sábado, 3 de janeiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 109

Entre as muitas notas encontradas sobre a nova peça apresentada, destacamos a seguinte: Integrado nas comemorações do 78º. aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, mais uma peça, original de Mestre José Ribeiro, ali está em representação. Estivemos presentes na estreia, e não resistimos à tentação de escrever uma breve crónica do que nos foi dado apreciar.
         Sabemos, porque temos consciência disso, e porque nos vamos referir a esta peça em termos elogiosos, sendo natural de Tavarede e porque honrosamente tivemos o prazer de fazer parte daquele grupo amador de teatro durante largos anos, sabemos, dizíamos, de que a nossa crónica possa ser interpretada como escrita com um certo sentido “piegas” e de alguma saudade. – É um facto, que não nos podemos alhear dos sentimentos do coração, pois quem alguém que um dia teve a ventura de pertencer ao grupo dramático da SIT, a ele fica eternamente ligado. No entanto, e intencionalmente, deixámos passar alguns dias antes de escrever estas breves palavras, e é com a voz da razão, no nosso entender isento, que transcrevemos a nossa opinião.
         Mas... vamos à “Viagem na Nossa Terra”!
         Esta peça, a que chamamos “Fantasia Histórica”, é mais um original de Mestre José da Silva Ribeiro, que, com os seus oitenta e muitos anos, continua a transportar para o palco toda a juventude do seu enorme talento. Esta peça de teatro é mais um documento histórico da nossa terra, e Mestre José Ribeiro a escreveu em louvor do I Centenário da cidade da Figueira da Foz, pois que alguns quadros o expressam na sua maior clareza. Cavando mais um pouco da história longínqua da sua terra, que tanto ama, - Tavarede -, José Ribeiro não deixou de fazer a sua crítica a momentos actuais e de abraçar a Figueira da Foz neste momento alto da sua existência, que é a comemoração do I Centenário da elevação a cidade. 
         Pensamos, temos a certeza, de que este é, até ao momento, o mais alto contributo para as Comemorações. Julgamos mesmo, que seria imperioso a Comissão Executiva das Comemorações do Centenário, fazer todas as demarches para que esta relíquia e rica peça de teatro fizesse uma digressão por todas as freguesias, e povoações onde fosse possível, para que a população do nosso concelho aprendesse um pouco da história da nossa cidade. – De Afonso Henriques até aos nossos dias, à mistura com quadros de fantasia, é mostrada a história de um povo.
         A peça foi escrita pelo sempre jovem Mestre José Ribeiro, mas como é evidente, não é só a ele que devemos estar gratos pelo belo serão que nos foi proporcionado: - Há também todo um lote de “jovens” – dos mais variados escalões etários -, que conseguem transportar para o palco as ideias de José Ribeiro. São eles os amadores da velha SIT. – Lá vimos os veteranos, mas sempre jovens, João Medina, João de Oliveira, o José Luiz do Nascimento, o José Medina, Manuel Lontro, Antonino Santos, João José da Silva, a Maria da Conceição, a Ana Maria Bernardes (que maravilhosa faz), a Lourdes Lontro, e tantos outros ao lado daquela enorme massa de juventude que ali, no palco da SIT, encontram na ocupação dos seus tempos livres uma forma elevada de cultura.
         Quanto à música também não temos palavras, pois que é agradável e melodiosa. Os seus autores, infelizmente dois já desaparecidos, - (António Simões e Anselmo Cardoso) – e João Silva Cascão.
         Uma última palavra para o guarda-roupa de Alberto Anahory: - “Maravilhoso”.
         Não nos queremos alongar em mais considerações, embora de bom grado o fizéssemos.
         Uma última questão: - “Quem não acredita no que dizemos só terá uma solução, que é ir assistir ao espectáculo”. – Se não gosta de teatro, temos a certeza de que ficará a gostar. Se já gosta, ficaria ainda a gostar mais.

Esta década terá sito uma das ficaram mais marcadas, na história do associativismo tavaredense, pelo desaparecimento de muitas e das mais importantes figuras do palco tavaredense. Não nos iremos referir a todas, mas não podemos deixar de lembrarmos a morte da amadora Violinda Medina e Silva. ... É evidente que nem todos os grupos participantes, tanto nas Jornadas em curso como nas anteriores, apresentam as mesma craveira artística, nem que neste como noutros campos em determinados estádios a quantidade é imprescendível, quando se pretende atingir a qualidade. E, além do mais, como diz Miguel Torga, ‘quem faz o que pode... faz o que deve’. Todavia estas linhas não pretendem criticar seja o que for das Jornadas de Teatro de Aqmadores da Figueira da Foz. A nossa intenção é bem outra, e tem em vista, se possível, fazer com que não resvale para o esquecimento um nome bem grande do teatro figueirense e que há dias exalou o último suspiro de uma vida que teve tanto de gloriosa no palco, como de amargurada nas jornadas quotidianas. Referimo-nos, como é bem de perceber, a Violinda Medina e Silva.
Julgamos que as camadas mais jovens a melhor homenagem que podem prestar à sua memória é participarem activamente em tudo que amplie e honre a apetência teatral das gentes do concelho, e quanto aos organizadfores das Jornadas entendemos que algo deve ser feito, publica e solenemente, que perpetue o valor e dedicação de alguém que sentiu o teatro com todas as veras da alma. E até na tumba não quis deixar de sentir o aconchego das tábuas do palco velho da ‘sua’ Sociedade de Instrução Tavaredense. Por todos estes motivos, poderá ser esquecido o dia em que Violinda Medina e Silva deixou a vida... para entrar na História do Teatro?
Aliás, tudo o que dizemos não é nada comparado com as magistrais palavras do seu velho companheiro das lides teatrais José Ribeiro, proferidas nas cerimónias fgúnebres. Nem a emoção nem a saudade conseguiram turvar as ideias claras ditas por quem (e para quem) teve o teatro como objectivo primordial na vida.

