sexta-feira, 2 de maio de 2014

Operetas em Tavarede - 15

   

             Poeta e pintor Alberto de Lacerda

   Antes de avançarmos na nossa narração, queremos recordar um acontecimento, com esta peça, que, sobremaneira, honrou o nosso grupo. No dia 18 de Julho de 1931, a Sociedade de Instrução Tavaredense foi ao Casino Peninsular, na Figueira, representá-la, em espectáculo de benefício ao Jardim-Escola João de Deus. Honrosamente, quis colaborar neste espectáculo a famosa actriz Ilda Stichini. Era uma grande admiradora do nosso teatro e, por mais de uma vez, esteve aqui, em Tavarede, visitando-nos. Vamos ler um pedacinho que extraímos duma crítica.
       “No primeiro acto houve a nota culminante daquela noite de festa: Ilda Stichini disse primorosamente, com o seu formoso talento e as suas poderosas faculdades de interpretação, A Fantasia e O Riso, belos versos dum artista de pintura que é também um distinto poeta – Alberto de Lacerda. Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida da plateia figueirense. Os versos da Fantasia, disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do Riso, que Alberto de Lacerda escrevera expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que o ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido”.

         Vamos, então, à história de “A Cigarra e a Formiga”. A primeira personagem a surgir em cena é o “Prólogo”. Ouçamo-lo.

       Ora então...
       Santas noites nos dê Deus!
       Sabeis porque estou contente?
       =Porque estou co’a minha gente,
       Porque me vejo entre os meus,
       No meu torrão!
       O que venho cá fazer?
       Na aldeia como na aldeia:
       Vim aqui, depois da ceia,
       Ao cavaco, p’ra entreter...
       Se havia de ir à taberna
       E sair em pura perda
       A dar a direita à esquerda,
       Trocando perna com perna,
       Vim ao teatro. E então?!...
       Cada um faz o que pode...
       Como o povinho está junto
       E eu tirei cá do bestunto
       Uma formosa invenção
       P’ra divertir o pagode,
       Vou contar-lhes uma história,
       = Coisa tão nova e tão linda
       Que ninguém ouviu ainda
       E doutra não há memória.
       Eu até aposto a cabeça
       (De qualquer dentre vocês...)
       Se houver alguém que a conheça
       E a ouvisse alguma vez.
       P’lo nome parece antiga.
       Mas é novinha, palavra!
       Pensei-a ontem, na cama,
       E é toda da minha lavra.
       E se querem que lhes diga
       Como se chama,
       = Isso é p’ra já:
       “A Cigarra e a Formiga”,
       Ora aí está.

       A Cigarra, velha amiga
       De jovial
       Cantoria.
       Para que o mundo conheça,
       Representa nesta peça
       O ideal,
       A fantasia.
       E esta cara de fuínha,
       “A opulenta
       Vizinha
       Dona Formiga de tal”,
       Vereis o que representa,
       E cotejai os valores
       = Que cada qual tem o seu =
       Enquanto eu
       Me recolho aos bastidores.

         Cigarras e Formigas, figuras simbólicas, na presença umas das outras, tentam fazer valer os seus predicados e mostrar os defeitos das rivais.

     Coro
     Cigarras e formigas
     Não têm o mesmo ideal:
      Os cantos e as fadigas
      Ligam mal.
       Porém, talvez um dia,
       A alguém que tenha jeito,
       A sua companhia
       Dê proveito.
       As qualidades boas
       Que cada uma tem,
       Talvez que nas pessoas
        Liguem bem.

        Cigarra, formiga,
        Afinal
        Talvez façam liga
        Menos mal.

 Cigarra
         Assim,
         Com minha alegria...

Formiga
          Assim,
         Com minha porfia,

Coro
           Talvez um dia,
           Em liga bizarra,
           Formiga e cigarra
           Façam companhia.

         Em casa da Cigarra e da Formiga começam, então, a passar algumas figuras simbólicas que, cantando ou recitando, se apresentam ao público. Não vamos recordar todas essas figuras. Quase que aleatoriamente, fizemos uma pequena escolha. A primeira a apresentar-se foi a “Alegria de Viver”

  Em tudo pôs a mão do Criador
  Um filtro singular!
  A essência da ventura e do Amor
  Respira-se no ar!
  O Eden, afinal,
  É este ambiente
  Que o homem consciente,
  Para obter,
  Dispende unicamente
  O esforço de nascer.
  Para quem fôr
  Da alheia dor
  A caridade,
  É sempre o amor
  O mor factor
  Da f’licidade.
  Pois cada dia
  Que se porfia
  Nessa virtude,
  É, por magia,
  Só de alegria
   E plenitude.

