sexta-feira, 13 de junho de 2014

Operetas em Tavarede - 21

         Chega Daniel. E depois dos abraços e dos cumprimentos, Pedro entende ser chegada a ocasião de lhe apresentar a sua noiva, a Clara, uma das pupilas do senhor Reitor. Ela não estava em casa e, como de costume, Pedro chama-a.

            Pedro        
  Vem livrar-me com teus olhos
  Que eu por eles me perdi
 Dá-me a vida com teus beijos
Já que por beijos morri.

            Clara            
 Ó rio das águas claras
 Que vais correndo p’ró mar
  Os tormentos que eu padeço
 A ninguém vás declarar.

            Pedro    
  Não declara quem não pode
  E não tem que declarar,
  Pois quem é assim tão bela
  Não pode ter que penar.

            Clara    
  O que eu peno ninguém sabe
  Ninguém o pode saber
  Porque peno e não me queixo
  Em segredo sei sofrer.

            Pedro 
  Pois padecer em silêncio
  É bem dobrado sofrer
  Melhor é contarmos tudo
  A quem nos possa entender.

            Clara    
   Vem livrar-me com teus olhos
   Que eu por eles me perdi
   Dá-me a vida com teus beijos
   Já que por beijos morri.

 


    O segundo acto é passado na eira de José das Dornas. Como era habitual naqueles tempos, as “esfolhadas” são feitas à noite, à luz do luar, em alegres reuniões em que se cantava animadamente enquanto iam trabalhando.

            Matilde                  
   A cantar o mal se espanta
   Pois é bom sempre cantar

            Coro    
    Roda, roda, vira, vira,
    Torna-te a virar

            Matilde      
    Eu assim canso a garganta (bis)
    Para as mágoas espantar

            Coro   
    Vira, vira, vira, gira,
    Roda, troca o par

            Matilde         
     Mas a minha pena é tanta
     Que a não posso afugentar

            Coro  
      Roda, roda, vira, vira, etc.

            Matilde   
     Mas a minha pena é tanta (bis)
      Que a não posso afugentar

            Coro 
     Vira, vira, vira, gira, etc.

            Joaquim   
  Não se espanta assim a pena
  Que entristece o coração

            Coro  
  Roda, roda, vira, vira, etc.

            Joaquim  
  Com a simples cantilena (bis)
  Que se canta a um papão

            Coro             
   Vira, vira, vira, gira, etc.

            Joaquim      
  Porque a pena só condena
  Quem não tenha um’afeição

            Coro 
  Roda, roda, vira, vira, etc.

            Joaquim     
  Porque a pena só condena (bis)
  Quem não tenha um’afeição

            Coro   
   Vira, vira, vira, gira, etc.

    Roda, roda, vira, vira,
    Torna-te a virar
    Vira, vira, vira, gira,
    Roda, troca o par

         As espigas iam-se juntando no meio da eira, enquanto a palha era amontoada em redor da eira. De vez em quando, ouviam-se o grito alegre de “milho-rei”, “milho-rei”. E logo no meio do entusiasmo geral, o feliz achador lá dava a volta à roda, abraçando ou beijando companheiros ou companheiras. Nem todos, porém, tinham essa sorte... Entretanto, alguém pede uma cantiga. Clara, uma das mais bonitas vozes da aldeia, não se faz rogada. E canta, canta uma linda canção, certamente bem conhecida de todos.

            Coro 
     Andava a pobre cabreira
     O seu rebanho a guardar
     Desde que rompia o dia
    Até a noite fechar.

            Clara  
      Sentada no alto da serra
      Pôs-se a cabreira a chorar
      Porque chorava a cabreira
      Ninguém o soube contar.

