sábado, 1 de novembro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 100

         Para integrar o programa comemorativo do aniversário, em Janeiro de 1973, nova peça de Shakespeare foi levada à cena. Assistimos no passado sábado à récita de aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, que sempre tem primado por apresentar bom teatro, e mais uma vez demos por bem empregue a nossa deslocação à vizinha Tavarede.
         Mestre José Ribeiro não proferiu a habitual palestra que antecede as estreias, mas leu o prefácio que escreveu sobre a peça “Conto de Inverno”, de William Shakespeare, que pela primeira vez era representada em Portugal, em língua portuguesa, já que em 1939 fora apresentada em Lisboa por um grupo de ingleses e estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em récita particular.
         Com “Conto de Inverno”, Shakespeare esteve presente pela terceira vez em Tavarede. A primeira em 1964, por ocasião do seu 4º. centenário  com a “mui excelente e lamentável tragédia Romeu e Julieta”, sem dúvida a sua mais popular obra, adaptada ao teatro e ao cinema em variadíssimas versões. Quatro anos depois o dramaturgo inglês voltou ao palco de Tavarede com o Dente por Dente, com adaptação de Luís Francisco Rebelo, e agora com Conto de Inverno, traduzida e adaptada por João José, pseudónimo artístico de José Ribeiro.
         “Conto de Inverno”, uma quase tragédia em 5 actos e 10 quadros, foi representada na corte de Jaime I, em 5 de Novembro de 1610, seis anos antes da morte do seu autor, Alma do século, Monumento sem túmulo, Doce cisne do Avon, como Shakespeare foi classificado por Bem Johnson.
         José Ribeiro disse que “Conto de Inverno” tinha qualidades para agradar a crianças e a adultos, e, de facto, assim é.
         Concebida longe dos moldes de “Hamlet”, “Romeu e Julieta”, “O mercador de Veneza”, e outras, a peça ora apresentada em Tavarede conta-nos a história do ciumento Leontes, rei da Sicilia, que pretendeu matar o seu pretenso rival Polixenes, rei da Boémia, mandou abandonar sua filha recém-nascida num monte deste país e fez julgar Hermione, sua mulher, por crime de adultério, de que estava inocente conforme depois foi confirmado pelo Oráculo de Delfos.
         A peça tem um final imprevisto e acaba bem, reconhecidos que foram os infundados ciúmes de Leontes.
         Nada menos de 37 são as personagens que intervêm em “Conto de Inverno”, que conta com a participação dos “veteranos” João Cascão, Violinda Medina e Silva, Fernando Reis, João de Oliveira Junior e José Luiz do Nascimento.
         Boas presenças de José Medina, João Medina, José Santos, Manuel Cerveira, Luiz Medina, Ana Cristina de Oliveira, Rosa Maria da Silva, etc.
         A cenografia é do prof. Manuel de Oliveira e de José Maria Marques, com um excelente guarda-roupa de Alberto Anahory que, como sempre, primou por apresentar luxuosas indumentárias da época.
         A encenação é do nosso já consagrado e competente José Ribeiro que, como as que tem apresentado no palco da SIT, lhe deu todos os condimentos necessários para fazer de “Conto de Inverno” mais um assinalado êxito para os amadores de Tavarede.

         E registamos que a Câmara Municipal da Figueira da Foz deliberou condecorar a colectividade. Por proposta do então vereador do pelouro da cultura, sr. dr. Marcos Lima Viana, a edilidade cessante, com plena concordância do sr. Presidente da Câmara Municipal, aprovou por unanimidade a concessão da MEDALHA DE OURO DE SERVIÇOS DISTINTOS às prestigiosas colectividades da nossa terra – SOCIEDADE FILARMÓNICA FIGUEIRENSE e SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE – galardão a que ambas fizeram mais do que inteiro jus, através duma notável, vasta e prolongada acção cultural, artística e beneficente sobejamente conhecida de todos os figueirenses para que seja necessário referi-la em detalhe, comentá-la e exaltá-la. O que constituiria uma redundância e também de certa forma de injustiça aos sentimentos de gratidão dos nossos conterrâneos, que pelas duas agremiações homenageadas nutrem bem sinceras, palpáveis e comprovadas, simpatia, estima e consideração, a que o bairrismo junta o sal de um grande orgulho por as ter no seu seio e pela maneira exemplar como têm servido e honrado a Figueira, orgulho sob todos os aspectos tão compreensível como legítimo.
         Por tudo o que fica dito e o mais que é do conhecimento geral, de ânimo gratíssimo, por nossa parte nos associamos jubilosamente a esta merecida consagração municipal dos méritos e serviços à terra e à grei, tanto da Sociedade de Instrução Tavaredense como da Sociedade Filarmónica Figueirense, a ambas, na emergência, apresentando os nossos melhores cumprimentos e felicitações.

