sexta-feira, 18 de julho de 2014

Operetas em Tavarede 26


                     Vai com Deus, velhinha santa,
                               Que justiça
                      Será feita e o réu há-de
                     Baixar a fronte submissa
                     Ante a minha majestade
                     Que “mais alto se alevanta!”
                     Vai com deus, velhinha santa!

                     Vai com Deus, santa velhinha,
                                Que o teu pleito
                     Depuseste em boa mão.
                     Eu o tomarei a peito
                     E vai dar-lhe solução
                     A justiça da rainha!
                     Vai com Deus, santa velhinha!

         Maria Clementina conversa com D. Joana, que fica encantada ao conhecê-la e lhe diz:

         D. Joana – “Ouça-me. Uma das minhas amigas tem um filho oficial do exército. No ano passado este rapaz, que é meu afilhado, passou algum tempo em Braga, em serviço; quando regressou a Lisboa, ia preocupado e triste. A mãe, sobressaltada, escreveu para alguém do seu conhecimento que reside aqui próximo e a carta que obteve em resposta tenho-a eu, aqui. (lendo) “Quanto ao que me perguntas a respeito do teu filho, colocas-me em sérios embaraços. Com a franqueza que sempre me conheceste, dir-te-ei que o teu filho Filipe é digno de censura. Há tempos que a sua assiduidade junto de uma menina destes lugares havia sido notada; no dia da sua partida, uma imprudência dele sacrificou a reputação daquela que inocentemente confiara nele...”:

         Sabendo que ela vinha fazer esta viagem, pedira-lhe para procurar a tal menina, que por Roberta soubera ser Maria Clementina, e assegurar-lhe que a mãe de Filipe acredita na sua pureza de mulher, que uma imprudência de seu filho assim sacrificara; que ela lhe pediu que, se pudesse encontrá-la, lhe assegurasse isso mesmo e que lhe transmitisse um beijo “que espero me não recusará”. E foi entre lágrimas que D. Joana, ao despedir-se, lhe garantiu que a todos seria feita justiça.

         Maria Clementina ainda não estava em si. Pois Roberta havia tido o atrevimento de ir falar com a Rainha?... E conhecera-a?

         Roberta – “Conheci logo. Não trazia estadão porque, como me disse o tal rapaz, ela viaja... viaja... Ora como disse ele? Era assim uma coisa como “em cólicas”, mas que vinha a dizer que viajava sem estrondo. Cheguei-me à carruagem e disse para as três senhoras que iam lá dentro: - Qual de V.Exas. é a Rainha? Eu vi logo que devia ser a mais idosa. As duas mais novas desataram a rir... como a menina ri também... não sei porquê. Lembrou-me que seria por eu não dar o tratamento que devia e emendei logo: - Qual de Vossas Majestades é a Rainha? As outras riam ainda... Eram uns galos doirados, coitadinhas, nem por estarem na presença de quem estavam. Raparigas... Mas a senhora tocou-lhes com o cotovelo e disse: - Sou eu, porquê? Eu então, chamei-a de parte e contei-lhe tudo. Era o que faltava se eu me punha com biocos. Depois de lhe ter contado como as coisas se passaram, eu disse à Rainha: - Agora veja Vossa Majestade se isto deve ficar assim, se os militares que Vossa Majestade para cá nos manda vêm para manter a paz ou para meter a desordem nas famílias e fazer a infelicidade de meninas bem educadas”.

         Pois havia sido assim mesmo e o resultado estava à vista. Sua Majestade iria fazer justiça. Eram, entretanto, horas de ceia. Patrão e trabalhadores fazem as despedidas.

            Homens e Mulheres                        
      Boas tardes, meu patrão!

            José Urbano     
       Deus vos salve, meus rapazes,
       Ceiem com satisfação.

            Maria Clementina     
       Santas tardes!

            José Urbano 
       Francisco, vê o que fazes:
       Os enxertos não esquecer,
       Senão deixas-me à divina...

            Francisco     
      Patrão, não tem que temer,
      Não há-de
      Haver novidade.