            Coro     
      Essa história da pastora              (bis – Clara)
       Devo agora explicar                    (bis – Clara)
       Apar’ceu-lhe um pagem loiro      (bis – Clara)
       Que a não soube requestar          (bis – Clara)

            Clara                 
    Nunca a tinha visto antes
   O seu rebanho a pastar,
   E foi correndo p’ra serra             (bis)
   Jurando afecto sem par               (bis)

            Coro  
   O rebanho vai fugindo
    Pelos vales sem parar
    E a pastorinha atrás dele
     Sem o poder alcançar

            Clara    
    E andaram assim três dias
    E três noites sempre a andar
   Até que à porta dum paço
   Afinal foram parar.

            Coro  
    O rei perdera uma filha                 (bis – Clara)
    Que jamais poude encontrar          (bis – Clara)
    E na formosa cabreira                    (bis – Clara)
    Quiz seu rosto idealizar                  (bis – Clara)

            Clara                                         
  E vêm damas p’ra vesti-la
  E vêm damas p’rá calçar
  E a mais formosa de todas             (bis)
  Para as tranças lhe enfeitar           (bis)

            Coro         
  Mais tarde a linda cabreira
  Ninguém a poude encontrar
  Mas um anjo de asas brancas

  Viram dos céus a voar.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Operetas em Tavarede - 20

         Ao grupo vieram-se juntar o Reitor e João da Esquina, mais a mulher, que estranhando o movimento no largo, quiseram saber de que se tratava. José da Dornas, bem disposto, logo começa a contar as enormes virtudes de seu filho, o novo médico. Pois não era que ele até conseguira demonstrar aos seus mestres que não havia doenças?... E, perante a incredulidade dos aldeões, logo acrescenta: “E olhem, vocemecês, que ele até provou aos professores, e escreveu-o, que “um homem e um macaco é tudo a mesma coisa”... Estava ali um sábio! Pois bem, arranjou-a bonita. Com que então homens e macacos tudo a mesma coisa?

            João e Teresa        
   Que doutor, ai, que doutor falto de caco
    É decerto, é decerto esse alveitar
    Que me quer, sim, que me quer tornar macaco
    P’ra me ver macaquear.

            Reitor  
     Claramente ele não disse
     Nesse livro original
     Que a travessa macaquice
     É condão do racional.

            João e Teresa    
     Não terá nossos carinhos
     Quem faz tal comparação
     Tem decerto macaquinhos
     Ou é grande macacão.

             José
    Vem a coisa bem’ xplicada
    E ao doutor eu dou razão
    Pois há muita macacada
    Na moderna geração.

            João 
     Se eu sou macaco,
     Como explicar
     Que tenho caco
     Para pensar?

            Teresa 
      Se eu sou macaca,
      Sem contestar
     Devo ser fraca
     P’ra matutar.

            José  
     Macacos par’cemos
     Não somos porém,
     Mas, quando nascemos,
     Guinchamos também,
      Caretas fazemos,
       Não temos pensar,
       Macacos par’cemos
       Até no olhar.

            João e Teresa  
    Tal nunca supomos
     Nem disse ninguém
      Macacos não somos
      Que eu vejo-me bem.
      Se acaso par’cemos
      Alguns animais
      De tudo seremos,
      Macacos jamais.
      Passa fora tal doutor
      Que nos vem assim tratar,
       Se não mostra mais valor
       P’ra que foi ele estudar?

       Que doutor, que doutor falto de caco
       É decerto, é decerto esse alveitar
       Que me quer, que me quer tornar macaco
       P’ra me ver encavacar.

            Reitor 
      Claramente ele não disse
      Nesse livro original
      Que a travessa macaquice
      É condão do racional.

            João e Teresa   
       Quem não tenha muito caco
       Não aceita e com razão
       Que lhe digam que é macaco
       Sem andar co’as mãos p’lo chão.

