sexta-feira, 23 de maio de 2014

Operetas em Tavarede - 18

         Foi sem vontade que Luísa acompanhou seu noivo e seu pai ao arraial. João Viúvo queria mostrar a todos a sua conquista. Algumas raparigas, sabendo que tanto a alegria de José Cigarra, como a resignação de Luísa, eram aparentes, entendem, por bem, desafiá-los para cantarem uma desgarrada.

            Luísa    
Benze as terras, S. João,
Benze as terras, meu santinho,
Que a riqueza do aldeão
Sai da terra em pão e vinho.

            José 
Ser rico é ser escorreito,
Ser grande é ter coração.
Mais vale um amor no peito
Que vinte leiras de pão!

            Luísa 
Quem tem de morrer donzela
Não queira mudar os fados.
Fui bochechar à janela
Ouvi dobrar a finados!...

            José 
Queres que o mundo te aponte
Por modelo de inocência...
Lavaste a cara na fonte,
Faze o mesmo à consciência.

Este quadro da festa, diz-nos o crítico a que já nos temos referido, “é um quadro cheio de realidade, felicíssimo sob todos os pontos de vista, que inclui uma desgarrada cantada pelos dois noivos, ela porque a isso a constrangeram, ele para lhe responder, que é um verdadeiro achado teatral e um primor de poesia no género”.

         O terceiro acto é o culminar da vitória do amor sobre a ambição. “José Cigarra vai a casa da Formiga e, enquanto espera, adormece e sonha. No seu sonho aparecem-lhe, nas suas verdadeiras proporções, as figuras reais da peça. João Viúvo é a Formiga com todos os seus defeitos e sem nenhuma das suas qualidades. Ele próprio, é a Cigarra estouvada demais e com pouco amor ao trabalho. Pesando prós e contras, ele mesmo tira as conclusões e é já abraçado a Luísa, que nunca deixara de lhe querer, que responde à Cigarra e à Formiga e às suas censuras, a uma porque se inclina para as teorias da outra. Ambas têm qualidades e ambas têm defeitos. José Cigarra aprendeu com ambas e concluíu que é preciso trabalhar, lutar, ser bom e honrado, sem deixar de ser alegre e de divertir-se. De toda esta lição, acaba por sair a inevitável e eterna vitória do Amor.

 Co’um raio! Eu sou muito rude,
 Nasci na aldeia, não sei
 Com que palavras o diga.
 Não sei, mas haja saúde!
Não dirão que me calei
À Cigarra e à Formiga!

Uma coisa, assim a modos
Um laço entre os homens todos,
Sejam moiros ou de Cristo
Ou de qualquer outra fé...
Então o amor não é isto?
Se não é isto, o que é?

Aquela coisa que faz
Com que um miúdo, um rapaz,
Que mal pode co’uma flor.
Vendo a mãe desamparada,
Troque o pião pela enxada...
Então, não é isto o amor!?

E a cachopa, com carinho
Guiando um pobre ceguinho
E consolando-o na dor,
Na idade em que as outras todas
Só vêem festas e bodas...
Então, não é isto o amor!?

Moços deixando os casais
 As conversadas e os pais
 Velhinhos, quase em estertor,
 Para remirem na guerra
 Com seu sangue a sua terra...
 Então, não é isto o amor!?

 E as mulheres cujo ofício
 É o eterno sacrifício
 De limpar sangue e suor,
 Viver nas enfermarias
 E assistir às agonias...
 Então, não é isto o amor!?

 Outras então, cuja esmola
 É dada às almas, na escola,
 Aos cachopitos em flor,
 Em geral estéreis seios
 A formar... filhos alheios...
 Então, não é isto o amor!?

 E eu próprio, à face de Deus
 Escolhendo a mãe dos meus
 E abraçando-a com fervor,
 Eu próprio, neste momento,
 Sabeis o que represento?
 Curvar-vos que é isto o amor!