Usos e Costumes da Terra do Limonete - 18



s. Martinho – padroeiro de Tavarede
  
         Há mais de mil e vinte anos que o nome de São Martinho é parte integrante de Tavarede, pois, segundo o documento mais antigo conhecido, é numa doação, que a filha do conde D. Sisnando fez, no ano de 1092, do então chamado lugar de S. Martinho de Tavarede.
  Mas, na verdade, foi só na década de sessenta do século vinte, que a nossa terra começou a comemorar, condignamente, o dia do seu santo padroeiro.” Como haviamos anunciado, realizou-se no último domingo a festa em honra de S. Martinho, padroeiro da nossa freguesia, cujo programa inserimos. Dada a sua finalidade - honrar S. Martinho e adquirir, com o saldo que fosse obtido, mobiliário para a Igreja, - a festa trouxe muita gente a Tavarede, dos lugares da freguesia, especialmente, que marcaram presença com os seus andores ornamentados transportando os mais variados produtos para serem leiloados. A Filarmónica Figueirense emprestou brilho à solene procissão, que percorreu as ruas do costume, dentro do maior respeito”.
  Realmente, é verdade que desde o século dezanove, pelo menos, o dia deste Santo não era esquecido pelos nossos antepassados, pois era ocasião de recordar o velho ditado de “no dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho”. E, em Tavarede, eram muitos aqueles que fabricavam o seu barrilzito de vinho, mais água-pé que vinho, e poucos aqueles de amanhavam vinhas suficientes para algumas pipas de bom tinto.
“Deixai-nos, velho santo, que vos apresentemos aqui reverentemente os nossos respeitosos cumprimentos, pela chegada do dia 11, dia em que o Borda d’Agua regista a vossa passagem pela galeria dos santos.
         Grande data, para as gentes da freguezia de Tavarede, por ser a do dia do seu querido orago! Não lhes passa ella desapercebida, e por isso n’aquelle dia à noite se costuma ouvir aqui o festivo estralejar de grande foguetorio, lançado em honra do celebre protector dos amigos do divino Bacho...
         Vê se muita alegria, fazem se importantes magustos, dá-se cresta às roliças farinheiras feitas pelas mais recentes matanças de nutridos cevados, e quasi todos espicham os vinhos da sua ultima colheita.
         Aqui tinhamos nós agora uma bella occasião para attrahir a esta localidade milhares e milhares de pessoas, se soubessemos celebrar ruidosamente o dia de S. Martinho, estabelecendo-se para esse fim um programma deslumbrante que annunciasse grandes procissões, Te Deuns, missas acompanhadas por grandes córos e orchestras, espaventoso arraial, admiraveis fógos d’artificio, musicatas, exposição do Deus Bacho em capellas appropriadas, magustos offerecidos ao publico, etc., etc., etc. Fizesse-se depois constar por toda a parte esta festança e veriamos se accorriam ou não aqui forasteiros dos cantos mais reconditos do mundo!...
         Porém, nunca ninguem se lembrou para isso d’este pobre santo, que no seu tempo foi tão milagroso, e que hoje tem a sua imagem desprezada e esquecida a um canto da sacristia da egreja de que elle é patrono, como se tivesse sido um personagem sem importancia que não legasse à posteridade, como elle fez, tamanha nomeada.
         Bem se vê que estamos nos tempos da ingratidão...
         = É pena dizer-se que muitos dos vinhos novos estão por aqui um tanto deteriorados, em resultado, segundo o que ouvimos, da alta temperatura que attingiram alguns dias por occasião das ultimas trovoadas d’outubro.
         =Estamos em pleno verão de S. Martinho. Depois d’uns dias muito chuvosos succederam outros de verdadeira primavera, vindo o astro-rei, com os seus raios quentes e vivificantes, dar viço às sementeiras.
         A manhã de hontem é que se nos apresentou um pouco fria, vendo se luzir além, nos pastos, uma leve pontinha de geada cahida durante a noite, e que o sol depois bem depressa dissipou.
  O caso é que o tempo corre excellentemente para a agricultura e é bonito admirar a faina em que andam os lavradores cá pelos nossos sitios”.
A partir desta, são muitas as notas encontradas recordando o S. Martinho. Deixai-nos, então, recordar esta nota encontrada no ano de 1902. “Creio bem que muito poucos leitores ignorarão que é hoje dia do bemaventurado S. Martinho, o orago querido cá da minha terra natal. Eu sei que há de haver muita gente com inveja de o não ter egualmente por patrono, mas deixem-me dizer-lhes tambem que elle era digno de exercer as suas funcções n’uma freguezia onde melhor soubessem admirar os seus milagres e virtudes... Porque aqui, agora ás 9 horas da noite, por exemplo, deitam-se foguetes, fazem-se lautos magustos, espicha-se o vinho novo, e, enfim, quasi todos se alegram, mas a verdade é que não há um único devoto que vá festejar o santinho á egreja, onde jaz esquecido, não obstante as capellas terem sempre quem as visite. E isto porque lá entendem que o S. Martinho a que o calendario consagra o dia de hoje ficará mais satisfeito por ali lhe prestarem respeitoso culto. E é por isso que em muitos templos do celebre Deus Bacho se commemora ruidosamente a passagem do nosso adorado orago, não faltando cantochão acompanhado por estes versos caracteristicos há muito soltados por uns inspirados devotos:
                            ... Viva S. Martinho...
                            Reine a santa frescata... e chova vinho...
                            Ajoelhemos, tirando a barretina,
                            Ante o santo que a todos nós domina.
                            Juremos, pondo a mão sobre o barril,
                            De fazer das guelas um funil
                            Quando o vinho corra... Viva! Viva
                            S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

         Pois aqui mesmo, vá lá tambem um viva! E juntamente um rogo benemerito: que S. Martinho se compadeça dos seus admiradores que por ahi andam aos trambolhões e que tantas vezes dão causa a funestas desgraças.

