sexta-feira, 18 de julho de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 85

         Foi mais um dia magnífico. Tavarede, mais uma vez e de forma encantadora deu lustre e trouxe a nota lírica e poética às comemorações populares de O Primeiro de Maio, outrora tão luzida e espontaneamente celebradas entre nós.
         Tavarede, mais uma vez, a das frescas várzeas e ubérrimas veigas esteve presente...
         Aguerrido grupo de raparigas – bem bonitotas algumas delas! – ostentando os potes floridos à cabeça, irrompeu às primeiras horas da manhã, pelas ruas da cidade espreguiçante, derramando nela, com a melodia dos seus descantes, a sua beleza vitoriosa e sádia, a efervescência do seu nervosismo e a sua alegria explosiva e boa.
         Nos seus lábios vermelhos, a lembrar os cravos rubros, incendiados de aromas, a inspirada lírica popular, era como o cântico azevieiro das cigarras cantadeiras no estio...
         No mercado, na Praça Nova, perante a Câmara, a Associação Naval e o Comando da PSP o bando desenvolto exibiu com muita agilidade e acerto, as espectaculares danças de roda, que a Figueira aprendeu no passado, a dançar com o restolho do vento, nos ímpetos da Inverneira...
         O Jornalista António Medina, veio das edénicas paragens de Sintra, enfileirar entre os que deram o seu concurso e a comunhão da sua juventude à festa da mocidade.
         E ei-lo, à frente da Tuna, como um romeiro da Saudade, a desprender os harpejos do seu violino – ai dele! – talvez de acordes menos enfónicos... 
E fazia-o identificado com os companheiros, contagiando-os da sua vivacidade. Fazia-o com alma, com entusiasmo, com ardor, consumido na labareda dos seus transportes, num comovido, num desesperado apelo à sua rumorosa mocidade bailariqueira, que evocou comovidamente, quando ele, mai-la a rabeca, era o grande e estrídulo festeiro destas ingénuas rapioqueiras, destas páginas flagrantes e coloridas e tão formosas da formosa Figueira desse tempo!
         Se não havia orvalho cá fora, havia-o – tenho a certeza! – no fundo dos seus olhos, conturbados pela Saudade.
         As perfumadas manhãs do Primeiro de Maio, precederam as do festivo S. João de algum dia e foram os arautos de uma quadra ingénua em que a verdura das mocidades de tantos, estreitadas no mesmo amplexo primaveril, sorria confiadamente à alegria de viver, ao amor, ao desejo, à poesia, à mocidade e ao sonho...

Em Agosto de 1962, a Sociedade de Instrução prestou nova homenagem à sua amadora  Violinda Medina e Silva. Sem exageros supérfluos podemos afirmar que a noite de sábado último ficará assinalada nos anais da história da filantrópica Sociedade de Instrução Tavaredense, como verdadeira noite de glória.
Violinda Medina e Silva sentiu à sua roda, no momento em que aquela colectividade pela sua Direcção e grupo cénico lhe prestavam a justa e merecida homenagem consagradora dos seus altos méritos artísticos, não só os aplausos vibrantes dos seus companheiros de palco, como também as palmas calorosas, entusiásticas e prolongadas do público, que enchia completamente a sala de espectáculos e que em manifestação expontânea quis vir associar-se a tão simpática e justa cerimónia, dando-lhe brilho e realce deslumbrantes. 
Desde o brilhantismo da representação da célebre peça do ilustre dramaturgo Vasco Mendonça Alves, "A Conspiradora", em que Violinda Medina tem actuação magnífica, ao acto de Homenagem durante o qual desfilaram as personagens que a distinta amadora — que, na autorizada palavra de mestre José Ribeiro, já nasceu artista — interpretou no decorrer da sua notável carreira de mais de 40 anos, e que culminou com a oferta de diversas e valiosas prendas vindas de Lisboa, Tomar, Coimbra, Figueira e da sua terra natal, e de flores, muitas flores, que juncaram o palco, aos discursos proferidos pelo presidente da Direcção e do ilustre orientador do grupo dramático, sr. José da Silva Ribeiro, tudo esteve à altura da consagração da talentosa artista, que o público admira e acarinha.
Ao surgir no palco a nobre figura da "Marquesa de Souto dos Arcos", a numerosa assistência, entre a qual viamos distintas senhoras da melhor sociedade figueirense, dispensou-lhe saudação vibrante, entusiástica, inesquecível.
Nos finais dos 4 actos e no decurso das principais cenas, algumas de autêntico "suspense" em que a distinta fidalga, contracenando com o "Conde de Riba d'Alva", que João de Oliveira Júnior encarnou com absoluta propriedade, dá magistrais lições de patriotismo, amor da Pátria, tolerância e generosidade, o público tributou-lhe e aos restantes amadores justos e inequívocos aplausos.
Findo o Acto de Homenagem, Manuel Gaspar Lontro, secretário da Direcção, entregou a Violinda Medina uma artística e bem expressiva mensagem, em pergaminho, de saudação e reconhecimento pelos inapreciáveis serviços prestados pela distinta amadora à SIT, a qual era subscrita pelos elementos do palco e da Direcção, tendo o seu presidente, sr. António de Oliveira Lopes, feito entrega duma valiosa salva de prata.
José Ribeiro, depois de fazer o panegírico de Violinda Medina, recordou com merecido louvor o concurso de alguns distintos amadores da SIT, entre os quais salientou, pela sua já respeitável idade e precário estado de saúde,  a srª D. Helena de Figueiredo Medina pelo nobilíssimo exemplo que ainda hoje oferece às jovens do seu grande amor pelo Teatro.
Das lembranças oferecidas, tomámos nota: uma salva de prata, oferta da Direcção da SIT, primorosamente gravada com artístico desenho de Moreira Júnior alegórico à terra do limonete, figurando nela um antigo brazão de Tavarede e um raminho de limonete; um artístico serviço de chá, dos elementos do grupo cénico e directores; uma salva de prata de sua filha, srª D. Maria Luísa Medina e Silva Pinto, seu genro Carlos da Silva Pinto e sua querida netinha; uma boneca vestida com o trajo de Morgadinha de Val Flor, de seus primos, Gracinda, João e José Medina; uma lindíssima boneca, oferecida por Alberto Anahory que é uma reprodução do riquíssimo trajo executado pelo distinto artista para a peça "Terra do Limonete"; um bolo monumental, oferecido pelos amigos tomarenses, sr. Jacinto de Carvalho e de sua esposa, figurando um livro encadernado com o título "Os Velhos" e as datas de 1959 e 1962.
Entre os muitos e bonitos ramos de flores, destacava-se uma monumental corbelha, de Alberto Anahory.
Na residência da homenageada e na sede da  SIT foram recebidos inúmeros telegramas de saudações, procedentes de várias localidades, sendo um da Figueira da Foz, do sr. Presidente da Câmara Municipal, que tem pela talentosa amadora a maior simpatia e admiração.

