segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Histórias e Lendas- 8

Curiosamente a primeira notícia que recolhemos, na imprensa figueirense, relativa à nossa água, é precisamente sobre as fontes, que eram as principais fornecedoras de água à população de Tavarede e da vizinha Figueira. A Fonte da Várzea, quando no anno de 1861 com ella se gastou inefficazmente a somma de 308$855, alem de valiosos materiais que estavam para diversa applicação, foi pela tentativa d'uma mina para serem aproveitados os repares, e o resultado foi, que tendo-se perdido nesses trabalhos a direcção da origem desconhecida, deu que fazer aos encarregados para readequirir a antiga, cujo veio chegaram a perder, é no entretanto é extrahida a púcaros pela profundeza do nivel, sendo mister derregar as aguas externas por meio de vala de communicação com o ribeiro, e esta é a encosta do norte do monte a que o correspondente se refere. A fonte da Lapa está em igual profundidade, e é a continuação do monte. Em Tavarede é a fonte abundante e de excellente qualidade, porém ao nivel da parte mais baixa da povoação situada na planicie”.
Foi o jornal O Figueirense que punblicou esta nota no dia 6 de Setembro de 1863. A partir desta data as notícias sobre a água na nossa terra são muitas.


Mas as águas em Tavarede nem sempre foram abundantes. E se água para se beber e para os gastos caseiros várias vezes teve complicações, maior escassez tiveram os nossos antepassados com a água para as regas das suas sementeiras. Isto aconteceu, por exemplo, no verão do ano de 1876.
                “Pediram há dias alguns proprietários de Tavarede à Câmara Municipal providências sobre a distribuição das águas para regas. Como, porem, não fosse até agora escutado este pedido, houve hontem alli uma grande desordem entre vários indivíduos que se utilisam das águas, desordem esta que pode repetir-se a cada momento, em quanto a câmara não se decidir a nomear um homem para a distribuição”.
Mas nem a fonte de Tavarede escapou. “Há uma fonte em Tavarede que está em condições tristíssimas. Todos os dias alli há scenas de pugilato por causa da escassez da água”. Na verdade foi mandada reparar, mas logo surgiram problemas, pois os operários, enquanto procederam às obras, “privam o público da água da água para as regas das suas propriedades”.
O verão daquele ano terá sido de muito calor e seco. Até a fonte da Várzea, de tantas e tão antigas tradições, não escapou. ...... Vamos atravessar este anno uma crise terrível. Vem bater-nos à porta, sinistro, como as visões esquálidas de um cérebro em febre, o medonho espectro da sede. Lavra por ahi um clamor espantoso, como se a villa estivesse soffrendo os horrores de um prolongado sítio. Não há água! A fonte da Várzea, completamente arruinada, não pode ocorrer às necessidades da localidade. Ouve-se em torno d’ella um côro de imprecações e de blasphemias que faz lembrar a gritaria descomposta dos sabbats mysteriosos das noites nebulosas da Germania. Os chefes de família vêem-se obrigados a augmentar o numero de creados, por causa do longo tempo consummido junto à fonte, à espera do ténue fio d’água que não pode supprir as necessidades de uma povoação populosa como esta..........      Próximo da fonte da Várzea há uma propriedade, pertencente ao sr. José Maria da Silva, onde o zelo d’este cavalheiro fez sair do solo um copioso veio d’água, que, na crise actual, tem sido a providencia de muitos habitantes da villa”.

            Mas no ano de 1880 a situação foi agravada. A cidade da Figueira, cujo desenvolvimento foi rápido e enorme, teve de resolver o problema do fornecimento necessário aos habitantes. As fontes existentes eram insuficientes e sentiu-se a necessidade da distribuição domiciliária da água necessária ao consumo da população.

         Estudado o assunto pelas respectivas entidades, foi publicado, no referido ano, o relatório efectuado que, apesar de extenso, julgamos de interesse publicar na parte que diz respeito à nossa terra.



