concorrência de figueirenses que na segunda feira vieram aqui passar a tarde e festejar a merenda grande. Locandas cheias de freguezes, homens de banza á cinta, mulheres sobraçando cestos recheados de acepipes, danças, vozes argentinas soltando cantigas alegres, um movimento desusado nas ruas, emfim, um bocado de tudo se viu aqui n’aquella tarde. As meninas da escola andaram com cestos enfeitados a percorrer as ruas, depois de terem merendado com alegria E era bonito admirar aquelle grupo de gentis creanças, todo coberto de flores, risonho, cheio de candura, a offerecer-nos um quadro simplesmente bello!. Finalmente, uma tarde bem passada para os felizões que vêem com razão que esta vida são dois dias”.

A professora D. Maria Amália de Carvalho, a quem já atrás aludimos, havia estabelecido o costume de, pelas crianças da sua escola, se festejar este dia. Pelos apontamentos transcritos, percebe-se que o cortejo infantil, com os seus cestos cheios de flores, espalhavam alegria pela rua principal da aldeia até ao local escolhido para a confraternização.
 



  
Esta fotografia pertence à peça teatral ‘O sonho do cavador’, onde se recriava o cortejo acima referido, no quadro com que fechava o primeiro acto da peça.

Durante os anos em que aquela professora leccionou em Tavarede, o costume manteve-se, o mesmo acontecendo com a professora seguinte, D. Maria José Santos, como nos relata uma nota de Abril de 1917. “Na escola mixta desta freguezia todos os anos se costuma festejar o dia da merenda grande. Fomos convidados pela digna professora, srª. D. Maria José M. Santos, a assistir a este grande ato d’alegria das creanças, que é, para elas, um dos melhores.
         Assistimos, pois, à sua merenda grande, que foi revestida de bela animação das creanças, com os seus cestos lindamente enfeitados. Antes da merenda viam-se na sala as creanças, de pé, formadas numa roda, cantando varias cantigas populares. Seguiu-se a merenda. Cada creança foi então buscar os seus cestos cobertos de flôres, sentando-se, e cada uma tirando deles o seu variado sortido de comida. Os sorrisos despendiam-se de todos os rostos. A chilreada daquele viveiro encantava toda a gente que o admirava. Após a refeição novas canções entoaram, dançando tambem alegremente, comunicando a sua alegria ao espirito dos assistentes.  Assim se passou na escola desta localidade a tarde da merenda grande. A petizada divertiu-se até fartar e a todos deixou a melhor recordação o seu aprasivel festival. Daqui felicitamos a distinta professora srª. D. Maria José Martins Santos por ter realisado na sua escola uma festa cheia de alegria e disciplina”.

                 No entanto, a festa já não teria o brilho e o aparato dos anos anteriores, pois um outro jornal refere, sobre o mesmo acontecimento, o seguinte: “N’outros tempos, effectuava-se com todo o brilho na escola d’esta localidade a sympathica festa da merenda grande. Este anno, ou por outra na passada segunda-feira, deixou uma tristissima impressão no espirito das pessoas que assistiram áquella festa infantil. Os bons tempos foram-se, e assim vão desapparecendo tambem as tradicionaes festinhas que deixaram gravadas na memoria de todos immensas saudades...”.

As operetas em Tavarede - 10

              
Grupo cénico da SIT em 1928

  (O serão começa ouvindo-se, em fundo musical, a “Valsa do Sonho”) O tema musical que estamos a ouvir chama-se “O Sonho”. Manuel da Fonte acabara de comer e dorme a sua sesta à sombra de uma árvore frondosa. Como desde há uns tempos atrás, está só. Aborreciam-no as cantigas e as risadas das cachopas, sempre na galhofa com os rapazes... Por isso, preferia estar sòzinho. Queria dormir descansado e, como sempre, queria sonhar...

         Era assim que se iniciava a fantasia “O Sonho do Cavador”, representada no nosso palco, pela primeira vez, em 28 de Abril de 1928. José da Silva Ribeiro havia escrito o texto e João Gaspar de Lemos Amorim os versos. A música era original ou coordenada pelo maestro amador figueirense António Maria de Oliveira Simões.

