sábado, 20 de setembro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 94

         Em Fevereiro de 1967, nova visita à Marinha Grande. Integrado nas comemorações do 44º aniversário do Sport Operário Marinhense tivemos no dia 18 uma noite de teatro, pelo prestigiado grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Uma vez convidados de honra do S.O.M. – que merece os nossos aplausos por tão louvável iniciativa – e consequentemente da Marinha Grande, pois é com imenso agrado que registamos a visita de tão exemplar sociedade cultural, o Grupo Cénico de Tavarede, cuja direcção artística é da competência do sr. José da Silva Ribeiro, veterano nos segredos da arte de Talma, levou à cena no palco do Teatro Stephens a “revolucionária" peça denominada “O Processo de Jesus”.       Este original, sabiamente interpretado pelos componentes do grupo de Tavarede (que nos deram uma grande lição na arte de representar), é da autoria do famoso dramaturgo italiano Diego Fabri e pode considerar-se uma autêntica peça renovadora do teatro moderno. De facto, Diego Fabri, no “Processo de Jesus” coloca-nos perante um dilema enormemente difícil de compreender, pleno de actualidade, onde todos parecem ter razão. Depois a agitação da peça é de tal calibre, as verdades são tão evidentes, que tudo faz estremecer o mais pacífico de coração. Aliás, segundo nos parece, este facto foi evidente.
         É que, Diego Fabri, o inovador do Teatro Italiano, apresenta a sua tese de um modo invulgar – um à guisa de julgamento, sendo o rei, nada mais nada menos, do que o próprio Cristo. Eis, pois, um pormenor ousado. Cristo como réu! É porque não? A temática em causa é de tal ordem que mais parece vermos todo o século XX a julgar o “Rabi Nazareno”, o Salvador do Mundo. Isto, não obstante os factos apresentados pelos (personagens) contemporâneos Dele – os apóstolos Pedro, Tiago e (o bom patriota) Judas. Depois a “pecadora” Madalena, Lázaro, Caifás e Pilatos.
         Com efeito, estes personagens apresentam cada um o seu depoimento perante o tribunal de um modo extraordinário, segundo a ideologia de cada um, quer política, quer religiosa, e por isso mesmo lógica.
         O debate deu-se de tal forma que, até ao fim do primeiro acto, tudo nos levava a crer que a “condenação” de Cristo seria (de novo) evidente! Realmente, sob o ponto de vista judiciário tudo nos indicava esse caminho.
         Entretanto, no segundo acto, a agitação continuou e até mais intensiva. Mas Diego Fabri apresenta desta vez o “humanismo” a falar. De súbito oferece uma surpresa. Positiva. Lógica. Actual. Para além dos meandros do tribunal – juizes e testemunhas – surge o “público” com o seu ponto de vista, não baseado em argumentos judiciários mas sim no real que a vida nos proporciona no dia a dia. 
         Estabelece-se assim um diálogo dificílimo. Agitador. Comunicativo. Pleno de temática. Arrebatador. Na “plateia” havia uma atmosfera de suspense. Quem teria razão? O personagem “Padre”em pleno desacordo ora com o “Intelectual” ora com o “jornalista”... A “Ruiva” que se considerava uma “espécie” de Madalena não podia concordar com o ponto de vista do “Intelectual”, além de que Cristo era para ela a única salvação?... O “Filho Pródigo” ou o “cego”? Quem teria, de facto, razão se todos tinham algo a dizer?...
         Muito embora este diálogo fosse de um despertar de consciência arrepiante, inquietador, a verdade é que em virtude da inesperada (mas muito sábia) entrada de “A velhinha”, nova personagem quiçá a maior, há um período de bonança, de tranquilidade íntima dadas as palavras que “A velhinha” profere.
         Personificando uma mãe a quem fuzilaram o filho por razões que ela ignorava e, por consequência, se encontrava autenticamente só, mas infinitamente esperançada no “além”, onde sentiu o seu filho, e dotada de uma sincera e profunda fé, a velhinha surgiu no tribunal a fim de solicitar ao mesmo que não condenasse Jesus, enfim, a dar-nos uma verdadeira lição e mãe... A peça teria atingido aqui o seu maior apogeu. Dir-se-ia que era impossível chegar mais longe. De tal forma que até o próprio acusador público, no personagem “David”, acabou por se “render” e cair nos braços enternecedores de “A velhinha”.
         Com efeito, Cristo, acabou por não ser julgado judicialmente. Mas sim “classificado” pelos factos reais da vida humana personificada, no “público”, em síntese, pelo fervor e incomensuridade da fé...
         Tivemos, pois, uma magnifica Noite de Teatro. Só é pena que seja tão raramente quando afinal o nosso público, com consciência ou sem ela, com maior ou menor grau de capacidade, começa a estar presente nestas (educativas) Noites de Ribalta.
