sábado, 13 de dezembro de 2014

O Associativismo na Terra do Limonete - 106

Para o espectáculo de gala, uma nova fantasia sobre a história de Tavarede foi levada à cena, Ontem, hoje e amanhã. Com o pé no estribo para uma curta viagem que não sei se será o prólogo de outra maior – a maior de todas as viagens – transmito ao teclado máquina de escrever o breve apontamento que se segue acerca do espectáculo a que há poucas horas assisti no bem reputado teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, com a revista “Ontem, Hoje e Amanhã” desse excepcional homem de teatro e apóstolo da cultura popular, que é José da Silva Ribeiro.
         Dizer que nos surpreendeu a boa confecção do espectáculo, não seria exprimir a verdade. Mas que nos surpreende como um homem com a provecta idade de 84 anos foi capaz, não dizemos de ensaiar mas de escrever o texto, boa parte do qual em verso – género difícil em teatro – verso bem construído, vigoroso, com rimas naturais, sem artifício de martelo, que nos lembram os grandes clássico das nossas letras, isso, sim, isso surpreendeu-nos e levou-nos, no final, a exclamar: abençoados 84 anos!
         Doseando a fantasia com a história de forma a que o espectador aceite a mistura sem enfado – eis outra vitória do autor.
         A música, parte da qual transportada de números antigos que foram êxito e consagraram compositores como António Simões e Anselmo Cardoso – valoriza sem dúvida o espectáculo.
         João Cascão Filho dá também com a sua intervenção musical, uma nota de ternura muito grata aos que conheceram seu saudoso pai em incontestáveis êxitos que o impuseram como amador teatral de excepcional craveira.
         Dessa fornada notável de amadores, dá gosto ver actuar ainda José Luiz do Nascimento, Fernando Reis, João de Oliveira Júnior e João e José Medina.
         São os grandes trunfos de ontem. Os de hoje seguem as suas pisadas. E os de amanhã não desmerecerão certamente os créditos dos antecessores, se o espírito de José Ribeiro continuar a presidir à caminhada teatral da SIT.
         Tavarede foi sempre um alfobre de grandes amadores teatrais!

Em Março de 1979 a Junta de Freguesia deu conhecimento à direcção do Grupo Musical da hipótese da cedência de um terreno, pela Câmara, para construção de uma nova sede. Em Junho, e em nova assembleia extraordinária, o Grupo deliberou, por unanimidade, pedir uma indemnização de trezentos mil escudos, para abandonar as instalações no Paço, E logo foi nomeada uma comissão para as respectivas obras.

Por sua vez, a Sociedade participou nas III Jornadas de Teatro Amador da Figueira, apresentando no Casino Peninsular a peça O processo de Jesus. Na última sessão das III Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, efectuada em 2 de Maio corrente, o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresentou a peça “O Processo de Jesus”, de Diego Fabbri. Pensamos que é importante fazer um balanço (reflexão) desta organização do Lions Clube da Figueira da Foz, mas agora vamos apenas falar do espectáculo apresentado pela Sociedade Instrução Tavaredense, sob a direcção de Mestre José Ribeiro.
         “Se existe perfeição e harmonia, tanto na peça como na sua interpretação dependeu um do outro e têm valor por si próprios. Não pode assim existir uma reprodução fiel, objectiva, duma peça teatral; não teria interesse, nem sequer como ideal”. Assim, assistimos a um espectáculo bem elaborado nos seus múltiplos aspectos, ainda que se possa afirmar que a nível do texto dramático a argumentação feita pelo Intelectual não seja profunda, do que resulta a defesa aberta da religião.
         Como resultado do perfeito conhecimento da função do encenador e de acordo com a opção estética feita, este espectáculo tem uma encenação correcta e equilibrada, o que não surpreende ninguém, pois o seu responsável é um profundo conhecedor da técnica teatral.
         Quanto ao trabalho dos actores é homogéneo, havendo uma boa construção de todas as personagens. Porém, as falas de João são excessivamente gritadas, o que denota mau controlo da voz e (ou) nervosismo do intérprete, mas não podemos deixar de salientar as interpretações de João de Oliveira Júnior e dessa grande senhora de teatro que é Violinda Medina e Silva, de quem nunca esqueceremos a sua interpretação do “Pranto de Maria Parda”, de Gil Vicente.
         As III Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz terminaram, e fizeram-no da melhor maneira. Viva as IV Jornadas, com as necessárias rectificações.

Recordamos que foi no dia 2 de Junho de 1979, num espectáculo com a peça O processo de Jesus, na sua sede em Tavarede e cuja receita reverteu a favor da campanha para a compra de um novo ‘pronto-socorro’, para os Bombeiros Voluntários, que Violinda Medina e Silva pisou as tábuas do palco pela última vez. Embora fosse tentada a uma nova representação, acabou por se sentir incapaz e nunca mais participou no teatro.
As comemorações da Bodas de Diamante da SIT terminaram na sessão solene do 76º aniversário. Depois de uma peça de Shakespeare, Rosalinda, o grupo cénico tavaredense representou Comédia da morte e da vida. E foi com esta peça, que depois de uma ausência, o grupo voltou ao palco tomarense. A Sociedade de Instrução Tavaredense esteve mais uma vez em Tomar. Agora, para dar um espectáculo a favor da sede da Gualdim Pais. Representou a peça de Henrique Galvão, “Comédia da Morte e da Vida”. Com o brilho e o êxito a que desde sempre nos habituou. É, na realidade, um belíssimo grupo teatral amador que desde há longos anos vem espalhando, pelo país, cultura e benemerência.
         O prestígio da Sociedade de Instrução Tavaredense é velho nesta terra nabantina. Cinquenta anos de solidariedade, de amizade, se cumprem este ano. Meio século em que aqui tem actuado a favor das nossas colectividades e instituições de beneficência. E a trazer-nos excelentes mensagens de cultura.

         Com ele, com o grupo de Tavarede, o seu dirigente. Esse homem bom, activo, dinâmico, de palavra fluente, criador duma obra extraordinária no campo cultural: - José Ribeiro. Que chegou às margens do Nabão em juventude a agora voltou, depois de muitas presenças intermédias, com 85 anos. Mas ainda jovem no espírito. Um grande amigo da nossa terra. Gratos lhe estamos.

         A Sociedade Gualdim Pais está de parabéns. Pela sua iniciativa e por nos proporcionar a presença dum grupo teatral que todos os tomarenses – gerações – admiram e acarinham. A quem devemos muitos favores. E por nos ter trazido a sua “alma”: - José Ribeiro. Que mais uma vez, em resposta às palavras de Fernando Ferreira, que saudou a Sociedade Tavaredense, nos encantou e disse de Tomar maravilhosamente.
         Uma noite bonita!

E em Setembro de 1980, o Grupo Musical foi novamente notícia. Fundado em 1911, conheceu o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense momentos altos na sua actividade em prol da cultura do povo de Tavarede. Foi notável o seu grupo cénico, que não tinha paralelo em todo o concelho.
         Com o decorrer dos anos, a actividade do GMIT esteve mais ligado à música, mantendo a sua Tuna e ensinando aos jovens este gosto pela arte. Aos momentos de glória, outros menos agradáveis se seguiram. A sua sede, no velho Palácio de Tavarede, não oferecia um mínimo de condições para a sua actividade. A situação agravou-se ainda mais, ficando paralizada toda e qualquer actuação do GMIT.
         Os seus associados nunca quiseram aceitar a derrota, e sempre se negaram a aceitar a extinção da velha associação. Resistiram, lutaram. Foram abnegados no seu amor à colectividade.
         É agora que o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense vê renascer as esperanças de continuidade.
         A Câmara Municipal resolveu o problema do Paço de Tavarede, tendo o Grupo recebido uma pequena indemnização. Igualmente a Câmara destinou um terreno na Quinta do Paço para a nova sede do GMIT. O Grupo tinha uns magros contos de réis, mas não lhe falta determinação.
         Aqui estão lançados para a frente os dirigentes do Grupo, para construirem a sua nova sede. Precisam de ajuda, muita ajuda, pois vontade não lhes falta.
         É um imperativo de consciência, que todos os figueirenses ajudem o Grupo a edificar a sua nova sede. O concelho da Figueira da Foz precisa do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
Ao terminar esta breve resenha, não queremos deixar de colocar à disposição do GMIT as colunas de “Mar Alto” para o que julguem necessário.

E recordamos também que atendendo aos serviços, dignos de reconhecimento e apreço, a Câmara Municipal deliberou agraciar o Grupo Musical Carritense com a Medalha de Mérito em Prata. Esta agremiação acabava de comemorar o seu 5º aniversário. E, agora, mais uma boa informação.

Era uma vez 16 amigos que sonharam num clube para o Saltadouro. Teve,  este sonho, uma data: 11 de Março de 1979. E, igualmente, teve um nome: Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro. Lugar vizinho da antiga e pequena aldeia de Tavarede, também conheceu elevado desenvolvimento, especialmente como zona residencial. E como o nome indica, o desporto foi a sua primeira actividade. E o convívio, que era a sua principal iniciativa. Não tardaria a enveredar pela abertura de uma escola de música. Mas a sua precária instalação dificultava qualquer tentativa de desenvolvimento cultural ou recreativo. Mas o sonho continuou, pois havia necessidade de uma sede em condições. E essa sede, tempo depois realidade, trouxe, tal como à sua jovem congénere da Chã, o desenvolvimento associativo, nas mais variadas vertentes. Música, teatro, folclore, dança e desporto, têm sido actividades constantes nestas associações.