         Antes de prosseguirmos com a nossa história, não queremos deixar de aqui fazer alguns comentários a esta fantasia. E começaremos por dizer que, até aos dias de hoje, “O Sonho do Cavador” foi a peça mais representada pelos nossos amadores. Tomar, Buarcos, Figueira, Coimbra, Pombal, além de Tavarede, foram os palcos onde se representou esta fantasia. Encontram-se quatro versões diferentes. A primeira, que foi a que sofreu mais alterações, estreou-se, como dissemos, em Abril de 1928. No dia 29 de Junho de 1930, é apresentada uma segunda versão. Em Dezembro que 1936 é levada à cena a terceira versão, que se repete em 1942, e em Janeiro de 1987, em espectáculo evocativo, esta fantasia é reposta em cena, numa quarta versão, com diversas alterações. A história é sempre a mesma. Muitos dos quadros é que, ou cortados pela censura ou porque haviam perdido actualidade, iam sendo substituidos, bem como a música.

         As críticas que se encontram inseridas na imprensa da altura, são bastante elogiosas. Todas elas referem belos cenários, magnífico guarda-roupa, espectacular montagem cénica com interpretações correctíssimas e, sempre em maior destaque, uma música encantadora, muito bem cantada, que o público se não cansava de ouvir e aplaudir. Hoje, e porque será a que maior interesse pode despertar, vamos contar a primeira versão.

         Como já dissemos, Manuel da Fonte sonhava, enquanto dormia a sesta. Era um sonho que o fascinava. Pobre desde pequeno, agarrado à enxada na labuta do pão de cada dia, sentiu, então, a ambição da riqueza. “Passa um homem a vida inteira a trabalhar e ao fim, morre de fome; outros, então, sem nunca terem feito nada, apodrecem de ricos. Parece que eles já vêm ricos ricos da barriga da mãe e nós, assim que nascemos, somos logos condenados à pena perpétua do trabalho...”.

         Era assim que ele, conversando com Rosa, a sua prometida, lhe dizia que queria ir em busca da riqueza. Para ela, não passava de um desvairo da sua sua cabeça. Pois não chegou ele a passar uma noite inteira, a cavar, atrás da igreja, à procura do tesouro que ele havia sonhado ali encontrar? Mas, não. Ele estava decidido. Para o pobre cavador a Fada do Sonho não o enganava. E era sempre a mesma coisa, mal fechava os olhos...

         Fada – “Sou eu quem ocupa o seu pensamento. Sonha com a riqueza, com o oiro, e é o oiro falso do meu vestido que o deslumbra. Neste momento, avista a estrada da fortuna, toda ensombrada de árvores carregadas de oiro. A aldeia onde nasceu afigura-se-lhe uma cadeia onde vivem os condenados à pobreza. Esquece-a, abandona-a, sem uma saudade. E tendo quebrado a enxada, caminha alegre e feliz na estrada da fortuna, recolhendo oiro aos punhados. É este o sonho do cavador”.      (enquanto a Fada conta o sonho, ouve-se, suave, a mesma valsa)

         Acorda decidido. Irá à procura da riqueza. Abandona a enxada e prepara-se para ir embora. É então que lhe surge a Agricultura.

   Sou desde a mais remota antiguidade
   Sustento e firme apoio dos Estados.
   Sem mim os grandes homens da cidade
   Morriam dentro em breve esfomeados.

    O camponês curvado à leiva
    Revolve a terra c’o a sua enxada.
     À força de suar, tira-lhe a seiva
      Que se torna abastança abençoada.

      Alegre e contente,
      Mal rompe a manhã,
      Esta boa gente
      Lá vai sorridente
      Para o seu duro afã. 

Ah! sim, a Agricultura. Bem lhe importava a ele. Não, não mudará as suas ideias. Diz-lhe ela que as terras ficarão a monte e que virá a fome bater à porta?