         Margarida e Clara, duas irmãs orfãs, viviam sob a protecção do reitor que, à hora da morte da mãe, lhe jurara velar por elas. Eram bastante diferentes as duas raparigas. Margarida, reservada e pouco expansiva, desde há uns tempos que andava constantemente triste. Pelo contrário, Clara, era alegre e divertida, sempre pronta para as festas da aldeia, e que, por muitas vezes, tentara que a irmã lhe dissesse a razão daquela tão grande tristeza, que ela não compreendia.

            Margarida            
  A débil flor pode à mulher ser comparada
  Em seu aspecto, em seu destino e condição
  Tal como a flor é pela sorte destinada
  A ter vergel ou pertencer à solidão.
  Se quando nasce tem d’abril uma alvorada
  No mundo esparge o mais suave e belo odor,
  Mas se d’inverso em rude escarpa foi brotada,
 Na sua vida simboliza a eterna dor.

            Clara   
  Tal como a flor tu és, irmã,
  Pois no olhar tens o lampejo
  Do astro-rei, que de manhã
  Vem dar na flor o doce beijo
  P’ra que se torne mais louçã.

  Devem na sorte ser iguais,
  Se beija a todos igualmente,
  Pois, quando a luz desce aos rosais
  Brilha também suavemente
  No monte agreste ou salgueirais.

            Ambas    

  Mulheres e flores
  São dois primores
   Que os trovadores
   Bem entrelaçam.
   E sendo flores
   Brotam fulgores
   Dizem amores
   Por onde passam.

            Margarida  
  Porém a flor pode brotar entre um canteiro
  Onde se ostentam lindas rosas do Japão,
  Ou florescer no mais escuro montureiro
  E assim morrer sem um só beijo d’afeição.
  Como dizer que a sorte igual é para as duas?
  Como provar que os seus destinos são rivais?
  Se aquele teve a luz dos sois e brandas luas
  E esta só viu a triste sombra e nada mais?

            Clara  
     Se a boa sorte o bem produz,
    Ninguém demonstra com verdade.
    Pois se a má sorte ao mal conduz
    Bastam os braços da amizade
    P’ra nos dar vida, amor e luz.
    Serás a flor que em seu arvol
    Jamais poisou a cotovia,
    Uma andorinha, um rouxinol.
     Mas outra flor te acaricia
     P’ra que te beije o lindo sol.

            Ambas  
   Mulheres e flores
   São dois primores
   Que os trovadores
   Bem entrelaçam,
   E sendo flores
   Brotam fulgores,
   Dizem amores

   Por onde passam.

