sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 93

         Embora de forma simples, o Grupo Musical não deixava de comemorar o seu aniversário. Aqui deixamos um pequeno registo do seu 55º aniversário. Os festejos comemorativos que decorreram com entusiasmo, terminaram com um baile de gala, durante o qual foram empossados os corpos gerentes para o ano de 1966/67.
         Esta velha colectividade, que outrora prestigiou grandemente a nossa terra por intermédio da sua tuna e do seu grupo cénico, "vive" hoje mercê da persistência de meia dúzia de "carolas", mas sem qualquer finalidade cultural, o que é pena.

         Finalmente, foi conseguida autorização para ser levada à cena a peça O processo de Jesus. Esta peça de Diego Fabbri, parece-nos perfeitamente em dia com os rumos mais actuais do pensamento católico; se não respeitássemos a cronologia, poderiamos ver até nela um "fruto conciliar". A tomada de uma consciência moral, como verdadeira mensagem de Cristo; a geral irreflexão, em actos que arrastam a consequências imprevistas, às vezes trágicas - convite implícito a uma benevolência universal -; a soma de preconceitos de que enfermam algumas atitudes anti-cristãs; uma versão quase "positiva" de Judas, como síntese de um judaísmo messiânico imperialista, e o seu decalque frequente, em casos do dia-a-dia; a revisão do papel histórico dos judeus, à luz de um simbolismo ecuménico; etc....; exemplificam o que afirmamos.
         Tecnicamente, a novidade da peça consiste na disseminação de actores entre o público.
         Afiguram-se-nos facilidades dela o constante apoio, para cada actor no palco, da presença dos restantes, sempre ali com ele, assim como o intenso estatismo em cena, quase sem entradas, saídas e deambulações.
         Em compensação, cuidamos que a dificuldade maior da obra não é o tema, senão que o seu tratamento: uma dialéctica mais para ler-se que para ouvir-se, e um primeiro acto muito parado, com certas figuras obrigadas a autênticos discursos, longos, num quase desafio à monotonia...
         Estes motivos e outros, favoráveis ou contrariantes, assim como a "necessidade" de fazer vingar uma peça da estirpe desta, é que, muito possivelmente haverão determinado a Companhia do Teatro Nacional D. Maria II a abrir-se, distribuindo papéis não só entre os seus actores, mas também entre algumas das mais distintas figuras de outras empresas cénicas da capital.
         Todos os citados factores se alinhavam dentro de nós, numa expectativa quase pungente: como iria a Sociedade de Instrução Tavaredense, com as suas naturais exiguidades e limitações, sair-se da aventura de representar "O processo de Jesus"?
         Antes de nos abalançarmos a esta impressão escrita, duas vezes necessitámos de ver a representação. Assim mesmo, releve-se, em nossa defesa, que jamais pretendemos ser críticos de teatro: somos apenas curiosos, interessados em instruir-nos e cultivar-nos. Este enunciado de condições é indispensável.
         Nesta representação, uma vez ainda e como é seu timbre, os Tavaredenses realizaram trabalho perfeitamente honesto. Algumas figuras situam-se em nível modesto, outras alternam o razoável com o menos bom, outras ainda atingem uma alta craveira; todas, porém, se esforçam por cumprir.
         E ninguém que se interesse por coisas de teatro e vá a Tavarede poderá deixar de perguntar como terá sido possível pôr em cena uma peça de tal responsabilidade. Há ali três ou quatro artistas, é certo; mas, em contrapartida, ali há, também, "actores" que nunca antes haviam representado... Como terá sido possível?
         Será esse um dos segredos de José Ribeiro? Uma das virtudes é, com certeza.
         No "tribunal", João Medina está perfeito, no papel de presidente, com figura, voz e gestos próprios. José Medina realiza bastante bem a função de acusador (melhor, talvez, que a de culpado); e Maria Inês, num papel também difícil, tem movimentos dignos de apreço; estes dois elementos frequentemente já atingem o grau de naturalidade que imprime verdade a uma representação.


         Entre as "testemunhas", o papel mais a nosso gosto é o do veterano João Cascão que representa um Pedro autêntico, desde as atitudes à emotividade. Mas Fernando Reis adaptou-se muito bem ao ingrato papel de Judas; e a José Luiz do Nascimento, para ser um Caifás praticamente exacto, só lhe falta uma atitude mais hierática. Glória Maria de Sousa (cujo porte subiu sensivelmente entre as duas representações a que assistimos, e que possui uma voz timbrada e elegante), alcançou uma gentil figuração de Maria; a sua contracena com José da Silva Maltês é linda e de belo efeito lírico.

O processo de Jesus

         No "público", Violinda Medina e Silva e João de Oliveira Júnior naturalmente ultrapassam os restantes actores. Este último, às vezes talvez demasiado exuberante de atitudes, para um intelectual, possui a voz dialética, às vezes metalicamente satânica, e a viveza própria para o papel. Violinda está muito bem, de princípio a fim; aliás, precisamente porque ela existe, a representação tavaredense tem uma intensidade final difícil de atingir em qualquer outra companhia.
         Neste ponto, achamos curioso anotar o facto de, na representação do D. Maria II, a velhinha nem sequer aparecer incluída entre as figuras destacadas, quando é certo que ela possui mais de um motivo para distinguir-se: tempo e modo de entrada, função cénica, etc.. Será este um lapso do texto que tivémos à mão?; será assim também na distribuição original do italiano? Qualquer que seja a hipótese, Violinda deu à figura o melhor de si mesma.
         "O processo de Jesus" bem pode ser mais um motivo de exaltação da escola de teatro de José Ribeiro.