ABASTECIMENTO DE ÁGUA À FIGUEIRA             Todo o projecto de abastecimento de águas compreende especialmente duas partes distintas, que podem constituir o objecto de dois projectos diferentes:
            1º - aquisição das águas e execução das obras necessárias para as conduzir à povoação;
            2º - distribuição destas pelas fontes e pelos domicílios.
            Foi do estudo da primeira parte deste vasto problema com relação à vila da Figueira da Foz que a respectiva municipalidade, por intermédio do seu exmo. Presidente, me fez a honra de incumbir, e cujo resultado eu agora apresento.
            O projecto que ofereço compõe-se de três partes principais:
            1ª Drenagem do solo por um sistema de galerias subterrâneas para a captagem das águas na região superior do vale da ribeira de Tavarede, no sitio denominado o “Prazo”.
            2º Assentamento da canalização de ferro para a condução das águas à vila.
            3ª Construção de um reservatório no alto do Pinhal numa altitude superior à de todas as casas da vila, para a fácil e regular distribuição da água pelos chafarizes, que se julgue conveniente estabelecer, e pelos domicílios, quando mais tarde se pretenda este desideratum.
            É claro que, pertencendo o reservatório propriamente ao sistema de distribuição, deve considerar-se formar um projecto à parte, tornando-se a sua construção independente da execução dos outros trabalhos, e podendo provisoriamente substituir-se por um grande chafariz, se a Municipalidade não estiver desde já habilitada com os meios necessários para toda a despeza.
            Primeira parte – Trabalhos de exploração subterrânea
            Não havendo à superfície do solo nos arredores da Figueira nenhuma nascente assas copiosa que fornecesse por si só o volume de águas necessário para o abastecimento da vila, era forçoso recorrer à exploração subterrânea ensaiada já em Portugal com grande proveito pelo distinto engenheiro chefe dos trabalhos geológicos, sr. Carlos Ribeiro, para o abastecimento de Lisboa. Há três anos sucessivos a água fornecida pelos trabalhos de exploração nas visinhanças de Belas à nossa capital durante a estação calmosa tem sido o suficiente para permitir continuamente o abastecimento nos domicílios, o que sem este auxílio seria impossível, como mostraram os estios de 1874, 1875 e 1976.
            Demonstrada a proficiência do sistema, e sendo as condições para a exploração nas visinhanças da Figueira incomparavelmente mais favoráveis do que em Belas, não hesitei um momento em adoptá-lo no meu projecto, confiando firmemente nos resultados.
            O sítio escolhido para a exploração deveria satisfazer simultaneamente às duas condições principais: fornecer água em abundância, e fornecê-la em altitude bastante para que, chegando à Figueira com cota assas elevada, pudesse a todo o tempo distribuir-se pelos domicílios sem haver necessidade de a levantar. Estas condições realizam-se maravilhosamente no vale do Prazo, acrescendo de mais a circunstância importantíssima, que os trabalhos podem ali estabelecer-se, de modo que se desenvolvam quase indefinidamente para o futuro, quando o aumento da população e as crescentes necessidades do consumo deste precioso elemento o exijam.
            O vale de Tavarede é, de todos os que descem da Serra da Boa Viagem, o que corre em mais baixo nível, cortando transversalmente um espessíssima série de camadas permeáveis, é nos seus flancos que brota o maior número de nascentes. A água vê-se com efeito romper por toda a parte, e especialmente no fundo dos vales e das quebradas uma vegetação activa e louçã plenamente atesta a frescura do solo.
            Seguindo os nossos trabalhos de exploração em nível inferior ao alveo da ribeira, é claro que as galerias que abrirmos colherão toda a água que as camadas contiverem no massiço superior ao plano em que elas forem estabelecidas, massiço importantíssimo, pois o relevo do solo sobe rapidamente nos dois flancos do vale, não havendo, como se disse, em toda a extensão da serra nenhuns pontos de descarga mais baixos do que este vale.
            Já dissemos noutra ocasião e agora repetimos: não é simplesmente no facto da existência das nascentes visíveis à superfície do solo do vale do Prazo, nascentes aliás valiosas, que me baseei para aconselhar a exploração de águas nesta localidade; foram principalmente considerações geológicas que me firmaram nesta escolha. Com efeito, além destas manifestações exteriores, que revelam a existência de consideráveis massas de água, no interior do solo, a garantia da permanência dessas nascentes, sobretudo quando sejam exploradas em nível inferior ao alveo da ribeira, está assegurada pela composição íntima e estrutura do solo, que é constituído por camadas pela maior parte muito permeáveis, sobrepondo-se do Sul para o Norte concordantemente, e com fraco pendor umas às outras, e inflectindo-se do Cabo Mondego para Maiorca em forma de bacia, da qual a Figueira ocupa o centro.
            A exploração que propomos será por estes motivos, pois, a mais produtiva, e muito de presumir (ou quase certo) que poderá suspender-se muito antes do limite que lhe assinamos no nosso projecto. Os trabalhos são além disso estabelecidos de modo em que não comprometem as explorações futuras, antes podem sucessivamente desenvolver-se quando convier, sem que esta ampliação do fornecimento embarace nunca o abastecimento usual.
Para isso bastará abrir pelo mesmo sistema, em nível superior ao dos trabalhos existentes, e para montante do extremo superior da galeria colectora, uma rede de galerias análogas, que poderá estender-se até às nascentes do Olho de Perdiz, onde nasce a ribeira de Tavarede, ou ainda além através da serra; estabelecendo-se a ligação dos novos trabalhos com os trabalhos antigos só depois que aqueles estejam terminados.
            Tendo apresentado os fundamentos do nosso projecto, resta agora descrever as obras aconselhadas.
            O sistema de galerias de exploração que propomos consta de uma galeria longitudinal colectora seguindo proximamente a linha do thalweg do chamado vale de Sampaio, e de várias galerias transversais ou travessas partindo desta, e seguindo a direcção das principais quebradas ou valeiros, que cortam um e outro flanco, e vem convergir naquele vale. Por agora, para assegurar permanentemente um abastecimento diário de 1.500 ou mesmo de 1.800 metros cúbicos, parece-me mais que suficiente a abertura da galeria longitudinal e das travessas indicadas na planta e nos perfis respectivos. Aquela galeria começando a 60 m. a Sul 6º E da ermida denominada na localidade do Santo Sampaio, num pequeno tanque de depuração que serve de origem ao canal, seguirá para o norte com a inclinação constante de 0.001 até 108,10 m. para montante da desembocadura do vale do Custódio, medindo ao todo 817,40 m. de extensão.
            Deste aqueduto ou galeria geral partirão para um e outro lado as travessas de exploração, cada uma de 100,0 m. de comprimento, pouco mais ou menos, também com a inclinação de 0.001 ou ainda menor, correspondendo respectivamente aos vales do Cipriano, do Bandeira, dos Gamelas, dos Ferreiras e do Custódio, vindo assim a medir todo este sistema de galerias 1.352,50 m. de extensão. Mas, repetimos, julgamos desnecessário concluir estes trabalhos para se obter a quantidade de água razoavelmente reputada necessária para um amplo abastecimento da Figueira, nestes primeiros tempos, mesmo supondo o desenvolvimento que ela deve ter por efeito da construção do caminho de ferro da Beira.
            As travessas, a que assinámos proximamente o limite de 100,0 m. (mas que poderão prolongar-se até onde o permitir a ventilação dos trabalhos, ou nalguns casos especiais suspender-se antes daquele limite, quando por exemplo as dificuldades do trabalho ou a conveniência de não causar  inutilmente alguma nascente o aconselhem) serão todas fechadas por barragens próximo da sua junção com a galeria geral, reservando-se a água que elas recebem para suprir durante a estiagem ou quebras das nascentes que alimentam directamente esta galeria. Estas travessas, algumas das quais seguem aproximadamente a direcção da estratificação (N 60º O magnº) serão abertas nas camadas de grés que durante o avanço da galeria geral se vir que são mais produtivas, ou, se elas cruzarem obliquamente aquela direcção, inflectir-se-ão de modo que vão procurá-las.
            Nos pontos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e distanciados entre si em média 118 metros, abrir-se-ão poços, que servirão para a extracção de entulhos, e ao mesmo tempo para a ventilação dos trabalhos, para o que se farão corresponder verticalmente à galeria geral, e quanto possível ao alinhamento das galerias transversais. Um deles (o nº 3) convenientemente revestido, será destinado a servir mais tarde como clarabóia de serviço, para as reparações que por acaso seja necessário fazer na galeria.
            Devendo evitar-se na execução destes trabalhos o enorme dispêndio que ocasiona a elevação das águas (dispêndio multiplamente nocivo, porque a elevação de águas estorva o regular andamento dos trabalhos, e é tanto maior quanto maior é a quantidade de água que se vai obtendo) a abertura desses poços não será simultânea mas sucessiva, e só depois que esteja concluído o lanço de galeria que a cada um respectivamente lhe fica a juzante.
            Em casos especiais mesmo, quando a ventilação permitir o prosseguimento dos trabalhos na galeria geral, o poço só se abrirá quando esta tiver passado por baixo do ponto que ele deve ocupar, podendo assim dispensar-se talvez a abertura de alguns deles, ou substituir-se por um simples furo de sonda. Em todo o caso, como a inclinação das camadas é para o quadrante do S (530º O magnético, mediana) isto é, para a origem da galeria, quando o poço vier a abrir-se já terão sido sangradas num nível inferior as camadas que ele irá atravessar.
            O único sistema, pois, que aconselho, e ao qual está ligada essencialmente a economia da obra, consiste em o trabalho seguir sempre de baixo para cima por uma só frente de ataque para cada lanço de galeria, e empregando portanto só dois grupos de mineiros. Começando os trabalhos simultaneamente na origem da galeria geral junto ao tanque de depuração, e no poço 1, que tem imediata descarga para o barranco dos Grilos, podendo rasgar-se a galeria numa das fases para que não haja que elevar os entulhos, ter-se-á completado aquele primeiro túnel e o lanço da galeria até à vertical do poço 2 proximamente ao mesmo tempo. (Para maior brevidade do trabalho poderiam atacar-se ao mesmo tempo os dois topos do túnel e a galeria do poço 1, vindo então a agrupar-se três grupos de mineiros).
            Executada esta primeira parte do trabalho, e logo que um dos grupos de mineiros tiver concluído a abertura do poço 2 (aliás de pequena profundidade, 5,574 m.), prosseguirá o avanço da galeria geral para o poço 3, ocupando-se simultaneamente o outro grupo de mineiros da abertura da travessa de exploração para o nascente, seguindo o vale de Cipriano. Concluída esta segunda parte do trabalho, e bem assim aberto o poço 3, poceder-se-á simultaneamente à abertura da travessa de exploração do vale do Bandeira, e do lanço da galeria geral até à vertical do poço 4; e assim por diante até se ter obtido a quantidade de água que se deseje.
            O poço nº 1, que será a verdadeira testa dos trabalhos de exploração, não carecerá de revestimento, porque precisamente nesse ponto passa um banco de calcáreo pisolítico de 5 a 6 metros de espessura, muito grosseiro, trechiforme,  com muitos grãos e fragmentos rolados de quartzo, na verdade rijíssimo, mas única única camada desta natureza que os nossos trabalhos terão de cortar.
            Seguindo a galeria para juzante do poço 1 quase perpendicularmente à direcção geral da estratificação consideramos que haverá somente 8,0 m de galeria e 5,638 m de poço a abrir em calcáreo. Mas como é pequena a espessura do grés (3,0 m em média acima do tecto da galeria) o melhor será remover este prisma de grés, abrindo como acima dissemos uma trincheira, isto é, rasgando a face S do poço, profundando e regularizando o barranco para fazer todo o desmonte a céu aberto, com o que se conseguirá entre outras vantagens, dar uma entrada ampla de ar para o interior dos trabalhos e portanto estabelecer uma ventilação mais perfeita, o que poderá mais tarde traduzir-se talvez numa grande economia dispensando-se a abertura de alguns poços.
