sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete /90

         No salão superior do edifício, donde se divisa um rasgado panorama, a Direcção ofereceu aos convidados um primoroso beberete, em que mais uma vez estiveram presentes a gentileza e dedicação das senhoras de Tavarede,
         Na altura dos brindes, o pároco da freguesia, Revº. Paulo Ribeiro, usou da palavra para saudar a obra benemérita da S.I.T..
         José Ribeiro aproveitou o ensejo para referir um episódio ocorrido em tempos, com o conhecido Quim Martins, que alguém estranhara ver a colaborar com o Bispo D. Manuel de Bastos Pina, nas obras de Sé de Coimbra.
         Também ele, orador - que não era católico - e o pároco de Tavarede, eram sacerdotes de ritos diferentes, mas entendiam-se muito bem.
         E a concluir: “toda a obra cristã que o sr. Padre Paulo Ribeiro realizasse na sua igreja, era digna do seu inteiro louvor”.
         Esta intervenção foi muito ovacionada.
         Proferiram ainda palavras de admiração pela obra de José Ribeiro na Sociedade de Instrução Tavaredense, os srs. dr. Pinhal Palhavã, João Assunção Pinto e Anselmo Cardoso Júnior.

         Digno de ficar aqui registado foi o facto de, no domingo da inauguração das obras de remodelação da SIT, ter sido entregue, em casa dos pobres mais necessitados da localidade, bodo constituído por géneros alimentícios. Levada à cena pela primeira vez, aquando da inauguração da nova sala de espectáculos, em Dezembro de 1961, foi
agora publicada a peça Terra do Limonete. José da Silva Ribeiro é já, no âmbito do teatro amador, um nome de projecção nacional. É bem conhecido de todos quantos em Portugal se interessam pela cultura popular, o que tem sido o seu apostulado cívico à frente do grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense. Pois José Ribeiro acaba de publicar, mais de três anos volvidos sobre a sua representação, a peça “Terra do Limonete”, 2 actos e 24 quadros  de História e Fantasia, que é como que a continuação do Chá de Limonete, que escreveu e fez representar em 1950.
         Numa “Breve conversa fiada… em jeito de Prólogo”, com que abre o volume, formula o autor pertinentes  considerações sobre problemas do teatro amador português, sobretudo no que diz respeito à escolha de reportório. A peça ora publicada, não o insinua o autor mas afirmamo-lo nós, não representa uma das soluções possíveis para o impasse verificado.
         Com efeito, “Terra do Limonete” ensina ao povo de Tavarede a história da sua terra, desde as origens até aos nossos dias: verbi gratia “Mouras encantadas em Santa Olaia” (meados do séc. XI); “Um piloto do Infante na foz do Mondego” (2º quartel do séc. XV); “Sal de Tavarede” (séc. XV) e “O Foral de Tavarede” (séc. XVI); “A Nau dos Corsários na Baía de Buarcos” (ano de 1602); “Ciganos” e “Um Serão no Paço de Tavarede” (3º quartel do séc. XVIII). E, se o primeiro acto culmina com uma evocação literária, que vai do “Auto da Visitação” de Gil Vicente à “Menina dos Rouxinóis” de Garrett, intensificam-se no segundo os aspectos de crítica social, em jeito de revista; assim, às “Glórias Nacionais” do 5º quadro respondem “O Carreiro e o Capador” (18º), “No nosso tempo…” (19º) e “A Viúva do Fogueteiro” (22º).
         Escrito ora em prosa, ora em verso, se o autor trata a redondilha quer maior, na tradição do romanceiro, quer menor emulando Mestre Gil (pág. 107, por ex.), com incontestável felicidade, já os seus decassílabos (“O Velho Palácio”) parecem menos logrados. Mas os dois principais reparos que a obra nos merece situam-se um logo no prólogo, em que se fala do insucesso de uma peça de Synege no Teatro Experimental do Porto. E José Ribeiro comenta: “Imagine-se a peça de Synge transplantada para Tavarede…”. Permitimo-nos discordar, pois estamos firmemente convencidos de que o povo de Tavarede ou de Buarcos seria muito mais capaz de entender o teatro de raiz popular do grande dramaturgo irlandês do que a tal “plateia seleccionada”, de que o autor destas linhas também faz parte.
         O outro reparo diz respeito ao começo do 10º quadro, em que, após a versão portuguesa do “Monólogo do Vaqueiro”, se afirma: “Assim nasceu o Teatro em Portugal. Mas pouco viveu, que o levou consigo a usurpação de Castela”. Ora, José Ribeiro sabe que isso é falso! E a inexactidão parece-nos tanto mais grave quanto é certo que a sua peça tem propósitos didácticos de divulgação cultural. Não foram os Filipes que liquidaram o teatro em Portugal. Foi a Santa Inquisição, instituída justamente por aquele Príncipe, para a celebração de cujo nascimento o trovador manuelino se disfarçara de vaqueiro. Ainda muito recentemente (“Távola Redonda” nº 23), João Gaspar Simões frisava  essa ironia do destino: na mesma câmara régia, nasciam, praticamente ao mesmo tempo, o Teatro Português e aquele que o havia de estrangular quase à nascença. Mas é claro que tal reparo não invalida o viço, a frescura e o lirismo de muitos quadros, a saborosa evocação de outros, o vigor satírico de alguns, o sábio doseamento de tantos elementos dispares, que convertem o prazer da leitura em mágoa de não ter visto a peça representada, com o que supomos fazer o maior elogio ao incontestável talento de José da Silva Ribeiro.

