sábado, 11 de outubro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 97

         Mais uma homenagem foi prestada pela Sociedade de Instrução. Foi em Fevereiro de 1969. Realizou-se, no último sábado, na Sociedade de Instrução Tavaredense a festa de homenagem a D. Maria Teresa de Oliveira, uma das mais antigas e distintas amadoras, que há mais de 50 anos vem prestando a sua valiosa colaboração ao grupo cénico.
         O espectáculo era dividido em três partes, sendo a primeira constituida por Teatro Vicentino – “Quem Tem Farelos?” e “Pranto de Maria Parda” e a segunda parte por quadros extraídos das festejadas peças “Chá de Limonete” e “Terra do Limonete”, cujas representações os sócios muito apreciam, não só pelos seus interessantes diálogos como ainda por serem musicados.
         A terceira parte foi exclusivamente dedicada a Maria Teresa de Oliveira.
         Festa encantadora, sensibilizante, das melhores, pelo seu significado, a que nos tem sido dado assistir na prestante colectividade da terra do limonete.
         O Presidente da Direcção, em breves palavras, disse das razões justificativas da homenagem, tecendo os maiores encómios a Maria Teresa de Oliveira pela sua proverbial bondade, naturalidade e firmeza com que, durante a sua longa vida de amadora teatral, soube interpretar as muitas figuras que lhe eram distribuidas pelo seu competente e exigente ensaiador, seu irmão sr. José da Silva Ribeiro.
         A Senhora professora drª Cristina Torres, congratulando-se com a feliz iniciativa da Direcção e de alguns amigos e dedicados directores da SIT fez, em termos que muito sensibilizaram a assistência, a apologia das excelsas virtudes de Maria Teresa de Oliveira e da sua extraordinária dedicação ao Teatro,
  A terminar, a assistência tributou à srª drª. Cristina Torres grande ovação.
    João de Oliveira Junior leu a mensagem escrita em pergaminho, que foi entregue à homenageada numa artística pasta executada pelo consócio e grande amigo da SIT, sr. Sebastião Pimentel.
Ouviram-se, então, as entusiásticas manifestações do público, enquanto a Maria Teresa de Oliveira, comovida, recebia das mãos da engraçada menina Ana Maria Bernardes Caetano, expressiva lembrança, oferta da comissão organizadora, e flores, muitas flores, das meninas e amadoras que a rodeavam. De notar os lindos ramos de cravos que lhe foram entregues, um da comissão, e outro, do grande amigo da colectividade, sr. Alberto Anahory, que propositadamente se deslocou de Lisboa para se associar à justíssima homenagem.
         Entre a vária correspondência recebida destacava-se uma carta do sócio honorário da SIT, sr. Anselmo Cardoso, na qual enviava saudações amistosas e de admiração pelas excelentes qualidades morais e de amadora distinta da homenageada, sentindo não estar presente por o seu estado de saúde o não permitir.