         O IV Centenário da Publicação de Os Lusíadas também teve a participação do grupo tavaredense. O presidente da Comissão Nacional das Comemorações, Professor Dr. Hernâni Cidade, veio à nossa terra assistir a um espectáculo. Conforme já aqui tivemos ocasião de noticiar, o categorizado grupo cénico da benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense (quase 70 anos de permanente actividade, posta, com a maior devoção e ternura, ao serviço da cultura popular), mais uma vez voltou a dar amplas provas do seu reconhecido valor e da sua incontestada capacidade artística.
         E mais uma vez soube impor os seus relevantes e incontestados méritos, numa aceitação total, plena de emoção e de delirantes aplausos, perante um público categorizado e exigente, em que se encontravam gradas personalidades de Lisboa, Figueira, Coimbra, Leiria, etc., etc., algumas das quais se habituaram, desde há muito, a ir ao encontro dos amadores-artistas de Tavarede, nas suas representações teatrais – para as apreciar e aplaudir, não por mera e generosa benevolência, mas por convicção e inteira justiça.
         Sábado, 4 de Novembro. Mais um espectáculo, no elegante e confortável teatrinho de Tavarede (totalmente remodelado e beneficiado, há poucos anos, graças à generosa ajuda material da benemérita Fundação Gulbenkian), com a muito grata e honrosa presença do eminente Prof. Dr. Hernâni Cidade, ilustre presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”, que de Lisboa, acompanhado de outras também ilustres personalidades, ali se deslocou.
         O espectáculo comemorativo do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, constava da representação do “Auto de El-Rei Seleuco”, da autoria do imortal Poeta; e de uma “Evocação”, em duas partes e dez quadros (a 1ª parte – “O Trinca-Fortes” (1551), com as cenas “Encontros no Mal-Cozinhado”, “A merenda da Infanta” e “Do tronco para a Índia”; e a 2ª parte – “Os Lusíadas” (17 anos depois), com as cenas “Regresso da Índia”, “… e ninguém mais falou nele!”, “Ante o censor dos Lusíadas”, “O Velho do Restelo”, “O Adamastor”, “Concilio dos Deuses” e “Quem compra os Lusiadas”, da autoria de mestre José Ribeiro, interpretada por mais de 50 dos seus briosos e consagrados pupilos; caprichosamente montada, vestida e encenada, sob o maior rigor, pelos apaixonados amigos da SIT, de Lisboa, srs. Alberto Anahory, que estudou e preparou todo o primoroso guarda-roupa, histórico e de fantasia; António Tomás, que gravou, amavelmente, a “Voz de Garrett” e a “Voz dos Lusíadas” e realizou toda a sonorização; José Maria Marques, que se incumbiu da cenografia, a todos os títulos brilhante e rigorosa, excepção feita a algumas cenas no “Mal Cozinhado” e do”Concilio dos Deuses”, com as quais foram evocados os ilustres e saudosos amigos daquela benemérita instituição cultural (que tanto tem sabido honrar a sua linda aldeia, senão o Concelho da Figueira e o próprio distrito de Coimbra, onde não é ignorado o real valor dos amadores teatrais tavaredenses), prof. Manuel de Oliveira e Rogério Reynaud (este figueirense) e o actual padre da paróquia local, dr. João Evangelista Amado, que orientou o cântico litúrgico.
         E – já agora – expliquemos os precedentes que motivaram tão louvável e patriótico movimento artístico e conduziram o José Ribeiro à decisão – a todos os títulos louvável – de procurar vincar, pelo teatro, na sua aldeia e pelos seus pupilos, esta histórica efeméride.
         Tendo sido previamente convidado – muito digna e acertadamente - pela Câmara Municipal (pelouro da cultura) para estudar a maneira de pôr em prática a representação, na Figueira da Foz, por intermédio do laureado núcleo dos seus amadores, uma peça alusiva à Comemoração do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, aquele nosso ilustre conterrâneo e muito prezado e velho amigo – coração de oiro e alma sempre aberta às mais elevadas e dignificantes iniciativas culturais e filantrópicas -, prontamente correspondeu a tão delicada incumbência…
         … escrevendo, ensaiando e preocupando-se, ainda, apaixonadamente – como é próprio dos seus brios e das suas reconhecidas exigência – com a montagem das peças a que acima aludimos…
         … e cujas representações (cremos que já em número de seis ou sete), quer na oficial – chamemos-lhe assim – realizada no Grande Casino Peninsular, que redundou, ao que nos foi informado, numa consoladora e delirante apoteose, tendo nessa altura sido conferida à veneranda Sociedade de Instrução, num relevante acto de consciência e de justiça, a Medalha de Mérito (Ouro) da Câmara Municipal, quer em Tavarede, redundou num assinalado e consolador êxito…
         … e numa grande satisfação e alegria para José Ribeiro e para os seus simpáticos e garbosos discípulos.
         E pressentimos este “fenómeno”, porquê?
         Precisamente porque – e tão sentimentais e dignificantes decisões não nos consta que houvessem sido tomadas por mais ninguém, no País, com mais possibilidades e obrigações morais para o fazer – mas não fez -, isso proporcionaria mais uma admirável oportunidade para provar que à humilde gente de uma linda aldeia portuguesa, toda devoção e paixão pelo teatro, não havia escapado mais uma data histórica e, como tal, sentiria orgulho em comemorá-la!...
         Assim, e a exemplo de que acontecera nas respectivas datas, em que na SIT, em Tavarede, foram comemorados, com a maior relevância e dignidade, o 5º Centenário de Shakespeare; o Centenário de Almeida Garrett; o Centenário do Infante D. Henrique; o Cinquentenário da Morte de D. João da Câmara e o Centenário de Marcelino Mesquita; se aos reconhecidos méritos dos amadores-artistas da linda terra do limonete tinha isso sido possível, essa grande honra, graças à batuta-mágica de mestre José Ribeiro, na sua qualidade de autor e ensaiador competentíssimo, porque não havia ele, acedendo, de ânimo jubiloso, ao que, em tal sentido, lhe fora solicitado oficialmente, de aproveitar a oportunidade para marcar, mais uma vez, uma relevante posição do seu admirável querer e das suas ricas possibilidades intelectuais e artísticas, escrevendo, ensaiado e pondo em cena a referida peça, comemorativa da patriótica efeméride do 4º Centenário da Publicação de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões?
         Ora foi precisamente isso que se deu…

         E com que prestigiante elevação!... 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Histórias e Lendes - 4

Santos da Terra do Limonete
Recordando mais alguns



Santo Aleixo

         Desde tempos bastante antigos que Tavarede tem venerado diversos santos. E se recordámos em primeiro lugar o ‘nosso’ S. Martinho, padroeiro da nossa terra, é oportuno agora tentar recordar a história, ou alguma coisa, de outros que aqui tiveram a sua festa ou que, de qualquer forma, são ou foram referências na Terra do Limonete.

         Principiemos pelo Santo Aleixo.

         Segundo a lenda, Santo Aleixo era filho do senador Eufeniano e de Aglae, e fugiu secretamento da casa de seus pais na noite do seu casamento, refugiando-se em Edessa, onde levou uma vida de mendigo. Decorridos dezassete anos, Nossa Senhora revelou a sua santidade designando-o ‘Homem de Deus’.

Santo Aleixo  resolveu regressar em segredo à casa de seus pais, em Roma, apresentando-se como pedinte. Não sendo reconhecido, deram-lhe um recanto onde viveu outros dezassete anos, sendo muitas vezes maltratado pelos servos. Quando morreu foi encontrado, junto do seu corpo, um escrito que revelava a sua qualidade e a sua vida. Celebra-se o seu dia a 17 de Julho.

Ernesto Tomás, nas suas ‘Recordações de Tavarede’, a propósito da capela ao Santo Aleixo existente na nossa terra, escreveu: “... descendo do Terreiro em direcção à igreja, encontramos perto desta a capela de Santo Aleixo, que se diz ter pertencido ao cabido da Sé de Coimbra. É pequeno o seu ambito pois que apenas poderá ter uns dez mentros de fundo, por quatro a cinco de frente.