         Colaborando nas comemorações do V Centenário do Nascimento de Gil Vicente, a Sociedade de Instrução levou a efeito um programa especial que, em Outubro de 1965, apresentou, também, na Figueira. Em espectáculo promovido pela Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás, desta cidade, que sob a proficiente direcção desse alto valor local que é o prof. António Vitor Guerra, não só cada vez mais se prestigia, engrandece e valoriza, como não desperdiça pretexto para exercer relevante e profícua acção cultural no nosso meio, veio até ao Teatro do Peninsular dar-nos uma noite vicentina, esse adnirável grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, em que pontifica a arte, o saber, o talento, a dedicação, o amor ao teatro e o próprio espírito de sacrifício de José Ribeiro.
         E sem exagero se pode afirmar que com este espectáculo a Figueira marcou brilhante lugar de destaque nas comemorações do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”, encaradas estas à escala nacional. Opinião com que, sem dúvida, não haverá ninguém discordante entre a numerosa assistência, mesmo tendo em conta que entre ela se encontravam destacadas individualidades do corpo docente da Universidade de Coimbra e até um mestre e um apaixonado do teatro vicentino como o professor doutor Paulo Quintela.
         Usou em primeiro lugar da palavra o prof. António Vitor Guerra, que encantou positivamente todos os presentes com o seu verbo fácil, elegante, em que a beleza da forma se aliou a justeza do conceito. Palavras precisas e convincentes sobre a actuação da Sociedade de Instrução Tavaredense e dos seus amadores, tanto sob o aspecto artístico como beneficente. Objectiva apreciação dos méritos de José Ribeiro nas múltiplas facetas sob que tem dado ao teatro cinquenta anos de persistente actividade, com uma isenção absoluta e uma proficiência notável. Preito de homenagem ao Homem e aos seus dotes de inteligência, de talento e de carácter e também exaltação da sua integridade moral e do exemplo de civismo que representa toda a sua vida. Louvor da obra de Gil Vicente, esse grande português que deslumbrou a Europa do seu tempo e para ler o qual Erasmo aprendeu a nossa língua. Em resumo, uma oração que só por si, na opinião de alguns dos presentes, já justificava a deslocação até ao Peninsular.
         Foi depois a vez de José Ribeiro. Um homem do povo de talento falando com compreensão, carinho, paixão e saber, de outro homem do povo, esse tocado pela centelha do génio. Um desfiar de ensinamentos que se procurou tornar acessíveis a toda a gente, independentemente do seu grau de cultura e capacidade intelectual e que para toda a gente tiveram o mesmo interesse. Uma lição sobre Gil Vicente e o seu teatro e, simultaneamente, uma lição de que de todos os assuntos se pode falar com profundidade e elevação e ao mesmo tempo com simplicidade e clareza. Assim se possuam invulgares qualidades e dotes que permitam fazê-lo. O que está por isso ao alcance de poucos.
         E com esta excelente preparação se passou a ver representar Gil Vicente, através de primorosa interpretação dos amadores de Tavarede, em “Auto da Barca do Inferno”, “Fragmentos de 4 obras vicentinas” (I – Auto Pastoril Português; II – Romagem dos Agravados; III – Breve Sumário da História de Deus; e IV – Pranto de Maria Parda) e Auto da Feira. 


O pranto de Maria Parda
  
         O teatro de Gil Vicente dos amadores de Tavarede é um teatro popular, acessível aos nobres e vilões do tempo em que foi criado e às heterogéneas plateias dos nossos dias. Dele foram, portanto, banidos todos os preciosismos, todas as manifestações de interpretação com pruridos de exótica e qualquer espécie de snobismo falsamente intelectualizado. Respeita-se assim, com consciência e honestidade, a raíz de tal criação artística e presta-se também ao autor a merecida homenagem de considerar a sua obra com mérito bastante para se impor por si própria e em circunstâncias o mais semelhantes possíveis àquelas em que Gil Vicente a fez representar. O que nos parece só merecer elogio e aplauso.
         Mas dentro deste critério quanto escrúpulo, cuidado, zelo, carinho, persistência e saber foi mister pôr em jogo para conseguir aquele milagre de assim fazer representar Gil Vicente pelos amadores de Tavarede.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Operetas em Tavarede - 30

         Lembram-se a graça com que nos foi mostrado o velho costume das visitas feitas às amigas, à tardinha? Conversava-se e, depois, vinha a merenda: papas ou arroz com leite. E p’rás comer?