         Depois de apresentar uma peça de um autor português, Alguém terá de morrer, de Luiz Francisco Rebelo, coube a vez de uma nova comédia de Molière, O tartufo. O génio de teatro, que se chamou Molière, há anos já foi descoberto por José Ribeiro, que generosamente o tem vindo a ensinar no seu belo palco de Tavarede, a todos quantos o representam ou vêm representar. Foram, primeiro, “As Artimanhas de Scapino”; depois, “O médico à força” e “O avarento”; agora será “Tartufo”, uma das mais famosas e estudadas peças do maior comediógrafo francês.
         A fama e o estudo são justos, até na medida em que Tartufo, o falso devoto de toda a ideologia, nem por sombras é uma figura histórica: ele aí está, pleno de vitalidade e próspero; vive no meio de nós, cruza-se connosco na rua, nas repartições, nos recintos de diversão, na igreja; passa e repassa, fazendo o seu governo à custa dos incautos; maneja a hipocrisia com subtil perícia e arrojo; no respeitante a processos, claro que tem evoluído com o tempo, que o mesmo é dizer, progredido muito sensivelmente...
         Pois é essa a figura que uma vez mais hoje se desmascarará perante um público sempre fiel, no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Como será, desta vez?... Continuarão aqueles valentes amadores a ser capazes de representar Molière? Quem não gostará de ir hoje a Tavarede?
         Mais uma vez, a representação foi um êxito: casa praticamente cheia, interessada, vivendo ao sabor da acção que no palco ocorria, rindo muito nos momentos de rir, sentindo menos os momentos de sentimento.
         É natural esta diferença, quando está em cena uma peça do génio comediógrafo de Molière. Mais natural é ainda também no grupo de Tavarede, uma vez que, na obra, as cenas de maior expressão sentimental cabem aos jovens, enquanto as de efeito cómico couberam aos mais velhos, que ainda hoje dentro do grupo se impõem decididamente, ou só pela superior prática e vivência de palco, que todos têm, ou também pela maior capacidade artística que alguns deles incontestavelmente possuem. Sob a pressão do momento, estamos ainda a lembrar-nos muito bem de todos: de João Medina (Orgon), de José Luís do Nascimento (Cleanto), de Fernando Reis (Meirinho)...; mas, para exemplificação do pensamento antes expresso, recordemos outros.
         Recordemos Maria Teresa de Oliveira (Mme. Pernelle), essa extraordinária artista que, mau grado o destroço que nela causa a doença, ainda consegue excepcionais apontamentos, sobretudo em atitudes e jogo fisionómico!
         Recordemos João Cascão que, em cinco minutos de cena, no brevíssimo desempenho de um (Leal) oficial de diligências, é o exemplo acabado do artista perfeito num papel que lhe quadra.
         Mas recordemos também João de Oliveira Júnior, por ser um caso diferente dos anteriores: mau grado outra vez vestido numa pele que lhe não cai bem – um “Tartufo” não “de carne e osso”, como algures na peça de diz, mas exclusivamente “osso”; uma figura naturalmente hirta, boa para asceta ou marcial, para crítico ou homem de ciência exacta, metida na personagem que se presume untuosa e anafada do hipócrita oportunista e cruel -, às vezes conseguiu mesmo integrar-se no papel, para acabar muito bem, na atitude de vencido.
         Recorde-se, por último, Violinda, toda dentro da função, a representar sempre, mesmo quando é mera figura de fundo. Esta mulher põe em risco de desequilíbrio toda a cena em que entra, uma vez que as restantes personagens, se se descuidam, podem desaparecer, apagadas pela sua presença superior!
         Eis por que as demais figuras, as mais jovens do elenco, estão em nítida desvantagem, neste novo jogo de Molière. Vale-lhes o não se entregarem vencidas, desempenhando sempre o melhor que sabem e podem os seus papéis: José Medina (Damis), Maria Inês Lavos (Elmira), e Rosa Maria da Silva (Mariana), por exemplo, tiveram momentos francamente bons, os dois primeiros às vezes já muito mais naturais do que em representações anteriores.
         Mas, repetimos, aqui os jovens estão com os papéis mais difíceis de salvar, pois são quase todos de sentimento, e o primeiro tom da peça é de comicidade aberta.
         Sente-se, de resto, neste precioso grupo amador, uma crise de gerações: entre os mais velhos do palco e os novos nele, falta uma meia-idade; de onde, talvez, o desequilíbrio a que acabamos de aludir. Onde estarão os sucessores directos e naturais dos “velhos”?... Parece-nos que seria necessário aos jovens que lá andam que amadurecessem teatralmente depressa, muito depressa. E estará isso ao seu alcance?...
         Supomos que a resposta pode ser de esperança. E damo-la precisamente quando vamos falar de António Manuel Morais, que esta noite, supomos, fez a sua estreia.
         Embora secundário, o papel de “Valério” exigia mais do que podia dar-lhe o seu intérprete: é a movimentação no palco; sobretudo, são os braços, ao mãos, as atitudes. Isso é difícil, de facto! E, não obstante, António Morais conseguiu um desempenho meritório; sobretudo, possui uma voz estimável, capaz de modulações curiosas, e já diz bastante bem. Estudante, como é, aproveite essa excepcional vantagem e leia muito teatro, mesmo só para si; diga-o em voz alta e represente-o, mesmo só para si; faça isso em casa; ouça o parecer dos pais; a mãe talvez possa dar-lhe preciosa ajuda no assunto, professora como é. Acreditamos que, se quizer trabalhar com inteligência, aplicação e humildade, em breve estará com os restantes jovens do grupo, realizando o tal amadurecimento rápido que nos parece necessário. Se puder, faça isso e ajude a fazer.
         Estamos convencidos de que José Ribeiro precisa de todos os seus amadores vivos: os de agora, os que já foram, e os que podem sê-lo. Precisa de todos e merece-os. Que ele tem dado a Tavarede o melhor que alguém pode dar a outrem: cultura.