         E não podíamos deixar de aqui transcrever uma nota publicada sobre o teatro em Tavarede. Desta vez, trata-se de um ensaio de leitura de uma peça de Molière. Quando há dias procurámos José Ribeiro (nosso mestre há mais de 30 anos) fomos encontrá-lo na sua casa - a Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Ali estava com os seus discípulos num dos camarins do belo teatro de Tavarede, dado que, nesta altura, a temperatura nocturna é bastante fria e, assim, agasalhados e comprimidos, pode resistir-se melhor.
         Tivemos então o prazer de assistir à leitura da sua nova peça - "Artimanhas de Scapino" - uma magnífica comédia do célebre dramaturgo Molière.
         Dizemos prazer, porque realmente assistir à leitura duma peça por José Ribeiro, é quase a mesma coisa  que ver uma representação, tal a verdade que imprime a cada personagem e o ambiente que dá a cada cena.
         Poucas pessoas terão tido a satisfação de assistir àquele espectáculo. Quando lê, interpreta o velho, o galã, a ingénua, a pessoa bondosa ou má, assim como o cínico ou o avarento.
         Todas as reacções, todos os gestos, ele os faz quase inconscientemente, mas os amadores, ao ouvi-lo atentamente, vão gradualmente aprendendo nos sorrisos, nas lágrimas (às vezes chora), na ternura como na violência.
         E é assim que trabalha, é assim que consegue verdadeiros milagres dos seus velhos amadores ou dos seus estreantes.
         Uns e outros beneficiam sempre da sua cultura teatral. Uns e outros aprendem sempre com as suas lições antes e durante as leituras ou, mais tarde, nos ensaios de palco, que ele conduz do seu lugar na plateia.
         Naquele teatro tem ele concentrado todo o seu saber, toda a sua ternura pelos seus pupilos, mesmo quando se exalta e ralha, esquecendo-se - com o seu entusiasmo - que muitas vezes esses rapazes e raparigas ali se encontram já fartos da dura labuta diária, não tendo - quantas vezes - pegado no seu papel.
         Nesse palco (no mesmo lugar) tem o público de Tavarede assistido a espectáculos de alto nível. Por ali têm passado as peças mais exigentes, e nele se têm realizado verdadeiras noites de glória.
         Sim, de glória, porque na verdade José Ribeiro conseguiu que algumas peças, tais como "Frei Luiz de Sousa", "Entre Giestas", "Os Velhos", e tantas outras, fossem representadas ao nível dos melhores grupos profissionais.
         Papéis e rábulas como têm sido interpretados por uma Violinda Medina, irmãos António e Jaime Broeiro (f), António Graça (f), João Cascão, Manuel Nogueira(f), Francisco Carvalho ou Maria Teresa, para falar só dos mais velhos e ao correr da pena, dignificam o Teatro Português.
         No decorrer dessas representações pode então ver-se José Ribeiro preso, encantado - por verificar que não foi inútil o seu trabalho, e não foi em vão que tantas horas ele perdeu ao pôr de pé uma peça que estudou para os seus amadores e para o seu público.
         É esse o melhor prémio dos seus colaboradores: vê-lo satisfeito no final das representações.
         Pois hoje temos o prazer de anunciar aos leitores de "Mar Alto", que se está a ensaiar em Tavarede "Artimanhas de Scapino" - uma das peças do grande clássico Molière, autor que os amadores já conhecem há muito, mas que nunca tiveram a honra de representar.
         Lá estavam no camarim, à volta do Mestre, João de Oliveira, João e José Medina, Manuel Cerveira, Fernando Reis, José Luís, Maria Inês (uma nova revelação), Carmina e a Piedade, que serão os intérpretes desta célebre comédia.
         Espera-se que seja representada em Dezembro.

         Às pessoas que gostarem de um bom e alegre serão, "Mar Alto" anunciará o dia em que subirá o pano.

domingo, 7 de setembro de 2014

Operetas em Tavarede - 33

Quintal do Ferreira -      
Quintal do Ferreira!
            Muito velho, já minha idade esqueci...
            Mas os anos que vivi
            Não os sinto, e inda novo pareço!
            Milagre de feiticeira?
            Não! Por obra da minha enxada
            Eu não morro e reverdeço...

            O ano inteiro, seja inverno ou v’rão,
            A enxada aqui trabalha sem parança
            Num sonho renovado de esperança,
            Plantando a couve ou semeando o grão...

            A leira já cavada,
            Infatigavelmente
            A enxada
            Vai preparando alfobres e canteiros
            Onde virão os pássaros, matreiros,
            Roubar a semente,
            Sem medo do espantalho inocente
            Onde, por troça, os pardais vão poisar
            E borrar
            O velho casaco e o esburacado chapéu
            Fugindo a rir em alegre escarcéu...