            (durante o recitativo, vai-se ouvindo, a música tocando o número final da peça e que, ao acabar, sobe de volume, acabando, assim, o segundo serão sobre as historietas do teatro antigo da Sociedade de InstruçãoTavaredense)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Operetas em Tavarede - 17

No segundo acto as figuras simbólicas transformam-se em figuras da vida real. Luísa, filha do António Moleiro, namora com José Cigarra, com o consentimento e agrado do pai. O Cigarra é bom rapaz, cavador, honesto, embora tenha mais gosto em andar nas festanças do que em trabalhar. Mas é pobre e, um belo dia, o António Moleiro sabendo que o João Viúvo, um ricaço boçal da aldeia, procurava mulher para casar novamente, logo pensou na sua filha.

         Ao João Viúvo não lhe interessava casar por amor. O que pretendia, avarento como uma formiga, era arranjar uma mulher que lhe fizesse a lida da casa, tratasse dos animais e dos amanhos das terras. Pretendia fazer boa escolha, pois a mulher que ele levasse ao altar, teria que valer, pelo menos, por duas criadas. Queria o trabalho feito e sem ter que pagar...

         António Moleiro foi tocado pelo espírito da ganância e pela ambição da riqueza. Não se importou em sacrificar sua filha. O Viúvo era rico, enquanto que o outro, o Cigarra, nem tinha onde cair morto... Luísa, filha obediente e submissa, embora contrariada porque o seu desejo era casar com José Cigarra, aceitou a decisão do pai.

            Luísa         
Ai minha mãe, minha mãe!
Vivesses tu, tinha eu pai!
Assim, se o pranto me cai,
Não tenho pai nem ninguém!

Na minha pobreza fico;
Só quero amor e alegria.
E quem fôr muito mais rico
Coma seis vezes ao dia.

Minha agulha de coser,
Meu amor e minha fé,
São os bens que quero ter
Para dar ao meu José.

Minha agulha de coser,
Meu amor e minha fé,
São os bens que quero ter
Para dar ao meu José.
Meu José.

          José
Viva a minha
Luísinha,
Minha flor,
Anjo terno,
Meu eterno
E lindo amor.

            Luísa 
Eu no meio
Do enleio
Deste encanto,
Já nem sei
Que direi...
Quero-te tanto!

            José
Minhas penas
Têm apenas
Como alento
Este sonho
De risonho
Casamento!

            Luísa
Encantos meus!
Quanta alegria!
Prouvera a Deus
Fôsse hoje o dia!

            Luísa 
Encantos meus
            José 
Encantos meus
            Luísa   
Quanta alegria
            José     
Quanta alegria
            Luísa                  
Prouvera a Deus
            José          
Prouvera a Deus
            Luísa 
Fôsse hoje o dia
            José           
Fôsse hoje o dia

            Luísa              
Marido e mulher
Juntos assim
 Até à morte!

            José 
Que bom há-de ser
Gozar enfim
Tão linda sorte!

            Ambos 
E depois
Para os dois
Há-de haver
Uma vida
Só tecida
De prazer.
Mal te vi
Concebi
Meu profundo,
Grande amor,
O maior
Deste mundo!

         O amor foi sacrificado. José Cigarra, vendo que a sua Luísa o trocava por outro, por um velho, resolve, despeitado, divertir-se na festa de S. João, para mostrar que, com ele, estava tudo bem e continuava alegre e feliz.

         Aquelas festas, como de costume, eram muito do agrado do povo, que nelas procurava divertir-se, esquecendo, ainda que por momentos, as dificuldades e agruras da vida diária.

            Raparigas              
Vamos raparigas,
Não falte ninguém
A soltar cantigas
E a bailar também.
Vamos à função.
Cachopas, ligeiras:
 Saltar as fogueiras,
 Honrar S. João.

            Rapazes              
 Ai meu S. João,
 Santo milagreiro,
 Ponde num braseiro
O meu coração.
  Alcachofra ardida
  Reflorece às vezes,
  E após os revezes
  É mais linda a vida.

            Raparigas 
    Da chama ao calor,
      Em volta do lume,
             Rapazes 
       Da chama ao calor
            Raparigas          
        Do próprio ciúme
         Refloresce o amor
            Rapazes                 
         Do próprio ciúme
            Raparigas           
        Morre o azedume
         Do velho rancor
            Rapazes          
        Morre o azedume
            Raparigas 
         Refloresce o amor
         Do próprio ciúme.