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 23

 Os populares arraiais
         Não temos quaisquer dúvidas de que Tavarede sempre foi uma terra festiva. Já recordámos, por exemplo, as famosas festas ao São João de Tavarede. Mas, sendo gente que trabalhava arduamente durante toda a semana, era uma necessidade que sentiam de aos domingos se envolverem em diversões, durante as quais se afastavam por momentos da duríssima vida que tinham no amanho das terras ou nos seus ofícios quotidianos.
         Também os antigos ranchos, onde dançavam animadamente as raparigas e os rapazes da nossa terra, deixaram muita fama e imensa saudade naqueles que ainda tiveram o prazer de os viver.
         Antes de recordarmos as costumadas festas de verão, vamos dar mais uma pequena olhadela às antigas notícias que nos contaram alguma coisa sobre este costume. Recuando até ao verão de 1901, encontrámos uma notícia confirmando o que dizemos.
         “Este titulo vae decerto attrahir a curiosidade e attenção dos nossos jovens leitores. É isso mesmo o que queremos, e tal foi a intenção com que o empregámos.
O calor, insupportavel que hontem e hoje nos tem causticado com os seus raios coruscantes e vae acabando de mirrar as pobres hastes de milho que ainda vegetam por essas terras e que há um mez, tão vicejantes, nos deleitavam o olhar e nos incutiam a risonha esperança d’um anno agrícola abundante, obriga um pobre mortal a abeirar-se das janellas e a tomar o fresco que a noite lhe offerece.
É exactamente o que succede comnosco, e eis que, jovens leitores, para vossa consolação e prazer, o vosso repórter aldeão poude ouvir da sua janella a conversa d’uns quatro rapazes folgazões que hontem, perto das 11, combinavam: - ornamentar o largo do Paço e promover ali uma dansa na noite de sabbado para domingo, e na tarde d’este dia, além de dansa, falavam em se fazerem umas corridas de prémios por indivíduos montados em gericos, outros dentro de saccos, corridas de mulheres com potes, etc.
Foi isto, meus amigos, o que ouvimos. E, passando a coisa de palavras a obras, o que lhes podemos também affiançar é que no Largo do Paço já está içado um enorme mastro, que amanhã é ornamentado aquelle local, que a orchestra já fez ensaio, e que os rapazes estão animados da melhor vontade para vos proporcionar algumas horas de dansa, que amanhã começará pelas 10 horas da noite e acabará á 1, e no domingo principiará pelas 5 da tarde, terminando sabe Deus quando.
Sobre corridas, porém, de nada podemos informal-os com verdade, porque ellas dependem de massa para os prémios, e isso é coisa que os rapazes estão vendo por mesas altas. No entanto a dansa faz-se, e cremos ser o que mais interessará á alegre mocidade.
E vós, caros figueirenses, preparae as merendas e vinde no domingo por ahi fora. Sombras benéficas é o que por ahi há mais, limonete, já há pouco, mas, procurando bem, ainda encontrarão umas pontinhas d'elle para consolar os órgãos do olfacto, sempre suspirando por cheiros perfumosos. Eis do que basta informal-os hoje. E tu, mocidade, alegra-te”.
