sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 7



            “Que sendo o Couto de Tavarede muito pequeno, tráz nele um grande rebanho de cabras, destruindo todas as vinhas e mais novidades dos pobres, e se acaso lhas deitam fora os donos das fazendas, os criados se levantam contra eles e os ameaçam com seu amo, cujo respeito os intimida a não defenderem o que é seu. E o mesmo sucede com os gados das pessoas que são da sua casa, por serem muitos os compadres e afilhados que logrão da isenção e privilégios da mesma, e estes, ainda que os seus gados sejam daninhos, não são coimados e se algum, por esquecimento da Justiça o foi, logo o faz riscar do livro e fica isento da coima”.

         Retirámos este apontamento da carta que o cabido da Sé de Coimbra enviou ao rei D. José, contando as arbitrariedades e tropelias que o então morgado de Tavarede, Fernando Gomes de Quadros, cometia contra o pobre povo da nossa terra e que acabou por ter o resultado final da mudança da câmara de Tavarede para a nova vila da Figueira da foz do Mondego, que levou à queda do poderio dos fidalgos tavaredenses.

Não esquecemos o lamento que o David Seco, personagem da fantasia ‘Chá de Limonete’ fez, a propósito do relatado acima, aos seus conterrâneos: “isso é que eu não perdoo ao fidalgo: fazer leite de cabra duma vinha que dava uma pinga de quinze graus”.

Teria razão no seu lamento, mas, o que é verdade, é que os abusos feitos pelo morgado e seus criados, passaram a ser feitos pelos cabreiros da terra, e não só, de acordo com a notícia publicada em Junho de 1906 num periódico figueirense:

“São grandes os prejuizos que as cabras fazem diariamente assaltando os prédios e devastando as ceáras. Todos se queixam d’este mal, que n’outro tempo se corrigia facilmente, mas hoje, graças à novissima legislação, não pode o pequeno proprietario defender o que lhe pertence, porque é dispendioso e complicado o processo e geralmente fica n’ele condenado, porque é dificil saber quem é o dono da cabrada que faz qualquer damno.
            Há muito tempo foi apresentado à camara municipal um requerimento assinado por centenares de proprietarios de varias freguezias do concelho, pedindo o restabelecimento da antiga disposição do codigo de posturas em que, por meio de multas, se corrigiam facilmente os abusos dos cabreiros e a municipalidade lucrava muito, já que eram amiudadas as transgressões. Esse requerimento foi indeferido!
            Dizem os cabreiros que enquanto houver cabritos hão de fazer o que quizerem”.

     Pela nossa memória perpassam muitas recordações relacionadas com este tema. Recordamos nossa avó Otília que, com a sua bata branca e com o latão com o leite, provindo da ordenha das duas vacas leiteiras, que mantinham no pequeno curral sito ao fundo do quintal, ia diariamente à Figueira vender a produção às suas habituais clientes.

         Um dos cabreiros locais era o Joaquim Lopes, vulgarmente conhecido por Joaquim Tarouco, que tinha um rebanho de cabras que, manhã cedo e à tardinha, atravessava a aldeia, sinalizando a sua passagem com o tilintar de diversas campainhas, que alguns dos animais levavam penduradas ao pescoço. E não eram raras as vezes que causavam estragos em propriedades alheias.

         “ Num dos últimos dias o cabreiro Joaquim Lopes, conhecido por Tarôco, metteu a sua grande cabrada na fazenda da srª. Jesuina Nunes, na Mateôa, causando-lhe grandes prejuizos.
            Mas não foram só os prejuizos. Como a proprietária o fosse encontrar n’aquelle lindo serviço, tratou, juntamente com os filhos e mulher, de apedrejar a pobre Jesuina, que é entrevada e que a custo se livrou das pedras.
            É assim que os cabreitos fazem àquelles a quem assaltam e roubam as suas propriedades. E não há justiça para estes malandros?”.       

         Enquanto seu filho, o Evaristo, levava as cabras para pastarem, o Joaquim Tarouco ia para a Figueira vender o leite produzido. Eram conhecidos os seus pregões anunciando o produto no Bairro Novo da cidade, especialmente durante a época balnear.

         Também na quinta do Paço, à altura propriedade do sr. Marcelino, havia um grande rebanho de cabras de que era pastor o Diogo.
         Por meados do século passado, acabou a exploração leiteira na terra. As autoridades competentes reconheceram que, apesar da obrigatória inspecção que os vendedores tinham de fazer no laboratório municipal, acabaram por proibir a actividade, por falta de condições higiénicas e salubridade.

         A partir de então nunca mais a velha aldeia ouviu o alegre tilintar das campainhas dos rebanhos, manhã cedo para irem em busca do seu manjar e à noitinha recolhendo ao seu curral, o do Joaquim Tarouco um pouco adiante da fonte, no caminho da Várzea, e o do Marcelino, no velho solar dos fidalgos de Tavarede transformada em redil.
        
    









O Associativismo na Terra do Limonete - 102

O Jogo do amor e do acaso, Monserrate e Cântico de Aldeia, esta última uma nova fantasia de Mestre José Ribeiro, foram as peças que se seguiram no palco tavaredense. No próximo domingo volta à cena, pela 16ª vez, a opereta “Cântico da Aldeia”.
 