            Rapazes 
       Refloresce o amor.

O Associativismo na Terra do Limonete - 76

Sobre a ida ao espectáculo em Lisboa, escolhemos uma nota publicada num jornal figueirense e escrita por um dos amadores. Entrámos no Concurso de Arte Dramática organizado pelo Secretariado Nacional de Informação animados de grande esperança, se bem que de antemão soubéssemos que iam concorrer os melhores grupos de amadores do país.
         Foi, pois, com uma grande força de vontade e apoiados no saber e competência do nosso ensaiador que começámos os ensaios a ensaiar a sério.
         Mas se na verdade o Concurso exigia que fizéssemos boas provas, a verdade também manda que se diga que os amadores tiveram sempre o grande desejo de se apresentarem na capital. Nunca as circunstâncias o tinham proporcionado, apesar de conhecermos um grande número de palcos do país. Sintra tinha sido a localidade mais próxima...
         Foi, pois, com entusiasmo, que todos os amadores encararam as provas de selecção, dado que nos surgia a grande oportunidade de representarmos em Lisboa.
         A data foi marcada.
         O nosso ensaiador deu os últimos retoques nos “Velhos” e no “Frei Luís de Sousa”. E perante o juri nomeado para a nossa zona - a mais numerosa em concorrentes e com grupos de grande valor - fizemos duas esplêndidas representações.
         Aguardámos a decisão do Júri com muitas esperanças, pois os dois espectáculos tinham sido dos melhores que tinhamos feito durante a carreira das referidas peças.
         Veio a notícia.
         Iamos, finalmente, representar em Lisboa!
         Os amadores sentiram-se radiantes. Não era só o Concurso; não eram os prémios... era, sim, o facto de representarmos para o público da capital...
         A responsabilidade era grande. O nosso mestre fez-nos ver o tamanho dessas responsabilidades e o fracasso que seria se o espectáculo saísse mau.
         Talvez por isso mesmo fizemos dois ensaios péssimos. O último foi mesmo muito mau, não sabemos porquê, pois todos sabiam bem os papéis. Nervos com receio dum público exigente.
         O nosso ensaiador estava desapontado e receoso de uma exibição semelhante perante o júri; Chegou mesmo a lembrar que seria bom enviar um telegrama a desistir do Concurso...
         Antes dele sair para Lisboa (teve de ir na véspera por causa da montagem dos cenários) deixou-nos uma grande folha de papel com indicações - dos erros cometidos durante esse desastroso ensaio.
         Essas observações foram lidas com muita atenção; decoradas, até, como se fora um papel distribuido para uma peça, tal era a vontade de fazer um bom espectáculo perante um público desconhecido para nós.
         Como seria o palco? Era muito grande? E o teatro?
         Chegou, finalmente, o grande dia!
         Cada um sentia o peso das responsabilidades...
         ... E o combóio partiu para Lisboa levando dentro dele um modesto grupo de amadores que tinham agora medo do público alfacinha...
         O sonho tinha-se tornado em realidade, mas agora essa realidade pesava-nos como um fardo... Todos pensavam o mesmo mas ninguém se atrevia a dizê-lo...
         O combóio chega ao Rossio. Na estação esperavam-nos alguns amigos figueirenses que vivem na capital e que quizeram dar-nos o prazer de nos dar um abraço.
         Fez-nos bem, mesmo muito bem, pois sentimo-nos mais confiantes. Mas a nossa satisfação subiu mais alto, (que nos perdoem a franqueza) quando dentre essas pessoas que nos esperavam surgiu o nosso muito querido amigo pintor Alberto Lacerda. Em toda a parte o encontramos. Em toda a parte ele nos vai ver representar. E nem sequer nos tinhamos lembrado que afinal ele estava na sua terra...
         Fomos para o teatro na sua companhia e quase nos esquecemos das responsabilidades que nos preocupavam.
         Muito cedo comparecemos para nos vestirmos e caracterizarmos. Antes da hora estava tudo pronto para começar a representação.
         Espreitámos para ver a sala de espectáculos. Lá estava ela, já quase cheia, cheia dum público selecto, desejoso de apreciar mais um espectáculo do Concurso.
         Como iria sair a representação? Boa? Má?
         Quando sentíamos o coração oprimido por recearmos esse público - mais até do que o próprio Júri - poisou nos nossos ombros a mão amiga de Alberto Lacerda. A seu lado estava Alberto Anahory; mais além José Ribeiro com os nossos carpinteiros e o nosso contra-regra...
         Mas afinal, pensámos, estes amigos são os mesmos de Tavarede! O ambiente é o mesmo... Porque se não há-de fazer uma boa representação?
         E foi com este pensamento que encarámos o espectáculo.
         Subiu o pano...
         Grande silêncio na plateia, sinal de público que gosta de teatro.
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         A representação do primeiro acto saíu bem.
         O público aplaude calorosamente e ficámos muito animados. José Ribeiro está contente... e no intervalo aparecem as pessoas amigas a dizer que o acto tinha sido bom e que o público estava a gostar.
         Foi então com mais segurança que entrámos no segundo acto.
         Durante a representação observámos que o público não perdia uma palavra. Todas as falas eram seguidas com interesse e marcadas com gargalhadas as passagens mais cómicas.
         No final deste acto redobraram os aplausos e sentimos então que tinhamos conquistado a plateia.
         Reinava já grande alegria e satisfação entre os amadores...
         Iamos entrar no terceiro acto - o de maior responsabilidade e o de maior espectáculo. A cena da ceia era para nós a maior preocupação... Mas se ela saísse bem, então seria o triunfo...
         Sobe o pano. 
         A representação começa bem. Os amadores tornam-se senhores da situação. O público continua com uma atenção extraordinária - tão extraordinária que nos surpreende.


