sexta-feira, 20 de junho de 2014

Operetas em Tavarede - 22

         Daniel, leviano e insensato, conquistador habituado à cidade, enamora-se de Clara, esquecendo-se que ela era a prometida do seu irmão, Pedro. Sem medir as consequências da sua atitude, resolve uma noite ir procurar Clara para lhe confessar o seu amor. Ela, naturalmente, repele-o. Que se não esquecesse de que ela era a noiva de Pedro, com quem breve iria casar e pede-lhe que nunca mais procure vê-la senão depois de ser sua cunhada.

         Enquanto conversam ouvem Pedro, que se dirigia a casa da sua noiva, para combinar algumas coisas sobre o seu casamento. E agora?

            Pedro          
    Dorme o rio, a meiga flor,
    Só eu não posso dormir
    Pois não me deixa este amor
    Que me fizeste sentir.

            Clara  
   Ó meu Deus, estou perdida,
    Ouço além Pedro cantar

            Daniel  
     Dou o sangue, a própria vida
     Para o mal remediar

            Pedro 
    Dorme o sol entre as árvores do céu
    E eu não durmo a pensar no amor teu

           Clara                        
     Que momento doloroso
     Que amargura, santo Deus!
     Mas um Deus que é pai bondoso
     Todos vê dos altos céus

            Pedro  
    Dorme o sol no azul infindo
    Escondendo o seu esplendor
    Eu não durmo, ando seguindo
    O destino deste amor.
    Dorme linda mariposa
   ‘té que volte o claro alvor

            Clara e Daniel 
     Que momento doloroso
     Que amargura, santo Deus,
     Mas um Deus que é pai bondoso         (bis)
     Todos vê dos altos céus.                       (bis)

            Pedro        
      Dorme o rio, a meiga flor,
      Só eu não posso dormir
      Pois não me deixa este amor             (bis)
      Que me fizeste sentir                          (bis)

         Quando encontra Daniel, Pedro fica verdadeiramente surpreendido. O que estava ele fazendo ali, junto da casa da sua noiva, aquela hora da noite? O ciúme morde-o violentamente e Daniel, sem saber que dizer, balbucia coisas sem nexo. É então que, pela porta por onde entrara apressadamente Clara, surge Margarida. Tudo escutara e, para salvar a honra de sua irmã, enfrenta resolutamente Pedro. Era ela, diz, quem estava a ser procurada por Daniel. Descanse o Pedro, pois Clara até ignorava que ali se encontrava seu irmão... Sossegou o Pedro e Daniel, verdadeiramente assombrado com o que se estava passando e acordando da sua leviandade, acaba por reconhecer em Margarida, a sua velha companheira e confidente das brincadeiras e aventuras de crianças, quando corriam pelos campos, brincando, enquando o gado pastava tranquilamente. Lembrou-se e... apaixonou-se. Como normal, tudo acaba em bem. E logo se preparam dois casamentos em vez de um só. Com imensa alegria e contentamento, cheios de felicidade pela ocasião, José das Dornas e o Reitor, abençoam os dois pares sorridentes e felizes. Só que... houve alguém ficou triste e contrariado. João da Esquina tinha muitas esperanças em casar a sua filha Francisquinha, com o novo médico, mas ela, mais uma vez, vê-se sem o desejado noivo.

            Clara                      
   Também canto os olhos pretos
    Que me sabem conquistar
    Porque nunca estão quietos
    Nunca param de bailar

            Margarida       
      P’ra não serem meus cuidados
      Hei-de sempre assim cantar
       Quem mos dera ver parados
       Para mim sempre a olhar

            Clara  
    Dança ligeira          
    Sê bailadeira
    Linda morena               
    Qual leve pena

            Margarida                     
      Bem ligeirinha 
      Qual andorinha
      Bem desenvolta    
      Que vôa à solta

        (O coro bisa as duas últimas quadras)

 I N T E R V A L O

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 25

         Já nos alongámos muito mais do que o previsto e, apesar disso, muito ainda haveria a recordar quanto aos usos e costumes da nossa terra. E, se recordámos alguns, não nos poderemos esquecer e lembrar, embora muito resumidamente, de mais uns quantos.
         Como, por exemplo, as lavadeiras de Tavarede, e o costume que havia de irem lavar as roupas na água límpida e fresca do nosso ribeiro, enquanto cantavam alegremente as mais bonitas cantigas do nosso teatro.
  