            Em vista da descrição sucinta que apresentamos deve concluir-se que a descarga das águas que correrem pela galeria durante a execução dos trabalhos poderá fazer-se para o barranco dos Grilos sem que seja necessário percorrerem o túnel entre este barranco e o tanque de depuração. Assim o túnel, além de contribuir eficazmente para o abastecimento, porque romperá uma formação de grés muito grosseiras em geral e muito permeáveis, levantando-se muitíssimo o terreno que elas constituem para o poente até às cabeceiras dos vales de Pijeiros e dos Condados, prestará ainda a vantagem de isolar a testa dos trabalhos subterrâneos da dos trabalhos à superfície, tornando durante a construção totalmente independentes os dois serviços, na verdade de índole bem diferente, e portanto exigindo o emprego de pessoal distinto.
            Tendo em atenção que as nascentes descobertas pelos trabalhos subterrâneos geralmente nos primeiros tempos (o que aliás bem se compreende pela pressão que a água experimentava antes de ter aquele ponto de descarga) julgo prudente que os trabalhos de exploração se não suspendam antes que se tenha obtido pelo menos o dobro da água que se julgue necessária para abastecimento da vila, e que muito largamente pode imputar-se hoje em 500 mc ou 600 mc diários.
            O trabalho de abertura dos poços e galerias deverá fazer-se por empreitada, e seguidamente às tarefas, dia e noite sem nenhuma interrupção. Os revestimentos deverão ser feitos por administração, ou pelo menos devem ser constantemente vigiados por um mestre hábil e de inteira confiança, para que não haja a recear para o futuro desabamentos, ou mesmo pequenas reparações, que em todo o caso se tornarão dispendiosíssimas, e até poderão embaraçar ou interromper o abastecimento.
            Durante a execução dos trabalhos muito provavelmente o traçado das galerias, que indicamos, terá de modificar-se ligeiramente nalguns pontos, quando por exemplo se reconhecer a inconveniência de seguir por maior espaço uma camada de grés rijo, permeável, porventura muito aquífero, e em que a galeria não carecerá de revestimento, evitando-se desta arte uma camada de argila  pelo contrário improdutiva e difícil de suster.
            O perfil da galeria será do tipo ordinário de volta inteira, com 2,0 m de altura e 0,75 m de largura. Ao meio da soleira correrá um passeio de lagedo tosco (pedra sava) ou de grés, que dividirá as duas caleiras, e servirá para a passagem da gente, quando seja necessário visitar o aqueduto, e dos carrinhos de mão quando se careça de fazer a limpeza das caleiras ou alguma reparação, sem que a água se turve. Este passeio terá 0,35 m de largura, e elevar-se à altura de 0,25 m sobre o pavimento da galeria, vindo portanto cada uma das caleiras a ter 0,20 m de largura e 0,25 m de profundidade. (Com uma inclinação de 0,001 m por metro, segundo as permissas de M. M. Darcy e Bazin, cada uma das caldeiras laterais da galeria com 0,20 de largura e igual profundidade, dará passagem proximamente a 800 mc por dia supondo-se pouco lisa, isto é, oferecendo a superfície natural do grés, sendo a velocidade média da corrente de 0,232 m e supondo-se lisa, isto é, rebocada de cimento hidráulico misturado com areia, dará passagem a mais de 1.300 mc sendo a velocidade média de 0,402 m por segundo.
            As caleiras comunicarão entre si repetidamente, afim de alongar o trajecto que a água tem de percorrer, diminuindo-lhe a velocidade, e portanto aproveitando os depósitos dentro da galeria; esta comunicação estabelecer-se-á, quer deixando estreitos intervalos de espaço a espaço no assentamento das pedras que formam o passeio, quer talhando estas de propósito para o objectivo conforme mostra o desenho.
            Como o terreno que as galerias têm de atravessar é constituído de grés e de marnes, dominando porém muito as camadas de grés rijos sobre as de grés brandos e de marnes, calcularei que somente a terça ou quarta parte das galerias a abrir terá de ser revestida. E ainda, como só a galeria principal terá de conservar-se desembaraçada para ser visitada, podendo o traçado das travessas modificar-se à vontade, considerarei que todas estas ficam em bruto; porque para o prosseguimento dos trabalhos de avanço, nos raros casos em que as travessas terão de cortar rochas brandas, poderá empregar-se um revestimento provisório de madeira (cofragem), que será ao depois reforçado, quando a abertura da galeria estiver terminada, com os entulhos de grés vindos de outro ponto dos trabalhos, e que poderão ali acumular-se em vez de serem extraídos para a superfíoie
            Medindo a galeria geral projectada 807,40 m considerei pois que somente 250,0 m terão que ser revestidos, apreciação que certamente está acima da verdade, pois que, como dissemos, não julgamos indispensável por agora, para satisfazer às mais urgentes necessidades do abastecimento, levar a abertura desta galeria até ao extremo norte.
            Em compensação as despesas de desmonte da rocha deverão ser relativamente grandes, porque algumas camadas de grés grosseiros, contendo grossos e abundantíssimos fragmentos quartzosos, comportar-se-ão quase como as quartzitas com respeito à acção do fogo, e ao estrago das brocas e outras ferramentas.
            Também a abóbada da galeria, quando tiver de construir-se, deverá ser relativamente de grande espessura, porque de ordinário só terá de empregar-se em terreno muito frouxo, nas camadas argilosas, que alternam com as camadas rijas, as quais pelo contrário não carecem absolutamente de revestimento. O tipo que adoptámos é o de 0,40 m de espessura para os pés direitos, tendo a abóbada 0,30 de espessura no fecho. Os pés direitos serão construídos ordinariamente de alvenaria hidráulica, e a abóbada deste mesmo material ou de beton. Excepcionalmente, e só quando as circunstâncias impreterivelmente exijam, serão construídos de enxelharia.
            Pela mesma razão acima notada supomos que a maior parte da extensão dos poços de serviço que tem de abrir-se não carecerá de revestimento; todavia, como nesta espécie de obras, que estão mais expostas, há mais a recear os desabamentos, considerei que a entivação dos poços abrangerá metade da sua extensão total.
            A secção dos poços basta que seja de 2 m x 1,60 m para que, mesmo revestidos de madeira, dêem passagem fácil aos baldes com o entulho. Ao poço nº 3, destinado a servir de clarabóia, dar-se-á a forma circular com 2,0 m de diâmetro interior, a menos que ele seja aberto em rocha muito rija que não careça de revestimento, porque em tal caso conservará a forma rectangular. Deixando de fora as paredes do poço, ou dos lados do quadrado circunscrito ao circulo que o representa a largura de 0,50 m para poder assentar-se um sarilho, fechar-se-á este espaço dentro de uma casa rectangular ou quadrada, com a porta de entrada numa das faces, e uma fresta ou olhal na parede oposta, e superiormente coberta por uma abóbada de volta inteira, de beton ou alvenaria hidráulica.
            Correspondendo este poço à vertical da galeria geral convirá cobrir no fundo as caleiras com uma capa de lagedo, afim de que a água não se suje, mormente quando tiver de fazer-se alguma reparação.
            Para facilidade do serviço terá de cobrir-se a soleira da galeria com um estrado seguido de madeira, formado de taipais soltos, por baixo dos quais passará a água sem o que o movimento dos carros dentro da mina se tornaria muito moroso e incómodo. É este um elemento de despesa a que há que atender, mas de pouca importância aliás, porque os mesmos taipais, poderão servir sucessivamente, passando-os de um  lanço de galeria já concluída para o outro em avanço.
            Finalmente no primeiro lanço de galeria a juzante do poço 1, as caleiras serão revestidas de uma capa de reboco hidráulico, para que seja mais fácil a limpeza, podendo conservar-se a caldeira daquele poço na largura da galeria para servir como um primeiro tanque de deposição. No resto das galerias as caleiras só serão revestidas onde for absolutamente indispensável.
            As águas exploradas pelos trabalhos subterrâneos serão recebidas num tanque completamente enterrado, onde começa a canalisação de ferro. Este tanque, a que chamaremos de depuração ou de deposição, porque as águas depositarão ali as matérias sólidas, areia ou argila, que arrastarem, reputo-o de indispensável, porque sendo a canalisação de ferro de pequeno calibre, (0,15 m) e seguindo em repetidas ondulações para se adaptar à configuração do solo, é da maior importância que a água entre nela o mais límpida possível.
            Este tanque, de que os desenhos dão uma perfeita ideia, é dividido longitudinalmente por um muro em dois compartimentos distintos e independentes, cada um com a sua descarga especial para a ribeira para se fazer a limpeza, e além disso divididos transversalmente por três septos, o do meio móvel (corrediça ou adufa submersível), formando uma espécie de labirinto, que a água é obrigada a percorrer antes de chegar à tubagem de ferro.
            Na extremidade de cada uma das caleiras há uma adufa, de forma que, estando levantadas ambas e abertas as duas torneiras de passagem na origem da canalisação, a água passará simultaneamente por ambos os compartimentos do tanque; pelo contrário, se se fechar uma das adufas e a torneira de passagem correspondente, obrigar-se-á a passar toda por um dos compartimentos, podendo fazer-se a limpeza do outro, sendo preciso, sem a mínima interrupção no fornecimento.
            Para quebrar a velocidade da água, à sua entrada no tanque há uma espécie de descarregadouro a juzante de cada adufa, crescendo sucessivamente a inclinação do fundo da caleira, e ao mesmo tempo alargando a superfície onde pode desdobrar-se a lamina de água.
            O tanque será encerrado numa casa rectangular de 2,0 m x 5,25 m de área interior, servindo as paredes laterais do tanque em parte de alicerce às suas duas paredes mais extensas, e coberta por uma abóbada de volta inteira de beton ou de alvenaria hidráulica.
            O acesso ao tanque far-se-á por um lanço de 5 degraus, disposição necessária para que a tubagem saia do tanque enterrada à profundidade de 1 m que deverá manter em todo o seu trajecto, e para que a parede oposta à porta ganhe a altura conveniente para se poder nela abrir uma fresta ou olho-de-boi para iluminar a casa e para ventilação.
            O muro divisório do tanque será coberto por um capeamento de lajedo de 0.50 m de largo, para permitir a passagem para dentro da galeria ao guarda, que deve inspecioná-la, e fazer a manobra das válvulas de descarga quando seja preciso. Como é óbvio, o fundo deve ter escoante para estas válvulas.
            O fundo do tanque será formado por uma camada de betão; as paredes laterais e o muro da divisória central, de alvenaria hidráulica; e as paredes da casa, de alvenaria ordinária. As paredes do tanque e bem assim as da casa serão revestidas interiormente de uma capa de reboco hidráulico.
            O curso que a água tem de percorrer até à sua chegada ao alto do Pinhal é muito difícil, porque o solo a que tem de sujeitar-se a canalisação é muito acidentado. Como se vê na planta a direcção geral da canalisação não se afasta muito da da direcção rectilínea; no plano vertical é que é obrigada a dobrar-se em repetidos sifões, seguindo-se sem interrupção uns aos outros, até que o traçado chega à estrada frente à quinta de S. João, para transpor as quebradas do solo, que não poderiam tornear-se sem um grandíssimo desenvolvimento no traçado, e algumas delas nem mesmo assim. (Este relatório continua a publicar-se em vários números seguintes para explicarem a condução das águas para a Figueira e a sua distribuição, o que não copiei por não interessar directamente a Tavarede)
  