         Manuel da Fonte – “E que me importa a fome dos outros se a minha pobreza também lhes não importa? Dizes que o meu braço é forte e poderoso; mas tu cansáva-lo e em breve acabarias por arruiná-lo. Tenho-te entregado tudo: o meu corpo, que tu exploravas como o senhor explora o escravo, e a minha alma, que só de pensar em ti, nada mais via do que estas leiras de terra que tenho amanhado, como se para além delas não houvesse mundo. Consumias-me de canseiras: obrigavas-me a cavar a terra, sem te importares que o frio me trespassasse os ossos, ou que a brasa do sol me queimasse o corpo, como se em vez de lume do céu fosse medonha fogueira do inferno. E a terra, má, ingrata, traiçoeira, deixava-se rasgar aos golpes da minha enxada, sôfrega, a rir, a rir da minha cegueira de amante, que todo se lhe entregava, do suor do meu rosto que me corria em bica. E que me deu ela em paga? E como recompensáste tu o meu esforço?”

sexta-feira, 21 de março de 2014

Operetas em Tavarede - 9

         Muito mais haveria a contar. Mas algumas das coisas mostradas ao ilustre visitante, já nós as conhecemos. A água da nossa fonte, por exemplo, não podia ser esquecida. Quanto às bruxas, as tais das fitas da sacristia, e parece que havia muitas em Tavarede, essas levou-as o deus Mercúrio para o seu planeta. Deixaram a terra e parece que nunca mais voltaram. As fitas... bem, essas, ainda continuaram e continuam. De vez em quando há cada fita na terra do limonete!...

         Mas o que a todos os visitantes, nacionais ou estrangeiros, deuses ou humanos, o que a todos se mostra, com justificado orgulho, é a força do trabalho do bom povo da nossa aldeia. Terra de cavadores, que de manhã à noite, de verão ou de inverno, debaixo dum sol escaldante ou com a roupa empapada pelo suor e pela chuva, sempre agarrados à enxada, vão cavando o pão de cada dia. Pão de cada dia que, nas tardes quentes do verão, quando as searas estão bem maduras clamavam pela foice diligente das ceifeiras, para o colherem, depois do que para as eiras.

         E sempre, homens e mulheres, novos e velhos, labutando e cantando. A alegria do trabalho, a consolação da fartura, que os seus braços fortes e honrados arrancavam às abençoadas terras de Tavarede, é bem mostrada nas suas cantigas que, de manhã à noitinha, eram soltadas pelas suas gargantas.

  Coro
 Desde manhã ao sol posto,
Arado ou foice na mão,
Seja Inverno ou seja Agosto,
Ceifamos a loira espiga
Ou pomos à terra o grão.

Cavadores
Vamos todos sem cansaço
Na terra dura
Cavar, cavar.
A força do nosso braço
Traz a fartura
Do nosso lar.

Ceifeiras
Somos as ledas ceifeiras
Que vão as messes trigueiras
Segar, ceifar,
Sempre ligeiras,
Sempre a cantar,
 A cantar.

   Coro
  Cavar, Ceifar,
 Ceifar, cavar,
 Sem descansar.


F I M







A Fonte de Tavarede (bersos de Cardoso Marta)

  
    
       O cavador, a cigarra e a formiga




O Sonho do Cavador  (desenhos do prof. Alberto de Lacerda)

                (O serão começa ouvindo-se, em fundo musical, a “Valsa do Sonho”) O tema musical que estamos a ouvir chama-se “O Sonho”. Manuel da Fonte acabara de comer e dorme a sua sesta à sombra de uma árvore frondosa. Como desde há uns tempos atrás, está só. Aborreciam-no as cantigas e as risadas das cachopas, sempre na galhofa com os rapazes... Por isso, preferia estar sòzinho. Queria dormir descansado e, como sempre, queria sonhar...

         Era assim que se iniciava a fantasia “O Sonho do Cavador”, representada no nosso palco, pela primeira vez, em 28 de Abril de 1928. José da Silva Ribeiro havia escrito o texto e João Gaspar de Lemos Amorim os versos. A música era original ou coordenada pelo maestro amador figueirense António Maria de Oliveira Simões.