(abre a cortina com a introdução da orquestra)

Quintal do Ferreira - (canta)                   
Deste Quintal do Ferreira
            Vai fartura p’rá cidade:
            A hortaliça mais fina
            Sempre a melhor novidade...

            A couve-flor e de corte,
            Ervilhas, feijão tenrinho,
            Favas, alface e pimentos
            E o tomate encarnadinho.

Enxada -
E vão também p’rá Figueira
            Com todos estes primores
            Os perfumes e os encantos
            Das mais variadas flores!...

            São rosas e goivos,
            O cravo mimoso,
            E é limonete
            Verdinho e cheiroso.

(declama)
              Bendita a enxada na terra a cavar!
              Bendita a terra que há-de dar fartura!
              E a água das valas que lhe dá frescura!
              Bendita a semente que há-de germinar.

Hortaliças - (entram no seu bailado e cantam)        

As hortas
            Da gente da nossa aldeia.
             Seja p’ra sempre louvado
             Todo aquele que as semeia!

             Terras baixas bem cavadas,
              Cobertas de verde e oiro,
              Dão o caldo ao rico e ao pobre
               Mais o pão de milho loiro.

             Temos a batata e o feijão,
             Temos o nabo e a nabiça,
              A boa couve, o repolho,
              Uma b’leza de hortaliça!...

Quintal do Ferreira - (terminado o bailado das Hortaliças, declama)

           Oh! Enxada ao alto erguida

               Nos braços do cavador!
               O sol vem doirar-te o ferro
               E beijar-te com amor.

Coro das Enxadas - (entram cantando)          
 Alegres enxadas
             Ao sol rebrilhando
             Nunca estão cansadas,
             Vão sempre cavando...

             E o cavador,
              Sem sentir canseira,
              Com arte e amor
              Faz a sementeira...
              Zás! Zás! Zás!... (bis)

              A terra, a sorrir,
              Recebe a semente...
              Já pode a enxada

              Descansar, contente...

O Associativismo na Terra do Limonete - 92

O Associativismo na Terra do Limonete - 91

         É preciso que nos convençamos de que popular não é sinónimo de grosseiro, tosco, boçal, rude e inferior, pois ao povo podemos e devemos ir procurar as bases das melhores tradições artísticas.
         Não cabe, como é óbvio, nos limites de uma simples notícia como esta, apreciação detalhada do desempenho. No entanto não é descabido o apontamento de que a nota mais frisante dele deve sem dúvida consistir na homogeneidade, apuro e equilíbrio do conjunto. Um bravo pois a todos os intérpretes e com muito mais razão a José Ribeiro, que conseguiu o milagre de pôr de pé espectáculo de tal categoria e de assim fazer representar o povo de Tavarede. Evidentemente que a ninguém, por ingenuidade ou má fé, é licito chegar à conclusão, em face do que fica dito, que de qualquer forma se pretenda ignorar ou sequer diminuir, o mérito, até excepcional, da intervenção nas peças representadas, de vários e justamente consagrados amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Bastaria o exemplo de Violinda Medina para tornar ridícula tal conclusão. A sua “Maria Parda” constitui uma interpretação notável, com a qual só seriam capazes de emparceirar as de algumas das nossas primeiras actrizes. Mas também Fernando Reis (onde estão os profissionais que desdenhassem dos méritos e da correcção do seu Gil Vicente?), António Jorge da Silva (cuja reaparição se saúda e sobretudo em “João Murtinheira, vilão”, deu convincente prova dos seus invulgares dotes histriónicos), João Cascão e outros, tiveram intervenções pessoais que muito contribuiram para o brilho do espectáculo. E até aquela jovem Ilda Manuela Duarte Gomes foi um encantador e verdadeiro “Serafim”. O que não invalida, porém, a nossa já expressa opinião de ser a homogeneidade, o apuro e o equilíbrio do conjunto, a faceta mais destacada do notável espectáculo agora oferecido aos figueirenses, em comemoração do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”.