                                       Lavadeiras de Tavarede, na ribeira da Várzea
  
E enquanto iam lavando a roupa e cantando, lá ia de vez em quando um pouco de ‘má-língua’, normalmente ‘cortando na casaca das amigas...’. As lavadeiras tavaredenses, tantas vezes recordadas no nosso teatro!
Pela chamada semana santa era a queima do Judas e o tão desejado dia da esmola. Se ainda se mantém este último costume, já não é nada semelhante ao dos nossos tempos, em que, em ranchada e levando a bolsa de trapos coloridos, íamos de porta em porta pedindo a ‘esmolinha’, que nunca era negada. Um punhado de feijão, de grão de bico ou de chícharos, um quarto de broa caseira cozida na véspera, e no final a bolsa já estava recheada.

Mas nunca nos esquecíamos de ir até à estrada da Chã, pedir a esmola a casa do sr. Ezequiel Leite, pois já sabíamos que nos seriam distribuidas mãos-cheias de avelãs...
Também era muito frequente a passagem por Tavarede dos carros de bois gandarezes, carregados de ‘mexoalho’ que iam comprar em Buarcos e que era precioso adubo para as suas areentas terras. A rapaziada acompanhava a caminhada vagarosa do caravana esperando a queda de algum pilado, que logo corríamos a apanhar e guardar para a merenda...
O enterro do bacalhau, a serração da velha, felizmente ainda recordada, e tantos mais...
Mas não podemos esquecer um outro costume que, assim o julgamos, ainda é seguido, especialmente pelas crianças das escolas. Recordamos a quinta-feira da Ascensão e a alegre apanha da ‘espiga’.É ámanhã, quinta-feira da Ascenção, em que bandos de raparigas moças, de labios rubros, faces rosadas e olheiras fundas, correm estonteantes, borboleteando em redór das seáras como uma nuvem de daninhos e alados pardais, na faina voluptuosa e risonha de colher a Espiga, que depois entrelaçam com as mais belas flôres silvestres.
         Cada espiga que vão colhendo é uma esperança que se lhes agloméra no cerebro; cada flôr cortada é um facho de luz mais puro que o sol benfazejo da primavera, que lhes ilumina a alma e faz tanger a corda mais intima do seu coração. É, pois, ámanhã um grande dia, um dia santo, que até o mais libertino deve respeitar como o dia da Ascenção do Martir do Calvário.

E acabamos estas recordações com a nota que escrevemos no livro ‘Tavarede – a terra de nossos avós’ - primeiro caderno, sobre este velho costume. “Quarenta dias haviam decorrido após a Sua ressurreição.
         Então Jesus Cristo, cumprindo as profecias que assim já o haviam prenunciado, reuniu os seus discípulos no Monte das Oliveiras, o mesmo onde Judas Iscariotes o havia entregado aos soldados, e levantando as mãos os abençoou. Enquanto os abençoava foi-se elevando à sua vista, e subiu ao céu onde está sentado à direita de Deus, donde voltará, no Dia do Juizo, da mesma maneira por que foi para lá. É assim que a Bíblia nos conta a Ascenção de Cristo ao céu.
         Ora nesse dia, quinta-feira, cumpre-se, há já longos anos, uma tradição. É a apanha da espiga.          Esta, segundo os antigos, deve ser apanhada da parte da manhã e guardada em casa. Significa o guardar a espiga, pedir a Jesus Cristo a mercê de, durante o ano, nos não faltar com as coisas que ela simboliza e que são mais necessárias à nossa vida.      A espiga é composta do seguinte:
   - Malmequeres amarelos e brancos - representam ouro e prata;
   - Trigo - significa o pão;
  - Papoulas encarnados - que pedem alegria;
  - Um bocado de oliveira e parra - é o azeite e o vinho;