O Associativismo na Terra do Limonete - 74

               
A Conspiradora 


          É assim de resto e só assim, que se operam “milagres” do género dos conseguidos pelos amadores de Tavarede. “Milagres” que deixam sobretudo surpresos aqueles que pela sua craveira intelectual, estão em melhores condições para lhes apreender, em toda a sua extensão, o valor e significado.
         Não pode pois com verdade dizer-se, que na pobreza actual das suas manifestações culturais, nomeadamente no género artístico, a Figueira não tenha presentemente quem lhe garanta uma projecção muito acima do vulgar, pelo brilho e fulgor duma destacada e louvável actuação, toda ela ao serviço da cultura popular, da benemerência e da divulgação do bom teatro.
         Ainda que para tal, como se verifica, a cidade tenha de socorrer-se da subida valia e dos invulgaríssimos méritos do grupo cénico de modesta aldeia do seu termo.
         Para seu lustre e justa fama perante estranhos.
         E confrangedora humilhação aos próprios olhos.
         Não fosse o “milagre” de Tavarede a condenação mais formal da indolente apatia que, em flagrante contraste, há muito invadiu e domina a cidade…

E após as habituais deslocações a Coimbra e a Tomar, o grupo cénico foi, pela primeira vez a Torres Novas. Conforme havia sido noticiado, veio no passado dia 27 do mês findo a esta Vila para dar um espectáculo no Teatro Virginia em homenagem à Comissão de Honra do Virgínia, Clube Desportivo de Torres Novas e Grupo de Senhoras Dirigentes da Colónia Infantil de Férias, o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense que chegou ao Largo do Paço cerca das 19 horas. Aguardavam-no, a Banda Operária Ribatejana, Bombeiros Voluntários e muito povo. Dali, o cortejo dirigiu-se à Câmara Municipal onde os componentes do Grupo Cénico foram recebidos pelo sr. Presidente, Vereadores e outras entidades. O sr. dr. Alves Vieira apresentou-lhes as boas vindas, a que o orientador e ensaiador do simpático grupo, sr. José Ribeiro, agradeceu.
         À noite, com o nosso excelente Teatro repleto, realizou-se o espectáculo. Antes, porém, mais uma vez, falou o sr. Presidente da Câmara que fez o elogio do Grupo Cénico de Tavarede. O sr. José Lopes dos Santos dirigiu também algumas palavras de saudação em nome dos antigos amadores torrejanos e recitou um soneto dedicado ao Grupo de Tavarede e ofereceu-o ao sr. José Ribeiro. O Presidente do Clube Desportivo, sr. Manuel Vences entregou uma lembrança. Por fim, agradeceu o sr. José Ribeiro em nome do Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, todas as provas de simpatia dispensadas desde a chegada, e, num empolgante improviso, falou das belezas de Torres Novas, da grande obra que é aquele Teatro que os seus olhos contemplavam e enalteceu as qualidades dos torrejanos. E imediatamente principiou a representação da peça “A Conspiradora”, a que o nosso colaborador F.F. faz a seguir as suas apreciações.
Conhecendo já, de tradição, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e, informados – quer por leitura de notícias críticas publicadas na imprensa quer por referências orais que me foram feitas por pessoas que assistiram a alguns dos espectáculos promovidos por esse Grupo – da qualidade, merecimento, importância e significado da obra levada a cabo pelo seu director artístico, o jornalista José Ribeiro, foi com alertado interesse e em alvoroçada expectativa que nos dirigimos no passado sábado ao Teatro Virgínia para assistirmos à representação de “A Conspiradora”.
         Devemos dizer, antes de mais, em homenagem à verdade, que esse interesse teve uma compensação positiva e essa expectativa não foi iludida nem ludibriada. De facto, valeu a pena ir ao Virgínia ver e ouvir o grupo de Tavarede!
         Diremos mais: - Dos conjuntos de teatro de amadores que já vimos actuar, tais como o Grupo Dramático Lisbonense quando ainda era dirigido pela malograda e inolvidável Manuela Porto e o Grupo Dramático da “Sociedade de Instrução Guilherme Cossul” orientado por Jacinto Ramos (hoje director do Teatro Experimental de Lisboa), aquele que, a nosso ver, traduz e consubstancia um maior mérito cultural é, sem dúvida, o agrupamento de que José Ribeiro é o grande animador.