Sabemos que, naqueles recuados tempos, eram dois os locais onde habitualmente se instalavam os pavilhões, no Largo do Paço e no Largo do Forno. E era nestes locais que dançavam, respectivamente, o Rancho Flor da Mocidade e o Rancho da Alegria
 
 Rancho da
Alegria

         Havia, até, grande rivalidade entre estes dois ranchos, o que nos é contado por esta pequena notícia recolhida. “... Todas querem a primazia e daí lançam mão de certos meios que nada depõem a favor de umas e de outras. Os epítetos grosseiros e obscenos de que se servem, são impróprios de raparigas honestas e sobretudo das que possual uns rudimentos de boa educação... “. Pelos vistos, a maior rivalidade era entre as raparigas!
         Vejamos, agora, uma outra nota que nos conta o despique que havia cá na terra. “Prosseguiu hontém a luta entre os dois ranchos dançarinos da localidade. À meia noite começou a campanha e ao raiar a manhã ainda os pares se seracoteavam com toda a galhardia ao som dos trombones, que, sem cessar, nos aturdiam os ouvidos.
         Vencido era o primeiro rancho que suspendesse a dança, mas às nove horas da manhã nem um nem outro davam signal de baquear, embora interviessem por vezes algumas potencias estranhas, aconselhando o armistício. -”É tempo de usar dos direitos que me são concedidos pela lei fundamental da nação portugueza e códigos apensos”, exclamou o nosso conspícuo regedor, que é homem a bulhas contrário, como dizia Tolentino. Dirigindo-se com toda a diplomacia aos chefes das duas facções, com eles parlamentou largamente, e às dez horas, no relógio do António Mota, o mesmo sr. regedor lançava aos ares um foguete, os trombones roncaram o hino da carta adorada, terminando assim a memorável batalha d’hontem.
         Vencedores - os donos dos estabelecimentos locaes.
         Vencidos - os chefes de família e a ala de tuberculosas d’amanhã.
         O pavilhão da vitória deve ser arvorado no alto de S. Martinho e o registo de recompensas faz-se no livro negro dos taberneiros.
         Dizem-nos que os ranchos se denominam: um - das solteiras, outro - das casadas. Vae crear-se outro - de viúvas... bem conservadas. Tem sido muito censurado o procedimento do sr. regedor, dizendo algumas pessoas que ele devia ser enforcado ou metido perpetuamente na penitenciaria. Veremos se o não matam este anno”.
         Estes casos prolongaram-se por vários anos, conforme este apontamento que encontrámos em 1911. “Nos ranchos é que se vê como as nossas patricias se apresentam galhardamente. Mas que luxo... Tudo cheio de laços!... No preterito sabbado até pareceu mal taes laços a um velhinho que observava os lindos conjunctos das danças, recordando-se assim dos seus tempos de rapaz, quando gosava.
         De madrugada, o bom do velhinho retirou, censurando as cachopas de Tavarede, porque, dizia elle, nunca nos meus tempos se tirou á barriga para tanto luxo. E ámanhã, essas raparigas, com o olhar inundado de mau aspecto, recolherão á cama tossindo... como tossem os tisicos”.