         Tavarede e o seu amor ao teatro não podiam passar despercebidos. Mereceu, por isso, uma extensa reportagem no ‘Jornal de Notícias’.             São dois passos desde a cidade até Tavarede… Mas dois passos que nos levam a recuar séculos de existência, no incomensurável mundo das recordações: que a história da Figueira começa depois da história dessa nomeada freguesia do seu concelho!
         De tão verdadeira noticia, aliás, nos alerta, logo que aí se chega, a central “Rua da Câmara de Tavarede”. Sim! – é certo: por doação do segundo rei de Portugal foi a Sé de Coimbra donatária do Couto de Tavarede, a que pertenciam os terrenos (e o mar!) onde mais tarde se criou e floresceu a cidade-praia da Figueira da Foz. Era então Tavarede cabeça de concelho – tinha a sua câmara, os seus fidalgos e a sua casa nobre, que António Fernandes de Quadros ali fundara…
         Mas nunca foram amistosas as relações dos fidalgos da Casa de Tavarede “com os manhosos cónegos do Cabido de Coimbra”. Oito gerações de lutas entre as duas partes se sucederam – até que se deu a inevitável derrota de uma delas! Perderam os fidalgos, que se diziam defensores dos direitos do povo; ganhou o Cabido, que mandou o Deão visitar esse mesmo povo, com pão e vinho em fartura… E assim em 1771, a Câmara de Tavarede era transferida para a Figueira – restando dela, hoje, a recordação que inspira a leitura numa lápida, à esquina de certa rua!
         Resta acrescentar que esse acto político-administrativo não teve no meio social tavaredense as repercussões sérias que seriam de esperar como consequência natural. E não teve, porque os tavaredenses não se haviam deixado enlouquecer pelas honrarias e direitos que lhes tinham pertencido ao longo dos muitos séculos em que a sua terra fora cabeça de concelho! Nem se haviam deixado enlouquecer, nem mesmo terão chegado alguma vez a usufruir dos correspondentes benefícios…
         Tendo nascido pobres e sob o imperativo do trabalho, quando ainda vinha longe a aurora da Nacionalidade, assim quiseram viver sempre, mesmo depois dela… Modestos e laboriosos, tanto nas horas boas como nas más; fiéis às suas melhores tradições e conscientes das suas possibilidades; esclarecidos e experimentados por tantas lições que mostram não ser o povo quem mais lucra com as conquistas político-administrativas das suas terras e dos seus maiores – os tavaredenses, em resumo, puderam pois, continuar a sua vida de sempre; modesta, pobre, e de enxada na mão a cavar de sol a sol a abençoada terra natal. Que essa nunca os traiu!
         Assim chegaram eles aos dias de hoje, ainda iguais aos seus avoengos. Iguais em tudo – até na ânsia do saber!... Uma ânsia que não teme obstáculos – antes os vence, mesmo que para tanto se imponham os mais duros sacrifícios.
         E são gratos a quem lhes leva a luz de novos conhecimentos. Deste sentimento, aliás, é também testemunho inequívoco, em plena praça pública, a “placa” em que se lêem expressivas palavras de homenagem da freguesia à professora que ali ensinou a ler, durante 20 anos consecutivos, quase todos os homens de Tavarede das horas de hoje! Palavras de homenagem, e de gratidão também à professora que jamais se deixou tentar pelos benefícios com que lhe acenavam de outras localidades mais ricas; que se afeiçoou à população pobre e modesta daquela freguesia. Mas também Tavarede não esquecerá nunca essa sua professora, a srª D. Maria Amália de Carvalho, cujo nome estava gravado tanto na lápida da praça pública, como na memória saudosa dos homens de hoje que, quando meninos, dela receberam as luzes que os guiam agora!
         Maria Amália de Carvalho – que era tia da escritora Maria Judite de Carvalho, recentemente laureada com o prémio “Camilo Castelo Branco” pelo seu livro “As palavras poupadas” – continua, pois, a viver na recordação dos tavaredenses como se fora ainda figura presente! E o facto constituirá, portanto, um outro testemunho das virtudes que desde sempre impuseram o povo da modesta freguesia à melhor consideração de quem, um dia, tenha a feliz oportunidade de a visitar – como nós tivemos agora…
         A deslocação é rápida e fácil. Dois quilómetros de estrada ligam a sede do concelho da Figueira da Foz com esta modesta freguesia dos seus domínios… Mas longe que fosse – valeria a pena a deslocação, pelas curiosas e exemplares noticias do seu passado e do carácter do seu povo – que têm por demonstrações mais expressivas essas duas lápidas a que aludimos: a que assinala a “Rua da Câmara de Tavarede”; e a que recorda o nome da professora Maria Amália de Carvalho. Por esses lisonjeiros motivos – e por outros mais!...
         É que Tavarede situa-se numa área de requintados privilégios da Natureza – que vão desde as suaves encostas cujos cumes lhe limitam o horizonte até ao vasto e fértil vale onde se cultivam a horta que alimenta a cidade e as flores que a enfeitam!... Observadas de qualquer ponto mais elevado, oferecem-nos quadros de deslumbrante paisagem as férteis e bem tratadas várzeas – dos mais variados tons esverdeados: dos arvoredos, das searas…
         Porque – como muito bem diz o “Manuel da Fonte” da inspirada revista teatral “Chá de Limonete” (Histórias de Tavarede), do ilustre autor dramático José da Silva Ribeiro: . “Tavarede é uma aldeia pobre enfeitada com flores… E cada casa, um pequeno quintal é um jardim. Em toda a volta da aldeia aconchegada e humilde, há sempre em cada leira um canteiro de flores; e são as rosas, os malmequeres, as violetas, os cravos; e o limonete a dar cheiro e nome à terra! Mesmo onde não há flores, são jardins as hortas verdejantes, as encostas de vinhedos, os pomares olorosos…”.