         Não por ser o mais homogéneo, disciplinado e coeso. Não, também, por possuir um mais elevado grau de afinação artística, de maturidade interpretativa, de consciência teatral, de equilíbrio cénico.
         Muito menos pela superioridade intrínseca dos textos dramáticos que constituem o seu repertório.
         Tão-pouco pela maior justeza técnica, audácia intelectual, sentido rítmico, originalidade formal, poder imaginativo, consistência interna das suas encenações (neste particular, Manuela Porto, rasgou amplas e fecundas perspectivas no Grupo Dramático Lisbonense que foram, de modo algum, aproveitadas, continuadas e até enriquecidas pelo Teatro Experimental do Porto da direcção de António Pedro).
         O que, em nosso entender confere ao Grupo Cénico de Tavarede um significado e um alcance pedagógico-culturais ainda não logrados em associações congéneres é o facto de o referido grupo ter surgido numa pequena aldeia, portanto num reduzido aglomerado populacional e ali recrutar os seus elementos e, ainda, nesse meio rural, encontrar o público bastante (em número, em devotamento e em compreensão) para apoiar e proteger, moral e materialmente, os seus empreendimentos teatrais.
         Eis o que se nos afigura singular, admirável, único, na geografia cultural do nosso país.
         Que prodigiosa escola de cultura popular, de pedagogia social, de educação estética, de convivência cívica, de cooperação humana ergueu José Ribeiro em Tavarede com o seu grupo de amadores teatrais, onde os instintos se sublimam, os sentimentos se enobrecem, os impulsos naturais se refreiam, as forças inatas do espírito se desenvolvem, os recursos da inteligência se valorizam, as virtualidades artísticas da sensibilidade se consciencializam, tudo dentro duma disciplina, livremente consentida, duma convergência voluntária de esforços, de um trabalho colectivo, desinteressado, heróica e despretenciosamente efectuado; disciplina, convergência, trabalho estes que sobre as tábuas de um palco assumem uma harmoniosa e construtiva expressão de paz espiritual, de saúde mental, de beleza plástica e vivência emotiva.
         Que dizer do nível da representação de “A Conspiradora” no passado dia 27 de Abril?
         Dizer que esse nível foi óptimo, excelente, impecável, seria mentir desnecessária e inutilmente e, além do mais prestar um mau serviço ao grupo de Tavarede.
         Mas, sem sombra de complacência ou ponta de exagero, podemos tranquilamente afirmar, seguros de que ninguém nos contestará a asserção, que tal nível foi francamente satisfatório se não nos esquecermos (e não o devemos honestamente fazer) que os rapazes e as raparigas que vimos representar no Virgínia a peça de Vasco Mendonça Alves não só são amadores, mas também e, muito principalmente, são homens e mulheres de modesta condição social (quase todos eles operários) e de escassa instrução.
         De uma maneira geral, todos os intervenientes na representação da peça possuem uma dicção correcta, uma articulação e colocação de voz aceitável que, embora apresentando deficiências e quebras, muito raramente caiem na melopeia silábica, num enfatuamento declamatório, na tonitruância oratória.
         Quase todos com jogo fisionómico expressivo (alguns até, forçando a nota, acentuando caricaturalmente o recorte já de si pitoresco e anedótico de certas personagens – por exemplo: - o cónego Raimundo, Governo, A Morgada de Loures).
         Há que destacar, porém, por um acto de justiça, os amadores que encarnam os personagens da Marquesa do Souto dos Arcos, de Clara e do Padre António, que deram mostras duma capacidade histriónica e de uma desenvoltura interpretativa pouco vulgar entre amadores.
         Quanto à peça, achamo-la, para nosso gosto, pobre de miolo dramático, frouxa de autêntica teatralidade e de coerente acção dialogal, aliterada e de indigesta dialéctica verbalística, superficial e demagógica no tocante ao seu conteúdo ideológico, demasiadamente descritiva e retoricamente (tão só, não mais!) evocadora dum acontecimento histórico que merecia e consentia um mais hábil, flexível, penetrante e consequente tratamento cénico.

