sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Histórias e Lendas - 17

... e estão situados no território de Montemor para o lado da praia ocidental...


         Este Couto de Tavarede fica na província da Beira, bispado de Coimbra, termo de Montemor-o-Velho no crime. É donatário o ilustríssimo Cabido da Sé de Coimbra e é o que apresenta o seu pároco. Tem 138 fogos vizinhos e 442 pessoas. Está situado num vale e se não descobre coisa notável.
         A paróquia está contígua à terra e nada mais.
         Seu orago é S. Martinho, tem seis altares, que são do do orago, o do Santíssimo Sacramento, o de Nossa Senhora do Rosário, o de Jesus, o de Mártir S. Sebastião e do Senhor das Almas, não tem naves, só tem uma irmandade do Santíssimo Sacramento.
         O pároco é cura apresentado pelo ilustríssimo Cabido, com renda de 16$000 reis. Tem um  convento de recolhidas de Nossa Senhora da Esperança com 22 recolhidas e 2 capelães. Tem três ermidas, do Senhor da Chã, fora da paróquia, do Senhor dos Milagres ou Areeiro, contígua à mesma terra, e de Santo Aleixo, dentro da terra.
         Os frutos da terra em abundância são vinho, milho e algum feijão.
         Tem juiz ordinário das sisas em quatro freguesias pertencentes a este Couto. È Couto e cabeça do concelho da Figueira da Foz.
         Serve-se do correio de Coimbra, donde dista sete léguas. Não tem porto de mar.
         Não padeceu ruína no terramoto de 1755.
         O cura: Anacleto da Cruz.

(Livro manuscrito do dr. Mesquita de Figueiredo nº.  16 – páginas 160 e 161)

O abade D. João de Montemor
A lenda dos degolados


         “ D. João foi abade no Mosteiro do Lorvão e viveu, supostamente, na década de 850, sendo posteriormente alcaide de Montemor-o-Velho, aquando de um ataque dos muçulmanos ao castelo. Liderou uma defesa heróica da vila que levou a criação da canção de gesta do Abade João à lenda de Montemor-o-Velho e edificação da capela de Seiça. O Mosteiro do Lorvão guarda uma parte do crânio do abade como relíquia e peça de exibição” (Wikipédia).

         Segundo alguns estudiosos autores afirmam, o Abade D. João era filho natural de D. Fruela e meio irmão do rei Bermudo, o Diácono, e de D. Afonso, o Católico. Resolveu um dia abandonar a corte dos reis de Leão e os exercícios guerreiros e, esperando a sua salvação, retirou-se para o Mosteiro do Lorvão, onde vestiu o hábito de monge e seguido as regras em vigor.
                                                                     
Castelo de Montemor-o-Velho
    Quando o Abade do Mosteiro morreu, os monges, tendo em consideração o seu virtuoso exemplo, escolheram-no a ele para o lugar. Um dia, sendo visitado pelo seu sobrinho, o rei Ramiro primeiro, este reconhecendo a grande pobreza em que viviam os monges daquele mosteiro, fez-lhes doação de muitos bens, entre os quais estava a vila de Montemor-o-Velho, com todos os seus bens e pertences, impondo a condição de ali estabelecerem um aquartelamento para soldados que defendessem a vila de futuros ataques dos muçulmanos.

Foi o Abade João, acompanhado por diversos monges, para aquela vila, tratando imediatamente do prover o castelo de soldados, armamento e provisões, cumprindo desta forma a imposição de seu sobrinho e rei. Nomeou para o cargo de capitão das tropas um outro seu sobrinho, de nome Bermudo, e mandou edificar um convento em cuja igreja colocou uma imagem de Nossa Senhora, que considerava milagrosa e à qual tinha grande devoção.

Tempos mais tarde foi vítima de uma traição. Um rapaz, de nome Garcia, que o Abade havia criado, pois fora abandonado pelos pais, fugiu da vila indo oferecer-se ao rei mouro Abdarraman de Córdova, para seu serviço, convertendo-se à religião muçulmana, ao mesmo tempo que dava ao rei mouro as informações necessárias para tomar a vila de Montemor-oVelho.

Abderraman concordou e de imediato reuniu um poderoso exército, cujo comando confiou ao traidor, mandando-o sitiar o castelo, tendo feito pelo caminho imensas crueldades e hostilidades. O Abade João, juntamente com seus monges, homens de armas e populares, resistiu valorosamente ao assédio, conseguindo repelir todos os ataques dos mouros.

Não sendo possível receber ajuda, especialmente de Teodomiro, o então abade do Mosteiro do Lorvão e encontrando-se no limite da resistência, por falta de provisões, foi resolvido pelos sitiados sairem e lutar contra os muçulmanos. Mas como não tinham qualquer esperança de os vencer e porque não queriam deixar cair em poder do inimigo nenhum refém, também resolveram sacrificar todos os não combatentes, velhos, mulheres e crianças, degolando-os.

O Abade João deu o exemplo, degolando ele próprio sua irmã D. Urraca e seus sobrinhos crianças. “Fez-se este espantoso sacrifício em uma madrugada. Depois de se confessarem e  comungarem, como o fizeram todas as mais pessoas e em que cada um tirava a vida à coisa que mais amava, derramando o sangue, que via correr da garganta da esposa, da irmã, ou dos filhos, porque os pais e os maridos eram os mais violentos verdugos desta lastimosa execução, que é o caso mais celebrado e mais sentido que se lê nas histórias de Espanha, obrado pela conservação da fé e da castidade”.

 Foi na igreja onde se venerava a imagem de Nossa Senhora com o Menino nos braços, que recolheram os corpos. Depois deste piedoso e cruel acto, abriram as portas do castelo e acometeram o campo inimigo, que não esperavam tal corajoso ataque, pois sabiam do estado lamentável dos sitiados.

O primeiro ataque foi dos soldados comandados pelo seu capitão. Seguiram-nos o povo comandado pelo Abade João, ainda vigoroso e cheio de forças, apesar de já idoso, que vendo o traidor Garcia, entretanto chamado Culema, o atacou tão cheio de ânimo que logo conseguiu derrotá-lo, cortando-lhe a cabeça de um só golpe. De tal forma os mouros ficaram desorientados com a morte do seu chefe, que logo trataram de se salvar fugindo desordenadamente.

As tropas montemorenses foram em perseguição do inimigo até Seiça, que se situa a cerca de quatro léguas de Montemor, onde deram batalha aos muçulmanos fugitivos, os quais derrotaram totalmente. Calcula-se que durante a refrega terão morrido cerca de setenta mil mouros.

“Ao som dos tambores e mais instrumentos bélicos, que tocavam a recolher, e das vozes dos capitães que mandavam cessar no alcance dos inimigos, se recolheram os soldados às suas bandeiras, e achando vivo o Abade João e quasi toda a sua gente, deram infinitas graças a Deus, e passaram o resto da noite em diversos pensamentos, uns nascidos da glória de tão grande vitória e tão inesperada, outros de lástima com a lembrança das mortes que haviam executado em suas mulheres, e filhos e irmãs, em companhia dos quais lhes pudera ser este sucesso mais glorioso e alegre, como ali é triste e aguada a sua falta”.

Quando amanheceu o dia seguinte, e depois de recolherem os mais ricos despojos dos vencidos, preparavam-se os soldados para regressarem à sua vila quando, inesperadamente, receberam a notícia, trazida por alguns populares, de que estavam vivos todos aqueles que haviam deixado mortos em Montemor-o-Velho.

O Abade João, vendo no caso as grandes mercês de Deus, na grande vitória obtida e na maravilhosa ressurreição dos seus mortos, resolveu consigo entregar-se à sua fé, ficando no lugar da batalha, vestido de monge, “tão humilde e pobre aos olhos do mundo, quanto bravo e invencível parecera no dia antecedente aos do inimigo”. 