Os velhos

         Chega a cena capital - a da ceia - e sai como nunca o fizemos!!! O público, esse público que nós tanto temíamos, recompensa-nos com uma tremenda salva de palmas, a premiar essa cena admirável que D. João da Câmara magistralmente concebeu e que o nosso mestre magistralmente ensaiou...
         Recomeça a representação para, mais adiante, outra grandiosa salva de palmas interromper o espectáculo.
         Cai o pano...
         ... E cai sobre nós uma ovação como nunca tiveramos ouvido em toda a nossa carreira de amadores.
         O pano sobe, e desce para tornar a subir seis, sete, oito vezes... O nosso ensaiador é chamado ao palco... e os aplausos continuam com toda a plateia a aplaudir de pé.
         Foi um verdadeiro delírio.
         No palco o contentamento entre os amadores e as pessoas amigas não se podia descrever...
         Abraços... Lágrimas... Parabéns...
Obrigado, público de Lisboa. Foi este o melhor prémio que nos podias dar.


Usos e Costumes na Terra do Limonete - 20

         Era, assim, que em Tavarede se festejava e honrava o dia do seu santo padroeiro. Mas, anos mais tarde, o dia de São Martinho de Tavarede passou a ter festas condignas. Foi entendido, e muito bem, que a data era oportuna para a realização de um cortejo de oferendas, que proporcionasse receitas necessárias a diversas obras na nossa igreja paroquial. Aconteceu em 1966 e foi um sucesso.
         “As festivas homenagens prestadas, no domingo, em louvor de S. Martinho, padroeiro da paróquia tavaredense, a que não faltou um sol radioso, em nada desmereceram das solenidades dos anos anteriores. Pelo contrário este ano, notámos maior entusiasmo, maior vibração...
         Evidentemente que seria estultícia da nossa parte pretendermos compará-las às do ano passado em que, pela primeira vez, desde que nos conhecemos, se realizou na nossa terra um cortejo de oferendas, que pela sua grandiosidade e resultado financeiro obtido, ultrapassando as hipóteses mais optimistas, ficará memorável nos anais da história da vida local como plena afirmação de bairrismo e de amor à nossa vetusta Igreja, para cujas obras de que tanto necessita, se destinava o produto alcançado. Não, sejamos comedidos...
         Manhã cedo, o rebentar de foguetes e o barulhento “Zé Pereira”, que na véspera havia percorrido todos os lugares da freguesia, anunciaram o começo da tradicional festividade.
         Pelas 10 horas, o nosso revdº pároco rezou missa com a assistência de muitos fiéis, que na altura propícia se abeiraram da sagrada mesa para receber o Senhor.
         Após o almoço principiou a fazer-se a concentração dos andores vindos de todas as povoações que constituem a paróquia, recheadinhos de generosas ofertas.
         Cerca das 14 horas teve lugar a missa solene, a que presidiu o revdº pároco de Vila Verde, P.e José Nunes Barata, tendo por acólitos os revdºs priores de Buarcos e Quiaios, P.es Abrantes Couto e Manuel da Silva, respectivamente. O grupo coral da Igreja prestou valiosa colaboração à solenidade, estando ao orgão o sr. José Guerra.