         Terminando, formulamos um voto de esperança: - é o de que, muito em breve, existam em Portugal, disseminados pelas suas cidades, vilas e aldeias, muitos grupos de teatro de amadores que seguindo o exemplo do de Tavarede desmintam aqueles que, com certa razão, melancolicamente o reconhecemos, afirmam que o movimento associacionista entre nós quase sempre se vem confinando aos clubes desportivos.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete -73

         Ainda neste mesmo ano de 1956, uma iniciativa houve que mereceu enorme apoio. A Sociedade carecia de obras na sua sede. Para tal, e graças ao projecto graciosamente oferecido pelo arquitecto José Isaias Cardoso, meteram ombros a uma trabalhosa campanha para a angariação de fundos. A imprensa colaborou e a ‘Campanha do Tijolo’ recebeu o melhor acolhimento. Acabaria por ser a Fundação Gulbenkian quem tornou as obras possíveis.

         Entretanto, e pelo aniversário de 1957, foi apresentada a peça A conspiradora. A mencionada ‘Campanha do Tijolo’ começava a produzir os seus ferutos. Tavarede recebeu mais uma embaixada, que aqui veio prestar homenagem à Sociedade de Instrução. Foi uma embaixada sintrense. Como aqui foi noticiado, nos passados dias 26 e 27 de Janeiro esteve em festa, comemorativa dos seus gloriosos 53 anos de activa e generosa existência, a beneméria Sociedade de Instrução Tavaredense, conceituada pioneira da educação e instrução popular, desde sempre a espalhar o bem pelas instituições de caridade, merecedoras de carinhoso auxilio, tanto no distrito de Coimbra, onde o conceito do seu afamado grupo cénico atingiu o apogeu das coisas boas, como no dos Porto, Aveiro, Viseu, Leiria, etc. etc.
         Ao saudar tão prestimosa colectividade de cultura e recreio, deslocaram-se à risonha aldeia de Tavarede, que fica apenas a um pouco mais de um quilómetro da Figueira da Foz, além do director deste jornal, António Medina Júnior, os srs. Eduardo Frutuoso Gaio, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Sintra, e tenente Manuel de Matos, grande proprietário e benemérito, que foram na missão da simpatia, da solidariedade e da gratidão pela SIT, cujo conjunto teatral há pouco aqui se exibiu – desinteressadamente – interpretando, com muito brilho, “Frei Luís de Sousa” e “Peraltas e Sécias”, a favor do nosso hospital.
         No sábado, 26, no seu teatrinho, assas acanhado e deficiente, subiu à cena, em 1ª representação, a excelente peça “A Conspiradora”, do dr. Vasco de Mendonça Alves, recentemente interpretada, no Teatro Nacional, em Lisboa, por categorizados artistas, entre eles sendo de justiça salientar a gigantesca e brilhante personalidade de Palmira Bastos.
         Rigorosamente “vestida” e “calçada”, “A Conspiradora”, ensaiada competentemente por mestre José Ribeiro, pode considerar-se mais um grande triunfo para os amadores tavaredenses (cerca de 40 figurantes), que, contamos, deverão voltar em breve a Sintra para mostrar, mais uma vez, as suas “milagrosas” habilidades…
         No dia seguinte, domingo, realizou-se uma brilhantíssima sesão solene, tendo os tavaredenses distinguido para a presidência da mesma o delegado da Misericórdia de Sintra, nosso dedicado colaborador e amigo sr. Eduardo Frutuoso Gaio, que ofereceu ao glorioso estandarte da SIT um laço de fitas de seda com sentida dedicatória do Hospital de Sintra – em testemunho de apreço e gratidão.
         Manuel de Matos, também em lugar de honra, ofereceu, por intermédio do “Jornal de Sintra”, seis ampliações, encaixilhadas, vivos fotográficos da inesquecível jornada dos tavaredenses a Sintra, em Setembro do ano transacto, bem como um exemplar deste semanário, igualmente encaixilhado, contendo a reportagem que então foi feita à brilhante actuação do Grupo Cénico Tavaredense.
         Diversos e ilustres oradores se referiram à abnegada acção da SIT nos seus já longos 53 anos de existência, por isso mesmo que tão primoroso acto solene constituiu uma verdadeira apoteose à coragem, à perseverança, à dedicação, à paixão de bem-servir – e ao incontestado valor de tão bondosa e humilde gente, que sacrifica o seu sagrado descanso, nas curtas horas em que abandona os campos, as oficinas e os escritórios, para se dedicar, com amor e ternura, à prática do bom Teatro…
         … mais em proveito material das pias instituições de caridade, do que da associação, que está acanhada e demasiadamente pobre para conter almas tão grandes e tão generosas…
         Foi neste sentido que o autor destas linhas, como tavaredense, sugestionou a ideia de se apelar para os admiradores e amigos da SIT, a fim de que estes lhe dessem um pouco do seu carinho, destinado a urgentes e imprescindíveis obras de ampliação e arranjo na respectiva sede associativa. Foi dentro deste principio que, por intermédio de amigos seus e das colunas do “Noticias da Figueira”, agora se começou a merecida campanha do tijolo, a favor de uma benemérita instituição que se esqueceu sempre de si – para pensar apenas nos outros…
    
A Conspiradora (Violinda Medina e João de Oliveira Júnior)