 Cena de Cântico de aldeia

 Registamos o facto que demonstra bem o carinho com que o público acolheu a peça musicada. O espectáculo terá lugar na SIT, pelas 16,30 horas. Entretanto, no passado sábado foi a “récita do autor”. Assinalando a 15ª representação, os componentes do grupo, em cena aberta, ofereceram várias lembranças e ramos de flores ao autor da peça e ensaiador do grupo, sr. José da Silva Ribeiro.

Não podemos deixar de referir que, em reunião camarária, foi deliberado condecorar José Ribeiro. Oportunamente teceremos mais vastas e justas considerações a propósito da figueira da José Ribeiro, um lutador e um homem de teatro, personalidade que à causa da arte de Talma dedicou os melhores anos da sua vida.
         Hoje, limitar-nos-emos a revelar que a Câmara Municipal da Figueira da Foz acaba de fazer justiça ao homem da “Voz da Justiça”, ao jornalista, ao revolucionário, ao homem que deu uma nova vida à risonha aldeia de Tavarede, com os seus sessenta e tal anos de dedicação à Sociedade de Instrução Tavaredense, transformando a colectividade, a sua terra e a cidade da Figueira num centro de teatro amador credor dos mais rasgados elogios.
         Foram longos anos ao serviço da Figueira da Foz, onde Mestre José Ribeiro continua a ser o mesmo, pois que os anos não lhe pesam, e prossegue com a mesma juventude de sempre, a dirigir, a criar, a impulsionar o meio, a fazer artistas, a impregnar de cultura o povo que o conhece, que o admira, que não se cansa de lhe tecer as suas homenagens.
         A Edilidade figueirense acaba de cometer uma acção que a nobilita, atribuindo a José da Silva Ribeiro o galardão máximo da cidade, a sua medalha de ouro.
         O teatro em Tavarede é efectivamente uma tradição. Tradição que José Ribeiro criou. Tradição que José Ribeiro tem sabido manter ao longo dos tempos. Falar de Tavarede, é falar de teatro. A Terra do Limonete, como é conhecida a linda povoação de Tavarede, projectou-se por esse País, levando a sua arte aos mais longínquos pontos de Portugal.
         De norte a sul, apreciou-se, admirou-se a arte de representar dos actores de Tavarede. Profissionais no aspecto, na declamação, no pisar do palco. Amadores pela dedicação, pelo dar-se integralmente a uma distracção que os galvaniza, os entusiasma.
         Bem haja José Ribeiro pela cultura que ofereceu a Tavarede e ao seu concelho.
Bem haja a Câmara pela atribuição da medalha de ouro que premeia um homem que incontestavelmente a ela fez jus. Por tudo. Mas a entrega seria feita em acto público. Não concordou o condecorado, pelo que a entrega ficou adiada.