sábado, 4 de outubro de 2014

Histórias e Lendas - 1

  


São Martinho de Tours
Padroeiro de Tavarede – soldado, monge e santo


            “... de boa mente e de motu próprio fazemos esta carta de doação a ti João Gondezinis ‘do lugar de S. Martinho na vila de Tavarede’”. Este apontamento foi recolhido da carta de doação que D. Elvira Sisnandis e seu marido Martinus Moniz fizeram àquele fidalgo, onde aparece o nome de Tavarede, sendo este o documento mais antigo até hoje encontrado onde está mencionado o nome da nossa terra.

         “... Pelo oriente está aquela várzea que parte com a vila de Tavarede pela penna de Azambujeiro e d’ahi corte no Sovereiro Curvo em direcção à Mamôa; pelo ocidente a villa de Emide; pelo sul estão as salinas do rio Mondego; pelo norte a villa de Quiaios”.

         Analisando o documento referido, verifica-se que então se denominava como ‘a vila de Tavarede’ toda a vasta área que rodeava o pequeno burgo e cujos limites estão referidos no mesmo. A vila propriamente dita denominava-se ‘Lugar de S. Martinho’, orago da terra, presumindo-se que atribuido anos antes de conquista de península ibérica pelos muçulmanos.
“Vida - A sua vida decorreu no século IV, que foi uma época de importantes transformações. Martinho de Tours teve um importante papel nessas mesmas transformações ao ter sido, primeiro, um convertido à religião cristã e, depois, um dos impulsionadores de uma maior cristianização da Europa, cujo processo avançou significativamente no século IV. Ainda em termos de contexto histórico, nasceu três anos após o Edito de Milão promulgado pelo imperador Constantino I no ano de 313, que havia concedido aos cristãos liberdade de culto.
Foi discípulo de Santo Hilário de Poitiers (um dos doutores da Igreja), que se distinguiu na Teologia, e também foi contemporâneo de outro importante doutor da Igreja - Agostinho de Hipona (354-430). Embora Martinho fosse um homem culto, foi na ação prática (caridade, ensino, fundação e construção de igrejas, de mosteiros e de escolas) que se distinguiu.
A sua ação missionária e pedagógica, a par da de outros, foi muito importante na cristianização da Gália (é mesmo apelidado de apóstolo da Gália ou “Pai das Gáliass ), mas também numa área geográfica e cultural mais vasta, tendo esta se repercutido em outras províncias ocidentais do Império Romano. A sua ação educativa, caritativa e religiosa revelar-se-ia fundamental a longo prazo ao ter contribuído para deixar um legado cultural e religioso que perdurou para além da queda do Império Romano do Ocidente (no ano de 476) e que faz parte da formação da própria civilização cristã europeia. Foi um dos fundadores do monaquismo na Europa Ocidental. Devido à sua vida exemplar, ainda em vida foi reverenciado.
Infância - Martinho (Martinus em latim) era filho de um Tribuno, comandante e soldado do exército romano. Nasceu e cresceu na cidade de Sabaria/Savaria (atual Szombathely), localizada na antiga província da Panónia, (atual área da Hungria a oeste do rio Danúbio), em 316, uma província nas fronteiras do Império Romano. A família na qual nasceu não era de religião cristã, a educação da sua família foi feita na religião dos seus antepassados: a da religião politeísta romana antiga (que tinha crença em deuses mitológicos venerados no Império Romano)
Por curiosidade começou a freqüentar uma Igreja cristã, ainda criança, sendo instruído na doutrina cristã, porem sem receber o batismo. Aos 10 anos de idade (no ano de 326) entrou para o grupo dos catecúmenos (aqueles que estão se preparando para receber o batismo). Assim, ele despertou para a fé cristã quando ainda menino.