         Quanto à actuação do Grupo de Tavarede, uma palavra apenas: foi primorosa! Bom, meio século de teatro é muito. É sinónimo de longa aprendizagem. Há muito saber nos seus componentes. Os nossos aplausos, portanto, à Sociedade de Tavarede, mormente ao sr. José da Silva Ribeiro, a pedra básica deste grupo – homem dotado de uma extraordinária perseverança e que desde há longos anos vem dirigindo o Grupo Cénico de Tavarede como só ele sabe.
         Para quando nova noite de Teatro com o elenco de Tavarede? Oxalá seja breve...
          Inaugurada em 1961, a sala de espectáculos da SIT festejou os seis anos do novo palco, com uma nova comédia de Molière. Tal acontecimento mereceu o seguinte comentário: A Sociedade de Instrução Tavaredense, a popular SIT, de Tavarede, distinguiu-se sempre pelo seu amor ao teatro, a par de outras actividades importantes (nas suas salas chegou a funcionar uma escola nocturna onde se cuidava da educação dos seus associados. De roupagem diferente essa escola mantém-se: é ou não verdade que os tavaredenses participam do ensino adquirindo cultura através do teatro?! E não só os tavaredenses.
         Em 16 de Dezembro de 1961, com a estreia da sala de espectáculos, em edifício construído com o esforço e a dedicação dos seus associados e amigos e com o valioso subsídio que lhe foi concedido pela Fundação Calouste Gulbenkian, a SIT ligou-se ainda mais ao teatro.
         E melhor peça não podia ter sido escolhida para momento tão feliz: com "Chá de Limonete" prestava-se homenagem a Tavarede: falava-se de factos, de episódios, de figuras, de costumes, de paixões, de grandezas e de misérias, de belezas naturais e de fealdades humanas que são a história e a lenda, a etnografia e o folclore - que são a vida daquela aldeia velhinha, porque tudo isto sugere "Chá de Limonete"; porque isso bem o viu - e escreveu - o autor no prefácio da peça; porque esse autor - José Ribeiro, extraordinário homem de teatro - atingiu os seus fins manifestados de dar um testemunho da sua dedicação à terra humilde onde nasceu e tem vivido, ficando "Chá de Limonete" como hino ao trabalho rural e também como afirmação da simpatia que vota e da solidariedade que o liga aos homens da enxada da sua aldeia, incessantemente cavando o amargo pão de cada dia em terras que não são suas.
         Evocar o ensaiador do grupo cénico de Tavarede é descabido. A sua acção permanente da SIT tem sido notável, como notável tem sido o seu permanente apoio a todas as direcções, as quais contam com a colaboração do distinto ensaiador e dos elementos do grupo cénico para poder levar por diante uma actividade inegável no capítulo da cultura e da educação popular.
         Nos seis anos que vão agora completar-se, o grupo cénico representou: GIL VICENTE: Monólogo do Vaqueiro, Pranto da Maria Parda, Farsa do Velho da Horta, D. Duardos, Auto da Barca do Inferno, Auto da Feira e Fragmentos do Auto Pastoril Português, Romagem de Agravados, e Breve Sumário da História de Deus; ALMEIDA GARRETT: Frei Luís de Sousa; VASCO DE MENDONÇA ALVES: A Conspiradora; LUÍS FRANCISCO REBELO: O Dia Seguinte; ALLAN LANGDON MARTIN: O Fim do Caminho; SHAKESPEARE: Romeu e Julieta; SIGFREDO GORDON: Omara; MOLIÉRE: As artimanhas de Scapino; PIRANDELLO: Para Cada Um Sua Verdade; DIEGO FABRI: O Processo de Jesus; ARTUR MILLER: Todos Eram Meus Filhos. A primeira representação do novo teatro fez-se com a peça de carácter local Terra do Limonete, que teve a sua estreia em 16 de Dezembro de 1961 e deu 33 representações na sede.
         O número total de representações na sede, com as obras mencionadas e durante este período de 6 anos, foi de 80; e fora da sede, a favor de instituições de beneficência ou de actividade inegável no capítulo utilidade pública, o número de representações foi de 24.
         A Sociedade de Instrução Tavaredense fez a comemoração do centenário de Gil Vicente com um programa vicentino que representou em Tavarede e na Figueira da Foz e associou-se à comemoração do centenário de Shakespeare em Portugal, da iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, representando Romeu e Julieta; assinalou o Dia Mundial de Teatro com um espectáculo na Figueira da Foz oferecido ao público pela Biblioteca Pública Municipal, em 27 de Março de 1963 e assinalou o mês o Dia Mundial de Teatro em 1966 com uma Conversa sobre Teatro na qual intervieram alguns assistentes; elaborou uma Noite de Teatro Português para os congressistas das Jornadas Médicas da Figueira da Foz, com o seguinte programa: Teatro Vicentino: Visitação e Pranto da Maria Parda; Teatro Romântico: 2º. acto de Frei Luis de Sousa; Teatro Moderno: O Dia Seguinte.