Voltamos a repetir: muito trabalho, muita dedicação, muita vontade de vencer. E hoje, adiantamos já, o associativismo na freguesia do limonete, tem condições para prosseguir o seu caminho triunfante. Conseguirá? Mas... a história continua.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Histórias e Lendas - 10

            “Desce-se por uma rampa em degraus, limpa e arranjadinha, com verdura e flores a ladeá-la. Ao fundo, um alpendre bonito alberga a linfa sussurrante. Não falta sequer o azulejo alusivo, moderno, mas de bom gosto. Depois, é beber, mesmo sem sede.
            Não admira que o culto ancestral das águas tivesse sobrevivido até quase aos nossos dias. Sabe-se lá se o tal homem primitivo que por ali andou não foi o primeiro a celebrar esta fonte?
            Era no primeiro de Maio, quando a terra se cobre de flores e os dias são mais alegres. Lá iam, de manhã cedo, rapazes e raparigas de todas as aldeias em redor a buscar a água fresca. Durante a noite, as cachopas nem se tinham deitado, a enfeitar as cantarinhas com flores, laços e fitas de seda. Cantarinha cheia... coração a bater mais...
            Era o folguedo, tambem e principalmente. Juntavam-se toques de guitarras e violões, flautas e harmónios, ferrinhos e pandeiretas. Dançava-se de roda pelas ruas e largos enquanto as vozes cristalinas subiam nos ares, a desafiar os passarinhos num hossana á mãe natureza.
            Depois vinha tudo até à Figueira fazer as compras ao mercado e a trazer à cidade o ar do campo, afinal ali tão perto”

Era um dos nossos passeios favoritos nas noites quentes e luarentas do verão. Sentávamo-nos nos degraus das escadas que dão acesso à fonte e ali nos quedávamos horas infindas. O ar que se respirava cheirava deliciosamente ao limonete. Era dos muitos arbustos das leiras e dos quintais vizinhos. Muitas vezes, no silêncio da noite, ouvia-se o chilrear dos rouxinois e dos pintassilgos nos salgueirais próximos.

“A todos deixo contentes, porque a todos satisfaço o desejo que os trás à fonte: dou-lhes de beber, e ensino-lhes, com a minha canção, a não dizer mal de ninguém...”. (Chá de Limonete)

Inspirava poetas. Pela tardinha lá iam as mulheres tavaredenses, com os seus potes e cântaros de barro, buscar água fresquinha para se beber e para cozinhar. Da cidade vizinha também era a hora de virem à nossa fonte encher os garrafões. Conta-se que o saudoso tavaredense António Cordeiro, tinha no seu estabelecimento no Bairro Novo, um enorme cântaro com água da nossa fonte, o qual era muito procurado por apreciadores duma boa água pura e fresquinha.

No ano de 1946, a autarquia local mandou beneficiar e alindar o local.

“A risonha aldeia de Tavarede, que – diga-se de passagem – completamente desacompanhada por quem tinha o dever de o fazer, em muitas úteis e proveitosas tem contribuído para o bom nome e prestígio do concelho da Figueira, num legítimo anseio de fugir do sistema rotineiro em que, no factor melhoramentos, há largos anos se debate, acaba de dar provas do que vale a acção e boa-vontade da sua ordeira gente, empreendendo e realizando alguns melhoramentos públicos, cuja falta bastante se fazia sentir.
            A actual Junta de Freguesia, presidida pelo sr. António Lopes, além de outras obras de grande utilidade, já consumadas, no passado sábado inaugurou um chafariz no largo do Senhor da Arieira e descerrou, na pitoresca fonte da afamada água de Tavarede, duas interessantes lápides com os seguintes versos do ilustre poeta e publicista figueirense, nosso querido e velho amigo, sr. Manuel Cardoso Martha:

Tu, sequioso, que vens                                   É casta, límpida e pura         
À fonte de Tavarede,                                      e assim deves ser também;               
Cuida na água e seus bens                            é calada, e, se murmura,
Enquanto matas a sede.                                Nunca diz mal de ninguém.

            Cerca das 13 horas, chegaram ao Senhor da Arieira as entidades oficiais, nomeadamente, os srs. dr. Álvaro Malafaia, presidente da Câmara Municipal, engenheiros António Rei e José Redondo, capitão Militão e João Guilherme Delgado, vereadores, que foram recebidos, festivamente, pela Junta de Freguesia e por muito povo. O sr. dr. Malafaia cortou a fita simbólica. Soam palmas. E “vivas”. Detonam foguetes. Gentis raparigas, entre sorrisos alegres, entregam ao sr. presidente da Câmara flores viçosas colhidas nos canteiros ubérrimos da linda “Terra do Limonete”.
            Entretanto, a caravana desce ao burgo, sendo recebida em alvoraçada manifestação de apreço e carinho pelo povo, não escondendo as ilustres entidades a sua alegria pela surpresa colhida, através dos benefícios pela Junta introduzidos na terra, que ainda há meses se encontrava em miserável estado de asseio.
            Seguidamente, autoridades e povo tomam o caminho da fonte, muito asseiada e ornamentada com plantas e flores. Nas paredes laterais aos canos que brotam, espontaneamente, duas maravilhosas e cristalinas linfas, que são a delícia do povo da terra e da Figueira, pendem duas colgaduras de seda, sob as quais estão, em azulejos desenhados pelo lápis privilegiado de Rogério Reynaud, os versos que acima transcrevemos.
            É ainda o sr. dr. Álvaro Malafaia quem procede aos respectivos descerramentos.
            António Lopes, activo e dinâmico bairrista, cuja vontade de ferro em elevar a melhor nível de prosperidade a sua terra, e que por nada arrefece ou desanima, fala pela paróquia a que preside. E evoca nomes, a quem rende homenagens e agradecimentos. Diz do que já se fez e do muito que ainda há para se fazer em Tavarede. Confia em si e nos colegas da Junta. Confia na boa-vontade do seu povo. E conta com a imprescindível colaboração da Câmara Municipal. Findou o seu discurso com “vivas” à Câmara, a Cardoso Martha, a Rogério Reynaud, a António Vítor Guerra, etc.,  etc..
            Encontrando-se casualmente, em Tavarede, sua terra natal, o sr. António Medina Júnior, director do “Jornal de Sintra”, acompanhado de sua esposa, também natural daquela hospitaleira localidade concelhia, a Junta convidou-os a assistir às festas a que nos vimos de reportar. Assim, no uso da palavra, o sr. Medina Júnior agradeceu a António Lopes todos os benefícios em prol do seu lindo burgo e pediu ao sr. presidente da Câmara que acarinhasse, o melhor possível, as boas vontades que ali se encontravam e estavam empenhadas em trabalhar pelo progresso e prestígio de uma adorável aldeia que fôra mãe da “Rainha das Praias de Portugal”.
            Seguiu-se no uso da palavra o ilustre poeta Cardoso Martha, que teceu um hino às belezas e tradições de Tavarede e do seu bom povo.
            Numa das dependências do palácio do Paço de Tavarede, propriedade do grande amigo da freguesia sr. Marcelino Duarte Pinto, foi oferecido, pela Junta e servido por gentis raparigas, um almoço regional às entidades camarárias e a alguns convidados de honra.
            Durante o repasto, que revestiu um cunho acentuadamente familiar, usaram da palavra os srs. dr. Álvaro Malafaia, Cardoso Martha, António Lopes, capitão Militão, António Medina Júnior e Marcelino Duarte Pinto.
            Às entidades oficiais foram oferecidos mais ramos de flores, a que não faltava o característico limonete, quando da sua retirada para esta cidade, o que se deu por entre palmas e “vivas” entusiásticos.
            À noite exibiu-se, na esplanada da Sociedade de Instrução Tavaredense, o aplaudido “Rancho das Rosas”.
            Embora a Junta de Freguesia não fizesse participações à Imprensa, não podemos deixar de nos associar, com muito prazer, às festas realizadas no passado sábado em Tavarede, festas essas que aliás representavam pensamentos e sacrifícios postos em prática e traduzem obras públicas que impõem o meio e dignificam quem as empreendeu e realizou.
            Estas manifestações de actividade e de progresso regozijam-nos. Por isso as registamos nas nossas colunas com o maior aprazimento e carinho.
            Para breve, novo e importante melhoramento se realizará na fidalga e hospitaleira “terra do limonete”.
            Para a frente, pois. E parabens.

Em Janeiro de 1993 novas obras foram inauguradas.