Membro do Exército Romano - Ao atingir a adolescência, aos 15 anos de idade (no ano de 331), para tê-lo mais à sua volta, seu pai o alistou na cavalaria do exército imperial contra a própria vontade. Mas se o intuito do pai era afasta-lo da Igreja, o resultado foi inverso, pois Martinho, continuava praticando os ensinamentos cristãos, principalmente a caridade.
Depois, foi destinado a prestar serviço na Gália, (atual França), no entanto, mesmo como soldado da cavalaria do exército romano, jamais abandonou os ensinamentos de Cristo.
Foi nessa época que ocorreu o famoso episódio do manto, que poderá ter ocorrido no ano de 337, próximo da cidade de Samarobriva/Ambiano (atual Amiens, capital da Picardia). Um dia um mendigo que tiritava de frio pediu-lhe esmola e, como não tinha, o cavalariano cortou seu próprio manto com a espada, dando metade ao pedinte. Contam os relatos escritos que, durante a noite, o próprio Jesus lhe apareceu em sonho, usando o pedaço de manta que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio. Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião
Batismo - Com vinte e dois anos foi batizado (no ano de 338), provavelmente por Santo Hilário, bispo da cidade de Pictávio (atual Poitiers), mas também é possível que o tenha sido pelo bispo de Samarobriva ou Ambiano (atual Amiens), cidade perto da qual ocorreu o célebre repartir do manto a um mendigo.
Monge e Professor - Afastou-se da vida da corte e do exército, tornou-se monge, tendo permanecido na Gália.
No ano de 354, aos 38 anos de idade, chega a Pictavium (Poitiers), para se tornar discípulo do seu famoso bispo - Santo Hilário, que o ordenou diácono. Nesse mesmo ano, parte em viagem de regresso à Panónia, para a sua cidade natal de Sabaria, com o objectivo de se encontrar com a sua família e tentar converter vários dos seus conterrâneos à religião cristã através da pregação e da evangelização. Entre os novos convertidos que fez contaram-se a sua mãe mas não o seu pai, que permaneceu na religião politeísta.
No ano seguinte (355), no entanto, é expulso da Panónia por questões relacionadas com a perseguição movida pelos partidários do arianismo, pois Martinho era um firme defensor do cristianismo católico ou catolicismo.
Durante 5 anos permaneceu isolado, vivendo como monge, numa ilha do Mar Tirreno, na Ilha de Galinária, ao largo da costa de Itália.
No ano de 361, aos 45 anos de idade, Martinho regressou à Gália, no mesmo ano em que Santo Hilário voltou do exílio e regressou à cidade de Pictavium (atual Poitiers). Tendo sabido esta informação, Martinho viaja para essa cidade. Ambos contactam diretamente e Santo Hilário doou a Martinho um terreno em Ligugé, a doze quilômetros de Pictavium (Poitiers). Lá, Martinho fundou uma comunidade de monges. Mas logo eram tantos jovens religiosos que buscavam sua orientação, que ele construiu o primeiro mosteiro da França e da Europa ocidental.
Missionário e Evangelizador - No ocidente, ao contrário do oriente, os monges podiam exercer o sacerdócio para que se tornassem apóstolos na evangelização.

 Martinho liderou então a conversão de muitos habitantes da região rural. Com seus monges ele visitava as aldeias pagãs, pregava o evangelho, derrubava templos e ídolos e construía igrejas. Onde encontrava resistência fundava um mosteiro com os monges evangelizando pelo exemplo da caridade cristã, logo todo o povo se convertia.


Dizem os escritos (como os de Sulpício Severo) que, nesta época, havia recebido dons místicos, operando muitos prodígios em beneficio dos pobres e doentes que tanto amparava. A sua vida foi uma verdadeira luta contra o paganismo e em favor do cristianismo.