Foi em 1977 que, por iniciativa do Lions Clube da Figueira da Foz, se realizaram as I Jornadas de Teatro Amador da Figueira. A Sociedade Tavaredense não participou naquele ano. Mas, convidado a falar sobre estas Jornadas, em jantar oferecido por aquele clube de serviços, Mestre José Ribeiro falou longamente sobre as mesmas. Como complemento da reportagem que fizemos em reunião do Lions Clube da Figueira da Foz, num jantar que reuniu praticamente tgodos os associados da colectividade onde convergem individualidades de destacada posição social, serão em que foram convidados de honra uma distinta médica (drª Maria Raquel Pessoa Lopes), e um homem de teatro (José da Silva Ribeiro), vamos hoje referir-nos áquele que António Pedro considerou o primeiro ensaiador de teatro amador português. António Pedro que por sua vez considerara também Bernardo Santareno como o melhor autor de todos os tempos.
         Pois José Ribeiro, pessoa que se encontra desde há longos anos ligado à Sociedade de Instrução Tavaredense (que lamentavelmente esteve ausente das 1ªs Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz), deslocou-se até ao Lions Clube onde conversou sobre a Arte de Talma, tecendo diversas considerações, muito oportunas e muito interessantes, relacionadas com a realização que há pouco tempo teve o seu epílogo, ou seja, as tais 1ªs Jornadas de Teatro levadas a efeito pela aludida associação.
         E foi, como é evidente, feliz o Lions Clube em convidar este homem de teatro, uma verdadeira dedicação e um estudioso das coisas de cultura, porque os presentes tiveram oportunidade também de escutar uma lição bastante agradável sobre a arte de representar.
         “O Festival foi um êxito porque? – comentava José Ribeiro – pelo brilho de todas as representações? Pela madureza que o Festival apresentou no que diz respeito à arte de representar mesmo por amadores? No que diz respeito ao valor das peças que foram trazidas à Figueira? Não. Foi um êxito, e por esse êxito eu dirijo as minhas saudações muito calorosas ao Lions Clube, que promoveu esse Festival. Foi um êxito porque, trazendo à Figueira todos os grupos que aqui vieram, mostrou, e esses grupos mostraram, por isso daqui os saúdo a todos, todos sem excepção de nenhum, mostrou que havia vontade de fazer teatro, e tanta vontade que alguns desses grupos ensaiaram propositadamente peças para trazerem ao Festival.
         Alguns ainda nem tinham representado, outros prestaram-se até a vir representar tapando uma falha motivada pela doença da intérprete duma peça de Bernardo Santareno, prestaram-se a vir aqui em circunstâncias particularmente difíceis, sabendo que vinham defrontar-se, - eu digo defrontar-se sem querer pronunciar esta palavra como uma trombeta de guerra – não vinham, pois, defrontar-se, mas vinham trabalhar onde trabalhavam outros grupos mais preparados do que eles”.
         E José Ribeiro, sempre com a sua habitual fluência, prendendo com facilidade a atenção do público – por vezes parece-nos estar a presenciar uma representação tal a sua identificação com o teatro – prosseguiu, falando do carinho que o público dispensou às Jornadas, acorrendo em número representativo:
         “Vejamos que com este Festival se levou até ao Teatro do Peninsular muito público da Figueira que não poria os pés numa récita de amadores, quanto mais em 8 ou 9 récitas! A organização teve o mérito e o condão de trazer ao teatro toda essa gente que eu lá vi. Mas mais ainda. Teve o condão de dar expansão a esse movimento, de tal maneira que de todas as freguesias vieram acompanhantes entusiastas, calorosos, aplaudindo, batendo palmas até em situações que me parecem um pouco deslocadas, mas que actuaram com um entusiasmo, com um calor, com que num jogo de futebol os partidários da Naval aplaudem o que é bom e o que é mau da Naval e não aplaudem o que é bom dos outros grupos…”.
         Todos estranharam, como é evidente e natural, a ausência da Sociedade de Instrução Tavaredense, com todo o prestígio que caracteriza a simpática e prestimosa colectividade da terra do limonete, nestas Jornadas de Teatro Amador. Razões em ordem técnica invocadas teriam estado na razão de tal facto, e certamente que no próximo ano, quando da efectivação das II Jornadas, Tavarede não deixará de marcar a sua presença, não deixando, por seu turno, os créditos por mãos alheias.
         Mas José Ribeiro, não deixou perder a ocasião para falar do teatro de Tavarede, dos seus êxitos, dos amadores que no decorrer dos anos mais contribuíram para o prestígio da Sociedade.
         E acerca dum célebre concurso nacional de teatro amador em que a SIT participou, bem contra a vontade de José Ribeiro, que era e é, como disse, alérgico a participações competitivas, pois que, como salientou “não fazemos teatro para juris, mas fazemos teatro para o povo da nossa terra”, concurso em que foi marcada presença muito dignificante, disse o conhecido autor do “Cântico da Aldeia”:
         “Tavarede obteve, além das menções honrosas, além dos prémios, incluindo o prémio do encenador, prémio que aliás não recebi e não recebi porque não quis, porque não fui lá, teve, além disso, a honra de obter o primeiro prémio da interpretação masculina e o primeiro prémio da interpretação feminina. O primeiro, para um amador realmente excelente, infelizmente afastado já do teatro, por razões de saúde principalmente, que era o António Jorge da Silva, e o segundo (1º prémio de interpretação feminina), a uma mulher genial, a uma amadora excepcional, uma rapariga que da ponta dos dedos dos pés até à ponta dos cabelos respirava teatro. Mas teatro com garra, com alma, e sobretudo com inteligência, e acima da inteligência, com muito amor. Teatro de paixão. Chamava-se, e chama-se, ainda é viva, Violinda Medina e Silva”.
         José Ribeiro comentou seguidamente as várias peças representadas, lembrou muito especialmente Bernardo Santareno, aquele que é o autor português, vivo, mais representado, e a este propósito evocou a figura do grande homem de teatro que foi António Pedro, director experimental do Porto. Falou de encenação e do seu grande impacto perante o público. A respeito desse importante pormenor da arte de representar, referiu ainda:
         “Na Universidade do México há uma cadeira de teatro. Exerce lá o professorado Fernando Vagner, que nós conhecemos através do seu manual de encenação, da sua táctica teatral. E é ele quem nos diz: “Preparar a peça para a representação é muito importante. Mas é muito importante também o critério da escolha. Primeiramente tem de se ver para quem se destina a peça, e com que elementos se conta para pôr a peça em cena, qual é o público a que se destina. Porque isto de fazer teatro sem querer ter público, não pode ser porque o teatro não vive sem público. O público é indispensável ao teatro”.
         José da Silva Ribeiro teceu ainda várias considerações a respeito de vários intérpretes dos diversos agrupamentos participantes nas Jornadas, e a respeito de alguns veio a proferir este comentário: “Quem mos dera em Tavarede”.
         Foi, efectivamente, um bom serão, restando-nos acrescentar a propósito da hipótese de vir a deslocar-se até à Figueira um homem de teatro para ministrar ensinamentos aos vários agrupamentos concelhios, como consequência destas 1ªs Jornadas, o crítico da sessão, dr. José Dias Costa, comentou, e com certa oportunidade, que não haveria necessidade de recorrer a gente estranha quando aqui mesmo, ao pé da porta, havia alguém – e referia-se a José Ribeiro – quem tinha conhecimentos suficientes para fazer algo em favor do teatro, ao serviço, já não só da Sociedade de Instrução Tavaredense, mas em favor de tantos outros militantes da maravilhosa arte de representar, de bom representar, acrescente-se.