            José Urbano  
      Novidade?! Ou haja ou não,
      Bem sei, não és tu que ardes,
      E eu é que fico a perder...

            Francisco 
     Boas tardes,
     Meu patrão.

            Trabalhadores    

     Boas tardes,
     Meu patrão.

            Maria Clementina      
     Santas tardes.

            José Urbano      
    Ceiem com satisfação.

            Trabalhadores      
     As companheiras
    Mai-los pequenos
    ‘speram os seus...

            Maria Clementina   
      Após canseiras
      Têm pelo menos
      A paz de Deus!
      Arde a candeia...

            Trabalhadores  
     Mas ninguém cega
     Com a luz dela!...

            José Urbano       
      Vá! vão à ceia.

            Trabalhadores 
     Vamos à ceia
     Que já fumega
     Lá na panela!

            Todos           
     Vá vão à ceia
    Que já fumega
    Lá na panela.

Quase se pode adivinhar o resto. A Rainha, melhor dizendo, D. Joana, acompanhada pelo Alferes Rialva, vai novamente à quinta, onde, além de Maria Clementina e Roberta, está o tio José Urbano e o Major Samora, com quem fizera amizade recentemente. Maria Clementina é, então, pedida em casamento.

            Rialva                  
  Após a noite há o dia,
  Sobre o tempo, tempo avança.
  Maria, quem me diria,
  Da tempestade à bonança
  Que tão pouco passaria.

            Maria 
   Mas agora, meu amor,
   Seja o que fôr
   Que o nosso destino teça...

            Rialva    
   Aconteça o que aconteça,
   P’ra nunca mais te deixar.

            Os dois    
       Aconteça o que aconteça,
        P’ra nunca mais te deixar.

            Maria   
       Este delírio
       Que é de prazer
       E de tortura,
       Não sei dizer
       Se é um martírio,
       Se uma ventura!

            Rialva  
     O teu amor
     Como revive
     No teu perdão!

            Maria   
      Podes supor
     No que inda vive                    (bis)
      Ressurreição?!...
      Se sempre foi
      Como é agora:
     Riso que doi,                          (bis)
     Prazer que chora...

            Rialva  
     Mas agora, meu amor,
     Seja o que fôr
     Que o nosso destino teça...

            Maria  
     Aconteça o que aconteça,
     P’ra nunca mais te deixar!

            Ambos 
   Aconteça o que aconteça,
   P’ra nunca mais te deixar!...

         Com surpresa de todos, José Urbano recusa a mão de sua sobrinha. Estupefacta, D. Joana pergunta-lhe o porquê. “Para conhecer a razão da minha negativa, diz ele, era necessário contar-lhe a minha história e a de minha irmã, que já não vive há muito, e eu não quero cansar a vossa paciência, pois a história é longa”. Nada. Querem mesmo ouvir a história e saber os motivos da recusa ao pedido. E José Urbano acede.

         José Urbano – “Seja como querem, embora vá avivar feridas que desejo cicatrizadas. Minha mãe, ao morrer, tinha eu vinte anos, deixou-me uma irmãzinha de oito anos de idade. Eu, que até ali tinha levado uma vida de rapaz, abandonei os meus companheiros de prazer e dediquei-me de coração ao trabalho. Com o hábito do trabalho criei ambições. O Brasil seduzia-me com as suas promessas de riqueza; e regulada com um comerciante meu amigo uma mesada a minha irmã, deixei-a em companhia de Roberta, que foi ama de nós dois.
         Trabalhei muito no Brasil, mas no fim de oito anos podia considerar-me rico. Por meados de 1833, quando andava tratando da liquidação dos meus negócios, recebia de Portugal uma carta tarjada de preto. Abri-a a tremer. Participava-me que minha irmã morrera no dia 23 de Julho daquele ano. Fiquei gravemente doente. Fui viajar. Dez anos depois regressei a Portugal. Que profunda comoção interior senti ao visitar a casa onde nascera e vivera com minha irmã, e agora ia encontrar vazia!
         Pensava eu nisto quando, de repente – que ilusão aquela, meu Deus! – eu vi aparecer minha irmã à mesma janela onde 18 anos antes eu a vira a dizer-me adeus. Corri como um louco e bati à porta gritando: -“Abre, Roberta. Abre... Minha irmã não morreu! Eu logo vi que não podia ser!”. Eu estava alucinado. Não posso dizer o que se passou. Lembro-me que pouco depois eu abraçava e beijava uma bonita criança de dez anos, julgando beijar minha irmã. Mas a ilusão passou. Gritei: “Quem é esta menina, Roberta?”. – “É sua sobrinha, filha de sua irmã”. Aquelas palavras atravessaram-me o coração. Ia a passar das carícias talvez a alguma crueldade, quando aquele anjo exclamou: “Ai! Pois é este o meu tio!”. E saltou-me ao pescoço, beijando-me com meiguice. Desatei a chorar e não pude deixar de a apertar ao coração.