      O tenente Manuel de Matos (velho admirador e amigo da Figueira e de Tavarede), em Sintra secundou imediatamente a ideia, iniciando a campanha com mil escudos. E em Tavarede, na festa da SIT, no uso da palavra, não só entusiasmou e encorajou os outros, com ainda contribuiu com mais dois mil escudos para os fins em vista – prometendo mais e mais “tijolos” assim. “Andem, andem para a frente – e contem comigo. Agora e sempre. Uma obra tão elevadamente humanitária e cristã como esta bem merece ser acarinhada e ajudada por todos aqueles que, como eu, possuem olhos para ver, coração para sentir e cérebro para pensar. O José Ribeiro bem merece de todos os peitos bem-formados a especial admiração e respeito só devidos a homens possuidores de excelsas qualidades e virtudes como ele. Eu aqui estou, na qualidade de seu velho amigo e admirador, para lhe garantir presença e colaboração. Mão à obra, pois, e para o próximo aniversário desejo cá voltar, com o Frutuoso Gaio e o Medina, para festejarmos mais um aniversário da Sociedade, mas já na sua casa nova”.
         Assim falou, em síntese, o tenente Matos, a quem agradecemos todas as penhorantes provas de compreensão e de carinho com que se dignou interpretar a obra e as necessidades da SIT.
         À embaixada sintrense – tão penhorantemente distinguida e cumulada com as maiores e mais honrosdas atenções – foi por José Ribeiro oferecido, em sua casa, um primoroso jantar “familiar”, a que também esteve presente o ilustre professor Alberto de Lacerda, que desenhou e pintou os adereços de cena e que é um apaixonado amigo dos tavaredenses, em geral, e da SIT e de José Ribeiro, em particular.
         A senhora de Manuel de Matgos ofereceu à veneranda mãe de José Ribeiro, infelizmente privada dos órgãos visuais, a quantia de 400$00, destinada aos seus pobres, acto esse que provocou grande alegria ao coração da virtuosa senhora, que sente prazer em fazer bem sem olhar a quem…
         Na segunda-feira, o considerado industrial da Fontela, nosso velho amigo José Joaquim Guedes, impôs que a embaixada sintrense não partiria da Figueira, de regresso “à base”, sem que, primeiramente, almoçasse em sua casa. E que linda casa ela é!” Ou por outra: que primoroso “chalé” que a muito querida familia Guedes construiu na Fontela, rodeada de pinheiros, eucaliptos, pomares e vinhedos, num magnifico planalto sobranceiro ao ubérrimo e remançoso Mondego!...
         Não sabemos descrever a maneira verdadeiramente anfitriónica e cativante como o José Guedes, a sua distinta esposa e demais família nos receberam e trataram!... Não sabemos!... Por último – que tocante surpresa! -, o nosso velho amigo, que o é também do tenente Matos e do José Ribeiro, deu-nos uma carta, que ia dirigida ao presidente da SIT, na qual lhe afirmava a sua pronta solidariedade à nossa iniciativa, generosamente iniciada e fortificada pelo Matos, e, como tal, ia mandar para Tavarede, imediatamente, duas toneladas de tijolos e punha à sua ordem tonelada e meia de cal.
         Foi dentro de satisfações e alegrias como estas – que tanto sensibilizaram a nossa alma profundamente bairrista – que a embaixada retirou da Figueira para Sintra, onde chegou bem (o Matos e senhora, o E. Gaio e senhora e nós), no cómodo e amplo “De Soto” do amigo tenente Matos – aliás um “volante” cauteloso e prudente, daqueles que sabem praticar o proclamado preceito que diz: “devagar, que tenho pressa”…
         Sabemos que em Tavarede já vai engrossando o volume da campanha do tijolo para as obras da SIT. E que na Figueira e concelho o reflexo há-de ser acarinhado e secundado. E quem diz no concelho, diz nas muitas outras terras por onde os simpáticos rapazes da SIT têm andado, há 53 anos, a repartir abnegados esforços em proveito dos pobres…
         … absolutamente esquecidos de si, pois também não são ricos…
         Não nos atrevemos a pedir em Sintra, um tijolo para as obras da benemérita associação de recreio e cultura onde nascemos. Todavia, se houver alguém que queira ter essa generosidade – desde já se regista e agradece reconhecidamente.

         A peça A conspiradora continuava a sua carreira. E em Março de 1957, depois de um espectáculo no Casino da Figueira, encontrámos a seguinte nota: Aludimos no último número deste periódico, à actual pobreza do nosso meio, quanto à prática de actividades de ordem cultural, o que merecem a inteira concordância de algumas pessoas amigas, as quais, na intenção de documentarem com factos a manifesta decadência da Figueira a tal respeito, em comparação com o que nela se verificou em tempos passados, nos forneceram curiosos pormenores sobre a vida e actuação de alguns agrupamentos artísticos locais de outrora, embora então tanto o número de habitantes como o grau de instrução destes fosse bem mais reduzidos e modestos.
         Causas e razões que motivam a presente situação, constituem sem dúvida alguma problema complexo de tentar explanar e discutir. E nem é essa agora a nossa finalidade.
         Levou-nos hoje a falar do assunto apenas a circunstância de termos assistido há dias, no Teatro do Peninsular, à representação de “A Conspiradora”, pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, espectáculo a que se dignou assistir o próprio autor da peça, dr. Vasco de Mendonça Alves.
         Por ser evidente que o tempo não corre propício a cometimentos do género, e que mais profundamente nos impressionou o alto nível artístico de tal espectáculo, desde a montagem à interpretação.
         Se só as excepcionais faculdades de José Ribeiro, o seu espírito de sacrifício, a sua dedicação sem limites, o seu grande talento, tornam possível transformar modesta gente de trabalho em amadores daquela categoria e mérito, não podemos no entanto deixar também de admirar nestes, a força de vontade, a persistência, o desejo de acertar, o tenaz afinco posto em aprender a lição, embora para tanto haja que, sem desfalecimentos nem desânimos, não olhar a canseiras nem a dificuldades, numa voluntária renúncia a horas de lazer e até de merecido descanso, tendo apenas em mente e como compensação, fazer sempre melhor e mais perfeito e elevar cada vez mais alto o nome da sua terra e da sua colectividade.