Prestes a atingir as suas Bodas de Diamante, a Sociedade comemorou o 74º aniversário, tendo levado à cena uma nova peça de Shakespeare, Tudo está bem quando acaba bem. E foi com esta peça que a colectividade participou nas II Jornadas do Teatro Amador da Figueira. Com a apresentação da peça “Tudo está bem quando acaba bem”, de Shakespeare, encerraram as II Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, uma iniciativa do Lions Clube desta cidade, com o patrocínio e colaboração de diversas entidades, nomeadamente o Grande Casino Peninsular, que cedeu as suas instalações para que a realização fosse um facto.
         Num balanço muito superficial diremos que, efectivamente, o nível da organização, no que concerne aos grupos presentes, melhorou consideravelmente, notando-se, à priori, que houve evidentemente uma muito aceitável e legitima preocupação em trazer ao Peninsular boas obras, com correspondentes boas actuações.

         Analisando – como o devemos fazer – a realização e as presenças, no âmbito dum teatro amador tradicional das aldeias do nosso concelho, temos de convir que, felizmente, os aspectos culturais ainda são preocupação das nossas gentes, pois que não alienadas completamente a solicitações mais fáceis e, também, naturalmente prejudiciais.
         E, para já, fazemos votos para que em 1979, com a realização das III Jornadas, o nível de 78 seja superado, já que os amadores terão consigo o lenitivo e o estímulo do público figueirense, que nunca faltou a dar-lhes o seu apoio e consequentemente, a manifestar-lhes o seu agrado com os seus fartos aplausos.
         Encenadores perpassaram pelas Jornadas, amadores se distinguiram, já que possuíam qualidades magnificas para o desempenho dos papéis que lhes foram distribuídos, numa certeza de que no concelho da Figueira existem valores muito consideráveis na arte de representar, alguns mesmo a causar inveja a profissionais.
         Causou natural expectativa a apresentação do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, aguardada com certo interesse, dada a tradicional qualidade dos seus espectáculos, superiormente escolhidos por um homem de teatro, José Ribeiro, que à Arte de Talma se dedica há mais de 60 anos.
         E uma coisa é certa: a mão do encenador esteve presente em todos os momentos nesta peça de William Shakespeare.


Tudo está bem quando acaba bem

A movimentação dos amadores, a sua presença, dizem, logo à partida e no decorrer da representação, que estão bem dirigidos.
         O que, efectivamente, José Ribeiro não pode fazer é milagres, e daí que, naturalmente, não haja hipótese de haver uma coesão que se exigiria em profissionais, entre todos os participantes.
         O pretenciosismo, o empolamento patenteado por certos amadores, traiu-os um tanto e não os deixou brilhar ao nível, por exemplo, de Ana Paula Fadigas, a melhor figura feminina (Helena), de José Luís Nascimento, quanto a nós a grande presença masculina, interpretando muito bem o papel de “Bobo”, e Fernando Reis, que teve momentos muito altos no “seu” Lafeu.
         Nestes, a naturalidade teatral, granjeou-lhes o primeiro plano, dando à peça, que se arrasta um tanto, mercê de inúmeras transicções de cena, uma certa vivacidade que doutra forma a mesma não teria. O desejo de fazer bem prejudicou o papel importante de José Medina, que se excedeu no seu ênfase, ultrapassou as barreiras do teatro, faltou-lhe naturalidade. A caracterização também o não ajudou, e o “seu” Conde de Rossilhão, que era dos principais papéis, ficou muito aquém do que seria de exigir.
         A cenografia, a cargo do Prof. Manuel de Oliveira e José Maria Marques, valorizou imenso o espectáculo, que, ao fim e ao cabo, esteve em plano idêntico a algumas boas representações que vimos no decorrer das Jornadas.
         E já agora o nosso aplauso para a Sociedade de Instrução Tavaredense, por mais uma vez se preocupar, até à minúcia, na construção dum espectáculo em que cenários, guarda-roupa, e classicismo da obra escolhida, marcaram uma determinada posição.

         Jorge Galamba Marques, em nome do Lions Clube, veio ao proscénio, no início da representação, anunciou a realização das III Jornadas para 1979, e agradeceu a colaboração de todos quantos contribuíram para que a organização atingisse os seus propósitos, não esquecendo os órgãos de comunicação social, focando muito especialmente o “Diário de Coimbra”, o que sensibilizados agradecemos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 6

Água, vinho e leite
Produtos tavaredenses com fama!

         Foram três produtos tavaredenses que tiveram muita fama! Comecemos pelo vinho. Até porque o vinho lembra o S. Martinho e este santo, desde tempos imemoriáveis, é o padroeiro de Tavarede. Ainda não há muitos anos o vinho tinha grande influência na nossa terra. “... há vinte ou trinta anos, havia aqui duas tabernas. Hoje temos cinco!”. (Chá de Limonete)
        

É verdade! Tendo sido Tavarede uma terra de índole agrícola, havia sempre um pedaço de terreno, cuidadosamente tratado, onde imperavam pujantes cepas, ou corrimões que ladeavam as leiras semeadas. Nalguns quintais, enormes parreiras proporcionavam sombras agradáveis nas quentes tardes do verão.
 