         E a propósito de Gil Vicente, vamos transcrever um apontamento publicado num periódico local. Procedendo à análise cronológica da obra vicentina, este mestre (Prof. Fidelino de Figueiredo) organizou o seu quadro de desenvolvimento em quatro fases: um período embrionário, outro de ascensão, um terceiro de plenitude e um final, não decadente mas de maturidade no apogeu.
         E tudo isto, que não ultrapassa os limites do conhecimento geral, eis que entretanto pode oferecer um especial atractivo aos que, nesta Cidade do Mar, se interessam pela Cultura. Porque, no concelho, há quem a Gil Vicente tenha dado muito do seu melhor esforço: jovens e velhos, mulheres e homens, inteligências, sentimentos e acções, cerne do povo, que um de entre eles foi capaz de aglutinar. Não vamos dizer que José Ribeiro e o seu grupo cénico são Gil Vicente; pecaríamos por excesso e por defeito; mas pode afirmar-se, sem medo de impugnação, que grande parte da vida da Sociedade de Instrução Tavaredense e do seu director teatral se justificam em Gil Vicente. Concretizemos um tanto, e só dentro daquilo que já nos foi dado ver.
         Na primeira fase vicentina, entremisturam-se a religião e o bucolismo, numa rudimentar acção dramática. Ora, quem já não viu isto mesmo, posto ao vivo naquele célebre “Monólogo do Vaqueiro”? Haverá quem se não recorde da força que, a esse auto ainda titubeante, imprimiu João Cascão, em 1961?
         Na segunda fase do Mestre, além de uma facilidade maior na acção, no cómico e no diálogo, começa avultando o tema vicentino por excelência, o da crítica social. A atenção de José Ribeiro não tem vindo muito sobre este período; mas já tivemos o gosto de lhe ver apresentar, em 1963, uma versão d farsa do “Velho da Horta”.
         Na sua penúltima fase, o Génio já plenamente se encontrou; por conseguinte, tudo no seu teatro floresceu: a temática e o enredo, a crítica e a religiosidade, o cómico  e o lírico. E este período sim, tem sido um rico manancial, para os artistas da Terra do Limonete. Citemos: um passo do “Auto Pastoril Português”; o espantoso “Auto da Barca do Inferno”; mas, sobretudo, ao menos para nós, o grotesto “Pranto de Maria Parda”; dizemos “sobretudo”, porque esse entremês escarnento, ou talvez maledicente, nos é “imposto” por uma Violinda Medina que aí se define pela sua maior característica: a personalidade.




         Na fase derradeira, Mestre Gil já não tem que inovar; cresce, porém, de maneira nítida, em teatralidade. Assim, pôde inclusivamente adaptar à cena obras alheias, mesmo quando bastante enredadas, como é o caso das novelas de cavalaria. Vimos a perfeita ilustração disto, pela primeira vez em 1963, com a representação da já conceituosa tragicomédia “Dom Duardos”; e agora, em Outubro último, pudemos voltar a Tavarede, a saborear o moralismo social de um delicioso “Auto da Feira”; o lirismo transcendente, à maneira das “Barcas”, de um passo bíblico do “Auto da História de Deus”; e, outra vez, a voz crítica, em um momento da farsa “Romagem dos Agravados”, com três figuras cheias de valor, mas onde nos pareceu vir a lume, acentuadamente, a esplêndida naturalidade de António Jorge.
         Será, ou não, que Mestre Gil anda por aqui, enraizado de corpo e alma nas gentes desta linda terra. 