         O sermão da festa foi proferido pelo distinto orador sagrado P.e Manuel da Silva, que em rasgos de oratória brilhante prendeu a atenção dos numerosos ouvintes, os quais finda a santa missa comentavam com o maior agrado as eloquentes palavras, repletas de belos e educativos ensinamentos, de sua reverência.
         Seguidamente organizou-se a solene procissão com a veneranda Imagem de S. Martinho, nela se incorporando as associações religiosas e autoridades locais.
         Belo espectáculo que os nossos olhos presenciaram. Nada menos de 13 andores abriam o préstito, conduzidos por graciosas raparigas e garbosos moços, não faltando os simpáticos soldados do nosso Exército, que transportavam o andor de S. Martinho – eles que em breve irão partir para o Ultramar defender a perpetuidade da Pátria Portuguesa...
         Depois de ter recolhido a procissão, que percorreu as ruas do costume e foi abrilhantada pela distinta Filarmónica Figueirense, todos os andores ocuparam os lugares que previamente lhes haviam sido destinados.
         Espectáculo vivo, cheio de cor, que, apesar de ruidoso, torna-se alegre, de certo modo divertido, pois os pregoeiros, entusiasmados, procuram vender a sua mercadoria ao melhor preço aos numerosos clientes...
         Como acima referimos, o cortejo de domingo não teve a grandiosidade do cortejo de oferendas do ano passado. Todavia, considerando os instantes peditórios que se verificam durante o ano, não restam dúvidas de que a paróquia tavaredense está de parabéns. Todos os lugares – Quatro Caminhos do Senhor da Arieira. Azenhas e Saltadouro, Ferrugent, Chã, Vergieira, Caceira e Casal da Areia, Carritos, Bairro da Estação, Bairro da Bela Vista, Casal da Robala, Várzea, Vila Robim e Tavarede – primaram por merecer honrosa presença. Por tal facto nós desejariamos envolver desde os seus organizadores ao mais modesto colaborador, num sincero abraço de felicitações, incluindo na nossa saudação todos os paroquianos que contribuiram com sua generosa dádiva.
         A nossa Igreja precisa de grandes obras e urgentes que custam algumas dezenas de contos, por isso que julgamos ser dever de todo o paroquiano prestar-lhe o seu auxílio, na medida das suas possibilidades.
         Não desejamos terminar este nosso apontamento sem aqui expressar as nossas calorosas saudações ao bondoso pároco da nossa freguesia, revdº Paulo Ribeiro, pelo assinalado brilhantismo com que a festa decorreu, vendo, de tal modo, coroado do melhor êxito o seu incansável labor dispendido durante a organização.
         Bem haja, pois”.
         A partir de então passou a ser um costume da nossa terra. Organizado por uma comissão religiosa, o S. Martinho de Tavarede é festejado em dois domingos, sendo no primeiro realizado o cortejo de oferendas, seguido do participado leilão das ofertas, e no domingo seguinte são as festividades religiosas, realizando-se, da parte da tarde, a procissão em honra do nosso padroeiro.