Coro -               
P’ràs amigas visitar
            Nós saímos à tardinha,
            Levando nesta bolsinha
            Que nunca deve faltar
            No arranjo da mulher,
            Uma jóia preciosa
            Que é alfaia graciosa:
             - Uma colher. (tiram a colher da bolsa que levam no braço)

            A meio da conversa vem merenda
            Que o bom costume manda que se aceite:
            Doces papas, o bom arroz com leite.
            E p’ràs papas comer vem esta prenda,
            De prata ou doutro metal qualquer:
            - Uma colher.

         Mas o nosso saudoso Mestre, nunca foi maçador nas suas lições. De maneira fácil e acessível ia-nos ensinando. Conhecedor profundo do passado da sua terra natal, tinha especial admiração e carinho para com aquela figura que foi verdadeiro símbolo tavaredense, “o cavador”. Prestava sempre a sua incondicionável homenagem à luta heróica dos humildes e esforçados trabalhadores rurais. Parece-nos estar a ver surgir em cena a veneranda figura do amador António Graça, cabeça toda branca de neve, alquebrado pela idade mas endireitando o seu esguio corpo, naquele verdadeiro exemplo de amor ao trabalho honrado. Falava, então, a Frei Manuel de Santa Clara.

         Ti João da Quinta – “Apesar de velho e criado na vida da terra, entendo as coisas. Nem todos hão-de ser cavadores, nem todos hão-de ser artistas. O que é preciso é que todos trabalhem! Mas custa-me ouvir dizer que têm vergonha da enxada. Porquê? A enxada não deve ser vergonha p’ra ninguém! Eu gostava que o cavador pudesse andar par a par com os outros, soubesse ler e escrever, que não passasse as noites na taberna, que vestisse o seu fato lavado e puzesse a sua gravata ao domingo... Alguns, é verdade, não têm fato lavado p’ra vestir... Quando mal se ganha p’rá broa... E trabalham, trabalha o homem e a mulher! É vê-los por aí, sempre em cima das terras, numa labuta de matar, - e às vezes nem com a ajuda do que se vende no mercado se ajuntou p’ra pagar a renda... Sim, bem sei que dizem que a vida do campo é agradável e bela. Estar em contacto com a natureza, ver os campos reverdecerem, aspirar o perfume da primavera nas árvores em flor... Bem sei, bem sei que é assim que os que não vivem da terra e da enxada falam da vida do campo... Mas a vida do campo não é só a primavera florida!... São os estios ardentes, em que uma pessoa torra debaixo da brasa do sol; são os frios e as chuvas do inverno, invernos muito compridos, em que a enxada está parada semanas e semanas e a mulher e os filhos querem comer todos os dias...
         Aos que mourejam com a enxada, era preciso que a enxada lhes desse o necessário para viver e criar a família. E ser honrado! Quando se tem o que é preciso, ser honrado não custa. Mas não negar o corpo ao trabalho, aguentar o sol e o frio – e não ter com que vestir os filhos e mandá-los à escola; ver a doença em casa, e não haver com que pagar médico e botica e andar a pedir por caridade uma cama no hospital – assim é que custa ser honrado! Mas é preciso ser honrado mesmo assim!”.

         Era sempre sob uma trovoada de aplausos que o velho António Graça, atirando com a enxada para o ombro, se despedia e dispunha a sair de cena... A enxada!... A sua fiel companheira de toda a vida, como ele dizia. A enxada, o verdadeiro brasão da terra do limonete. 



        A sesta – final 2º. acto - Chá de Limonete

 Enxada -          
Brasão de Tavarede? Indecifrável
Continua nas siglas mist’riosas...
Gente que lida em fainas trabalhosas
A terra mãe, fecunda e amorável,
Outro brasão é o seu:
Esse brasão sou eu,
- A Enxada -
Brasão humilde em cuja singeleza
Está gravada
Esta nobreza:
- Cavar a terra e tirar dela o pão.
Ó cavador ingénuo, ó bom aldeão,
Eu sou a tua companheira amada,
Sou a enxada
Que levas ao teu ombro alegremente,
- Luz que alumia a tua longa estrada,
Sombra a seguir-te carinhosamente
Desde o berço à cova.
Contigo eu rio e canto a alegre trova
Da sementeira.
E sem canseira
Ao alto erguida em tuas mãos calosas,
Doira-me o sol o ferro cintilante
Que, fecundante,
Revolve a terra em ânsias amorosas.
Mas, se me alegro quando tens fartura,
Choro contigo a tua desventura,
- Ó cavador! -
Se a avara terra te nega o pão
E ao teu lar só mandou desolação
Miséria e dor!...

Mas é preciso renovar a luta,
E outra vez erguer de novo a enxada
Para a labuta.
Recomeçar a vida começada,
Levando na alma um cântico de esp’rança
 - Um hino de saúde e de abastança.