                “E a fonte de Tavarede voltou a renascer na tarde do passado sábado, perante a presença de significativa multidão de tavaredenses e convidados que participaram no conjunto de actos levados a efeito para assinalar esta reabertura que, em nosso julgar, mais do que o refrescar de corpos, vale acima de tudo pelo reencontro que, os tavaredenses estabeleceram com um passado pródigo em tradições e, para muitos também, simbolizado nesta centenária fonte, à volta da qual se teceram tantas histórias de idílicas cores.
            As cerimónias tiveram início com uma recepção havida na sede da Junta de Freguesia, com a presença de diversos convidados, dos quais destacamos o presidente da Câmara e vereadores socialistas, bem como do presidente da Assembleia Municipal.
            Aqui as honras da casa seriam da responsabilidade do engº Rui Carvalheiro, presidente da Assembleia de Freguesia, o qual realçou o esforço que o executivo tavaredense tem despendido ao serviço da terra, afirmando que “eles não podem fazer mais do que aquilo que já fazem”. Depois referir-se-ia à obra que iria ser inaugurada, como “singela mas de grande significado”, particularmente para os tavaredenses mais bairristas.
            Como que em resposta à intervenção do autarca tavaredense, o engº Aguiar de Carvalho discursaria de seguida para também ele destacar o simbolismo da inauguração, numa terra em crescente salto demográfico resultante da instalação de pessoas não originárias de Tavarede, mas que os tavaredenses necessitam de integrar no “modus vivendi” da terra.
            Reviver o passado, como naquele dia se procedia em Tavarede, pode ser uma das formas de união, segundo crê engº Aguiar de Carvalho.
            E se esta cerimónia pouca participação popular haveria de ter, todas as outras se caracterizariam pelo elevado número de assistentes que congregaram.
            Terminada a recepção na Junta, um autêntico cortejo, a que não faltou os acordes da Tuna de Tavarede, encaminhou-se para o local da inauguração, onde muita gente desde há muito aguardava pacientemente o momento esperado.
            Aqui, isto é, na Fonte de Tavarede, bem defronte das bicas, melhor torneiras, o padre Matos procedeu à benção da obra proferindo uma prédica cuidadosamente estudada e adaptada às circunstâncias.
            Entretanto o presidente da Câmara foi convidado a descerrar uma lápide evocativa desta cerimónia, retirando a bandeira da Figueira, para deixar à vista a inscrição que perpetuará o dia 9 de Janeiro de 1993, como data da recuperação deste património tavaredense.
            O engº Rui Carvalheiro usaria de novo da palavra para voltar a enaltecer a inauguração a que se procedia, destacando a acção desenvolvida por António Simões Baltazar, presidente da Junta, dissertando depois sobre as dificuldades que enfrentam as Juntas para, sem dinheiros, procederem às beneficiações que os moradores necessitam e merecem.
            Aludiria ainda ao Paço de Tavarede que, tal como está, ”a todos nos envergonha um pouco”, mas adiantou que a Junta já elaborara ante-projectos de recuperação, aguardando agora decisões superiores.
            O oradora seguinte foi a drª Ana Maria Caetano, que servindo-se de palavras de José da Silva Ribeiro, em especial retiradas da peça “Chá de Limonete” teve uma agradável e pouco vulgar intervenção, merecedora de rasgados aplausos.
            Digamos que o Teatro também esteve presente na Fonte de Tavarede.
            E foi com visível emoção que António Simões Baltazar nos veio dizer de sua justiça, numa sentida intervenção, que espelha bem a sua dedicação a Tavarede e o empenhamento que colocou na recuperação da Fonte, da sua Fonte de Tavarede, tendo agradecido a tanta gente, e tanta ela foi, que contribuiu para que a fonte voltasse a ser fonte, dando a conhecer que em breve, numa das paredes do caminho que leva à fonte, vai ser colocado um “quadro de honra”, no qual se perpetuará o nome de tavaredenses ilustres, citando vários nomes já aprovados pela Assembleia de Freguesia (José da Silva Ribeiro, João Cascão, Violinda Medina, António Jorge da Silva, José Nunes Medina, António de Oliveira, etc.). Esta cerimónia seria encerrada com o discurso proferido pelo presidente da Câmara que felicitaria os autarcas de Tavarede, “motores e intérpretes de um sentimento profundo das vossas populações”.
            Depois foi o abrir das torneiras para que todos, e muitos o desejaram fazer, pudessem beber água que de novo voltou a dar vida a uma das salas de visita da povoação.
            Sabemos que a festa se prolongou pela tarde e noite, num convívio onde a gastronomia se uniu à cultura, fazendo do 9 de Janeiro de 93 uma data a inscrever no historial das gentes de Tavarede”.



O Associativismo na Terra do Limonete - 105

         Aceitámos o desafio e conseguimos convencer o Mestre José Ribeiro. Foi uma sessão solene memorável. A Sociedade de Instrução Tavaredense, continuando as celebrações das suas “Bodas de Diamante”, realizou no sábado passado um magnífico espectáculo com a representação, em estreia, da peça em 2 actos e 16 cenas, “Ontem, Hoje e Amanhã”, que além de um hino ao trabalho é uma bela síntese da rica história da antiquíssima Tavarede e novo e muito valioso contributo que Mestre José da Silva Ribeiro dá para o seu conhecimento.

Mestre José Ribeiro após receber a medalha de ouro da cidade

         Casa cheia e a presença do Prof. Dr. David Mourão Ferreira, Secretário de Estado da Cultura, acompanhado do presidente da Câmara Municipal e de outras individualidades.
         Domingo foi o grande dia das celebrações do 75º aniversário da SIT. Houve alvorada, um almoço de confraternização e, pela tarde, uma sessão solene, o número mais brilhante do programa, que foi presidido pelo Dr. David Mourão Ferreira. O ilustre membro do Governo, que na parte da manhã visitara o Museu e Biblioteca Municipais e outros estabelecimentos culturais da cidade, e também o antigo palácio dos Condes de Tavarede, hoje em estado de ruínas mas que é necessário salvar e restaurar por se tratar de um imóvel que “fala” da história de Tavarede, honrou assim a já velha Sociedade e a gente da terra onde ela existe e sobre a qual vem espalhando a luz bendita da Instrução.
         Associou-se também o ilustre homem público, a uma justíssima e há muito devida homenagem que a Câmara Municipal entendeu dever prestar a Mestre José Ribeiro, o homem que de alma e coração se tem devotado, especialmente através do Teatro, à grande obra educativa que tanto enobrece aquela colectividade.
         Consistiu essa homenagem na entrega a José da Silva Ribeiro da Medalha de Ouro da Cidade. Foi um momento emocionante aquele em que o Dr. David Mourão Ferreira, auxiliado pelo Presidente do Município, Dr. José Manuel Leite, colocou ao peito do ilustre tavaredense a valiosa condecoração pendente de uma fita verde-amarelo, as cores da Bandeira do Concelho. No palco e na plateia reboou uma prolongada e calorosa salva de palmas. A Filarmónica Figueirense executou o hino da Sociedade, acompanhada por um coro de Meninas e Senhoras. Havia lágrimas em muitos olhos.