E não é possível deixar de aqui transcrever uma parte da carta que, nesta ocasião, Mestre José Ribeiro escreveu ao seu amigo António Medina Júnior, irmão da defunta. O corpo de tua irmã ainda estava ali na igreja no caixão em que ela quis levar algumas tábuas do palco que durante tantos anos pisara; o espírito da Violinda já tinha voado, mas eu sentia-o vivo, bem vivo no turbilhão das minhas saudades. E eis que vem o teu rapaz pedir-me uma nota sobre a Violinda para o teu jornal – uma breve nota sobre a admirável Mulher e grande e querida Artista de Tavarede – Violinda Medina e Silva.
         Mas, meu velho e desventurado António Medina Júnior: eu já não sei escrever para jornais – nem para os meus, que já não tenho, pois ambos me roubaram e porque deste então senti que me tornavam analfabeto. Perdi-lhe o jeito. Pode o bilhete de identidade continuar a chamar-me jornalista: é mentira piedosa que fiquei devendo, por mal dos meus pecados, à validade perpétua que ali me está assegurada.
         Que escreva para o teu jornal uma nota sobre a Violinda, pedes-me. Pois, meu velho companheiro da velha escola da nossa querida e inesquecível D. Amália! Tu bem sabes, e bem sentes, que a minha vida, como a tua, é já uma longa caminhada tristemente florida de muitas cruzes. Para qualquer lado que me volte – são ecos de ásperas e dolorosas lutas, algumas alegrias e tristezas com sinais dos encontrões que aguentei sem que algum tivesse força bastante para me não deixar de pé. E, tu bem o sabes, está comigo, infatigavelmente permanece – o Teatro. E o Teatro de Tavarede sempre o vejo e sinto com a Violinda Medina – admirável Mulher que a paixão da filha única, brutalmente arrancada ao seu grande amor de Mãe, matou para toda a alegria, só lhe deixando alma para resignadamente desfiar o rosário das desventuras.
         Quando em 1931 a Violinda veio para o grupo de amadores da SIT logo ela se me revelou de espantosa intuição.   Possuía linda voz com volume e extensão e era boa e simpática figura. Aqui na SIT se lhe afervorou a outra grande paixão da sua vida – o Teatro. E no Teatro, que cultivou com inteligência e invulgar sentido de Arte e raro espírito de sacrifício – até de saúde e comodidades – foi grande e admirável Actriz em várias das muitas peças que representou. E já agora, que me chamaste a terreiro, deixo-te aqui uma lista, naturalmente incompleta, das peças representadas pela inesquecível amadora de Tavarede: .......
         A primeira peça que tive como intérprete Violinda Medina foi Os Fidalgos da Casa Mourisca. Passaram já 50 anos… A última foi O Processo de Jesus. Entre uma e outra, quanta alegria, quanta beleza, quanta riqueza e diversidade de sentimentos, quanta grandeza e miséria e lágrimas e risos – comédia e drama, farsa e tragédia moldadas em prosa e verso. Ela tornou vivos no palco de Tavarede, e em Coimbra, Tomar, Lisboa, Porto, Leiria, Pombal, Soure, Pampilhosa, Cantanhede, Condeixa, Marinha Grande, Sintra, Colares, Arazede, Torres Novas, Torres Vedras, Maceira Liz, Alfarelos, Entroncamento, Vila Nova de Ourém, Amarante, Vila Real, Aveiro, Abrunheira, Figueira da Foz e em quase todas as freguesias deste concelho. Ela, a inesquecível Violinda, foi a pura alegria e o riso álacre dos Quintero no Génio Alegre, a raiva e o amor de Clara de Entre Giestas, o destroçado coração (que já o tinha sido na vida verdadeira da intérprete!) daquela Velhinha do Processo de Jesus, que sentia vivo ainda o filho já morto e lhe falava e o ouvia; foi a graça manhosa da criada do Tartufo, e a brava Rita Firmino de Horizonte, e a doce Avó de As Árvores Morrem de Pé, em cuja cena da bebedeira ninguém a ultrapassou e a aristocracia corajosa e astura que foi a Conspiradora; e foi o milagre de arte de representar com que transformou em verdadeira cena teatral o monólogo vicentino do Pranto de Maria Parda! E outras e outras figuras com que enriqueceu a galeria das suas criações.
         Logo no nosso primeiro encontro – íamos ler Os Fidalgos da Casa Mourisca – a Violinda se abriu em confissão: nunca tinha lido uma peça de teatro; sabia de cor algumas cenas do Presépio, tinha representado uma ou outra daquelas peças, comédia ou drama, que se vendiam impressas para amadores. Que não sabia nada de técnicas nem da história do Teatro: “Nunca me ensinaram…”. Ela, muito presa à sua vida de casa e nunca faltando a um ensaio (“nem que chova” e mesmo chovendo, a Violinda, o João Cascão e os Broeiros – todos excelentes, valiosos e briosos amadores! – nunca faltavam ao ensaio), a Violinda tomou gosto pela leitura de teatro. E leu teatro. Gostou muito de Marcelino Mesquita, e fez brilhantemente a protagonista do Envelhecer. Foi um atrevimento de que saiu vitoriosa. E estou a lembrar-me, meu caro António, de que tu viste aí em Sintra a tua irmã numa peça do Marcelino, não o Envelhecer mas Peraltas e Sécias. Foram duas representações inesquecíveis! Na primeira noite representou-se Frei Luís de Sousa. A Violinda foi grande, espantosa na Madalena de Vilhena. Abraçada à cruz, era a imagem viva da própria dor, a suprema angústia daquela mãe: “Tomai, Senhor, tomai tudo! Oh! A minha filha! Também essa vos dou, meu Deus!”. A Violinda subiu alto, foi sublime de beleza trágica na obra gloriosa de Garrett. Estou a escrever-te, vejo o “teu” teatro cheio, um silêncio pesado em que só lágrimas falavam, oiço essas lágrimas da Mãe preludiando a morte da Filha – e aqui me tens a senti-las, aquelas puríssimas lágrimas, esquecido da distanciação brechtiana…
         Pedis-te-me uma nota para o teu jornal que devia ser breve. E escrevi este artigo leguapoveiro, muito extenso e que diz pouco. Perdoa. E já agora, com um pouco mais de espaço talvez queiras aproveitar a página de memórias, - Memórias que não se escrevem – que aqui junto.
         Em Agosto de 81 tinha eu concluído a “Viagem na Nossa Terra” para ser representada pelo 78º aniversário da SIT, em Janeiro de 82. Seria a ocasião própria para o reaparecimento de Violinda Medina no palco de Tavarede. Escrevi para o efeito a cena 12ª – “Gente da Enxada”, dividida em duas partes:
         1) Regresso ao Lar – Eram os cavadores de Tavarede (já muito poucos…) que apareciam ao fundo da plateia e, descendo pelo centro, subiam ao palco, enxada ao ombro, cantando
                                               Lá vão!
                                               Lá vão
                                               Os ranchos do labor
                                               … … … … … … …
e, apagando-se ao longe o coro das enxadas, seguia-se a 2ª parte. Transcrevo:
         2) Génio Alegre – Surge à frente da cortina a figura do Génio Alegre:
         Violinda – “Foram eles, os cavadores de Tavarede, que me chamaram aqui… As badaladas do sino e as vozes dos cavadores no seu hino do trabalho evocaram no meu espírito uma cena em que também se viam homens no trabalho da terra e se ouviam badaladas e repiques de sinos barulhentos. (Transição) Foi há muitos anos!... Que saudades! Eu não era então a velha que hoje aqui está convosco. Era ainda jovem, uma rapariga alegre, contente, risonha, cheia de saúde e chamava-me Consuelo!... Parecia trazer o sol na alma e nos olhos e no coração e na boca a graça das cantigas andaluzas. Foi em Alminar de la Reina: estava em casa de minha tia, a nobre senhora Dona Sacramento, Marquesa do los Arrayanes. Era um belo palácio antigo, donde parecia ter desertado a alegria, se alguma vez houve alegria dentro daquelas vetustas paredes. No pátio andaluz existia um gracioso tanque com repuxo, mas não corria água no repuxo nem havia flores no pátio; enchi o pátio com vasos de flores e fiz correr água no repuxo; e aquele palácio velho e triste parecia agora rejuvenescido e alegre. (Transição) Certo dia, eu e várias cachopas e rapazes tínhamos ido a um casamento de ciganos. Quando já voltávamos do casamento, a palrar e a rir, muitos alegres”……………………………
         E vem então o belo monólogo dos sinos que a alegre e irrequieta Consuelo (a Violinda) dizia, cantava, vivia assombrosamente, com os olhos, a boca e a alma cheios de riso, de luz, de alegria transbordante. Tu, meu velho Medina, não viste, não podes fazer ideia, e eu não posso contar-te, descrever-te de maneira que tu entendas e sintas o que foi no Teatro do Casino Peninsular a estreia do “Génio Alegre” e a cena genial em que a Violina, com o João Cascão e o Manuel Nogueira, faziam renascer para a beleza e para a alegria o pátio sombrio da velha Marquesa de Arrayanes, fazendo correr a água no repuxo e enchendo o pátio de vasos floridos, numa cena rica de movimento, de alegria, de risos, de vida feliz. E a plateia, e o balcão, toda a gente de pé, batendo palmas, contentes, muitos rindo, alguns chorando – que também se chora de contentamento, de alegria.
         Esta cena com o monólogo dos sinos seria a grande homenagem a Violinda Medina, genial intérprete da deliciosa comédia dos Quintero, ali no Teatro de Tavarede, com os seus companheiros e o povo da sua terra e os seus admiradores de todo o concelho da Figueira. Falei com a Violinda – escondi-lhe o propósito da homenagem -, li-lhe o papel e ela, mesmo sentindo o peso dos anos e as tristezas da sua vida sem ventura, como que se animou à ideia de dizer ainda uma vez o seu belo, luminoso, arrebatador monólogo dos sinos, cheio de sol, de alegria de viver, de risos e de sons que vinham no repique destrambelhado dos sinos barulhentos. Para dias depois ficara combinado um ensaio de recordação, que já se não fez: a Helena – relíquia também do Teatro de Tavarede – trouxe-me a desilusão – que a Violinda não tinha forças para transmitir ao papel o movimento e a graça, a luz e a alma daquela irrequieta Consuelo, cheia de saúde e rica de alegria…
         E lá ficaram, agrafadas e sepultadas no caderno que servia ao ponto, as folhas 44, 45 e 46 com a cena irrepresentada do Génio Alegre que seria a Violinda.






                                    Violinda Medina e Silva

         No verso da folha 43 da “Viagem na Nossa Terra” escrevi:
         “Com grande mágoa se exara aqui a nota que segue: Este quadro do Génio Alegre preparou-se para ser erguido no palco, na noite da estreia desta Viagem na Nossa Terra, no aniversário da SIT, em Janeiro de 1982. Seria então a grande homenagem à Violinda dos amadores da SIT e do público que tanto admira esta nossa querida amadora – a maior de quantas conheci, como ensaiador, do Teatro de Tavarede. Infelizmente, a doença não lhe permite pisar de novo o palco. Por isso, tive de substituir o quadro.
               