(Transição. Olhando os trabalhadores que dormem)

E dormem inda, coitados!
Na sacha toda a manhã,
Sobre os milharais vergados,
Não lhes é a sesta vã...
Eh! Vá riba! Levantar!...
Então não querem ver esta?!
Vede o sol onde já vai...
Passou a hora da sesta...

(Falando para fora)

Maria do Saltadoiro,
- Maria da desventura,
Mãos de prata e alma de oiro! -
A sesta vai acabada...
Arruma a tua costura,
Troca o dedal p’la enxada...

(Para os que estão em cena, e vão acordando)

Muito vos custa acordar!...
Acima, rapaziada!
São horas de ir trabalhar...

(Vão-se erguendo a pouco e pouco os trabalhadores. Com a música, a figura da Enxada desaparece)

Um Homem - (Cantando)  
Eh! pessoal! Vá lá a ver!...
            Bem custa... mas tem de ser...

Outro Homem -  
Stá o sol mais brando agora...
Eh! gentes! Vamos embora!...

Uma Rapariga
Que pena acordar
            Assim de repente,
            Quando tão contente
            Eu ‘stava a sonhar!...

            Sonhei que uma fada
            Que lá do céu vinha
            Quebrou-me a enxada
            E fez-me Rainha!

         E em meigo falar

             A fada me diz:

        - Viverás feliz
         Sem mais trabalhar!

Coro -  
Ora vejam a pobre cachopinha,
            Que é cavadora e cuida que é rainha!

Um Homem -            
Sonhar, é p’ra quem tem vagar p’ra isso...
            Pegar na enxada, e ala p’ró serviço!

Coro -  
Já o sol vai a descer...
            São horas, vamos à lida,
            Trabalhar até morrer
            É a lei da nossa vida!
            É muito certo o rifão
            Que nos diz: - Semeia e cria.
            Assim não faltará pão
            Nem faltará alegria...


O Associativismo na Terra do Limonete - 89

         Recordemos, agora, que, em Abril de 1965, no Grupo foram comemoradas as Bodas de Prata do seu conjunto musical Lúcia-Lima. Decorreram com invulgar entusiasmo as festas comemorativas do 25º aniversário da fundação do afamado conjunto “Lúcia Lima”, levadas a efeito nos dias 3 e 4 do corrente, como referimos, no amplo salão de diversões do simpático Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
         Tanto o baile de sábado como a “matinée” de domingo registaram desusada concorrência.


         Houve uma breve sessão solene presidida pelo sr. Fernando da Silva Ribeiro, presidente da Assembleia Geral da colectividade em festa, tendo servido de secretários os representantes da SIT e do Grupo de Instrução e Recreio, de Quiaios.
         Após a leitura do expediente, em que avultado número de associações transmitiam cumprimentos, o sr. presidente, no uso da palavra, referiu-se aos principais factos decorridos durante os 25 anos de existência da apreciada orquestra, rendendo significativa homenagem a todos os executantes. A certa altura procedeu-se ao descerramento da fotografia do mais antigo elemento do conjunto “Lúcia Lima”, sr. Manuel Loureiro, que desde a primeira hora lhe vem dando a sua melhor colaboração, tendo-lhe sido entregue um lindo ramo de flores.
         Estiveram presentes à cerimónia os srs. Benjamim Gaspar Lontro e os irmãos Joaquim e Adelino da Silva Oliveira, antigos executantes fundadores.
         Presente também o sr. José Nunes Medina, primeiro regente e grande impulsionador da orquestra e a quem a sua extremosa netinha, a simpática menina Otília Maria, ofereceu um belo ramo de cravos.
         Antes de terminar as suas considerações, o sr. presidente dirigiu cumprimentos ao sr. João Renato Gaspar de Lemos Amorim, activo presidente do GMIT ao tempo da fundação do conjunto “Lúcia Lima” e recordou o passamento do sócio nº 1, sr. Manuel Nogueira e Silva, tendo sido guardado, em sentida homenagem, um minuto de silêncio.
         António Lopes, depois de dirigir calorosa saudação à prestante colectividade local, exaltou a dedicação e o desinteresse com que os modestos componentes do excelente conjunto tavaredense vêm mantendo viva a chama do seu amor à nobre arte da Música.

         Finalmente, chegou mais um dia grande para Tavarede. No domingo 9 de Maio de 1965, foi oficialmente inaugurado o edifício da sede remodelada da Sociedade de Instrução Tavaredense. O domingo foi um dia grande para a risonha aldeia do limonete.