         Na mesa de honra da sessão solene tomaram lugar, ladeando o Secretário de Estado da Cultura e o Presidente da Câmara Municipal, o vereador do pelouro da Cultura, dr. Armando Garrido Gomes de Carvalho; o presidente da Junta de Freguesia de Tavarede, António Jorge da Silva; o Pároco da Freguesia, Pe. António Matos; o comandante da Secção da PSP, 1º comissário José da Conceição Coelho; o engº Fernando Muñoz de Oliveira, Director-Geral de Portos, e arquitecto José Isaías Cardoso. 
         Noutros lugares, indistintamente e enchendo o vasto palco, sentaram-se outras individualidades e representantes de diversas colectividades do concelho, cujos estandartes, em número superior a duas dezenas, davam ao ambiente uma nota de belo colorido.
         A sessão começou com a leitura de numeroso expediente e com a nomeação dos novos corpos gerentes da SIT, que ficaram assim constituídos:
         Assembleia Geral – Presidente, José da Silva Ribeiro; vice-presidente, José da Silva Cordeiro; secretários, Manuel Gaspar Lontro e José Amilcar Vaz de Oliveira.
         Direcção – Presidente, Vítor Manuel Garcia Medina; vice-presidente, João de Oliveira Junior; secretárias, Otilia Maria Cordeiro e Ana Maria Bernardes Caetano; tesoureiro, António Lourenço Domingues; vogais, Fernando Duarte Santos, João Renato Gaspar de Lemos Amorim, Augusto dos Santos Fonseca, Fernando Joaquim Fontes e Manuel Martins da Silva.
         Conselho Fiscal – António Jorge da Silva, Fernando Severino dos Reis e José Martins Medina.
         Fez-se depois a entrega de Diplomas de Sócios Honorários aos srs. arquitecto José Isaías de Oliveira Cardoso, engenheiro Fernando António Muñoz de Oliveira, Fernando Severino dos Reis, José Maria Cordeiro e Fernando Duarte Santos, acto este sublinhado por calorosas salvas de palmas da assistência.
         Seguidamente usaram da palavra alguns oradores. O primeiro foi o presidente da Direcção cessante, Carlos Pinto, que se referiu aos bons tavaredenses que em 1904 fundaram a SIT para nela se instalar uma escola primária para educação de adultos e posteriormente de crianças. “Foi na verdade uma arrancada colossal que tirou muita gente da escuridão, ministrando-lhe as primeiras letras, orientando-a depois para a vida, que nessa altura era bastante rude e espinhosa. Criou-se de seguida uma escola de Teatro que ainda se mantém e é para todos os efeitos o maior orgulho dos tavaredenses. Graças a ela, o nosso povo tem adquirido uma cultura extraordinária que constitui uma das maiores riquezas do nosso país. Todo esse trabalho é fruto da persistência firme dum homem chamado José da Silva Ribeiro, que a essa causa se devotou num sacerdócio ímpar, sendo por isso credor da nossa estima e da nossa consideração, com amor pela Arte e pela Cultura do seu povo”. Carlos Pinto prestou também homenagem aos que nessa obra têm colaborado para a maior grandeza e prestígio da colectividade.
         Outros oradores se pronunciaram depois sobre o acontecimento que se comemorava. O espaço de que dispomos não nos permite, com grande pesar nosso, reproduzir textualmente e na íntegra, as suas palavras, por isso dando a súmula do seu contexto.
         Jerónimo Pais diria a seguir:
         “Eu tenho acompanhado a par-e-passo a obra notável, notabilíssima desta colectividade, que tem prestado altos e assinalados serviços ao nosso concelho e à nossa terra. Por isso desejo que ela vá progredindo sempre com o maior êxito. Eu sei que dentro desta casa há um grande esteio, um grande colaborador que é José Ribeiro e eu quero apresentar-lhe aqui os meus cumprimentos, as minhas saudações e afirmar-lhe a minha extraordinária admiração pela sua figura, com votos por que todos os presentes possam vir a assistir à celebração do centenário desta gloriosa colectividade”. (Na 1ª fila da plateia estavam sentados lado a lado dois venerandos figueirenses, José Maria Mendes Curado e dr. José Rafael Sampaio, aquele de 95 e este de 86 anos...).
         O Padre António Matos falou depois. Da sua brilhante intervenção e pelas razões acima apontadas, daremos um extracto no próximo número.
         O Engº Muñoz de Oliveira, ao agradecer, em breves mas elegantes palavras a homenagem que a SIT lhe prestara já em 1967 ao nomeá-lo sócio honorário e ao conferir-lhe agora o respectivo Diploma, também elogiou a sua prestimosa actividade e colocou ao seu dispor os seus préstimos profissionais. Associou-se à homenagem a José Ribeiro e recordou a admiração que desde muito jovem mantém por tão ilustre personalidade.
         Também o sr. Presidente da Câmara, que orientou os trabalhos da brilhante sessão, prestou as suas homenagens à SIT e a José Ribeiro, lendo e comentando as expressões contidas no Diploma de homenagem do Município àquele “cidadão exemplar, democrata de sempre e figura ímpar do Teatro”.
         Depois das palavras sempre brilhantes de José Ribeiro em saudação ao Secretário de Estado da Cultura e em agradecimento pela homenagem de que estava sendo alvo, falou o Dr. David Mourão Ferreira.
         Começou por manifestar a grande honra de participar nestas celebrações das Bodas de Diamante e nas homenagens a José Ribeiro, e disse:
         “Não é a minha presença que confere qualquer espécie de honra a este acto. Pelo contrário, eu é que me sinto particularmente honrado de ter vindo aqui a Tavarede, de ter ontem assistido à peça “Ontem, Hoje e Amanhã” e de ter tido ocasião de contactar com o povo de Tavarede e de ver não só o grau de cultura e de educação cívica que esse povo tem – e isso já eu sabia – mas de ver também os tesouros de sensibilidade que esse mesmo povo guarda dentro de si. E devo acrescentar que me emocionou particularmente ver ainda há pouco, quando o sr. José Ribeiro era alvo desta homenagem, que havia lágrimas em muitos olhos.
         Seja como for, desempenhasse ou não as funções que desempenho agora, seria sempre meu dever, como simples cidadão interessado nos problemas da Cultura do nosso país, associar-me de qualquer modo que fosse à pública celebração da data de hoje. Bem sei que há hoje quem tente ridicularizar a comemoração de significativas efemérides como esta. Bem sei que houve recentemente quem procurasse ridicularizar com pseudo-argumentos (esses sim, é que são ridículos) a decisão do IV Governo Constitucional em estar celebrando por iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura os 50 anos de vida literária dessa grande poeta e prosador que é Miguel Torga.
         Mas também sei que tais reacções não têm grande importância e que não vale a pena perdermos tempo com tais ruins defuntos. Eles nunca saberão compreender – os que assim falam – por tão avidamente viverem no presente, por tão oportunisticamente nele intervirem – que a vida é Ontem, Hoje e Amanhã”.
         Considerou altamente significativa a efeméride que estava sendo comemorada, por estar ligada a um empreendimento cultural que tem passado, tem presente e tem futuro, que se perfila por isso mesmo na tríplice perspectiva de ontem, hoje e amanhã. Por isso – disse – em tal empreendimento há que louvar a tão rara conjugação de um extraordinário esforço colectivo, duma extraordinária força de vontade e consciência de toda a comunidade e de uma invulgaríssima vocação individual ou, se assim se prefere, porque se trata de comemorar um verdadeiro serviço público, embora de iniciativa privada e de puras e livres raízes associativas, que teve a boa sorte de encontrar a sua real encarnação numa personalidade absolutamente ímpar, quer sob o aspecto cívico quer sob múltiplos aspectos culturais e criativos. Cidadão íntegro, democrata sem mácula, o sr. José Ribeiro é também – e oxalá assim continue por muitos anos – um multifacetado talento de homem de Teatro, cuja devoção à causa do Teatro e à Causa da Educação Popular bem merece ser apontada a todo o País como um exemplo a todos os títulos admirável”.

         Foi também o Dr. David Mourão Ferreira intérprete da homenagem verbal do Primeiro-Ministro a José Ribeiro, cuja acção extraordinária o Prof. Dr. Mota Pinto muito bem conhece e admira.

sábado, 29 de novembro de 2014

Histórias e Lendas - 9

Ainda continuamos com as águas do Prazo recordando que, até chegarem à Várzea, eram a força motriz     que fazia mover as cinco azenhas, a segunda das quais, defronte à bica do S. Paio, era local de paragem obrigatória no regresso da romaria à capela do santo. A parede junto à qual girava a enorme roda impelida pela água, estava sempre coberta de viçosas avencas e a fresquidão do sítio era óptimo convite à petisqueira.

Quando as águas correntes chegavam à aldeia, junto da igreja, lá encontravam as lavadeiras de terra lavando as suas roupas ou das suas freguesas da cidade, sempre cantando as bonitas cantigas do teatro.

Claro, que nem sempre era assim. Apesar da enorme quantidade conduzida para a cidade e que no verão fazia diminuir consideralmente o caudal do ribeiro, do que se ressentiam os agricultores das férteis leiras, havia, nos invernos mais chuvosos e rigorosos, cheias que inundavam terras de cultura, quintais e lojas das habitações, não poucas vezes chegando até ao meio da velhinha Rua Direita.

Em Agosto de 1910, encontrámos, na imprensa figueirense, este interessante anúncio: “Tende cuidado com o vosso estomago e intestinos. Uma boa água poderá dar-vosprolongada velhice. Digerir bem é ter alegria e ser feliz. Quereis uma excelente água para a vossa casa? Bebei a da ‘Fonte da Moura (Tavarede) e que vos vai à vossa porta por 100 reis os vinte litros. Depósito e requisições na ‘Farmácia Milheiriço’ rua 11 de Setembro”.

Não conseguimos localizar o local onde nascia esta milagrosa água. E, pelos vistos, seria uma muito boa água. “Nascida no sitio denominado “Fonte da Moura”, na freguezia de Tavarede. Esta excellente agua, que tem tido uma procura extraordinaria, é positivamente das melhores que tem apparecido, sendo o seu preço diminutissimo, pois é vendida á razão de 100 reis os vinte litros. É posta á porta de quem a requisitar sem maior dispendio.
            Leve, crystallina e fresca auxilia e facilita a digestão, bebendo-se por prazer. A falta de uma boa agua na Figueira ao alcance de todas as bolsas está finalmente remediada com a apparecimento da Agua da Fonte da Moura, colhida com o maior rigor de hygiene e captada em fonte hermeticamente fechada e limpa.
            Registamos com prazer este beneficio prestado aos figueirenses e aos seus hospedes, pois uma boa agua vale tanto como a propria vida. É depositaria a Pharmacia Milheiriço, na rua 11 de setembro, onde pode ser requisitada”.

Mas a Companhia do Gaz e da Água resolveu acabar com o negócio, sentindo-se lesada com a concorrência. Fez a respectivas participação à Câmara figueirense, quer tomou a deliberação “... ofício desta data da companhia do gaz e da água desta cidade, acusando a recepção do ofício de 30 do mês findo, agradece o ter sido atendida a sua reclamação sobre a venda ao público de água de uma fonte próxima de Tavarede, continuando a fazer-se a venda. Deliberou-se providenciar”. E assim acabou o negócio.

A fonte da Várzea era célebre, não só pela excelência da sua água, mas igualmente por ser o lugar escolhido para a concentração dos ranchos dos potes floridos que, na manhã do primeiro de Maio, iam à Figueira cantar e dançar.

O lugar da fonte, certamente pelo seu encantamento, inspirou poetas que nos deixaram textos e versos muito inspirados. “... Não há moça de trabalho, que não consuma e môa a derradeira noite de Abril, a florir seu pote de barro vermelho, - que é grande o despique em apresentar caprichosamente enfeitadas, as cantaras airosas.
            Urdem-se entre folhas de hera, os tenras ramagens de buxo ou loiro, círculos de rosas e cravos em coloridos e bizarros tons, que enastram o bôjo da vasilha, caem em aneis pelo talhe grêgo dos bocais, e pelo jeito em ânfora à roda das azas perfeitas.
            E grandes laçadas de fitas de sêda, descem pelos pucaros bem torneados, humidos e apetitosos, que matam sêdes de água e amor, a beiços de namorados...
            Ainda o céu é um crivo de estrêlas e mal se laiva o nascente de uma ténue e branda claridade, já descem dos píncaros do Cruzeiro, das azinhagas do Robim, da estrada de Mira, - seguindo no caminho fácil e geitoso da Várzea-de-Tavarede – ranchadas de gente môça e garrula, cantando e bailando, entre risos e folgares.
            Em roda da Fonte, com seu arco moirisco, é bem uma romaria. Os toques, são às duzias. E andam pelo ar cantigas d’oiro, com résteas de Sol!
            Chegou agora o grupo dos “Amorosos”. São de Brenha. A tuna, é de apetite. Os rapazes trazem bonés forrados de fustão branco. E as raparigas ramos de limonete e pandeiretas de onde pendem tiras vistosas de mil côres. Cantam, com acompanhamento de côro, a velha moda popular “Margarida-vai-à-Fonte”. Que linda voz tem a cantadeira...”.