         Nesse ano o rancho da Alegria ‘dançou no Largo do Forno em pavilhão fechado, onde pagavam à entrada cada rapaz 100 réis e cada rapariga 60 réis’. O caso até foi aproveitado para um quadro da revista ‘Na Terra do Limonete’, no qual uma peixeira, que queria divertir-se um bocado, vê um festeiro dizer-lhe “se tem três vinténs para dar, entra, se não tem... vá andando”. Ao que a aludida peixeira retorquia “Olha agora! Louvado seja Deus! Já quem não aveza três vinténs se não adverte...”.

O Associativismo na Terra do Limonete - 79

Festejando o dia primeiro de Maio de 1960, o Grupo Musical conseguiu reatar uma velha tradição da nossa terra. A velha e simpática colectividade da nossa terra, que é o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, está de parabéns.
O rancho 1º de Maio, de sua organização, que se apresentou em publico no dia 1 do corrente, e era constituído por 16 pares de bonitas raparigas e garbosos rapazes obteve destacado sucesso.
Muito bem. Oxalá que tão feliz iniciativa frutifique, pois que veio reatar uma velha tradição tavaredense, lamentavelmente interrompida, há anos, como agora se demonstrou.
Quando a marcha, em formação impecável, descia arrogante, a rua Dr. Oliveira Salazar e parou, frente ao monumento ''Aos Tavaredenses de Amanhã" no largo que imortaliza o nome sempre querido dos tavaredenses de D. Maria Amália de Carvalho, falecida há poucos dias, como relatámos, vimos deslizar pelas faces de muitos rapazes e raparigas, alguns rondando a casa dos setenta anos, lágrimas de saudade, daquela saudade dos tempos a que já não se pode voltar.
Acompanhava o rancho que foi saudado calorosamente nos lugares onde se exibiu um bem organizado conjunto musical, que muito nos sensibilizou por nos trazer à memória os inesquecíveis momentos da nossa fugaz mocidade em que acompanhávamos a afamada tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
A todos, organizadores, rapazes e raparigas, executantes, e de modo especial a Alberto Esteves Vigário, encarregado da parte coreográfica, e a Carlos Santos, a cargo de quem esteve a parte musical as nossas maiores e mais sinceras felicitações pelo que acabam de fazer a bem de Tavarede. Bem hajam.
A despedida da velha casa de espectáculos, erigida por João José da Costa, teve lugar no dia 29 de Maio de 1960. José da Silva Ribeiro, o homem que pelas suas invulgares qualidades de carácter, superior inteligência e profundos conhecimentos da arte de Talma, em nosso entender, e sem a menor quebra de admiração pelos seus dedicados colaboradores, a Sociedade de Instrução Tavaredense, ou, por outra, Tavarede fica devendo a arrojada obra de transformação do seu teatro, antes de subir o pano disse da saudade da velha sala de espectáculos, recordando enternecidamente todos aqueles que há mais de 50 anos têm trabalhado para o prestígio da nossa colectividade, afirmando, em certa altura, que Tavarede devia aquele teatro ao benemérito João Costa e sua ampliação à filantrópica Fundação Calouste Gulbenkian.
“O Beijo do Infante” e “O Dia Seguinte”, encerraram com chave de ouro o ciclo de representações ali efectuadas, por isso que a assistência, que enchia totalmente o velho teatro, se manifestou de maneira apoteótica.
Contudo, os louros da inesquecível noite foram, sem desprimor para os restantes amadores, para a simpática e talentosa amadora, Maria Isabel de Oliveira Reis, pelo magnífico desempenho no papel de Matilde, em "O Dia Seguinte".
No final do espectáculo, o incansável Presidente da Direcção, sr. Marino de Freitas Ferraz, convidou todos os amadores da SIT, velhos e novos, a subir ao palco para, sobre as suas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e de aborrecimentos imperecíveis passaram, assistir ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhe haviam proporcionado.
No domingo, houve um encontro de futebol entre as equipas da secção dramática e secção desportiva da SIT, cujo resultado foi um empate a 1 bola, após o que os jogadores e outros sócios se reuniram em lauta bacalhoada, que decorreu animadíssima.
À noite efectuou-se o baile, que teve a dar-lhe entusiasmo, o excelente conjunto "Satélites do Ritmo", dessa cidade.
Foi um grande e inesquecível baile, que, estamos certos, há-de perdurar por largo tempo nos corações da mocidade radiosa.
À meia-noite em ponto, o Presidente da Direcção da SIT pôs em leilão o camartelo cujas primeiras pancadas assinalaram o começo da demolição das paredes, sendo a oferta mais elevada a da gentil menina Maria da Conceição Ferreira Soto Maior.
Também a talentosa amadora, srª D. Violinda Medina e Silva, aceitando o camartelo que lhe foi oferecido, se lançou num verdadeiro ataque às velhas paredes. E ainda outras pancadas se seguiram...
Parabéns aos rapazes da SIT
E, agora, ate à inauguração da nova casa de espectáculos.