         Além destas coisas, indispensáveis, há pessoas que também juntam centeio, aveia e até favas. Estas, assim como o trigo, representam o pão, que é o nosso principal alimento. E é para pedir a Jesus Cristo que nunca nos falte com o ouro e com a prata, o azeite e o vinho, e finalmente com a alegria, que neste dia se vêm pelos caminhos dos campos, enormes grupos de raparigas que, alegremente, procuram aqui uma seara de trigo para apanharem uma espiga, além uma oliveira para colherem um bocadinho e mais adiante os malmequeres, as papoulas e as restantes coisas, para formarem assim a espiga, conforme manda a tradição.
         O certo é que, por volta do meio dia, se vêem as raparigas regressar a suas casas, alegres e felizes, com o ramo na mão, no qual sobressai o vermelho garrido das papoulas, igual ao tom carminado das suas faces que o sol, atrevido, corou. Ao chegarem a casa correm pressurosas a guardar a sua espiga, a qual só será atirada fóra quando no próximo ano for substituida por outra.
         É assim ano após ano. A tradição, já tão velhinha, continua. As raparigas não a deixam esquecer. É vê-las como anciosas esperam este dia. Oxalá nunca a deixem morrer e que sempre possam continuar a ir apanhar a espiga com a paz e a alegria que a mesma representa. O dia da Ascenção era um dia muito respeitado antigamente. Bastará, para o confirmar, a quadra que respigámos de um artigo sobre as superstições populares no concelho da Figueira da Foz

Se os passarinhos soubessem
Quando é dia d'Asccenção
Nem punham o pé no ninho
Nem o biquinho do chão.