Restam dela as quatro paredes que formam o rectângulo em superfície e tem ainda a porta sobrepujada por uma pequeníssima janela, e lá dentro uma vegetação robusta e espessa de silvas, crescendo e elevando-se acima da altura das paredes circundantes. Nesta capela eram feitos antes de 1875 os enterramentos dos falecidos na freguesia até que, depois de construído o novo cemitério, na estrada que segue para Brenha, e para o nascente da igreja, lá se principiaram a fazer os enterramentos”.

Acrescenta ainda: “... passando, e vendo que ela apenas se achava vedada por quatro tábuas, e uma mais que o tempo deixou cair, entrámos a custo para ver interiormente o que restava deste edifício religioso. Apenas uma pia de água benta, no seu lugar primitivo, embebida na parede à direita da entrada. Para o fundo da capela nada se poderia ver conquistado pelas silvas”.
 
Diz a tradição que esta capela servia de hospício aos peregrinos que por aqui passavam. Serviu, ainda, de sede à Junta de Freguesia e, actualmente, encontra-se ao serviço da igreja tavaredense.

* * *


                                                                                          S.Paio

         Próximo do extremo norte da freguesia e perto da nascente chamada Olho de Perdiz onde brota o ribeiro de Tavarede, encontramos lugares convidativos ‘à preguicite’, à sombra de velhas árvores que, nas quentes tardes de verão, tão apelativos e convidativos se tornam.

Quando, há já algumas centenas de anos, o cabido da Sé de Coimbra vendeu a vasta propriedade que possuia naquela zona, denominada ‘Prazo’, impôs a condição de ali ser reconstruida uma pequena capela devotada a S. Paio, muito venerado na região centro do país. Quem foi este S. Paio?

“Pelágio ou Paio (S.) - Mártir; festa litúrgica na diocese de Coimbra, a 26 de Junho. Era, ao que parece, originário de Tui. Tendo ficado cativo na batalha de Val de Junquera seu tio Hermoíglo, bispo de Tui, foi o jovem Pelágio, que contava apenas 10 anos de idade, dado em reféns pela sua libertação. Enviado para Córdova, esteve encarcerado três anos, ao fim dos quais foi martirizado por ordem de Abderramão III.
As actas do martírio foram escritas por um presbítero chamado Ragnel, pouco depois do acontecimento.Aí se diz que o menino passava o tempo na prisão lendo as “Escrituras” e conversando com outros cristãos cativos ou que iam visitá-lo. Um dia foram ao cárcere uns ministros de Abderramão que, encantados pela sua beleza, falaram nele ao califa. Mandou este que o levassem à sua presença e tentou convertê-lo às práticas muçulmanas e atraí-lo a actos desonestos. Como o menino resistisse, mandou-o matar.
 Os algozes cortaram-no aos pedaços, ainda vivo, em horroroso suplício que durou três horas, das 11,30 h. da manhã às 2,30 h. da tarde, no domingo 25.VI.925. Os cristãos de Córdova recolheram as relíquias, colocando a cabeça na igreja de S. Cipriano e o resto na de S. Gens. A fama do martírio espalhou-se rapidamente por toda a Península e em breve ultrapassou as fronteiras. Pelo ano de 960, uma poetisa, de origem saxónica, chamada Rowinta, consagrou-lhe uma composição em versos latinos. O culto de S. Paio tornou-se muito popular em Portugal, passados poucos anos depois do seu martírio. Há umas sessenta e cinco igrejas paroquiais que o têm como titular”.
        
     Ernesto Tomás, já anteriormente citado nestas histórias, deixou-nos o seguinte apontamento: “Para o nordeste da povoação, a perto de quatro kilometros, e na proximidade do regato que corre ao fundo do Valle de Sampaio ou de S. Paio, existiu em tempo uma capellita com a invocação do Santo que deu o nome ao valle. Pequena, acanhadinha, abrigava o santo a quem os visinhos dedicavam extremosa devoção. Sampaio ou S. Paio, era remedio infalivel para a cura de varios achaques, especialisando - o desapparecimento rapido das verrugas d’aquelles a que a elle recorriam com a necessaria fé. N’uma ribanceira, erma, lá estava o santinho solitario, posto n’um terreno pertencente aos frades cruzios de Coimbra.
            O tempo foi fazendo dos seus fregueses uns descrentes desleixados, e a capella foi-se arruinando a pouco e pouco até deixar apenas o vestigio de alicerces.
            Tendo sido comprada mais tarde a propriedade pelo fallecido sr. Caetano Gaspar Pestana, d’esta cidade, mandou este, obedecendo a uma obrigação antiga escripturada, levantar de novo a capella e refazer o santo.
            S. Paio, era e é de pedra, e andando por uma adega da propriedade a servir, profanamente, de calço a pipas, foi-se aos poucos deteriorando, até que, o sr. Pestana, o mandou concertar collocando-o em seguida na capella em que hoje é venerado.
            Pertence hoje a capella e terra circumjacente a António Monteiro, canteiro de Quiaios.
            Ha coisa de quatro annos ainda lá foi feita festa ao santo pelo povo da freguesia”

Nas pesquisas que efectuámos encontrámos mais estas notas: “No “Focus” aparece um Pelágio, ou Paio, como tendo sido: “Monge irlandês que, tendo ido para Roma por volta do ano 400, entrou em controvérsias com Santo Agostinho a respeito da doutrina sobre o pecado original”. No “Lello Universal, a descrição deste Pelágio é: “heresiarca bretão (360-449). Relacionou-se com Santo Agostinho e foi fundador do pelagianismo, doutrina que atribuía, na questão da graça, uma parte escessiva à liberdade humana”. Mas ainda temos outra hipótese: “Pelágio ou Paio (Frei) Primeiro prior do convento de S. Domingos, de Coimbra. Os cronistas dominicanos tratam-no por santo, mas da sua vida nada contam de concreto. Alguns supõem-no falecido cerca do ano de 1240, enquanto Frei Luis de Sousa prefere a data de 1257”.

Não nos parece que o santo venerado nesta capela seja um destes dois últimos, inclinando-nos para o primeiro. Ocorre-nos, porém, uma questão. A imagem que se encontrava na capela, foi roubada há meses e nunca mais apareceu, era de um santo já idoso com compridas barbas pretas. Não sabemos se esta imagem seria a inicial, venerada pelos frades cruzios. Julgamos que não e admitimos, sem que o possamos confirmar, que a imagem terá sido trocada aquando da reconstrução da capela. 