         E o “Manuel da Fonte” não mente, nem exagera. É assim mesmo a freguesia de Tavarede!
         Mas outras particularidades mais recomendam ainda a visita a essa tão surpreendente freguesia do concelho figueirense.
         Citaremos a do seu “clima” social, por exemplo, em que vivem e trabalham na mais surpreendente harmonia, homens de bem diferenciadas ideias políticas. Acontece até, que uma das importantes realizações artísticas e culturais do meio, se deve ao esforço conjugado e frutuoso de dois homens grandes da terra, cujos ideais políticos serão totalmente opostos – quanto aos meios e processos, pelo que se verifica, afinal…
         E a propósito, eis chegada a oportunidade de referir, finalmente, a circunstância assaz lisonjeira, de se situar igualmente em Tavarede a mais notável – ou das mais notáveis, pelo menos, das afirmações de apaixonado interesse pela arte dramática que Portugal regista. Que, de resto, a fama dessa particularidade terá chegado já tão longe, que mais por ela, do que por outra qualquer, o nome de Tavarede se popularizou – e é hoje citado com respeito e muita admiração!
         Trata-se, sem dúvida, de um caso raro de meio século de trabalho, e luta intensa em favor da causa do Teatro – sobretudo como elemento de educação e de cultura do povo. E é seu “agente”, a Sociedade de Instrução Tavaredense, que homens bons da terra criaram com esse objectivo, precisamente: o de contribuírem para mais elevados graus de educação e cultura dos seus conterrâneos.
         Não vamos, claro está, historiar aqui a vida de epopeia da Sociedade de Instrução Tavaredense. Por muito que escrevêssemos, não conseguiríamos, nunca, dar uma pálida “imagem” do que ela vale e representa!
         Limitar-nos-emos, pois, nesta pobre croniqueta, a citar os seus principais “heróis” contemporâneos; a aludir a uma ou outra das suas realizações do momento; a pedir daqui, a quem de direito, o melhor apoio e a mais efectiva colaboração à prestimosa colectividade; e, finalmente, a recomendar a todos quantos possam gozar da oportunidade de ver representar o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que não a desaproveitem!
         José da Silva Ribeiro, espírito esclarecido e culto, escritor de talento e apaixonado pela arte dramática – é a “alma mater” das realizações artísticas da colectividade. António de Oliveira Lopes – com 14 anos de frutuosa actividade à frente da Junta de Freguesia – é a “alma mater” do progresso material. Do trabalho conjunto desses dois excepcionais tavaredenses – é a obra! E o que ela representa, pode avaliar-se pela leitura destas palavras de José da Silva Ribeiro: - “Em certos casos, é sobre os próprios elementos que constituem os grupos de amadores que mais profundamente actua a função educativa e cultural do Teatro. No caso da Sociedade de Instrução Tavaredense, por exemplo”.
         Tenha-se presente que se trata de um grupo de amadores duma humilde e pequena aldeia, pobre entre as que mais o são. O recrutamento é dificil, porque a população é pequena. São bem poucas as famílias que não têm representação no elenco. Aqui se encontram os trabalhadores do campo e das oficinas: rapazes e raparigas da enxada que passam o dia cavando as terras e vêm à noite ao ensaio, operários carpinteiros, pedreiros, serralheiros, raparigas dos alfaiates e das modistas da cidade vizinha, um ou outro empregado de escritório também.
         Se se pretende alguma coisa mais do que mexer fantoches para divertir o público; se desejamos que os intérpretes tomem consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes são alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, do ambiente em que se movem, teremos de adoptar processo bem diferente do que se usará com elementos de outra cultura.
         Por isso, aqui, o grupo cénico tem uma actividade que participa da disciplina escolar e do prazer dum passatempo. Que o sistema agrada aos que o praticam, parece não haver dúvida: esta actividade dura há 30 anos!”.
         E os resultados continuam a ser surpreendentes – acrescentamos nós! E com conhecimento de causa: o que resultou de havermos assistido, por feliz acaso, a representação no Teatro do Casino Peninsular, da Figueira da Foz, da peça “A Conspiradora”, de Vasco de Mendonça Alves – pelo grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, que entre tantos dos seus valores, incluía a amadora Violinda Medina e Silva, (“Prémio Maria Matos” dos concursos de arte dramática do SNI) – que tem a dignidade de uma grande actriz!
         Mas Tavarede tem Teatro… e teatro! Um edifício do género – modelar e moderno; e que resultou de grandiosas obras de adaptação e valorização da sua antiga sala de espectáculos.
         O empreendimento valerá para cima de 1.500 contos. Mas custou apenas 950 – porque não faltou quem contribuísse com dias de trabalho e materiais… E desses 950, restam por pagar uns 200 contos apenas!...
         Trata-se de um edifício com todos os requisitos para o género. O pano de boca, por exemplo, tem 20 metros! “Plateia” e “balcões” para a assistência!
         Teremos de ficar por aqui. E contudo, não conseguimos escrever mais do que um simples esboço do muito que há a dizer de Tavarede – da sua história, da sua gente e do seu Teatro!