Usos e Costumes na Terra do Limonete -17

         É que aquela Várzea é bem, neste dia, um altar onde as moças poisam as melhores preces de seu amor feliz, e onde fazem as preces da sua alegria venturosa. Reboam ali, naquele largo, pertinho da Fonte, cantigas desfiadas por fieiras de oiro, correndo, como veios de água cantante e fresca, cada vez mais felizes, cada vez com mais encantos.
         E quando o sol se ergue para doirar a folhagem tenra dos arbustos, a desafiar o viço e a roubar a frescura das rosas – manchas de neve, pintas de oiro ou pontos vermelhos, sensuais, de fogo aveludado -, em que a palidez da madrugada empresta às moças desaparece, para as fazer de olhar mais perturbante, mais amoroso e mais feiticeiro, a ventura, a saúde, o prazer de gosar a liberdade, de cantar e de viver, assim, à sôlta, - viver que não extenua, que não cansa, que perturba e entontece, - então os corações erguem-e mais altos, tão altos como a alegria juvenil da mocidade – tal qual como os braços espinhosos das roseiras, e contam á água fresca que os cântaros levam, a sua alegria que, por ser muita, é sempre pouca – tão curta é a hora feliz que os venturosos julgam descuidadamente viver!
         Pudessem muitos mentir, e na madrugada de amanhã, o riso a florir nos lábios, a alma, lá dentro, a brincar contente, satisfeita e feliz, ir até à Várzea, nos ranchos alados da mocidade, e dizer às rosas, no seu dia, o que sentem e o que não podem dizer!... Se assim fôsse, todos seriamos felizes, todos seriamos alegres, contentes, pelo menos, aparentemente. E as rosas, no dia do seu culto, teriam, naturalmente, mais beleza, mais frescura e mais perfume!...”.
         Como referimos ao princípio, é com verdadeira teimosia que se continua a querer recordar este costume na terra do limonete. Que o possa ser por muito tempo, embora já estejamos crentes que as flores e o limonete já serão insuficientes para ornamentar os potes. Julgamos que a melhor forma de terminar a recordação deste uso e costume tavaredense será a transcrição duma nota publicada, há cerca de cem anos, sobre a fonte da Várzea e o dia primeiro de Maio.
         “Meu amigo Carlos Dias
                   Sabes porque não te tenho escripto? Vagas perguntas as minhas, por que, certamente, já adivinhas te que tem sido por falta de dinheiro para a estampilha do correio. Desculpa, meu amigo. Não se ouvia uma voz e estava sonora...
                   Ia falar-te da Varzea sem primeiro reproduzir o que sinto. É o enthusiasmo ardente que me guia, um verdadeiro paraizo tudo o que a natureza me mostra... Vê lá tu o ceu, esse azul que é tão intenso na primavera, mesmo hoje com uma côr baça admiro-o mais do que nunca! Vejo-me hoje innundado d’uma luz tão amiga, que, tudo o que posso alcançar com a vista, se vem estampar no meu coração, exactamente como a imagem d’um anjo muito amado!
                   Olha, meu amigo, se eu não vivesse bezuntado na pobreza das letras d’este seculo; se eu soubesse claramente o tempo em que vivo, onde me encontro, retrataria, com todos os reflexos multicolores e as pedrarias que resplandecem nos contos immortaes. Contudo, como alguma coisa vês no teu amigo, dá, a esta carta, o valor que ella merece.
                   A Varzea é que eu não esqueço. Fui lá hoje, logo ao raiar do dia e notei-a deserta, sem uma habitação, nem uma arvore. Vi que foi creada n’um logar escolhido por Deus, porque, estre aquelles muros e rente á terra, dá-nos um aspecto exipcio! Era muito cedo ainda quando lá cheguei. Fiquei a contemplal-a por algum tempo. Depois, vi chegar uma moça esbelta, de uns olhos tristes e brilhantes, de uns olhos de apaixonar um principe. Encheu a bilha, e, embiocada, curvou-se ao ranger do queixume entrecortado que, devagarinho, nos mostrava a corrente da agua crystalisada. Ajudei-a em seguida a pôr a bilha á cabeça, e, dizendo-me ruborisada o seu “muito obrigadinho”, tomou de novo o seu caminho. Era morena e tinha uns braços rijos e mui redondinhos, vi-lhos nús até ao cotovello!
                   Não esqueço, por largo tempo, a Varzea, crê, meu amigo. Quasi que não sahia de lá, preso por um bruxedo guloso, e, o que mais me apressou a retirar, foram as fitinhas de agua que cahiam do ceu semelhantes a chumbo derretido. Se não fosse isto, havia de esperar por mais bilhas trazidas por mãosinhas de riquissimas donzelas!
                   Tudo me falou com docilidade: o brando vento que vinha de Tavarede, o chilrear dos passarinhos que saltitavam nas sebes, o resar do Oceano que se ia já a perder por aquellas planicies.
                   Bem sabes, meu amigo, que sempre admirei as fontes. Tantas tenho conhecido, algumas tão historicas que até uma rainha venerou em tempos!
                   Quando trago á memoria duas fontes que conheço desde o meu berço - a Portella e a Azambuja - afigura-se-me logo vêr, na Varzea e junto ao filtrar da agua, pastores e namoradas a combinar o dia do casamento. N’uma dessas fontes, na Azambuja, lavou as mãos a rainha D. Leonor.
                   Como eu saboreei e respeitei aquelle ar puro e fresco á beira da fonte da Varzea!
                   Varzea. Varzea, falta-te o musgo que reverdece na primavera; falta-te o sobreiro que ensombra nas tardes de um sol de fogo; falta-te um poço predilecto dos espiritos sublimes, onde as cachopas da terra possam mostrar-nos, descuidadas, a alvura dos seus virginaes seios... Mas nem por isso deixas de ser a Varzea tão bemdita, quer na filtradinha bebida que nos dás, quer na confiança que nos inspiras!
                   Oh! Quem tivesse conhecido a Varzea em tempos, havia de se rir agora de mim, por querer engrandecel-a... Quando aquella bicasinha brotava de entre as urzes e as giestas, decerto que a Varzea, com o seu aspecto selvagem, havia de chamar-se preciosidade! Se tu ouvisses, meu amigo, como eu ouvi, um côro de anjos tão melodioso e delicado a caminho da Varzea, n’uma noite de luar, de segredos e attitudes, já não dormias! Levantavas-te, como eu, para acompanhar o cortejo enfeitado de rosas e laranjas, seguir de perto os canticos harmoniosos, sentir o incenso de todo aquelle montão de virgens e flôres, e, por fim, beberes um copo da purissima agua offerecida pelas mãos d’uma docissima Margarida!
         Quando? - perguntas tu. - Ás virações da manhã do dia 1º. de Maio. Marcos”.