O Associativismo na Terra do Limonete - 99

         E não devemos deixar de registar que o espectáculo, em Coimbra, com a peça O tartufo, em benefício da Obra do Prof. Dr. Elísio de Matos, foi filmado pela Radiotelevisão Portuguesa que, posteriormente, apresentou diversos excertos.

         Com toda a certeza que se estranhará, neste trabalho de relembrar o associativismo na terra do limonete, dedicarmos tanto espaço com transcrições de notícias sobre a actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense e fazermos tão poucas referências ao Grupo Musical e de Instrução e à terceira congénere da freguesia, o Grupo Musical Carritense. Toda a razão, é verdade, mas o caso tem uma explicação, por acaso bem simples. O Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, que teve um brilhante passado e que durante cerca de vinte anos desenvolveu extraordinária influência na vida associativa e cultural da nossa terra, nomeadamente através do teatro e da música, devido à falta de instalações, dedicava-se, neste tempo, quase que em exclusivo, à realização de festas dançantes, das quais guardamos tão saudosas lembranças, com a excelente colaboração do seu conjunto musical privativo, o Lúcia Lima Jazz, não deixando, também, e quando o julgava oportuno, aqui trazer outras afamadas orquestras, as quais eram sempre um atractivo para elevado número de frequentadores.

         Não esquecemos, igualmente, a confraternização que proporcionava com a realização de passeios e a diária afluência de espectadores assíduos aos serões televisivos. Quanto ao Grupo Musical Carritense, que inicialmente se dedicou, mais activamente, à música, com a sua tuna e a sua aula de música, igualmente se dedicava ao recreio de seus sócios e famílias, passou, algum tempo depois, a dedicar-se também ao teatro. Mas, a principal razão de pouca informação nossa, é que, quando nos dedicámos à recolha das notícias da nossa terra, preocupámo-nos, quase que exclusivamente, à velha e pequenina aldeia, não recolhendo, e agora o lamentamos, muita da informação encontrada sobre a restante freguesia. Confessamos este nosso pecadilho, mas, confessamos, já não temos coragem de voltar à leitura dos velhos jornais figueirenses, para rebuscarmos o que não recolhemos na altura. E dada a explicação, que entendemos necessária, continuemos com a nossa história do associativismo em Tavarede.

         Como todos sabemos, a década de 70 trouxe grandes alterações, não só a Tavarede, como a todo o País. O antigo Paço dos condes de Tavarede havia mudado de proprietário. E a mudança trouxe novos problemas ao Grupo Musical, com o senhorio a querer a sua saida e sem querer fazer quaisquer obras de conservação, ressentindo disso o imóvel, com o inevitável aumento de degradação.

         Em Agosto de 1971, a colectividade festejou os seus sessenta anos de existência. Mais uma colectividade de grandes serviços prestados à cultura popular que vai comemorar o seu aniversário: o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Com as suas actividades bastante restringidas, nem por isso o Grupo Musical deixa de ter jus à homenagem que lhe é devida.
         Programa das festas: 22 de Agosto – às 8 h. alvorada e saída de uma fanfarra que percorrerá as ruas de Tavarede; às 12 h. exposição da sede; às 22 h. sessão solene e posse aos novos corpos gerentes, seguindo-se um baile de gala abrilhantado pelo seu magnífico conjunto privativo Estrelas do Mondego. Como se nota, o programa era bastante simples e o seu conjunto musical privativo já pertencia ao passado.