         No ano de 1966, depois de ter realizado diversas deslocações, o grupo cénico da SIT levou à cena uma nova peça. Já há vinte e cinco séculos um filósofo helénico, de nome Górgias, dizia que a Verdade é inatingível; e que, se fosse atingível, não seria exprimível; e que, se fosse exprimível, não seria verificável…
         Pirandelo, o insigne e perturbante dramaturgo italiano (falecido há 30 anos), decidiu um dia exprimir esse tríplice apotema, convertendo a sua demonstração num significativo imbróglio tragicómico a que deu o título: “A cada um a sua verdade”.
         No fundo, essa peça esquisita parece ser o reflexo de um drama vivido pelo próprio dramaturgo, cuja esposa, ciumenta em último grau, acabou por enlouquecer, mas de uma loucura tão discreta, que Pirandelo conseguiu viver ainda, em sua companhia, cerca de dez anos. Obscuro sigilo doméstico e obscuro heroísmo!
         Numa recente passagem pela airosa Figueira da Foz, que já há muito não visitávamos, foi-nos dada a surpresa de assistir à representação dessa sugestiva tragicomédia, levada a efeito por um simpático núcleo de actores amadores da aldeiazinha próxima de Tavarede, orientados por um incansável devoto da arte de Talma, o jornalista José Ribeiro, que há mais de três décadas se consagram de alma e coração, ao oficio gratuito de manter, ali, naquele subúrbio figueirense, a chama da vocação artística dos seus conterrâneos.
         O teatrozinho onde o espectáculo se realizou era, e é, já por si, um verdadeiro mimo de simplicidade, ajustada e sóbria.
         O autor experiencial do Wilhelm Meister ficaria decerto encantado se o encontrasse, de mão beijada, naquele belo tempo em que o “teatro” era, para o seu espírito, a mais rica fonte de ingenuidade mitogónica da Infância no espírito do Homem pragmatizado.
         Daqui exorto o velho amigo e admirado confrade António Pedro, magister theatri rebus, a ir verificar e homologar, vendo, como vimos, o drama irónico de Pirandelo, na interpretação tão meritória dos actores amadores de Tavarede.
         O drama irónico de Pirandelo entranha-se nesta anedótica “historieta”:
         Uma pequena cidade de província desperta da sua sonolência com a chegada de um funcionário da Prefeitura, vindo não se sabe donde, e que traz consigo, além da esposa, a sogra. O casal instala-se no último andar de um prédio alto; a senhora de idade, com estranheza de toda a gente, vai viver noutra casa, um pouco afastada do genro e da filha. À senhora nova ninguém mais a vê. O funcionário, sempre de luto, visita, mas sempre a sós, a senhora de idade, igualmente de luto. Uma vez por outra, a senhora de idade aproxima-se da casa alta onde a filha reside, mas nunca sobre. A vizinhança apenas vê isto: um bilhetinho que desce pelo cabaz das compras, outro que sobe pelo mesmo cabaz, um breve aceno lá de cima, outro de baixo – e nada mais.
         Duas famílias, “das melhores da terra”, vizinhas da senhora idosa, tentam descobrir o segredo daquela singularidade. Como compreender aquelas vidas separadas: da mãe e da filha? Como entender aquelas visitas diárias do genro? E, sobretudo, como explicar a clausura, para não dizer o ar de sequestro, em que o novo funcionário da Prefeitura mantém a sua esposa, misteriosa e invisível?
         Algumas senhoras tecem hipóteses sobre hipóteses para explicar aqueles pequenos enigmas da vida íntima do burocrata recém-vindo. O secretário da Prefeitura, a esposa, a filha, as suas visitas (e até o próprio prefeito!) vivem intensamente o drama possível que julgam estar na penumbra daquela trindade exótica.
         A pesquisa da verdade oculta obriga-os a dar mil voltas, interrogando, inquirindo, questionando. Alguns inclinam-se a ver que a senhora invisível, esposa do funcionário, é uma mártir, vítima decerto do marido sádico ou desconfiado. Algumas, abertamente, questionam e acusam: Que sanha ou fobia levará aquele homem atarracado e bigodoso, de luto pesado, a manter emparedada aquela pobre senhora, sem a companhia da própria mãe?
         Num verdadeiro frenesi interrogativo, as senhoras visitam-se para trocarem com sofreguidão alguma nova que as auxilie à descoberta da verdade. Apenas uma pessoa se afasta deste cancã e sardonicamente o reprova. É Lamberto Laudisi, cunhado do secretário da Prefeitura, personagem concentrado e normalmente silencioso, mas que, no final de cada acto, se destaca pela sua exclamação hilariante e montaigniana:
         - “Mas, afinal, onde está a Verdade?”
         O desenrolar da tragicomédia (se assim se pode chamar) apresenta, na realidade, os mais desconcertantes. A Senhora Frola (por sinal, um dos mais impressivos papéis desempenhados pelo grupo de Tavarede) acaba por aceder às solicitações incansáveis e telepáticas das senhoras suas vizinhas, visitando-as e aceitando o inaudito suplicio do seu bisbilhotismo. No fim de contas, a verdade parece ser extremamente simples: o genro é um demente meio curado, em certa fase que, alguns anos antes, teria perdido a razão por se convencer de que a esposa morrera e só ao fim de um penoso período de prostração se teria restabelecido, casando, por ficção de alguns familiares e amigos, com a mesma mulher…
         O bisbilhotismo das senhoras fica trespassado de pasmo.
         Mas a surpresa não tarda a redobrar.
         Aparece o funcionário novo da Prefeitura, o sr. Ponzo, que vem esclarecer tudo de modo diverso. Ao fim de uma dramática cena confidente, a verdade, afinal, parece ser esta, pura e simples: Quem está demente é a senhora idosa, a sua sogra, a Senhora Frola. Na realidade, a sua filha foi uma das vítimas do tremor de terra em que pereceu quase toda a familia. Mas a pobre senhora, enlouquecida, não quer crer que a filha tenha falecido. Por isso, ele, genro, por um puro acto de piedosa mentira, tendo casado segunda vez, mantém a pobre senhora à distância, para ela não ver que a sua actual esposa não é já a sua filha, mas outra.
         Mais uma vez as senhoras, incansáveis pesquisadoras da verdade, se sentem trespassadas de assombro e perplexidade – e mais uma vez, o sarcástico e seco Lamberto Laudisi solta a sua exclamação montaigniana:
         - “Mas onde está a verdade?”.
         A cena final é um verdadeiro tour-de-force de tagarelismo e de confusão. O drama, por instantes, atinge o cume da mais angustiosa exaltação e da mais estranha ironia.
         A incerteza e a perplexidade assalta o espírito de todas as pessoas que andam de um lado para outro, numa roda-viva, à procura da “verdade”. Por fim, uma última dúvida e última hipótese surge: Existirá, de facto, a esposa invisível do discutido funcionário? Será um ser real ou fictício?
         Por isso se impõe uma decisiva acariação e uma última prova: a prova, digamos, de S. Tomé. Nem essa, porém, resolve o enigma. Uma vez afastados da cena, irmanados no maior desespero, a sogra e o genro, a mulher sequestrada aparece, diante de todos, como supremo símbolo do insanável enigma.
         - “Sou o que sou. Quanto à Verdade, que cada um a entenda como melhor entender e aprover…”.
         E o irónico drama termina assim mesmo, sem se saber onde está a demência, a mistificação ou a verdade.
         A propósito desta peça, Mestre José Ribeiro deu uma nova entrevista a um jornal figueirense. Os Tavaredenses não são profissionais de Teatro; alguns labutam as doze horas por dia e, mal jantam, vão viver a sua paixão - ouvir, comentar, ensaiar ou representar -, até pela noite fora.
         Pois bem: por mais estranho que tal pareça, constituiram um grupo cénico de apreciável categoria, do melhor que vai pelo País, em amadorismo puro: hoje possuem uma casa de trabalho e de espectáculos bastante boa - auxílio da Fundação Gulbenkian -, e vão a toda a parte onde lhes é solicitada a presença, sem intenções lucrativas.
         O milagre é de todos: de José Ribeiro, o director e o elemento essencial, corpo e alma dados ao Teatro; e de cada um dos seus companheiros e colaboradores, alguns com uma vida toda amarrada às tábuas do palco ou às cordas dos cenários.
         Só graças a esse espírito devoto se torna possível realizar, com felicidade, obra difícil como representar bem uma peça de Pirandello. Num trabalho de equilíbrio, como este, as principais figuras contracenam de facto, situando-se num belo e harmonioso plano.
         Interessados no assunto, quisemos fazer perguntas a José Ribeiro, que gentilmente a isso se prontificou, sabendo embora que estava falando para um leigo apenas curioso.