         E é com o novo programa agora em ensaios - "O Médico à Força", de Molière - que a Sociedade de Instrução Tavaredense completa seis anos de actividade intensa utilizando o seu novo e belo teatro.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Operetas em Tavarede - 34

         A última parte deste nosso serão, vai ser uma saudosa evocação. Sem grande conversa, recordaremos mais uns saborosos retalhos da vastíssima obra de Mestre José Ribeiro. Comecemos por três manifestações da civilização da nossa terra.

Futebol -
(Falando, dentro da música) Futebol - instituição nacional! (Cantando)

            A grande causa que excita
            E agita
            A vontade nacional,
            É o desporto da bola
            Que rebola
            E domina em Portugal!

            Um pontapé
            Faz delirar multidões...
            E certo é
            Que electriza os corações.
            Nossos rapazes
            São jogadores sem rival!
            Os nossos azes
            São a glória nacional!

Fado
(Falando, dentro da música) Fado - canção nacional! (Cantando)

           Não há voz igual à minha
           Pois do Fado sou rainha!
           Todos me beijam a mão...
            Fui a Londres e a Paris,
            Ao Brasil e aonde quis...
            Sou a alma da Nação! 
                (bis, três últimos versos)

Teatro – 
(Falando, dentro da música) Teatro - miséria nacional! (recita com a música)

            Porque sou velho e já cansado venho
            Duma longa jornada, milenária,
            Passando vão os novos adiante,
            E deixam-me p’ra trás, como a um pária...

            Glorioso Teatro que já fui,
            Tive riqueza e beleza também.
            Se me perguntam hoje quem eu sou,
            Respondo erguendo o meu bordão: - Ninguém!