         Também deve ser realçado a importância que estes festejos tiveram para o financiamento da construção do Centro de Dia S. Martinho de Tavarede, obra levada a efeito e que é de grande utilidade para a freguesia, assim como para a realização de obras indispensáveis à conservação da igreja de Tavarede.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 75

Aproximava-se outro acontecimento da mais alta importância para o teatro tavaredense, o Concurso Nacional do Teatro Amador. Mas, antes de nos debruçarmos sobre este feito memorável, ainda queremos recordar um apelo que a comissão promotora da obras da colectividade fez. Aos sócios e simpatizantes desta velha e prestigiosa colectividade da vizinha povoação de Tavarede foi endereçado o seguinte apêlo que nos apraz divulgar, reservando para outra ocasião, quando dispuzermos de mais largueza de espaço, o breve resumo da actividade cultural e beneficente da SIT que acompanha a referida circular.
         Eis o conteúdo dessa circular:
         É já velha de alguns anos a aspiração de ampliar e melhorar a sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, de modo a fazê-la corresponder às exigências e às responsabilidades duma actividade cada vez mais ampla.A falta de recursos da associação e a extrema pobreza do meio local não permitiram, porém, transformar aquela aspiração em realidade; e a velha colectividade tavaredense tem permanecido no prédio que é a sua sede desde a fundação, em instalações acanhadas, de há muito reconhecidas insuficientes e impróprias, actuando o seu grupo cénico no mesmo pequeno teatro de há 50 anos, com absoluta carência de espaço, de apetrechamento técnico e das mais rudimentares condições de conforto, que são essenciais para a continuação e desenvolvimento duma actividade social em que o teatro funciona como instrumento de cultura, de recreio e de educação popular.
         Mas esta situação não pode manter-se: chegou o momento em que é imperioso adoptar uma solução definitiva, porque o estado de quase ruína do actual edifício reclama obras urgentes.
         Já devidamente aprovado pela Inspecção Geral dos Espectáculos, possui a Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense um projecto de transformação e ampliação da sede, que ficou devendo à generosidade e simpatia com que o distinto arquitecto Exmo. Sr. Isaias Cardoso sempre tem acompanhado a acção desta colectividade. É a este projecto que se pretende dar execução.
         A obra é importante, e o respectivo orçamento atingirá cerca de Esc. 300 000$00. Mas a sua realização impõe-se, sem o que não poderá prosseguir e desenvolver-se a acção cultural, educativa e beneficente, de incontestável alcance social e patriótico, que torna altamente honrosa a folha de serviços da SIT. O breve resumo que, em anexo, nos permitimos oferecer à consideração de V.Exa., fala expressivamente do valor dessa actividade, cujos benefícios alcançaram não apenas a população tavaredense e o concelho da Figueira da Foz, mas também outras localidades do país. Afigura-se-nos que esta actividade social de mais de meio século, levada a efeito, aliás, com singela humildade mas com plena consciência dos seus efeitos salutares, merece ser continuada e alargada.
         É neste espírito que nos dirigimos a todos os nossos consócios e também às pessoas a quem a actividade da SIT merece simpatia e aplauso.
         Constituiu-se uma Comissão que assina este apelo, com o fim de promover a obtenção dos fundos necessários para a execução do projecto superiormente aprovado. E, convencidos de que V.Exa. desejará auxiliar-nos, pois lhe será grato contribuir para uma obra que dará à velha colectividade tavaredense a possibilidade de prosseguir uma actividade benemerente com a qual conquistou o louvor geral, vimos solicitar a sua ajuda, que poderá ser-nos dada com donativos em dinheiro ou em materiais.
         Confiadamente esperamos ser atendidos, pelo que lhe rogamos a fineza de preencher o boletim junto; ou, se isso nos for permitido, procuraremos pessoalmente V.Exa. para recebermos a resposta a este nosso apelo.
         Apresentando-lhe os nossos cumprimentos e testemunhando-lhe sincero reconhecimento, temos a honra de nos subscrever

Logo que teve conhecimento daquele concurso, a Direcção da Sociedade reuniu-se com todo o grupo cénico. Eis um apontamento sobre esta reunião. O director do grupo cénico, senhor José Ribeiro, expôs o seu ponto, manifestando-se contrário à participação da SIT naquele concurso, prometendo, no entanto, assumir as responsabilidades atribuidas no regulamento aos ensaiadores dos grupos, se a Sociedade resolvesse concorrer. Após demorada troca de impressões resolveu-se, não obstante o parecer contrário do director cénico, que a SIT fizesse a sua inscrição.