O Associativismo na Terra do Limonete - 103

Mais uma vez, regressemos um pouco atrás. Já sabemos que o dia primeiro de Maio era, nos bons velhos tempos, um dia muito desejado na nossa terra. O rancho dos potes floridos era sempre esperado pelas gentes da Figueira, que acorria a aplaudi-lo à sua passagem e o seguia até aos locais onde exibia as suas danças, ao som da tuna bem afinada,e cujas frescas vozes dos garbosos pares subiam aos ares, onde se misturavam com o delicado perfume das nossas flores e do sempre bem cheiroso limonete.

Pois foi este dia, primeiro de Maio, o escolhido para o surgir de uma nova associação na nossa freguesia, o Grupo Desportivo e Recreativo da Chã. Foi no ano de 1976. Ainda somos do tempo em que este local era muito pouco habitado. Com o desenvolvimento da cidade, a Chã foi um dos lugares mais procurados para habitação. O sítio era excelente e proporcionava excelente qualidade de vida aos residentes. Com o aumento populacional, breve se tornou necessário criar um local que oferecesse possibilidades de convívio e de recreio. E foi desta forma que nasceu a nova colectividade. As suas primeiras actividades, além do recreio e convívio proporcionado aos locais, foram o desporto e o folclore. Uma equipa de futebol foi criada e o Rancho Infantil Estrelinhas da Chã foi formado. Em breve se desenvolveriam estas e outras actividades.

Em Maio de 1978, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, que se encontrava instalado no velho solar dos condes de Tavarede havia cerca de cinquenta anos, enfrentava enormes dificuldades devidas ao estado ruinoso do edifício. De notar que, logo que o novo proprietário adquiriu o imóvel, exigiu a saída da colectividade, a qual chamou a sua atenção para a dificuldade que haveria em arranjar um edifício para colocar os haveres do Grupo. O senhorio recusou-se a colaborar com a associação e, nos termos legais, o valor da renda passou a ser depositada em estabelecimento bancário.

Tentando resolver o assunto, verifica-se que, em Abril de 1977, foi realizada uma assembleia geral extraordinária. Foi apresentada uma proposta de venda em regime horizontal, da parte que ocupamos, por parte do senhorio, cuja proposta se cifrava em 300.000$00. Foi encarado o assunto em pormenor, chegando-se à conclusão de ser inviável não só a responsabilidade na compra, como ainda no futuro, para a hipótese de obras, muito especialmente no quer diz respeito ao exterior, atendendo a que contrairiamos a responsabilidade em 1/3 do referido prédio em possíveis obras exteriores. Foram tiradas diversas conclusões, mas pairando sempre entre todos os presentes, a situação caótica em que todos os pontos sensíveis do prédio estão em decadência total, referiu-se não só ao telhado como ainda as paredes, muito especialmente a do lado que ocupamos. Foi ventilada a hipótese de fazer seguir até à Junta de Freguesia as nossas grandes preocupações, quanto ao futuro na continuidade do Grupo nesta casa, na medida em que somos todos da opinião geral de que a detereorização do prédio se está a acentuar dia a dia, atendendo a que não só a parte que ocupamos, como a parte que pertence ao senhorio, se encontra em perspectiva de ruina.

Foi, então, que a direcção do Grupo fez publicar o seguinte comunicado: Presentemente a sua actividade está relativamente parada, pois que houve um autêntico abandono pelas pessoas que nos parecem deveriam e tinham obrigação de olhar mais de frente para uma Colectividade que os seus antepassados tanto ajudaram a sua continuidade.
         Apresenta-se-nos a nós, Directores de momento, um aspecto de continuidade muito sombrio, pois como V. Exa. deve saber as instalações desta estão situadas desde 1935 mais ou menos, no Palácio de Tavarede, o qual como é do vosso conhecimento está em completa degradação. Entretanto vamos orientando a sobrevivência desta, abrindo a porta mais ou menos todos os dias para alguns dos seus associados que queiram vir até cá divertir-se um pouco, vendo Televisão, ouvindo telefonia e pouco mais.
         Vamos entretanto, a partir deste momento, organizar uma pequena Biblioteca, pois que acabamos de receber da Câmara Municipal, um subsídio de 5 000$00 para esse fim, aliás ao que temos conhecimento, nunca houve em momento algum passado, qualquer subsídio em favor desta. E vamos ficar por aqui na medida em que também não podemos ter a continuidade de bailes dada a situação caótica do referido Palácio, como já atrás referenciámos. 
         Quanto a projectos em curso, estão limitados, no entanto há um sonho, que embora continuando, se vai desvanecendo com o tempo, que seria uma Colectividade mais capaz, no entanto temos um grande obstáculo que é a falta de terreno, do qual está muito pendente uma possível continuidade desta.
         Continuamos na expectativa, no entanto como devem ter conhecimento as Direcções destas Casas são normalmente substituidas de ano a ano, o que torna sempre dificil uma solução a largo prazo. No nosso caso e como atrás foi dito, por desinteresse absoluto esta presentemente conta apenas com umas boas vontades de jovens, embora poucos, que não querem deixar que encerre as suas portas.
         Isto torna-se como é de calcular num martírio contínuo de sofrimento sem que se veja a cura a aplicar-lhe. Não temos dúvida nenhuma em que se assim o entenderem e se quizerem mais algum pormenor que achem conveniente, inclusivé vir até esta para mais de perto estar em cima das realidades e também porque talvez se pudessem aflorar mais alguns assuntos de maior interesse, estar à vossa disposição, pois que entendemos que assuntos desta natureza, deveriam vir mais vezes e portanto com maior realce na imprensa quer regional quer ainda mesmo na maioria dos casos na Nacional.
         Há um pormenor que nos ficou retido e que vamos dar-lhe algum realce: sendo isto uma casa de Sócios e para Sócios, implica sob pena de multa dar todos os anos relação às Finanças do seu movimento de bufete, achamos absurdo, entretanto tivémos já há três anos a esta parte isenção de pagamento de contribuição, no entanto temos que ter escrita montada de compras e vendas como qualquer estabelecimento, se houver qualquer esquecimento no preenchimento obrigatório e anual dos elementos da Contribuição, é certo e sabido que de seguida vem uma multa, no nosso caso é muito fácil acontecer pois como atrás foi dito as Direcções mudam de ano para ano.
         Também continuamos a pagar à Polícia o funcionamento do nosso Bufete melhor dizendo a licença para a sua abertura, outra anomalia, mas vamos cumprindo, também ainda não deixamos de pagar a taxa da Televisão, que também consideramos uma das maiores injustiças que se podem fazer.
         É evidente que estou neste caso a falar de nós e por outras que concerteza estão nas circunstâncias idênticas às nossas”. Apesar da precariedade das instalações, ainda se tentava a continuidade.   

No mês de Outubro do mesmo ano, o grupo cénico da Sociedade fez a reposição da peça O processo de Jesus. Este acontecimento ficará para sempre registado na história da colectividade. A sua amadora, Violinda Medina e Silva, que abandonara o palco, havia dois anos, devido ao falecimento de sua única filha, reapareceu em cena neste espectáculo.