A grande maioria dos tavaredenses apenas fabricavam pequenas quantidades para consumo próprio, não sendo raros os casos em que recorriam a uns cântaros de água.  Mesmo assim, poucos eram aqueles que conseguiam colheita para todo o ano. E poucos, mesmo muito poucos, eram aqueles que vendiam o seu vinho.

Havia, porém, alguns locais na freguesia onde se fabricava vinho de qualidade, especialmente branco. Encontramos diversas referências ao vinho branco produzido nos Condados! E nas encostas da Matiôa e do Saltadouro, terrenos fortes cheios de sol, era o tinto e o palhete que dominavam.

         Mas, embora os produtores fossem muitos, os bebedores eram em número substancialmente superior. Influência, talvez, do orago da terra... Mesmo nas primeiras décadas do século vinte encontram-se muitas notícias, na imprensa figueirense, sobre o consumo excessivo de vinho na terra, o que muitas vezes dava azo a quezílias e desordens, que algumas vezes atingiam gravidade. Questões do progresso comercial, como o aumento de tabernas referido acima!

         Baseados nas citadas velhas notícias, encontramos muitas notas lamentando a preferência da taberna em desfavor da escola que há mais de cento e dez anos já funcionava, gratuitamente, na colectividade do Terreiro. Mas era nas tabernas que, embrenhados em jogos de cartas, os trabalhadores tavaredenses iam passar os serões, bem longos no inverno, gastando na bebida muitas vezes o dinheiro necessário à sua alimentação e de sua família.

         Na verdade foi bastante longa e dura a luta travada contra tal vício, onde se deve destacar a acção desempenhada pelas associações locais, sempre tentando atrair os analfabetos trabalhadores à educação e â instrução que as aulas proporcionavam. Como exemplo, citamos o espectáculo promovido pela Sociedade levado à cena nas comemorações do seu aniversário, em Janeiro de 1911, transcrevendo um pequeno apontamento encontrado num jornal figueirense. “... é um pequeno drama e uma grande lição que oxalá aproveite aos que infelizmente preferem a frequência na taberna e no jogo ao santuário da escola. Pintando claramente as consequências funestas dos que se deixam arrastar pelo vício até à prática dos mais horrendos crimes, termina pela apoteose à instrução”.
         Muitas foram as vezes que houve aproveitamente do teatro para mostrar os malifícios do abuso do vinho e as vantagens da educação, aprendendo a ler e a escrever. Somente como exemplo, retirámos da fantasia ‘Na Terra do Limonete’, levada à cena em Abril de 1912, este pequeno fragmento: Zé Borracho – Este é do bom. Foi tirado da pipa ou da picheira? (gesto do Taberneiro) Bem! (senta-se e fala com os copos, muito bêbedo) Pois sim! Diz que eu já lá vou! Quer dinheiro? Vá roubá-lo! (pausa) Quais filhos, nem qual diabo? Cada um que trate de si! (pausa) Para roubar ou pedir não é preciso aprender. Eu cá deixo tudo menos de beber! (levanta-se com o copo e canta)
                    Do funil faço a mortalha,
                     D’uma pipa o caixão,
                     Da garrafa uma vela,
                     Fico de copo na mão;

                     O beber alegra a gente,
                     O fumar nos dá prazer.
                     Quem não fuma, quem não bebe,
                     Que alegrias pode ter.
         Mas foi uma luta proveitosa embora longa. Os tavaredenses acabaram com tal vício e, em grande parte devido às lições colhidas nos espectáculos teatrais, acabaram por se integrarem no lote dos povos do concelho mais instruidos e cultos.

         Voltando ao princípio, recordamos que, naqueles saudosos e já distantes tempos da nossa meninice, a nossa terra, cujas leiras ao redor da aldeia eram cuidadosamente amanhadas, q       uase que em todas as casas se espichava um pequeno barril quando era chegado o dia de S. Martinho.

         O tempo das vindimas era um tempo alegre e feliz na aldeia, mesmo para aqueles que tinham de ir à fonte buscar alguns cântaros de àgua para atestarem o pequeno barril, raras vezes uma pipa.

         Recordamos o tempo em que, em duas ou três adegas locais, se pendurava à porta uma grande ramada de loureiro, que era o aviso de que ali se vendia vinho novo de produção própria, ao copo e à garrafa. E muitos eram aqueles que, vindos da cidade ou em especial de Buarcos aqui vinham merendar nas tardes domingueiras, petiscando saborosas sardinhas asssadas, saborosa broa caseira e algumas azeitonas, que acompanhavam com o saboroso vinho novo.

         Tinha fama o vinho que assim era vendido. Das encostas do Saltadouro, da Matiôa e dos Condados, onde as vinhas eram cuidadosamente tratadas. E enquanto a torneira da pipa deitasse era garantida a clientela.