O Associativismo na Terra do Limonete - 96

         E mais uma vez Molière teve uma peça sua em cena. Aqui deixamos um comentário. Molière voltou a Tavarede e parece-nos que em boa hora!
         A noite estava muito fria e chuviscosa, e desaconselhada numa sala sem aquecimento. Contra isso, além do agasalho, sempre pouco e de alguns rebuçados, levava o gosto de ver os amadores de Tavarede e Molière.
         Valeria... entretanto, o risco? Porque, desta vez, havia mesmo risco... Ia levar meu filho ao teatro; era a primeira vez que tal acontecia: como iria reagir ele, nos poucos anos que ainda tem?
         Os primeiros momentos aumentaram as minhas dúvidas: o mobiliário pareceu-me pobre, desirmanado como não é uso em Tavarede; João de Oliveira, um dos melhores elementos do grupo, pareceu-me suportar com dificuldade um papel que lhe não quadraria bem; José Medina, sempre cheio de brio e de coragem – nesse esforço de aplicação, acho-o comparável só a Maria Inês -, não conseguia também imprimir a necessária convicção ao papel que lhe competia; e Amilcar Vitorino, num criado a favor do “jovem enamorado”, não possui ainda, jovem como é, nem voz nem postura própria, no palco...
         A pouco e pouco, porém, as coisas entraram de encaminhar-se. E, ao longo do tempo, João Cascão e Violinda sempre, e João Medina com bastante frequência, tomaram conta da situação: a posição difícil dos outros foi-se esbatendo; e o palco entrou a encher-se de alegria e força bastantes para suportar uma que outra crise, como a da voz suave, mas cheia de monotonia, de Alice Lontro.
         O espectáculo merece, pois, nota positiva. Pessoal, mas sentida: o meu filho seguiu sempre atento o desenrolar da peça, compreendeu-a, riu sem reticências nos melhores momentos cómicos e ainda hoje frequentemente os evoca. De quanto não estará servindo, aos Tavaredenses, a reflexão que têm feito sobre Molière?...
         E a notícia de que estão no fim as representações do “Avarento”, não pode deixar de causar-me pena. Quando tanto se fala em Cultura, é de lamentar que espectáculos como este que Tavarede tem oferecido a todos, não sejam vistos nem apreciados ao menos por uma maioria de estudantes: seriam o melhor complemento de muitas aulas, sobretudo de História e Literatura. Para quando o movimento em tal sentido?

         Sobre esta peça, recordamos que o tradutor da mesma, o ilustre vulto do teatro amador dos Estudantes de Coimbra, Professor Dr. Paulo Quintela, veio propositadamente assistir a um espectáculo. Se o actor faz o espectáculo, o público faz o actor. É assim no sentido do melhor, como no sentido do pior. Isso mesmo esteve à prova no sábado passado, na sala de espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Voltámos a Tavarede. Não iamos, propriamente, ver Molière, que já ali nos fora dado semanas antes; iamos ver os Tavaredenses, estar um pouco com eles, no acto do seu encontro com quem lhes fornecera uma versão em cena. Iamos, portanto, no melhor estado de espírito: sobre o espectáculo, já prestáramos as provas, fracas mas bem intencionadas, que haviamos de prestar, quando aqui mesmo, em tempo nos referimos a esta representação de “O Avarento”; desobrigados disso, apenas queriamos fazer companhia aos Tavaredenses, dar-lhes a nossa parte na estima que se lhes deve, pelo quanto de bom têm feito, através do Teatro, pela sua terra e pela Figueira.
         Bem mal avisados iamos, afinal! Porque o nosso espírito crítico foi outra vez provocado, impondo este regresso...
         O actor faz o espectáculo; o público faz o actor...
         Representar deve ser sempre um acto sério, para os amadores de Tavarede; mas representar diante do mestre de Teatro Paulo Quintela, era coisa bem mais grave: imprimia ao acto uma espécie de solenidade...
         Terão sentido isto os Tavaredenses: sentados nos balcões, longe do palco, bem notámos que andava no ar, enchendo a sala, a atmosfera tensa de um dia de exame...
         E a prova foi positiva! As figuras gradas não deixaram de o ser e as mais humildes generosamente deram o melhor de si; certas posições no palco ganharam um pouco de à-vontade, algumas vozes adquiriram naturalidade maior, e a representação subiu toda. Um tal progresso não se deve, seguramente, apenas a um maior número de ensaios.
         Mas o espectáculo desta vez, não findou com o avarento virando costas à vida, dando ao mundo o seu testamento negativo. Talvez determinado pelas palavras com que José Ribeiro abriu a representação, talvez também por esta mesma, e sem dúvida pela chamada que no final lhe foi feita, Paulo Quintela foi ao palco. E deu uma lição.
         As suas profundas raízes no povo, a sua completa escola de teatro, a sua cultura verdadeira, a sua vivência de professor, tudo ali se juntou, para uma lição inteira, com exposição e crítica, com aplauso e apelo.
         Nós, que sabemos tão bem quanto valem estas coisas, estamos certos de que as palavras do Prof. Doutor Paulo Quintela foram o melhor prémio para os Tavaredenses, para José Ribeiro, para os admiradores fiéis do esforço pelo Teatro da SIT, e, até, para alguns que naquela noite ali estiveram só por dever social.
         Num dos intervalos do espectáculo, foram oferecidas lindas flores às Exmas. Esposa e Filha do Prof. Paulo Quintela.
         Após o espectáculo, no salão nobre da Sociedade, realizou-se um beberete, durante o qual usaram da palavra os srs. António Lopes, presidente da Direcção, o Doutor Paulo Quintela e José Ribeiro. Nesse encontro, além dos corpos dirigentes da agremiação, dos artistas amadores e de amigos e familiares do ilustre visitante, lembramo-nos de ter visto os srs. dr. Artur Beja e Esposa, banqueiro Jerónimo Pais e esposa, gravador Moreira Júnior e Esposa, dr. Adelino Mesquita, reitor do Seminário, industrial Freitas Lopes e arquitecto Isaias Cardoso.