         Minha irmã fôra enganada por um infame, causa do meu infortúnio e da sua morte. Já que eu a não soube defender, cumpria-me chorá-la e proteger-lhe a filha, que logo amei e cada vez mais. A sorte de minha irmã era muito notória para que eu pudesse viver feliz na minha terra. Vim por isso para Braga, deixando Barcelos com vivas saudades. Aqui tem V.Exa. a razão da minha recusa. Maria Clementina é filha ilegítima e eu não conheço seu pai. Não pude obter sinais dele. Roberta sempre manteve uma reserva que me pareceu ser recomendação de minha irmã. Sei apenas que era militar, um dos muitos que por aquela época cobriam o reino. Algum aventureiro que nunca mais se lembrou da vileza que cometera, nem talvez ao cair no campo varado por uma bala inimiga!”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 84

  No domingo 26 de Fevereiro de 1962, atingida a 16ª representação, a Direcção da colectividade aproveitou para homenagear os autores da peça e da música. Em cena aberta, no intervalo do 1o para o 2o acto, teve lugar a cerimónia, simples, como as circunstâncias impõem, mas bastante expressiva. Quando Helena de Figueiredo Medina e Violinda Medina e Silva, amadoras mais antigas do grupo dramático, entregaram a José Ribeiro e Anselmo Cardoso bonitos ramos de cravos e a veneranda senhora D. Maria Augusta Águas Cruz levou ao nosso ilustre conterrâneo um perfumado ramo de violetas, ao mesmo tempo que lhes eram lançadas flores, muitas flores, foi um momento de indescritível entusiasmo, de verdadeira apoteose aos autores da fantasia, que, há mais de dois meses, vem deliciando a plateia tavaredense, pela qual já passaram mais de quatro mil espectadores.

  O entusiasmo que Terra do Limonete despertou entre o público e a satisfação pelo melhoramento já conseguido, levaram os amadores a reunirem-se em alegre convívio. O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense reuniu, no passado domingo, em festa de confraternização  todos os elementos, em número superior a uma centena, que prestaram a sua colaboração nas representações da peça "Terra do Limonete", que, como dissemos, deixou a cena em pleno triunfo, depois de ininterruptas récitas, durante o considerável período de quatro meses.
Foi uma festa simples, mas a todos os títulos bastante significativa, pois que serviu de pretexto para ser exaltada, a par dos sacrifícios de alguns pelos inúmeros afazeres da sua vida particular, a inflexível vontade de outros em continuar sem o menor desalento, a bela e generosa iniciativa nos fundadores da SIT.
Confeccionado por distintas amadores, auxiliadas por dedicadas e incansáveis senhoras, foi servido, no palco, um esplêndido almoço a todos os convidados, que decorreu num ambiente de intensa alegria.
No final do repasto proferiram discursos sobre a magnífica obra da SIT, a dedicação admirável dos seus amadores e o êxito incontestável da peça do insigne tavaredense sr. José da Silva Ribeiro, o Presidente da Direcção e o autor da musica de “Terra do Limonete”, sr. Anselmo de Oliveira Cardoso, que há uns bons trinta anos vem dando a sua melhor cooperação àquela colectividade.
José Ribeiro proferiu um discurso magistral pela riqueza dos conceitos expressos, que constituíram verdadeira lição de humildade cristã.
Após o almoço improvisou-se um baile, tendo-se dançado animadamente.
De Lisboa vieram assistir à festa, os distintos artistas srs. Alberto Anahory e Alberto Lacerda, que também prestaram a sua valiosíssima colaboração a "Terra do Limonete".
Estão de parabéns os rapazes da SIT pela sua feliz iniciativa que, se outro mérito não tivesse para lhe rendermos os nossos louvores, bastaria a afirmação da extraordinária vitalidade do grupo dramático que, sob a égide de José Ribeiro, tão alto tem elevado o nome da prestigiosa associação e, consequentemente, o nome da nossa amada terra do limonete.