         Salvo o respeito pela opinião contrária, cuidamos que um director cénico precisa de possuir sempre uma razoável dose de tirania; quando procede à primeira leitura de qualquer peça ao seu grupo, salvo raras excepções isso quer dizer que a obra vai para a frente, que a coisa está decidida...

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Operetas em Tavarede - 32

         Regressemos, por momentos, à história. Para acabar de vez com a luta centenária entre os fidalgos de Tavarede e o cabido de Coimbra, o Rei D. José I resolveu mudar a câmara da nossa terra para a Figueira. Foi no ano de 1771. “Eu El-Rei faço saber que hei por bem erigir em vila a lugar da Figueira da foz do Mondego; e criar nela o lugar de Juiz de Fora do Cível, Crime e Orfãos; que terá por distritos os coutos de Maiorca, das Alhadas, de Quiaios, de Tavarede e de Lavos; as vilas de Buarcos e Redondos, etc. etc.”. A partir de então, Tavarede perdeu todo o seu poder e todas as suas seculares regalias. Já nem por vila a tratavam...


 Lamentos da Vila de Tavarede - Chá de Limonete

 Vila de Tavarede -                
Ribeiro de claras águas
Que para o mar vais correndo,
Contigo levas as mágoas
Desta dor que estou sofrendo.

P’rà Figueira vão mudar
Minha Câmara velhinha,
E de Vila eu passarei
A ser aldeia mesquinha.

Coro das Povoações -             
Ó Vila de Tavarede,
            Põe luto no teu brazão:
            Rasgaram a tua história
            Desprezando a tradição.

            Lugarejos que nós somos
            E te respeitamos por mãe,
            A afronta que te atingiu
            Nós a sentimos também.

Vila de Tavarede -               
Das regalias que tive
            Uma longa história fala.
            Fui senhora tantos séc’los
            Para agora ser vassala!

            Vila antiga como eu fui,
            De nobreza verdadeira,
            Esquecem meus pergaminhos
            Para dar honra à Figueira.

            Coro das Povoações -            
           Ó Vila de Tavarede,
            etc.etc.etc.

Durante largos anos, ainda a nossa terra continuou com seus fidalgos. No entanto, sem o poder de que dispuzeram e de que tanto abusaram, acabaram, nos finais do século dezanove, já então com os títulos de barão e conde de Tavarede, por irem residir para a vila de Trancoso, onde igualmente possuiam grandes propriedades. Aqui, pouco depois, venderam o que possuiam. O seu velho solar, que durante séculos recebera, em festas deslumbrantes, toda a fidalguia das redondezas, foi-se, pouco a pouco degradando até chegar àquela ruína que conhecemos.


O velho Palácio de Tavarede - Chá de Limonete
   
O Velho Palácio -             
Já se não ouve o cravo a tocar...
            Parou a dança. Desfizeram-se os pares,
             apagaram-se os risos e folgares,
             - mas não parou o tempo em seu rodar...
             Nesse rodar do tempo, incessante,
             em scombros e pó desaparece
             a torre com ameias, arrogante...
             E hoje quem me vê não me conhece!
(Vem ao limiar do portão, sem o transpor)
             É verdade! o Palácio tão falado
             da velha Tavarede - aqui o tens
             reduzido à ruína pelos desdéns
             dos homens e do tempo já passado...

             Ai! o que eu fui, e no que estou mudado!
(Avançando dois passos, e saindo do portão)
            Quatro séc’los me pesam sobre os ombros!
            E nesses longos anos vi grandezas,
            vi ruir opulências em escombros,
            vaidades, alegrias e tristezas...

              Fui torre altaneira, medieval,
               onde o Fidalgo, senhor absoluto,
                julgando-se em poder senhor feudal,
                levou, sob’rano, um viver dissoluto.

                 Mudaram-me depois a minha traça,
                 deram-me um pátio nobre e bons salões,
                 e o terceiro Conde deu-me a graça
                 das agulhas, janelas, torreões...
(Transição)
                 Sinto na alma saudades torturantes
                 dos serões e das festas ruidosas,
                 com luzes, flor’s e pratas cintilantes,
                 veludos, sedas, pedras preciosas...
(Pausa)
                Que resta do que fui?... Ai! triste sina
                a do solar que é hoje um mutilado,
                mendigo esfarrapado, uma ruína,
                - horroroso fantasma do passado!...