No mês seguinte, a Sociedade iniciou os preparativos para comemorar as suas Bodas de Diamante. Não é vulgar o caso da Sociedade de Instrução Tavaredense – fiel à sua origem e durante mais de meio século trabalhando, lutando e persistindo numa obra de educação e cultura do Povo.
         Ao fundá-la, há 75 anos, aquele grupo de humildes tavaredenses foi movido por um pensamento que, sem dúvida alguma, enobrece: assegurar a existência de uma escola nocturna para ensino de adultos e menores. Sentiam, talvez mais do que sabiam, que sem instrução não é possível alcançar os direitos morais e materiais que distinguem o homem. Criaram a escola e, logo no primeiro ano, deixaram a funcionar um grupo dramático, que reacendeu a tradição local do teatro.
         Vinte anos depois, ao aprovar os estatutos actualmente em vigor, a Sociedade de Instrução Tavaredense definiu mais concretamente, de harmonia com a maior amplitude da acção que vinha desenvolvendo, os fins que se propunha: a instrução e educação das classes populares, através de uma escola nocturna para adultos e menores, da biblioteca e do teatro.
         À instrução associava-se a educação. A obra meritória de ensinar a ler e a escrever completavam-se com a acção educativa e cultural.
         Os 50 anos de vida desta instituição de Tavarede, uma das freguesias consideradas meio-termo entre urbano e rural, constituem uma afirmação honrosa, que o passado comprova cabalmente, de forma elogiosa. Mas, e o futuro?
         As modestas e tão úteis colectividades de educação e recreio, de há tempos a esta parte vêem-se acumular dificuldades ao cumprimento da missão que a si próprias impuseram. A Sociedade de Instrução Tavaredense sente-lhes o peso, como não podia deixar de ser. A sua escola nocturna, que funcionou ininterruptamente até 1942, teve de encerrar. E a acção educativa e cultural do teatro também já chegou a estar ameaçada, embora ainda não esteja completamente livre de perigo.
         Com o errado critério de ver fontes de receita em actividades que não deviam sê-lo, as colectividades de educação e recreio suportam encargos que o Estado e as autarquias locais bem podiam isentá-las, já que lhes não prestam o auxilio material que era dever conceder-lhes. A esta, outras razões haveria a juntar. O certo, porém, é que, com maior ou menor sacrifício, suportanto esta e aquela dificuldade, as colectividades em causa não desanimam na sua actividade, ao ponto de se deixar morrer. Elas são, em certos casos, a alma de um povo. E a Sociedade de Instrução Tavaredense não foge à regra.
         E é precisamente esta colectividade que se apresta para comemorar o seu 75º aniversário (foi fundada em Janeiro de 1904). A direcção da Sociedade, pretendendo comemorar convenientemente as suas “Bodas de Diamante”, resolveu juntar a si um grupo de sócios, com o fim de elaborar um programa comemorativo, de acordo com o passado de que Tavarede tanto se orgulha.

         Assim, no dia 1 de Dezembro abrirão as comemorações com uma exposição evocativa da história da SIT; terá lugar a publicação de um livro (“75 Anos… e Caminhando”, de José da Silva Ribeiro), de continuação ao anterior, “50 Anos ao Serviço do Povo”, em que são passados em revista os principais momentos da história da Sociedade; em Janeiro, estrear-se-á uma nova peça escrita pelo director cénico, na linha das anteriormente dedicadas, também elas, à história de Tavarede (“Chá de Limonete”, “Terra do Limonete”, “Cântico da Aldeia”, etc.); serão, também, realizados espectáculos culturais e desportivos, a par de confraternização entre sócios.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 7



            “Que sendo o Couto de Tavarede muito pequeno, tráz nele um grande rebanho de cabras, destruindo todas as vinhas e mais novidades dos pobres, e se acaso lhas deitam fora os donos das fazendas, os criados se levantam contra eles e os ameaçam com seu amo, cujo respeito os intimida a não defenderem o que é seu. E o mesmo sucede com os gados das pessoas que são da sua casa, por serem muitos os compadres e afilhados que logrão da isenção e privilégios da mesma, e estes, ainda que os seus gados sejam daninhos, não são coimados e se algum, por esquecimento da Justiça o foi, logo o faz riscar do livro e fica isento da coima”.

         Retirámos este apontamento da carta que o cabido da Sé de Coimbra enviou ao rei D. José, contando as arbitrariedades e tropelias que o então morgado de Tavarede, Fernando Gomes de Quadros, cometia contra o pobre povo da nossa terra e que acabou por ter o resultado final da mudança da câmara de Tavarede para a nova vila da Figueira da foz do Mondego, que levou à queda do poderio dos fidalgos tavaredenses.

Não esquecemos o lamento que o David Seco, personagem da fantasia ‘Chá de Limonete’ fez, a propósito do relatado acima, aos seus conterrâneos: “isso é que eu não perdoo ao fidalgo: fazer leite de cabra duma vinha que dava uma pinga de quinze graus”.

Teria razão no seu lamento, mas, o que é verdade, é que os abusos feitos pelo morgado e seus criados, passaram a ser feitos pelos cabreiros da terra, e não só, de acordo com a notícia publicada em Junho de 1906 num periódico figueirense:

“São grandes os prejuizos que as cabras fazem diariamente assaltando os prédios e devastando as ceáras. Todos se queixam d’este mal, que n’outro tempo se corrigia facilmente, mas hoje, graças à novissima legislação, não pode o pequeno proprietario defender o que lhe pertence, porque é dispendioso e complicado o processo e geralmente fica n’ele condenado, porque é dificil saber quem é o dono da cabrada que faz qualquer damno.
            Há muito tempo foi apresentado à camara municipal um requerimento assinado por centenares de proprietarios de varias freguezias do concelho, pedindo o restabelecimento da antiga disposição do codigo de posturas em que, por meio de multas, se corrigiam facilmente os abusos dos cabreiros e a municipalidade lucrava muito, já que eram amiudadas as transgressões. Esse requerimento foi indeferido!
            Dizem os cabreiros que enquanto houver cabritos hão de fazer o que quizerem”.

     Pela nossa memória perpassam muitas recordações relacionadas com este tema. Recordamos nossa avó Otília que, com a sua bata branca e com o latão com o leite, provindo da ordenha das duas vacas leiteiras, que mantinham no pequeno curral sito ao fundo do quintal, ia diariamente à Figueira vender a produção às suas habituais clientes.

         Um dos cabreiros locais era o Joaquim Lopes, vulgarmente conhecido por Joaquim Tarouco, que tinha um rebanho de cabras que, manhã cedo e à tardinha, atravessava a aldeia, sinalizando a sua passagem com o tilintar de diversas campainhas, que alguns dos animais levavam penduradas ao pescoço. E não eram raras as vezes que causavam estragos em propriedades alheias.

         “ Num dos últimos dias o cabreiro Joaquim Lopes, conhecido por Tarôco, metteu a sua grande cabrada na fazenda da srª. Jesuina Nunes, na Mateôa, causando-lhe grandes prejuizos.
            Mas não foram só os prejuizos. Como a proprietária o fosse encontrar n’aquelle lindo serviço, tratou, juntamente com os filhos e mulher, de apedrejar a pobre Jesuina, que é entrevada e que a custo se livrou das pedras.
            É assim que os cabreitos fazem àquelles a quem assaltam e roubam as suas propriedades. E não há justiça para estes malandros?”.       

         Enquanto seu filho, o Evaristo, levava as cabras para pastarem, o Joaquim Tarouco ia para a Figueira vender o leite produzido. Eram conhecidos os seus pregões anunciando o produto no Bairro Novo da cidade, especialmente durante a época balnear.

         Também na quinta do Paço, à altura propriedade do sr. Marcelino, havia um grande rebanho de cabras de que era pastor o Diogo.
         Por meados do século passado, acabou a exploração leiteira na terra. As autoridades competentes reconheceram que, apesar da obrigatória inspecção que os vendedores tinham de fazer no laboratório municipal, acabaram por proibir a actividade, por falta de condições higiénicas e salubridade.

         A partir de então nunca mais a velha aldeia ouviu o alegre tilintar das campainhas dos rebanhos, manhã cedo para irem em busca do seu manjar e à noitinha recolhendo ao seu curral, o do Joaquim Tarouco um pouco adiante da fonte, no caminho da Várzea, e o do Marcelino, no velho solar dos fidalgos de Tavarede transformada em redil.
        
    









O Associativismo na Terra do Limonete - 102

O Jogo do amor e do acaso, Monserrate e Cântico de Aldeia, esta última uma nova fantasia de Mestre José Ribeiro, foram as peças que se seguiram no palco tavaredense. No próximo domingo volta à cena, pela 16ª vez, a opereta “Cântico da Aldeia”.
 

 Cena de Cântico de aldeia

 Registamos o facto que demonstra bem o carinho com que o público acolheu a peça musicada. O espectáculo terá lugar na SIT, pelas 16,30 horas. Entretanto, no passado sábado foi a “récita do autor”. Assinalando a 15ª representação, os componentes do grupo, em cena aberta, ofereceram várias lembranças e ramos de flores ao autor da peça e ensaiador do grupo, sr. José da Silva Ribeiro.