         Antes de prosseguirmos com a nossa história, não queremos deixar de aqui fazer alguns comentários a esta fantasia. E começaremos por dizer que, até aos dias de hoje, “O Sonho do Cavador” foi a peça mais representada pelos nossos amadores. Tomar, Buarcos, Figueira, Coimbra, Pombal, além de Tavarede, foram os palcos onde se representou esta fantasia. Encontram-se quatro versões diferentes. A primeira, que foi a que sofreu mais alterações, estreou-se, como dissemos, em Abril de 1928. No dia 29 de Junho de 1930, é apresentada uma segunda versão. Em Dezembro que 1936 é levada à cena a terceira versão, que se repete em 1942, e em Janeiro de 1987, em espectáculo evocativo, esta fantasia é reposta em cena, numa quarta versão, com diversas alterações. A história é sempre a mesma. Muitos dos quadros é que, ou cortados pela censura ou porque haviam perdido actualidade, iam sendo substituidos, bem como a música.

         As críticas que se encontram inseridas na imprensa da altura, são bastante elogiosas. Todas elas referem belos cenários, magnífico guarda-roupa, espectacular montagem cénica com interpretações correctíssimas e, sempre em maior destaque, uma música encantadora, muito bem cantada, que o público se não cansava de ouvir e aplaudir. Hoje, e porque será a que maior interesse pode despertar, vamos contar a primeira versão.

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 12

       No Natal de 1901, uma local deseja festas felizes e lembr         a aos tavaredenses o costume antigo de comemorar o ‘nascimento do Deus-Menino’, as consoadas familiares, as tortas doces e os filhós... Mas em Dezembro de 1903 a nota publicada é muito mais extensa. “Houve tempos – e não vão elles muito longe! – em que aqui, n’esta minha terra querida, se representava o presepio na noite de Natal e n’outras da época que, de geração em geração, nos tem vindo a relembrar a Natividade de Christo. Era uma distracção simples, mas reunia ella muitas familias n’um convivio fraternal, alegre, que nos proporcionava uma horas de satisfação intima.
         Ia-se ao presepio, revia-se a gente na garbosidade das moças tavaredenses, vestidas a capricho no traje de pastoras, e admiravamos-lhes tambem as habilidades scenicas, porque ellas quasi sempre debutavam n’esses espectaculos... E d’ahi, os felizes da sorte, regressavam ao lar, e lá iam rodear a certã onde fervia o azeite com os tradicionaes filhós, ou onde o forno trasbordava com doces tôrtas!
         Era assim que se passava por aqui esta feliz quadra do Natal. E hoje, se é certo que ao estomago dos afortunados não faltam as abundantes consoadas com que se celebra a data natalicia, há no emtanto – triste é dizel-o – a falta de qualquer espectaculo que nos recreie o espirito e que venha quebrar um tanto a insipida monotonia d’estas longas noites de dezembro.
         Parece que a gente moça bem depressa adormeceu sobre os triumphos colhidos!
         Isto escrevo eu, porque é a nitida expressão da verdade; porém, moralmente, sinto muito dizel-o. Comprehendo eu bem que tudo cança, e sei que algumas pessoas há que, por justos motivos, se teem affastado do meio em que tanto se accentoava o desenvolvimento da educação dos meus patricios. Essa circumstancia, porém, não obsta a que muitos rapazes deixem de trabalhar no intuito de se instruirem; e, para isso, umas das primeiras coisas de que deviam tratar, era da creação d’um grupo dramatico. No theatro aprende-se muito, todos o sabem; é uma escola que educa e recreia o espirito sem enfado, e d’ella se auferem resultados proficuos, desde que cada um comprehenda quaes os deveres que tem a cumprir.
         Era n’este caminho que eu desejava ver varios conterraneos meus, que bem precisam de o trilhar, e que, tendo horas de descanço, mal as desperdiçam. Trabalhem, por isso, para se instruir, e, fazendo-o, hão-de colher depois os fructos d’esse esforço”.
Ter-se-ia perdido o costume de festejar a data? Os costumados e antigos usos limitar-se-iam à reunião familiar para consoar? A verdade é que as notícias encontradas referem espectáculos teatrais em vésperas do Natal, mas nunca mais referiram o Presépio e os Reis Magos.
Até que, em Dezembro de 1915, “no teatro do Grupo Musical, da vizinha povoação de Tavarede, continuam com muita vontade em ensaios desta excelente peça cénica (Autos Pastoris), que pelo Natal ali será representada”. Mas não chegou a subir à cena, devido ao falecimento de uma pessoa ligada à colectividade e muito considerada na terra. Representaram, embora algum tempo depois da data própria, o Auto dos Reis Magos, completando o espectáculo com algumas cenas pastoris. Deram três representações com este espectáculo.
 