Em 1983, a Sociedade apresentou, nas VII Jornadas de Teatro Amador do concelho, a peça O fim do caminho. Afinal a Organização das Jornadas Culturais de Teatro Amador, não teria por certo dificuldades em presenças de colectividades, se por ventura as mesmas quisessem apresentar uma peça que já tivesse sido vista e revista! E dizemos isto apenas por concordarmos em absoluto com comentários ouvidos e que praticamente transcrevemos.
         Mas, falando de outro assunto, assistimos ontem à representação da peça “O Fim do Caminho”, num original de Allan Langdon Martin e levada à cena pela Sociedade de Instrução Tavaredense. E então, partindo do princípio de que o Teatro é a imagem e não realidade, o Teatro não se faz com homens! Faz-se isso sim com personagens; e os personagens de Teatro ou são transfiguração da sua (Teatro) verdade ou então são bonecos sem significado. Essa transfiguração é orientada precisamente através da interpretação que o encenador (quem foi?) faz do texto e do estilo que vai seguir. E foi isso que aconteceu: Dentro do estilo realista o encenador não transformou a acção dramática numa cópia da realidade (e muito bem) aproximou-se o mais possível da realidade histórica referente à época em que a acção decorreu, muito bem acompanhado por um belo guarda-roupa. Quanto à distribuição, ele não nos pareceu de todo correcta, tão somente pelo facto de um interveniente nos parecer o que poderemos considerar de “monocordo” e o personagem de Jeremiah Wayne, sem qualquer descortesia para quem o interpretou, mesmo com o rigor da caracterização que tentaram dar-lhe, estaria talvez um pouco deslocado na idade. 
Salvo as espreitadelas pela cortina e aquelas falhas que todos nós sabemos existirem antes dos actores entrarem, a representação não nos merece grandes reparos, mas sim um bravo. Gostámos de assistir a um nivelamento mais ou menos correcto dos actores, mas é claro que João Medina, foi ele mesmo, quer no velho Dr., quer no Centro Dramático. A todos, gratos pela representação.

E, pode dizer-se, esta peça havia de marcar, na verdade, o princípio do fim do caminho de uma longa vida dedicada ao teatro da terra do limonete. Mestre José Ribeiro, o insubstituivel Homem de Cultura que tanto honrou a nossa terra, que lhe havia sido berço há nove décadas, via aproximar-se o ‘términus’ da sua carreira. Ainda escreveu e ensaiou mais uma fantasia, Manta de retalhos.

Prosseguia, com o maior entusiasmo, a campanha angariadora de fundos para a construção da nova sede do Grupo Musical. Entre as muitas iniciativas, foi programado um cortejo de oferendas, mas, no dia marcado, 24 de Abril de 1983, o mau tempo não permitiu o desfile.

         Apesar da doença, Mestre José Ribeiro ainda organizou um espectáculo, verdadeiramente grandioso, para as festas comemorativas do 80º aniversário da SIT. Há muito que, em Tavarede, o Teatro anda associado a todas as manifestações das suas gentes. Não será exagerado afirmar-se, até, que a vida em Tavarede gira em torno do seu Teatro. E, se alguém tiver dúvidas a tal respeito, apenas terá de ali se deslocar numa dessas ocasiões para constatar.
         Agora, na comemoração do 80º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, o fenómeno repetiu-se: o momento mais alto das comemorações teve lugar no seu magnífico teatro onde foi levada à cena a peça “Na Feira de Gil Vicente”, com adaptação desse “homem grande de Teatro” que é José Ribeiro. Gil Vicente foi, assim, o “convidado” de honra de Tavarede, Gil Vicente que poderemos quase considerar familiar ali (quem não se lembra da inesquecível “melhor Maria Parda” que foi, sem dúvida, a saudosa Violinda Medina?). Desta vez foram levadas à cena: “No Lar de Uma Família Judaica” (prólogo), “Auto da Barca do Inferno”, “O Pote da Mofina Mendes”, “Gil Vicente vem à Feira” e “Auto da Feira”.
         Mas não será ousado apresentar, em Tavarede, peças de tal nível cultural?
       

     É certo que a pergunta teria perfeito cabimento em relação à maioria dos centros portugueses. Mas a Tavarede não. É que ali há como que uma “representação colectiva” em que os que não sobem ao palco “representam” na plateia. Poder-se-á afirmar (passe o plágio) que quem não representa já representou e é esse facto que cria o tal ambiente em que se “respira teatro” e torna quase familiar a presença dos grandes vultos da cultura teatral. O teatro passou a fazer parte da vida desta gente, razão pela qual Gil Vicente é compreendido.
        E sobre o espectáculo?

         Julgamos ter dito o suficiente. Adiantaremos, no entanto, que vimos em palco quatro gerações. E que, se aquele Diabo (João de Oliveira) foi o melhor que já vimos, “o sapateiro” (José Luiz Nascimento) e “o parvo” (João Medina Júnior), foram apenas duas excepcionais actuações num conjunto que surpreendia pela segurança com que todos dominavam a complicada linguagem de Gil Vicente, um autor que efectivamente, não está ao alcance de muitos grupos. Que nos perdoe o leitor a escassez de nota de reportagem aqui contidas. Mas a verdade é que, para poder ter uma ideia exacta do que foi o espectáculo, só terá uma forma: deslocar-se lá na próxima representação (21 do corrente às 21,45) só assim poderá ficar com uma ideia de conjunto, desde a peça aos actores, da orquestra (dirigida por José Custódio Reis) ao guarda-roupa (Anahory), dos cenários... a tudo.
         Vá, que não se arrepende.