         Vejamos, ainda, mais uma significativa nota. “ Beber, no alvor da madrugada do 1º. de Maio, água pura, gostosa e fresca, na fonte milagreira da Várzea de Tavarede - é da tradição que fornece saúde, felicidade, alegria e sorte - para o ano inteiro!
            Por isso, tôda a gente das terras ao derredor da linda e risonha aldeia, se agrupa e junta na praxista manhã, no largo onde a bica rumoreja num fio cristalino.
            Não há môça de trabalho, que não consuma e moa a derradeira noite de Abril, a florir seu pote de barro vermelho - que é grande o despique em apresentar, caprichosamente enfeitadas, as cântaras airosas.
            Urdem-se entre fôlhas de hera, ou tenras ramadas de buxo ou louro, círculos de rosas e cravos em coloridos e bizarros tons, que enastram o bôjo da vasilha, caem em anéis pelo talhe grego dos bocais, pelo jeito em ânfora das asas perfeitas.
            E grandes laçadas de fitas de sêda, descem pelos púcaros bem torneados, úmidos e apetitosos, que matam sêdes de água e amor, a beiços de namorados...
            Ainda o céu é um crivo de estrêlas e mal se laiva o nascente de uma ténue e branda claridade, já descem dos píncaros do Cruzeiro, das azinhagas do Robim, da estrada de Mira - seguindo no caminho fácil e jeitoso da Várzea de Tavarede - ranchadas de gente môça e gárrula, cantando e bailando, entre risos e folgares.
            Em roda da fonte, com seu ar moirisco, é bem uma romaria. Os toques, são às dúzias. E andam pelo ar cantigas de ouro, como résteas de sol!”.

Já nada resta da fonte e o largo onde dançavam os ranchos, à sombra do enorme pinheiro manso, deu lugar a uma rotunda e a uma via rápida.

  






O Associativismo na Terra do Limonete- 104

A propósito da reaparição, em cena, da amadora Violinda Medina e Silva, encontrámos a seguinte nota: Já lá vai, talvez, uma trintena de anos, era eu ainda uma criança de calção e bibe.
         Em Tavarede, onde fora ao teatro pela mão de meu pai, recordo que pouco faltou para a casa vir abaixo, tamanha foi a trovoada de aplausos que culminou a representação da peça então em cena. Uma amadora era especialmente distinguida: Violinda Medina e Silva.

 
                    Violinda Medina e Silva

          Passaram os anos, tudo naturalmente envelheceu. Se D. Violinda levar hoje os dias agarrada a recordações, não me admira. Eu próprio, bem mais novo, me tenho visto já a debruçar nos terraços do tempo, buscando na memória pessoas e coisas que a emoção gravou. Violinda Medina e Silva é, por exemplo, uma delas. Recordo o seu porte majestoso no papel de D. Madalena de Vilhena; a sua naturalidade exemplar em Os Velhos, de João da Câmara; o seu admirável desempenho em As Árvores Morrem de Pé, de Alejandro Casona. Recordo tudo isso. Mas poderia lembrar muitas outras representações em que interveio o seu talento invulgar.
         Pois Violinda Medina e Silva – essa extraordinária mulher da cena portuguesa – vai regressar ao palco. Em Tavarede, pois onde havia de ser? É ali que ela tem levado toda uma vida de devoção pelo teatro; foi ali que ela conheceu os maiores êxitos da sua carreira; é ainda ali que, religiosamente arrecadadas, velhinhas tábuas de um antigo palco aguardam, sem pressas, o dia de serem a mortalha da actriz.
         Nota: Talvez que o leitor se surpreenda com o último parágrafo, ou melhor, não compreenda bem… Se estiver nesse caso é porque não sabe que Violinda Medina e Silva deseja ter por caixão… as tábuas do antigo palco do Teatro de Tavarede. As tábuas estão arrecadadas, e a sua vontade cumprir-se-á. Oxalá que daqui por muitos anos.

E com vista às comemorações das Bodas de Diamante, copiámos a seguinte nota: A história dos primeiros 50 anos de vida dessa prestigiosíssima colectividade que é a Sociedade de Instrução Tavaredense, está fielmente retratada num livro comemorativo das respectivas “Bodas de Ouro”, da autoria do distinto jornalista, nosso conterrâneo, José da Silva Ribeiro. Que propositadamente a escreveu em linguagem escorreita e cuidada, mas num estilo singelo, que revela clara intenção de pretender interessar pessoas de todos os graus de cultura e ser perfeitamente entendido mesmo pelos mais humildes dos seus leitores. Ela apenas pecará por uma sobriedade da apreciação de excepcional e admirável Obra levada a cabo, que bem se compreende e aceita, por o autor ser desde longa data o grande, esclarecido e proficiente mentor, guia e esteio dessa mesma Obra. O que a nós, estranhos a ela, mas seus incondicionais admiradores, nos cumpre suprir.
         Foi a 15 de Janeiro de 1904, que em Tavarede, ridente povoação dos arredores da Figueira, mas modesto aglomerado rural de menos de mil habitantes, catorze homens, todos de humílima condição social, parcos meios e modestíssimas profissões, resolveram fundar a Sociedade de Instrução Tavaredense. Finalidade: servir de suporte a uma escola para ensino dos sócios e seus filhos. Mas porque na terra havia largas tradições teatrais, logo elas foram reatadas com a criação de brioso grupo dramático, que ainda nesse ano deu o seu primeiro espectáculo.
         Os benefícios prestados à instrução pela escola nocturna desta prestimosa colectividade, no meio em que actuava e durante um período de 38 anos, em que funcionou, ininterruptamente, foram incalculáveis. Infelizmente, porém, em 1942, exigências de legislação totalitária do “santa combismo” forçaram a pôr termo a essa verdadeira campanha de combate ao analfabetismo.
         Apesar das dificuldades e encargos que, em lugar de estímulos e auxílios, lhe foram, num crescente, sendo impostos, o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense é que, longe de perder vitalidade ou mesmo soçobrar, cada vez em ritmo mais acelerado prosseguiu, tão resoluta como triunfantemente, e sob todos os aspectos, a sua brilhante carreira ascencional. Cresceu de maneira notável o seu nível artístico, tanto de reportório como de interpretação. Alargou-se a sua esfera de acção, ultrapassando a própria sede e área do concelho, com várias deslocações a terras como o Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Pombal, Soure, Marinha Grande, Pampilhosa, Colares, etc. Sendo de registar, neste capítulo, que todas essas deslocações foram sempre para fins de beneficência e atingiram o número de 20 pelo que se refere a Coimbra e de 16 pelo que diz respeito à cidade de Tomar. Chegou-se mesmo ao ponto de levar a cabo uma campanha vicentina que, com o maior êxito e todo o mérito, se tornou extensiva às freguesias rurais do concelho.
         Ao fazer a resenha dos primeiros cinquenta anos de actividade do grupo cénico, que dirigia há já 38 anos, José da Silva Ribeiro interrogar-se-ia: “Como irá ser o futuro?”.
         Mas ele em nada desmereceu do passado. Muito pelo contrário.
         O seu famoso agrupamento manteve o mesmo ritmo de intenso labor. Requintou em primores de interpretação e montagem. Levou à cena cada vez reportório de mais alto nível, categoria e responsabilidade. Representou, entre muitos outros, Almeida Garrett, Luís de Camões, Marcelino Mesquita e D. João da Câmara, novas e várias peças de Gil Vicente, “Romeu e Julieta”, “Dente por Dente”, “Conto de Inverno”, “Tudo Está Bem Quando Acaba Bem”, de Shakespeare, “As Artimanhas de Scapino”, “Médico à Força”, “O Avarento” e “Tartufo”, de Molière. Além de umas tantas peças de José da Silva Ribeiro, que com elas totalizou 19 originais, adaptações e traduções destinadas ao seu grupo cénico.
         Não devendo esquecer-se as suas intervenções valiosas em comemorações como as do: “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”; “Dia Mundial do Teatro”; “IV Centenário de Shakespeare”; “5º. Centenário do nascimento de Gil Vicente”; e “4º. Centenário da publicação dos Luzíadas”.
         Quem ousará, portanto, pôr em dúvida que são na verdade notáveis as “Bodas de Diamante” da Sociedade de Instrução Tavaredense? Ou negar que elas constituem a concludente e irrefutável prova do invulgar amor ao teatro, do bairrismo e da perseverança no esforço colectivo, mesmo dirigido apenas às coisas do espírito, da gente da terra do limonete?
         Entre a qual, neste caso ocupa o primeiro lugar por direito próprio, que ninguém jamais tentou negar-lhe, José da Silva Ribeiro, nobre figura de indefectível democrata, com carácter espartano, que o emérito professor Joaquim de Carvalho considerava seu “companheiro de sentimentos e propósitos”.
         Um homem de invulgar inteligência e craveira intelectual, associadas a perfeita noção da perenidade dos autênticos valores espirituais e sociais, que há 62 anos, com notável estoicismo, é o grande arquitecto de tão admirável Obra, que no presente caso põe em jogo e acção todas as faculdades do espírito tanto de intérpretes como de espectadores. Facto que naturalmente leva a concluir que o teatro, como a música, deveriam fazer parte integrante da cultura geral dos indivíduos.
         Por tudo o que fica dito e o muito mais que ficou por referir, nos parece serem as próximas “Bodas de Diamante”, da Sociedade de Instrução Tavaredense, o ocasião mais oportuna para que a Figueira preste à referida colectividade e ao seu devotado director cénico as homenagens a que ambos têm inteiro jus.
         Com o que, por múltiplas razões, se cumprirá apenas um dever.