Regressando à vila Bermudo com os seus soldados e restante povo, encontraram todos os seus familiares que haviam degolado, nos quais “se via um fio como de seda encarnada, e sinal vermelho na garganta, donde se lhes dera o golpe”. Regressou Bermudo depois, ao local onde se dera a batalha, levando consigo os filhos que havia degolado em busca de seu tio, com o qual se encontraram no local onde se travara a batalha.


“... E para melhor conseguir o efeito do seu santo propósito, renuncia da sua abadia, erigiu no próprio lugar ermida à Virgem Santíssima. Esta imagem e do Menino que tem no colo, por cuja intercessão (é de crer) se obrou esta maravilha, conservam ainda hoje nas gargantas os mesmos sinais dos ressuscitados. Da qual e daquele deserto nunca apertadas instâncias dos seus monges puderam diverti-lo. Ali o resto da vida (esquecido das coisas da terra) perseverou em grande santidade, acompanhado de contínuos desejos de pátria celestial. Chegada a hora de seu feliz trânsito, vieram assistir-lhe os monges de Lorvão, em cujos braços (confortado com os últimos sacramentos) carregado de anos e santas obras exalou aquele generoso espírito. Querendo os monges levar seu corpo para lhe daram honorífica sepultura, entre os abades daquela casa, mostrou o Senhor  com manifesto milagre, que lhe não agradava esta mudança, fazendo o corpo do seu servo tão pesado e imóvel, que obrigou os religiosos sepultá-lo na própria ermida, onde permanecem seus ossos debaixo do altar da Senhora, e sua preciosa cabeça entre as relíquias do Lorvão, obrando por ela a mão divina (em pessoas mordidas por cães danados) contínuos milagres”.

O Associativismo na Terra do Limonete . 112

         Apesar do rude golpe sofrido, o associativismo prosseguiu o seu caminho, iniciado havia quase duzentos anos. Por ocasião do aniversário de 1987, o grupo cénico homenageou a memória de José Ribeiro levando à cena O sonho do cavador, a mais representada obra teatral do Mestre. Recordemos uma notícia sobre as comemorações. Para além da reposição da bonita peça musicada “O Sonho do Cavador” que subiu à cena no passado dia 17, o ponto mais alto do programa elaborado pela Sociedade de Instrução Tavaredense para assinalar condignamente os seus 83 anos foi, sem dúvida, a Sessão Solene realizada no domingo seguinte ao da representação, pelas 17 horas.
         Numa verdadeira diversidade de temas, focou-se a pessoa grande e recentemente desaparecida, esse homem a quem Tavarede e a própria cidade tanto devem – José da Silva Ribeiro.
         Presentes, individualidades relevantes da vida figueirense, tendo a presidência pertencido ao engº Aguiar de Carvalho, na qualidade de Presidente da Câmara Municipal.

         Para além das intervenções da Presidente da Direcção, Drª Ana Maria Caetano, usaram da palavra o Revdº Padre Matos, Pároco de Tavarede e o artista Zé Penicheiro.
         A série de discursos com que o Rotary Clube quis brindar a assistência, que enchia por completo a sala da SIT, foi iniciada pelo Engº Cadilhe, a que se seguiram Carlos Cardoso, Jerónimo Pais e os Drs. Marcos Viana, Carlos Estorninho, Pires de Azevedo e José Manuel Leite.
         Todos, se referiram à memória de José Ribeiro, expondo e exaltando as muitas qualidades que eram apanágio do homenageado.
         Poder-se-á dizer que os 83 anos da Sociedade de Instrução Tavaredense passaram despercebidos para, com saudade, lembrar a figura ilustre e querida da terra do limonete. Uma tarde cultural, também, a que Tavarede já nos habituou!
         Na parte final fez-se escutar o hino, pela tuna da SIT, tendo, toda a restante parte musical estado a cargo da Filarmónica Paionense.
         Refira-se, ainda, o descerramento de um quadro de Zé Penicheiro, e o facto de Francisco Simões, um artista que a cidade bem conhece, ter criado uma medalha evocativa.
         As comemorações do aniversário da SIT terminaram, praticamente, com o descerramento no átrio da sua sede, de um medalhão alusivo a José Ribeiro, acto de que se incumbiu o dr. Carlos Estorninho.

         As homenagens ao ilustre falecido continuaram durante algum tempo e, a título póstumo, também oficialmente foi lembrado. Por iniciativa do “Lions” da Figueira da Foz, a Secretaria de Estado da Cultura concedeu um justo galardão póstumo a José Ribeiro, entregue, numa breve cerimónia, a sua irmã.
         O acontecimento registou-se na noite de 27 de Março, no Salão de Festas do Casino Peninsular, gentilmente cedido, para esse efeito, pela Administração da Sociedade Figueira-Praia.
         Infelizmente, uma cerimónia tão importante para a população da cidade e com tão grande significado, ficou bastante prejudicada por duas circunstâncias lamentáveis e duas escolhas infelizes.
         A primeira circunstância lamentável foi a fraquíssima assistência, sintoma real e inegável – mais um! – de um desinteresse geral, que ninguém merecia, nem os promotores da iniciativa, nem a memória de um homem íntegro, que deu o melhor de si mesmo a este concelho, numa fidelidade extraordinária, quando tinha à sua mercê todas as possibilidades concretas de se integrar na oligarquia lisboeta e aí fazer carreira frutuosa, como tantos outros, ontem e hoje.
         Se não fosse a boa gente de Tavarede, a dar um alto exemplo de dignidade e gratidão, o Casino teria, talvez, uma ou duas dúzias de assistentes.
         A segunda circunstância lamentável foi o completo desfazamento entre o conteúdo e forma da Conferência, escolhida para assinalar o Dia Mundial do Teatro, o apontamento teatral do actor Jacinto Ramos, mais os poemas que declamou, e o género de público, na sua realidade concreta, que ali se juntou. Se o orador oficial e o actor, em vez de português, falassem chinês, o efeito não seria muito diferente e o significado das palmas não sofreria grande abalo.
         As duas escolhas infelizes foram a do conferencista e a do actor.
         O conferencista, com pouco respeito pelo público, forneceu uma pseudo-história do Teatro, truncada, sectária, demagógica e subjectiva, possivelmente interessante sob a forma de panfleto, editado pelo autor, mas deslocada do contexto e fora, estamos crentes, das intenções que presidiram ao convite.
         O actor, esquecendo-se da cortesia devida a quem hospeda, aproveitou o ensejo para, a despropósito, criticar o tipo de obras de remodelação no Casino Peninsular, com a supressão do “teatro”.
         Não é propriamente a casa de alguém, a quem se come previamente o jantar, o local mais apropriado para se lhe fazerem críticas públicas...
         Se tudo isto servir de lição, para o futuro, então talvez se não tenha perdido totalmente o tempo.
         Moralidade da história: não basta ser-se “catedrático” para se ser conferencista, assim como não chega entrar na Telenovela para se ser malcriado.


        Para participar nas Jornadas do Teatro desse ano, foi escolhida a peça Alguém terá de morrer, cuja representação teve lugar em Maiorca, ... a SIT brilhou com a representação de uma das melhores peças do teatro português, perante uma sala cheia de público maravilhado com a arte e saber de um dos melhores grupos de teatro portugueses.

         Recolhemos, também, a notícia de que, em Junho de 1987, o Clube Desportivo da Chã vai criar uma secção de teatro, numa iniciativa a todos os títulos simpática por visar a educação e cultura dos seus associados. Por sua vez, o Grupo Musical Tavaredense iniciou novas actividades, destacando-se aulas de ginástica, enquanto continuavam em ‘bom ritmo’ as aulas de iniciação musical.