O Associativismo na Terra do Limonete - 81

Com a sede em obras, houve interrupção do teatro em Tavarede. Mas o grupo cénico não parou. Depois de outras deslocações, foram a Vila Real e a Amarante. Mais do que a falia de tempo de que actualmente podemos dispor, o nosso estado de saúde, cano de costume, sobrepondo-se aos nossos desejos, não nos permitiu acompanhar o grupo dramático da Sociedade de InstruçãoTavaredense, nos dias 10, 11 e 12 do corrente, nas suas jornadas de bem-fazer, desta vez a Amarante e Vila Real, facto que, nos penalizou sobremaneira por não podermos viver, pessoalmente, as carinhosas e entusiásticas manifestações de simpatia e apreço de que foram alvo os nossos conterrâneos, naqueles importantes localidades nortenhas.
Mas nem por isso deixámos de acompanhar em espírito os briosos rapazes e simpáticas senhoras, que tão longe levaram o nome da nossa aldeia em missão cultural e beneficente, de sentir em nosso coração de tavaredenses o festivo ambiente que a todos rodeou.
E, assim, para que pudéssemos registar em nossos "apontamentos", informando os estimados leitores, da triunfal excursão tavaredense, pedimos a um nosso amigo, que a acompanhou, nos dissesse algo das suas impressões, pondo-se inteiramente à nossa disposição, gentileza que, alem dos nos cativar, reconhecidamente agradecemos.
Chegados a Amarante, à entrada da vila esperavam os visitantes a corporação dos Bombeiros, Filarmónica local, representantes das colectividades com seus estandartes, a Comissão promotora do espectáculo, que era a favor do Hospital da Misericórdia e muito povo. Formou-se um cortejo que percorreu várias ruas, e das janelas, donde pendiam colgaduras, foram lançadas flores.
No edifício da Câmara Municipal deu as boas vindas o Vereador do pelouro da Cultura e Presidente da Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão, tendo agradecido a carinhosa recepção dispensada o director do grupo cénico.
À noite, no teatro, com a grande sala repleta dum público que aplaudiu calorosamente, fez a apresentação do grupo de Tavarede, num brilhantíssimo discurso, o ilustre advogado sr. dr. Balbino de Carvalho, que é um grande amigo e admirador da Figueira.
A impressão deixada com a representação de "Os Velhos" foi excelente.
Num dos intervalos foram oferecidos por simpáticas crianças, a José da Silva Ribeiro e às distintas amadoras, D. Violinda Mediria e Silva, menina Maria Isabel de Oliveira Reis, lindos ramos de flores, gentileza que muito os sensibilizou.
No dia seguinte, os distintos figueirenses sr. Engenheiro António Gravato e sua esposa ofereceram aos visitantes, no belo parque florestal onde têm a sua residência, um almoço que foi motivo para que todos trouxessem de Amarante lembrança inesquecível.
Findo o almoço seguiram os nossos conterrâneos para Vila Real.
Nesta cidade o espectáculo realizado foi também com "Os Velhos", a favor da instituição local "A Nossa Casa", obra benemérita do Padre Henrique Maria dos Santos, que protege da fome para cima de 3 centenas de crianças.
A chegada houve na sede de "A Nossa Casa" uma breve sessão de boas-vindas. Ali se encontravam o sr. Presidente da Câmara de Vila Real, o sr. Heitor Correia de Matos, director do jornal "O Vilarealense"; Aquiles de Almeida, entusiasta promotor desta visita dos tavaredenses a Vila Real; as senhoras da Conferência de S. Vicente de Paulo e muitas crianças, que cobriram de flores os visitantes à sua entrada; e outras pessoas de representação. O discurso de boas-vindas foi proferido pelo sr. Padre Henrique, cujas palavras, cheias de beleza e bondade, deixaram em todos funda impressão, tendo José Ribeiro, num vibrante discurso, agradecido as amáveis referencias que o bondoso sacerdote acabara de dirigir ao grupo dramático que superiormente orienta.
No teatro, a apresentação do grupo foi feita pelo sr. dr. Otílio de Carvalho Figueiredo. Nessa ocasião, uma das crianças da obra do Padre Henrique Maria dos Santos ofereceu à SIT um jarrão que é uma artística obra de faiança. Como em Amarante, o público de Vila Real que enchia a enorme plateia do teatro aplaudiu com extraordinário entusiasmo a representação de "Os Velhos".
As já numerosas crianças protegidas pelo Redv° Padre Henrique obsequiaram os visitantes, como lembrança da sua inesquecível digressão artística e beneficente, com miniaturas de louça regional.
No dia seguinte realizou-se um almoço de despedida, no qual falaram o sr. Padre Henrique Maria dos Santos e o Director do "Vilarealense", sr. Heitor de Matos.
Ao agradecer, José Ribeiro, proferiu um brilhante improviso, cheio de ternura, em que a sua alma de eleição, dedicada aos pobres, deu largas aos seus sentimentos filantrópicos.
Comentava-se: nós, aqui na Serra, orgulhamo-nos de possuir águias, mas lá para as bandas da Figueira da Foz, nos choupos e salgueiros do ribeiro da pitoresca aldeia de Tavarede, também se criam extraordinários rouxinóis, que, pelas suas melodias e cantares, nos transportam, por momentos, às regiões do sonho.
À saída de Vila Real foram os nossos conterrâneos acompanhados até ao limite do concelho pelo Revdº Padre Henrique Maria dos Santos e outras distintas pessoas, que lhes prodigalizaram as maiores gentilezas.
As nossas felicitações ao grupo dramático da SIT por mais esta sua excursão que, sendo de arte e caridade serviu, também, de pretexto para a melhor propaganda da sua e nossa ridente aldeia.
Bem haja, pois.