Pelas 16 horas, as entidades oficiais e convidados tiveram entusiástica recepção, no largo do Paço, organizando-se ali um grandioso cortejo para a sede da Sociedade. Nesse cortejo tomaram parte mais de duas dezenas de associações do concelho, com os seus estandartes, as Filarmónicas Santanense e Boa União Alhadense.
         As janelas do percurso apresentavam um aspecto dos grandes dias - engalanadas e a lançarem pétalas de flores sobre os convidados.
         No átrio da sede da S.I.T., foi convidado a descerrar uma artística lápide de homenagem à Fundação Gulbenkian, o sr. Presidente da Câmara Municipal, Engº. José Coelho Jordão, acto sublinhado com prolongada salva de palmas.
         Realizou-se, a seguir, uma luzida sessão solene, a que presidiu o sr. Presidente do nosso Município.
         Ladearam-no os srs. João de Oliveira Júnior, Presidente da Junta de Freguesia; Revº. Paulo Ribeiro, pároco da freguesia; dr. Carlos Estorninho; dr. Mário Temido; Tenente Manuel de Matos; o representante do Comando Militar; Abílio dos Santos, representando o Prof. Doutor Elísio de Moura, e a Associação dos Artistas de Coimbra; e o sr. João de Oliveira, único sobrevivente dos sócios fundadores da S.I.T..
         Feita a leitura do expediente, que era numeroso e representativo, foi entregue ao sr. Ten. Manuel de Matos, o diploma de sócio honorário em reconhecimento do seu importante contributo, moral e material, para as obras da colectividade em festa.
         No momento dos discursos, usou da palavra, o prof. Rui Martins, Presidente da Assembleia Geral da S.I.T., seguindo-se-lhe António de Oliveira Lopes, Presidente da Direcção.
         Ambos os oradores, a propósito da festa que se estava a viver, proclamaram o seu propósito de afixar no átrio da S.I.T., ao lado das placas ali já colocadas, uma de homenagem ao grande propulsor daquela obra - José Ribeiro.
         A assistência aplaudiu calorosamente.
         Falaram ainda os srs. Tenente Manuel de Matos, dr. Mário Temido e, por fim, José da Silva Ribeiro, cujo discurso era aguardado com ansiedade.
         Testemunhou à Câmara Municipal, à Fundação Gulbenkian, e aos operários que ajudaram com o seu trabalho gratuito a levar por diante aquela obra, o reconhecimento de que eram merecedores. Saudou João de Oliveira, o único sócio fundador sobrevivente, e evocou a memória de todos os fundadores falecidos, incluindo seu pai, que ministrara ali o ensino da música como ele, orador, ensina o que sabe, de teatro.
         Referindo-se à lápide glorificadora, cuja colocação os Presidentes da Assembleia Geral e da Direcção, afirmaram ser sua intenção propôr à Assembleia Geral, afirmou categòricamente que nunca o permitiria, pois nada mais fizera do que cumprir o seu dever.
         Encerrou a sessão o sr. Presidente da Câmara, que proferiu o seguinte discurso:
         “Tavarede está em festa. Tavarede vive, hoje, um dia grande, com a inauguração deste belíssimo edifício, sede da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Mais de meio século já passou desde a data, em que um grupo de homens humildes desta terra, ansiosos da luz da música e da cultura, fundou esta sociedade com o fim de “assegurar” a existência de uma escola nocturna para ensino de adultos e menores.
         A sua história já a ouvimos pela palavra fluente dos oradores desta sessão.

Herdeiros de uma tradição artística, musical e teatral, que este povo de Tavarede manteve pelos tempos fora, acarinhados por todas as boas vontades, e aquele amor e dedicação e carinho pelo teatro, que ainda hoje se mantém, não tardou que a Sociedade recém criada visse desenvolvida a sua obra e a sua acção, a projectar-se para fóra dos territórios que outrora formavam o Couto de Tavarede, e que fosse orgulho, bem justificado, não só das Juntas de Tavarede, mas orgulho e honra da Figueira e do País.
         Por aqui passam as gerações de Tavarede, aqui se instruem e se educam, aqui aprendem, com o exemplo de dedicação, de espírito de sacrifício, de abnegação, de tantos, a cultivar a amizade, sem a qual a vida perde o seu encanto e a sua beleza.
         E nunca como no mundo de hoje, em que o egoísmo domina tanto a humanidade, as armas do espírito são necessárias para assegurar a cooperação dos homens e a defesa dos interesses do bem comum.
         Honrosos pergaminhos tem recebido, mas o maior de todos foi, sem dúvida, o reconhecimento, pela Fundação Gulbenkian, de merecer ser subsidiada para poder ter as instalações condignas, com que vai ficar.
         O cuidado que aquela Instituição põe na concessão de subsídios, pode deduzir-se claramente de um dos seus relatórios:
         “Devemos, porém, estar muito atentos para não cometer o erro, mais do que erro, a falta grave, de estimular a mediocridade ou de concorrer para o êxito, mesmo temporário, de algumas mistificações..., porque só a realidade da arte melhora os homens e eleva o nível cultural do povo”.
         A Fundação Gulbenkian, fundada por um homem genial e generoso, um alto espírito de inteligência invulgar e rara sensibilidade, que escolheu Portugal, pelo ambiente de paz, de estabilidade, de administração séria, para sede da sua obra, e que reconheceu as qualidades e o nível artístico deste grupo, não hesitou em dar todo o estímulo e todo o apoio material necessários à construção deste edifício, com que esta Sociedade vai ficar enriquecida.
         Este é, sem dúvida, senhoras e senhores, o maior pergaminho e o melhor reconhecimento do que é o trabalho feito nesta casa.
         E se todos vós, sócios desta casa, que o mesmo é dizer de Tavarede, viveis um dia de grande alegria e emoção, a Câmara Municipal e o seu Presidente, não podem deixar de vos acompanhar com a mesma vibração que vos vai na alma, e ao felicitar-vos pelo entusiasmo, esforço, dedicação e amor, com que construistes a vossa casa, juntamo-nos também a vós para agradecer, bem do fundo da nossa alma, reconhecida à Fundação Gulbenkian, e ao seu Meretíssimo Presidente do Conselho de Administração, Doutor José Azeredo Perdigão, todo o interesse e auxílio que tornou possível esta obra, e também testemunhar-lhe a nossa profunda gratidão pelo apoio e carinho que tem dado a tantas outras iniciativas, a maior das quais virá a ser o Museu e a Biblioteca, a começar brevemente, e que contribuirá de forma excepcional para a valorização da nossa cidade.
         E a terminar, quero saudar Tavarede e o seu povo, e saudar todos os amadores desta casa, com os votos de que a Sociedade de Instrução Tavaredense continue, no futuro, a ser bem digna dos seus honrosos pergaminhos, conquistados no passado e no presente!”
         Vivas, entusiàsticamente correspondidos, encerraram esta memorável sessão solene.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 88