         Com as obras a prosseguirem no restante edifício, a Sociedade não tinha possibilidade de festejar, como o fazia habitualmente, o aniversário da sua fundação. A data não foi esquecida, mas só teve lugar, na sala de espectáculos, uma animada confraternização do pessoal do palco, à qual deu colaboração, graciosamente, a afamada Orquestra Casino.

Operetas em Tavarede 26


                     Vai com Deus, velhinha santa,
                               Que justiça
                      Será feita e o réu há-de
                     Baixar a fronte submissa
                     Ante a minha majestade
                     Que “mais alto se alevanta!”
                     Vai com deus, velhinha santa!

                     Vai com Deus, santa velhinha,
                                Que o teu pleito
                     Depuseste em boa mão.
                     Eu o tomarei a peito
                     E vai dar-lhe solução
                     A justiça da rainha!
                     Vai com Deus, santa velhinha!

         Maria Clementina conversa com D. Joana, que fica encantada ao conhecê-la e lhe diz:

         D. Joana – “Ouça-me. Uma das minhas amigas tem um filho oficial do exército. No ano passado este rapaz, que é meu afilhado, passou algum tempo em Braga, em serviço; quando regressou a Lisboa, ia preocupado e triste. A mãe, sobressaltada, escreveu para alguém do seu conhecimento que reside aqui próximo e a carta que obteve em resposta tenho-a eu, aqui. (lendo) “Quanto ao que me perguntas a respeito do teu filho, colocas-me em sérios embaraços. Com a franqueza que sempre me conheceste, dir-te-ei que o teu filho Filipe é digno de censura. Há tempos que a sua assiduidade junto de uma menina destes lugares havia sido notada; no dia da sua partida, uma imprudência dele sacrificou a reputação daquela que inocentemente confiara nele...”:

         Sabendo que ela vinha fazer esta viagem, pedira-lhe para procurar a tal menina, que por Roberta soubera ser Maria Clementina, e assegurar-lhe que a mãe de Filipe acredita na sua pureza de mulher, que uma imprudência de seu filho assim sacrificara; que ela lhe pediu que, se pudesse encontrá-la, lhe assegurasse isso mesmo e que lhe transmitisse um beijo “que espero me não recusará”. E foi entre lágrimas que D. Joana, ao despedir-se, lhe garantiu que a todos seria feita justiça.

         Maria Clementina ainda não estava em si. Pois Roberta havia tido o atrevimento de ir falar com a Rainha?... E conhecera-a?

         Roberta – “Conheci logo. Não trazia estadão porque, como me disse o tal rapaz, ela viaja... viaja... Ora como disse ele? Era assim uma coisa como “em cólicas”, mas que vinha a dizer que viajava sem estrondo. Cheguei-me à carruagem e disse para as três senhoras que iam lá dentro: - Qual de V.Exas. é a Rainha? Eu vi logo que devia ser a mais idosa. As duas mais novas desataram a rir... como a menina ri também... não sei porquê. Lembrou-me que seria por eu não dar o tratamento que devia e emendei logo: - Qual de Vossas Majestades é a Rainha? As outras riam ainda... Eram uns galos doirados, coitadinhas, nem por estarem na presença de quem estavam. Raparigas... Mas a senhora tocou-lhes com o cotovelo e disse: - Sou eu, porquê? Eu então, chamei-a de parte e contei-lhe tudo. Era o que faltava se eu me punha com biocos. Depois de lhe ter contado como as coisas se passaram, eu disse à Rainha: - Agora veja Vossa Majestade se isto deve ficar assim, se os militares que Vossa Majestade para cá nos manda vêm para manter a paz ou para meter a desordem nas famílias e fazer a infelicidade de meninas bem educadas”.

         Pois havia sido assim mesmo e o resultado estava à vista. Sua Majestade iria fazer justiça. Eram, entretanto, horas de ceia. Patrão e trabalhadores fazem as despedidas.

            Homens e Mulheres                        
      Boas tardes, meu patrão!

            José Urbano     
       Deus vos salve, meus rapazes,
       Ceiem com satisfação.

            Maria Clementina     
       Santas tardes!

            José Urbano 
       Francisco, vê o que fazes:
       Os enxertos não esquecer,
       Senão deixas-me à divina...

            Francisco     
      Patrão, não tem que temer,
      Não há-de
      Haver novidade.

            José Urbano  
      Novidade?! Ou haja ou não,
      Bem sei, não és tu que ardes,
      E eu é que fico a perder...

            Francisco 
     Boas tardes,
     Meu patrão.

            Trabalhadores    

     Boas tardes,
     Meu patrão.

            Maria Clementina      
     Santas tardes.

            José Urbano      
    Ceiem com satisfação.

            Trabalhadores      
     As companheiras
    Mai-los pequenos
    ‘speram os seus...

            Maria Clementina   
      Após canseiras
      Têm pelo menos
      A paz de Deus!
      Arde a candeia...

            Trabalhadores  
     Mas ninguém cega
     Com a luz dela!...

            José Urbano       
      Vá! vão à ceia.

            Trabalhadores 
     Vamos à ceia
     Que já fumega
     Lá na panela!

            Todos           
     Vá vão à ceia
    Que já fumega
    Lá na panela.