E vamos transcrever, agora, uma nota sobre o que foram as obras na Sociedade. Apesar da dureza dos tempos dos últimos meses, as obras de transformação do teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, têm prosseguido com certa regularidade.
E natural que, se não fôra essa imprevista circunstância, os trabalhos estivessem mais adiantados.
Entretanto, não podemos deixar de louvar a boa vontade do empreiteiro, o nosso particular amigo, sr. Constantino Ferreira Sopas, dessa cidade, que tem dedicado a tão valiosa obra uma assistência técnica digna dos maiores encómios, inclusivamente escolhendo para encarregados dos diversos serviços, operários de reconhecida competência, alguns deles sócios da colectividade, tudo fazendo, enfim, para que a SIT fique, na verdade, com um óptimo e bem construído imóvel.
Na semana passada, operários especializados concluíram a cobertura do edifício com chapas de fibrocimento, fornecidas pela considerada empresa nortenha "Novinco", de que é representante a importante firma Alberto Gaspar & Cª. da Figueira da Foz.
De tal modo, já mais seguramente se poderá caminhar para o termo das obras.
Pelo que já nos é dado observar, a SIT vai ficar com uma esplêndida sede, em que não faltam os requisitos exigidos pelas novas técnicas, outra coisa não sendo de esperar.
Assim, no rez do chão, ficarão situados, alem da plateia, que foi ampliada, com vista a comportar uma maior lotação, bar, "hall", camarins, lavabos para homens e senhoras e casa de banho.
No primeiro andar, teremos um amplo salão para recepções, gabinete da Direcção, biblioteca, camarins e lavabos para senhoras.
Ainda outros salões e compartimentos destinados a arrumos, localizar-se-ão no segundo andar.
O antigo campo de jogos, deverá ficar em condições de servir a parque de estacionamento de veículos, em dias de espectáculos e festas da SIT.
Quanto ao palco, bastará dizer, que está a ser erigido sob a orientação técnica do ensaiador e Mestre de teatro, que é José da Silva Ribeiro, o mesmo será dizer que o palco ficará de modo a permitir a representação de peças de qualquer género, aliás, como as que foram ali levadas à cena em tão precárias condições, devido ao reduzidíssimo espaço de que dispunham os amadores para se movimentar, e que só a sua grande vontade, o seu amor à causa do teatro, superava.
Obra de relevo, de concepção admirável do distinto arquitecto e grande admirador da actividade daquela colectividade, sr. Izaias Cardoso, que soube aproveitar todo o espaço livre destinado ao fim em vista - obra que viveu, durante algumas dezenas de anos, nos corações dos sócios e dos inúmeros simpatizantes da prestigiosa colectividade e que só o poderoso auxílio da benemérita Fundação Gulbenkian foi possível tornar em promissora realidade.
Nos tempos difíceis que vivemos e em que às colectividades recreativas se lhes deparam os maiores obstáculos para levar por diante sua nobre e generosa missão artística e educativa, a bem do Povo, não bastava somente a vontade de trabalhar dos homens da SIT, era preciso mais alguma coisa e, essa alguma coisa, teria que ser convertida em bom material sonante...
Por isso que, não só os sócios como também todo o povo da freguesia de Tavarede, deverá estar presente no dia da inauguração da sede profundamente remodelada da SIT, para testemunhar aos ilustres membros do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian, o seu imperecível reconhecimento.
É um dever de todo o tavaredense, pois o que é, deve-o, na sua grande maioria - e as carunchosas tábuas do palco que o digam quantos tavaredenses as pisaram para sua cultura e recreio - à SIT.

Bem sabemos que toda a obra do frágil barro humano tem seus contraditores. Porém, volvido quase meio século de actividade em benefício do seu semelhante, facilmente chegamos à conclusão de que valeu bem a pena trabalhar, porque foi precisamente o seu desinteresse, o sentido de contribuir para a elevação do nível cultural e artístico do Povo, através do teatro, que proporcionou à SIT o generoso auxílio financeiro, que lhe foi atribuído pelo exmo. Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Usos e Costumes na Terra do Limonete - 24

         Também no Largo do Terreiro se organizaram, em 1915, festas populares, onde “... abrilhantará as danças uma excelente orquestra composta de apreciados amadores daqui e da Figueira”.
         E antes de iniciarmos as nossas próprias recordações, ainda vamos transcrever mais um recorte publicado em 1923. “Ainda na minha ultima carta profetisava uma desusada concorrência a esta terra, na noite de sábado para domingo, neste dia à tarde, e na segunda-feira, desde que o tempo o permitisse, e afinal não me enganei.
A noite de sábado era toda luar não fazendo bafo de vento, e como tal, aí por volta das 10 horas da noite em deante, foi-se notando grande animação de forasteiros, uns preparadinhos para passarem a noite encostados a um balcão, "copiando", até perder a fala, cantando ao som dum harmonium e outros ainda, - os mais ajuizados, - para na dança, conversarem os seus amores, as suas ilusões...
É a mocidade na sua pujança. É o período de tempo em que a irrequietude dos 20 anos vai testamentando à futura velhice, que caminha agigantadamente na vertiginosa marcha do dia a dia, as mais gratas e saudosas recordações...
À meia noite deu-se inicio à função dançante, que leve logar no largo do Paço, tocando a tuna da terra! À tarde, continuação do rancho que se prolongou até depois da meia noite.
Na segunda-feira houve, alem das corridas pedestres em que foram distribuídos prémios aos vencedores, a tradicional e sempre agradável "Rosquilhada". Para esta prova hipica estava inscripto grande numero de "cavaleiros", que montando "belas estampas burricais", conseguiram enfiar muitas rosquilhas, alguns à custa do seu trambolhãosinho. Teve também logar um numero muito interessante e que estava despertando grande interesse da parte dos amadores respectivos.
Foi o duelo de malha, nos taboleiros da casa comercial dos sucessores de Francisco Cordeiro. Debateram-se os dois grupos de 1as categorias Triângulos Verde e Vermelho, disputando-se varias medalhas e uma ceia. Não conseguiu nenhum ganhar, porque durante a hora e meia de jogo fizeram uma conta de pontos eguais, resolvendo o jury que os mesmos grupos se batessem no domingo seguinte, o que se não efétivou, por motivo de um dos jogadores se encontrar doente...”.