         E depois de apresentar Uma noite de teatro português, com extractos de peças de Gil Vicente, Almeida Garrett e Luiz Francisco Rebelo, subiu à cena, no palco tavaredense, a peça Omara. Mas, pouco antes, José Ribeiro havia concedido mais uma entrevista. Continua a Sociedade de Instrução Tavaredense a dar execução ao seu programa de educação e cultura popular através do teatro. A actividade do seu grupo cénico é verdadeiramente excepcional, se atendermos ao meio onde, desde há mais de meio século, ela se desenvolve. Depois do notável programa “Noite de Teatro Português”, com obras de Gil Vicente e Luís Francisco Rebelo, um novo espectáculo está a ser preparado, que será duplamente assinalável: pela peça em si e pela circunstância de se tratar de um autor estrangeiro até agora ainda não representado em Portugal. Referimo-nos à peça “Omara”, que terá a sua estreia no sábado, 16 do corrente, em Tavarede. O facto parece-nos realmente sensacional, e por isso quisemos ouvir o director do grupo cénico da benemérita colectividade, sr. José Ribeiro, que sem o menor constrangimento se dispôs a atender-nos.
         . É verdade que os amadores tavaredenses vão representar uma peça estrangeira ainda não representada em Portugal?
. É exacto. A peça “Omara” vai ter a sua estreia em Portugal na Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Ante a nossa admiração, o nosso entrevistado acrescentou:
         . Compreendo perfeitamente que o facto o surpreenda. São tantas e tais as dificuldades dos grupos de amadores na obtenção de peça representável, que causa certo espanto poder o grupo de Tavarede representar uma obra ainda não levada à cena nos palcos portugueses.
         . Isto é muito honroso para a Sociedade de Instrução Tavaredense, pois não é assim?
         . Sem dúvida, muito honroso, não apenas pela estreia da peça, mas também pela categoria do seu autor, o notável dramaturgo hispano-mexicano Sigfredo Gordon, ainda até hoje não representado em Portugal.
         . Como chegou essa obra a Tavarede?
         . Foi o figueirense dr. Joaquim Montezuma de Carvalho, critico de alta craveira e apaixonado estudioso das literaturas latino-americanas, que nos proporcionou o ensejo feliz de travarmos conhecimento com o autor de “Omara”. Poeta e escritor, Sigfredo Gordon é um grande, um autêntico dramaturgo, com uma vasta obra de teatro: aos 54 anos de idade, 33 peças, 12 das quais já publicadas nos seus 4 volumes de teatro. E, deixe-me que lhe diga, é lástima que os nossos palcos, onde tantas vezes se exibem traduções de obras cujos méritos residem somente no facto de serem estrangeiras, não tenham apresentado até hoje nenhuma deste notável escritor de teatro, que tão bem usa a forma clássica como a moderna e cuja apurada técnica é servida por uma linguagem de riquíssima expressão teatral, um grande poder de síntese criador de belas e vigorosas situações dramáticas e uma extraordinária facilidade de dialogar, seja nos domínios da arrojada fantasia ou na teatralização realista.
         . E foi o autor que indicou a peça para Tavarede?
         . Não. “Omara” foi escolhida por nós. É admirável, e exultamos por nos ter sido permitido representá-la. Como igualmente muito gostariamos de representar outras do mesmo autor, por exemplo, La Venus de Sal, Uma Casa en lo Alto, La Muerte, Manda Tres Rosas...
         . Pode dizer-nos alguma coisa acerca da interpretação pelos amadores tavaredenses e do critério seguido na encenação de “Omara”?
         . Lá o poder, posso – mas não devo. Essas coisas vêem-se no palco – e podem ver-se no sábado em Tavarede, sem necessidade de nos pormos a fazer crítica antecipada, que poderia parecer... desnecessária justificação ou tentativa de desculpa... Direi, isso sim, que todos na SIT nos empenhamos em apresentar a peça com a dignidade e o respeito que a obra e o autor merecem.
         . Ainda uma pergunta: a Sociedade de Instrução Tavaredense toma parte no festival de Teatro Amador de Coimbra?
         . Sim. Esse Festival, cuja realização se fica devendo ao corajoso Ateneu de Coimbra e ao seu ilustre orientador dr. Mário Temido, está a decorrer com grande brilho. Nele intervêm os grupos de teatro do CITAC, das Caldas da Rainha, de Aveiro, do Ateneu de Coimbra, do TEUC e da Sociedade de Instrução Tavaredense, que levará “Omara”.
         Agradecemos a franqueza com que as nossas perguntas foram respondidas. E ao despedirmo-nos arriscámos ainda:
         . Ouvimos dizer que esta peça de Sigfredo Gordon foi cedida a Tavarede com isenção de pagamento de direitos de autor, o que nos parece extraordinário, sabendo-se como é difícil aos grupos de amadores obterem autorização para representar certas peças, mesmo pagando direitos...
         . Sim, sim... É o caso de Para Cada Um Sua Verdade, do Processo de Jesus... Mas isso é outra história. Adiante... Por muito estranho que pareça, a verdade é que Sigfredo Gordon, com uma gentileza que nos desvanece e muito honra os tavaredenses, autorizou a Sociedade de Instrução Tavaredense a traduzir a peça, no que foi generosamente secundado pelo seu representante, sr. D. Juan Enrique Bécker (Agência Internacional de Teatro e de Literatura Latino-Americanos, com sede na Suiça), que logo autorizou a representação de “Omara” com total isenção de pagamento de direitos de autor. E agora permita-nos a nós uma pergunta: Que diz a esta tão expressiva, e tão rara, manifestação de simpatia pela actividade dos grupos de teatro amador?
         Não dissemos nada. E assim terminou a entrevista, com uma pergunta do entrevistado que deixámos sem resposta.
          Com esta peça, o grupo cénico participou no 1º Festival  de Teatro Amador de Coimbra e, logo de seguida, no dia 30 de Janeiro, deu novo espectáculo na sua sede. Foi uma noite inesquecível, de verdadeira apoteose, que dificilmente se desvanecerá da memória de todos quantos tiveram a felicidade de assistir à memorável récita, que teve a presenciá-la, além dos srs. Presidente da Câmara, vereador do pelouro da Cultura, Director do Museu e Biblioteca Municipais e outras individualidades e distintas senhoras da melhor sociedade figueirense, o sr. D. Juan Enrique Becquer, que, tendo vindo da Suiça ao nosso país em viagem relacionada com os interesses dos seus representados, se deslocara propositadamente a esta localidade para conhecer e apreciar o teatro tavaredense, que mestre José Ribeiro dirige com a maior dignidade e seu profundo saber há mais de 50 anos.