         E é também imprescindivel a transcrição de uma nota, escrita por Mestre José Ribeiro, sobre a situação da cultura na Figueira. _ Vocês atordoam-me logo com o primeiro quesito: “Como situa o actual panorama cultural da Figueira? Porquê? Soluções”.
         Certamente vos enganou algum Frei Manuel de Santa Clara, guiando-vos a Tavarede: já aqui não mora aquele D. Francisco de Mendanha, meu vizinho, senhor de larga cultura nas filosofias e que falava e escrevia o italiano e o francês tão bem como o português...
         Cortando cerce a questão: - não me julgo capaz de responder ao quesito formulado. Tentando fazê-lo, sinto-me emaranhado em confusões. Primeiramente, teria de me determinar sobre o que deve entender-se por panorama cultural. Um panorama cultural não será um conjunto de vários aspectos de cultura? Uma alta cultura científica pode não o ser nos domínios da arte; um grande artista plástico, ou músico, ou bailarino, com larga cultura nos domínios restritos da sua Arte, pode desconhecer a cultura científica (digo que pode, não digo que deve); um consagrado escritor, um romancista de génio, podem ser alheios à cultura musical; um grande nome no desporto pode ser glória nacional sem deixar de ser analfabeto...
         Mas se bem interpreto o vosso pensamento, por panorama cultural deve entender-se um conjunto de actividades nos domínios do espírito, aquele conjunto de manifestações intelectuais e artísticas que constituem o que se chama civilização. (Cuidado que também nos civilizados pode haver ausência de cultura...). Sendo assim, responderei que o panorama cultural da Figueira não é brilhante, muito pelo contrário. Digo isto sem esquecer alguns esforços e tentativas que não me canso de aplaudir e convém intensificar: conferências, exposições, concertos musicais, espectáculos de bailado e de teatro, etc.
         ...de teatro.
         Ou muito me engano, ou foi o teatro que vos lembrou Tavarede. Não vejo outro motivo que justifique a minha chamada ao vosso inquérito.
         No que respeita a teatro, andamos realmente muito por baixo. Pode dizer-se que o nível desceu bastante. Não me refiro à qualidade do teatro que se representa, mas à quantidade do público que vê teatro. Há anos atrás, uma Companhia de declamação que viesse à Figueira tinha garantidas duas e até três casas cheias por assinatura, e ainda uma extraordinária. Hoje... com um só espectáculo, a casa fica vazia. As peças não tratam problemas actuais? Os assuntos e a técnica são as do teatro burguês? Desculpas de mau pagador... Peças actuais nos assuntos e arrojadíssimas na técnica e na encenação – ficam às moscas. Ainda não há muito aí esteve uma Companhia com Pirandello: 80 pessoas perdidas, afundadas no vazio dum barracão que levaria mil. E com amadores? Se se não impingem os bilhetes com a circularzinha a pedir aceitação – o público não vai. Uma nossa associação de raiz bem popular e com uma enorme e entusiástica e orgulhosa massa associativa, quis ter Molière na sua festa de anos; e Molière foi-se embora envergonhado com a vergonha de lhe terem virado as costas, deixando-o em cena a fazer rir... as cadeiras vazias.
         O povo foi chamado e levado para outras manifestações culturais. Que o desporto, e portanto o futebol, também entra no panorama cultural. Neste aspecto a Figueira subiu bastante. Já nem lhe faltam cenas de tiros no campo para atingir categoria internacional. No folclore já lá chegámos – a Figueira é internacional (que Lopes Graça nos acuda!)...