sábado, 27 de dezembro de 2014

Histórias e Lendas - 13

         O seu testamento tem a data de Maio de 1540. “Eu, António Fernandes de Quadros, faço, pelo presente, o meu testamento. Primeiramente recomendo minha alma a Deus, pedindo-lhe que, pelos merecimentos da sua sacratíssima Paixão e precioso sangue que derramou pela redenção e geração humana, haja misericórdia de mim e me queira perdoar meus pecados e dê graças para que acabe em salvação.
            Mando que o meu corpo seja enterrado na capela da Igreja do Mosteiro de Santo António da Figueira. Deixo por minha testamenteira Genebra de Azevedo, minha mulher, e assim a deixo por tutora e curadoura de meus filhos, porquanto a dita Genebra de Azevedo e eu próprio havemos assentado fazer um morgado de todas as nossas terças, ressalvando cada um de nós até cem cruzados, para nossas exéquias e se dispenderem no que nós quisermos; digo, por mim, que se aparte e tomem todas as minhas terças, de que se tire cem cruzados que se entregarão à dita Genebra de Azevedo, minha mulher, e ela os dispenderá nas minhas exéquias e naquelas coisas que ela já de mim sabe em que os há-de dispender, dos quais ditos cem cruzados mando que lhe não seja tomado contas.
            Tudo mais que ficar de minha terça, mando que se tome na Lezíria da Veirôa e nas casas principais de Tavarede, se lhe puderem caber, e que da dita minha terça e a que sair da dela, minha mulher, se faça um morgado, que ficará a Fernão Gomes, nosso filho, mais os fornos de Tavarede, e em toda a sua geração, e, falecendo ele, sem filhos legítimos, ficará a uma das nossas filhas, à mais velha, o qual morgado andará sempre no filho mais velho lídimo, se o houver, ou na filha mais velha, não o havendo; não a havendo, também, passará o morgado para o parente mais chegado, e sendo dois ou mais no mesmo grau, sempre procederá o varão.
            Peço a El-Rei nosso senhor que haja por bem que neste morgado entre a legítima que o dito Fernão Gomes, nosso filho, venha a herdar por falecimento meu e da dita Genebra de Azevedo, sua Mãi; e se o dito Fernão Gomes não quiser que as suas legítimas sejam metidas no morgado, hei por bem que ele não haja o dito morgado e o haja uma filha mais velha, contanto que suas legítimas entrem no morgado como atrás é dito do Fernão Gomes.
            Falecendo o dito Fernão Gomes, se suceder no morgado, sem ter filho legítimo, e havendo de haver o morgado a nossa filha, entram suas legítimas nele, como atrás é dito; e mando que o dito Fernão de Quadros, meu filho, e todos os seus sucessores no morgado que se houver de fazer, serão obrigados a deixar, cada um, a terça da sua terça, para se juntarem a este morgado; e se os possuidores do dito morgado não tiverem legítimos descendentes, serão, em tal caso, obrigados a deixar, para juntar ao dito morgado, a terça parte de toda a sua fazenda; e se os ditos sucessores quiseram deixar mais da sua fazenda para acrescentamento ao dito morgado, poderão fazê-lo; e não será possuidor do morgado quem não deixar o terço da sua fazenda para o morgado, como dito é.
            A pessoa que suceder no dito morgado, faça meter no mesmo tudo como é dito, ficando o dito Fernão Gomes, meu filho, e todos os seus sucessores, a serem obrigados a mandar dizer, em cada ano e na dita Igreja de Santo António onde estará meu corpo, 100 missas, a saber: três cantadas, uma pelo dia de Nossa Senhora da Anunciação e outra no dia de Santo António, pelas festas que se realizem, e outra dos finados, pelo seu dia, e as outras rezadas com responso, sobre minha sepultura, e estas missas se digam pela minha alma e da dita Genebra de Azevedo, minha mulher e das outras pessoas que deixarem fazenda ao dito morgado.
            E porque eu, ao presente, estou doente e não sei o que Nosso Senhor fará de mim, e não tenho tempo para haver tão cumprido conhecimento das condições que devo meter no morgado, além das que neste testamento digo, nem o posso fazer com a dita minha mulher com aquela solenidade e condições que se requerem; mando que o testamento que a dita Genebra de Azevedo, minha mulher, fizer com o consentimento e conselho de André de Quadros e de Pero d’Azurara, de Montemor, meus primos, seja bom e se cumpra, e todas as condições que nele meterem hei por bem e que se cumpram inteiramente, como se eu as aqui houvesse ditas e declaradas e hei por bem que todas as condições metidas neste testamento se cumpram.
            E acontecendo que falecendo minhas filhas ou cada uma delas sem serem de idade para fazerem testamento, que a terça parte de toda a sua fazenda seja encorporada e metida neste morgado, e se ao tempo que elas, e cada uma delas, falecerem e a dita Genebra de Azevedo, sua máe, por falecida, hei por bem que toda sua fazenda e herança seja metida e encorporada no dito morgado que aqui hei por deixado.
            E porque a dita Genebra de Azevedo, minha mulher, e eu temos assentado de fazermos de nossas terças este morgado, como dito, hei por bem que fazendo ela dentro de um ano um testamento em que deixe sua terça a este morgado pela maneira que atrás é dito e houver confirmação de El-Rei nosso Senhor deste morgado, para ficar de tudo assentado e feito dentro em outro ano, que serão dois anos que se estenderão do dia do meu falecimento para diante.
            Hei por bem que esta minha terça, e morgado que faço, fique a dita Genebra de Azevedo, minha mulher e testamenteira, em dias de sua vida, com seus encargos, e para melhor ela poder sustentar sua pessoa e encaminhar nossas filhas e enquanto assim possuir o dito morgado, será obrigada a prover e sustentar o dito Fernão Gomes, segundo sua pessoa e as possibilidades dela; e por seu falecimento, fique o dito morgado ao dito Fernão Gomes, nosso filho, e sendo ele falecido, sem filhos, como atrás é dito, à filha mais velha, como dito é.
E se a dita Genebra de Azevedo se casar, hei por bem que ela não possua o dito morgado, mas seja logo do dito nosso filho e assim lhe seja tirada a tutoria e administração de meus filhos; e falecendo a dita minha mulher antes de meus filhos serem de idade maior ou casando-se, deixo por seus tutores e curadores aos ditos André de Quadros e Pedro d’Azurara.
            E sendo caso que o dito meu filho ou os sucessores do dito morgado fizerem algum erro contra a lei de Deus ou contra lesa Magestade ou outro excesso tal que por direito deva perder seus bens, o que prazará a Deus que não será, eu lhe hei por tirado o dito morgado e mando que logo seja do seu sucessor.
            Recomendo e mando e rogo ao sucessor do morgado que faça, à sua própria custa, o coro aos frades em Santo António e mais corrigirá e reparará as obras do que for necessário, a saber, o telhado e goteiras.
            Mais disse, ele dito António Fernandes, que sendo caso que os padres mandem trazer de Flandres o retábulo para a capela, que o sucessor do morgado lhes dê, para ajuda dele, 20 cruzados.
            Mando a todos os possuidores do dito morgado que paguem muito bem as missas aos padres do dito mosteiro e também saibam se se dizem, e vindo algum que também as não queira pagar, mando que as pague, ao menos segundo constituição do Bispado; e mais mando que lhe dêem em cada ano, para sempre, 8 arratéis de cera para as candeiras das ditas missas, e quatro alqueires de azeite para alumiar a lampada da capela.
            Rogo e recomendo aos ditos meus sucessores do dito morgado, que olhem pelo que cumpre e bom aproveito do dito mosteiro e procurem por ele, e quando souberem que tem necessidade de mantimentos, ao dito mosteiro de mantimentos o ajudem com suas esmolas como puderem.
            E por aqui, disse ele, dito António Fernandes de Quadros, que havia seu testamento por acabado, e roga a mim, Bento Vaz, clérigo de missa, e morador no dito Couto de Tavarede e capelão de Nossa Senhora do Rosário e de Santo Aleixo, que este escrevesse, e eu a seu rogo o escrevi, e ele assinou por sua própria mão; o qual foi feito aos 8 dias do mês de Maio da era de 1540 anos. - António Fernandes de Quadros - e eu, Bento Vaz, o assinei por minha mão e reli.
            - Mais disse que todos os bens que assim os ditos sucessores deixarem ao morgado, por via da terça, como por via de herança, sejam em bens de raiz aqueles que mais pertencentes forem ao morgado e não os tendo em raiz que se curem dentro de um ano.
Aprovação
            Saibam quantos este instrumento de aprovação e ratificação deste testamento virem, como no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540 anos e aos nove dias do mês de Março do dito ano e no lugar de Tavarede, termo da vila de Montemor-o-Velho, e casas de morada de António Fernandes de Quadros, morador no dito lugar, jazendo ele, dito António Fernandes de Quadros, doente numa cama, com todo o seu sizo e entendimento cumprindo que lhe deu Nosso Senhor Deus, logo por ele António Fernandes foi tomado, da sua mão, este testamento cerrado e selado com sete selos e o deu a mim, tabelião, perante as testemunhas adiante nomeadas, dizendo ele, dito António Fernandes, que este era o seu testamento que ele tinha ordenado nestes dias e lho fizera um padre, o qual testamento ele tinha apurado por bom e lhe prazia que todo o conteúdo nele, se cumprisse e guardasse como se nele continha e o ratifica e aprova este testamento por ele assinado, e abaixo do seu sinal nenhuma cláusula achará e, portanto, tudo ratificava, e roga a mim, tabelião, que lhe fizesse este instrumento de aprovação e ratificação, por tanto lhe aprazia que este valesse e por assim ser; testemunhas que estão presentes Pedro de Azurara, clérigo de missa, morador em Montemor, e Lucas de Azevedo, e o bacharel Miguel Gomes, morador na dita vila, e António Nunes, filho de Manuel Nunes, de Lavos, e Álvaro Gonçalves e Cristovão Lopes e Gonçalo Pires, moradores no dito lugar, que assinarão com o dito António Fernandes e outros; e eu, João Manhos, tabelião público e judicial e notas na dita vila, pelo Mestre nosso Senhor, que este escrevi e de meu público sinal assinei que tal é.
                        - Lugar do selo do sinal público-.
                        Miguel Gomes, António Nunes, António Fernandes de Quadros, Cristóváo Lopes, um sinal de Álvaro Gonçalves, e uma cruz de Gonçalo Pires.
            Impõe-se uma nota: o testamento está datado de 8 de Maio de 1540 e a aprovação e ratificação com data de 9 de Março do mesmo ano Logo, um dos documentos terá indicado o mês errado, mas não sabemos, até agora, qual está correcto).
Adição de Itens
            Disse mais António Fernandes que depois de ter seu testamento feito em sua consciência a seu parecer bem ordenado lhe acudia mais estas lembranças em as quaes aprovava e ratificava por bom a firme e valioso todo o conteúdo e mandado em seu testamento e também mandava que se cumprisse o seguinte: Disse que ele não declarava nenhuma coisa que lhe fizessem por sua alma assim no presente como aos outros oficio nem menos trintairos (?), nem missas nem outras algumas exéquias somente o deixava todo em Genebra de Azevedo sua mulher, por muita confiança que nela tem, e por o que ele faria ficando a semelhante carrego.
            Disse que não mandava coisa nenhuma em sua sepultura, e cova na Igreja somente o deixava tudo em sua mulher e seu filho. Disse mais que quando Deus para si o quiser levar que o vistam no hábito de Cristo por ser da Ordem. Disse mais que sua vontade era vestirem dez pobres mais necessitados que aí houver entre os quais entrará Leonor Dias, que se vestirá de bodo e os outros serão os que Genebra de Azevedo ver que o hão mister. Disse que mandava que se pagassem todos os seus criados a cada um segundo seu serviço e tempo entre os quais declara a Thomé Pires, e mandava que dessem 20 cruzados a seus herdeiros.
Disse que deixava para tutor e curador de seus filhos André de Quadros seu primo em quanto eles não forem de idade perfeita e disse que pagassem António Travassos o tempo que serviu e assim a todos os outros segundo o tempo e serviço que fizeram.
            Mandava que se pagassem as dívidas que se acharem que devo, que claramente se mostrassem que as devi; porque não queria penar por o alheio nem menos tomar a minha mulher e filhos  pesados a ninguém. Disse que lhe deviam muitas dívidas, e que as mais se achariam por conhecimento, e onde houvesse dúvidas ele lhe aprazia que fossem cridas as partes por seu juramento aquelas onde se não prezumisse jurariam falso. Disse que uma vaca se matára na Morraceira com um cão e que diziam que era de João Peres, e que depois disseram que era de Tomé Pires, que se soubesse cuja era, e que lhe pagassem.
            Disse mais que ele tomára umas terras a Jorge Lourenço e a seus criados por lhe fazerem o que não deviam no Campo e as dera a Diogo de Amorim que mandava que lhas tornassem e dessem outras a Diogo de Amorim no campo que se agora tapa. Disse que ele devia de um escrito a Lucas Geraldo três cruzados manda que lhos pagassem e por aqui disse que havia seu testamento por acabado e queria que também se guardasse e cumprisse como nele é conteúdo, o qual foi feito aos nove dias do mês de Maio de 1540 = e também por ele assinado e por mim Pedro de Azurara = António Fernandes de Quadros = Petrus D’azurara
Aprovação
            Saibam quantos este instrumento de ratificação e aprovação destes itens e declarações que atrás fica virem, como no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540, e aos nove dias do mês de Maio do dito ano, em o lugar de Tavarede, termo da vila de Montemor-o-Velho, e casas de morada de António Fernandes de Quadros, estando ele numa cama muito doente, com todo seu sizo e entendimento, que lhe deu Nosso Senhor Deus: logo por ele, dito António Fernandes, foi dada a mim, tabelião, estes itens e declarações. - que atrás foram assinados perante as testemunhas adiante nomeadas, e disse que além do testamento que ele ora fizera e tinha feito, que eu tabelião agora fizera aprovação nas costas dele, ele fazia mais e aprovava estes itens e lhe aprazia que em tudo se cumprissem como se nelas contém mandados, fazendo em o dito testamento que eu, tabelião, agora fiz aprovação e por quanto a mim tabelião que nas costas destes itens lhe fizesse este instrumento de aprovação para se com o dito testamento cumprir, digo, testamento em tudo se cumprir, e portanto lho fez testemunhas que estão presentes Pero de Azurara, clérigo, e o bacharel Miguel Gomes, moradores na dita vila e António Nunes, filho de Manuel Nunes de Lavos e Lucas de Azevedo e Cristóvão Lopes, alfaiate, e Gonçalo Peres e Àlvaro Gonçalves, moradores no dito lugar, e assinou o dito António Fernandes nos ditos itens que atrás ficam ao pé deles e feitos e assinados por Pero de Azurara tabelião e as testemunhas deste instrumento são as da aprovação do dito testamento, e por tudo assim passar na verdade eu João Manhos tabelião público e judicial e notas na dita vila de Montemor-o-Velho e termos, por o Senhor Mestre Duque Nosso Senhor e Senhor da dita vila, que este instrumento fiz e de meu público sinal o assinei que tal é = Lugar do sinal público =.
Abertura
            Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1540, aos 4 dias do mês de Julho do dito ano, no Couto de Tavarede, nas casas da morada de Genebra de Azevedo, mulher que foi de António Fernandes de Quadros, defunto que no dito dia faleceu, estando aí João Diz, juiz no presente ano no dito Couto, e bem assim estando aí Fernão Gomes, filho do dito António Fernandes e da dita Genebra de Azevedo e Pero de Azurara, clérigo de missa morador em Montemor, primo que foi do dito António Fernandes defunto, e logo por eles, Fernão Gomes e Pero d’Azurara, em nome da dita Genebra de Azevedo foi dito que o dito António Fernandes, seu pai, fizera antes de seu falecimento seu testamento cerrado com um instrumento de aprovação nas costas como de direito se requer e ele o podia fazer; e que por ele falecer naquele mesmo dia e ser necessário o dito testamento ser aberto para saber o que o que o dito defunto nele mandava para se cumprir e que porque eles não podiam fazer sem autoridade de justiça lhe pediam e requeriam que o mandasse abrir e depois de aberto o cumpriam como o defunto nele mandasse e lhe entregariam logo o dito testamento cerrado e selado com sete selos e outro mais pequeno de certos itens e declarações pegado com ele, os quais tinham cada um seu instrumento de aprovação nas costas e sendo assim feitos por o dito juiz ele presente os sobreditos e as testemunhas ao diante escritas mandou a mim escrivão que os abrisse e lesse, pelo qual logo presente todos os ditos testamentos ambos foram descozidos e lidos, e sendo lidos como dito é, o dito Fernão Gomes e Pero d’Azurara em seu nome e da dita Genebra de Azevedo sua Mãi, requereram que lhe fizesse um auto de como assim foram abertos por autoridade de justiça nas costas dele, digo nas costas dos tais testamentos, que são os que atrás ficam cozidos, mandou fazer este auto e os tornou a entregar ao dito Fernão Gomes para se cumprirem.
            Testemunhas que estavam presentes: Tomé da Costa e António Diz, e Álvaro Gil e Pedro Anes, capitão, e Gonçalo Pires, tanoeiro, e Veríssimo Fernandes, vigário de Buarcos e Tavarede e o padre Frei António da Pederneira, frade do mosteiro de Santo António da Figueira: Eu Francisco Diz escrivão no dito Couto, que por mandado o dito juiz este escrevi no dito dia, mês e ano”.