Não podemos deixar de referir que, em reunião camarária, foi deliberado condecorar José Ribeiro. Oportunamente teceremos mais vastas e justas considerações a propósito da figueira da José Ribeiro, um lutador e um homem de teatro, personalidade que à causa da arte de Talma dedicou os melhores anos da sua vida.
         Hoje, limitar-nos-emos a revelar que a Câmara Municipal da Figueira da Foz acaba de fazer justiça ao homem da “Voz da Justiça”, ao jornalista, ao revolucionário, ao homem que deu uma nova vida à risonha aldeia de Tavarede, com os seus sessenta e tal anos de dedicação à Sociedade de Instrução Tavaredense, transformando a colectividade, a sua terra e a cidade da Figueira num centro de teatro amador credor dos mais rasgados elogios.
         Foram longos anos ao serviço da Figueira da Foz, onde Mestre José Ribeiro continua a ser o mesmo, pois que os anos não lhe pesam, e prossegue com a mesma juventude de sempre, a dirigir, a criar, a impulsionar o meio, a fazer artistas, a impregnar de cultura o povo que o conhece, que o admira, que não se cansa de lhe tecer as suas homenagens.
         A Edilidade figueirense acaba de cometer uma acção que a nobilita, atribuindo a José da Silva Ribeiro o galardão máximo da cidade, a sua medalha de ouro.
         O teatro em Tavarede é efectivamente uma tradição. Tradição que José Ribeiro criou. Tradição que José Ribeiro tem sabido manter ao longo dos tempos. Falar de Tavarede, é falar de teatro. A Terra do Limonete, como é conhecida a linda povoação de Tavarede, projectou-se por esse País, levando a sua arte aos mais longínquos pontos de Portugal.
         De norte a sul, apreciou-se, admirou-se a arte de representar dos actores de Tavarede. Profissionais no aspecto, na declamação, no pisar do palco. Amadores pela dedicação, pelo dar-se integralmente a uma distracção que os galvaniza, os entusiasma.
         Bem haja José Ribeiro pela cultura que ofereceu a Tavarede e ao seu concelho.
Bem haja a Câmara pela atribuição da medalha de ouro que premeia um homem que incontestavelmente a ela fez jus. Por tudo. Mas a entrega seria feita em acto público. Não concordou o condecorado, pelo que a entrega ficou adiada.

Foi em 1977 que, por iniciativa do Lions Clube da Figueira da Foz, se realizaram as I Jornadas de Teatro Amador da Figueira. A Sociedade Tavaredense não participou naquele ano. Mas, convidado a falar sobre estas Jornadas, em jantar oferecido por aquele clube de serviços, Mestre José Ribeiro falou longamente sobre as mesmas. Como complemento da reportagem que fizemos em reunião do Lions Clube da Figueira da Foz, num jantar que reuniu praticamente tgodos os associados da colectividade onde convergem individualidades de destacada posição social, serão em que foram convidados de honra uma distinta médica (drª Maria Raquel Pessoa Lopes), e um homem de teatro (José da Silva Ribeiro), vamos hoje referir-nos áquele que António Pedro considerou o primeiro ensaiador de teatro amador português. António Pedro que por sua vez considerara também Bernardo Santareno como o melhor autor de todos os tempos.
         Pois José Ribeiro, pessoa que se encontra desde há longos anos ligado à Sociedade de Instrução Tavaredense (que lamentavelmente esteve ausente das 1ªs Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz), deslocou-se até ao Lions Clube onde conversou sobre a Arte de Talma, tecendo diversas considerações, muito oportunas e muito interessantes, relacionadas com a realização que há pouco tempo teve o seu epílogo, ou seja, as tais 1ªs Jornadas de Teatro levadas a efeito pela aludida associação.
         E foi, como é evidente, feliz o Lions Clube em convidar este homem de teatro, uma verdadeira dedicação e um estudioso das coisas de cultura, porque os presentes tiveram oportunidade também de escutar uma lição bastante agradável sobre a arte de representar.
         “O Festival foi um êxito porque? – comentava José Ribeiro – pelo brilho de todas as representações? Pela madureza que o Festival apresentou no que diz respeito à arte de representar mesmo por amadores? No que diz respeito ao valor das peças que foram trazidas à Figueira? Não. Foi um êxito, e por esse êxito eu dirijo as minhas saudações muito calorosas ao Lions Clube, que promoveu esse Festival. Foi um êxito porque, trazendo à Figueira todos os grupos que aqui vieram, mostrou, e esses grupos mostraram, por isso daqui os saúdo a todos, todos sem excepção de nenhum, mostrou que havia vontade de fazer teatro, e tanta vontade que alguns desses grupos ensaiaram propositadamente peças para trazerem ao Festival.
         Alguns ainda nem tinham representado, outros prestaram-se até a vir representar tapando uma falha motivada pela doença da intérprete duma peça de Bernardo Santareno, prestaram-se a vir aqui em circunstâncias particularmente difíceis, sabendo que vinham defrontar-se, - eu digo defrontar-se sem querer pronunciar esta palavra como uma trombeta de guerra – não vinham, pois, defrontar-se, mas vinham trabalhar onde trabalhavam outros grupos mais preparados do que eles”.
         E José Ribeiro, sempre com a sua habitual fluência, prendendo com facilidade a atenção do público – por vezes parece-nos estar a presenciar uma representação tal a sua identificação com o teatro – prosseguiu, falando do carinho que o público dispensou às Jornadas, acorrendo em número representativo:
         “Vejamos que com este Festival se levou até ao Teatro do Peninsular muito público da Figueira que não poria os pés numa récita de amadores, quanto mais em 8 ou 9 récitas! A organização teve o mérito e o condão de trazer ao teatro toda essa gente que eu lá vi. Mas mais ainda. Teve o condão de dar expansão a esse movimento, de tal maneira que de todas as freguesias vieram acompanhantes entusiastas, calorosos, aplaudindo, batendo palmas até em situações que me parecem um pouco deslocadas, mas que actuaram com um entusiasmo, com um calor, com que num jogo de futebol os partidários da Naval aplaudem o que é bom e o que é mau da Naval e não aplaudem o que é bom dos outros grupos…”.
         Todos estranharam, como é evidente e natural, a ausência da Sociedade de Instrução Tavaredense, com todo o prestígio que caracteriza a simpática e prestimosa colectividade da terra do limonete, nestas Jornadas de Teatro Amador. Razões em ordem técnica invocadas teriam estado na razão de tal facto, e certamente que no próximo ano, quando da efectivação das II Jornadas, Tavarede não deixará de marcar a sua presença, não deixando, por seu turno, os créditos por mãos alheias.
         Mas José Ribeiro, não deixou perder a ocasião para falar do teatro de Tavarede, dos seus êxitos, dos amadores que no decorrer dos anos mais contribuíram para o prestígio da Sociedade.
         E acerca dum célebre concurso nacional de teatro amador em que a SIT participou, bem contra a vontade de José Ribeiro, que era e é, como disse, alérgico a participações competitivas, pois que, como salientou “não fazemos teatro para juris, mas fazemos teatro para o povo da nossa terra”, concurso em que foi marcada presença muito dignificante, disse o conhecido autor do “Cântico da Aldeia”:
         “Tavarede obteve, além das menções honrosas, além dos prémios, incluindo o prémio do encenador, prémio que aliás não recebi e não recebi porque não quis, porque não fui lá, teve, além disso, a honra de obter o primeiro prémio da interpretação masculina e o primeiro prémio da interpretação feminina. O primeiro, para um amador realmente excelente, infelizmente afastado já do teatro, por razões de saúde principalmente, que era o António Jorge da Silva, e o segundo (1º prémio de interpretação feminina), a uma mulher genial, a uma amadora excepcional, uma rapariga que da ponta dos dedos dos pés até à ponta dos cabelos respirava teatro. Mas teatro com garra, com alma, e sobretudo com inteligência, e acima da inteligência, com muito amor. Teatro de paixão. Chamava-se, e chama-se, ainda é viva, Violinda Medina e Silva”.
         José Ribeiro comentou seguidamente as várias peças representadas, lembrou muito especialmente Bernardo Santareno, aquele que é o autor português, vivo, mais representado, e a este propósito evocou a figura do grande homem de teatro que foi António Pedro, director experimental do Porto. Falou de encenação e do seu grande impacto perante o público. A respeito desse importante pormenor da arte de representar, referiu ainda:
         “Na Universidade do México há uma cadeira de teatro. Exerce lá o professorado Fernando Vagner, que nós conhecemos através do seu manual de encenação, da sua táctica teatral. E é ele quem nos diz: “Preparar a peça para a representação é muito importante. Mas é muito importante também o critério da escolha. Primeiramente tem de se ver para quem se destina a peça, e com que elementos se conta para pôr a peça em cena, qual é o público a que se destina. Porque isto de fazer teatro sem querer ter público, não pode ser porque o teatro não vive sem público. O público é indispensável ao teatro”.
         José da Silva Ribeiro teceu ainda várias considerações a respeito de vários intérpretes dos diversos agrupamentos participantes nas Jornadas, e a respeito de alguns veio a proferir este comentário: “Quem mos dera em Tavarede”.
         Foi, efectivamente, um bom serão, restando-nos acrescentar a propósito da hipótese de vir a deslocar-se até à Figueira um homem de teatro para ministrar ensinamentos aos vários agrupamentos concelhios, como consequência destas 1ªs Jornadas, o crítico da sessão, dr. José Dias Costa, comentou, e com certa oportunidade, que não haveria necessidade de recorrer a gente estranha quando aqui mesmo, ao pé da porta, havia alguém – e referia-se a José Ribeiro – quem tinha conhecimentos suficientes para fazer algo em favor do teatro, ao serviço, já não só da Sociedade de Instrução Tavaredense, mas em favor de tantos outros militantes da maravilhosa arte de representar, de bom representar, acrescente-se.