         Certamente que ainda haverá quem fabrique o seu vinho. Mas, e  com toda a certza o dizemos, já não existe na terra nenhuma adega que, por ocasião do S. Martinho, abra a sua porta com o ramo de louro pendurado.

O Associativismo na Terra do Limonete- 101

Foi, pois, ao espectáculo do passado dia 4, realizado no teatro da SIT, que o ilustre professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sr. Dr. Hernâni Cidade, eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações Camonianas – que desde há muitos anos se digna honrar-me com a sua preciosa amizade, a pontos de já por diversas vezes ter colaborado no meu “Jornal de Sintra” -, esteve presente e se fez acompanhar de diversos intelectuais seus amigos.
         Entusiasmado por meu filho, que dias antes, vindo do Norte e indo beijar a familia a Tavarede (onde também nasceu), assistiu a uma representação da aludida peça, também, com ele, a esposa e filha, minha mulher e um casal amigo, ali me desloquei.
         Dou-me por muito feliz tê-lo feito. O contrário redundaria numa carga de remorsos que         nunca mais deixaria de pesar-me na consciência…
         Ao abrir o espectáculo, José Ribeiro, descendo ao proscénio, num improviso felicíssimo, como sempre, cumprimentou e saudou, brilhantemente, o ilustre e categorizado académico, regozijando-se com a grata presença de tão elevada personalidade, que honrava, sobretudo a veneranda colectividade de cultura popular da sua terra e os seus humildes amadores teatrais, todos gente do povo, para quem pediu a maior generosidade e benevolência na interpretação das peças que iriam apreciar.
         E o espectáculo começou pela ordem em acima referida…
         … e acabou, sob uma estrepitosa, interminável e delirante salva de palmas, devidas aos artistas competentes, e chamadas entusiásticas a José Ribeiro . que bem mereceu, de facto, as retumbantes manifestações de carinhoso apreço de que foi alvo!
         Antes do pano baixar, o ilustre espectador, sr. Dr. Hernâni Cidade, subiu ao palco, onde lhe foi entregue, por uma amadora, um lindo e viçoso ramo de flores, após o que, no uso da palavra, proferiu um eloquente discurso – que foi bem uma magnifica lição histórica – em que envolveu, na simpática pessoa de José Ribeiro, o seu apreço ao grupo cénico que acabara de apreciar e o seu abraço de simpatia ao bom povo da linda aldeia em que se encontrava, rodeado dos mais cativantes e bem merecidos carinhos.
         Uma apoteótica salva de palmas coroou a magistral lição do ilustre orador.

Prof. Dr. Hernâni Cidade, em Tavarede

No salão de recepções da SIT foi, depois, servido a convidados de honra presentes ao espectáculo, amadores cénicos, etc., um suculento “copo-de-água”, que deu ensejo a que todos os presentes se regalassem de ouvir mais dois brilhantes discursos, primeiro, pelo velho amigo José Ribeiro, depois, pelo eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”.
         Mais uma vez saí, orgulhoso, de Tavarede – e profundamente envaidecido pela cada vez mais aprimorada capacidade artística dos meus conterrâneos! Só é pena que, tanto o espectáculo de agora, como tantos outros que lá têm sido realizados, todos da mais reconhecida e categorizada interpretação e rigorosa encenação, fiquem só por ali e pela Figueira…
         Um grande abraço de parabéns, pois, ao “velho” Zé Ribeiro e aos seus pupilos, entre os quais a “hierarquia” dos Medinas continua a estar bem representada – em quantidade e qualidade – graças a Deus!...
         De represso a Sintra, pensei em dirigir um pedido de duas palavrinhas, sobre os tavaredenses, a tão ilustre catedrático, quase certo de que não deixaria de ser gratamente atendido; e, como tal, assim o fiz, tendo logo merecido a desvanecedora atenção de Sua Exª, que se dignou honrar-me com a carta que se segue – e aqui se agradece, reconhecida e gratamente, com um sincero e respeitoso abraço de muita admiração e estima. Bem haja, pois, por tamanha honra, sr. Dr. Hernani Cidade:
         Sr. António Medina, Meu prezado amigo:
         Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.
         Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano – El-Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer.
         José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração, que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra a sua devoção cívica e a sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneo.
         É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.
         Aqui tem, meu querido amigo, o que, da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
         Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo Hernâni Cidade. 

Entretanto um novo projecto de obras começou a formar-se: a construção de um pavilhão desportivo. Anexo à sede e a edificar no antigo campo de jogos. Nova campanha para angariação de fundos, muita dedicação e muito esforço colectivo, e a obra acabou por iniciar-se e, anos mais tarde, concluir-se.