         Na Sociedade, de depois de nova fantasia, História e... histórias de Tavarede, o grupo cénico voltou aos dramaturgos portugueses e apresentou, na sua sede, A forja. Alves Redol faz girar o conflito que separa e isola e destrói os personagens, uma família, à volta de três temas centrais: a perseguição cega de um objectivo materialista com fim único da vida (no caso de “A Forja”, a compra de uma casa); a decepção da mulher perante o homem outrora amado, decepção que ela pretende ultrapassar centrando o amor de mãe no filho mais novo, a esperança na vida renovada; e o inelutável fracasso da vida se o homem abandona o seu destino em mãos alheias (mesmo que sejam as do próprio pai).
         O dramatismo da peça adensa-se porque Redol lança mão não de um mas de dois sentimentos profundos: o materialismo cego do pai e o excessivo amor da mãe.
         Redol segue a lição de Balzac, que introduziu na literatura o tema da importância vital do dinheiro na vida.
         Balzac concentra, digamos, o amor ao dinheiro e aos três filhos numa personalidade, no pai, em Goriot. Redol serve-se de dois personagens para dar figuração àqueles sentimentos. O “père Goriot” é mais humano: o amor às filhas vence as preocupações do dinheiro. Talvez propositadamente Redol só dá rapazes ao casal desgraçado, assim isolando ainda mais o “pai”.
         Mas a densidade do dramatismo da peça de Redol ressalta ainda num traço próprio da alma portuguesa, a visão exagerada do trágico da existência, que nos atraía Unamuno, o genial espanhol, um dos estrangeiros que mais nos admirou e amou.
         Este elemento, a visão exagerada do trágico da existência, é sabiamente explorado por Redol.
         A intensidade dos sentimentos, o apego do pai à forja, fonte do dinheiro que permitirá a compra da casa; a decepção da mãe, que a leva a centrar toda a capacidade de amar no filho mais novo, e quase cega para o plano inclinado em que a família, como um bloco, rola para a destruição, desenham estas figuras a traços fortemente marcados, diremos mesmo, excessivamente acentuados.
         Redol fez uma peça para portugueses, é certo, para gente que, como o “pai” da “Forja”, aceita o trágico da existência, a força do destino, como ele repete. Mas não terá Redol perdido, dalguma maneira, o sentido da medida? Não terá ele ido um pouco além? Não quererá Redol, com este apontar da resignação ao trágico da existência, criticar, mostrar o absurdo deste sentimento? Redol parece dizer, através do “pai”, que o homem deve ser indiferente ao destino, deve lutar sempre, como um homem autêntico. A morte do “pai” às mãos da “mãe” parece deixar crer que o homem será castigado se viver alheio a tudo, ao seguir cegamente uma paixão. O “pai” sente que fracassou por se ter fixado, abandonado a vida de vagabundo. Também aqui Redol aflora um tema trágico: o das paixões amorosas intensas, fonte de infelicidade.
         No fundo, este entrechocar de temas e sugestões, Redol talvez queira dizer que na miséria, entre gente esmagada por dívidas, sacrificada pelo trabalho, mal alimentada, a luta acaba na auto-destruição. O trabalho só por si, bem no fundo, nada resolve, é inútil o esforço.
         Todavia, esses excessos de Redol, homem de sentimentos profundos, homem que talvez se revoltasse contra uma visão dominadora do trágico da existência, não prejudica a peça. Sentimo-nos opressos pelo dramatismo de Redol, mas não nos cansamos.
         A arte de Redol surge a toda a luz no perdão que concede aos pais, na simpatia pelo povo, o povo humilde, por vezes endurecido por séculos de miséria e opressão.
         Certo que Redol humaniza por vezes a ferocidade dos dois desgraçados. Fá-lo, porém, episodicamente, em lances propositadamente rápidos. O ambiente bravio e tormentoso em que o conflito se desenvolve, em tom ora colérico ora lamentoso, ameniza-se por vezes instantâneamente, como acontece nas grandes tempestades. Mas desde logo a cólera, o ódio, o desencanto retomam os seus direitos. Tudo isto é dado com uma arte, um poder, uma força latente que a encenação de José Ribeiro nos parece ter servido fielmente.
         As aproximações e os distanciamentos das figuras estão bem marcados, conjuga-se bem o texto com a movimentação dos personagens.
         Se aqui e ali se notam certas hesitações, uma ou outra rigidez de atitude, tudo incipiências próprias duma primeira representação, a movimentação das figuras, o ritmo global da representação foi francamente bom. As aparições da “Morte” são momentos de grande beleza rítmica e de intensa densidade emocional.
         A presença de Violinda Medina garantia, a priori, um êxito para a peça; mas a actuação de sábado excedeu a expectativa. Uma notável representação da excelente amadora, que se elevou há muito tempo a um nível invulgar. Todo o dramatismo da figura difícil e atormentada de uma mãe vergastada por sentimentos contraditórios é transmitido com sobriedade, delicadeza e verdade.
         João Medina, no pai, enquadra-se num esquema simples, que aceitamos, porque o sentimos emanado do texto e da encenação, mas a que pomos algumas reticências. Não poderia haver menos rigidez nas atitudes, com mais frequência? O clima geral da peça, o vigor do texto, a força da movimentação dos personagens não permitiriam atenuar a dureza das atitudes individuais?
         Mas, digamo-lo sem reservas, Violinda e João Medina quase se igualam no vigor, na firmeza com que nos deram uma noite de teatro de aplaudir.
         José Medina e João de Oliveira Júnior, dois dos quatro filhos, souberam também acompanhar o nível da representação. E nisto está o seu melhor elogio. João de Oliveira Júnior é o elemento consciencioso de sempre, a um tempo sóbrio e brilhante, e José Medina sustentou bem – e valorizou-as – cenas que poderiam afrouxar nas mãos de um amador menos bem dotado.
         Os restantes surgem como peças secundárias mas nem por isso menos essenciais ao equilíbrio do conjunto. Que nunca tivessem claudicado com manifesta evidência, é mérito deles e duma encenação cuja mão firme e sabedora está sempre presente.
         As virtudes desta peça de Redol e deste grupo de magníficos amadores poderiam levar-nos mais longe, mas cremos que estas linhas serão suficientes para dar ideia da valia do espectáculo de sábado em Tavarede, e que o público soube compreender.

         De vez em quando, a chamada ‘grande imprensa’ lembrava-se da nossa humilde aldeia. Nesta ocasião foi a revista Radio & Televisão. Tavarede é uma pequena aldeia a dois passos da Figueira da Foz. Aparentemente, nada a distingue das que lhe são vizinhas: todas as manhãs os tavaredenses partem para o trabalho no campo, no escritório, na fábrica, na oficina e todas as tardes regressam cansados. Mas Tavarede é uma aldeia única, não só no concelho da Figueira da Foz como, talvez, no País: há quase 70 anos que o teatro constitui ali um poderoso factor de educação e de cultura.
         A Sociedade de Instrução Tavaredense vai comemorar, no mês de Janeiro, o seu 68º aniversário. Com um espectáculo de teatro, como sempre, já que a Sociedade é o orgulho da aldeia e o teatro entrou de há muito na sua vida. Que espectáculo será, ainda não se sabe. Mas a despeito do tempo que falta, ninguém se sente grandemente preocupado. A seu tempo, tudo se resolve e os 40 amadores do Grupo de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, além da confiança cega que depositam no seu director, José da Silva Ribeiro, têm já muita pratica do oficio. Bastará dizer que, para eles, não há temporada: trabalham durante o ano inteiro.
         Aparentemente, Tavarede é uma aldeia como qualquer outra, sem nada que a diferencie. Mas Tavarede tem a Sociedade de Instrução Tavaredense e foi (talvez) a única aldeia do País onde se comemorou a sério o IV Centenário da publicação de “Os Lusíadas”.
         Tudo começou há meses, quando o director dos Serviços Culturais da Câmara Municipal da Figueira da Foz, dr. Vítor Guerra, solicitou à Sociedade de Instrução Tavaredense que organizasse um espectáculo comemorativo da publicação de “Os Lusíadas” e que o Município ofereceu ao público da Figueira. Em pouco mais de três meses, José Ribeiro montou um espectáculo que envolve todos os componentes do grupo. A população da Figueira da Foz viu e aplaudiu, mas a estreia fez-se, como sempre (“Tudo o que fazemos é para o povo de Tavarede”, afirma José Ribeiro), em Tavarede.
         A primeira parte é constituída pela representação do “Auto de El-Rei Seleuco”, de Camões. Como actores principais, participam um barbeiro, quatro estudantes do ensino secundário, dois empregados de escritório, um serralheiro e um carpinteiro. A segunda parte é constituída pela representação de uma evocação (“Camões e Os Lusíadas”), da autoria de José Ribeiro. 
         Nomes? Talvez não valha a pena. Cita-se apenas como exemplo João Medina, de 40 anos de idade, barbeiro de profissão. Actor amador há cerca de 25 anos, desempenhou o papel de “El-Rei Seleuco” e foi este o primeiro contacto que teve com a obra de Camões. Sempre que pode, lê o seu livro, como aliás todos os outros, que frequentam assiduamente a biblioteca da Sociedade. Mas a maior parte das suas horas livres vai para o teatro, e João Medina tem hoje uma experiência que lhe permite falar de Shakespeare, de Molière, de Gil Vicente, de tantos outros que a grande maioria da população rural portuguesa desconhece inteiramente.
         Referindo-se ao Grupo de Campolide, assinalava recentemente Joaquim Benite numa entrevista ao “Jornal de Noticias” que “o grupo encara o teatro como uma tribuna, cumprindo-lhe duas funções: a lúdica e a cultural, uma e outra inseparáveis”.
         Estas palavras são válidas para o Grupo de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense. Ali, a função lúdica e a função cultural vivem lado a lado, interpenetram-se, confundem-se até. Não se trata apenas de representar para passar o tempo. Como me dizia um dos actores mais velhos, João Cascão (68 anos conservados), o que se procura fazer é teatro educativo.