E relativamente a estas comemorações, queremos aqui recordar um caso interessante. Era, então, presidente da Câmara da Figueira, o reverendo Dr. José Manuel Leite, grande e devotado amigo desta colectividade. Como membro da comissão organizadora das festas, pedimos uma entrevista. Havíamos pensado em conseguir a presença de uma figura importante, na cultura nacional, para presidir à sessão solene. Ocorreu-nos o nome do prof. Dr. David Mourão Ferreita, na ocasião secretário de Estado da Cultura. Solicitámos a colaboração do referido presidente da Câmara. Amável, como sempre, concordou com a nossa sugestão, prometeu-nos a sua diligência, mas adiantou: A Câmara vai tentar, e decerto conseguirá, a vinda do secretário de Estado da Cultura. Mas, vocês, vão prometer que conseguem que, nessa sessão solene, Mestre José Ribeiro aceitará receber, publicamente, a medalha de ouro da cidade, que lhe foi atribuida há cerca de dois anos e ainda não recebeu

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Histórias e Lendas- 8

Curiosamente a primeira notícia que recolhemos, na imprensa figueirense, relativa à nossa água, é precisamente sobre as fontes, que eram as principais fornecedoras de água à população de Tavarede e da vizinha Figueira. A Fonte da Várzea, quando no anno de 1861 com ella se gastou inefficazmente a somma de 308$855, alem de valiosos materiais que estavam para diversa applicação, foi pela tentativa d'uma mina para serem aproveitados os repares, e o resultado foi, que tendo-se perdido nesses trabalhos a direcção da origem desconhecida, deu que fazer aos encarregados para readequirir a antiga, cujo veio chegaram a perder, é no entretanto é extrahida a púcaros pela profundeza do nivel, sendo mister derregar as aguas externas por meio de vala de communicação com o ribeiro, e esta é a encosta do norte do monte a que o correspondente se refere. A fonte da Lapa está em igual profundidade, e é a continuação do monte. Em Tavarede é a fonte abundante e de excellente qualidade, porém ao nivel da parte mais baixa da povoação situada na planicie”.
Foi o jornal O Figueirense que punblicou esta nota no dia 6 de Setembro de 1863. A partir desta data as notícias sobre a água na nossa terra são muitas.


Mas as águas em Tavarede nem sempre foram abundantes. E se água para se beber e para os gastos caseiros várias vezes teve complicações, maior escassez tiveram os nossos antepassados com a água para as regas das suas sementeiras. Isto aconteceu, por exemplo, no verão do ano de 1876.
                “Pediram há dias alguns proprietários de Tavarede à Câmara Municipal providências sobre a distribuição das águas para regas. Como, porem, não fosse até agora escutado este pedido, houve hontem alli uma grande desordem entre vários indivíduos que se utilisam das águas, desordem esta que pode repetir-se a cada momento, em quanto a câmara não se decidir a nomear um homem para a distribuição”.
Mas nem a fonte de Tavarede escapou. “Há uma fonte em Tavarede que está em condições tristíssimas. Todos os dias alli há scenas de pugilato por causa da escassez da água”. Na verdade foi mandada reparar, mas logo surgiram problemas, pois os operários, enquanto procederam às obras, “privam o público da água da água para as regas das suas propriedades”.
O verão daquele ano terá sido de muito calor e seco. Até a fonte da Várzea, de tantas e tão antigas tradições, não escapou. ...... Vamos atravessar este anno uma crise terrível. Vem bater-nos à porta, sinistro, como as visões esquálidas de um cérebro em febre, o medonho espectro da sede. Lavra por ahi um clamor espantoso, como se a villa estivesse soffrendo os horrores de um prolongado sítio. Não há água! A fonte da Várzea, completamente arruinada, não pode ocorrer às necessidades da localidade. Ouve-se em torno d’ella um côro de imprecações e de blasphemias que faz lembrar a gritaria descomposta dos sabbats mysteriosos das noites nebulosas da Germania. Os chefes de família vêem-se obrigados a augmentar o numero de creados, por causa do longo tempo consummido junto à fonte, à espera do ténue fio d’água que não pode supprir as necessidades de uma povoação populosa como esta..........      Próximo da fonte da Várzea há uma propriedade, pertencente ao sr. José Maria da Silva, onde o zelo d’este cavalheiro fez sair do solo um copioso veio d’água, que, na crise actual, tem sido a providencia de muitos habitantes da villa”.

            Mas no ano de 1880 a situação foi agravada. A cidade da Figueira, cujo desenvolvimento foi rápido e enorme, teve de resolver o problema do fornecimento necessário aos habitantes. As fontes existentes eram insuficientes e sentiu-se a necessidade da distribuição domiciliária da água necessária ao consumo da população.

         Estudado o assunto pelas respectivas entidades, foi publicado, no referido ano, o relatório efectuado que, apesar de extenso, julgamos de interesse publicar na parte que diz respeito à nossa terra.