                                     O que restava da fonte da Várzea  antes de ser destruída



As Operetas em Tavarede -. 14



A Merenda Grande (de 'O Sonho do Cavador')

           A vida na aldeia continuava. Os costumes não se haviam alterado. As tesouras, como sempre, iam cortando nas casacas alheias; o amola-facas-tesouras dava-lhes umas ajudas. Afinal, nem o relógio ainda conseguira fazer-se ouvir badalar na torre da igreja! O Manuel da Fonte chega à aldeia. Saudoso, enche os olhos com a alegria da paisagem da terra. Anoitece. Ouve-se, então, o sino da torre da igreja tocando as trindades.

         Trindades – “Trindades na aldeia, são horas de ceia... Há tanto tempo que o povo não nos ouve. Não há quem queira badalar-nos no sino da torre. E fazemos falta. Trindades!... De manhã, dizemos ao cavador que é a hora de erguer a enxada para a labuta do pão; à tarde, anunciamos-lhes o fim da tarefa e chamamo-lo a casa. Trindades na aldeia, são horas de ceia...”.

 É sol posto, finda o dia,
 Tocam trindades na aldeia.
 O cavador volta a casa
 Pois que são horas da ceia.

 Todo o dia a sua enxada
 Trabalhou sem descansar,
 Ganhou o pão da família,
 É noite, vai repousar.

         Manuel da Fonte resolve-se. Procura Rosa, a sua noiva. Ainda o esperaria ela? Ainda o quereria?

Rosa
O meu amor,
O meu amor!
Meu peito estremece,
Bate o coração,
Com mais vigor.
Minha alma entontece
Embriagada de comoção.

O meu amor!
O meu amor!
Embriagada de comoção
Minha alma entontece,
Meu peito estremece,
Bate o coração
Com mais vigor.

Manuel
Rosita, minha vida!
Meu casto e puro anelo!

Rosa
Manuel, meu bom Manuel,
Oh! meu primeiro amor!

 Manuel
A minha alma dorida
Teve enfim guarida
No teu olhar tão belo.

Rosa
Meu pobre, meu pobre coração
Bate com mais paixão
Ouvindo o meu amor.

Ambos
No campo onde a alvorada
É luz, perfume e cor
Perfume, luz e cor!
A alma enamorada
De alegria, de alegria
Não sonhada
Só nos fala de amor.
E que outro pensamento
Ali teria mais dura
Mais dura!
Se nesse encantamento
A vida toma alento,
Paz, conforto e ventura!
 Se falam dele a planta,
A terra, a rocha, a flor,
 Se entre beleza tanta
Tudo ri, tudo canta
O seu eterno amor!
Vem pois, ó minha bela,
Ouve a prece meiga e singela
De quem vive a sonhar
A sonhar
Num casto e doce enleio!
 Vem viver!
 Vem amar!
 O céu será capela
 E farei meu altar
 Bem junto do teu seio
 Para dormir, sonhar...

Perdoou-lhe. Vinha mais pobre? Não interessava. Nunca tinha tido a ideia da riqueza e quanto à enxada, essa guardara-a o Ti João da Quinta. Ali estava ela à sua espera. E quando Manuel da Fonte abraça Rosa, sob a benção de seu pai, entra um rancho de cavadores e ceifeiras que saudam, alegremente, o seu regresso. Voltavam a casa, depois de mais um dia nas sachas. E, como sempre, sem tristezas nas suas almas de gente simples, mas puras, honrados com a fortuna do trabalho, que, ao final, era toda a sua grande riqueza.

 Coro
 Desde manhã ao sol posto,
Arado ou foice na mão,
Seja Inverno ou seja Agosto,
Ceifamos a loira espiga
 Ou pomos à terra o grão.

 Cavadores
Vamos todos sem cansaço
Na terra dura
Cavar, cavar.
A força do nosso braço
Traz a fartura
 Do nosso lar.

 Ceifeiras
 Somos as ledas ceifeiras
 Que vão as messes trigueiras
 Segar, ceifar,
 Sempre ligeiras,
 Sempre a cantar,
 A cantar.

Coro
 Cavar, Ceifar,
Ceifar, cavar,
Sem descansar.



I N T E R V A L O