Os mais antigos pavilhões de que nos recordamos eram no Largo do Paço, organizados pelo Grupo Musical, que depois passou a utilizar um recinto, na quinta do sr. José Duarte, frente à sua sede. E se do primeiro lugar as ideias já são muito vagas, muito bem nos recordamos do segundo, até porque foi ali que nos iniciámos na dança!
Anos mais tarde, as chamadas festas de verão, começaram a ser realizadas no antigo campo de jogos da Sociedade, onde hoje está construído o pavilhão desportivo. Foi neste que iniciámos a nossa colaboração na montagem do arraial. Eram sempre serões alegres onde eram feitas cordas de bandeiras de papel, festões e argolas. Depois íamos apanhar braças de ramadas de loureiro para as cordas que enfeitavam o pavilhão, dando a volta ao recinto, de mastro em mastro, e dos cantos até ao mastro central, juntamente com os enfeites de papel colorido e gambiarras para a iluminação.
Ao centro, rodeando o mastro principal, era instalado o coreto para a música, o qual, anos depois e para protecção do vento, passou a ser feito do lado norte do recinto, junto da vedação. Aos lados eram instaladas as costumadas barracas, para a quermesse, tiro, etc. Indispensável era o bufete e o retiro dos petiscos. Muitos foram os conjuntos musicais que por ali passaram. E recordamo-nos muito bem das antigas modas de roda, que, mal começavam a ouvir-se, logo atraíam velhos e novos a formarem roda a toda a volta do recinto da dança!
Ainda uma breve recordação para os arraiais realizados no largo do Terreiro. Eram muito mais simples na ornamentação.  Para o coreto serviam as escadas da casa da ‘ti Marquitas’ dos tremoços, freiras e pevides. A orquestra, pomposamente intitulada de ‘Jazz da Malveira’, era composta por residentes locais, a sanfona, de Diamantino alfaite, o pífaro, de Manuel Lindote, e a viola, de nosso pai, Pedro Medina.

A um dos lados era acesa a fogueira, para a qual íamos à lenha e aos piteirões secos, pelo caminho do Peso e da Serra. Eram festas quase familiares, alegres na sua simplicidade, mas sempre do agrado de todos. E que deixaram muitas saudades...