Quase se pode adivinhar o resto. A Rainha, melhor dizendo, D. Joana, acompanhada pelo Alferes Rialva, vai novamente à quinta, onde, além de Maria Clementina e Roberta, está o tio José Urbano e o Major Samora, com quem fizera amizade recentemente. Maria Clementina é, então, pedida em casamento.

            Rialva                  
  Após a noite há o dia,
  Sobre o tempo, tempo avança.
  Maria, quem me diria,
  Da tempestade à bonança
  Que tão pouco passaria.

            Maria 
   Mas agora, meu amor,
   Seja o que fôr
   Que o nosso destino teça...

            Rialva    
   Aconteça o que aconteça,
   P’ra nunca mais te deixar.

            Os dois    
       Aconteça o que aconteça,
        P’ra nunca mais te deixar.

            Maria   
       Este delírio
       Que é de prazer
       E de tortura,
       Não sei dizer
       Se é um martírio,
       Se uma ventura!

            Rialva  
     O teu amor
     Como revive
     No teu perdão!

            Maria   
      Podes supor
     No que inda vive                    (bis)
      Ressurreição?!...
      Se sempre foi
      Como é agora:
     Riso que doi,                          (bis)
     Prazer que chora...

            Rialva  
     Mas agora, meu amor,
     Seja o que fôr
     Que o nosso destino teça...

            Maria  
     Aconteça o que aconteça,
     P’ra nunca mais te deixar!

            Ambos 
   Aconteça o que aconteça,
   P’ra nunca mais te deixar!...

         Com surpresa de todos, José Urbano recusa a mão de sua sobrinha. Estupefacta, D. Joana pergunta-lhe o porquê. “Para conhecer a razão da minha negativa, diz ele, era necessário contar-lhe a minha história e a de minha irmã, que já não vive há muito, e eu não quero cansar a vossa paciência, pois a história é longa”. Nada. Querem mesmo ouvir a história e saber os motivos da recusa ao pedido. E José Urbano acede.

         José Urbano – “Seja como querem, embora vá avivar feridas que desejo cicatrizadas. Minha mãe, ao morrer, tinha eu vinte anos, deixou-me uma irmãzinha de oito anos de idade. Eu, que até ali tinha levado uma vida de rapaz, abandonei os meus companheiros de prazer e dediquei-me de coração ao trabalho. Com o hábito do trabalho criei ambições. O Brasil seduzia-me com as suas promessas de riqueza; e regulada com um comerciante meu amigo uma mesada a minha irmã, deixei-a em companhia de Roberta, que foi ama de nós dois.
         Trabalhei muito no Brasil, mas no fim de oito anos podia considerar-me rico. Por meados de 1833, quando andava tratando da liquidação dos meus negócios, recebia de Portugal uma carta tarjada de preto. Abri-a a tremer. Participava-me que minha irmã morrera no dia 23 de Julho daquele ano. Fiquei gravemente doente. Fui viajar. Dez anos depois regressei a Portugal. Que profunda comoção interior senti ao visitar a casa onde nascera e vivera com minha irmã, e agora ia encontrar vazia!
         Pensava eu nisto quando, de repente – que ilusão aquela, meu Deus! – eu vi aparecer minha irmã à mesma janela onde 18 anos antes eu a vira a dizer-me adeus. Corri como um louco e bati à porta gritando: -“Abre, Roberta. Abre... Minha irmã não morreu! Eu logo vi que não podia ser!”. Eu estava alucinado. Não posso dizer o que se passou. Lembro-me que pouco depois eu abraçava e beijava uma bonita criança de dez anos, julgando beijar minha irmã. Mas a ilusão passou. Gritei: “Quem é esta menina, Roberta?”. – “É sua sobrinha, filha de sua irmã”. Aquelas palavras atravessaram-me o coração. Ia a passar das carícias talvez a alguma crueldade, quando aquele anjo exclamou: “Ai! Pois é este o meu tio!”. E saltou-me ao pescoço, beijando-me com meiguice. Desatei a chorar e não pude deixar de a apertar ao coração.

         Minha irmã fôra enganada por um infame, causa do meu infortúnio e da sua morte. Já que eu a não soube defender, cumpria-me chorá-la e proteger-lhe a filha, que logo amei e cada vez mais. A sorte de minha irmã era muito notória para que eu pudesse viver feliz na minha terra. Vim por isso para Braga, deixando Barcelos com vivas saudades. Aqui tem V.Exa. a razão da minha recusa. Maria Clementina é filha ilegítima e eu não conheço seu pai. Não pude obter sinais dele. Roberta sempre manteve uma reserva que me pareceu ser recomendação de minha irmã. Sei apenas que era militar, um dos muitos que por aquela época cobriam o reino. Algum aventureiro que nunca mais se lembrou da vileza que cometera, nem talvez ao cair no campo varado por uma bala inimiga!”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 84

  No domingo 26 de Fevereiro de 1962, atingida a 16ª representação, a Direcção da colectividade aproveitou para homenagear os autores da peça e da música. Em cena aberta, no intervalo do 1o para o 2o acto, teve lugar a cerimónia, simples, como as circunstâncias impõem, mas bastante expressiva. Quando Helena de Figueiredo Medina e Violinda Medina e Silva, amadoras mais antigas do grupo dramático, entregaram a José Ribeiro e Anselmo Cardoso bonitos ramos de cravos e a veneranda senhora D. Maria Augusta Águas Cruz levou ao nosso ilustre conterrâneo um perfumado ramo de violetas, ao mesmo tempo que lhes eram lançadas flores, muitas flores, foi um momento de indescritível entusiasmo, de verdadeira apoteose aos autores da fantasia, que, há mais de dois meses, vem deliciando a plateia tavaredense, pela qual já passaram mais de quatro mil espectadores.