         Depois do movimento de 25 de Abril, Mestre José Ribeiro escreveu e ensaiou uma nova fantasia. Deu-lhe o título de Manta de Retalhos. Sobre esta peça, não resistimos à transcrição desta nota. Eu que não assisti a nenhuma estreia, fui desta vez a uma, sem constrangimento, com prazer. Isto aconteceu num lugar pouco conhecido, porém, o mais teatral de Portugal: em Tavarede. Vila de 500 habitantes – perto da Figueira da Foz -, possui um grupo de teatro amador já famoso e cujo mentor, José Ribeiro, não precisa das acções de dinamização cultural vindas de fora, porque ele a dinamiza há já algumas dezenas de anos, e de dentro.
         Na verdade, em Tavarede faz-se mais teatro do que em Lisboa e do que em Paris e Londres: dos 500 habitantes, na última estreia, vimos cerca de 40 actores, uma dúzia ou mais de músicos tocando no fosso da orquestra, 20 técnicos de cena, enfim, uma percentagem considerável da população local.
         A peça estreada chama-se “Mesa Redonda” e o seu autor compilador é uma vez mais o infantigável José Ribeiro, 80 anos passados; mesmo após uma recente grave doença, continua cheio de “verve” e quando anda, os outros têm de correr atrás. Diz-se: o que há de bom em Tavarede, é a água e o José Ribeiro. Mas voltando ao espectáculo: era um exemplo vivo da aliança da cultura “culta” (Gil Vicente, Sóror Mariana, Cântico dos Cânticos) com as preocupações locais  e até políticas do momento. Uma revista “sui generis”, com quatro “compères” (de mesa redonda quadrada), com música, canções, finais e tudo, com dezenas de cenários ou apontamentos montados num abrir e fechar de olhos, rigorosamente, sem falha; e, dentro desse global recreativo os textos muito belos e sérios.
         A estreia foi um êxito mas o eco não chegou, que eu saiba, a Lisboa. Ficou no seu lugar para o qual foi concebido o espectáculo, com honestidade, trabalho e talento, sem modas e oportunismos. E quase me penitencio de falar dele, neste jornal: é como desvendar deslealmente um segredo, embora movido pela simpatia, admiração e até mais. Eis o abraço do espectador da estreia, desta vez não renitente. Jorge Listopad.


sábado, 1 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 5

S. João Baptista, o ‘santo casamenteiro’, terá sido aquele que a nossa terra festejou com o maior entusiasmo e animação.

Meninas de Tavarede:
   Apanhai por vossa mão
 Raminhos de limonete
 P’ró altar de S. João!

Danças não faltavam durante o fim de semana festivo, normalmente o primeiro fim de semana do mês de Julho, pavilhões, largos e ruas artisticamente enfeitadas e as tradicionais cavalhadas que iam dar a volta à Figueira regressando por Buarcos, eram os principais eventos que atraíam imensos grupos de gente da cidade e dos lugares vizinhos.

“Pois quando ressuscitaram o São João, o grande número das festas foram as cavalhadas. Porquê? Porque lá estava Tavarede em peso. A freguesia mandou uma burricada... mais comprida que do Rio ao Paço! Os burros eram tantos que a gente nem se via no meio deles... Ganhámos o prémio! Tavarede marca!”. (Chá de Limonete – 3º acto)

Recordemos a história deste Santo:
Infância e educação
João nasceu numa pequena aldeia chamada Aim Karim, a cerca de seis quilômetros lineares de distância a oeste de Jerusalém.  Segundo interpretações do Evangelho de Lucas, era um nazireu de nascimento. Outros documentos defendem que pertencia à facção nazarita de Israel, integrando-a na puberdade, era considerado, por muitos, um homem consagrado. De acordo com a cronologia neste artigo, João teria nascido no ano 7 a.C.; os historiadores religiosos tendem a aproximar esta data do ano 1º, apontando-a para 2 a.C..
Como era prática ritual entre os judeus, o seu pai Zacarias teria procedido à cerimónia da circuncisão, ao oitavo dia de vida do menino. A sua educação foi grandemente influenciada pelas acções religiosas e pela vida no templo, uma vez que o seu pai era um sacerdote e a sua mãe pertencia a uma sociedade chamada "as filhas de Araão", as quais cumpriam com determinados procedimentos importantes na sociedade religiosa da altura.
Aos 6 anos de idade, de acordo com a educação sistemática judaica, todos os meninos deveriam iniciar a sua aprendizagem "escolar". Em Judá não existia uma escola, pelo que terá sido o seu pai e a sua mãe a ensiná-lo a ler e a escrever, e a instruí-lo nas actividades regulares.
Aos 14 anos há uma mudança no ensino. Os meninos, graduados nas escolas da sinagoga, iniciam um novo ciclo na sua educação. Como não existia uma escola em Judá, os seus pais terão decidido levar João a Engedi (atual Qumram) com o fito de este ser iniciado na educação nazarita.
João terá efectuado os votos de nazarita que incluíam abster-se de bebidas intoxicantes, o deixar o cabelo crescer, e o não tocar nos mortos. As ofertas que faziam parte do ritual foram entregues em frente ao templo de Jerusalém como caracterizava o ritual.
Engedi era a sede ao sul da irmandade nazarita, situava-se perto do Mar Morto e era liderada por um homem, reconhecido, de nome Ebner.