O Associativismo na Terra do Limonete - 80

Festejando o dia primeiro de Maio de 1960, o Grupo Musical conseguiu reatar uma velha tradição da nossa terra. A velha e simpática colectividade da nossa terra, que é o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, está de parabéns.
O rancho 1º de Maio, de sua organização, que se apresentou em publico no dia 1 do corrente, e era constituído por 16 pares de bonitas raparigas e garbosos rapazes obteve destacado sucesso.
Muito bem. Oxalá que tão feliz iniciativa frutifique, pois que veio reatar uma velha tradição tavaredense, lamentavelmente interrompida, há anos, como agora se demonstrou.
Quando a marcha, em formação impecável, descia arrogante, a rua Dr. Oliveira Salazar e parou, frente ao monumento ''Aos Tavaredenses de Amanhã" no largo que imortaliza o nome sempre querido dos tavaredenses de D. Maria Amália de Carvalho, falecida há poucos dias, como relatámos, vimos deslizar pelas faces de muitos rapazes e raparigas, alguns rondando a casa dos setenta anos, lágrimas de saudade, daquela saudade dos tempos a que já não se pode voltar.
Acompanhava o rancho que foi saudado calorosamente nos lugares onde se exibiu um bem organizado conjunto musical, que muito nos sensibilizou por nos trazer à memória os inesquecíveis momentos da nossa fugaz mocidade em que acompanhávamos a afamada tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
A todos, organizadores, rapazes e raparigas, executantes, e de modo especial a Alberto Esteves Vigário, encarregado da parte coreográfica, e a Carlos Santos, a cargo de quem esteve a parte musical as nossas maiores e mais sinceras felicitações pelo que acabam de fazer a bem de Tavarede. Bem hajam.
A despedida da velha casa de espectáculos, erigida por João José da Costa, teve lugar no dia 29 de Maio de 1960. José da Silva Ribeiro, o homem que pelas suas invulgares qualidades de carácter, superior inteligência e profundos conhecimentos da arte de Talma, em nosso entender, e sem a menor quebra de admiração pelos seus dedicados colaboradores, a Sociedade de Instrução Tavaredense, ou, por outra, Tavarede fica devendo a arrojada obra de transformação do seu teatro, antes de subir o pano disse da saudade da velha sala de espectáculos, recordando enternecidamente todos aqueles que há mais de 50 anos têm trabalhado para o prestígio da nossa colectividade, afirmando, em certa altura, que Tavarede devia aquele teatro ao benemérito João Costa e sua ampliação à filantrópica Fundação Calouste Gulbenkian.
“O Beijo do Infante” e “O Dia Seguinte”, encerraram com chave de ouro o ciclo de representações ali efectuadas, por isso que a assistência, que enchia totalmente o velho teatro, se manifestou de maneira apoteótica.
Contudo, os louros da inesquecível noite foram, sem desprimor para os restantes amadores, para a simpática e talentosa amadora, Maria Isabel de Oliveira Reis, pelo magnífico desempenho no papel de Matilde, em "O Dia Seguinte".
No final do espectáculo, o incansável Presidente da Direcção, sr. Marino de Freitas Ferraz, convidou todos os amadores da SIT, velhos e novos, a subir ao palco para, sobre as suas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e de aborrecimentos imperecíveis passaram, assistir ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhe haviam proporcionado.
No domingo, houve um encontro de futebol entre as equipas da secção dramática e secção desportiva da SIT, cujo resultado foi um empate a 1 bola, após o que os jogadores e outros sócios se reuniram em lauta bacalhoada, que decorreu animadíssima.
À noite efectuou-se o baile, que teve a dar-lhe entusiasmo, o excelente conjunto "Satélites do Ritmo", dessa cidade.
Foi um grande e inesquecível baile, que, estamos certos, há-de perdurar por largo tempo nos corações da mocidade radiosa.
À meia-noite em ponto, o Presidente da Direcção da SIT pôs em leilão o camartelo cujas primeiras pancadas assinalaram o começo da demolição das paredes, sendo a oferta mais elevada a da gentil menina Maria da Conceição Ferreira Soto Maior.
Também a talentosa amadora, srª D. Violinda Medina e Silva, aceitando o camartelo que lhe foi oferecido, se lançou num verdadeiro ataque às velhas paredes. E ainda outras pancadas se seguiram...
Parabéns aos rapazes da SIT

E, agora, ate à inauguração da nova casa de espectáculos.

Operetas em Tavarede - 21

         Chega Daniel. E depois dos abraços e dos cumprimentos, Pedro entende ser chegada a ocasião de lhe apresentar a sua noiva, a Clara, uma das pupilas do senhor Reitor. Ela não estava em casa e, como de costume, Pedro chama-a.

            Pedro        
  Vem livrar-me com teus olhos
  Que eu por eles me perdi
 Dá-me a vida com teus beijos
Já que por beijos morri.

            Clara            
 Ó rio das águas claras
 Que vais correndo p’ró mar
  Os tormentos que eu padeço
 A ninguém vás declarar.

            Pedro    
  Não declara quem não pode
  E não tem que declarar,
  Pois quem é assim tão bela
  Não pode ter que penar.