         António Fernandes de Quadros faleceu nesse ano de 1540, sendo sepultado no Convento de Santo António.

O Associativismo na Terra do Limonete - 108

         Para as V Jornadas do Teatro Amador da Figueira, o grupo cénico tavaredense levou à cena mais uma comédia de Molière, O tartufo. Na penúltima sessão, no dia 27 de Abril, das V Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz foi a vez do Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense apresentar o seu espectáculo, com a peça “Tartufo” de Molière. A partir deste facto há uma série de considerações importantes, na nossa opinião é evidente, relacionadas com a organização das Jornadas, com o grupo de Tavarede e com o próprio texto dramático que são pertinentes. Porém, o tempo e o espaço não nos permitem fazê-las todas de imediato, agora ficaremos pelas mais adequadas.
         Molière é um autor clássico e “Tartufo” uma das suas peças mais conhecidas e representadas, pelo que afirmar que nos últimos anos já assistimos a várias montagens deste texto dramático não será motivo de grande admiração. O que talvez alguns não saibam é que a versão “oficial”, que chegou até nós como peça acabada de Molière, não é única, pois há mais versões feitas pelo próprio autor. Quando se pega num clássico para montar um espectáculo, há dois caminhos que se podem seguir: ou se considera o texto intocável, embora sem esquecer os meios técnicos de que se pode dispor hoje na produção teatral, ou propõe-se uma releitura do mesmo, capaz de explicitar melhor os seus valores no mundo actual.      
        O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense optou por ser “fiel à obra”, o que não surpreende por estar de acordo com os seus trabalhos anteriores e as ideias do se encenador. Apesar de fazer apenas dois intervalos, entre o 2 e 3º actos e o 4º e 5º actos, o pano de boca desce sempre no final de todos os actos e não podem ser designados por intervalo só porque os espectadores não saiem da sala. Pequeno pormenor sem interesse pensarão alguns, mas que demonstra bem que nem todas as novas técnicas de produção teatral foram seguidas neste espectáculo. No final desta montagem de Mestre José Ribeiro tivemos a sensação de que Tartufo não tinha mostrado a sua verdadeira face dos dias de hoje, apesar de todas as qualidades que o espectáculo encerra.
O bom trabalho da maioria dos actores, apesar da sua representação convencional não impede a impressão de termos estado na sala de um museu onde às obras expostas não são fornecidas as melhores condições para serem admiradas na sua plenitude. Porém, tudo isto não nos impede de afirmar que este é até agora o melhor espectáculo destas V Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, e que Ana Paula Fadigas confirma as suas grandes potencialidades como actriz.