         Setembro era o mês das vindimas. Com que alegria ranchos de vindimadores e vindimadeiras, cestos e tesouras nas mãos, iam manhã cedo, caminho do Saltadouro acima até às vinhas, onde os cachos de uvas madurinhos, que carregavam as cepas, breve seriam cortados pelas mãos ágeis daquela boa gente. Em cima do carro de bois, a enorme dorna breve se enchia.

Uvas -        
Uvas são beijos que o Sol,
            Com seu poder criador,
            Deixou caír sobre a Terra
            Para dar vida ao Amor.

            Uvas doces, perfumadas,
            São benditas com razão:
            Dão frescura a quem tem sede
            E calor ao coração.

Coro -   
As uvas cheirosas
            Nas moças airosas
            Desafiam beijos...
            De a vida levar
            A rir e a cantar
            Acendem desejos.

            Rubis escaldantes,
            Topázios brilhantes
            De raro fulgor,
            Provai sem temer,
            Mordei com prazer
            - São bagos de Amor!

Uvas
Fruto roxo ou fruto loiro,
            As uvas de Frei Manuel
            São bagos de luz e oiro
            Com a doçura do mel.

             Duas capas bem famosas
             Dão calor ao nosso vinho:
             São as capas milagrosas
             De Noé e S. Martinho.

Coro das Uvas
As uvas cheirosas
            etc. etc. etc.

         Falámos na estrada do Saltadouro. E porque não recordar, também, o então tão agradável vale do Sampaio. Desde o Prazo até Tavarede, era um verdadeiro encanto... As claras águas do ribeiro, que desciam mansamente até cá abaixo, eram a força poderosa que fazua rodar as enormes rodas das azenhas. Mas... onde está agora o lugar das Azenhas e as suas azenhas cantantes?

Lugar das Azenhas -         
Sou um pobre abandonado
            das filhas, que muito amei!
            Azenhas... foram-se embora
             em má hora,
             mas o nome conservei.

            Azenhas é o meu nome velhinho,
            e não sei por que pecado
            as azenhas me fugiram
            e assim me deixaram pobrezinho...
            abalaram, sucumbiram,
            e eu Azenhas continuo a ser chamado,
            - mas sem azenhas já, coitado!
            Sou Azenhas, o lugar
            onde azenhas havia a trabalhar.
            As azenhas, minhas filhas adoradas
            é que deram o nome ao pai.
            Tão longe que isso já vai!...
            Não moem águas passadas...

            Agora sou em estado de desgraça!
            Sumiu-se a graça
            das rodas sempre a girar
             e a cantar
            com a água saltitante,
            de cubo em cubo passando,
            sempre a rir,
            a descer e a subir
            num vai-vem que não tem fim.
            Ai! pobre de mim!
            Sou Azenhas  sem as ter...
            Tenho-as visto morrer
            sem que Sampaio acuda
            e dê ajuda
            a esta desolação...
            Foram-me roubando a água
            que era do Prazo fartura...
            A mágoa, a desventura
             tomaram meu coração.
            Oh! poéticas azenhas farfalhantes,
             pingando gotas de prata cristalina
             sobre avencas viçosas, verdejantes,
             em fundo musical, suave e brando
             ao irrequieto bando
             da orquestra divina
             de melros, rouxinóis e cotovias
            em concertos magistrais todos os dias...

             Lá de cima, dos Monteiros, a água vinha
             descendo, mansinha,
             alimentar outra azenha irmã
              sua vizinha.
             E a mota seguindo, sem se desviar,
             a água vinha brincar,
             rebrilhando ao oiro da manhã
              na azenha do Domingos, o dos bois...
              Depois...
              Ai! há quantos anos!...
              era a azenha dos Canos,
             até que, infatigavelmente,
             a água finalmente
             ia mover na Várzea a azenha derradeira,
             e seguia caminho da Figueira...