         Por seu lado, o Grupo Musical não estava inactivo. Aproximando-se o primeiro de Maio, procederam-se aos ensaios da marcha dos potes floridos. O Grupo Musical Tavaredense traz em ensaios, para apresentar na manhã do 1º. de Maio, na nossa terra e na Figueira, um rancho composto de 40 figuras, à frente do qual se apresentarão os sobreviventes da velha e gloriosa tuna de Tavarede que constituíu durante tantos anos, legítimo orgulho daquela velha colectividade tavaredense.
         Como é sabido, não é a primeira vez que o Grupo Tavaredense apresenta o seu magnífico rancho. Nos últimos anos a sua exibição conquistou-lhe gerais e calorosos aplausos, já porque a apresentação do mesmo se impõe, já porque se mantém assim uma tradição em que Tavarede caminhou sempre na vanguarda.
  Apraz-nos registar e louvar, pois, a iniciativa dos directores da simpática colectividade tavaredense merece os melhores aplausos. Em Sintra, o nosso conterrâneo Medina Júnior, um dos fundadores da colectividade, não ficou indiferente à notícia. Li recentemente neste jornal, numa local de Tavarede, a agradabilíssima notícia - que tanto bem me proporcionou à alma, eternamente apaixonada e bairrista - de que a corajosa gente moça da minha aldeia linda alimentava o firme propósito de apresentar em público, no memorável e festivo Dia !° de Maio - de tão gratas e saudosas recordações... - o célebre rancho das cantarinhas, ornamentadas, a capricho, de flores viçosas, das mais variadas espécies e matizes, a que não poderia faltar, como é óbvio, a clássica lúcia-lima, cuja rescendêncía inconfundível, volatizando no espaço, logo denuncia a respectiva origem e "fala", ufanosa, das tradições mais belas da "pátria do limonete"...
Bem hajam todos aqueles que se afoitaram a fazer reviver tão castiço e adorável movimento recreativo, cultural e folclórico da minha donairosa aldeia, largos anos privada desse bizarro cortejo de mocidade radiante, pujante de seiva, corações ardendo em sonhos de amor e felicidade, que pelas frescas madrugadas do 1o de Maio, soltando ao espaço limpo os seus cantares cristalinos, inundavam de beleza, de cor e de alegria sem par as fontes sussurrantes das Várzeas, as ruas, as praças e o Mercado da Figueira, onde turbilhões de gentes cumulavam de aplausos, de sorrisos e de carinhos as lindas raparigas e os garbosos rapazes do sempre desejado, vistoso, apreciado e alegre "Rancho de Tavarede"...
... que punha a um canto todos os demais grupos congéneres que adregavam a surgir em público, dentro dos mesmos princípios e das mesmíssimas intenções bairrísticas e folclóricas...
Pela incompreensão, pela maldade, pela inveja — ou pelo denegrido pejurativismo... — de quem quer que fosse, o certo é que a elevada ideia foi menosprezada e forçada a uma longa e dolorosa letargia, que ia matando, desalmada e incompreensivelmente, tão encantadora tradição, não só em Tavarede, como em Buarcos, Vila Verde, Fontela, Lares, Caceira, Gala, etc. etc..
Seja tudo isso em holocausto à bondosa alma do popular e típico Luís Camelo - que era "mobília", e da mais "cara", da ribeirinha, castiça e colorida vila piscatória de Buarcos, muito digna continuadora da tradição, através do seu glorioso e brilhante "Rancho das Cantarinhas", que em Portugal — e no estrangeiro — elevou o nosso País a um lugar de conceito e de prestígio, no ponto de vista do folclore nacional, muito difícil de ser ultrapassado, e que presentemente - ao que me informam -, está "dormindo" à sombra dos honrosos loiros conquistados...
... o que é pena e causa arrepios a quem, como eu, "sente" e ama estes valores regionais!
Mas... - voltando à louvável decisão dos meus estimados conterrâneos, que já no passado ano, no mesmo dia, deram sinal de si -, eu quero-lhes significar apreço e gratidão pela sua coragem e manifestar-lhes todo o meu orgulho pela decisão pensada e posta em prática.
Tavarede marca!... (com os devidos "direitos de autor" ao compadre António Lopes...).
Os anos não perdoam, é certo, e os pés já se me vão tomando pesadões... Só o coração continua remoçado e a alma — eternamente piegas - não acusa cansaços... Talvez me valha destes preciosos factores, em que reside toda a minha "mocidade", sempre que se fala ou se trata da Figueira, para aí dar um pulo...
... na grata intenção de reviver horas largas de felicidade já distantes e experimentar o sabor dulcificante dos sorrisos e dos cantares da gente moça da minha amada Tavarede, soltados ao espaço, nas horas matutinas e orvalhadas da próxima madrugada do 1 ° de Maio, em que também quero incorporar-me no naipe dos tocadores, pertencente ao Grupo Musical e de Instrução Tavaredense (que ajudei a fundar, ao lado dos meus queridos e saudosos pai e tio José Medina, em 1911), procurando arrancar às cordas da minha mais que adormecida, roufenha e inesusada rabeca a gloriosa marcha com que o meu ilustre conterrâneo e muito prezado amigo José Ribeiro deliberou fechar (que admirável apoteose!...) mais uma extraordinária e recente coroa de glória artística-teatral sua e dos seus apreciados pupilos: a inclusão, na adorável “lição” que aí fui receber, da lindíssima e vibrante Marcha do 1º de Maio na gloriosa peça Terra do Limonete.