D. Juan Becker usando da palavra, em cena aberta
        
Antes do início do espectáculo, José Ribeiro dirigiu brilhante saudação ao nosso ilustre hóspede e manifestou-lhe o reconhecimento da SIT pela sua tão honrosa visita, que enchia de orgulho os tavaredenses.
         O público, de pé, irrompeu numa calorosa manifestação, como raramente temos assistido na SIT, a D. Juan Enrique Becquer.
         Então o ilustre diplomata, transmitindo as saudações de que era portador para a prestigiosa colectividade, de sua Exª o sr. Embaixador do México em Lisboa, agradeceu num vibrante improviso as demonstrações de simpatia e carinho de que estava sendo alvo.
         A representação decorreu em elevado nível artístico, salientando-se, sem desprimor para os seus companheiros, a actuação da excepcional comediante que é Violinda Medina e Silva, na interpretação de “Omara”, que por isso a numerosa assistência lhe testemunhou e aos restantes intérpretes o seu alto apreço com entusiásticos e prolongados aplausos.
         No final do espectáculo e em cena aberta foi oferecido pela Direcção ao sr. D. Juan Becquer um lindo ramo de cravos, que lhe foi entregue por Violinda Medina, depois do que teve lugar um fino “copo de água”, a que assistiram, além do homenageado, as ilustres individualidades presentes e o pessoal que tomou parte na inolvidável representação. Fizeram uso da palavra os srs Presidente da Câmara, Professor Rui Martins, Jerónimo Pais, António Lopes e D. Juan Becquer que renovou o seu reconhecimento pela encantadora recepção que lhe havia sido dispensada.
         O sr. D. Juan Becquer, que chegara à Figueira na sexta-feira, regressou a Lisboa no domingo, tendo comparecido a apresentar-lhe cumprimentos e a desejar-lhe boa viagem, directores da SIT, Professor António Vitor Guerra e outros elementos da colectividade.
         Durante a sua curta estadia nessa cidade, sua exª visitou, acompanhado dos srs. Professor António Vitor Guerra e José Ribeiro, a Casa do Paço, onde apreciou os artísticos e valiosos azulejos ali existentes, o Museu e Biblioteca, o Grande Hotel e a Serra da Boa Viagem, confessando-se encantado com a Praia da Claridade e o mais que lhe foi dado observar.