Entretanto, e para comemorar o cinquentenário da morte do poeta e dramaturgo D. João da Câmara, foi levada à cena a comédia Os velhos. E foi com esta peça que concorreram ao mencionado concurso, na categoria comédia, escolhendo, para a categoria drama, Frei Luís de Sousa.

Foi uma decisão acertadíssima. Após as representações na sede, como provas de selecção, foi escolhida, para ir à fase final, em Lisboa, a comédia Os velhos. Em Fevereiro de 1959, a revista Plateia publicou uma entrevista feita ao director cénico. - Quantos anos de existência tem a vossa colectividade e a que modalidades se dedica?
         - O artigo 1º dos nossos Estatutos estabelece: “A Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em Tavarede em 15 de Janeiro de 1904, é uma associação essencialmente destinada à instrução e educação das classes populares”. E o artigo 2º diz: “Para realizar o seu objectivo manterá na sua sede uma escola nocturna e gratuita em que se ministrará o ensino primário”. Esta escola nocturna funcionou ininterruptamente, com proveito notório da humilde população tavaredense, desde a fundação da Sociedade, em 1904, até 1942. Possui também biblioteca, que proporciona leitura domiciliária aos associados.
         - Desde quando fazem teatro e qual o critério que seguem na escolha do reportório?
         - Pratica-se teatro desde o primeiro ano da fundação da Sociedade, embora nos primeiros tempos esta actividade não fosse constante. Nos últimos quarenta e dois anos, porém, sob a orientação do mesmo director cénico, a actividade da secção tornou-se permanente. No artigo 3º dos Estatutos determina-se: “Como elementos educativos e de recreio terá uma biblioteca e gabinete de leitura e utilizará o seu teatro, mantendo uma secção dramática que se guiará por um regulamento elaborado pela Direcção”. Na Sociedade de Instrução Tavaredense a actividade teatral não é propriamente a que resulta da reunião de umas tantas pessoas com o fim de levarem à cena uma peça: esta actividade tem carácter de permanência e é norteada por este princípio estatutário: utilizar o teatro como instrumento de recreio e de cultura.
         Paralelamente com as representações teatrais realizam-se palestras sobre teatro. E também se têm levado a efeito espectáculos de características acentuadamente culturais.
         Na orientação seguida na escolha do reportório quase nunca temos em conta os resultados da bilheteira; instruir e educar através do teatro só raramente corresponde a êxitos materiais. Sabendo muito bem que as limitações de um grupo de amadores duma pequena aldeia o impedem de lançar-se na montagem e interpretação de algumas das boas peças dos teatros profissionais, recusamo-nos a pôr em cena alguns dos seus espectáculos que são êxitos de bilheteira garantidos, mas que consideramos degradantes.
         - Qual o número de intérpretes femininos e masculinos tem?
         - Não temos um número certo de intérpretes. Na peça “A Conspiradora”, por exemplo, representada na época anterior, os intérpretes foram vinte e dois. No “Chá de Limonete”, como em “Ana Maria”, o número de intérpretes e figurantes subiu a quarenta. O recrutamento faz-se, entre os habitantes da nossa aldeia, consoante as necessidades. Pode dizer-se que todas as famílias têm tido representação no grupo cénico. O elenco renova-se constantemente, sobretudo na parte feminina. As raparigas casam, e as obrigações do lar não lhes permitem frequentar os ensaios. Só raramente as amadoras que constituem família continuam a representar. Presentemente, há no grupo cénico três admiráveis excepções. Os amadores que, pode dizer-se, sem mantém em longa actividade, quase permanente, entrando em todas ou quase todas as peças, serão uns quinze: nove masculinos e seis femininos.
         - Quais são as dificuldades que mais os têm tolhido e, por outro lado, quais os aspectos favoráveis à vossa acção?