         Em Março de 1988, uma notícia, muito agradável para os tavaredenses, é publicada num periódico figueirense. Para mim, ir a Tavarede é recordar idos tempos da década de 40 em que ali, dentro do perímetro da freguesia rural que já foi sede de concelho, situada bem nas abas desta buliçosa cidade da Figueira da Foz que, quatro décadas volvidas, perfurou por tudo quanto é sítio este remansoso ambiente. Iniciei todo um passado de doze frutuosos anos no ex-Colégio Liceu Figueirense, mais tarde transformado em Seminário Menor da Diocese de Coimbra...
         Para mim, ir a Tavarede é lembrar essa figura ímpar de José Ribeiro, a quem tive a felicidade de conhecer, e evocar todo o apoio, a vários níveis, dele recebido quando, já homem feito, na década de 60, eu me viria a ocupar, também, na encenação de umas “pècitas” de que saliento “Casa de Pais” e “Luz de Fátima”...
         Para mim, ir a Tavarede é encontrar a amizade franca e permanente de alguns amigos de infância e de outros de mais recente data, colegas de profissão, alguns deles enfronhados, ao que vejo, de alma e coração, nas actividades e iniciativas culturais do bom povo da terra que os viu nascer e a que tanto se orgulham de pertencer...
         Para mim, ir a Tavarede é... hoje, também e sobretudo, admirar o seu Teatro nas peças que com pendular regularidade ali vêm sendo postas em cena, com o carinho, o bairrismo e a competência em que a gente de Tavarede é exímia...
         De longe vem a tradição de fazer bom teatro em Tavarede e inúmeras foram as representações a que já assisti. Desta vez, se me descuidava, deixava, mesmo, de admirar todo o garbo e empenhamento que aquele núcleo de inimitáveis amadores, perdão... de artistas, colocou, mais uma vez, na encenação da bela peça rústica da autoria de Manuel Frederico Pressler, HORIZONTE, cuja primeira representação teve lugar no já recuado ano de 1945 e que, agora, foi a escolhida para as comemorações do 84º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro último.
         A acção decorre no Ribatejo e versa um tema do quotidiano de muitas famílias – o casamento da Rita, que acaba por ir com quem o seu coração muito bem escolhe e não com aquele que o pai queria que fosse -, tendo como personagens elementos das mais diversas ocupações. Licenciados e barbeiros, empregados de escritório, carpinteiros e electricistas, de tudo ali há sem quaisquer complexos ou discriminações e apenas com uma finalidade: “darem o melhor de si levando até ao público o BOM TEATRO num convívio de amizade e simpatia”...
         Perdeu, caro leitor. Perdeu, se acaso não viu esta representação em Tavarede. Acredite que só terá a lucrar se se deslocar ali sempre que haja TEATRO. Ele é de... primeira água, creia!

         ... E deixa de passar essas tardes (ou noites) de insípida rotina em que costuma mergulhar. É uma boa OPÇÃO! – Alfredo Amado .

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Histórias e Lendas - 16

O recolhimento da Esperança
Recordação já distante


            “a um quilómetro aproximadamente para o norte do convento do Santo António, pelo nascente da estrada de Tavarede à Figueira e dentro da propriedade que hoje pertence a José Joaquim Alves Fernandes existia, no século 18º, outro edifício religioso: era o recolhimento de Nossa Senhora da Esperança”.

         No já longíssimo ano de 1605 teve lugar, na igreja de S. Julião da Figueira da foz do Mondego, o casamento de D. Leonor Migueis com Manuel Gonçalves. O casal teve uma filha, à qual deram o nome de Catarina,  que casou, em 1623, com Domingos António. E no ano de 1625, foi baptizada na mesma igreja uma criança, que recebeu o nome de Esperança, a qual faleceu precocemente deixando profunda mágoa e saudade especialmente em sua mãe e em sua avó.

         Era uma família abastada, possuidora de avultados bens, entre os quais se contava a quinta sita no caminho da Figueira para Tavarede, no local chamado ‘alto de S. João’, à qual deram então o nome de Esperança, em recordação de sua filha e neta.

         D. Leonor Migueis também possuia uma das quatro marinhas existentes na várzea de Tavarede, que se denominavam: a de El-Rei; a Lapa; a Vassala; e a Licenciada. Esta última, que se situava no lugar onde hoje está construida a estação do caminho de ferro, foi a adquirida e à qual, segundo o registo efectuado no livro das sisas do couto de Tavarede, também deram o nome de Esperança.

         Enviuvando muito cedo, D. Catarina Migueis casou em segundas núpcias com o sargento mor Francisco António Rossano no dia 30 de Junho de 1648. Todavia, foi um casamento que pouco tempo durou, pois ficou novamente viúva em 2 de Janeiro seguinte, pois o seu novo marido faleceu após seis meses de casado. Nascido em Itália Francisco António Rosani adoptou o apelido português de Rossano, foi sargento mor em Montemor-o-Velho, de onde foi transferido para a Figueira, com a missão de comandar as fortificações de Buarcos e Redondos que defendiam o porto de mar local.

         Novamente viúva D. Catarina Migueis, senhora rica e piedosa, resolveu fundar um recolhimento na sua já mencionada quinta e, sempre recordando sua filha, igualmente lhe deu o nome de ‘Recolhimento da Esperança’.

         Para a subsistência do recolhimento instituiu uma capela. “A capela consistia em bens vinculados em herdeiros do instituidor, com proibição de alienar, pensionados com a obrigação de missas e outros ofícios por sua alma. Na instituição da capela a porção do administrador era fixa e o que sobrava era para os encargos incertos, em contrário do que sucedia no morgado. Mas, na realidade, morgado e capela confundiam-se com o nome de vínculo, quando era certo que na capela o instituidor atendia principalmente ao espiritual e no morgado ao temporal. Não se sabe quais eram os bens desta capela, apenas se sabendo que tinha umas terras no campo de Verride”.

         “Compunha-se o edifício de casa em que habitavam as recolhidas e uma capela. A julgar pelo número de mulheres que lá viviam, pelos recursos de que viviam, pelo preço por que foi vendido o prédio, e pelos restos que dele conhecemos, não tinha luxos de arquitectura”.

         Como já referimos, o recolhimento terá sido construído no século dezassete. Do testamento de Fernão Gomes de Quadros, o morgado e quarto Senhor de Tavarede, recortamos o seguinte apontamento: “Ordeno que por minha Alma se mande dizer mil missas para que por meio dellas, se lembre Deus della, e isto em brevidade possivel, e cem dellas, serão a Virgem Nossa Senhora, para que seja minha interessessora e 50 a S. João Bautista, e 50 a Santo Antonio, e 50 a N. Sª. da Esperança, a quem darão de esmolla, 2.000 reis para as suas obras, ou o que mais necessario fôr e parecer ao dito meu Testamenteiro”.

         O referido testamento é datado de Setembro de 1665, o que nos indicia que o recolhimento estaria a ser construido por esta época.  “Ignoramos qual o ano em que este recolhimento se extinguiu. Mas é certo que por uma provisão régia de 29 de Dezembro de 1768 foi o edifício, com sua capela, cerca e dependências, dado às religiosas do convento de Pereira, e que em 2 de Dezembro de 1780 estas o cederam por 130$000 reiss ao dre. Francisco da Cruz Rebelo. Assim terminou esta pia e benéfica instituição”.