             Ao meu lugar já eu ouvi chamar
             Vale de Sampaio.
             Ah! Não! Eu, deixar-me roubar?
             Nessa não caio!
             Eu sempre serei o Lugar das Azenhas
               - dmbora, pobre de ti! já as não tenhas.

De quando em vez, lá vinha uma bicadinha. Das últimas que escreveu, escolhemos esta.- O Sr. Simplício e o Zé Sem-Mais-Nada -

- São os papéis que eu dei à tua Mãe ontém à noite.
O Filho - Já sei, estão aqui.
- Trá-los cá, e avia-te, a ver se ainda apanho o Sr. Simplício.
O Filho -  São estes. E salvei-os a tempo.
- Salvaste-os?...
O Filho - É que a Mãe ia metê-los no lume.
- Essa agora!...
O Filho - Como o Pai, depois de ter ouvido o homem que falou na Televisão, esteve tanto tempo de volta dos papéis, a Mãe pensou que o Pai tinha decorado tudo e que já não precisava deles.
- Decorado...? Quanto mais li menos entendi.
O Filho - O homem da Televisão disse que era muito fácil de entender.
- E tu, entendeste?
O Filho - Não senhor.
- Também não sei p’ra que raio andas tu no Liceu... Bem... Vou procurar o Sr. Simplício p’ra me tirar desta confusão. O diabo é se já não o apanho. (Encontrando Simplício) Eu tinha ido procurá-lo, porque a gente, já se vê, quando precisa de ajuda tem de ir bater à porta de quem sabe. Desculpe incomodá-lo aqui mesmo...
Simplício - Ora essa, não incomoda nada. Ainda bem que me encontrou aqui, porque eu em casa é raro apanharem-me. Então de que se trata?
- É por causa daquilo que me disse para ver na Televisão, onde um senhor ia explicar tudo muito bem. O tal Imposto...
Simplício - Ah! lembro-me agora. E diga-me senhor José... Desculpe, mas não sei o seu nome completo.
- Zé - sem mais nada.
Simplício - Muito bem. E então, entendeu, não é verdade? Foi tudo muito bem explicado.
- Ah! Sim senhor, tudo ali muito bem explicado, tim-tim por tim-tim. Olhe que aquele senhor, para saber assim dizer tanta coisa...
Simplício - E o senhor José entendeu tudo, não é verdade?
- Não senhor, não entendi nada. Isto é, eu já tinha umas luzes, pelo que o senhor Simplício me tinha dito na véspera. Mas agora... apagaram-se as luzes e fiquei mesmo às escuras. De forma que vim à sua procura para me tirar daquela complicação, e tive a sorte de o encontrar aqui no caminho. Eu trazia os papéis...
Simplício -  Não senhor, não é complicação nenhuma. Foi tudo simplificado. Quer ver? Eu explico-lhe e o sr. José fica sabendo tudo.
- Muito lhe agradeço.
Simplício -  Isto é a declaração modelo um. É a declaração para a secção A - pessoas singulares.
- Não é para mim, pois não?
Simplício - É para si, pois claro.
- Eu sou singular? Só agora o sei. Bem diz o ditado: aprender até morrer.
Simplício - É singular, porque é sòzinho.
- Mas eu não sou sòzinho, tenho mulher e filhos...
Simplício - Sim, mas é singular porque não é uma identidade colectiva, uma sociedade...
- Já estou a ficar atrapalhado.