         - As dificuldades são muitas e variadas: licenças e impostos que há muito deviam ter sido suprimidos, direitos de autor pesadíssimos, censura e classificação dos espectáculos. A actividade do grupo cénico da SIT só se mantém à custa de enormes sacrifícios, com muita perseverança e coragem para continuar remando contra a maré do desinteresse e do alheamento duma parte do público e das entidades de quem seria legítimo esperar auxilio moral e ajuda material.
         - A vossa casa de espectáculos está bem apetrechada de material cénico? Possuem pessoal técnico habilitado?
         - A nossa casa é pobríssima. Temos projecto para ampliá-la e melhorar o seu equipamento. Faltam-nos recursos para executá-lo. Todos aqui, desde o director e ensaiador até aos carpinteiros de cena, são amadores.
         - Têm algumas ideias sobre renovação do reportório?
         - Não podemos ter a pretensão de conseguir reportório propositadamente escrito para amadores. Onde estão os escritores que a tal se dediquem? Seria desejar o impossível. Não há outra possibilidade senão recorrer a peças já representadas por profissionais. Nem sequer podemos pensar em traduzir propositadamente peças estrangeiras ainda não representadas no nosso país: as autorizações, licenças e direitos são verdadeiramente impeditivos. O problema do reportório é grave no teatro profissional, não pode deixar de o ser para os amadores.
         - Mantém intercâmbio com grupos congéneres? Quais?
         - Temos visitado as sedes de várias colectividades que têm teatro e grupo de amadores. No concelho da Figueira da Foz levámos a efeito uma “campanha vicentina”: representámos autos de Gil Vicente em várias localidades do concelho; e o mesmo se fez com a comemoração do centenário de Garrett. Também na nossa sede temos recebido a visita de alguns grupos de amadores, nomeadamente o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e o Grupo de Teatro Miguel Leitão, de Leiria, e ainda o grupo de Quiaios (Grupo Instrução e Recreio de Quiaios).
         - Quais as reacções do público perante o vosso trabalho?
         - O público reage sempre, nos nossos espectáculos, com muito honrosa simpatia. Mas… o que sucede com o teatro profissional sucede com o teatro amador: o público é hoje muito menor do que há alguns anos atrás. Razões várias explicam este afastamento: umas, facilmente removíveis, pois dependem exclusivamente de providências do estado e das autarquias locais; outras mais difíceis de vencer, e que por isso mesmo deveriam ser seriamente consideradas. Limitações impostas pelo Estado, errado critério das autarquias locais que pretendem fazer receita com o teatro de amadores, dificuldades económicas, mau gosto do público, às vezes lisongeado em vez de ser corrigido, concorrência de outros espectáculos mais acessíveis e que são de perniciosa influência no gosto artístico e na cultura do povo – tudo isto afasta do teatro o povo que ao teatro não devia faltar. Os teatros ficam desoladoramente vazios, por vezes quase desertos! Mas também de quando em quando se esgota a lotação: ainda há pouco a maior casa de espectáculos da cidade vizinha esgotou com uma revista má entre as piores, e com preços elevados, para pouco depois o público deixar a casa… às moscas, num espectáculo declamado de alta categoria artística, pela peça e pelo desempenho. E o mal da cidade vai contagiando as vilas e aldeias: contam-se os espectadores pelos dedos num espectáculo sério, digno, e poucos dias depois acorrem em grande número só porque há cantigas e castanholas.
         - Como encara o problema do teatro em Portugal?
         - O problema do teatro em Portugal não pode ser resolvido isoladamente; outros problemas lhe estão ligados; e não se esqueça de que há, principalmente, um problema de cultura.
         - Quais os vossos planos futuros?

- Os nossos planos futuros? Contentamo-nos com enunciar um programa: persistir apesar de tudo, continuar remando contra a maré, não nos deixando vencer pelo alheamento do público e alimentando sempre a esperança de que ele voltará.