ABASTECIMENTO DE ÁGUA À FIGUEIRA             Todo o projecto de abastecimento de águas compreende especialmente duas partes distintas, que podem constituir o objecto de dois projectos diferentes:
            1º - aquisição das águas e execução das obras necessárias para as conduzir à povoação;
            2º - distribuição destas pelas fontes e pelos domicílios.
            Foi do estudo da primeira parte deste vasto problema com relação à vila da Figueira da Foz que a respectiva municipalidade, por intermédio do seu exmo. Presidente, me fez a honra de incumbir, e cujo resultado eu agora apresento.
            O projecto que ofereço compõe-se de três partes principais:
            1ª Drenagem do solo por um sistema de galerias subterrâneas para a captagem das águas na região superior do vale da ribeira de Tavarede, no sitio denominado o “Prazo”.
            2º Assentamento da canalização de ferro para a condução das águas à vila.
            3ª Construção de um reservatório no alto do Pinhal numa altitude superior à de todas as casas da vila, para a fácil e regular distribuição da água pelos chafarizes, que se julgue conveniente estabelecer, e pelos domicílios, quando mais tarde se pretenda este desideratum.
            É claro que, pertencendo o reservatório propriamente ao sistema de distribuição, deve considerar-se formar um projecto à parte, tornando-se a sua construção independente da execução dos outros trabalhos, e podendo provisoriamente substituir-se por um grande chafariz, se a Municipalidade não estiver desde já habilitada com os meios necessários para toda a despeza.
            Primeira parte – Trabalhos de exploração subterrânea
            Não havendo à superfície do solo nos arredores da Figueira nenhuma nascente assas copiosa que fornecesse por si só o volume de águas necessário para o abastecimento da vila, era forçoso recorrer à exploração subterrânea ensaiada já em Portugal com grande proveito pelo distinto engenheiro chefe dos trabalhos geológicos, sr. Carlos Ribeiro, para o abastecimento de Lisboa. Há três anos sucessivos a água fornecida pelos trabalhos de exploração nas visinhanças de Belas à nossa capital durante a estação calmosa tem sido o suficiente para permitir continuamente o abastecimento nos domicílios, o que sem este auxílio seria impossível, como mostraram os estios de 1874, 1875 e 1976.
            Demonstrada a proficiência do sistema, e sendo as condições para a exploração nas visinhanças da Figueira incomparavelmente mais favoráveis do que em Belas, não hesitei um momento em adoptá-lo no meu projecto, confiando firmemente nos resultados.
            O sítio escolhido para a exploração deveria satisfazer simultaneamente às duas condições principais: fornecer água em abundância, e fornecê-la em altitude bastante para que, chegando à Figueira com cota assas elevada, pudesse a todo o tempo distribuir-se pelos domicílios sem haver necessidade de a levantar. Estas condições realizam-se maravilhosamente no vale do Prazo, acrescendo de mais a circunstância importantíssima, que os trabalhos podem ali estabelecer-se, de modo que se desenvolvam quase indefinidamente para o futuro, quando o aumento da população e as crescentes necessidades do consumo deste precioso elemento o exijam.
            O vale de Tavarede é, de todos os que descem da Serra da Boa Viagem, o que corre em mais baixo nível, cortando transversalmente um espessíssima série de camadas permeáveis, é nos seus flancos que brota o maior número de nascentes. A água vê-se com efeito romper por toda a parte, e especialmente no fundo dos vales e das quebradas uma vegetação activa e louçã plenamente atesta a frescura do solo.
            Seguindo os nossos trabalhos de exploração em nível inferior ao alveo da ribeira, é claro que as galerias que abrirmos colherão toda a água que as camadas contiverem no massiço superior ao plano em que elas forem estabelecidas, massiço importantíssimo, pois o relevo do solo sobe rapidamente nos dois flancos do vale, não havendo, como se disse, em toda a extensão da serra nenhuns pontos de descarga mais baixos do que este vale.
            Já dissemos noutra ocasião e agora repetimos: não é simplesmente no facto da existência das nascentes visíveis à superfície do solo do vale do Prazo, nascentes aliás valiosas, que me baseei para aconselhar a exploração de águas nesta localidade; foram principalmente considerações geológicas que me firmaram nesta escolha. Com efeito, além destas manifestações exteriores, que revelam a existência de consideráveis massas de água, no interior do solo, a garantia da permanência dessas nascentes, sobretudo quando sejam exploradas em nível inferior ao alveo da ribeira, está assegurada pela composição íntima e estrutura do solo, que é constituído por camadas pela maior parte muito permeáveis, sobrepondo-se do Sul para o Norte concordantemente, e com fraco pendor umas às outras, e inflectindo-se do Cabo Mondego para Maiorca em forma de bacia, da qual a Figueira ocupa o centro.
            A exploração que propomos será por estes motivos, pois, a mais produtiva, e muito de presumir (ou quase certo) que poderá suspender-se muito antes do limite que lhe assinamos no nosso projecto. Os trabalhos são além disso estabelecidos de modo em que não comprometem as explorações futuras, antes podem sucessivamente desenvolver-se quando convier, sem que esta ampliação do fornecimento embarace nunca o abastecimento usual.
Para isso bastará abrir pelo mesmo sistema, em nível superior ao dos trabalhos existentes, e para montante do extremo superior da galeria colectora, uma rede de galerias análogas, que poderá estender-se até às nascentes do Olho de Perdiz, onde nasce a ribeira de Tavarede, ou ainda além através da serra; estabelecendo-se a ligação dos novos trabalhos com os trabalhos antigos só depois que aqueles estejam terminados.
            Tendo apresentado os fundamentos do nosso projecto, resta agora descrever as obras aconselhadas.
            O sistema de galerias de exploração que propomos consta de uma galeria longitudinal colectora seguindo proximamente a linha do thalweg do chamado vale de Sampaio, e de várias galerias transversais ou travessas partindo desta, e seguindo a direcção das principais quebradas ou valeiros, que cortam um e outro flanco, e vem convergir naquele vale. Por agora, para assegurar permanentemente um abastecimento diário de 1.500 ou mesmo de 1.800 metros cúbicos, parece-me mais que suficiente a abertura da galeria longitudinal e das travessas indicadas na planta e nos perfis respectivos. Aquela galeria começando a 60 m. a Sul 6º E da ermida denominada na localidade do Santo Sampaio, num pequeno tanque de depuração que serve de origem ao canal, seguirá para o norte com a inclinação constante de 0.001 até 108,10 m. para montante da desembocadura do vale do Custódio, medindo ao todo 817,40 m. de extensão.
            Deste aqueduto ou galeria geral partirão para um e outro lado as travessas de exploração, cada uma de 100,0 m. de comprimento, pouco mais ou menos, também com a inclinação de 0.001 ou ainda menor, correspondendo respectivamente aos vales do Cipriano, do Bandeira, dos Gamelas, dos Ferreiras e do Custódio, vindo assim a medir todo este sistema de galerias 1.352,50 m. de extensão. Mas, repetimos, julgamos desnecessário concluir estes trabalhos para se obter a quantidade de água razoavelmente reputada necessária para um amplo abastecimento da Figueira, nestes primeiros tempos, mesmo supondo o desenvolvimento que ela deve ter por efeito da construção do caminho de ferro da Beira.
            As travessas, a que assinámos proximamente o limite de 100,0 m. (mas que poderão prolongar-se até onde o permitir a ventilação dos trabalhos, ou nalguns casos especiais suspender-se antes daquele limite, quando por exemplo as dificuldades do trabalho ou a conveniência de não causar  inutilmente alguma nascente o aconselhem) serão todas fechadas por barragens próximo da sua junção com a galeria geral, reservando-se a água que elas recebem para suprir durante a estiagem ou quebras das nascentes que alimentam directamente esta galeria. Estas travessas, algumas das quais seguem aproximadamente a direcção da estratificação (N 60º O magnº) serão abertas nas camadas de grés que durante o avanço da galeria geral se vir que são mais produtivas, ou, se elas cruzarem obliquamente aquela direcção, inflectir-se-ão de modo que vão procurá-las.
            Nos pontos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e distanciados entre si em média 118 metros, abrir-se-ão poços, que servirão para a extracção de entulhos, e ao mesmo tempo para a ventilação dos trabalhos, para o que se farão corresponder verticalmente à galeria geral, e quanto possível ao alinhamento das galerias transversais. Um deles (o nº 3) convenientemente revestido, será destinado a servir mais tarde como clarabóia de serviço, para as reparações que por acaso seja necessário fazer na galeria.
            Devendo evitar-se na execução destes trabalhos o enorme dispêndio que ocasiona a elevação das águas (dispêndio multiplamente nocivo, porque a elevação de águas estorva o regular andamento dos trabalhos, e é tanto maior quanto maior é a quantidade de água que se vai obtendo) a abertura desses poços não será simultânea mas sucessiva, e só depois que esteja concluído o lanço de galeria que a cada um respectivamente lhe fica a juzante.
            Em casos especiais mesmo, quando a ventilação permitir o prosseguimento dos trabalhos na galeria geral, o poço só se abrirá quando esta tiver passado por baixo do ponto que ele deve ocupar, podendo assim dispensar-se talvez a abertura de alguns deles, ou substituir-se por um simples furo de sonda. Em todo o caso, como a inclinação das camadas é para o quadrante do S (530º O magnético, mediana) isto é, para a origem da galeria, quando o poço vier a abrir-se já terão sido sangradas num nível inferior as camadas que ele irá atravessar.
            O único sistema, pois, que aconselho, e ao qual está ligada essencialmente a economia da obra, consiste em o trabalho seguir sempre de baixo para cima por uma só frente de ataque para cada lanço de galeria, e empregando portanto só dois grupos de mineiros. Começando os trabalhos simultaneamente na origem da galeria geral junto ao tanque de depuração, e no poço 1, que tem imediata descarga para o barranco dos Grilos, podendo rasgar-se a galeria numa das fases para que não haja que elevar os entulhos, ter-se-á completado aquele primeiro túnel e o lanço da galeria até à vertical do poço 2 proximamente ao mesmo tempo. (Para maior brevidade do trabalho poderiam atacar-se ao mesmo tempo os dois topos do túnel e a galeria do poço 1, vindo então a agrupar-se três grupos de mineiros).
            Executada esta primeira parte do trabalho, e logo que um dos grupos de mineiros tiver concluído a abertura do poço 2 (aliás de pequena profundidade, 5,574 m.), prosseguirá o avanço da galeria geral para o poço 3, ocupando-se simultaneamente o outro grupo de mineiros da abertura da travessa de exploração para o nascente, seguindo o vale de Cipriano. Concluída esta segunda parte do trabalho, e bem assim aberto o poço 3, poceder-se-á simultaneamente à abertura da travessa de exploração do vale do Bandeira, e do lanço da galeria geral até à vertical do poço 4; e assim por diante até se ter obtido a quantidade de água que se deseje.
            O poço nº 1, que será a verdadeira testa dos trabalhos de exploração, não carecerá de revestimento, porque precisamente nesse ponto passa um banco de calcáreo pisolítico de 5 a 6 metros de espessura, muito grosseiro, trechiforme,  com muitos grãos e fragmentos rolados de quartzo, na verdade rijíssimo, mas única única camada desta natureza que os nossos trabalhos terão de cortar.
            Seguindo a galeria para juzante do poço 1 quase perpendicularmente à direcção geral da estratificação consideramos que haverá somente 8,0 m de galeria e 5,638 m de poço a abrir em calcáreo. Mas como é pequena a espessura do grés (3,0 m em média acima do tecto da galeria) o melhor será remover este prisma de grés, abrindo como acima dissemos uma trincheira, isto é, rasgando a face S do poço, profundando e regularizando o barranco para fazer todo o desmonte a céu aberto, com o que se conseguirá entre outras vantagens, dar uma entrada ampla de ar para o interior dos trabalhos e portanto estabelecer uma ventilação mais perfeita, o que poderá mais tarde traduzir-se talvez numa grande economia dispensando-se a abertura de alguns poços.