Simplício - Não se preocupe. Isto é muito simples. Vai ver como é simples. Mas antes de preencher a declaração convém ler as instruções. Cá estão. Aqui está tudo o que o contribuinte tem a fazer. Muito simples, tudo simplificado.
- Pois é, senhor Simplício, mas um papel tão grande é para meter medo a muita gente.
Simplício - Nem por isso. São só oito páginas. (dobra e desdobra) Lendo isto fica-se logo a saber tudo. Oiça: Eu digo-lhe só os títulos dos capítulos; depois o senhor José lê e fica apto a preencher a declaração modelo 1. Ora oiça: I - Quem deve apresentar a declaração; II - Quando deve ser apresentada a declaração; III - Onde deve ser apresentada a declaração; IV - Categorias de rendimentos; V - Como obter os elementos para preencher a declaração; VI - Rendimentos não determinados; VII - Deduções a efectuar; VIII - Notas sobre o preenchimento da declaração. Aqui está. Tudo muito simples, tudo simplificado.
- Estou a ver, senhor Simplício.
Simplício - Lidas estas instruções - pronto, está habilitado a preencher a declaração. A declaração tem quadros, quadro 1, quadro 2, por aí fora até ao quadro 24. Cada quadro tem posições, os itens, que são uns quadradinhos com os números 1, 2, 3, por aí fora.
- Tudo simplificado, senhor Simplício.
Simplício -  E os quadros ainda têm linhas e alíneas, para ninguém se enganar. A declaração tem três anexos... aqui é que se fazem as contas...
- (interrompendo) Para ver em que posição fico. (áparte) De cócoras.
Simplício - O anexo 1 está dividido em quadros: quadro 1, quadro 2, quadro 3, por aí fora até ao 10; os quadros têm posições: posição 1, posição 2, por aí fora até à posição 63.
- Tanta posição! Como há-de a gente saber em que posição fica?
Simplício - Nada mais simples. Já vimos as instruções, consultámos o modelo 1, os anexos, e agora procuram-se os quadros, as posições, as linhas, as alíneas, a tabela simplificada, as taxas, os escalões, as deduções. Inscrevem-se os rendimentos, os encargos, as colectas, soma, subtrai, multiplica e assim sucessivamente. Vê senhor José?
- Muito simples, muito simplificado, Senhor Simplício.
Simplício - Em chegando ao quadro 8 encontra o resultado com as posições seguintes: 34 = 35; 35 x 36 = 37; 37 - 38 = 39 e por aí fora até que acha 52 = 33; 53 + 54 = 55. E pronto, é isso que tem a pagar. Como vê, tudo muito simples.
- Tudo muito simplificado. Em todo o caso, tenho medo de me perder nessa simplificação tão complicada. De modos que tenho estado a ouvi-lo, senhor Simplício, e a pensar que o meu rapaz, que está a acabar o Liceu e quer ser médico, em vez de ir p’rá Medicina o melhor é mandá-lo para isso das Económicas... Sempre é bom ter em casa uma pessoa que saiba pôr-se nas posições e linhas e quadros e alíneas e capítulos e anexos e instruções e tabelas e percentagens e declarações e não sei que mais de toda essa simplificação tão complicada. Que me diz, senhor Simplício?
Simplício - Mas está tudo tão simplificado... Não precisa, senhor José. Boa tarde. (sai)