         É curioso o facto de que, em Setembro de 1768, poucos meses antes da sua doação, o confessor das recolhidas, o padre João Rodrigues de Carvalho, habitar no prédio, e ter sido ali que João Adolfo de Crato, o célebre juiz da Alfândega da Figueira, fez o seu testamento, na presença do tabelião do couto de Tavarede, em favor de suas quatro filhas solteiras, que ficaram conhecidas pelas ‘Alfândegas’.


         Já no século vinte o local, conjuntamente com a quinta do Paço de Tavarede, antiga residência dos fidalgos Quadros, foi urbanizado, tornando-se um dos mais modernos bairros residenciais da cidade figueirense. Manteve, no entanto, o nome que lhe havia sido dado por D. Catarina Migueis. É o bairro da quinta da Esperança que, assim, perpetua o nome da falecida filha daquela piedosa senhora figueirense.

O Associativismo na Terra do Limonete - 111

         Mestre José da Silva Ribeiro faleceu em Setembro de 1986. José da Silva Ribeiro morreu no sábado à noite, após prolongada agonia. Da sua pequena aldeia, a infausta notícia, logo ali conhecida, espalhou-se pela cidade e por toda a parte, causando fundo pesar. Tavarede, a Figueira, o País mesmo, perderam um homem de valor que deu à Cultura popular, ao Teatro especialmente, à instrução e à beneficência, e ao jornalismo também, todo o fulgor da sua inteligência. José Ribeiro era figura carismática em Tavarede. A obra por ele realizada na Sociedade de Instrução Tavaredense jamais poderá ser esquecida, tão grande ela foi. A popular colectividade, sempre fiel ao seu nome é, na verdade, um marco da Cultura do povo na sua terra. A José Ribeiro se deve em grande parte, na maior parte, essa obra em que participou toda a população, pois raro será o habitante que não tenha pisado o seu palco, onde se revelaram talentos na Arte de Talma, alguns de verdadeiros artistas, como Violinda Medina, Maria Teresa de Oliveira, Vitalina Lontro, Maria Natália Santos, João da Silva Cascão, Fernando Reis, António Jorge da Silva, João de Oliveira Júnior, Manuel Nogueira e outros, à frente do vasto rol de amadores, a ultrapassar as três centenas, sem contar com outros colaboradores nos ensaios de peças musicadas, na construção, pintura e montagem de cenários, na iluminação, no guarda-roupa, etc.
         O ilustre e já saudoso tavaredense era um homem de Teatro, dedicado ao estudo da Arte e da obra dos seus mais talentosos Mestres, tanto nacionais como estrangeiros, bastando citar entre eles Gil Vicente, Almeida Garrett, Camões, D. João da Câmara, Marcelino de Mesquita, Ramada Curto, Carlos Selvagem, Alves Redol, Luís Francisco Rebelo, Shakespeare, Molière, Bernstein, Luigi Pirandelo, Arthur Miller, Alejandro Casona, Diego Fabri e muitos outros, dos quais foram representadas as mais famosas peças em espectáculos realizados em Tavarede e noutras localidades do país, algumas vezes a favor de obras de beneficência, os quais só num período de 25 anos, de 1954 a 1977 atingiram o número de 394.
         Ele próprio dedicou ao Teatro algumas das suas produções literárias, nalgumas das quais se reproduzem as mais belas cenas da vida da sua pequenina aldeia e sua história, sendo de sua autoria também o livro “50 Anos ao Serviço do Povo”, e o derradeiro que intitulou “75 Anos... e Caminhando”, dedicado a sua mãe, “àquela bondosíssima e corajosa Mulher que, ainda moça, com seu marido pisou as tábuas do palco no teatrito do sr. Conde, no Paço de Tavarede e no teatro do Terreiro, do sr. João Costa”; àquela Mulher, continua ele na sua dedicatória, “que na sua dolorosa viuvez manteve heroicamente, mesmo à custa de rudes trabalhos em vindimas alheias, a desprotegida família”.
         Além da sua longa actividade como jornalista, nas colunas de “A Voz da Justiça”, que foi um dos mais prestigiosos jornais do país, José da Silva Ribeiro exerceu outras funções, sempre intimamente ligadas ao sector da instrução, tanto na antiga Sociedade de Instrução Popular como na Escola Industrial e Comercial de Bernardino Machado, de que foi secretário, e membro da Comissão Auxiliar do Jardim-Escola João de Deus.
         Foi expedicionário a África, por ocasião da I Grande Guerra.
         Em breves traços, a biografia de um homem que foi autodidacta mas se distinguiu pela sua grande inteligência e pelo trabalho ao serviço da grei. A quem as colectividades do concelho muito devem e em muitas das quais, também, fez ouvir a sua palavra fluente, falando, quase sempre, de Teatro e da sua força cultural.
         O Governo, por proposta do ex-Presidente da República, General Ramalho Eanes, distinguira-o com a Comenda da Ordem da Liberdade, e a Câmara Municipal também o homenageou ao conceder-lhe a Medalha de Ouro da Cidade. A última homenagem pública foi-lhe prestada no encerramento do I Congresso de Teatro Amador da Figueira da Foz, onde o seu nome foi indicado para apadrinhar um Centro de Apoio aos agrupamentos de Teatro.
         José da Silva Ribeiro nasceu, como já se disse, em Tavarede no dia 18 de Novembro de 1894, vai fazer portanto 92 anos. Faleceu no dia 13, na sua casa da rua que hoje tem o nome de “A Voz da Justiça”. Filho de Gentil da Silva Ribeiro e de Emília Coelho de Oliveira, era irmão do sr. Gentil da Silva Ribeiro, residente no Porto, o qual, encontrando-se acidentalmente ausente em Espanha, só no dia seguinte ao do funeral chegou a Tavarede.
         O funeral do ilustre jornalista, político e homem de Teatro realizou-se no domingo à tarde para o cemitério local, onde, por sua expressa determinação, o corpo foi inumado na campa de sua mãe. Cumpriram-se os seus desejos de ter um funeral “modesto, de pessoa simples que não pobre de todo”. O féretro ia coberto com as bandeiras Nacional e da Sociedade de Instrução Tavaredense e a chave da urna foi conduzida pelo sr. Dr. Carlos Estorninho, grande amigo do falecido.
         No préstito incorporaram-se, além do sr. Presidente da Câmara Municipal e de muitas outras pessoas, entre elas algumas de representação oficial, directores de diversas colectividades, com os seus estandartes envolvidos em crepes, um piquete dos Bombeiros Voluntários, outro em representação da PSP, etc. Não houve, no momento do corpo baixar à terra, nenhuma oração fúnebre em homenagem ao homem que, por muito tempo, será lembrado como benemérito da cultura e da instrução do povo.