            Em vista da descrição sucinta que apresentamos deve concluir-se que a descarga das águas que correrem pela galeria durante a execução dos trabalhos poderá fazer-se para o barranco dos Grilos sem que seja necessário percorrerem o túnel entre este barranco e o tanque de depuração. Assim o túnel, além de contribuir eficazmente para o abastecimento, porque romperá uma formação de grés muito grosseiras em geral e muito permeáveis, levantando-se muitíssimo o terreno que elas constituem para o poente até às cabeceiras dos vales de Pijeiros e dos Condados, prestará ainda a vantagem de isolar a testa dos trabalhos subterrâneos da dos trabalhos à superfície, tornando durante a construção totalmente independentes os dois serviços, na verdade de índole bem diferente, e portanto exigindo o emprego de pessoal distinto.
            Tendo em atenção que as nascentes descobertas pelos trabalhos subterrâneos geralmente nos primeiros tempos (o que aliás bem se compreende pela pressão que a água experimentava antes de ter aquele ponto de descarga) julgo prudente que os trabalhos de exploração se não suspendam antes que se tenha obtido pelo menos o dobro da água que se julgue necessária para abastecimento da vila, e que muito largamente pode imputar-se hoje em 500 mc ou 600 mc diários.
            O trabalho de abertura dos poços e galerias deverá fazer-se por empreitada, e seguidamente às tarefas, dia e noite sem nenhuma interrupção. Os revestimentos deverão ser feitos por administração, ou pelo menos devem ser constantemente vigiados por um mestre hábil e de inteira confiança, para que não haja a recear para o futuro desabamentos, ou mesmo pequenas reparações, que em todo o caso se tornarão dispendiosíssimas, e até poderão embaraçar ou interromper o abastecimento.
            Durante a execução dos trabalhos muito provavelmente o traçado das galerias, que indicamos, terá de modificar-se ligeiramente nalguns pontos, quando por exemplo se reconhecer a inconveniência de seguir por maior espaço uma camada de grés rijo, permeável, porventura muito aquífero, e em que a galeria não carecerá de revestimento, evitando-se desta arte uma camada de argila  pelo contrário improdutiva e difícil de suster.
            O perfil da galeria será do tipo ordinário de volta inteira, com 2,0 m de altura e 0,75 m de largura. Ao meio da soleira correrá um passeio de lagedo tosco (pedra sava) ou de grés, que dividirá as duas caleiras, e servirá para a passagem da gente, quando seja necessário visitar o aqueduto, e dos carrinhos de mão quando se careça de fazer a limpeza das caleiras ou alguma reparação, sem que a água se turve. Este passeio terá 0,35 m de largura, e elevar-se à altura de 0,25 m sobre o pavimento da galeria, vindo portanto cada uma das caleiras a ter 0,20 m de largura e 0,25 m de profundidade. (Com uma inclinação de 0,001 m por metro, segundo as permissas de M. M. Darcy e Bazin, cada uma das caldeiras laterais da galeria com 0,20 de largura e igual profundidade, dará passagem proximamente a 800 mc por dia supondo-se pouco lisa, isto é, oferecendo a superfície natural do grés, sendo a velocidade média da corrente de 0,232 m e supondo-se lisa, isto é, rebocada de cimento hidráulico misturado com areia, dará passagem a mais de 1.300 mc sendo a velocidade média de 0,402 m por segundo.
            As caleiras comunicarão entre si repetidamente, afim de alongar o trajecto que a água tem de percorrer, diminuindo-lhe a velocidade, e portanto aproveitando os depósitos dentro da galeria; esta comunicação estabelecer-se-á, quer deixando estreitos intervalos de espaço a espaço no assentamento das pedras que formam o passeio, quer talhando estas de propósito para o objectivo conforme mostra o desenho.
            Como o terreno que as galerias têm de atravessar é constituído de grés e de marnes, dominando porém muito as camadas de grés rijos sobre as de grés brandos e de marnes, calcularei que somente a terça ou quarta parte das galerias a abrir terá de ser revestida. E ainda, como só a galeria principal terá de conservar-se desembaraçada para ser visitada, podendo o traçado das travessas modificar-se à vontade, considerarei que todas estas ficam em bruto; porque para o prosseguimento dos trabalhos de avanço, nos raros casos em que as travessas terão de cortar rochas brandas, poderá empregar-se um revestimento provisório de madeira (cofragem), que será ao depois reforçado, quando a abertura da galeria estiver terminada, com os entulhos de grés vindos de outro ponto dos trabalhos, e que poderão ali acumular-se em vez de serem extraídos para a superfíoie
            Medindo a galeria geral projectada 807,40 m considerei pois que somente 250,0 m terão que ser revestidos, apreciação que certamente está acima da verdade, pois que, como dissemos, não julgamos indispensável por agora, para satisfazer às mais urgentes necessidades do abastecimento, levar a abertura desta galeria até ao extremo norte.
            Em compensação as despesas de desmonte da rocha deverão ser relativamente grandes, porque algumas camadas de grés grosseiros, contendo grossos e abundantíssimos fragmentos quartzosos, comportar-se-ão quase como as quartzitas com respeito à acção do fogo, e ao estrago das brocas e outras ferramentas.
            Também a abóbada da galeria, quando tiver de construir-se, deverá ser relativamente de grande espessura, porque de ordinário só terá de empregar-se em terreno muito frouxo, nas camadas argilosas, que alternam com as camadas rijas, as quais pelo contrário não carecem absolutamente de revestimento. O tipo que adoptámos é o de 0,40 m de espessura para os pés direitos, tendo a abóbada 0,30 de espessura no fecho. Os pés direitos serão construídos ordinariamente de alvenaria hidráulica, e a abóbada deste mesmo material ou de beton. Excepcionalmente, e só quando as circunstâncias impreterivelmente exijam, serão construídos de enxelharia.
            Pela mesma razão acima notada supomos que a maior parte da extensão dos poços de serviço que tem de abrir-se não carecerá de revestimento; todavia, como nesta espécie de obras, que estão mais expostas, há mais a recear os desabamentos, considerei que a entivação dos poços abrangerá metade da sua extensão total.
            A secção dos poços basta que seja de 2 m x 1,60 m para que, mesmo revestidos de madeira, dêem passagem fácil aos baldes com o entulho. Ao poço nº 3, destinado a servir de clarabóia, dar-se-á a forma circular com 2,0 m de diâmetro interior, a menos que ele seja aberto em rocha muito rija que não careça de revestimento, porque em tal caso conservará a forma rectangular. Deixando de fora as paredes do poço, ou dos lados do quadrado circunscrito ao circulo que o representa a largura de 0,50 m para poder assentar-se um sarilho, fechar-se-á este espaço dentro de uma casa rectangular ou quadrada, com a porta de entrada numa das faces, e uma fresta ou olhal na parede oposta, e superiormente coberta por uma abóbada de volta inteira, de beton ou alvenaria hidráulica.
            Correspondendo este poço à vertical da galeria geral convirá cobrir no fundo as caleiras com uma capa de lagedo, afim de que a água não se suje, mormente quando tiver de fazer-se alguma reparação.
            Para facilidade do serviço terá de cobrir-se a soleira da galeria com um estrado seguido de madeira, formado de taipais soltos, por baixo dos quais passará a água sem o que o movimento dos carros dentro da mina se tornaria muito moroso e incómodo. É este um elemento de despesa a que há que atender, mas de pouca importância aliás, porque os mesmos taipais, poderão servir sucessivamente, passando-os de um  lanço de galeria já concluída para o outro em avanço.
            Finalmente no primeiro lanço de galeria a juzante do poço 1, as caleiras serão revestidas de uma capa de reboco hidráulico, para que seja mais fácil a limpeza, podendo conservar-se a caldeira daquele poço na largura da galeria para servir como um primeiro tanque de deposição. No resto das galerias as caleiras só serão revestidas onde for absolutamente indispensável.
            As águas exploradas pelos trabalhos subterrâneos serão recebidas num tanque completamente enterrado, onde começa a canalisação de ferro. Este tanque, a que chamaremos de depuração ou de deposição, porque as águas depositarão ali as matérias sólidas, areia ou argila, que arrastarem, reputo-o de indispensável, porque sendo a canalisação de ferro de pequeno calibre, (0,15 m) e seguindo em repetidas ondulações para se adaptar à configuração do solo, é da maior importância que a água entre nela o mais límpida possível.
            Este tanque, de que os desenhos dão uma perfeita ideia, é dividido longitudinalmente por um muro em dois compartimentos distintos e independentes, cada um com a sua descarga especial para a ribeira para se fazer a limpeza, e além disso divididos transversalmente por três septos, o do meio móvel (corrediça ou adufa submersível), formando uma espécie de labirinto, que a água é obrigada a percorrer antes de chegar à tubagem de ferro.
            Na extremidade de cada uma das caleiras há uma adufa, de forma que, estando levantadas ambas e abertas as duas torneiras de passagem na origem da canalisação, a água passará simultaneamente por ambos os compartimentos do tanque; pelo contrário, se se fechar uma das adufas e a torneira de passagem correspondente, obrigar-se-á a passar toda por um dos compartimentos, podendo fazer-se a limpeza do outro, sendo preciso, sem a mínima interrupção no fornecimento.
            Para quebrar a velocidade da água, à sua entrada no tanque há uma espécie de descarregadouro a juzante de cada adufa, crescendo sucessivamente a inclinação do fundo da caleira, e ao mesmo tempo alargando a superfície onde pode desdobrar-se a lamina de água.
            O tanque será encerrado numa casa rectangular de 2,0 m x 5,25 m de área interior, servindo as paredes laterais do tanque em parte de alicerce às suas duas paredes mais extensas, e coberta por uma abóbada de volta inteira de beton ou de alvenaria hidráulica.
            O acesso ao tanque far-se-á por um lanço de 5 degraus, disposição necessária para que a tubagem saia do tanque enterrada à profundidade de 1 m que deverá manter em todo o seu trajecto, e para que a parede oposta à porta ganhe a altura conveniente para se poder nela abrir uma fresta ou olho-de-boi para iluminar a casa e para ventilação.
            O muro divisório do tanque será coberto por um capeamento de lajedo de 0.50 m de largo, para permitir a passagem para dentro da galeria ao guarda, que deve inspecioná-la, e fazer a manobra das válvulas de descarga quando seja preciso. Como é óbvio, o fundo deve ter escoante para estas válvulas.
            O fundo do tanque será formado por uma camada de betão; as paredes laterais e o muro da divisória central, de alvenaria hidráulica; e as paredes da casa, de alvenaria ordinária. As paredes do tanque e bem assim as da casa serão revestidas interiormente de uma capa de reboco hidráulico.
            O curso que a água tem de percorrer até à sua chegada ao alto do Pinhal é muito difícil, porque o solo a que tem de sujeitar-se a canalisação é muito acidentado. Como se vê na planta a direcção geral da canalisação não se afasta muito da da direcção rectilínea; no plano vertical é que é obrigada a dobrar-se em repetidos sifões, seguindo-se sem interrupção uns aos outros, até que o traçado chega à estrada frente à quinta de S. João, para transpor as quebradas do solo, que não poderiam tornear-se sem um grandíssimo desenvolvimento no traçado, e algumas delas nem mesmo assim. (Este relatório continua a publicar-se em vários números seguintes para explicarem a condução das águas para a Figueira e a sua distribuição, o que não copiei por não interessar directamente a Tavarede)