Durante as comemorações do 70º aniversário do Grupo, os sócios tomaram conhecimento de que se iniciariam brevemente as obras para a construção da tão ambicionada sede. Foi uma festa simples, mas que marcou uma efeméride importante associada com o arranque da nova sede, estando praticamente pronto o projecto e uma pequena maquete que dá uma ideia do que vai ser esta extraordinária obra.

Também o Diário de Coimbra se associou à iniciativa, publicando uma nota, de que recortamos esta passagem. Não foi fácil, porém, a vida da colectividade. O seu ecletismo e o carácter restrito do seu substrato humano, apesar de toda a carolice, não conseguiram a implantação que se desejava. ...E para tanto terá contribuido a inexistência de uma sede própria e condigna, pois gorada que foi a hipótese de instalação na antiga Loja do Povo, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense passou a albergar-se, desde 1936 (?), no cada vez mais degradado palácio dos condes de Tavarede. Estas vicissitudes podem, porém, a curtyo prazo dissipar-se caso a agremiação consiga levar por diante os seus intentos. Intentos que não são já meros projectos pois, em grupos de audácia, com suor e sacrifícios, os Associados da colectividade levantam o que é o seu desiderato maior: a sede. É uma fase importante da vida do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, nós (e certamente todos os que não têm da cultura uma noção abstracta) fazemos votos para que a sua conduta futura seja de facto mais um bastião numa terra que sabe reconhecer (e respeitar) os valores elementares e nobres da convivência humana.

Estava em curso mais uma campanha para angariação de fundos. Foi desenvolvido enorme trabalho e a imprensa também colaborou activamente. O Grupo Musical e Instrução Tavaredense é uma Associação de Cultura e Recreio que há setenta anos tem a sua existência em Tavarede.
         Mas..., o que é o GMIT? – O Grupo Musical e Instrução Tavaredense, à semelhança do que prolifera por todo o concelho da Figueira da Foz, nasceu da boa vontade de uns tantos, e a sua actividade tem sido continuada pela carolice de bons tavaredenses. – Foi famosa a sua secção dramática, onde se iniciaram figuras que alcançaram lugar cimeiro na arte de bem representar. – Estamos a lembrar-nos de Manuel Nogueira (já falecido), António Jorge da Silva, Violinda Medina e Silva, - (autênticos expoentes máximos do teatro amador em Portugal) -, e tantos outros que foram figuras marcantes da nossa vida artística. – Foi ainda famosa a Tuna do Grupo Musical, assim como a sua Escola de Música dirigida por aquele outro homem que só a sua humildade o não projectou mais além, e que se chama José Nunes Medina.
         De momentos de glória, o Grupo Musical veio a conhecer momentos de extrema decadência. – A razão esteve menos nos homens do que nas dificuldades que progressivamente foram encontrando. – A sua última sede foi, (é?), no velho palácio dos Condes de Tavarede, presentemente em completa ruína. – Por falta de sede a actividade do GMIT ficou completamente paralizada, mas o entusiasmo dos homens nunca foi vencido, e eis que neste momento se encontram a construir a sua nova sede.
         Mar Alto foi até lá e conversou com elementos da Direcção e da Comissão de Obras, e pôde verificar o entusiasmo com que aquele punhado de grupistas se entregam à tarefa de erguer as paredes da sua Associação. – Ficámos a saber que a obra está orçada em cinco mil contos, mas que, com a ajuda de mão de obra dos seus associados, conseguirão erguer as novas instalações com um pouco mais de dois mil contos, quantia que necessariamente não possuem mas que esperam conseguir com a ajuda de todos. – Até este momento gastaram em materiais a quantia de quase duzentos e cinquenta contos, e as paredes estão a atingir a placa do 1º. piso.
         É inegável o reconhecimento daquela boa gente pelo actual Presidente da Câmara Municipal, Dr. Joaquim de Sousa, ao apoio e estímulo que lhes tem dado. Pela Câmara foi oferecido o terreno bem situado na urbanização da Quinta do Paço, e o projecto da obra foi cedido pelo GAT. – Esperam agora, os elementos da direcção do GMIT e da comissão de obras, a ajuda monetária de toda a população para levar a bom termo a grandiosa obra que se propõem levar a cabo. – Homens, e mulheres, naturalmente, que assumiram esta responsabilidade, merecem todo o apoio da sociedade. Em conversa com aquela gente descobrimos já um outro sonho que lhes vai na alma: - Quando tiverem a sede construída, dispõem-se a lançar mão de outro gigantesco empreendimento que é a construção de um pavilhão que ficaria de portas abertas a toda a população, nomeadamente à juventude.
         Leitor amigo, aqueles homens que ao sábado e domingo ocupam o seu tempo na edificação de uma coisa bela, bem merecem que os ajudem. – Nós vamos ajudar!

No ano de 1982 comemorou-se o primeiro centenário da elevação da Figueira da Foz a cidade. A Sociedade de Instrução e o seu teatro participaram nas festividades. Mas, antes de nos debruçarmos sobre esta participação, vamos copiar mais uma nota publicada, bastante elogiosa para a nossa terra. Leitor amigo: merece a pena saber o que se passa e se faz numa pequena aldeia próximo da Figueira da Foz e que dá lições às grandes cidades – TAVAREDE.
         Que belo exemplo de sacrifício. Paixão e dedicação! Quanto daria eu para que a estrela da minha simpatia me iluminasse o espírito, dando-me a verve necessária para dizer por intermédio deste bocado de prosa, e comunicá-lo aos leitores, aquilo que senti e vi na noite de 23 do corrente mês no teatro da grandiosa (grandiosa na maneira de agir) Sociedade de Instrução Tavaredense, na qualidade que fui de espectador daquele mimo de teatro de assuntos regionais e patrióticos, peça em 2 actos e 13 quadros intitulada “Viagem na Nossa Terra”, de que é autor o superior teatrólogo José da Silva Ribeiro.
         Quanto maior número de vezes vejo trabalhar o grupo de amadores dramáticos tavaredenses mais se radica em mim a opinião da sua superior categoria.
         Quem é que crê, se o não soubesse previamente, que numa terra de tão pequenos recursos se pode realizar Teatro desta qualidade? Sempre que vejo representar os discípulos do grande mestre José Ribeiro, fico chorando a falta que em certas terras (por exemplo, Torres Vedras) faz um homem desta categoria!
         Mas, vamos à peça, sobre assuntos regionais e patrióticos, que é um mimo de literatura popular, escrita para o povo entender, sem pruridos de frases bombásticas, não deixando de referenciar factos proeminentes da História de Portugal.
         Os seus dois actos, de um movimento cénico digno de nota, porque até causa admiração conseguir-se reunir em instalações de tão diminutas dimensões, um conjunto de intérpretes tão numeroso, de tão vistosos trajos folclóricos, e pela maneira como se desempenham, quer proseando, cantando ou dialogando.
         Não farei referência especial a nenhum dos intérpretes, porque me foi impossível referenciá-los, pela falta de luz no lugar em que me encontrava, e poder anotá-los, acompanhando a exibição. Mas razões há que sobrelevam o que deles se possa dizer – a quantidade de elementos em cena, que não exagero se disser que por vezes eram mais de vinte; a forma certa como executavam os jogos de cena, por se movimentarem tantos executantes; os vistosos trajos com que se apresentam, que deslumbram a vista do espectador; a maneira como, quer orando quer dialogando, como os amadores – e que amadores! – se exprimem, ouvem e contracenam, que nos parece estar em presença de profissionais de certa categoria.
         É claro que tudo isto é possível devido ao competentíssimo e modestíssimo José da Silva Ribeiro, a quem não só se deve a autoria da esplêndida peça em 2 actos e 13 quadros, com constantes mutações de cena; como à direcção de cena, mudanças de cenário, ao folclore dos trajos e, sobretudo, incutir em tantos executantes o seu extraordinário valor de homem que em Portugal, na opinião do grande actor que foi José Ricardo, mais sabia de teatro: José da Silva Ribeiro.
         Não posso, não quero, nem devo deixar de felicitar a Sociedade de Instrução Tavaredense pelo seu 78º aniversário, pelo que tem realizado, pela educação popular através do teatro; como proporciona aos seus associados, instalações, hábitos e práticas de vida que não são aquelas que hoje, infelizmente, a mocidade dos grandes centros exerce e pratica nos meios – “soi disent” – civilizados.
         Findo este meu depoimento, pelo que vi e sinto, por lançar três grandes e sinceros votos: - que a sorte conserve a vida e o resto de saúde, hoje já tão abalada, a José da Silva Ribeiro; que a Sociedade I. Tavaredense continue prosperando; e que o povo da incomparável Tavarede continue dando exemplos de amor bairrista e patriótico a centenas de terras de maiores posses e população, como a minha terra, por exemplo.
         Para José Ribeiro vão as minhas sinceras felicitações, pelo incomparável trabalho e dedicação que presta à sublime e instrutiva Arte de Talma.