                  Primeiro de Maio - Potes floridos, de Tavarede

 Tenciono tomar parte nessa salutar romagem da tradição e da saudade. E calcurriar, de violino em riste, todos os caminhos onde, pela minha banda, vão passar "reminiscências do passado", em alegre e fraternal convívio com a mocidade radiante e despreocupada do presente...
Não sei a que pontos o meu virtuosismo chegará... Uma coisa garanto desde já aos "rapazes" do meu tempo que porventura queiram recordar felicidades distantes que se foram para sempre e se dignem comparecer, também, ao lado do sanguinho na guelra da nossa terra: é a certeza absoluta de que, se a gloriosa Marcha do Rancho de Tavarede não sair pelos dedos destreinados das mãos, ela será arrancada à "sanfona" pelos dedos fortes da alma...
Dos fracos não reza a história…       
... e quem tiver medo... - da Crítica... - que compre um cão.

Até lá, pois, amigos e conterrâneos.

As Operetas em Tavarede - 25


         Ao começar o segundo acto, os trabalhadores acabaram de jantar e regressam ao trabalho. Trabalham para José Urbano, tio de Maria Clementina.

         Terminada a refeição
         Ergamos as mãos aos céus:
         Graças a Deus
         E à Virgem Maria,
         Santas graças pelo pão,
         “Pão nosso de cada dia...”

         Ora vamos à labuta,
         Vamos, irmãos, labutar
         Sorridentes e cantando,
         Que, para quem trabalhar
         Rindo e folgando
         E até cantando
         De quando em quando,
         Os trabalhos não são luta,
         São uma benção dos céus.
         Graças à Virgem Maria,
         Graças a Deus
         Pelo  pão e p’la alegria.
         Graças a Deus!
         Graças a Deus!