Com a sede em obras, houve interrupção do teatro em Tavarede. Mas o grupo cénico não parou. Depois de outras deslocações, foram a Vila Real e a Amarante. Mais do que a falia de tempo de que actualmente podemos dispor, o nosso estado de saúde, cano de costume, sobrepondo-se aos nossos desejos, não nos permitiu acompanhar o grupo dramático da Sociedade de InstruçãoTavaredense, nos dias 10, 11 e 12 do corrente, nas suas jornadas de bem-fazer, desta vez a Amarante e Vila Real, facto que, nos penalizou sobremaneira por não podermos viver, pessoalmente, as carinhosas e entusiásticas manifestações de simpatia e apreço de que foram alvo os nossos conterrâneos, naqueles importantes localidades nortenhas.
Mas nem por isso deixámos de acompanhar em espírito os briosos rapazes e simpáticas senhoras, que tão longe levaram o nome da nossa aldeia em missão cultural e beneficente, de sentir em nosso coração de tavaredenses o festivo ambiente que a todos rodeou.
E, assim, para que pudéssemos registar em nossos "apontamentos", informando os estimados leitores, da triunfal excursão tavaredense, pedimos a um nosso amigo, que a acompanhou, nos dissesse algo das suas impressões, pondo-se inteiramente à nossa disposição, gentileza que, alem dos nos cativar, reconhecidamente agradecemos.
Chegados a Amarante, à entrada da vila esperavam os visitantes a corporação dos Bombeiros, Filarmónica local, representantes das colectividades com seus estandartes, a Comissão promotora do espectáculo, que era a favor do Hospital da Misericórdia e muito povo. Formou-se um cortejo que percorreu várias ruas, e das janelas, donde pendiam colgaduras, foram lançadas flores.
No edifício da Câmara Municipal deu as boas vindas o Vereador do pelouro da Cultura e Presidente da Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão, tendo agradecido a carinhosa recepção dispensada o director do grupo cénico.
À noite, no teatro, com a grande sala repleta dum público que aplaudiu calorosamente, fez a apresentação do grupo de Tavarede, num brilhantíssimo discurso, o ilustre advogado sr. dr. Balbino de Carvalho, que é um grande amigo e admirador da Figueira.
A impressão deixada com a representação de "Os Velhos" foi excelente.
Num dos intervalos foram oferecidos por simpáticas crianças, a José da Silva Ribeiro e às distintas amadoras, D. Violinda Mediria e Silva, menina Maria Isabel de Oliveira Reis, lindos ramos de flores, gentileza que muito os sensibilizou.
No dia seguinte, os distintos figueirenses sr. Engenheiro António Gravato e sua esposa ofereceram aos visitantes, no belo parque florestal onde têm a sua residência, um almoço que foi motivo para que todos trouxessem de Amarante lembrança inesquecível.
Findo o almoço seguiram os nossos conterrâneos para Vila Real.
Nesta cidade o espectáculo realizado foi também com "Os Velhos", a favor da instituição local "A Nossa Casa", obra benemérita do Padre Henrique Maria dos Santos, que protege da fome para cima de 3 centenas de crianças.
A chegada houve na sede de "A Nossa Casa" uma breve sessão de boas-vindas. Ali se encontravam o sr. Presidente da Câmara de Vila Real, o sr. Heitor Correia de Matos, director do jornal "O Vilarealense"; Aquiles de Almeida, entusiasta promotor desta visita dos tavaredenses a Vila Real; as senhoras da Conferência de S. Vicente de Paulo e muitas crianças, que cobriram de flores os visitantes à sua entrada; e outras pessoas de representação. O discurso de boas-vindas foi proferido pelo sr. Padre Henrique, cujas palavras, cheias de beleza e bondade, deixaram em todos funda impressão, tendo José Ribeiro, num vibrante discurso, agradecido as amáveis referencias que o bondoso sacerdote acabara de dirigir ao grupo dramático que superiormente orienta.
No teatro, a apresentação do grupo foi feita pelo sr. dr. Otílio de Carvalho Figueiredo. Nessa ocasião, uma das crianças da obra do Padre Henrique Maria dos Santos ofereceu à SIT um jarrão que é uma artística obra de faiança. Como em Amarante, o público de Vila Real que enchia a enorme plateia do teatro aplaudiu com extraordinário entusiasmo a representação de "Os Velhos".
As já numerosas crianças protegidas pelo Redv° Padre Henrique obsequiaram os visitantes, como lembrança da sua inesquecível digressão artística e beneficente, com miniaturas de louça regional.
No dia seguinte realizou-se um almoço de despedida, no qual falaram o sr. Padre Henrique Maria dos Santos e o Director do "Vilarealense", sr. Heitor de Matos.
Ao agradecer, José Ribeiro, proferiu um brilhante improviso, cheio de ternura, em que a sua alma de eleição, dedicada aos pobres, deu largas aos seus sentimentos filantrópicos.
Comentava-se: nós, aqui na Serra, orgulhamo-nos de possuir águias, mas lá para as bandas da Figueira da Foz, nos choupos e salgueiros do ribeiro da pitoresca aldeia de Tavarede, também se criam extraordinários rouxinóis, que, pelas suas melodias e cantares, nos transportam, por momentos, às regiões do sonho.
À saída de Vila Real foram os nossos conterrâneos acompanhados até ao limite do concelho pelo Revdº Padre Henrique Maria dos Santos e outras distintas pessoas, que lhes prodigalizaram as maiores gentilezas.
As nossas felicitações ao grupo dramático da SIT por mais esta sua excursão que, sendo de arte e caridade serviu, também, de pretexto para a melhor propaganda da sua e nossa ridente aldeia.

Bem haja, pois.