         Organizado pelo Lions Clube da Figueira da Foz, foi levada a efeito uma sessão, na qual foi homenageada a memória do nosso ilustre conterrâneo. E aqui recordamos dois depoimentos de dois dos seus velhos amigos, Zé Penicheiro e Gomes Gil. A minha homenagem e recordação de um Homem de Cultura e Amigo a quem muitos de nós devemos o exemplo da luta pela liberdade, da dedicação sem limites pela sua Terra e da Obra cultural e imensa que nos deixou.
         Guardo comigo a sua última carta quando de uma Exposição de Pintura sob o tema “A Mulher e a Figueira” em Setembro de 1981.
         “... Você sabe muito bem que eu sou semi-analfabeto na Arte da Pintura. E se distingo um óleo dum guache, uma aguarela duma têmpera, e se distingo o retrato da caricatura, ignoro como se praticam os milagres da paleta. Tal como o meu rústico aldeão-cavador, que sente que a leira é boa para aquela qualidade de couve que planta e ignora totalmente a análise da terra que amanha.
         Esta convicção da minha insuficiência não me impediu de lhe dizer atrevidamente a minha admiração e preferência pela belíssima paisagem da Serra que descobri, envergonhada, quase escondida atrás da porta de entrada: pintura muito bela, ainda de estilo naturalista, já distanciada da forma caricatural, em que a figura humana como a paisagem nos são dadas sob o domínio omnipotente das linhas rectas, no estilo pujante e expressivo, na forma e na cor, que é a maneira vigorosa do Zé Penicheiro.
         Meu caro Zé Penicheiro, eu tenho aqui, na minha frente, belíssimas caricaturas do tempo, aliás não longínquo, em que o seu traço ainda usava, com o mesmo sentido artístico e não menor valor expressivo, a riqueza e a melodia da curva: estou a olhar para a primorosa caricatura do Romeiro, do “Frei Luís de Sousa”, que na emergência representava o nosso pobre Teatro, e da Peixinha, a famosa bruxa de Buarcos; e em frente destes dois admiráveis desenhos, o quadro famoso das duas comadres da má-língua, tão vivas, tão ricas de verdade na coscuvilhice, estupenda caricatura no colorido e no desenho, já mais próximo da técnica em que o Zé Penicheiro se fixou e que está muito notável e exuberantemente documentada na exposição de agora...”.
         Um texto para reflectir e um Amigo para recordar apesar dos breves momentos de encontro na rua ou nos bastidores do seu teatro de Tavarede, pela distância que então nos separava.
         Ontem como hoje ficará sempre bem vivo, para mim, a sua presença. Zé Penicheiro.

         LEMBRANDO JOSÉ DA SILVA RIBEIRO         Em 1977, horas após a minha chegada a Monte Real, converso com um comerciante, já idoso. A conversa incide sobre a Figueira, e logo ele me fala, com entusiasmo, de “A Voz da Justiça” de que havia sido assinante! Aconteceu em Monte Real; poderia ter acontecido em Tomar, em Lisboa ou em muitas terras desse Portugal além por onde havia assinantes de a V.J. (leia-se, A Voz da Justiça)
         Era a V.J., um “jornal honrado” no dizer de J.R. (leia-se, José Ribeiro) seu principal responsável (O seu nome figurou no cabeçalho do jornal, como secretário de redacção, desde 2 de Janeiro de 1920 até 10 de Julho de 1937), que não gozava das simpatias de Salazar que, não contente com o seu despótico encerramento, ainda ordenou, ou permitiu o saque das suas oficinas.
         Pegando na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, lemos que JR, agora desaparecido, além de jornalista foi também publicista, conferencista, autor teatral e combatente em Moçambique de 1916 e 1919.
         Como conferencista, muitas foram as vezes em que as suas palavras fluentes e ricas de conteúdo se fizeram ouvir, deixando no ar a suave mas penetrante ironia queirosiana, ou a verdade dita um pouco à Gil Vicente (não nos referimos, é claro, àqueles vocábulos que Gil Vicente e o nosso povo usava e usam e de que ele lançava mão, com certa frequência, durante os ensaios, segundo se diz).
         No que se refere a teatro, eis alguns números:
         De 1916 a 1953 a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), sempre sob a sua orientação artística (excepto nos períodos em que teve de se ausentar para combater em Moçambique ou para gozar a “gentil hospedagem” da PIDE) fez 60 estreias de peças e, duma delas (“O Sonho do Cavador”) de sua autoria, fizeram-se mais de cinquenta representações!
         De 1954 a 1978 a SIT realizou um total de 394 espectáculos, sendo 249 em Tavarede e 145 noutras localidades (Vila Real, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Tomar, Lisboa, etc.)
         Em 1959, a SIT concorreu ao Concurso de Arte Dramática organizado pelo SNI. Apesar de JR não ser de modo algum simpático aos olhos de Salazar e seus sequazes, foram-lhe atribuídos os seguintes prémios:
         = Prémio Francisco Taborda, para a SIT; Prémio Carlos Santos, para o ensaiador; Prémio Maria Matos, 1ª interpretação feminina; Prémio Chaby Pinheiro, 1ª interpretação masculina e 2 Menções honrosas.
         Mas a sua acção na SIT não se resumiu ao teatro: de 1904 a 1942, funcionou na sua sede uma escola nocturna. Dessa escola e do teatro assim falou o tavaredense António da Silva Broeiro:
         “Eu sou o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro, ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-se a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado”.
         Através do teatro produziu JR , na sua linda Tavarede uma obra de mérito múltiplo:
         Educou os seus conterrâneos, criando-lhes o gosto pelo teatro sério de autores nacionais e universais;
         Escreveu peças de temática local, através das quais foi ensinando a história de Tavarede e consciencializando as pessoas para problemas locais (a situação da agricultura, a poluição do ribeiro, a urbanização da Quinta do Paço, a ruína do velho palácio, etc).
         A enciclopédia referida, fala-nos ainda de JR combatente em Moçambique. Vamos saltar essa folha da sua vida para dedicarmos algumas palavras a um incomensurável filão aurífero: a sua qualidade de cidadão altruísta, desdenhoso dos bens materiais.
         Esse homem que tantas vezes repetia Almeida Garrett a propósito de Manuel Fernandes Tomás “... e morreu pobre”, nunca correu atrás dos bens materiais, sempre se esforçando por ganhar o seu pão até ao fim do caminho. Após o 25 de Abril, numa entrevista que António Medina Júnior, director do “Jornal de Sintra” (e tavaredense) lhe fez para o seu jornal, quando lhe perguntou se ele e as demais vítimas do roubo da Tipografia Popular iam reivindicar os seus direitos, logo JR lhe respondeu “Eu não peço nada, não preciso de nada – nem dos mortos, nem dos vivos”.
         Não sendo católico, nunca se aproveitou do palco para atacar a Igreja. (Quantos dos nossos intelectuais teriam a mesma atitude?).
         António Vítor Guerra, que foi fervoroso católico praticante, escrevia em 2 de Agosto de 1973 (antes do 25 de Abril) no jornal “A Voz da Figueira”:
         “Sem embargo de divergências ideológicas, político-religiosas, prendem-me a José da Silva Ribeiro laços de particular afecto, cujas raízes aprumadas, são velhas de decénios. De resto, a sua vida, plena de virtudes humanas, quer no âmbito familiar, quer no sector público, espraia-se em miragens, stricto sensu que não deixam de impressionar quantos, vivamente, em convívio mais directo, íntimo ou social, haja de com ele contactar.
         Bem merece de todos, sem discrepância, este ilustre tavaredense.
         No meu caso, porém, acresce a circunstância de ser devedor a José da Silva Ribeiro, de um somatório de atenções e gentilezas, singularíssimas, que há muito me tornaram insolvente consigo, e bem assim os departamentos culturais da cidade, a que durante anos estive ligado e a que ele tem dado achegas de tomo”.