         Terminada a refeição, etc.

         Roberta havia conseguido os seus intentos e falara com a senhora que julgava ser a Rainha. Ela escutara-a e prometera-lhe visitá-la na quinta, para então lhe contar toda a história. Finalmente, iria ser feita justiça!

         Roberta desejava que a Rainha fosse recebida da melhor maneira. Prepara-lhe uma delicada merenda e manda os criados António e Augusta apanharem as melhores cerejas para ofertar à Senhora.

            António 
       Por toda a vida, duvidas?
       Durarão as nossas bodas
       E, se tivesse mais vidas
       Para ti seriam todas.

            Augusta 
       Ai das cachopas que tomem
       A sério a voz dos rapazes!
      Vê bem o que dizes, homem:
      Olha as promessas que fazes.

            António 
      Prometo, do coração,
      Tão seguro de cumpri-lo...

            Augusta   
      Vê, não prometas aquilo
      Que não está na tua mão!

            António  
      Nem sabes quanto me custa
      Que faças do meu amor
      Coisa tão pouca!
      Vê as cerejas, Augusta,
      Tão lindas, mesmo da cor
      Da tua boca!

          Augusta    
      São cerejas
      Que desejas?

            António  
       É trincar essas cerejas

            Augsta         
     Ai credo! Que sede louca
     Que tu tens!

            António     
      Que tens?... que temos os dois!...

            Augusta              
      Pois, sim, pois, sim, e depois?!
      Eu bem sei com que cá vens:
      Três cerejas... coisa pouca...
      Mata-se a sede da boca
      Que era obra do demónio,
     Ele a trouxe, ele a levou!
     Depois... a sede passou
     E era uma vez um António!

            António 
     Não digas isso, querida,
     Bem sabes que te jurei
     Amar-te por toda a vida.

            Augusta 
      Por toda a vida... bem sei!...

            António        
     Por toda a vida, duvidas?
     (repetem os primeiros versos)


         Conforme prometera, é recebida a visita da Senhora. Depois de uma longa conversa com Roberta, quer conhecer Maria Clementina. D. Joana, assim se chamava a mãe do Alferes Rialva, quando soube que o tal oficial que tão levianamente comprometera a honra de Maria Clementina, pois dela se tratava, se chamava Filipe, logo adivinhou tratar-se de seu filho.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 83

                O velho burgo de Tavarede não podia estar muito tempo sem teatro. Era uma tradição mais que centenária. Certamente que foi esse o motivo que levou os responsáveis pelas obras de remodelação do edifício da Sociedade de Instrução Tavaredense a acabarem, em primeiro lugar, a nova sala de espectáculos. E antes de continuarmos, seja-nos permitido recordar que, quando se iniciou o desmantelamento do velho palco, se verificou um apelo. ‘Por favor, guardem umas tábuas do proscénio, para irem comigo no meu caixão’. Sobre aquelas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e aborrecimentos imperecíveis eles passaram, assistiram ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva, e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhes haviam proporcionado.

  Reconhecida por todos a conveniência de o grupo cénico retomar, tão depressa quanto possível, a sua actividade, interrompida há um longo ano, resolveu-se pedir as vistorias à casa e à instalação eléctrica, que foram aprovadas. Assim, o teatro foi posto a funcionar, tendo-se dado o primeiro espectáculo no dia 16 de Dezembro de 1961, com a peça em 2 actos e 24 quadros Terra do Limonete. A inauguração da nova sala de espectáculos foi brilhante. Com a inauguração do novo teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, verificada no último sábado, a data de 16 de Dezembro de 1961, ficará assinalada nos anais da história da nossa querida terra, como marco imorredoiro.
Em cerimónia simples, imposta pelas circunstâncias, retomou a sua actividade o grupo dramático da prestante associação.
Lotação esgotada, contando-se entre a numerosa assistência figuras de relevo da distinta sociedade figueirense e muitos amigos de Tavarede, vindos das mais diversas localidades do País.
De linhas sóbrias, mas elegantes, a ampla sala de espectáculos oferecia com a sua iluminação feérica deslumbrante efeito.
Em lugares de honra, sentavam-se os srs. Engenheiro José Coelho Jordão, ilustre presidente da Câmara Municipal do nosso concelho; Severo da Silva Biscaia, activo e inteligente presidente da Comissão Municipal de Turismo; Professor António Vitor Guerra, prestigioso director do Museu Municipal Dr. Santos Rocha e da Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás; António Duarte da Paz, Chefe da Polícia de Segurança Pública dessa cidade, em representação do Comandante; Arquitecto Isaias Cardoso, autor do projecto, e Vicente Braz, presidente da Junta desta Freguesia.