         Camões? Pois venha lá Camões. E durante os ensaios todos falaram de Camões – da sua vida e da sua obra, da época em que viveu, do seu lugar na História da Literatura, de tudo o que dissesse respeito a Camões – sob a orientação segura de José Ribeiro, que aos 78 anos de idade (a completar no próximo dia 18) fala e trabalha com a alegria e o vigor de um jovem.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Histórias e Lendas- 3


Lenda de S. Martinho

Segundo reza a lenda, num dia frio e tempestuoso de outono, um soldado romano, de nome Martinho, percorria o seu caminho montado no seu cavalo, quando deparou com um mendigo cheio de fome e frio. O soldado, conhecido pela sua generosidade, tirou a sua capa e com a espada cortou-a ao meio, cobrindo o mendigo com uma das partes. Mais adiante, encontrou outro pobre homem cheio de frio e ofereceu-lhe a outra metade. Sem capa, Martinho continuou a sua viagem ao frio e ao vento quando, de repente, como por milagre, o céu se abriu, afastando a tempestade. Os raios de sol começaram a aquecer a terra e o bom tempo prolongou-se por cerca de três dias. Desde essa altura, todos os anos, por volta do dia 11 de novembro, surgem esses dias de calor, a que se passou a chamar "verão de S. Martinho".

Outras lendas e versões

A lenda do verão de São Martinho    
No alto de uma montanha agreste, despovoada e nua, vivia um monge miseravelmente... Alimentava-se de raizes, mortificava-se de jejuns e só de raro em raro descia às aldeias a mendigar... Um ano, porém, o inverno veio cedo, e os primeiros dias de Novembro foram de temporaes pegados, bramiam ventos uivando pelas penedias, rugiam coleras de raios as tempestades, urravam medonhamente os temporaes!...
            Chuvas cantarejavam ás enxurradas, e a neve, como um lençol imenso de linho purissimo cobria tudo...
            Entrou então a fome e o frio na choupana humilde de Martinho, e o pobre monge, acoçado pela inverneira, resignou-se a vir ao povoado pedir uma codea de pão que o alimentasse e uma acha de lenha que o aquecesse...
            E embrulhando-se n’um farrapo esburacado, que era o seu unico manto, arrimou-se ao bordão, e pôz pés ao caminho...
            Entresilhado de frio, tiritando, atravessava o bom do monge uma leiva em poisio, quando topou, desmaiado na neve, um caminhante velho, rôto e descalço como ele...
            Condoeu-se, e tirando das costas o migalho de pano, todo de remendos, embrulhou n’ele o desgraçado...
            Dos ceus, Deus, que tudo mira c’o seu olhar onipotente, sorriu...: e chamando o sol que beijava a lua sob a protéção das nuvens, mandou aproximar o Destino e escreveu no seu livro azul com letras d’oiro: -”Que todos os anos, por estes dias, o sol aqueça os que teem frio...”
            O sol doirou a terra, nos roseiraes abriram-se botões de rosas, cravos exangues mostraram a chaga rubra da sua côr, trinaram rouxinoes, cantaram cotovias, assobiaram melros, voltaram andorinhas...
            ... E foi assim que nasceu o verão de S. Martinho!...

Mais uma lenda
Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.
            Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.
            Este, cheio de fome, entrou n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando pudesse.
            O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.
            Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo.
            No dicionário Focus, encontra-se a seguinte alusão ao santo:
            “Como o dia de Todos-os-Santos, é também uma ocasião de magusto, e que parece relacioná-lo originariamente com o culto dos mortos. Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com “procissões de bêbados” de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos, em versão bàquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente, e são a glorificação das figuras mais notadas da bebedice local, constituidas em burlescas “irmandades”, por vezes uma de homens e outra das mulheres; em alguns casos a celebração fracciona-se em dois dias: o de S. Martinho para os homens, e o de Santa Bebiana para as mulheres (Beira Baixa). As pessoas dão aos festeiros vinho e castanhas. O S. Martinho é também ocasião de matança do porco

Viva S. Martinho...
Reine a santa frescata... e chova vinho..
Ajoelhemos, tirando a barretina
Ante o Santo que a todos nós domina.
Juremos, pondo a mão sobre o barril,
De fazer das guelas um funil
Quando o vinho corra... Viva! Viva
S. Martinho qu’os bebedores captiva!...




Consultas e recolhas:
Wikipédia (internet)

Tavarede – A terra de meus avós – 1º- v.