Morte dos pais e início da vida adulta]
O pai de João, Zacarias, terá morrido no ano 12 d.C.. João teria 18-19 anos de idade, e terá sido um esforço manter o seu voto de não tocar nos mortos. Com a morte do seu pai, Isabel ficaria dependente de João para o seu sustento. Era normal ser o filho mais velho a sustentar a família com a morte do pai. João seria filho único. Para se poder manter próximo de Engedi e ajudar a sua mãe, eles terão se mudado, de Judá para Hebrom (o deserto da Judeia). Ali João terá iniciado uma vida de pastor, juntando-se às dezenas de grupos ascetas que deambulavam por aquela região, e que se juntavam amigavelmente e conviviam com os nazaritas de Engedi.
Isabel terá morrido no ano 22.d.C e foi sepultada em Hebrom. João ofereceu todos os seus bens de família à irmandade nazarita e aliviou-se de todas as responsabilidades sociais, iniciando a sua preparação para aquele que se tornou um “objectivo de vida” - pregar aos gentios e admoestar os judeus, anunciando a proximidade de um “Messias” que estabeleceria o “Reino do Céu”. De acordo com um médico da Antioquia, que residia em Písia, de nome Lucas, João terá iniciado o seu trabalho de pregador no 15º ano do reinado de Tibério. Lucas foi um discípulo de Paulo, e morreu em 90. A sua herança escrita, narrada no "Evangelho segundo São Lucas" e "Actos dos Apóstolos" foram compiladas em acordo com os seus apontamentos dos conhecimentos de Paulo e de algumas testemunhas que ele considerou. Este 15º ano do reinado de Tibério César terá marcado, então, o início da pregação pública de João e a sua angariação de discípulos por toda a Judeia em acordo com o Novo Testamento.
Esta data choca com os acontecimentos cronológicos. O ano 15 do reinado de Tibério ocorreu no ano 29 d.C.. Nesta data, quer João Baptista, quer Jesus teriam provavelmente 36 a 37 anos de idade. Desta forma, considera-se que Lucas tenha errado na datação dos acontecimentos.

Influência religiosa

É perspectiva comum que a principal influência na vida de João terá sido o registros que lhe chegaram sobre o profeta Elias. Mesmo a sua forma de vestir com peles de animais e o seu método de exortação nos seus discursos públicos, demonstravam uma admiração pelos métodos antepassados do profeta Elias. Foi muitas vezes chamado de “encarnação de Elias” e o Novo Testamento, pelas palavras de Lucas, refere mesmo que existia uma incidência do Espírito de Elias nas acções de João.
O Discurso principal de João era a respeito da vinda do Messias. Grandemente esperado por todos os judeus, o Messias era a fonte de toda as esperanças deste povo em restaurar a sua dignidade como nação independente. Os judeus defendiam a ideia da sua nacionalidade ter iniciado com Abraão, e que esta atingiria o seu ponto culminar com achegada do Messias. João advertia os judeus e convertia gentios, e isto tornou-o amado por uns e desprezado por outros.
Importante notar que João não introduziu o baptismo no conceito judaico, este já era uma cerimónia praticada. A inovação de João terá sido a abertura da cerimónia à conversão dos gentios, causando assim muita polémica.
Numa pequena aldeia de nome “Adão” João pregou a respeito “daquele que viria”, do qual não seria digno nem de apertar as alparcas (as correias das sandálias). Nessa aldeia também, João acusou Herodes e repreendeu-o no seu discurso, por este ter uma ligação com a sua cunhada Herodíades, que era mulher de Filipe, rei da Ituréia e Traconites (irmão de Herodes Antipas I). Esta acusação pública chegou aos ouvidos do tetrarca e valeu-lhe a prisão e a pena capital por decapitação alguns meses mais tarde.

O batismo de Jesus
João batizava em Pela, quando Jesus se aproximou, na margem do rio Jordão. A síntese bíblica do acontecimento é resumida, mas denota alguns fatores fundamentais no sentimento da experiência de João. Nesta altura João encontrava-se no auge das suas pregações. Teria já entre 25 a 30 discípulos e batizava judeus e gentios arrependidos. Neste tempo os judeus acreditavam que Deus castigava não só os iníquos, mas as suas gerações descendentes. Eles acreditavam que apenas um judeu poderia ser o culpado do castigo de toda a nação. O baptismo para muitos dos judeus não era o resultado de um arrependimento pessoal. O trabalho de João progredia [carece de fontes].
Os relatos Bíblicos contam a história da voz que se ouviu, quando João batizou Jesus, dizendo “este é o Meu filho amado no qual ponho toda a minha complascência”. Refere que uma pomba esvoaçou sobre os dois personagens dentro do rio, e relacionam essa ave com uma manifestação do Espírito Santo. Este acontecimento sem qualquer repetição histórica tem servido por base a imensas doutrinas.    

Prisão e morte
O aprisionamento de João ocorreu na Pereia, a mando do Rei Herodes Antipas I no 6º mês do ano 26 d.C.. Ele foi levado para a fortaleza de Macaeros (Maqueronte), onde foi mantido por dez meses até ao dia de sua morte. O motivo desse aprisionamento apontava para a liderança de uma revolução. Herodias, por intermédio de sua filha, tradicionalmente chamada de Salomé, conseguiu coagir o Rei na morte de João, e a sua cabeça foi-lhe entregue numa bandeja de prata.
Os discípulos de João trataram do sepultamento do seu corpo e de anunciar a sua morte ao seu primo Jesus. (Wikipédia)