         Este é o meu modesto contributo para que José da Silva Ribeiro seja melhor conhecido e mostrar o meu reconhecimento a quem sempre me cumulou de gentilezas e me franqueou a sua biblioteca. (A.M.Gomes Gil)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete- 110

         Com o título ‘Postal de Parabéns’, um jornal figueirense referiu-se ao aniversário da colectividade e a Mestre José Ribeiro. A velha, prestimosa e consagrada Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 15 de Janeiro de 1904, ali à ilharga da nossa terra, comemorou o seu 80º aniversário.
         Como sempre de forma tão adequada como simpática.
         Mas neste caso de maneira excepcionalmente brilhante, por o número em que figurou a costumada apresentação de uma escolhida peça teatral ser este ano constituído pela exibição da peça inédita em 1 prólogo e 4 partes, intitulada “Na Feira de Gil Vicente”, adaptação de mestre José da Silva Ribeiro e de homenagem e evocação da obra genial do fundador do Teatro Português.
         Foi, pode dizer-se, o brilhante corolário de uma inigualável actividade cultural, através do teatro, da colectividade aniversariante e também de uma acção ímpar, sob diversos aspectos, dessa grande figura de tavaredense, teatrólogo e democrata que é José da Silva Ribeiro.
         Só o que este nosso ilustre conterrâneo tem dado a conhecer ao povo do concelho sobre figuras e episódios da história nacional e de maneira particular e a merecer menção de relevo e justíssimo louvor a respeito de Tavarede e da Figueira e sua evolução através dos tempos, desde os mais remotos até à actualidade, não pode de maneira alguma ser resumido nas colunas de qualquer periódico. Mas isso de forma nenhuma deve impedir-nos de aqui deixar registado um superficial esboço do que tem sido há dezasseis lustros a vida da colectividade aniversariante e há mais de 65 anos a extraordinária, persistente, benemérita e incomparável actuação dentro dela da personalidade de José da Silva Ribeiro, servindo-a com a mais inexcedível abnegação e verdadeiro espírito de sacrifício sob todos os aspectos que é possível, desde os cargos directivos aos de autor teatral e “alma mater” da sua famosa secção dramática. Cuja fama largamente ultrapassou os limites do distrito, espalhando-se por importantes cidades e terras do país que visitou por várias vezes e sempre deixando significativamente assinalados a sua intervenção e invulgar brilho e mérito desta.
         Para comprovar o que bastará, com certeza, registar certos factos que julgamos bastante elucidativos.
         A começar pelo de, após a brilhante carreira, com as suas múltiplas representações, nos vários palcos em que foram exibidas, das famosas peças “O Sonho do Cavador” e a “Cigarra e a Formiga”, das quais José da Silva Ribeiro foi o grande impulsionador e a que deu a mais operosa, destacada, importante e útil colaboração literária e teatral e depois de todo o grande esforço da sua montagem e encenação, ele jamais ter abandonado essa fase criadora de brilhante autor dramático. E, em virtude disso, ter escrito e feito representar esse belo rosário de inesquecíveis produções teatrais que começam em 1950 com “Chá de Limonete” (3 actos e 24 quadros) e continuam com “Terra do Limonete”, em 1961, “Camões e os Lusíadas” (1972), “Mesa Redonda” (1975), “Ontem, Hoje e Amanhã” (1979), “Ecos da Terra do Limonete” (1981), “Viagem na Nossa Terra (“Da folha de uma figueira à folha de uma videira”) (1982) e este ano “Na Feira de Gil Vicente”.
         Uma destacada obra cultural a que não podem deixar ainda de associar-se, porém, coisas tão significativas como: uma famosa “Campanha Vicentina”, que levou a obra genial ao povo das nossas aldeias concelhias; as notáveis “Comemorações do Centenário de Garrett”, representando “Frei Luis de Sousa”, para além do nosso concelho, em Coimbra, Leiria, Tomar, Pombal, Alcobaça, Sintra, Soure, Marinha Grande e Condeixa; as comemorações do “Centenário de Marcelino Mesquita”, com a representação de “Peraltas e Sécias”; do “Centenário da Morte de D. João da Câmara”, levando à cena a sua famosa peça “Os Velhos” e do “V Centenário da Morte do Infante D. Henrique”, com a representação de “O Beijo do Infante”, do mesmo autor da peça anterior.
         Para não deixar de fazer ainda referência à preciosa intervenção de José da Silva Ribeiro e da Sociedade de Instrução Tavaredense, no “IV Centenário de Shakespeare”, no “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente” e “IV Centenário da Publicação dos Lusíadas”, no qual foi levado à cena o “Auto de El-Rei Seleuco” e uma evocação escrita propositadamente para o efeito. 
         O que tudo torna sumamente merecedora deste postal de efusivos parabéns a colectividade aniversariante e José da Silva Ribeiro, digno de todos os louvores que seja possível endereçar-lhe nesta ocasião festiva e bem merece pelos seus mais de 65 anos consecutivos de serviços ao teatro e à cultura, com a isenção, talento, amor e inteligência que os tornam excepcionais, como ainda pelas qualidades morais e cívicas que lhes emprestam adequada moldura e dão ainda maior relevo e projecção.

         E com a maior satisfação, referimos que o Grupo, apesar das obras ainda não estarem concluidas, fez a pré-inauguração da sua nova sede. Embora com as instalações da nova sede social do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense ainda inacabadas, pois que as mesmas exigem um enorme dispêndio de energias e verbas, a que se não pode fazer face tão rapidamente quanto desejável, entenderam a Direcção e os elementos que compõem desde a primeira hora a Comissão de Apoio, denominada Comissão de Obras, dar um maior impulso no acabamento do piso superior da referida sede, a fim de poder presentear os associados com o Folar da Páscoa, proporcionando-lhes um ambiente há já largos anos arredio dos mesmos, na medida em que no velho Palácio de Tavarede, onde se situavam as suas instalações desde 1936, representando para os seus sócios apenas um velho passado glorioso, sem qualquer ambiente que pudesse vir a ser favorável aos seus descendentes, nomeadamente cultura e música, que foram acabando com falta de instalações condignas, assim como meios humanos e materiais, que logicamente se deterioraram com o ambiente pouco condigno que se foi arrastando pelos tempos.
         Pelo que acima foi dito, foi determinado o dia 8/4/84 (domingo) para a pré-inauguração, fazendo-se a mesma sem qualquer cerimonial protocolar, ficando a verdadeira inauguração para data oportuna, prevendo-se que a mesma se venha a verificar a curto prazo.
         Na referida inauguração viram-se alguns elementos de preponderância no arranque e efectivação da obra em curso e prestes a dar-se por concluída, pese embora as dificuldades financeiras com que terão de passar esta Direcção, assim como as que possam vir a seguir, pois trata-se de uma obra que à altura do seu arranque estava estimada em 6.000 contos.
         Também se notaram as presenças dos srs. pároco da freguesia, presidente e secretário da Junta de Freguesia, Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense, fazendo-se acompanhar do estandarte daquela tão prestimosa colectividade, e presidente da Direcção da Casa do Povo, que é simultaneamente presidente da Assembleia Geral do GMIT.

         Eram 15 horas quando o sr. Flaviano Pinto de Sousa, presidente da Assembleia Geral do GMIT, fez entrega das chaves ao sócio nº 1, sr. Alberto Ferrão, para que fosse este a abrir as instalações do Grupo, verificando-se de imediato a entrada. Foi um momento feliz para aqueles que mais de perto têm sentido a evolução dos acontecimentos e também para o que desejavam há já largas dezenas de anos ver a sua sede própria, o que só agora se está a tornar realidade.
         Entraram lado a lado os estandartes da Sociedade de Instrução Tavaredense e do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, empunhados pelos seus representantes, e de seguida todos os presentes, ficando na sua maioria com óptima impressão do que acabavam de ver: bar, sala de estar com televisão, etc., passando de imediato a ter a sua acção estas secções, onde os grupistas, familiares e amigos podem a partir de agora ter o seu convívio de amizade.
         Quando da inauguração oficial, que se deseja seja tão rápida quanto possível, dar-se-ão mais pormenores acerca daquele importante melhoramento.

         Na sessão solene comemorativa do 82º aniversário da SIT ... e com a maior comoção, a plateia ouviu a palavra ainda fluente de José Ribeiro, que falou da sua terra e das suas gentes. Foi a última sessão que teve a sua presença. Entretanto, e sob a orientação do amador João de Oliveira Júnior, que havia assumido o dificil cargo de director cénico, foi reposta em cena a célebre fantasia Chá de Limonete.