-                        
Que coisa tão complicada
            É a simplificação...
            Não me chega a tabuada
            P’ró quadro e p’rá posição...
            Sinto a cabeça arrasada 
            Com tanta complicação!
            Vai à frente ao cinquenta,
            Volta atrás ao trinta e três...
            Vinte e quatro mais quarenta,
            Deduz e soma outra vez...
            A posição é sessenta
           E a linha vinte e dois...
           Aqui baixa, ali aumenta
           E a soma vem depois.

           Que coisa tão complicada
           etc. etc. etc.

           Vira e torna a virar (executa) 
           O papel das Instruções
           P’ra escolher as posições
           No quadro a utilizar.
           E sem haver mais cantiga
           Agora é que vou pagar...
           Não me posso demorar...
           Já sinto dores de barriga...

         Ora, pobrete mas alegrete, nunca o nosso povo perdia a oportunidade de um alegre bailarico. Tiveram fama as festas ao S. João. As cavalhadas de Tavarede eram as mais apreciadas. E deram, até, causa a situações bem curiosas, como aquela em que o senhor prior, no ano de 1889, a mando do senhor Bispo, recusou entregar as bandeiras benzidas para as cavalhadas. Grande problema! Cavalhadas sem bandeiras podia lá ser! Como arranjar outras? E, demais, benzidas? Do que haviam de pensar… Arranjavam duas bandeiras novas, levavam-nas escondidas para a Igreja e quando, na missa de domingo, o senhor prior desse a benção final, erguiam as bandeiras e aí estavam elas benzidas! Dito e feito. E ainda não foi dessa vez que as cavalhadas se realizaram sem as bandeiras... E no final lá houve o costumado bailarico.

Rapariga -                    
P'rá festa de S. João
            Negou o padre a bandeira.
            Pois vamos todos bailar
           Ao redor desta fogueira.

Rapaz -     
Ao redor desta fogueira
            Cachopa, toma sentido,
            Quero dar-te quatro beijos
            Em troca dum prometido.

Todos -  
Ai meu São João,
            Meu São Joãozinho,
            Vem ver-me dançar
            C’o meu amorzinho...

            São doces seus beijos,
            Quentes seus abraços...
            Quem dera viver
            Sempre nos seus braços.

Rapariga
São João, meu São João,
            Dá-me noivo p’ra casar...
            E irei ajoelhar-me
            Diante do teu altar!

Rapaz -      
Diante do teu altar 
Cachopa, muito a preceito
            Quero eu rezar também
            No altar desse teu peito.

Todos -   
Ai meu São João,
            etc. etc. etc.
  
         Recordações... Recordações e nada mais... A velha e pequena aldeia cantada em todas aquelas revistas e fantasias que, ao longo de dezenas de anos, desfilaram no nosso palco, já bem pouco tem do seu passado... Tudo se modificou. Naquelas terras, esventradas pela enxada do cavador para delas arrancar os frutos benditos da sua manutenção, já não se vêem as tenras couves, as frescas alfaces. Em seu lugar começaram a surgir enormes urbanizações. E daquelas que escaparam até agora, grande parte estão ao abandono. Tavarede já não tem cavadores!... Pouco resta. Aquele jardim que era a terra do limonete, com canteiros de flores por toda a parte, já não se avista. Ai, como seria difícil, até, arranjar flores fresquinhas e garridas para enfeitar os lindos potes do rancho 1º de Maio!
E o limonete? Pouco, muito pouco. Agora, as noites luarentas do verão já não têm o ar perfumado com o seu delicado aroma. Mas, enfim, resignemo-nos. É o progresso!... E tenhamos uma certeza. Com ou sem flores, com ou sem limonete, enquanto houver um tavaredense a nossa terra será sempre recordada e cantada como a terra do limonete.

Limonete -             
Limonete! Eu sou o rei  
Da aldeia tavaredense!
            O nome à terra eu o dei!
            Essa glória me pertence.
            Embora velho par’cendo
            O meu tronco é sempre novo,
            Pois a raiz vem do povo:
            Vigoroso vou crescendo.

Ramos do Limonete    
A seiva, meu pão e vinho,
            Dá-me em ramos os meus braços,
            Que se estendem como abraços
            Ao muro tosco e velhinho.

Folhas do limonete     
 E vêm folhas viçosas,
             Verdes, esguias, cheirosas,
            Dar alegria e frescor
             Ao jardim do cavador.

Flores do limonete         
Então, nas pontas franzinas
            Dos meus ramos verdejantes
            Despontam flor’s pequeninas
            Como estrelas cintilantes.

Coro   
- Limonete!
            Rústica planta plebeia
            Que na nossa terra cresce!
            - Limonete!
            Por toda a parte floresce
            E dá cheiro à nossa aldeia...

            - Limonete!
            De tão viçosa verdura,
            A Tavarede dás graça,
            - Limonete!
            Dás alegria e frescura
            E perfumas a quem passa...
            - Limonete!
            - Limonete...