         A abundância de campos de jogos confrontada com a míngua de teatros define uma orientação, marca bem uma preferência, não é assim? “O teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde a não há” – disse Garrett. (Recomendem ao tipógrafo que empregue caixa alta – que os grafadores modernos me desculpem a caturrice – porque eu não me resigno a escrever Garrett com o mesmo g minúsculo com que escrevi grafadores).
         Mas... vamos a ser francos! Não vos parece que o programa cultural da Figueira não o é apenas da Figueira, porque é o panorama geral do país? As mesmas deficiências e desvios que notamos no nosso concelho vêem-se por toda a parte. (Digo concelho, supondo que Vocês, quando dizem Figueira, não pensam apenas na cidade). É verdade que noutras terras há manifestações de arte e de cultura (cá estou eu sem querer a fazer divisões) em que a Figueira se fica muito atrás – e é isto que dói à nossa prosápia bairrista... Por exemplo: a Figueira não tem um teatro. O Peninsular não satisfaz e o Parque é uma vergonha. Quando é que o vosso jornal desencadeia a corajosa campanha meritória que faça derrubar o barracão hediondo que há tantos anos aguarda camartelo?
         Pedem Vocês que eu indique soluções para o panorama cultural! Coisa complexa, que excede as minhas possibilidades. Porque, quanto a mim, o panorama cultural engloba problemas que têm a sua base num problema mais amplo – o da educação. Sim – a educação! Esse é que é o grande, o fundamental problema. Tudo o mais vem daí.
         ... Se as entidades oficiais deveriam debruçar-se...
         Claro. Se o não fizerem não cumprem a sua função. E não apenas as autarquias locais, que o problema não é local, é nacional. Mas cuidado com o debruçar. Debruçar sem perder o equilíbrio, para não caírem, porque se caem, esmagam-nos. Como tem acontecido. Os resultados estão à vista. Aqui, e só no problema do teatro, poderia eu desfiar um longo rosário. Iríamos longe, não digo no tempo... mas no espaço. O silêncio é de ouro, diz o ditado. Eu sinto que é de chumbo.
         Restringindo-me ao panorama cultural da Figueira, penso que a Câmara Municipal, a Comissão de Turismo, as Juntas de Freguesia (coitadas dalgumas, que não têm verbas sequer para tapar os buracos dum caminho) alguma coisa podem e devem fazer, dando incentivo a apoio material a certos empreendimentos susceptíveis de influírem na melhoria do nível cultural do nosso povo; e o mesmo direi dos clubes desportivos, das filarmónicas, das colectividades que têm ou podiam e deviam ter grupos de teatro.
         Que se tem feito neste capítulo?...
         Acode-me agora à lembrança a tão bela e patriótica “Campanha Vicentina”. Fê-la um grande poeta, o mesmo que com enérgica e expressiva palavra, aqui irreproduzível, definiu o estado patológico da alma nacional. Pois Afonso Lopes Vieira conta-nos na sua “Campanha Vicentina” que numa das visitas ao grande pintor Columbano o encontrou a pintar. E enquanto o artista-pintor ia pintando, o artista-poeta desabafava numa elegia sobre os males de Portugal. O artista-pintor continuava a pintar... E o artista-poeta longamente carpiu, chorou e lamentou o abandono das crianças, a tortura dos animais, o estrago das paisagens, a desonra dos monumentos, o desprezo da linguagem... Columbano voltou-se para o poeta, e com a paleta e os pincéis na mão, respondeu: - “Pois eu, por mim, não posso fazer mais”. E continuou a pintar.
         Também eu não posso fazer mais. Mas eu não passo de pilriteiro.
         Só posso dar pilritos.