         Um grande abraço do velho amador dramático e amigo – Vítor Cesário da Fonseca.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Histórias e Lendas - 12

         Por carta de 15 de Setembro de 1522 do rei D. João III é concedida ao fidalgo tavaredense, como recompensa dos serviços prestados em África, uma tença. “D. João, pela graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, Daquém e Dalém mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista, Navegação e Comércio na Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. A quantos esta minha carta virem fazemos saber que havendo nós respeito aos serviços que temos recebidos em África, de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da nossa casa, e adaíl da nossa cidade de Azamor e assim aos que ao diante esperamos receber, e querendo-lhe fazer graça e mercê, temos por bem e nos praz que ele tenha e haja de nós de tença, em cada um ano do primeiro dia de Janeiro que vem, da era de mil quinhentos e vinte e três em diante, treze mil novecentos e vinte reis, que é outro tanto como tal sua moradia e cevada que de nós havia, o qual houveramos por bem que houvesse em sua casa, em quanto lhe não satisfizessemos o dito ofício de adaíl ou o não fôr por sua vontade servir, porém mandamos aos vedores de nossa fazenda que o façam assim assentar em os nossos livros dela e dar carta em cada um ano da dita tença, para alegar onde haja bom pagamento e nos livros de nossa cozinha, sem pôr verba, como o dito António Fernandes não havia de haver a dita moradia e cevada, para lhe assim mandarmos dar em tença por este padrão, que para firmeza dele, para sua guarda e nossa lembrança lhe mandamos dar, por nós assinado e selado do nosso selo pendente”
         E, conforme já referido, foi nomeado Feitor da Alfandega de Buarcos no dia 1 de Novembro do mesmo ano. “Dom João etc., A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que, confiando nós de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da nossa Casa, que nos servira bem e fielmente nas coisas em que por nós foi encarregado, e querendo-lhe fazer graça e mercê, temos por bem e o damos ora daqui em diante, por feitor da nossa Alfândega de Buarcos, o qual serviço ele servia quando a Alfândega não fôr prazendada e se arrecadar para nós, e queremos e nos apraz que haja de mantimento cada um ano, à nossa custa, dez mil reis, que é outrotanto como há alguns outros feitores das outras nossas alfândegas.
            E mandamos ao nosso contador de Coimbra que o meta em posse do dito cargo e ao almoxarife  e oficiais dele que sirvam com ele quando a dita alfândega se arrecadar para anos como dito é, sem dúvida nem embargo algum que a ele seja posto, porquanto havemos por bem que o dito António Fernandes de Quadros utilize a renda da dita alfândega e mandamos aos vedores da nossa fazenda que quando ele servir, lhe despachem os ditos dez mil reis na dita renda e o dito António Fernandes jure aos Santos Evangelhos na nossa Chancelaria, que o servisse bem e verdadeiramente o dito cargo, guardando a nós nosso serviço e as partes seu direito e por sua guarda e firmeza dele lhe mandamos esta, por nós assinada e selada de nosso selo pendente.
            Dada em Lisboa, no primeiro dia de Novembro de 1522”.

         Ainda no mesmo ano e no mês de Dezembro é nomeado Juiz das Sisas de Tavarede. “D. João, etc. A quantos esta nossa carta virem, fazemos saber que confiando nós de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da nossa Casa e Adail da nossa cidade de Azamor, que visto nos servira sempre bem e fielmente, como cumpre ao serviço de Deus e meu, e a bem das partes pertence, e querendo-lhe fazer graça e mercê, temos por bem e o damos agora e daqui por diante, por Juiz das nossas sisas de Tavarede e seu ramo, assim e pela maneira que ele o deve fazer e o até agora foi Gil Gonçalves, que por um mandado do Contador da dita comarca servia, o qual lhe deu por bem do nosso Regimento, do qual ele agora renunciou em nossas mãos para o darmos ao dito António Fernandes, segundo pareceu por um público instrumento feito por Henrique, de Coimbra, aos sete dias do mês de Novembro passado deste ano de quinhentos e ….
            … por virtude do qual lhe fizemos do dito ofício mercê, com o qual nos praz que ele haja de mantimento em cada um ano, sem ser do que as sisas dinheiro renderem, à razão de vinte reis por milheiro, até à conta de dois mil e mais são à custa dos rendeiros quando forem as vendas e quando não haver e os … e percalços, ordenamos a ele, pelo nosso Regimento, e se não houvera mais privilégios alguns dos rendeiros montante o dito rendimento e recebendo-se executar-se-á nele e as que não se dão aos juizes que … e os rendeiros lhas derem e incorrem nas penas que se dão àqueles que peitam Juizes e isto tudo segundo forma das minhas ordenações.
            E mandamos ao nosso Contador e a dita comarca que o metam logo em posse do dito ofício e lho deixem servir e usar dele e haver tudo o que dito é, sem a ele pôr dúvida nem embargo algum, que lhe acho seja … porque assim é nossa mercê, o qual António Fernandes jurar na nossa Chancelaria aos Santos Evangelhos, que bem e verdadeiramente sirva o dito ofício, guardando o serviço de Deus e nosso e as partes seu direito, e pago ordenado dele mil e quinhentos reis”.