Prestes a atingir as suas Bodas de Diamante, a Sociedade comemorou o 74º aniversário, tendo levado à cena uma nova peça de Shakespeare, Tudo está bem quando acaba bem. E foi com esta peça que a colectividade participou nas II Jornadas do Teatro Amador da Figueira. Com a apresentação da peça “Tudo está bem quando acaba bem”, de Shakespeare, encerraram as II Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, uma iniciativa do Lions Clube desta cidade, com o patrocínio e colaboração de diversas entidades, nomeadamente o Grande Casino Peninsular, que cedeu as suas instalações para que a realização fosse um facto.
         Num balanço muito superficial diremos que, efectivamente, o nível da organização, no que concerne aos grupos presentes, melhorou consideravelmente, notando-se, à priori, que houve evidentemente uma muito aceitável e legitima preocupação em trazer ao Peninsular boas obras, com correspondentes boas actuações.

         Analisando – como o devemos fazer – a realização e as presenças, no âmbito dum teatro amador tradicional das aldeias do nosso concelho, temos de convir que, felizmente, os aspectos culturais ainda são preocupação das nossas gentes, pois que não alienadas completamente a solicitações mais fáceis e, também, naturalmente prejudiciais.
         E, para já, fazemos votos para que em 1979, com a realização das III Jornadas, o nível de 78 seja superado, já que os amadores terão consigo o lenitivo e o estímulo do público figueirense, que nunca faltou a dar-lhes o seu apoio e consequentemente, a manifestar-lhes o seu agrado com os seus fartos aplausos.
         Encenadores perpassaram pelas Jornadas, amadores se distinguiram, já que possuíam qualidades magnificas para o desempenho dos papéis que lhes foram distribuídos, numa certeza de que no concelho da Figueira existem valores muito consideráveis na arte de representar, alguns mesmo a causar inveja a profissionais.
         Causou natural expectativa a apresentação do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, aguardada com certo interesse, dada a tradicional qualidade dos seus espectáculos, superiormente escolhidos por um homem de teatro, José Ribeiro, que à Arte de Talma se dedica há mais de 60 anos.
         E uma coisa é certa: a mão do encenador esteve presente em todos os momentos nesta peça de William Shakespeare.


Tudo está bem quando acaba bem

A movimentação dos amadores, a sua presença, dizem, logo à partida e no decorrer da representação, que estão bem dirigidos.
         O que, efectivamente, José Ribeiro não pode fazer é milagres, e daí que, naturalmente, não haja hipótese de haver uma coesão que se exigiria em profissionais, entre todos os participantes.
         O pretenciosismo, o empolamento patenteado por certos amadores, traiu-os um tanto e não os deixou brilhar ao nível, por exemplo, de Ana Paula Fadigas, a melhor figura feminina (Helena), de José Luís Nascimento, quanto a nós a grande presença masculina, interpretando muito bem o papel de “Bobo”, e Fernando Reis, que teve momentos muito altos no “seu” Lafeu.
         Nestes, a naturalidade teatral, granjeou-lhes o primeiro plano, dando à peça, que se arrasta um tanto, mercê de inúmeras transicções de cena, uma certa vivacidade que doutra forma a mesma não teria. O desejo de fazer bem prejudicou o papel importante de José Medina, que se excedeu no seu ênfase, ultrapassou as barreiras do teatro, faltou-lhe naturalidade. A caracterização também o não ajudou, e o “seu” Conde de Rossilhão, que era dos principais papéis, ficou muito aquém do que seria de exigir.
         A cenografia, a cargo do Prof. Manuel de Oliveira e José Maria Marques, valorizou imenso o espectáculo, que, ao fim e ao cabo, esteve em plano idêntico a algumas boas representações que vimos no decorrer das Jornadas.
         E já agora o nosso aplauso para a Sociedade de Instrução Tavaredense, por mais uma vez se preocupar, até à minúcia, na construção dum espectáculo em que cenários, guarda-roupa, e classicismo da obra escolhida, marcaram uma determinada posição.

         Jorge Galamba Marques, em nome do Lions Clube, veio ao proscénio, no início da representação, anunciou a realização das III Jornadas para 1979, e agradeceu a colaboração de todos quantos contribuíram para que a organização atingisse os seus propósitos, não esquecendo os órgãos de comunicação social, focando muito especialmente o “Diário de Coimbra”, o que sensibilizados agradecemos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 6

Água, vinho e leite
Produtos tavaredenses com fama!

         Foram três produtos tavaredenses que tiveram muita fama! Comecemos pelo vinho. Até porque o vinho lembra o S. Martinho e este santo, desde tempos imemoriáveis, é o padroeiro de Tavarede. Ainda não há muitos anos o vinho tinha grande influência na nossa terra. “... há vinte ou trinta anos, havia aqui duas tabernas. Hoje temos cinco!”. (Chá de Limonete)
        

É verdade! Tendo sido Tavarede uma terra de índole agrícola, havia sempre um pedaço de terreno, cuidadosamente tratado, onde imperavam pujantes cepas, ou corrimões que ladeavam as leiras semeadas. Nalguns quintais, enormes parreiras proporcionavam sombras agradáveis nas quentes tardes do verão.
 

A grande maioria dos tavaredenses apenas fabricavam pequenas quantidades para consumo próprio, não sendo raros os casos em que recorriam a uns cântaros de água.  Mesmo assim, poucos eram aqueles que conseguiam colheita para todo o ano. E poucos, mesmo muito poucos, eram aqueles que vendiam o seu vinho.

Havia, porém, alguns locais na freguesia onde se fabricava vinho de qualidade, especialmente branco. Encontramos diversas referências ao vinho branco produzido nos Condados! E nas encostas da Matiôa e do Saltadouro, terrenos fortes cheios de sol, era o tinto e o palhete que dominavam.

         Mas, embora os produtores fossem muitos, os bebedores eram em número substancialmente superior. Influência, talvez, do orago da terra... Mesmo nas primeiras décadas do século vinte encontram-se muitas notícias, na imprensa figueirense, sobre o consumo excessivo de vinho na terra, o que muitas vezes dava azo a quezílias e desordens, que algumas vezes atingiam gravidade. Questões do progresso comercial, como o aumento de tabernas referido acima!

         Baseados nas citadas velhas notícias, encontramos muitas notas lamentando a preferência da taberna em desfavor da escola que há mais de cento e dez anos já funcionava, gratuitamente, na colectividade do Terreiro. Mas era nas tabernas que, embrenhados em jogos de cartas, os trabalhadores tavaredenses iam passar os serões, bem longos no inverno, gastando na bebida muitas vezes o dinheiro necessário à sua alimentação e de sua família.

         Na verdade foi bastante longa e dura a luta travada contra tal vício, onde se deve destacar a acção desempenhada pelas associações locais, sempre tentando atrair os analfabetos trabalhadores à educação e â instrução que as aulas proporcionavam. Como exemplo, citamos o espectáculo promovido pela Sociedade levado à cena nas comemorações do seu aniversário, em Janeiro de 1911, transcrevendo um pequeno apontamento encontrado num jornal figueirense. “... é um pequeno drama e uma grande lição que oxalá aproveite aos que infelizmente preferem a frequência na taberna e no jogo ao santuário da escola. Pintando claramente as consequências funestas dos que se deixam arrastar pelo vício até à prática dos mais horrendos crimes, termina pela apoteose à instrução”.
         Muitas foram as vezes que houve aproveitamente do teatro para mostrar os malifícios do abuso do vinho e as vantagens da educação, aprendendo a ler e a escrever. Somente como exemplo, retirámos da fantasia ‘Na Terra do Limonete’, levada à cena em Abril de 1912, este pequeno fragmento: Zé Borracho – Este é do bom. Foi tirado da pipa ou da picheira? (gesto do Taberneiro) Bem! (senta-se e fala com os copos, muito bêbedo) Pois sim! Diz que eu já lá vou! Quer dinheiro? Vá roubá-lo! (pausa) Quais filhos, nem qual diabo? Cada um que trate de si! (pausa) Para roubar ou pedir não é preciso aprender. Eu cá deixo tudo menos de beber! (levanta-se com o copo e canta)
                    Do funil faço a mortalha,
                     D’uma pipa o caixão,
                     Da garrafa uma vela,
                     Fico de copo na mão;

                     O beber alegra a gente,
                     O fumar nos dá prazer.
                     Quem não fuma, quem não bebe,
                     Que alegrias pode ter.
         Mas foi uma luta proveitosa embora longa. Os tavaredenses acabaram com tal vício e, em grande parte devido às lições colhidas nos espectáculos teatrais, acabaram por se integrarem no lote dos povos do concelho mais instruidos e cultos.

         Voltando ao princípio, recordamos que, naqueles saudosos e já distantes tempos da nossa meninice, a nossa terra, cujas leiras ao redor da aldeia eram cuidadosamente amanhadas, q       uase que em todas as casas se espichava um pequeno barril quando era chegado o dia de S. Martinho.

         O tempo das vindimas era um tempo alegre e feliz na aldeia, mesmo para aqueles que tinham de ir à fonte buscar alguns cântaros de àgua para atestarem o pequeno barril, raras vezes uma pipa.