O Associativismo na Terra do Limonete. 98

         Sob o título ‘Todo o mundo é actor em Tavarede’, a revista plateia publicou uma reportagem sobre a nossa terra e sobre o nosso teatro. Numa pequena aldeia, a oito quilómetros da Figueira da Foz, existe um povo que “tem necessidade” do Teatro. Tirar-lho seria destruir uma tradição recebida dos antepassados e que os presentes querem entregar, valorizada, aos vindouros. Em Tavarede, assim se chama a aldeia, todo o mundo ama o teatro e é actor.
         Há 66 anos, já se havia apagado há muito na memória dos tavaredenses a lembrança da antiquíssima vila de Tavarede que, em tempos, fora sede de importante Couto e campo de acesas lutas de predomínio, entre os Cónegos da Sé de Coimbra, donatários da povoação, e os Quadros, senhores da Casa que António Fernandes de Quadros fundara no recuado século XVI. Da sua velha importância, cedida à jovem cabeça de concelho, a Figueira da Foz, bafejada pelo mar e enriquecida pelo comércio, apenas restava um “aglomerado de poucas e humildes casas de humildes criaturas que viviam de cavar a terra e de trabalhar nos ofícios, sem proprietários abastados (a maioria dos agricultores amanha terras de renda…) nem brasileiros com dentes de ouro e algibeira recheada (a árvore das patacas nunca mandou os seus frutos à terra do limonete)”.
         Foi nesta pequena, pobre e acanhada aldeia de menos de mil habitantes que um grupo de homens de humilde condição, tomou a iniciativa de fundar a Sociedade de Instrução Tavaredense. A acta da fundação, datada de 15 de Janeiro de 1904, está assinada por dois pedreiros, um tanoeiro, um serralheiro, um carpinteiro, três cavadores, um ferreiro, dois ferroviários, um canteiro e um comerciante.
         A Sociedade “é uma associação essencialmente destinada à instrução e educação das classes populares”, segundo o artigo primeiro dos seus estatutos. Para realizar os seus fins, servir-se-á da escola nocturna e gratuita “para ensino dos sócios que dela queiram utilizar-se, e para ensino dos filhos destes” e, “como elementos educativos de recreio – afirma-se no artigo terceiro – terá uma biblioteca e utilizará o seu teatro, mantendo uma secção dramática”.
         “Não obstante o meio acanhado em que exerce a sua acção, tão pobre de recursos materiais como humanos, vencendo as naturais dificuldades no recrutamento de pessoal numa aldeia tão pequena como a de Tavarede, a Sociedade de Instrução Tavaredense mantém o seu grupo cénico em actividade permanente desde há mais de cinquenta anos. Durante este longo período, renovando todos os anos os seus espectáculos teatrais – refere o programa das festas comemorativas do 66º aniversario da fundação da colectividade – a Sociedade de Instrução Tavaredense deu teatro ao povo da sua terra, falou-lhe de teatro, procurou interessá-lo pelo teatro, ensinou-o a amar o teatro – mesmo contra as dificuldades que se lhe opunham e apesar das solicitações que modernamente desviam as populações, sem excluir as das freguesias rurais, para outro género de divertimentos”.
         “Em certos casos, é sobre os elementos que constituem os grupos de amadores que mais profundamente actuam a função educativa e cultural do Teatro. No caso da Sociedade de Instrução Tavaredense, por exemplo. Tenha-se presente que se trata dum grupo de amadores duma humilde e pequena aldeia, pobre entre as que o mais são. O recrutamento é difícil, porque a população é pequena. São bem poucas as famílias que não têm representação no elenco. Aqui se encontram os trabalhadores do campo e das oficinas: rapazes e raparigas que passam o dia cavando as terras e vêm à noite ao ensaio, operários, carpinteiros, pedreiros, serralheiros, raparigas dos alfaiates e das modistas da cidade vizinha, um ou outro empregado de escritório também”, explica-nos José da Silva Ribeiro, de 76 anos, crítico teatral, autor dramático, ensaiador do grupo cénico e empregado de escritório
         Ele tem sabido descobrir, na rusticidade de modestos aldeões, o sentido belo de um teatro todo feito de amor e dedicação. Autodidacta, ensinou o povo da terra que o viu nascer, a amar, de modo diferente, a difícil e bela arte de Talma. Solidário com os humildes, dedica as poucas horas vagas “aos homens da enxada que cavam o amargo pão de cada dia em terras que não são suas”.
         “Se se pretende alguma coisa mais do que mexer fantoches para divertir o público; se desejamos que os intérpretes tomem consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes são alma, das ideias que as determinam, da época que vivem, do ambiente em que se movem, teremos de adoptar processo bem diferente do que se usará com elementos de outra cultura. Por isso, aqui, o grupo cénico participa da disciplina escolar e do prazer dum passatempo”, escreveu José Ribeiro no prefácio de “Chá de Limonete”, uma fantasia em 3 actos e 24 quadros, especialmente composta para ser representada pelo “seu” grupo cénico.
         No ambiente sóbrio e acolhedor da sua casa em Tavarede, quadros de Alberto Lacerda, Zé Penicheiro, Belmiro Amaral, Paula Campos, Edmundo Tavares e outros “convivem” com retratos que são recordações de família. Nas estantes, obras completas de Luís Francisco Rebelo, Gil Vicente, Marcelino Mesquita, Lopes Mendonça, Molière, Shakespeare, Redondo Júnior ou Brecht.
         Não sabe falar de si. Só lhe interessa a Sociedade de Instrução Tavaredense.
         “O grupo de amadores de Tavarede, pela sua constituição e pelo público para quem especialmente representa, não pretende sair do seu lugar de grupo de amadores rurais, onde permanece com plena humildade e perfeita consciência da utilidade da acção que exerce”, - explica o ex-chefe da redacção do extinto semanário da Figueira “A Voz da Justiça”.
         “Na Sociedade de Instrução Tavaredense – continua – não se ensaiam peças para concurso, isto é, não se fazem coisas para júri ver. A actividade do grupo de Tavarede não visa a finalidade do concurso. Os prémios? Mas… sem dúvida nenhuma que servem para inchar umas tantas vaidades e alimentar despeitosas rivalidades que chegam a transbordar nas colunas dos jornais. Se, algumas vezes, atendendo honrosos convites e sempre com total desinteresse, o grupo deixa a sede e vai representar para outro público, leva as obras que deu ao povo da terra. Não tem outras – pois não escolhe nem ensaia peças tendo em vista a cultura e a exigência de outras plateias”.
         Actor aos dez anos, ensaiador desde 1916, José Ribeiro apenas conheceu os interregos da guerra, duma ou outra doença, de determinados impedimentos.
         “Enquanto for vivo e puder, Tavarede terá teatro. Depois… o problema já não será meu”, - conclui, com um sorriso.
         “Examinando a lista das peças representadas, verifica-se que o reportório do grupo cénico foi subindo de categoria, incluindo obras cada vez de maior responsabilidade. Os elementos do grupo cénico foram afirmado as suas qualidades e a sua técnica, e é inegável que a sua actuação influiu no gosto do público, cuja evolução não pode ignorar-se. Em Tavarede, aonde, aliás, também chega a influência do futebol e do mau cinema, existe um público que vai ao teatro por prazer e tem paladar de certo modo apurado, não obstante ser um público simples, aldeão, de instrução e cultura rudimentares” pode ler-se no livro das bodas-de-ouro da Sociedade.
         Tavarede vive para o Teatro. Na sede, construída pelo povo, com a ajuda da Fundação Calouste Gulbenkian, o teatro tem lugar de honra. Quase todas as noites, de Inverno ou de Verão, esteja frio ou haja calor, os ensaios começam às 21,30 e prolongam-se “sem o protesto de quem, no dia seguinte, tem de entrar no emprego às 7,30”.