                          Terra do Limonete
  
"O Figueirense" estava representado pelo seu director e "A Voz da Figueira" pelo seu chefe da redacção. O jornal "O Dever" estava representado pelo Revd° Padre Fernando Ribeiro, coadjutor da Igreja Matriz dessa cidade.
Antes de o espectáculo ter início e com o velho pano de boca descido, cuja pintura representava o antigo solar da Quinta dos Condados, o presidente da Assembleia Geral da SIT, sr. Professor Rui Fernandes Martins, veio ao proscénio para saudar o sr. presidente do Município e outras entidades, evocando sentidamente a memória de João José da Costa, proprietário daquela importante propriedade, e a quem a Figueira da Foz e seu termo, quando presidente da Câmara, Provedor da Santa Casa da Misericórdia e de outras instituições ficou devendo assinalados serviços e Tavarede o antigo Teatro; recordou a figura nobilíssima de Calouste Gulbenkian, de cuja Fundação a SIT recebeu subsídio generoso, que veio impulsionar decisivamente as ambicionadas obras, que constituíram, durante algumas dezenas de anos, anseio dos sócios e amigos da benemérita colectividade.
Não esqueceu José da Silva Ribeiro e os seus humildes colaboradores de muitos anos, aquele o tavaredense a cujo talento e amor à nobre arte de Talma ficaram os seus conterrâneos devendo a magnífica realização, pois que sem a sua extraordinária actividade de todos os dias não seria possível o grupo cénico que dirige, atingir o alto nível cultural que merecidamente alcançou, e, consequentemente, a SIT obter os fundos necessários para levar por diante o arrojo do empreendimento, se considerarmos a modéstia de recursos do meio local.
A fantasia "Terra do Lirnonete", que escreveu para a inauguração do Teatro, que o distinto amigo e grande amigo da colectividade sr. Alberto Anahory vestiu primorosamente, enriquecida com cenários executados por distintos artistas,
agradou unanimemente, como o demonstraram os vibrantes e entusiásticos aplausos do público e as felicitações que recebeu das entidades e de categorizados espectadores.
Em chamadas especiais, José Ribeiro e Anselmo Cardoso, director da orquestra e autor da partitura, foram ovacionados calorosamente.
Seríamos injustos se não tivéssemos uma palavra de louvor para José Nunes Medina, músico distinto, que, com o seu esforço e boa vontade ensaiou a parte coral, contribuindo poderosamente para o êxito da representação.
Enfim, foi uma grande e inolvidável noite de arte, a de sábado, que ficará memorável na alma dos tavarederises.
Todos os amadores, sem excepção, entre os quais figuram estreantes, cumpriram plenamente, pelo que a assistência lhes tributou os seus quentes aplausos.
Oxalá que a conclusão das obras de transformação da sede da SIT não se faça demorar para os tavaredenses poderem dar largas ao seu justificado entusiasmo bairrista
No final do espectáculo, a Direcção da SIT obsequiou com um beberete as entidades e outros convidados, tendo usado da palavra os srs. professor Rui Martins e José Ribeiro e por último os srs. presidentes da Câmara e da Comissão de Turismo.