         O Grupo, entretanto, festejou as suas Bodas de Diamante. O programa elaborado para comemorar os 75 anos de vida do Grupo Musical Tavaredense foi por este jornal publicado em devido tempo.
         Dele podemos destacar a sessão solene (porventura o ponto mais alto das comemorações), levada a cabo pelas 17 horas do dia 17, a qual foi presidida por Carlos Alberto Pedro Coelho, na qualidade de presidente da Junta de Freguesia da terra do limonete.
         No acto, evocado com o descerramento de uma lápida que assinala a efeméride, usou da palavra o presidente da colectividade em festa Álvaro Jorge Marques, o presidente da Assembleia Geral, Flaviano Pinto de Sousa, o padre Matos, pároco da freguesia e, por último, o presidente da mesa da sessão.

         Para complementar esta evocação, realizou-se ainda um espectáculo artístico-cultural, no qual participaram a Tuna do Grupo de Tavarede, o grupo coral e a banda ligeira da Sociedade Boa União Alhadense.

Histórias e Lendas -15

Capelas em Tavarede
Apontamentos diversos

         No jornal ‘A Voz da Figueira’, em Setembro de 1975, julgamos da autoria do saudoso professor António Vítor Guerra, estão publicados os principais elementos sobre as capelas que existiram em Tavarede. Vamos, agora, copiar essas notas, que antecederão um apontamento nosso mais pormenorizado sobre o recolhimento da quinta da Esperança.

 CAPELA E CONVENTO DA ESPERANÇA -    Foi D. Caetana Migueis, casada, em 2ªs. núpcias com o italiano Francisco António Rossani, sargento-mór de Montemor-o-Velho, falecido em 1677, quem fundou este Recolhimento, chamando-o de Nª. Sª. da Esperança, em memória da filha que, com este nome, lhe morreu do 1º. matrimónio, e ali instituiu Capela.
            Foram muitas as eventualidades desta pia instituição, como no-las referem Santos Rocha, op. Cit., p. 123 e José Jardim, in “Alfândegas, Fidalgas Figueirenses de Outrora”, 1915, p. 175.
            Situava-se o Convento da Esperança, relata-nos aquele historiógrafo local, a um quilómetro, aproximadamente, para N. de Santo António, no alto de S. João, pelo nascente da estrada que da Figueira nos leva a Tavarede – Estrada Municipal nº. 596.
            Do edifício conventual (em 1758 diz-nos o cura de Tavarede, padre Anacleto da Cruz, nas “Memórias Paroquiais”, ainda lá viviam 22 “recolhidas”) somente restam, hoje, inexpressivas ruínas: - os sólidos muros da cerca construídos, em 1746, que no sentido N-S se desenvolvem, perpendicularmente, à Azinhaga da Esperança, e onde, na face interna, junto à porta de acesso do lado E, se vê uma pequena cruz de pedra, assente sobre um azulejo: uma parede que, ainda, se ergue dos escombros, com nítidos vestígios do azulejario que revestia a capela, do que, aliás, nos dá conta Santos Rocha, in op.cit., p. 124, “sinais” de algumas antigas janelas; um pequeno nicho; a fonte, marcadamente fradesca, e... pouco mais.
            A “Quinta da Esperança”, ora assim chamada, local deveras aprazível, pertence aos herdeiros do benquisto tavaredense Dr. Manuel Gomes Cruz, falecido em 8 de Fevereiro de 1943.

CAPELA DE S. JOÃO BAPTISTA - Integrada, na Quinta do mesmo nome, ao Alto de S. João, hoje Quinta de Santa Maria, foi instituída por João de Quadros, clérigo, mas dela nada resta.

            Entre os vários proprietários da referida Quinta, permitimo-nos destacar Duarte Backer, António Lemos, Paulo Correia de Lacerda, funcionário superior da Alfândega do Porto e, ao presente, Luís Viegas do Nascimento, mui competente arquitecto-naval dos Estaleiros Navais do Mondego.

CAPELA DO SENHOR DA ARIEIRA OU DO SENHOR DOS MILAGRES -           Situava-se aos “quatro caminhos”, na referida Estrada Municipal nº. 596. No Museu da cidade guarda-se um fragmento de azulejo, com pintura (Séc. XVIII), proveniente desta Capela, e que as “Informações Paroquiais” de 1721 aludem, apresentando-a como “Um Nicho com o Senhor Crucificado, que tem obrado muitos milagres; “E vai obrando; suando a sua sancta imagem, e a coluna em que está posto, como se tem visto certos dias”.

            A Comissão Paroquial desta freguesia ofereceu, à Câmara Municipal o terreno onde estava implantada a Capela, e adjacentes, para um mercado semanal de suínos, o que foi aceite, como consta da acta da respectiva sessão, de 12 de Março de 1913.

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO -           Na Quinta do mesmo nome – residência de Monsenhor Cónego José Duarte Dias de Andrade, falecido com 93 anos, em 6 de Maio de 1957, que, como protonotário apostólico “ad instar”, tinha o privilégio de fruir altar doméstico. Sacerdote dos mais cultos com quem tivemos a dita de privar, de palavra fluente e erudita, foi também “astro de primeira grandeza”, no magistério de Matemática, Literatura, Sociologia, Teologia e História da Igreja, cujo perfil foi magistralmente feito in “A Voz da Figueira”, de 23 de Maio de 1957, por outro saudoso amigo, Dr. Júlio Gonçalves.

            Situa-se a Quinta de Santo António a O. da Quinta da Burlateira (1) e a N. da Estrada Municipal nº. 597 – Tavarede a Buarcos.
(1)   Em documento coevo de D. Afonso Henriques (1181) surge-nos, in “illo loco”, o topónimo “Val’Arteira”; numa escritura de troca – (1778) aparece-nos a expressão Fazenda da “Burlateira”, e hoje, no “falar” do povo e nos livros da especialidade, v.g. “Corografia Moderna do Reino de Portugal” por João Maria Baptista, 1875, vol. III, e no “Dicionário Corográfico de Portugal Continental”, de Américo Costa, 1932, vol. III, regista-se a “Quinta da Burlateira”, evolução gráfica foneticamente explicável.

CAPELA E PAÇO DE TAVAREDE - A história deste Solar e dos seus “Senhores feudais”, “seus usos e costumes”, está feita (ver “Gazeta da Figueira” 1887, ano I, nº. 17, e Rocha Madahil, op. Cit.)

            O Palácio quinhentista dos Quadros com “história de pasmar” lá está ainda, mas miseravelmente degradado, com vergonhosas mutilações e reparações imbecis, servindo-nos das expressões do saudoso Cardoso Marta, palácio de que o Mestre de Teatro e bom Amigo, José Ribeiro, nos dá um auto-retrato no seu saboroso “Chá de Limonete”:
            “Quatro séc’los me pesam sobre os ombros!
            E nesses longos anos vi grandezas,
            Vi ruir opulências em escombros,
            Vaidades, alegrias e tristezas...
                                   ...........
            Que resta do que fui?... Ai! Triste sina
            A do Solar que é hoje um mutilado.
            Mendigo, esfarrapado, uma ruína,
            Horroroso fantasma do passado!...”
            Quanto à Capela, propriamente dita, sabemos que erecta por Bulla de Roma, esclarecem-nos as “Informações Paroquiais” de 1721, além das referências que encontrámos a alguns dos seus capelães, dos quais o Padre Manuel Gonçalves, de sombria memória...

CAPELA DE JOÃO ANSELMO -             Integrada na Quinta de João Anselmo da Silva Soares, sita no caminho da Várzea, a seguir à Fonte de Tavarede. Esta propriedade, em 1937, encontrava-se, assim, descrita, na Matriz rústica da freguesia, sob o artº. 1461: “terra de semeadura, eira e casa de habitação, confrontando do N. O. com caminho, do S. com herdeiros de José António Loureiro e do E. com Vala da Azenha”.