                 Eis o que sou. Ninguém me queira ver!
                 Não existo. De mim não falem mais...
                 Deixai-me assim em paz apodrecer
                 no chiqueiro infecto dos currais...


         Mestre José Ribeiro já não viveu o tempo suficiente para ver reconstruído o paço dos Condes de Tavarede. Outras coisas, que ele tão bem descreveu, também já desapareceram da nossa terra. Durante anos e anos, Tavarede, com as suas várzeas verdejantes, com os seus vales de terras fecundas, enchia todos os dias o mercado da Figueira. Com a cesta à cabeça, com as tenrinhas couves e as delicadas novidades, e ramos de flores, muitas flores que, por toda a nossa terra, abundavam, lá seguiam as vendedeiras, manhã cedo, caminhando alegremente a caminho da cidade. Agora, resta-nos a saudade. Poucas são as terras, outrora tão produtivas, que ainda são amanhadas... Até quando?...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Operetas em Tavarede - 31

            Hino da Madrugada           

              Madrugada!                     
               Apagam-se as estrela no azul do céu
              e a alvorada
              acende os primeiros clarões, rasgando o véu,
              suavemente,
              que cobre a terra adormecida.
              Folhagens sonolentas do arvoredo
              mansamente
              despertam
              ao brando voejar do passaredo.
              Como um clarim vibrante, o melro deu sinal
              pelas campinas
              a assobiar matinas,
              e a alegre e descuidosa cotovia
              responde-lhe a sorrir: - “Bom dia!”

              Subindo,
              luzindo
              no doirado nascente, o sol aquece
              a terra friorenta, que estremece
              de incontido desejo
              ao receber na luz que vem dos céus
              a carícia do beijo
              fecundante - que é dádiva de Deus.

              Já toda a aldeia acordou!
              Raparigas alegres como cantigas,
              frescas qual água das fontes;
              velhos, que a dura vida já curvou
              e rapazes ainda erguendo as frontes,
              indif’rentes
              ao peso da sua enxada,
              - sorridentes
               caminham, alma pura e lavada,
              ao seu destino, à terra dura da encosta
              onde vive a cepa do perfumado vinho
              que conforta,
              à leira fresca onde viceja a horta,
              ao frondoso lugar de verde pinho,
              à seara aloirada onde o trigo amadura
              e promete fartura.

              Um novo dia alvorece
              na paz e na saúde do trabalho da terra.
              Há luz, há alegria, sente-se a vida pura
              em todas as belezas que a Natureza encerra.
              Da árvore frondosa e da urze do monte,
              do mísero insecto que p’lo chão rasteja
              ou com asas de luz no espaço voeja,
              do espelho dos lagos, do murmúrio da fonte,
              do cardo ressequido e da flor mais louçã,
              do doce gorgear das aves nas alturas
              e das vozes da alma das frágeis criaturas,
              ergue-se, luminoso, o hino da manhã!

              Bendito seja o Sol,
              fonte da Vida, que de luz inunda
              a Terra, e a fecunda!
              Bendita a Terra-Mãe
              que ao homem dá o pão
              e dá à abelha o mel
              e à ave o pequenino grão!
              Benditas sejam as águas
              dos ribeiros e das suaves fontes
              que, chorando suas mágoas,
              descedentam as bocas e dão a seiva à planta!
              Bendita a ave que canta
              e o paciente boi que a terra lavra!
              Bendita seja a palavra
              - Sementeira!
              Bendita a tua enxada, ó cavador,
              que sem canseira
              amanha a seara e cultiva a flor!

(Um grupo de cavadores da aldeia, enxada ao ombro, vai a caminho dos seus trabalhos)

Coro de Cavadores 
Sem ter
            canseira,
            a gente da enxada
            lá vai
            fazer
            a sementeira.

            Ao sol
            ardente,
            constante em seu labor,
            é ver
            contente
            o cavador!

            Cavar!
            cavar
            que a terra nos dá pão!

            Do vale
            à serra,
            p’la encosta subindo,
            luzindo,
            a enxada
            revolve a terra...

            Cavar!...
            Cavar
            que a terra nos dá pão!

            De inverno
            ou v’rão
            trabalha o dia inteiro,
            p’ra ter
            seu pão
            o cavador...

         Vamos continuar com as nossas recordações. Mestre José Ribeiro, também nos mostrava, em todos os seus trabalhos, alguns dos tipos e figuras mais interessantes e características. O tempo não é muito, mas recordemos, aqui, a conversa entre duas das figuras típicas da nossa aldeia, “o carreiro e o capador”.