  O entusiasmo que Terra do Limonete despertou entre o público e a satisfação pelo melhoramento já conseguido, levaram os amadores a reunirem-se em alegre convívio. O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense reuniu, no passado domingo, em festa de confraternização  todos os elementos, em número superior a uma centena, que prestaram a sua colaboração nas representações da peça "Terra do Limonete", que, como dissemos, deixou a cena em pleno triunfo, depois de ininterruptas récitas, durante o considerável período de quatro meses.
Foi uma festa simples, mas a todos os títulos bastante significativa, pois que serviu de pretexto para ser exaltada, a par dos sacrifícios de alguns pelos inúmeros afazeres da sua vida particular, a inflexível vontade de outros em continuar sem o menor desalento, a bela e generosa iniciativa nos fundadores da SIT.
Confeccionado por distintas amadores, auxiliadas por dedicadas e incansáveis senhoras, foi servido, no palco, um esplêndido almoço a todos os convidados, que decorreu num ambiente de intensa alegria.
No final do repasto proferiram discursos sobre a magnífica obra da SIT, a dedicação admirável dos seus amadores e o êxito incontestável da peça do insigne tavaredense sr. José da Silva Ribeiro, o Presidente da Direcção e o autor da musica de “Terra do Limonete”, sr. Anselmo de Oliveira Cardoso, que há uns bons trinta anos vem dando a sua melhor cooperação àquela colectividade.
José Ribeiro proferiu um discurso magistral pela riqueza dos conceitos expressos, que constituíram verdadeira lição de humildade cristã.
Após o almoço improvisou-se um baile, tendo-se dançado animadamente.
De Lisboa vieram assistir à festa, os distintos artistas srs. Alberto Anahory e Alberto Lacerda, que também prestaram a sua valiosíssima colaboração a "Terra do Limonete".
Estão de parabéns os rapazes da SIT pela sua feliz iniciativa que, se outro mérito não tivesse para lhe rendermos os nossos louvores, bastaria a afirmação da extraordinária vitalidade do grupo dramático que, sob a égide de José Ribeiro, tão alto tem elevado o nome da prestigiosa associação e, consequentemente, o nome da nossa amada terra do limonete.

         Por seu lado, o Grupo Musical não estava inactivo. Aproximando-se o primeiro de Maio, procederam-se aos ensaios da marcha dos potes floridos. O Grupo Musical Tavaredense traz em ensaios, para apresentar na manhã do 1º. de Maio, na nossa terra e na Figueira, um rancho composto de 40 figuras, à frente do qual se apresentarão os sobreviventes da velha e gloriosa tuna de Tavarede que constituíu durante tantos anos, legítimo orgulho daquela velha colectividade tavaredense.
         Como é sabido, não é a primeira vez que o Grupo Tavaredense apresenta o seu magnífico rancho. Nos últimos anos a sua exibição conquistou-lhe gerais e calorosos aplausos, já porque a apresentação do mesmo se impõe, já porque se mantém assim uma tradição em que Tavarede caminhou sempre na vanguarda.
  Apraz-nos registar e louvar, pois, a iniciativa dos directores da simpática colectividade tavaredense merece os melhores aplausos. Em Sintra, o nosso conterrâneo Medina Júnior, um dos fundadores da colectividade, não ficou indiferente à notícia. Li recentemente neste jornal, numa local de Tavarede, a agradabilíssima notícia - que tanto bem me proporcionou à alma, eternamente apaixonada e bairrista - de que a corajosa gente moça da minha aldeia linda alimentava o firme propósito de apresentar em público, no memorável e festivo Dia !° de Maio - de tão gratas e saudosas recordações... - o célebre rancho das cantarinhas, ornamentadas, a capricho, de flores viçosas, das mais variadas espécies e matizes, a que não poderia faltar, como é óbvio, a clássica lúcia-lima, cuja rescendêncía inconfundível, volatizando no espaço, logo denuncia a respectiva origem e "fala", ufanosa, das tradições mais belas da "pátria do limonete"...
Bem hajam todos aqueles que se afoitaram a fazer reviver tão castiço e adorável movimento recreativo, cultural e folclórico da minha donairosa aldeia, largos anos privada desse bizarro cortejo de mocidade radiante, pujante de seiva, corações ardendo em sonhos de amor e felicidade, que pelas frescas madrugadas do 1o de Maio, soltando ao espaço limpo os seus cantares cristalinos, inundavam de beleza, de cor e de alegria sem par as fontes sussurrantes das Várzeas, as ruas, as praças e o Mercado da Figueira, onde turbilhões de gentes cumulavam de aplausos, de sorrisos e de carinhos as lindas raparigas e os garbosos rapazes do sempre desejado, vistoso, apreciado e alegre "Rancho de Tavarede"...
... que punha a um canto todos os demais grupos congéneres que adregavam a surgir em público, dentro dos mesmos princípios e das mesmíssimas intenções bairrísticas e folclóricas...
Pela incompreensão, pela maldade, pela inveja — ou pelo denegrido pejurativismo... — de quem quer que fosse, o certo é que a elevada ideia foi menosprezada e forçada a uma longa e dolorosa letargia, que ia matando, desalmada e incompreensivelmente, tão encantadora tradição, não só em Tavarede, como em Buarcos, Vila Verde, Fontela, Lares, Caceira, Gala, etc. etc..
Seja tudo isso em holocausto à bondosa alma do popular e típico Luís Camelo - que era "mobília", e da mais "cara", da ribeirinha, castiça e colorida vila piscatória de Buarcos, muito digna continuadora da tradição, através do seu glorioso e brilhante "Rancho das Cantarinhas", que em Portugal — e no estrangeiro — elevou o nosso País a um lugar de conceito e de prestígio, no ponto de vista do folclore nacional, muito difícil de ser ultrapassado, e que presentemente - ao que me informam -, está "dormindo" à sombra dos honrosos loiros conquistados...
... o que é pena e causa arrepios a quem, como eu, "sente" e ama estes valores regionais!
Mas... - voltando à louvável decisão dos meus estimados conterrâneos, que já no passado ano, no mesmo dia, deram sinal de si -, eu quero-lhes significar apreço e gratidão pela sua coragem e manifestar-lhes todo o meu orgulho pela decisão pensada e posta em prática.
Tavarede marca!... (com os devidos "direitos de autor" ao compadre António Lopes...).
Os anos não perdoam, é certo, e os pés já se me vão tomando pesadões... Só o coração continua remoçado e a alma — eternamente piegas - não acusa cansaços... Talvez me valha destes preciosos factores, em que reside toda a minha "mocidade", sempre que se fala ou se trata da Figueira, para aí dar um pulo...
... na grata intenção de reviver horas largas de felicidade já distantes e experimentar o sabor dulcificante dos sorrisos e dos cantares da gente moça da minha amada Tavarede, soltados ao espaço, nas horas matutinas e orvalhadas da próxima madrugada do 1 ° de Maio, em que também quero incorporar-me no naipe dos tocadores, pertencente ao Grupo Musical e de Instrução Tavaredense (que ajudei a fundar, ao lado dos meus queridos e saudosos pai e tio José Medina, em 1911), procurando arrancar às cordas da minha mais que adormecida, roufenha e inesusada rabeca a gloriosa marcha com que o meu ilustre conterrâneo e muito prezado amigo José Ribeiro deliberou fechar (que admirável apoteose!...) mais uma extraordinária e recente coroa de glória artística-teatral sua e dos seus apreciados pupilos: a inclusão, na adorável “lição” que aí fui receber, da lindíssima e vibrante Marcha do 1º de Maio na gloriosa peça Terra do Limonete.