            Desmoronada esta Capela, a alvenaria foi aplicada na capela mortuária erecta, no Cemitério Ocidental da nossa cidade (a primeira, à esquerda de quem entra pelo portão principal), por Ludovina Augusta Ferreira da Silva Soares “à saudosa e grata memória do seu idolatrado esposo, João Anselmo da Silva Soares, falecido em 1 de Setembro de 1868, aos 59 anos de idade”, sem filhos nem os necessários herdeiros, como se lê no seu testamento de 24 de Novembro de 1856, constante do Livro de Registo de Testamentos nº. 12, fls. 15, referente ao ano de 1868. Era este João Anselmo, figueirense, como seu pai, João da Silva Soares de Menezes, clínico de nomeada, ao tempo, falecido em 9 de Abril de 1844, na sua residência, na Rua Formosa, hoje de Fernandes Coelho, onde, também, veio a falecer o referido João Anselmo, segundo nos relata José Jardim, in “As Alfândegas” atrás citada.
            Foi o Dr. José Pedro Dias Junior, advogado e notário, em Leiria, o herdeiro, por parte da viúva do João Anselmo, das propriedades referidas, tendo oferecido ao Museu local algumas das cariátides da Capela de que nos ocupamos.
            Antes desta, porém, outra existira na dita “Quinta da Fonte” (1754) “como huma morada de casas de sobrado, pertencente a António José de Saldanha de Aveyro”, a qual, lhe demoliu, “tirânica” e “despoticamente”, Fernando Gomes de Quadros, 8º. Senhor de Tavarede.

CAPELA DE SANTO ALEIXO - Dentro do povoado, a caminho dos Canos, hoje transformada em Salão Paroquial. “Hé muto antigua, que se lhe não sabe principio. E tem hum hospital para agasalhar os peregrinos e pobres, que he do Povo” diz-nos as “Informações Paroquiais” de 1721.

            O patrono, bela escultura renascentista em pedra, encontra-se depositada no Museu Municipal.

CAPELA DO SENHOR DA CHÃ - No ângulo NE dos quatro caminhos, na Estrada de Mira – estrada Nacional nº. 109 – à Chã. Chama-lhe as “Informações Paroquiais” de 1721, a Capela do Senhor Crucificado, esclarecendo que foi feita por Frz Arnaut e sua mulher Catherina Frz. Não teria mais de 4x2 m. e já se encontrava quase destroçada em 1864, segundo notícia inserta in “Gazeta da Figueira”, de 18 de Abril de 1896.(está 1986).

            A imagem, de grande veneração, foi transferida, procissionalmente, aquando da eminente derrocada da capela, para a Matriz de Tavarede, onde se encontra. (A Voz da Figueira)

CAPELA DA CASA DA MÃE - No Pavilhão Sul do antigo Colégio Liceu Figueirense, frente à Estrada Municipal nº. 596, limite N. da freguesia de S. Julião, o qual, depois, serviu de Hospital Militar, e hoje é a Casa da Mãe, foi erecta uma capela em 1947 pelo presidente da Junta Distrital de Coimbra, Prof. Doutor Bissaia Barreto, falecido em Setembro de 1974, responsável por aquela Maternidade. É de salientar o lindo retábulo de talha dourada (Séc. XVII) de expressiva simbologia mariana, para ali transferida duma outra capela particular, de algures, da Beira Alta.


CAPELA DO COLÉGIO-LICEU FIGUEIRENSE - Propriedade e iniciativa do Doutor José Luís Mendes Pinheiro, onde está instalado, desde 1936, o Seminário da Imaculada Conceição. Primitivamente, tratava-se de um pequeno oratório, erecto no Pavilhão do lado N. Mons. José Duarte Dias de Andrade, ao tempo director do Colégio, reconhecendo ser esse oratório de reduzida área, para os exercícios cultuais, transformou em capela uma das salas, que inaugurou, com a presença do Prelado da Diocese, D. Manuel Luís Coelho da Silva, em 1933, no Pavilhão, à direita de quem entra pelo portão mais próximo da Azinhaga da Esperança.

            Mais tarde, o culto sacerdote, Mons. Tomás Francisco Póvoas, Reitor do Seminário, desde o seu início, fixou-a no Pavilhão Central (em 1936-37, a frequência era de 70 seminaristas) onde ainda se encontra.
            O risco e a execução do altar é do sacerdote – santo e artista – que foi o cónego Manuel Fernandes Nogueira, sendo a despesa custeada por D. Maria Guilhermina Meireles Sarafana (Tinalhas).
            Importa, neste passo, dar a conhecer a existência, ali, da capela particular de S. E. Rev. o Bispo de Coimbra, anexa aos seus aposentos, no Pavilhão E, cujo altar foi oferecido pelos herdeiros do Dr. João Macedo Santos, da última capela erecta na Casa do Paço da Figueira, de que foram os penúltimos proprietários. O imóvel pertence, hoje, ao sr. Reinaldo Marques Pedrosa que, na sua conservação e consolidação, tem investido largos capitais, sem embargo do auxílio do Estado, dado tratar-se dum imóvel de interesse público.. (A Voz da Figueira)

CAPELA DOS CARRITOS . Sob a invocação de Santo António, ali se encontra erecta, à beira da estrada Nacional nº. 111. Foi o padre José Martins da Cruz Diniz, vigário de Tavarede, de Dezembro de 1928 a Setembro de 1935, quem deu início, por subscrição pública, à construção da capela, concluída muito mais tarde e inaugurada, solenemente, em 19 de Junho de 1964. A tal propósito, extractamos do “Lume Novo”, Tavarede, nº. 6, de 29.8.934: “Foi já oficialmente tratada, em Coimbra, com o Ex.mo Prelado da Diocese, a construção da Capela dos Carritos. A planta, generosa e gentilmente oferecida pelo sr. António Piedade, vai começar a ser executada dentro em breve”.


CAPELA DE SÃO PAIO - Está integrada na Quinta do Praso – Vale de São Paio – ao Saltadouro. Cerca de 2 quilómetros a montante de Tavarede, e a 1 do lado nascente da povoação da Serra da Boa Viagem, encontrava-se, em 1932, assim descrita, na matriz urbana da freguesia de Tavarede, sob o artº. 405, em nome de Maria do Sacramento Monteiro: “uma capela particular, construída de pedra e cal, coberta de telha portuguesa; confronta do N.S.O.E. com pinhais da própria; tem de superfície coberta 14 m2 e de rendimento líquido, 18$00!”.

            Fora a quinta adquirida, há largos anos, por Caetano Gaspar Pestana, casado com Maria da Conceição da Silva Pestana, avós paternos das Senhoras Pestanas. Encontrou este a capelinha em ruínas, e mutilada a imagem do patrono, e logo procedeu ao seu restauro, trabalho de que se encarregou, com mestria, o hábil artista-estucador, natural de Afife, Domingos Rodrigues Ennes Ramos, aqui radicado.
            Tempo depois, Caetano Pestana, que viria a falecer em 25 de Agosto de 1883, com 63 anos, incompletos, vendia a “Quinta do Praso” à família de Monteiro de Sousa, que ainda a detém, e com ela a capelinha.
            É neste Vale de São Paio que existe a famosa nascente “Olho de Perdiz”, donde, durante anos e até ao verão de 1927, a nossa cidade foi abastecida de água potável, exploração feita até 1924 pela “The Anglo-Portuguese Gas and Water Cº. Ltd.”, com sede em Londres, de que era gerente, entre nós, o engº. Walter R. Jones, que ainda conhecemos.