Joaquim - D’honra! Digo-lhe isto cá de dentro! Eu quero tanto ao animal como... tenho tanta aquela aos meus bois, como se fossem meus irmãos. Ou mais ainda! Que lho digo eu.
- E tem razão, pois. Com a minha égua é a mesma coisa. Eu sou muito amigo da minha mulher, lá isso sou. Mas ainda gosto mais da égua. Mansa e segura de pernas, é minha companheira há um ror de anos e nunca me pregou uma partida. A minha mulher também não, graças a Deus... Lá isso não senhor... Mas... quando tenho capações por fora e chego a casa tarde, com um copito a mais - oh! mulher de trinta línguas! - desata-me lá num sermão que nem um padre na igreja: que não tenho juízo, que em vez de pôr arganel aos porcos devia pôr arganel a mim próprio para beber menos... - eu sei lá! E enquanto a mulher fala, fala, que nunca mais acaba, - a égua ali está muito calada, muito calada... Então eu, quando a mulher pára de falar para tomar fôlego, aproveito a pausa para lhe dizer: - Ó mulher, aprende com a égua a estar calada! - Mas isso sim!...
Joaquim - Tem razão. Os animais é como se fossem pessoas de família. Digo-lhe cá de dentro: se aquele animal me morresse, eu tinha um desgosto tão grande que até era capaz de pôr luto. O meu rico castanho! E olhe que não era por causa do dinheiro - d’honra que não era: está no Compromisso, eles pagavam. Mas os meus bois, senhor Zé da Gaita... (emendando) Desculpe, senhor José, mas é como todos o conhecem, e eu agora descuidei-me.
- Ora essa, senhor Joaquim, não tem mal. É alcunha que me ficou de pequeno... Desde que um dia apanhei uma sova do meu pai por lhe ter roubado a gaita de capador. O meu pai era capador e alveitar, como eu. Herdei-lhe a gaita e o ofício.
Joaquim - Pois sim, senhor. Isto de alcunhas... P’ra toda a gente eu sou o Joaquim do Curral, porque de pequeno me fizeram a cama no curral dos bois. Ah! Mas os meus bois! Deus me perdoe se é pecado, mas eu chego a pensar que eles são almas cristãs como a gente. Falo com eles, e eles entendem-me. Chego-lhes o pasto, e eles agradecem-me. Se estou zangado e ralho - olham p’ra mim, e aqueles olhos muito grandes e muito tristes parece que dizem: Tem paciência, Joaquim do Curral, que nós também a temos. Ainda ontem, ia o cabano a encostar-se ao toice, a ficar-se p’ra trás para arreliar o companheiro, e eu, zás! prego-lhe uma varada: “Ah! Cabano!” Ele amuou, sacudiu a canga em cima do cachaço e pareceu-me que lhe ouvi dizer: “Não sejas bruto, Joaquim do Curral”. Fiquei-me a pensar, e compreendi que o boi é que tinha razão: o bruto era eu. Por isso me dói a alma de ver o meu castanho doente. Se vocemecê não mo salva...
- Já lhe disse que lhe curo o animal. E eu sei o que digo e o que faço. Os médicos não tratam melhor as pessoas do que eu trato as bestas. E olhe que dos médicos muita gente se queixa; e de mim, nunca nenhum dos meus doentes se queixou.
Joaquim - Está bem, sim senhor. Mas olhe cá, senhor José: aquela tristeza que deu ao animal e que o não deixa comer, não será desgosto?
- Desgosto?! Porquê?
Joaquim - Por causa do carro. O animal desde que se viu com rodas de borracha caíu naquela melancolia...
- Rodas de borracha...
Joaquim - Sim, senhor. Puz borracha nas rodas do carro.
- P’ra quê?
Joaquim - P’ra quê?! Então não sabe que os carros de bois são obrigados a andar com rodas de borracha?
- Viva o progresso!
Joaquim - Qual progresso, nem qual carapuça! Uma pouca vergonha! Como se um carro de bois fosse um automóvel! Há tempo mandaram pôr luz branca e encarnada; agora foram rodas de borracha; e se calhar amanhã mandam pôr faróis na canga para fazer código, e pisca-piscas nos chavelhos dos bois para mudar de direcção...
- Para o que um boi estava guardado, ó senhor Joaquin!
Joaquim - Aros de borracha, para não se ouvirem as rodas! Qualquer dia, em vez de ferraduras, sapatos de borracha, para não se ouvirem os bois!... Não quererão mais nada de borracha?

Cega-Rega -               
Em situação encravada
            O pobre carreiro se acha...
            O carro não pode andar
            - D’honra, que não é laracha... -
            Pelas ruas a rodar
            Sem ter rodas de borracha!

            Diante duma mulher
            Quanta vez o homem se agacha...
            Para alcançar o que quer
            Vai com rodas de borracha.

            Pois o meu carro de bois
            - Esta, palavra! é de escacha! -
            Não tem ainda faróis
            Mas tem rodas de borracha!

            Em situação encravada
            etc. etc. etc.

          Os rapazes da cidade

             Usam casacos de racha;
             Elas têm mocidade
             Com postiços de borracha.

             E assim por este andar,
             Tanto apertam a tarraxa
             Que os meus bois irão calçar
             Ferraduras de borracha.

             Em situação encravada
             etc. etc. etc.

             Dizem que a civ’lização
             Assim ordena e despacha:
             - P’ra não haver confusão
             Tudo seja de borracha...

             P’ra não haver excepção
             - E ai daquele que se relaxa! -
             Carros de bois usarão
             Suas rodas com borracha.