            Clara    
  O que eu peno ninguém sabe
  Ninguém o pode saber
  Porque peno e não me queixo
  Em segredo sei sofrer.

            Pedro 
  Pois padecer em silêncio
  É bem dobrado sofrer
  Melhor é contarmos tudo
  A quem nos possa entender.

            Clara    
   Vem livrar-me com teus olhos
   Que eu por eles me perdi
   Dá-me a vida com teus beijos
   Já que por beijos morri.

 


    O segundo acto é passado na eira de José das Dornas. Como era habitual naqueles tempos, as “esfolhadas” são feitas à noite, à luz do luar, em alegres reuniões em que se cantava animadamente enquanto iam trabalhando.

            Matilde                  
   A cantar o mal se espanta
   Pois é bom sempre cantar

            Coro    
    Roda, roda, vira, vira,
    Torna-te a virar

            Matilde      
    Eu assim canso a garganta (bis)
    Para as mágoas espantar

            Coro   
    Vira, vira, vira, gira,
    Roda, troca o par

            Matilde         
     Mas a minha pena é tanta
     Que a não posso afugentar

            Coro  
      Roda, roda, vira, vira, etc.

            Matilde   
     Mas a minha pena é tanta (bis)
      Que a não posso afugentar

            Coro 
     Vira, vira, vira, gira, etc.

            Joaquim   
  Não se espanta assim a pena
  Que entristece o coração

            Coro  
  Roda, roda, vira, vira, etc.

            Joaquim  
  Com a simples cantilena (bis)
  Que se canta a um papão

            Coro             
   Vira, vira, vira, gira, etc.

            Joaquim      
  Porque a pena só condena
  Quem não tenha um’afeição

            Coro 
  Roda, roda, vira, vira, etc.

            Joaquim     
  Porque a pena só condena (bis)
  Quem não tenha um’afeição

            Coro   
   Vira, vira, vira, gira, etc.

    Roda, roda, vira, vira,
    Torna-te a virar
    Vira, vira, vira, gira,
    Roda, troca o par

         As espigas iam-se juntando no meio da eira, enquanto a palha era amontoada em redor da eira. De vez em quando, ouviam-se o grito alegre de “milho-rei”, “milho-rei”. E logo no meio do entusiasmo geral, o feliz achador lá dava a volta à roda, abraçando ou beijando companheiros ou companheiras. Nem todos, porém, tinham essa sorte... Entretanto, alguém pede uma cantiga. Clara, uma das mais bonitas vozes da aldeia, não se faz rogada. E canta, canta uma linda canção, certamente bem conhecida de todos.

            Coro 
     Andava a pobre cabreira
     O seu rebanho a guardar
     Desde que rompia o dia
    Até a noite fechar.

            Clara  
      Sentada no alto da serra
      Pôs-se a cabreira a chorar
      Porque chorava a cabreira
      Ninguém o soube contar.

            Coro     
      Essa história da pastora              (bis – Clara)
       Devo agora explicar                    (bis – Clara)
       Apar’ceu-lhe um pagem loiro      (bis – Clara)
       Que a não soube requestar          (bis – Clara)

            Clara                 
    Nunca a tinha visto antes
   O seu rebanho a pastar,
   E foi correndo p’ra serra             (bis)
   Jurando afecto sem par               (bis)

            Coro  
   O rebanho vai fugindo
    Pelos vales sem parar
    E a pastorinha atrás dele
     Sem o poder alcançar

            Clara    
    E andaram assim três dias
    E três noites sempre a andar
   Até que à porta dum paço
   Afinal foram parar.

            Coro  
    O rei perdera uma filha                 (bis – Clara)
    Que jamais poude encontrar          (bis – Clara)
    E na formosa cabreira                    (bis – Clara)
    Quiz seu rosto idealizar                  (bis – Clara)

            Clara                                         
  E vêm damas p’ra vesti-la
  E vêm damas p’rá calçar
  E a mais formosa de todas             (bis)
  Para as tranças lhe enfeitar           (bis)

            Coro         
  Mais tarde a linda cabreira
  Ninguém a poude encontrar
  Mas um anjo de asas brancas

  Viram dos céus a voar.