         Na segunda-feira foi o mesmo grupo cénico a Coimbra, representar no Teatro Avenida, “Omara”, com que tomou parte no I Festival do Teatro Amador, da organização do Ateneu daquela cidade.

Operetas em Tavarede - 29

         E as tremendas lutas que os ilustres fidalgos tavaredenses, a célebre e poderosa família Quadros”, mantiveram com o Cabido de Coimbra, pelo domínio da nossa terra, durante mais de dois séculos?

 
               Quadro: ‘O Forno da Poia’ - - Chá de Limonete

         Sabíamos nós, porventura, que os nossos antepassados, se queriam comer um pedaço de broa, a tinham de ir cozer nos fornos dos Senhores de Tavarede, chamados “Os Fornos da Poia”?

Forneiro -         
Já quase o forno está quente
            E esta gente
            Não há meio de apar’cer...
            É tratar de meter lenha
            Até que venha
            A broínha p’ra cozer.

            Depois do forno aquecido
            E varrido,
            Que alegria é enfornar!
            Vamos a tender o pão!
            Ora então
            Põe-se a pá a trabalhar...

            Porém se o forno
            Teve mais lume
            Do que o costume,
            Ai que transtorno|
            Vai-se a fornada,
            Foi-se a farinha,
            Porque a broínha
            Ficou queimada.

            Anda o forneiro contente,
            Sempre quente
            Durante todo o inverno.
            O forno é consolação...
             Mas no v’rão
             É um calor do inferno...

            O forneiro tem fartura
            - Que ventura!
             Não lhe falta de comer...
            Mas também põe lenha ao lume
            - Que azedume!
            Para outro se aquecer!

         Nem as tristes das peras, “rijas que nem o porco as queria”, tinham licença de assar em suas casas...

         Foi, assim, que ficámos a saber coisas interessantes, coisas que pouco nos dizem agora, é verdade, mas que o pobre povo daqueles recuados tempos sofria e pagava, muitas das vezes, senão mesmo todas, com muito pouca resignação.

Pregoeiro - Ao povo do Couto de Tavarede, o Cabido da Sé de Coimbra faz saber que o seu Deão visitará hoje este lugar, e manda que se cumpra o foral de 9 de Maio de 1516 que reza assim: (Lê um pergaminho) D. Manuel por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A quantos esta nossa carta de foral dado ao termo e lugar de Tavarede virem, etc.
            Jantar ou colheita: O Deão da Sé de Coimbra, visitando uma vez no ano o dito lugar, receberá dos moradores de Tavarede para o seu jantar, 180 reais de 6 ceitis o real, e das heranças da Chã e de Cabanas, 2 carneiros, 2 cabritos, 6 almudes de vinho, 10 galinhas, um quarteiro de cevada pela medida de Coimbra, 100 pães, 5 soldos em dinheiro para temperos, meio alqueire de manteiga fresca, e lenha e vinagre que abonde para se poder cozinhar as ditas cousas na cozinha do Deão. - Cumpra-se.

Vereador -                                 
Senhor Deão, eu vos venho saudar,
            Pois que da Câmara sou vereador.

             Coro do Povo            
             E os bons vassalos aqui estão, senhor.
             P’rò jantar anual vos entregar.

Um Homem -    
Eis os carneiros...

Coro -   
Carneiros são dois...

Outro Homem
De vinho seis almudes...

Coro
se não mais...

Outro Homem -  
E dois cabritos...

Coro -      
grandes como bois!

Outro homem - (mostrando um pequeno saco)   
Dinheiro cento e oitenta reais.

Coro -
Manteiga fresca e um cento de pão,
            Mais dez galinhas de raça apurada...

Um Homem
E p’ra que o jantar seja um jantarão
            Vem um quarteiro farto de cevada. (bis o coro)

Deão -   
Abençoo, comovido,
            Este bom povo que timbra (bis os dois cónegos)
             No respeito que é devido
             Ao Cabido de Coimbra.
             Eu vos recebo o jantar,
             Que é apenas um farnel... (bis os dois cónegos)
             Conforme manda o foral
             do Senhor Rei D. Manuel.

Coro -   
A nossa foralenga obrigação
            Aí fica cumprida com respeito.
            Que o jantarinho faça ao bom Deão
            E a todo o Cabido - bom proveito!
            Bom proveito!
            Bom proveito!