         Para proteger os seus direitos sobre a Ínsua da Oveirôa, António Fernandes de Quadros faz um acordo com a câmara de Redondos, para aplicação de multas a quem provocasse danos naquela ilhota. “Dom João, etc. A quantos esta minha carta virem, faço saber que por parte de António Fernandes de Quadros, cavaleiro da minha Casa e Adail da minha cidade de Azamor, me foi apresentado um público instrumento com o treslado de um acordo e concerto que o concelho de Redondos, terra e jurisdição de Santa Cruz de Coimbra, com ele fizeram sobre as penas da sua lezíria da Oveiroa, e assim nas costas dele uma confirmação do licenciado João Vaz, Ouvidor das terras do dito Mosteiro, do qual, um após outro, o treslado é o seguinte:
            - Saibam quantos este instrumento de treslado de um pacto, concerto e postura, dado por autoridade de Justiça, em pública forma, virem, como  aos onze dias do mês de Agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e vinte e três, na vila dos Redondos de  Buarcos, terra e jurisdição do Mosteiro de Santa Cruz, perante o honrado Vasco Anes Castelão, juiz ordinário, compareceu António Fernandes de Quadros, cavaleiro fidalgo da Casa de El-Rei nosso senhor e Adail de Azamor, e disse ao dito juiz que ele, com os oficiais da Câmara da dita vila, fizeram um pacto e concerto e postura e assento, sobre a guarda da sua lezíria da Oveiroa, no livro da Câmara, que lhe requeria lhe mandasse dar o treslado dele em público, para o confirmar com El-Rei nosso senhor, e visto pelo dito juiz seu requerimento, mandou a um tabelião e escrivão da Câmara da dita vila, que lhe passasse o dito instrumento, o qual entrepunha sua autoridade ordinária, que fizesse fé como o público original, o qual pacto de concerto, de verbo a verbo, é o seguinte:
            Aos vinte e cinco dias do mês de Julho do ano de mil quinhentos e vinte e três, na Câmara da vila dos Redondos, estando aqui Vasco Anes Castelão, juiz ordinário na dita vila, e Manuel Rodrigues e Aleixo Afonso, vereadores, e Diogo Pires, procurador do concelho e bem assim Estevão Anes, carpinteiro, e Vasco Pires, homens da Câmara, com Vicente Esteves e Pedro Anes Carnide e Fernão Alvares, alcaide, e Álvaro Gonçalves e André Pires, ferreiro, e muitos homens do povo, e assim estando ali António Fernandes de Quadros, cavaleiro fidalgo da Casa de El-Rei nosso senhor, e da Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Adail da cidade de Azamor, logo pelo dito António Fernandes foi dito que ele tinha a lezíria da Oveiroa, segundo logo mostrava por uma carta patente de El-Rei Dom Manuel, que santa glória haja, e assim a mostrou um mandado que tinha de quinhentos reis de pena, a quem lhe, na dita lezíria, lançasse bois ou bestas ou lhe tomarem coisas dela ou lhe fizessem outro qualquer dano, o qual por a dita vila fôra apregoado por mandado da Justiça, segundo se pôs a procuração e assento por um tabelião escrivão da Câmara, e que por lhe parecer que a pena de quinhentos reis é muito grande, e assim por outros respeitos que a isso moviam  a ele lhe aprazia como defeito, logo aprouve de não usar mais do dito mandado e penas e provisões que tinha e lhe aprazia que eles todos juntamente em Câmara ordenassem e puzessem aquelas penas que lhe bem parecessem e honestas fossem e nem a dita sua lezíria fosse guardada e o povo não fosse escandalizado, o qual visto tudo por o dito juiz, vereadores e procurador e homens bons e outros que ali se achavam, assim sem dizer como as penas serem grandes e as provisões que sobre isso tinha, lhes agradeceriam o que lhes faziam e todos logo, juntamente com a dita Câmara, ordenaram … da dita lezíria no modo seguinte: Que todo o boi ou vaca ou besta, ou outra qualquer alimária, que se a dita lezíria passasse contra vontade do seu dono, não pagasse mais que trinta reis por cabeça, e toda a pessoa que por sua vontade ou acintosamente lançasse ou mandasse lançar seu gado ou qualquer outra coisa sem licença do dito António Fernandes  ou lá fosse achado lançando ou tirando o dito gado ou tomando-lhe alguma coisa de seu ou das que na dita lezíria sua se criam, pagasse trezentos reis de cadeia e assim aqueles que dentro da dita sua lezíria armassem ou atravessassem algumas redes, porquanto fez certo que com elas lhe causarão ou danificarão sua criação e que porquanto a dita sua lezíria estava entre duas “veàntes” no meio do rio, onde não podem ir sem batel para tirarem o gado fora e poderem trazer ao curral desta vila, ordenam que para melhor guarda da dita lezíria e menos opressão e perigo do gado, ele António Fernandes de Quadros fizesse à sua custa cerrado na dita lezíria em que se o gado bem cerrasse e apresentasse uma pessoa a que fosse dado juramento em Câmara, por o Juiz dos Santos Evangelhos, que bem verdadeiramente guardasse a dita lezíria e encerrasse os ditos gados e tomasse as ditas redes quando lá as achar e das ditas penas e coimas serão o terço para o concelho da dita vila, do qual assento e postura e pacto e concerto o dito António Fernandes aprouvesse e assim do dito Juiz e oficiais e homens da Câmara mandam a mim, escrivão da Câmara, que assim o escrevesse neste livro da Câmara e pediam ao Corregedor ou a El-Rei nosso senhor, que assim o confirmasse. E eu Pedro Anes Sousino, escrivão da Câmara da dita vila, o escrevi e eles todos por verdade o assinaram.
            E treslado assim o dito assento do dito livro da Câmara, por mim tabelião, bem e fielmente o dito António Fernandes pediu o dito instrumento e o dito Juiz lho mandou dar. Testemunhas que foram presentes Pedro Anes Carnide e André Pires. Moradores um em a dita vila e outro. Eu Pedro Anes Sousino, tabelião público em a dita vila por El-Rei nosso senhor, que o escrevi  e em ele meu público sinal fiz que tal é. Vi cá o licenciado João Vaz, Ouvidor nas terras de Santa Cruz, pelo mui ilustre e reverendíssimo senhor, o senhor Infante D. Henrique, cardeal perpétuo, Administrador do dito Mosteiro, etc.
            Este concerto e concórdia feita entre o concelho da vila de Redondos, terra e jurisdição do dito senhor e seu Mosteiro, com António Fernandes de Quadros, cavaleiro da casa de El-Rei nosso senhor, sobre a guarda da lezíria da Oveiroa e penas e coimas dos gados e pessoas que ali fizerem danos e forem contra a vontade dele dito António Fernandes fazer algum dano, pelo qual me faz pedido que lhe quizesse confirmar assim como entre ele e o conselho da dita vila, em cujo termo este é acordado e assentado e que a concórdia é boa e justa e feita a prazer de partes a quem toca e pertence, e eu em nome do dito senhor Infante Cardeal e como seu Ouvidor, a prova a hei por boa por ela tal ser por boa guarda … dela e das novidades e frutos dela e mando que assim se cumpra e guarde e de para sempre a instituiram como entre eles está acordado e assentado e para fé e certidão fiz e assinei este aos vinte e nove de Dezembro de 1523.
            Pedindo-me o dito António Fernandes por mercê que lhe confirmasse o dito concerto e visto seu requerimento e como é a prazer de partes e assim a certidão do dito Ouvidor de como lhe parece bem e o aprova, por lhe fazer mercê me praz disso e por este lho confirmo e aprovo e hei por bem o dito concerto e acordo assim e na maneira que se em ele contem, e mando ao dito Ouvidor e juizes oficiais e outros quaisquer a que pertencer, que mui inteiramente lho cumpram e guardem e façam cumprir e guardar assim como nele é conteudo, porque eu o hei assim por bem e lhe dei disso esta minha carta por mim assinada e selada de meu selo pendente. Dada na minha cidade de Évora, a cinco dias de Outubro. Brás Afonso a fez, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e vinte e quatro.

         O contrato do aforamento da Morraceira foi modificado em 25 de Junho de 1537. No livro ‘As Alfandegas’, o dr. José Jardim comenta o facto. “... depois do aforamento, António Fernandes de Quadros começou a tapar e a defender da água do mar, e a romper e reduzir a maior parte dela a cultura, e depois de começar a ser começada a aproveitar o dito Senhor Rei, meu irmão, foi informado que a dita arrematação e aforamento não fora solene, e que houvera nele alguns modos de proteger o dito António Fernandes de Quadros para o haver por menos valor do que valia.
            Mas, atendendo a que a dita Insua em que foi aforada era estéril, por se cobrir às marés de água salgada, e por ver que era impossível poder dar proveito ao dito António Fernandes se aventurar a perder tudo o que nela gastasse, a tapou e defendeu da água do mar, e fez dar proveito, em que gastou muito da sua fazenda e assim mesmo a ele tomar por demanda a dita Insua à sua custa do Mestre de São Tiago que estava de posse dela, e restituir ao dito Mosteiro, e anda ainda agora em demanda com o Mestre por parte do dito Mosteiro sobre a propriedade”.

         Da transação referida resultou “o enfiteuta ficou com o encargo de trezentos e vinte reis e o senhorio com o direito de receber mais, de cada um dos lavradores subenfiteutas, um alqueire, em cada nove alqueires de ração cobrada pela casa de Tavarede e metade da dízima por que a outra metade ‘pagarão onde são fregueses’”.

         Esta propriedade, com os melhoramentos feitos, tornou-se a parte mais importante da Casa de Tavarede. Adquirindo avultados rendimentos, a família Quadros teve um muito importante papel na nossa terra, destacando-se a instituição do morgado e a sua benemerência na edificação do Convento de Santo António, do qual foram grandes protectores.

         “…Mas estes destroços, e os do tempo, não tiveram nem terão eficácia para riscarem da memória dos nossos religiosos, o nome do ilustre Cavaleiro António Fernandes de Quadros, seu particular devoto e benfeitor, antes pretendemos restituir-lhe a glória que outros lhe usurparam, dizendo que a capela mor deste convento se devera a Fernão Gomes de Quadros, seu filho, o que é totalmente alheio da verdade: porque o letreito da pedra, que cobre seu corpo no meio da mesma capela, está requerendo justiça e clamando que esta capela é sua, e nela fora sepultado no mês de Julho de mil quinhentos e quarenta, que foi a ocasião em que passou da vida presente.
            Por este epitáfio, consta que já neste tempo era seu o padroado da capela e que Fernão Gomes, seu filho, entrara nele mais por sucessão do morgado, que por doação do convento. Também o escudo das suas armas, gravado no arco da mesma capela e remate da abóboda, declaram que é sua desde a fundação da casa. Porém, o nome de seu patrono e titular, Santo António, posto que fosse muito do agrado e gosto daquele instituidor, foi eleição do venerável padre Frei António de Buarcos, autor principal de toda a fábrica do convento…”.


         António Fernandes de Quadros e D. Genebra da Fonseca tiveram três filhos: Fernão Gomes de Quadros, herdeiro e seguidor da Casa de Tavarede; Filipa de Azevedo, que casou com António Homem, de Soure; e Ana Azevedo, que seguiu a carreira eclesiástica sendo freira no Convento de Celas em Coimbra.