Cena final do Presépio - 1916

Em 1916 já houve Presépio. O correspondente local de um jornal figueirense comentou desta forma a passagem da quadra natalícia. “Este dia, em que as familias se confraternisam n’uma alegria franca, foi passado na nossa terra com prazer. Realisou-se o tradiccional Presepe, nas Sociedades locaes, que foram muito concorridos.   No theatro do Grupo Musical as scenas pastoris foram desempenhadas correctamente, merecendo fartos applausos José Medina e sobrinho nos papeis de Moço e cego, assim como a menina Guilhermina Nogueira e Silva interpretou bem o papel de Anjo. Na scena da Lambisqueira houveram-se com agrado os amadores. Apenas no acto das Cinco pastoras houve a notar o chaile á hespanhola, que deu a impressão o Presepe passar-se n’alguma terra galega.
         A orchestra e os córos estavam afinados. E a casa á cunha. Na Sociedade d’Instrucção correu tambem o theatrinho ao agrado de todos”.
         E a então jovem colectividade resolveu, em boa hora, retomar o uso e costume tavaredense dessas representações natalícias. O Presépio subia à cena quatro ou cinco vezes, o mesmo sucedendo com os Reis Magos e, segundo as notícias encontradas, sempre com casas ‘à cunha’.
         Relativamente ao ano de 1917 encontrou-se a seguinte local. “Com esta peça deram no Grupo Musical o 2º espectaculo, na ultima segunda-feira, vespera de Anno Bom. Lá estivemos tambem. Embora não houvesse da parte do publico tanta afluencia como da 1ª representação, ainda estava uma casa regular, quer dizer, estava uma casa quase como a primeira.
         Todos os amadores foram calorosamente ovacionados, sendo muito acclamado o pandego das castanholas, o amigo Rentão, que gramou no palco uns tesos abraços d’alguns rapazes d’essa cidade e que assistiram ao espectaculo. Foi um bocado de noite bem passada, d’estas noites de pandega e alegria que o Grupo Musical de quando em quando nos proporciona.
         Hontem, dia de Anno Bom, houve lá tambem um baile que se prolongou até á 1 hora da noite. Segundo nos consta, será brevemente levado á scena pelos mesmos amadores, o drama sacro Os Reis Magos, conjunctamente com mais algumas scenas pastoris. Esperemos, portanto, até ao dia da sua representação”.



Cena do primeiro acto ‘Os pastores brutos’

         Acreditamos que o entusiasmo por estas representações tenham ‘arrefecido’ um bom bocado, devido à ausência de muitos tavaredenses enviados para combater na guerra, que grassava na Europa e em África. Mesmo assim, o Presépio foi representado no ano seguinte, bem como o Auto dos Reis Magos.
         “Tem amanhã lugar, no teatro do Grupo Musical, da vizinha povoação de Tavarede, um espectáculo com a representação do tradicional drama sacro Os Reis Magos, conjuntamente com várias cenas pastoris, como Camilo e Cacilda, Romagem das Cebolas, A mulher da cidade, Romagem do Diabo, etc., etc., sendo de esperar que o teatro tenha amanhã uma enchente à cunha, com o que folgamos”.
         Ainda se encontram alusões a estas peças pelas quadras natalícias de 1922 e 1923. A partir de então, caíram no esquecimento total dos tavaredenses. As celebrações religiosas já há muito que haviam perdido o anterior brilho. E se continuou a haver espectáculos de teatro pelo Natal e Ano Novo, já eram com outras peças que nada tinham a ver com tal quadra.

         No dia 20 de Dezembro de 1940 encontrou-se a seguinte nota no Jornal-Reclamo. “Têm prosseguido com grande interesse os ensaios da peça sacra em 4 actos ‘Autos Pastoris’, que o Grupo Musical levará à cena nos próximos dias 24 e 31, no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense”. Assistimos a estas representações, que se repetiram no ano seguinte. E foi assim que em Tavarede acabaram em definitivo estes usos e costumes tanto do agrado do nosso povo. Já lá vão tantos anos que, sinceramente e com pena o dizemos, nunca mais se comemorará como antigamente o Natal e o dia dos Reis.