Terra do Limonete – A moura encantada


         Embora a interrupção, motivada pelas obras, tivesse sido relativamente pequena, o público estava ávido por ver, além das novas instalações, a inaugural fantasia de Mestre José Ribeiro. E foi com as lotações esgotadas, que os espectáculos se sucederam. 

As Operetas em Tavarede - 24

         Entretanto terminara a refeição. A custo, os oficiais preparam-se para partir. À despedida, as criadas da estalagem que vêm assistir à sua partida, pedem-lhes uma cantiga. Logo um deles lhes faz a vontade.

               Ouvia gabar os beijos
               Dizer deles tanto bem
               Que me nasceram desejos
               De provar alguns também.

               Um colhi eu duma bela
               Que era Rosa sem ser flor.
               Se tinha espinhos como ela
               Dela também tinha a cor.

              Vi-a a dormir e furtei-lhe
              Um beijo que a acordou.
              Eu gostei, porém causei-lhe
              Tal susto que a desmaiou.

              Outra vez duma morena,
              Olhos azuis, cor do céu,
              Corpo esbelto, mão pequena,
              Um beijo me apeteceu.

              Pedi-lho – e então por bons modos,
              Pedi-lho do coração;
              Zombou dos meus rogos todos
              E respondeu-me que não.

              Zombei, como ela zombava
              E um beijo à força lhe dei.
              Mas... bem dado ainda não estava
              E  c’um bofetão apanhei.

         Foi muito aplaudido. Mas, as raparigas, querem mais cantigas. Pois então, não haja dúvidas. Um outro oficial corresponde ao pedido.

              No centro de círculos
              E núvens de fumo
              Um deus me presumo,
              Um deus sobre o altar!
              Nem doutros turíbulos
              Me apraz o incenso,
              Como o deste imenso
              Cachimbo sem par.

              Meu canto é da América,
              País do tabaco,
              Melhor do que Baco,
              Que o ópio melhor.
              Que a Europa, Ásia e África
              E a terra hoje toda
              Já fuma por moda
              O heróico vapor.

               Até na Lapónia
               Da gente pequena,
                Se fuma, e no Sena,
                No Tibre e no Pó,
                 No Volga e Danúbio,
                  No Tejo e no Douro...
                  Que grande tesouro
                   Se deve a Nicot!

                 E os ávidos lábios
                 Mais fumo inda aspirem.
                 Que os néscios suspirem
                 Por beijos febris.
                 Não quero outros ósculos,
                 Não quero outra amante.
                 Qual mais dardejante
                 Que os fumos subtis?

                 Tornadas Vesúvios
                 As bocas fumegam,
                 De núvens que cegam
                 Vomitam legiões.
                Fumar! Oh! delícias!
                Prazer de nababo!
                E leve o diabo
                Do mundo as paixões.

         Finalmente resolvem-se a partir. E já se aprestavam a ir buscar as montadas quando uma velhota se acerca deles. Tinha ouvido dizer que Sua Majestade, a Rainha, breve passava por aquela estrada a caminho de Braga. E ela tinha necessidade de lhe falar. A que horas passaria ali? Os oficiais, admirados, disseram-lhe que a Rainha, certamente, não falaria com ela. Não a convenceram. Haveria de lhe falar. Ela sabia que a Rainha era boa. Havia de parar e falar-lhe. Mais, havia de a atender e de fazer justiça. Sim, porque era para pedir justiça à Rainha que lhe queria falar.


         O Alferes Rialva diz-lhe, então, que dentro de duas a três horas ali passariam duas carruagens da corte. Na primeira, uma senhora de meia idade, vestida de verde, com xaile e chapéu branco, era a Rainha. Podia ser que ela a atendesse... Os companheiros ficaram admirados e logo que Roberta se afastou, perguntam a Rialva porque disse aquilo, sabendo que a senhora em questão era sua própria mãe, que a Rainha mandava à frente para preparar o seu alojamento em Braga. “E não pediu a velhota justiça? Minha mãe, com toda a certeza, a escutará e atenderá o seu pedido”. Seguem, finalmente, o seu caminho.