         Legendas das gravuras: Sede: Sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, uma obra feita pelo povo, com o patrocínio da Gulbenkian. Aqui, Tavarede ensaia, representa, convive e descansa nas horas vagas. José da Silva Ribeiro: uma vida inteiramente dedicada ao teatro de Tavarede. Violinda Medina e Silva: Com 65 anos e a viver na Figueira da Foz, Violinda Nunes Medina e Silva nunca falta a um ensaio. “para lá vou na camioneta da carreira e, no fim, vêm-me trazer de carro ou de lambreta” - explica. Casada com Adriano Augusto da Silva, contra-regra e aderecista, aos 71 anos, considera o Teatro “como uma verdadeira escola. Uma autêntica universidade quando se possuem mestres da categoria de José Ribeiro”. Amadora, aos 13 anos, tem sido quase sempre a principal personagem feminina das peças que o grupo tavaredense tem levado à cena. João de Oliveira Júnior: É o “mau” do grupo. “Como ninguém gosta de fazer os papéis antipáticos e eu não me importo, sou sempre o escolhido”. Chama-se João de Oliveira Júnior, tem 49 anos e estreou-se, há cerca de 35 anos, “numa peça em que apenas dizia três palavras”. Escriturário de 1ª classe, com funções de encarregado do Armazém Regional da CP, na sede do concelho, é pai de uma jovem “que também faz teatro sempre que pode”. Representar traz grandes benefícios tanto para as relações humanas como para uma cultura geral. “Tenho renunciado a horas de descanso e a dinheiro para poder estar presente em todos os ensaios” – conclui. Maria Inês Barosa Lavos: Empregada de escritório, num armazém de mercearia, Maria Inês Barosa Lavos entrou para o grupo de Tavarede há cerca de cinco anos, mas “já fazia teatro quando andava na escola primária”. “Sempre gostei muito de Teatro – afirma – e só é pena um dia não poder vir a ser profissional”. Aos 26 anos, espera casar e, “se possível, continuar a representar. Não posso abandonar facilmente uma coisa que me tem dado tantos momentos de alegria e me tem ajudado tanto”. “Dente por Dente”, de Shakespeare foi a peça que mais adorei”. Fernando Severino dos Reis: “O Teatro faz parte da minha vida. Chega-se a uma altura que já não se pode passar sem ele”. Fernando Severino dos Reis tem 57 anos. Faz teatro desde os 14 e a filha também representou várias vezes, “mas por causa do casamento teve de abandonar. Foi pena porque o teatro faz muito bem às pessoas” – explica. Chefe de brigada da secção de carpintaria da CP, na Figueira da Foz, levanta-se todos os dias às seis horas para poder estar no emprego às 07,30, “mas – comenta com orgulho – isso nunca será motivo para se deixar os ensaios”. José Luís do Nascimento: José Luís do Nascimento, carpinteiro, tem 50 anos e é pai de dois filhos. Natural de Brenha, uma aldeia vizinha de Tavarede, começou a fazer teatro na “Trupe Recreativa Brenhense” onde conheceu José Ribeiro “numa ocasião em que ele foi lá dar os últimos retoques a uma peça”. Nascimento afirma que representará “enquanto tiver forças para o fazer. O teatro deu-me um á-vontade muito grande e grande facilidade de conversa: não tenho medo de falar com um médico ou com um advogado”, - explica. Maria Teresa de Oliveira: Irmã do encenador, Maria Teresa da Silva Oliveira começou a representar aos 11 anos, em “Espadelada”, uma espécie de opereta muito simples. Aos 65 anos, considera que o teatro “é muito útil para a cultura geral e insubstituível nos intervalos da minha vida de dona de casa”. João Rodrigues Medina: Aos 38 anos, João Rodrigues Medina gostaria que o seu filho, de sete, continuasse a herança que ele já recebeu do pai. Natural de Tavarede, desloca-se todos os dias para a Figueira, onde é proprietário duma pequena barbearia, num dos principais largos da cidade. Amador há 22 anos, considera que o teatro “como se faz em Tavarede, é muito útil para as pessoas. Aprende-se muita coisa que, de outro modo, nunca se conseguiria”. João da Silva Cascão: “O Teatro é a minha segunda casa. E não o é mais porque a saúde e a idade já não me permitem muitas brincadeiras” – afirma João da Silva Cascão, natural de Tavarede, mas, actualmente, a residir na Figueira da Foz, onde é proprietário duma pequena serralharia de quatro empregados. Actor sem interrupção, desde os 18 anos, começou a representar porque “era a única maneira do pai (César da Silva Cascão, um dos fundadores do grupo) me deixar sair à noite”. Agora, aos 65 anos, “só pode ser uma rábula pequena para o nome vir no programa. Já tenho muitas dificuldades em decorar e ouvir o ponto”. José Lopes Medina: Casado, com 30 anos, José Lopes Medina representa desde os 15 anos. “Para a cultura foi a melhor coisa que poderia ter conseguido. A minha familia tem largas tradições no grupo e, por isso, eu não poderia deixar de representar”. Convidado, para um “teste” pelo “Teatro Experimental do Porto” a sua vida profissional (sócio gerente duma casa de artigos electrodomésticos, impediu-o de aceitar a proposta. “É uma pena – comenta – que todas as terras não tenham o seu grupo teatral”. António Manuel Morais: Tem 17 anos e frequenta o sétimo ano do liceu. Filho dum segundo oficial, chefe da secção do Grémio dos Armadores de Pesca da Sardinha, e duma professora primária de Tavarede, foi para o grupo “por saber que era dirigido por um homem de talento que sabe muito de teatro”. Grande apaixonado da fotografia e da música considera o Teatro “como uma evasão e uma fuga”. O profissionalismo é hipótese a considerar e, quando em Outubro for para a Universidade (estudar Direito) tentará o teatro universitário. Rosa Maria dos Santos Rodrigues da Silva: Tem 17 anos e é a mais velha duma familia de sete irmãos. Aprendiz de costureira numa fábrica de malhas foi para o teatro pela mão da Maria Inês. Natural de Cacia (Aveiro) vive há seis anos no Casal, uma aldeia que dista de Tavarede cerca de meia hora. “Nunca faltei a nenhum ensaio a não ser quando estou doente”. Ser actriz profissional é o grande sonho da sua vida.