                  Primeiro de Maio - Potes floridos, de Tavarede

 Tenciono tomar parte nessa salutar romagem da tradição e da saudade. E calcurriar, de violino em riste, todos os caminhos onde, pela minha banda, vão passar "reminiscências do passado", em alegre e fraternal convívio com a mocidade radiante e despreocupada do presente...
Não sei a que pontos o meu virtuosismo chegará... Uma coisa garanto desde já aos "rapazes" do meu tempo que porventura queiram recordar felicidades distantes que se foram para sempre e se dignem comparecer, também, ao lado do sanguinho na guelra da nossa terra: é a certeza absoluta de que, se a gloriosa Marcha do Rancho de Tavarede não sair pelos dedos destreinados das mãos, ela será arrancada à "sanfona" pelos dedos fortes da alma...
Dos fracos não reza a história…       
... e quem tiver medo... - da Crítica... - que compre um cão.

Até lá, pois, amigos e conterrâneos.

As Operetas em Tavarede - 25


         Ao começar o segundo acto, os trabalhadores acabaram de jantar e regressam ao trabalho. Trabalham para José Urbano, tio de Maria Clementina.

         Terminada a refeição
         Ergamos as mãos aos céus:
         Graças a Deus
         E à Virgem Maria,
         Santas graças pelo pão,
         “Pão nosso de cada dia...”

         Ora vamos à labuta,
         Vamos, irmãos, labutar
         Sorridentes e cantando,
         Que, para quem trabalhar
         Rindo e folgando
         E até cantando
         De quando em quando,
         Os trabalhos não são luta,
         São uma benção dos céus.
         Graças à Virgem Maria,
         Graças a Deus
         Pelo  pão e p’la alegria.
         Graças a Deus!
         Graças a Deus!

         Terminada a refeição, etc.

         Roberta havia conseguido os seus intentos e falara com a senhora que julgava ser a Rainha. Ela escutara-a e prometera-lhe visitá-la na quinta, para então lhe contar toda a história. Finalmente, iria ser feita justiça!

         Roberta desejava que a Rainha fosse recebida da melhor maneira. Prepara-lhe uma delicada merenda e manda os criados António e Augusta apanharem as melhores cerejas para ofertar à Senhora.

            António 
       Por toda a vida, duvidas?
       Durarão as nossas bodas
       E, se tivesse mais vidas
       Para ti seriam todas.

            Augusta 
       Ai das cachopas que tomem
       A sério a voz dos rapazes!
      Vê bem o que dizes, homem:
      Olha as promessas que fazes.

            António 
      Prometo, do coração,
      Tão seguro de cumpri-lo...

            Augusta   
      Vê, não prometas aquilo
      Que não está na tua mão!

            António  
      Nem sabes quanto me custa
      Que faças do meu amor
      Coisa tão pouca!
      Vê as cerejas, Augusta,
      Tão lindas, mesmo da cor
      Da tua boca!

          Augusta    
      São cerejas
      Que desejas?

            António  
       É trincar essas cerejas

            Augsta         
     Ai credo! Que sede louca
     Que tu tens!

            António     
      Que tens?... que temos os dois!...

            Augusta              
      Pois, sim, pois, sim, e depois?!
      Eu bem sei com que cá vens:
      Três cerejas... coisa pouca...
      Mata-se a sede da boca
      Que era obra do demónio,
     Ele a trouxe, ele a levou!
     Depois... a sede passou
     E era uma vez um António!

            António 
     Não digas isso, querida,
     Bem sabes que te jurei
     Amar-te por toda a vida.

            Augusta 
      Por toda a vida... bem sei!...