         Recordamos o tempo em que, em duas ou três adegas locais, se pendurava à porta uma grande ramada de loureiro, que era o aviso de que ali se vendia vinho novo de produção própria, ao copo e à garrafa. E muitos eram aqueles que, vindos da cidade ou em especial de Buarcos aqui vinham merendar nas tardes domingueiras, petiscando saborosas sardinhas asssadas, saborosa broa caseira e algumas azeitonas, que acompanhavam com o saboroso vinho novo.

         Tinha fama o vinho que assim era vendido. Das encostas do Saltadouro, da Matiôa e dos Condados, onde as vinhas eram cuidadosamente tratadas. E enquanto a torneira da pipa deitasse era garantida a clientela.


         Certamente que ainda haverá quem fabrique o seu vinho. Mas, e  com toda a certza o dizemos, já não existe na terra nenhuma adega que, por ocasião do S. Martinho, abra a sua porta com o ramo de louro pendurado.

O Associativismo na Terra do Limonete- 101

Foi, pois, ao espectáculo do passado dia 4, realizado no teatro da SIT, que o ilustre professor jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sr. Dr. Hernâni Cidade, eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações Camonianas – que desde há muitos anos se digna honrar-me com a sua preciosa amizade, a pontos de já por diversas vezes ter colaborado no meu “Jornal de Sintra” -, esteve presente e se fez acompanhar de diversos intelectuais seus amigos.
         Entusiasmado por meu filho, que dias antes, vindo do Norte e indo beijar a familia a Tavarede (onde também nasceu), assistiu a uma representação da aludida peça, também, com ele, a esposa e filha, minha mulher e um casal amigo, ali me desloquei.
         Dou-me por muito feliz tê-lo feito. O contrário redundaria numa carga de remorsos que         nunca mais deixaria de pesar-me na consciência…
         Ao abrir o espectáculo, José Ribeiro, descendo ao proscénio, num improviso felicíssimo, como sempre, cumprimentou e saudou, brilhantemente, o ilustre e categorizado académico, regozijando-se com a grata presença de tão elevada personalidade, que honrava, sobretudo a veneranda colectividade de cultura popular da sua terra e os seus humildes amadores teatrais, todos gente do povo, para quem pediu a maior generosidade e benevolência na interpretação das peças que iriam apreciar.
         E o espectáculo começou pela ordem em acima referida…
         … e acabou, sob uma estrepitosa, interminável e delirante salva de palmas, devidas aos artistas competentes, e chamadas entusiásticas a José Ribeiro . que bem mereceu, de facto, as retumbantes manifestações de carinhoso apreço de que foi alvo!
         Antes do pano baixar, o ilustre espectador, sr. Dr. Hernâni Cidade, subiu ao palco, onde lhe foi entregue, por uma amadora, um lindo e viçoso ramo de flores, após o que, no uso da palavra, proferiu um eloquente discurso – que foi bem uma magnifica lição histórica – em que envolveu, na simpática pessoa de José Ribeiro, o seu apreço ao grupo cénico que acabara de apreciar e o seu abraço de simpatia ao bom povo da linda aldeia em que se encontrava, rodeado dos mais cativantes e bem merecidos carinhos.
         Uma apoteótica salva de palmas coroou a magistral lição do ilustre orador.

Prof. Dr. Hernâni Cidade, em Tavarede

No salão de recepções da SIT foi, depois, servido a convidados de honra presentes ao espectáculo, amadores cénicos, etc., um suculento “copo-de-água”, que deu ensejo a que todos os presentes se regalassem de ouvir mais dois brilhantes discursos, primeiro, pelo velho amigo José Ribeiro, depois, pelo eminente presidente da Comissão Nacional das Comemorações de “Os Lusíadas”.
         Mais uma vez saí, orgulhoso, de Tavarede – e profundamente envaidecido pela cada vez mais aprimorada capacidade artística dos meus conterrâneos! Só é pena que, tanto o espectáculo de agora, como tantos outros que lá têm sido realizados, todos da mais reconhecida e categorizada interpretação e rigorosa encenação, fiquem só por ali e pela Figueira…
         Um grande abraço de parabéns, pois, ao “velho” Zé Ribeiro e aos seus pupilos, entre os quais a “hierarquia” dos Medinas continua a estar bem representada – em quantidade e qualidade – graças a Deus!...
         De represso a Sintra, pensei em dirigir um pedido de duas palavrinhas, sobre os tavaredenses, a tão ilustre catedrático, quase certo de que não deixaria de ser gratamente atendido; e, como tal, assim o fiz, tendo logo merecido a desvanecedora atenção de Sua Exª, que se dignou honrar-me com a carta que se segue – e aqui se agradece, reconhecida e gratamente, com um sincero e respeitoso abraço de muita admiração e estima. Bem haja, pois, por tamanha honra, sr. Dr. Hernani Cidade:
         Sr. António Medina, Meu prezado amigo:
         Tenho o tempo tomadíssimo, mas não lhe posso negar as palavrinhas que me pede sobre o espectáculo a que ambos assistimos na sua terra, na inesquecível noite de 4 de Novembro.
         Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano – El-Rei Seleuco. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer.
         José Ribeiro merece aquele ambiente de calorosa estima e de enternecida admiração, que lhe dedicam todos os colaboradores, todo o povo de Tavarede. E até na formação de tal ambiente está demonstrada a superior sensibilidade do povo a cuja educação ele com tanta bondade e com tanta inteligência consagra a sua devoção cívica e a sua humaníssima paternidade. Na verdade, é uma surpresa gratíssima sentir como todos desempenham os seus papéis! Sem um comum fundo de cultura superior à habitual em pessoas de aldeia e profissão humilde, não seria possível tanta maleabilidade na interpretação e representação das figuras, na adequação a estas de falas e atitudes, quer naquele auto, quer na Evocação de Camões e “Os Lusíadas”, da autoria do seu ilustre conterrâneo.
         É uma bela obra, a que José Ribeiro está realizando. Mas é o de melhor colaboração possível, o ambiente moral e até artístico em que tem a felicidade de trabalhar. Merecia-o o seu talento; merecia-o a sua simpatia, a que nem falta a espontânea eloquência com que sabe comunicar-se.
         Aqui tem, meu querido amigo, o que, da abundância do coração, me veio ao bico da esferográfica.
         Tudo isto e ainda um abraço do seu amigo Hernâni Cidade. 

Entretanto um novo projecto de obras começou a formar-se: a construção de um pavilhão desportivo. Anexo à sede e a edificar no antigo campo de jogos. Nova campanha para angariação de fundos, muita dedicação e muito esforço colectivo, e a obra acabou por iniciar-se e, anos mais tarde, concluir-se.

         Depois do movimento de 25 de Abril, Mestre José Ribeiro escreveu e ensaiou uma nova fantasia. Deu-lhe o título de Manta de Retalhos. Sobre esta peça, não resistimos à transcrição desta nota. Eu que não assisti a nenhuma estreia, fui desta vez a uma, sem constrangimento, com prazer. Isto aconteceu num lugar pouco conhecido, porém, o mais teatral de Portugal: em Tavarede. Vila de 500 habitantes – perto da Figueira da Foz -, possui um grupo de teatro amador já famoso e cujo mentor, José Ribeiro, não precisa das acções de dinamização cultural vindas de fora, porque ele a dinamiza há já algumas dezenas de anos, e de dentro.
         Na verdade, em Tavarede faz-se mais teatro do que em Lisboa e do que em Paris e Londres: dos 500 habitantes, na última estreia, vimos cerca de 40 actores, uma dúzia ou mais de músicos tocando no fosso da orquestra, 20 técnicos de cena, enfim, uma percentagem considerável da população local.
         A peça estreada chama-se “Mesa Redonda” e o seu autor compilador é uma vez mais o infantigável José Ribeiro, 80 anos passados; mesmo após uma recente grave doença, continua cheio de “verve” e quando anda, os outros têm de correr atrás. Diz-se: o que há de bom em Tavarede, é a água e o José Ribeiro. Mas voltando ao espectáculo: era um exemplo vivo da aliança da cultura “culta” (Gil Vicente, Sóror Mariana, Cântico dos Cânticos) com as preocupações locais  e até políticas do momento. Uma revista “sui generis”, com quatro “compères” (de mesa redonda quadrada), com música, canções, finais e tudo, com dezenas de cenários ou apontamentos montados num abrir e fechar de olhos, rigorosamente, sem falha; e, dentro desse global recreativo os textos muito belos e sérios.
         A estreia foi um êxito mas o eco não chegou, que eu saiba, a Lisboa. Ficou no seu lugar para o qual foi concebido o espectáculo, com honestidade, trabalho e talento, sem modas e oportunismos. E quase me penitencio de falar dele, neste jornal: é como desvendar deslealmente um segredo, embora movido pela simpatia, admiração e até mais. Eis o abraço do espectador da estreia, desta vez não renitente. Jorge Listopad.