            António        
     Por toda a vida, duvidas?
     (repetem os primeiros versos)


         Conforme prometera, é recebida a visita da Senhora. Depois de uma longa conversa com Roberta, quer conhecer Maria Clementina. D. Joana, assim se chamava a mãe do Alferes Rialva, quando soube que o tal oficial que tão levianamente comprometera a honra de Maria Clementina, pois dela se tratava, se chamava Filipe, logo adivinhou tratar-se de seu filho.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 83

                O velho burgo de Tavarede não podia estar muito tempo sem teatro. Era uma tradição mais que centenária. Certamente que foi esse o motivo que levou os responsáveis pelas obras de remodelação do edifício da Sociedade de Instrução Tavaredense a acabarem, em primeiro lugar, a nova sala de espectáculos. E antes de continuarmos, seja-nos permitido recordar que, quando se iniciou o desmantelamento do velho palco, se verificou um apelo. ‘Por favor, guardem umas tábuas do proscénio, para irem comigo no meu caixão’. Sobre aquelas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e aborrecimentos imperecíveis eles passaram, assistiram ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva, e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhes haviam proporcionado.

  Reconhecida por todos a conveniência de o grupo cénico retomar, tão depressa quanto possível, a sua actividade, interrompida há um longo ano, resolveu-se pedir as vistorias à casa e à instalação eléctrica, que foram aprovadas. Assim, o teatro foi posto a funcionar, tendo-se dado o primeiro espectáculo no dia 16 de Dezembro de 1961, com a peça em 2 actos e 24 quadros Terra do Limonete. A inauguração da nova sala de espectáculos foi brilhante. Com a inauguração do novo teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, verificada no último sábado, a data de 16 de Dezembro de 1961, ficará assinalada nos anais da história da nossa querida terra, como marco imorredoiro.
Em cerimónia simples, imposta pelas circunstâncias, retomou a sua actividade o grupo dramático da prestante associação.
Lotação esgotada, contando-se entre a numerosa assistência figuras de relevo da distinta sociedade figueirense e muitos amigos de Tavarede, vindos das mais diversas localidades do País.
De linhas sóbrias, mas elegantes, a ampla sala de espectáculos oferecia com a sua iluminação feérica deslumbrante efeito.
Em lugares de honra, sentavam-se os srs. Engenheiro José Coelho Jordão, ilustre presidente da Câmara Municipal do nosso concelho; Severo da Silva Biscaia, activo e inteligente presidente da Comissão Municipal de Turismo; Professor António Vitor Guerra, prestigioso director do Museu Municipal Dr. Santos Rocha e da Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás; António Duarte da Paz, Chefe da Polícia de Segurança Pública dessa cidade, em representação do Comandante; Arquitecto Isaias Cardoso, autor do projecto, e Vicente Braz, presidente da Junta desta Freguesia.


                          Terra do Limonete
  
"O Figueirense" estava representado pelo seu director e "A Voz da Figueira" pelo seu chefe da redacção. O jornal "O Dever" estava representado pelo Revd° Padre Fernando Ribeiro, coadjutor da Igreja Matriz dessa cidade.
Antes de o espectáculo ter início e com o velho pano de boca descido, cuja pintura representava o antigo solar da Quinta dos Condados, o presidente da Assembleia Geral da SIT, sr. Professor Rui Fernandes Martins, veio ao proscénio para saudar o sr. presidente do Município e outras entidades, evocando sentidamente a memória de João José da Costa, proprietário daquela importante propriedade, e a quem a Figueira da Foz e seu termo, quando presidente da Câmara, Provedor da Santa Casa da Misericórdia e de outras instituições ficou devendo assinalados serviços e Tavarede o antigo Teatro; recordou a figura nobilíssima de Calouste Gulbenkian, de cuja Fundação a SIT recebeu subsídio generoso, que veio impulsionar decisivamente as ambicionadas obras, que constituíram, durante algumas dezenas de anos, anseio dos sócios e amigos da benemérita colectividade.
Não esqueceu José da Silva Ribeiro e os seus humildes colaboradores de muitos anos, aquele o tavaredense a cujo talento e amor à nobre arte de Talma ficaram os seus conterrâneos devendo a magnífica realização, pois que sem a sua extraordinária actividade de todos os dias não seria possível o grupo cénico que dirige, atingir o alto nível cultural que merecidamente alcançou, e, consequentemente, a SIT obter os fundos necessários para levar por diante o arrojo do empreendimento, se considerarmos a modéstia de recursos do meio local.
A fantasia "Terra do Lirnonete", que escreveu para a inauguração do Teatro, que o distinto amigo e grande amigo da colectividade sr. Alberto Anahory vestiu primorosamente, enriquecida com cenários executados por distintos artistas,
agradou unanimemente, como o demonstraram os vibrantes e entusiásticos aplausos do público e as felicitações que recebeu das entidades e de categorizados espectadores.
Em chamadas especiais, José Ribeiro e Anselmo Cardoso, director da orquestra e autor da partitura, foram ovacionados calorosamente.
Seríamos injustos se não tivéssemos uma palavra de louvor para José Nunes Medina, músico distinto, que, com o seu esforço e boa vontade ensaiou a parte coral, contribuindo poderosamente para o êxito da representação.
Enfim, foi uma grande e inolvidável noite de arte, a de sábado, que ficará memorável na alma dos tavarederises.
Todos os amadores, sem excepção, entre os quais figuram estreantes, cumpriram plenamente, pelo que a assistência lhes tributou os seus quentes aplausos.
Oxalá que a conclusão das obras de transformação da sede da SIT não se faça demorar para os tavaredenses poderem dar largas ao seu justificado entusiasmo bairrista
No final do espectáculo, a Direcção da SIT obsequiou com um beberete as entidades e outros convidados, tendo usado da palavra os srs. professor Rui Martins e José Ribeiro e por último os srs. presidentes da Câmara e da Comissão de Turismo.

Terra do Limonete – A moura encantada


         Embora a interrupção, motivada pelas obras, tivesse sido relativamente pequena, o público estava ávido por ver, além das novas instalações, a inaugural fantasia de Mestre José Ribeiro. E foi com as lotações esgotadas, que os espectáculos se sucederam.